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Delito de Opinião

O século da prosperidade e da paz

Luís Naves, 05.03.25

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Escrevi este texto em fevereiro de 2024. Confirma-se tudo, a destruição da Ucrânia, a vitória russa, a fraqueza europeia. Esta guerra foi péssima para toda a gente e, agora, que está à beira do fim, há quem não se conforme: os ucranianos devem continuar a morrer pelas nossas liberdades. A Rússia foi subestimada, fomos enganados, não haverá segurança europeia sem se falar com Moscovo, mas a narrativa dominante não mudou: é preciso excluir a Rússia, recusar qualquer compromisso, continuar a escavar o buraco.

Infelizmente, os cemitérios estão agora muito mais cheios do que em fevereiro de 2024; também acabaram algumas carreiras políticas. Ninguém em seu perfeito juízo admite agora que a Ucrânia possa vencer o conflito. Recomenda o bom-senso que haja uma negociação com o outro lado, para salvar o que ainda se possa salvar. Sabemos que um acordo estará iminente e que será pior do que em abril de 22 (lembram-se de Boris Johnson?), mas os políticos europeus continuam a dizer que a paz é o horror.

Estamos a testemunhar uma transformação histórica, daquelas mesmo raras, que criam ruturas. Se as grandes potências se entenderem nos próximos meses, poderemos ter uma ordem internacional estável, com paz durante décadas, como a que foi criada no Congresso de Viena, em 1815. Os conflitos europeus limitados permitiram cem anos de grande progresso social, económico e científico. Temos hoje a noção de que o século XIX foi extraordinário para a humanidade. A paz na Ucrânia pode levar-nos a um desenvolvimento semelhante: estamos à beira de uma revolução tecnológica, ou já dentro dela, podemos também ter a prosperidade de um mundo pacificado. Isto não faz sentido para muitos leitores deste blogue? O que escrevi no ano passado também não fazia sentido e, no entanto, não apetece mudar uma vírgula.

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O concurso de insultos

Luís Naves, 20.02.25

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O encontro de Riade entre delegações diplomáticas dos Estados Unidos e da Rússia provocou um incêndio nas redes sociais e na Imprensa, com as opiniões quase consensuais de traição à Europa, novo acordo de Munique ou morte da democracia liberal. Não me lembro de ver coisa semelhante, embora ainda me recorde vagamente da hostilidade com que Ronald Reagan foi recebido na Europa da época (em Portugal, o concurso de insultos foi uma festa e dava direito a medalhas).

O regresso de relações diplomáticas normais entre as super-potências, após três anos de corte quase total, deveria ter provocado uma sensação de alívio, mas causou um pânico histérico. A hipótese de paz é considerada uma ameaça à nossa segurança, a continuação da guerra vista como virtuosa. Neste mundo ao contrário, as pessoas esquecem que as iniciativas de negociação começam sempre desta forma e que os dois países não estão apenas a discutir a Ucrânia.

Acho espantoso que haja dirigentes europeus a tentar "travar" o processo de aproximação entre russos e americanos (a expressão era usada num artigo do Le Figaro sobre Macron) ou até antigos líderes que procuram manhosamente torpedear a iniciativa (refiro-me ao inexcedível Boris Johnson, que recomenda confiscar o dinheiro russo). Tudo isto se baseia no horror patológico ao presidente americano. Não se encontra uma única declaração de responsáveis europeus a referir que Donald Trump está a cumprir as promessas eleitorais que fez. Pelo contrário, assistimos a uma espécie de reality show, para ver qual o líder que consegue dizer as piores coisas sobre Trump.

Esta Europa burocrática e dividida está em rota de colisão com a América e a reação desproporcionada só acelera o conflito. Convém lembrar que a UE cortou quase totalmente a relação com a Rússia, onde comprava energia barata e minerais, tendo agora graves limitações na sua indústria. Bruxelas também iniciou um conflito comercial com a China, pelo que os Estados Unidos são o último grande bloco político e económico com quem falta andar à estalada.

