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Delito de Opinião

Amigos improváveis - o Gorby

Maria Dulce Fernandes, 03.05.21

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O meu pai morreu novo. O passamento foi rápido e fulminante como uma vela que se apaga sem a chama tremeluzir. Para o meu pai acabou o mundo e para nós,  os que ficámos por cá sem saber como reagir aquele vazio que de repente se instalou, começou uma dura caminhada de revolta, conformação e aceitação que dura até hoje, como um livro no qual não conseguimos escrever o capítulo final.

Meses depois da tristeza se instalar, decidiu a minha mãe arranjar um bichinho de estimação que nos distraísse e nos animasse. Depois de estudar e aprofundar várias hipóteses, decidiu-se, com o beneplácito do meu irmão mais novo, por um husky de olhos azuis, estouvado e brincalhão, que fez as delícias de miúdos e graúdos.

Veio para a nossa família com três ou quatro meses, um traquinas com pedigree e um nome todo pomposo e impronunciável na caderneta do Clube de Canicultura, mas como tinha uma mancha na fronte, passou a ser o Gorby, sem títulos nem berço.  Era o nosso cão.

A casa dos meus pais em Belém num espaçoso terceiro andar, tinha a vista para o Tejo mais bonita das redondezas. Tinha também a escada mais íngreme e desgastante de subir de que tenho memória num prédio de três andares. Isto aliado ao gosto eclético da minha mãe por peças de decoração e mobiliário que atafulhavam profusamente  toda a área, tornou a vivência do Gorby lá em casa algo limitada. Ao princípio, enquanto cachorrinho, esgueirava-se facilmente por entre os exíguos espaços vazios. Depois cresceu. Cresceu muito. A mesa da sala debaixo da qual gostava de se refugiar, perdeu em tamanho e tornou-se numa armadilha com a pesada pedra de mármore a cair com estrondo sempre que o Gorby se levantava e a carregava nas costas.

E ir á rua? Só o meu marido e os meus irmãos tinham arcaboiço para a proeza, pelo que se iam revezando todos os dias.

Passados cerca de dois anos, sempre dócil e brincalhão jogava qualquer de nós de cangalhas em brincadeiras, tal não era a sua força. Com a patas dianteiras nos meus ombros, quase ficávamos equiparados em altura. Todos os dia tinha ralhete por destruir qualquer coisa lá por casa.

Um fim de semana, o padrinho do meu irmão mais novo foi de visita à minha mãe e encantou-se com o Gorby. Morava numa casa com jardim ali para os lados da Fonte da Telha e ofereceu-se para levar o Gorby por uma semana para a minha mãe descansar. Tinha crianças pequenas e foi uma alegria. O Gorby esteve dois dias tristonho, com saudades, mas depressa se habituou aquela casa e aquela gente que tão bem o tratava e lhe dava espaço para correr e o levava em longos passeios na praia todos os dias ao entardecer.

Depressa entendemos que aquela semana de férias duraria uma eternidade e que o “lado de lá" se tornaria em peregrinação obrigatória de muitos fins de semana.

Falar no Gorby trouxe lágrimas por muito tempo, mas também exultação com os vários prémios que ganhou em concursos nacionais e estrangeiros e muitas gargalhadas com as histórias das suas tropelias.

Nunca se esqueceu de nós nem da nossa casa. Quando chegava nas imediações começava a ficar inquieto e a ladrar de satisfação. Cada visita era um acontecimento de afagos e lambidelas.

Viveu uns felizes 15 anos.

Nunca mais quis ter um cão.