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A paz ou a guerra eterna

Luís Naves, 18.02.25

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Alarmados por serem excluídos das negociações entre EUA e Rússia que decorrem na Arábia Saudita, alguns líderes europeus organizaram ontem uma cimeira quer excluiu vinte países europeus. Deu em nada e foi embaraçoso, a revelar o estado a que isto chegou. Com a guerra perdida na Ucrânia, a UE não tem maneira de explicar o dinheiro que gastou neste conflito (150 mil milhões de euros, mais o apoio aos refugiados), a falta de munições, o endeusamento de dirigentes ucranianos que nos nossos países seriam considerados radicais de extrema-direita, mais a corrupção generalizada e a destruição brutal de um país que teve nestes três anos pelo menos duas boas oportunidades para um acordo vantajoso com a Rússia. Trump está a tentar recompor as relações com Moscovo, seguindo as recomendações de Kissinger: o sistema tem três potências (EUA, China e Rússia), a mais forte junta-se à terceira contra a segunda; o que Biden fez foi a maior burrice estratégica da história americana, atirando o número três para os braços do número dois, o que criou o desequilíbrio de um bloco perigoso. Convinha tentar perceber o que se está a passar. Esta é a terceira oportunidade de paz para um conflito de três anos, e pode acabar com aquilo que na verdade é uma guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, com a Ucrânia como peão e vítima, a Europa como idiota útil; se as negociações de paz falharem, a guerra continua, a Ucrânia será totalmente destruída, os russos irão até Kiev e vão morrer centenas de milhares de pessoas que podiam ficar vivas.

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O partido da guerra não desiste

Luís Naves, 17.02.25

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Não compreendo o partido da guerra. Após três anos de combates, a Ucrânia está de rastos, sem recursos ou soldados, perdeu um quinto do território e centenas de milhares de homens, mas há quem ache que a tragédia tem de continuar. Um quarto da população emigrou ou vive na zona ocupada pelos russos, houve deserções em massa, a infraestrutura foi arrasada e os custos da reconstrução serão imensos. A Rússia ficou mais forte e a Ucrânia perdeu a sua muito frágil democracia: foram impostas limitações à liberdade política e religiosa, acentuaram-se as perseguições linguísticas e o presidente não tem legitimidade. Esta é a situação, não houve rendição russa, como previam os otimistas, mas há políticos europeus que querem continuar o conflito. Não se entende: derrotar a Rússia é uma fantasia, continuar a luta implica destruição do que resta da Ucrânia e, de qualquer forma, não há munições nem dinheiro ou militares disponíveis para morrer. Prosseguir a matança tem elevados riscos económicos e pode até provocar um conflito nuclear que transforme todo o continente num novo campo de ruínas. Até agora, quem defendesse uma negociação de paz era considerado traidor, até o Vaticano, afinal era bom senso. A estratégia de sangrar a Rússia virou-se contra o ocidente, mas o partido da guerra não desiste, a ponto de querer agora sangrar a Europa.

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Não há dinheiro

Luís Naves, 10.02.25

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Diz-se que Elon Musk tem demasiado poder e não foi eleito. Ursula von der Leyen foi eleita? Para além da derrota na Guerra da Ucrânia e da iminência de um conflito comercial com os Estados Unidos, a presidente da comissão enfrenta um problema evidente: não tem dinheiro para pagar a retórica. O relatório Draghi recomenda investimentos de 750 mil milhões de euros em dez anos para financiar a reindustrialização da Europa, que tem de recuperar competitividade em relação aos rivais América e China. Um novo PRR, presumivelmente pago com empréstimos. Outros europeus não-eleitos vão dizendo que é preciso reforçar a defesa e seria conveniente arranjar nos mercados 750 mil milhões de euros para comprar armamento durante uma década, a juntar ao que já se gasta (a fatura anual dos países europeus da NATO ronda os 400 mil milhões). Finalmente, com o fim da guerra da Ucrânia, será preciso reconstruir o que restar daquele país, o que vai exigir mais 750 mil milhões em dez anos, outro PRR. Os valores somados dão uma conta calada de 2250 mil milhões de euros, uma vez e meia o orçamento da UE em dez anos. Como é que isto se paga? Com saúde, com educação, com dívida? E quem é que vota nisso?

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Segunda edição

Luís Naves, 07.02.25

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No orçamento americano para 2025 estavam inscritos 268 milhões de dólares para apoiar "meios de comunicação independentes e a livre circulação de informação". Em 2023, números oficiais, a agência USAID formou e financiou 6200 jornalistas, deu dinheiro a 707 órgãos de comunicação e 279 organizações da sociedade civil que suportavam o "jornalismo independente", isto em 30 países. O presidente Trump escreveu num post da sua rede social que o jornal online Politico recebeu 8 milhões de dólares. Estamos a falar sobretudo de jornais de oposição nos seus países, críticos de governos que Washington considerava hostis, ou de jornais favoráveis à estratégia americana, como era o caso da Ucrânia, onde nove em cada dez órgãos de comunicação tinham a USAID como principal fonte de subsídios. Estes factos agora são conhecidos, após a administração Trump ter decidido encerrar a USAID, sendo provável que o assunto provoque um enorme escândalo na América. Em Portugal, isto ainda não é notícia, embora confirme as acusações que, ao longo de décadas, ouvimos a críticos dos EUA: A USAID ajudava a financiar operações da CIA e Washington influenciava eleições e derrubava governos. A esquerda que dizia estas coisas está agora indignada com Trump, por demonstrar que a teoria da conspiração era parcialmente verdade. O mundo dá muitas voltas.

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Tarifas

Luís Naves, 03.02.25

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Os comentadores olham para a ameaça americana de impor tarifas aduaneiras sobre produtos europeus como uma loucura de Donald Trump. Ninguém procura explicar os motivos da estratégia e, sobretudo, não se mencionam as vulnerabilidades europeias. O objetivo do presidente americano é reduzir o défice comercial com a UE, de 213 mil milhões de dólares em 2024, reindustrializar a América e aumentar as exportações para a Europa. Para se ter uma noção, os EUA exportaram em 2024, para a União Europeia, produtos no valor de 341,9 mil milhões de dólares, tendo importado da UE 555,6 mil milhões de dólares.

O problema europeu é mais visível quando se olha para os produtos deste comércio. Os países da UE vendem mercadorias diversificadas, sobretudo medicamentos, veículos, máquinas, química, plásticos, bebidas, papel, entre muitos outros. Os americanos são fortes na exportação de energia, petróleo ou gás natural, pois os europeus substituíram a sua dependência da Rússia por um forte aumento das compras de energia cara aos americanos. Como é que se impõe uma tarifa sobre importações de petróleo? Não é possível. Deixa-se de comprar? Isso é música celestial. A guerra comercial será por isso resolvida depressa, com expansão das fábricas de automóveis que os europeus têm na América e a promessa de compra de mais armas americanas, já que pelo menos dois terços do armamento que os europeus adquirem são fabricados do outro lado do Atlântico.

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Algumas perguntas desalinhadas

Luís Naves, 23.01.25

Ao longo dos últimos trinta anos ocorreu um sistemático subfinanciamento das forças armadas. Portugal nem sequer cumpre o compromisso assumido pela NATO em 2014 de gastar 2% do PIB em defesa. Na Europa, os principais exércitos foram reduzidos ao osso. Visto de outra maneira, segundo números da própria NATO, os países da UE gastaram em defesa 370 mil milhões de dólares em 2024, tendo a aliança orçamentado 1474 mil milhões de dólares, quantia difícil de imaginar, de quase bilião e meio, seis vezes o PIB português. Os contribuintes americanos pagam o grosso da fatia.
A NATO gasta dez vezes mais do que a Rússia, país em guerra com um orçamento de defesa equivalente a 140 mil milhões de dólares. Os países da UE, isolados, têm uma despesa duas vezes e meia superior à da Rússia; se juntarmos o Reino Unido, dá uma fatura acima daquilo que gasta anualmente a China (292 mil milhões), que é considerada um colosso militar.
Estes são os factos, mas todos os dias lemos declarações de dirigentes europeus a preverem catástrofes: ou gastamos mais ou teremos de aprender russo. A retórica é incompreensível. Para onde foi o nosso dinheiro? Além disso, fala-se cada vez mais num hipotético exército europeu, mas todos os líderes sabem que isso é uma fantasia. Quem fazia o comando político de tal força? A Comissão Europeia não eleita, chefiada por Ursula von der Leyen, que para poupar dinheiro desmantelou as divisões mecanizadas alemãs? E o exército nacional, o que lhe acontece?
Em resumo, para atingir a próxima meta da NATO, no mínimo 3% do PIB, Portugal terá de gastar em defesa o dobro do dinheiro que gasta atualmente e as lições da guerra da Ucrânia implicam que a Europa vai comprar armas americanas para equilibrar a balança comercial com os EUA. Qual é o objetivo? A reindustrialização do ocidente? A criação de um bloco militar ofensivo? Serve para convencer a opinião pública?

Houve duas oportunidades para a paz

Luís Naves, 20.01.25

Escrevia anteontem o bem informado New York Times que o líder da diplomacia americana, Antony Blinken, rejeitou no final de 2022 a sugestão do então chefe do estado-maior, general Mark Milley, de ser proposta uma negociação de paz com a Rússia num momento em que o exército ucraniano estava em situação relativamente favorável no campo de batalha. A opinião de Blinken venceu a do Pentágono e a guerra da Ucrânia continuou.
Meses antes, em abril de 2022, quando o conflito levava semanas, houve uma negociação em Istambul entre russos e ucranianos, com o documento já finalizado e uma reunião prevista entre Putin e Zelensky. A Ucrânia aceitava a neutralidade e perdia a Crimeia. Faltavam as assinaturas, mas em visita relâmpago a Kiev, o PM britânico, Boris Johnson, convenceu os ucranianos a prosseguirem a guerra. Teriam o apoio incondicional dos EUA e da Europa.
Sabemos agora que houve duas oportunidades para acabar com a guerra da Ucrânia. Também sabemos que, centenas de milhares de mortos depois, Kiev teve um resultado péssimo. O país está de rastos, com a infraestrutura destruída, e não escapará a perdas territoriais e, na melhor das hipóteses, ao estatuto de neutralidade. Apesar dos noticiários enganadores, no campo de batalha a situação é muito difícil para o exército ucraniano, que estará perto do colapso: não há recrutas nem munições; as unidades da frente estão a recuar em muitos setores ou arriscam-se a perigosos cercos; as deserções e baixas em combate contam-se em larga escala.
Os países ocidentais gastaram mais de 450 mil milhões de dólares, forneceram armas e treino militar, arriscaram a III Guerra Mundial, forneceram as receitas do Estado, pagaram os salários e fecharam os olhos a abusos graves, como repressão religiosa, corrupção, proibição de partidos. A estratégia ocidental falhou de maneira evidente. A ideia era partir o império russo em pedaços e gerir os países resultantes. Seria um dos maiores triunfos geopolíticos da História, mas revelou-se um perfeito disparate. A Rússia foi subestimada, tornou-se mais forte, juntou-se à China, numa aliança de que ouviremos falar muitas vezes nas próximas décadas.
Após a paz, a Ucrânia será um país sem qualquer soberania ou até um Estado falhado e caótico, com um quinto do território ocupado pela Rússia (habitado por russófonos) e o resto inviável, dependente dos subsídios ocidentais e com uma crise demográfica sem paralelo. A Ucrânia "independente" terá menos de 30 milhões de pessoas (tinha 51 milhões em 1991). Será um país pobre, com elevada proporção de órfãos e viúvas. Integração europeia? Isso levará pelo menos uma geração.
A Europa é o outro grande derrotado deste conflito, pois perdeu acesso às matérias-primas baratas da Rússia. A indústria europeia usa energia cara e deixou de ser competitiva. A UE terá de gastar fortunas na sua defesa e na reconstrução da Ucrânia. Dinheiro emprestado, naturalmente, que as gerações futuras vão pagar. Países como Portugal terão de mudar de vida, pois perdem os generosos subsídios europeus.

O novo ciclo

Luís Naves, 19.01.25

A tomada de posse do novo presidente americano, amanhã, pode tornar-se o momento simbólico do fim da ordem internacional que começou com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Nos próximos trinta anos, veremos o regresso dos impérios e do mundo multipolar, com Rússia e China a formarem um bloco quase tão poderoso como o americano. No ciclo de 36 anos que agora acaba, tivemos migrações, desigualdades, dívida, Estados falhados e a criação de novas oligarquias financeiras; no futuro, vamos provavelmente assistir a mais nacionalismo, recuo da globalização e substituição das elites políticas. Neste último ponto, a Europa é o laboratório: as atuais chefias vão ser trocadas por governantes que os novos senhores de Washington possam aceitar. Centristas e progressistas incapazes de trabalhar com Donald Trump darão o seu lugar a conservadores menos favoráveis a migrações em larga escala. Muitos interesses já se estão a adaptar à nova situação, que não será nenhuma revolução ideológica, como pretendia a fação extrema do movimento que elegeu Trump. Nos próximos trinta anos, haverá menos guerras e menos comércio, relações mais pragmáticas entre as potências e um grande projeto heróico de ir a Marte, idêntico à corrida da Antárctida no início do século XX. Até meados do século, vamos ouvir falar menos vezes em alterações climáticas ou direitos das minorias. A nova ordem inclui a contestação do controlo burocrático sobre os eleitos e a redução da capacidade de impor limitações à liberdade de expressão em nome da democracia.

Um erro grave

Luís Naves, 17.01.25

Em 2013, havia 4260 freguesias em Portugal, muitas delas com escassas centenas de habitantes. Este poder autárquico ineficaz custava imenso dinheiro e envolvia cargos políticos desnecessários. Sob pressão da troika foi feita uma reforma administrativa e esta foi contestada pelos pequenos interesses e pelos meios de comunicação que detestavam o governo da época. O número de freguesias baixou para 3092, ainda eram muitas, mas a vida das populações melhorou nos locais onde houve fusões. Esta boa reforma vai agora andar para trás, sem estudos nem motivo, com decisão do parlamento e a criação de mais 303 freguesias inúteis. É um erro político grave. Das 124 freguesias desagregadas, 8% têm menos de mil habitantes e um terço entre mil e 3 mil habitantes. Será mau para as populações e para os contribuintes, mas bom para uma classe política devorista que já tem as eleições autárquicas no horizonte. É preciso satisfazer clientelas. Nos países europeus mais racionais não há freguesias, um modelo administrativo jurássico, de quando não havia estradas ou internet, mas Portugal é diferente, está blindado contra as reformas.

O debate impossível

Luís Naves, 13.01.25

Ao equipararem a racismo qualquer opinião negativa sobre o estado da imigração, os partidos de esquerda matam à nascença um debate urgente. A mentalidade portuguesa tem destas coisas: por não poderem ser discutidos, os problemas arrastam-se e agravam-se. Durante alguns anos, houve uma situação de bar aberto e entraram no país centenas de milhares de imigrantes. Muitos não falam português, alguns nem sequer entendem inglês. O anterior governo piorou a situação, ao extinguir o serviço que tratava do tema, o SEF. Quando as reformas são difíceis, desfaz-se o que está feito e inventa-se a pólvora.

Os números oficiais sobre imigração sugerem um fenómeno fora de controlo. Em 2018, havia 480 mil estrangeiros residentes, em 2023 já tinham passado o milhão (1,044), ou seja, mais do dobro em apenas cinco anos. Existe porventura uma explicação económica para a aceleração abrupta, pois nos últimos dez anos foram criados 800 mil empregos em Portugal. Infelizmente, há muito emprego precário, que pode não durar, sobretudo com os efeitos da estagnação alemã. A comunidade imigrante que aproveitou a oportunidade é explorada até ao osso, tem baixos salários e vive em condições precárias (um terço em risco de pobreza e exclusão, também números oficiais).

Os partidos da esquerda aplaudem este fluxo de carne para canhão, que contribui para manter os salários baixos nos empregos de baixas qualificações. As multinacionais ficam contentes e o centro de Lisboa transforma-se progressivamente num enclave de kitsch multicultural. Portugal fez numa década os mesmos erros que a Suécia levou meio século a cometer. Não existe ligação entre criminalidade e imigração, diz o coro da esquerda. Por enquanto, não existe, mas temos de olhar para as sociedades onde a proporção de imigrantes ultrapassou a barreira dos 10% da população e onde esta afirmação não é verdadeira. Os benefícios do curto prazo pagam-se um pouco mais à frente, mas a duplicação em tão pouco tempo significa que o fenómeno é demasiado rápido para que a sociedade portuguesa o consiga absorver.

Ordem defunta

Luís Naves, 12.01.25

É possível argumentar que a ordem liberal agora defunta foi fantástica, mas a realidade parece ser mais sombria. Essa época nunca foi pacífica, pelo contrário, houve conflitos violentos no Iraque, Afeganistão, Gaza, Síria, Ucrânia, entre outros que não despertaram a curiosidade mediática, como a guerra civil do Sudão, exemplo mortífero de descida aos infernos. Exércitos poderosíssimos fizeram mais ou menos o que queriam a bombardear camponeses rebeldes mal armados.

O resultado em matéria de liberdades é duvidoso: o novo governo francês, por exemplo, rejeita à partida a opinião de 70% dos eleitores; um ex-comissário europeu disse anteontem que Bruxelas tinha contribuído para anular as eleições presidenciais na Roménia e que, se for necessário, fará o mesmo nas legislativas alemãs; um pouco por todo o ocidente industrializado há um ataque objetivo à liberdade de expressão. As redes sociais foram controladas por algoritmos que impediam a circulação de certas ideias, tudo em nome da democracia. As desigualdades económicas criadas nas últimas três décadas são tremendas e a oligarquia que nos governa acumulou uma riqueza absurda. Há imensa literatura sobre isto, é comum a quase todos os países. Na realidade esta ordem nunca foi liberal, mas instável e controlada por privilegiados, agora contestada pela população, que considera tudo isto um fracasso.

A ordem liberal a que me refiro começou em 1991, quando a URSS perdeu a Guerra Fria e o acordo de Ialta ficou desatualizado. O breve período histórico de hegemonia americana terminou com o conflito na Ucrânia, onde a Rússia está a alcançar uma vitória militar contra um exército treinado, armado e financiado pela NATO. A eleição de Trump torna menos provável a guerra generalizada entre potências nucleares e mais provável o novo acordo global, que exigirá um encontro semelhante ao de Ialta, em 1945, entre Estaline, Roosevelt e Churchill. A nova ordem internacional será provavelmente definida numa cimeira entre Trump, Putin e Xi, em 2025.

Portugal foi um ator menor na chamada ordem liberal, mas o facto é que depois do estoiro nos anos Sócrates não conseguiu sair da cepa torta. A crise financeira foi para nós a crise das dívidas soberanas, uma humilhação coletiva que nos condenou ao pelotão traseiro da UE. O país está desindustrializado e vive de rendas e turismo, as desigualdades aumentaram e a rede social tem buracos por todo o lado. A Europa gastou em três anos 140 mil milhões de euros na guerra da Ucrânia, o dobro do que emprestou a Portugal no período da troika, com imensas restrições, dinheiro que pagámos. O da Ucrânia foi para um buraco negro de corrupção e derrota, para pagar salários e manter uma ficção militar. Isto é liberalismo?

Com os olhos no Ártico

Luís Naves, 11.01.25

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A Imprensa tem apresentado a questão da compra da Gronelândia pelos EUA como um capricho alucinado de um presidente eleito, a concretizar com uso da força. Basta olhar para um mapa e escavar a informação para perceber que o caso tem explicação racional. Durante a II Guerra Mundial, quando a Dinamarca foi ocupada pelos nazis, os americanos controlaram completamente o território. Depois da guerra houve uma tentativa de compra, recusada pela Dinamarca, mas os EUA ficaram com uma base que ainda hoje existe e pela qual não pagam direitos. Trump quer comprar a ilha, fala em novo Estado americano e a Dinamarca recusa vender. No entanto, o território é uma região autónoma e os partidos independentistas representam 80% dos 50 mil nativos, sobretudo Inuit. A independência será um processo provável e natural, concretizado por referendo. Segue-se uma fase de associação, que dará maior influência aos americanos. A imagem de satélite esclarece o que está em causa: o controlo do Oceano Ártico e a rivalidade com a Rússia, o que implica acesso a matérias-primas não exploradas e controlo de potenciais rotas marítimas que resultam do degelo e que podem encurtar as viagens entre Europa e Ásia.

A imagem tem dez anos e mostra a placa de gelo mínima e máxima (linha amarela), no inverno e verão. A Gronelândia, à direita, adiciona os direitos americanos à plataforma continental. Os EUA têm acesso ao Ártico pelo Alasca, território comprado à Rússia no Séc. XIX por 7,2 milhões de dólares.

Trump

Luís Naves, 10.01.25

Muito do que se escreve sobre Donald Trump concentra-se no folclore, em frases fora do contexto ou ideias feitas que não procuram entender as intenções deste movimento político. Alguns comentadores usam o sorriso condescendente da superioridade intelectual. Outros não duvidam de que o fenómeno é fascista e não parecem compreender que esta afirmação é negacionista ao extremo, pois se Trump é fascista, então o fascismo nunca aconteceu como consta nos livros de História. Trump poderá concluir uma viragem na América, tornando a república imperial mais oligárquica, libertária e nacionalista. Os três elementos são contraditórios, como é a tensão entre república e império que tem dilacerado os EUA. Trump terá de respeitar os interesses dos trabalhadores que o elegeram, mas também dos interesses oligárquicos dominantes. Terá de preservar a hegemonia americana deixando de intervir em todos os conflitos. Fará talvez uma partilha do mundo com a China e a Rússia, procurando demolir o estado profundo das burocracias não eleitas que em Washington controlam a diplomacia, a segurança e a regulação estatal. Trump também vai desprezar os europeus que não o acompanharem, sobretudo Bruxelas.

O enigma da estagnação das artes

Luís Naves, 08.01.25

Um dos enigmas contemporâneos é a estagnação secular das artes no planalto pós-moderno. Da era clássica ao modernismo, sucederam-se movimentos e ruturas. Cada geração inventava uma nova maneira de escrever, de pintar ou de fazer música. A partir da II Guerra Mundial, as mudanças estéticas foram absorvidas num vasto bolo de gelatina. Há uma estimativa credível segundo a qual se publicam por ano mais de 2 milhões de novos livros, número de obras que inclui autopublicação, publicação digital, volumes anónimos, diferentes traduções. Desde a invenção da Imprensa, a contagem vai em 160 milhões de títulos, mas a aceleração na nossa época está a produzir quantidades que ninguém consegue absorver. A leitura é hoje para todos, mas a literatura continua a ser um interesse de minorias. As salas de concertos de música antiga estão cheias, não há falta de público, mas como se explica o marasmo na música popular nos últimos 50 anos? Aliás, podemos ouvir milhares de vezes uma obra que alguém do século XIX ouvia uma vez na vida, mas a música contemporânea não produziu nenhuma vanguarda escandalosa desde meados do século passado. Talvez isto seja também uma crise de espiritualidade, da nossa vida materialista e sem tempo para pensar.

Imprevisibilidade

Luís Naves, 07.01.25

Os comentadores políticos vão dizendo nas televisões que não se pode mexer na ordem internacional existente e parece escapar-lhes a constatação do óbvio, que estamos a assistir a uma crescente desordem e que os grandes atores tentam alterar a realidade a seu favor. A Rússia foi subestimada, a China procura assumir um papel mais relevante, há até conflitos pequenos que mostram a imprevisibilidade da turbulência, como é exemplo a revolta no Iémen que alterou os cálculos de bloqueios navais, dando nova importância aos pontos de estrangulamento do comércio, como Mar Vermelho, Estreito de Ormuz ou Canal do Panamá. Foi demonstrado que um poder menor consegue perturbar o fluxo de mercadorias e de energia para as indústrias do mundo. A corrida aos armamentos, a fragilidade dos governos democráticos, a discussão sobre "desinformação", maneira de dizer que não se controla a opinião pública, tudo isto são indícios da perturbação antes da nova ordem que será negociada entre os impérios, como tantas vezes aconteceu na História. Haverá estadistas à altura do momento? Essa é a grande incógnita. Em alguns países parece estar a ocorrer uma substituição veloz de elites fracas.

 

A estranha crise europeia

Luís Naves, 06.01.25

Há profundas crises políticas nos principais países europeus. No Reino Unido começa a borbulhar um escândalo capaz de derrubar o governo, na Alemanha teremos eleições que podem ser inconclusivas e, em França, 37% dos eleitores dizem ser "muito favoráveis" à demissão do Presidente Macron, enquanto 24% são bastante favoráveis. Podia adicionar outros países à lista, Espanha, Polónia, Áustria, Roménia. Não existe memória recente de tantas crises simultâneas. O que se passa? A guerra da Ucrânia teve efeitos económicos devastadores e prolongou-se além do previsto; os países industrializados têm dificuldade em manter a sua competitividade; alguns estão endividados até ao osso; as mudanças tecnológicas foram demasiado velozes; Bruxelas cometeu erros graves na transição energética, na alimentação da corrupção em Kiev, na legislação sobre automóveis com motores de combustão. Mesmo assim, com tudo somado, a explicação ainda é insuficiente. Muitos europeus estão a compreender que foram enganados pelas suas fracas elites, na crise financeira, na pandemia, nas políticas migratórias. Há setores da sociedade zangados e demasiada gente a votar sob o efeito hipnótico dessa emoção.

Viragem

Luís Naves, 04.01.25

Os progressistas recuam em todo o lado e vamos assistir a viragens políticas a favor dos chamados populistas, que no fundo respondem à revolta eleitoral dos perdedores da globalização. Os trabalhadores cansaram-se da arrogância elitista, das mentiras mediáticas e da hipocrisia das migrações. As políticas de fronteiras abertas trouxeram para o interior das sociedades industrializadas os quase-escravos que tudo aceitavam e cuja exploração desenfreada colocou o prego definitivo no caixão da influência sindical. Os progressistas abraçaram guerras culturais estéreis e passaram a ver os trabalhadores como reacionários, quando estes protestavam contra os efeitos das migrações em larga escala. Neoliberais e globalistas defenderam a desindustrialização ocidental e impediram medidas de compensação para os perdedores. Orçamentos equilibrados implicaram menos rede social e menos impostos para os ricos. Vinte anos de políticas progressistas deram nisto: diferenças sociais gritantes, metade da classe média a deslizar para a pobreza, estagnação económica, líderes alheados da realidade e uma comunicação social domesticada e conivente.

Tudo mudou

Luís Naves, 03.01.25

O New York Times publicou no dia de Natal um artigo de Nate Cohn (disponível para assinantes) onde se argumenta que a América está desde 2016 a viver uma nova era política, na qual os papéis tradicionais dos dois partidos se inverteram. O movimento populista e conservador de Donald Trump quer defender as classes trabalhadoras e ataca as elites, nomeadamente o anterior consenso sobre intervenções externas, que ficou uma das bandeiras dos democratas, que assumiram o sistema e as causas progressistas. O texto analisa as diferentes coligações eleitorais e termina com a ideia de que os temas do debate americano serão segurança, energia, migrações, comércio com China e redução da regulação económica. Em resumo, tudo mudou. Trump não é um revolucionário, mas já rompeu com a era de Reagan. O seu mandato de quatro anos pode durar apenas dois, pois o Senado deve virar nas intercalares e haverá uma luta pela sucessão entre os republicanos. Até 2026, teremos duas questões centrais: até que ponto o presidente cumpre a promessa de desmantelar o Estado dentro do Estado (a poderosa burocracia que verdadeira manda) e a que velocidade este fogo na pradaria do novo conservadorismo vai conquistar a Europa.