Irra Social
Rosário Ramalho ou/e Gonçalo Matias, ponde-me os olhos nisto: Há tempos fui de automóvel ao Centro Regional da Segurança Social em Braga, a cerca de 20 km, no seguimento da marcação de um atendimento presencial. Recebido tempestivamente por um funcionário (aliás muitíssimo antipático, ainda que para a economia do que pretendia a simpatia não seja elemento essencial ou sequer importante), este informou que os serviços locais não dispõem da informação que pretendia – só em Lisboa.
Qual era ela? Saber, relativamente a uma penhora de 1/3 da pensão de velhice efectuada em 2019 e que dura até hoje com punções mensais a dois ex-gerentes de uma sociedade, qual o saldo ainda em dívida, as datas e montantes dos descontos efectuados e qual o destinatário.
O destinatário será, em princípio, um fundo abutre (qualificação minha) que adquiriu o crédito a um banco. Mas como a dívida resultou da prestação de avales a uma firma e em processo de liquidação desta houve pagamentos ao credor (21% da dívida original), e já tinha havido pagamentos antes da venda do crédito, existe a dúvida sobre quanto já se pagou, a quem, quanto falta, e se no meio da sarilhada não acabarão os penhorados por pagar mais do que era devido – se é que isso não está já a suceder.
O agente de execução passou a pasta para a Segurança Social, logo não sabe bem em que pé está a coisa; a advogada da empresa do fraque (que aliás mudou de nome, sabe-se lá porquê) anda a empalear desde Julho, ou não respondendo ou prometendo o envio de uma conta-corrente logo que a tenha, sem que se perceba quando estará disponível esse importante documento – Fernando Pessoa levou certamente menos tempo a redigir a Mensagem.
Bom, há que ir ao site da Segurança Social, os sites de serviços públicos são mesmo para poupar tempo e deslocações, não é?
Não é. Porque o site tem mais ou menos a dimensão do mar dos sargaços e está concebido com os pés, de modo que o navegador se perde no meio daquelas verduras.
Concebido com os pés porquê? Porque não é possível a uma equipa de informáticos imaginar as dificuldades que irá ter quem aceda e não conheça nem os caminhos nem os cantos da casa. De modo que os sites deviam ser rodados ao longo de muito tempo e melhorados com base em reclamações mas não são, nem este nem outros, de modo que a utilidade se perde sem benefício para ninguém. Talvez a IA venha ajudar a resolver isto, de momento o que há é BN (burrice natural).
Bom, há que telefonar – vêm lá, algures, dois números de telefone. No primeiro, depois de se ouvir um palavreado verborreico, informam que a chamada vai ser gravada, ou não se o cidadão não quiser, mas que terá nessa hipótese de usar os “meios alternativos” e pedem para marcar um número (de 1 a 5, consoante a natureza do assunto), coisa que se faz sem qualquer resultado, de modo que volta tudo ao princípio e mais uma vez até que – milagre – vem uma musiqueta interminável, que é interrompida por uma simpática voz feminina que informa que ainda não foi possível atender a chamada que não está a ser atendida e pede para aguardar, após o que regressa a musiqueta, após o que novamente a moça vem pedir para aguardar, após o que depois de mais uns minutos do concerto de berimbau a já conhecida agradece por ter aguardado, informando que a chamada vai ser atendida. Deveriam nesta altura soar trombetas mas não, é a mesma musiqueta, que é interrompida para anunciar que a chamada de momento não pode ser atendida.
Os pés de um exército de centopeias não devem chegar para contar os telemóveis partidos em ataques de fúria dos “utentes” por mor destes assados; e requer uma credulidade excessiva o imaginar que o ministério da Reforma do Estado vai fazer mais do que pôr informática cretina em cima de informática idiota.
Valha-nos a pertinácia (como dantes se dizia dos avançados que se esforçavam muito mas não metiam golos): optei por no dia seguinte (hoje), armado de paciência e dois cafés, por voltar às chamadas. Tive uma epifania: e se em vez de esperar que chegue ao fim a cantilena de introdução digitar logo o número (mal ele seja enunciado) a que cabe a natureza do assunto? Zás, meu dito e meu feito, era isso. E uma funcionária (aliás correctíssima), inteirada do meu nome e da natureza do assunto, declarou que aquilo era no departamento de não sei quê, para onde iria transferir a chamada. Assim foi e a um senhor de voz pausada expliquei a pendência, começando ele a responder e eu a antecipar vitória – quando a chamada caiu.
O telemóvel que não tivesse sido tão caro e teria levado nesta altura uma poderosa martelada. Mas, já conhecedor do caminho das pedras, lá o percorri de novo, com a ligeireza possível, desta vez chegando à arca do tesouro sem passar por intermediários e ocupando-me com outras coisas com o telemóvel em alta-voz enquanto o processo decorria.
Era uma senhora. E esta fez-me uma extensa lista de perguntas (ou ela, ou algum dos anteriores, já baralho): nome completo, naturalidade, data de nascimento, nº de beneficiário da SS, nº de contribuinte, após o que ouviu a minha, aliás curta, exposição, para informar que devia fazer o pedido por escrito.
Boas palavras: eu, em tendo escolha, prefiro escrever a falar, de modo que perguntei o endereço de e-mail do destinatário (Centro Nacional de Pensões, esclareceu). Nada, não senhor, mensagem escrita mas pelo e-clic. Logo a fiz ciente de que já tinha estado no tal e-clic, que era um nó-cego, e que o Centro certamente teria um e-mail (tive o cuidado de perguntar se já tinha ouvido falar num tal instrumento de comunicação, tendo-me a senhora sossegado nesse particular). Mas não, ou é-clic ou nada.
Chamei uma especialista em navegação em águas insalubres e, com destemor, tentei encontrar o cantinho onde uma pessoa inocente possa dizer ao que vem.
Encontrei. Ou melhor, ela encontrou. A coisa não é fácil porque tudo está organizado em questionários de resposta múltipla, com a excitante particularidade de nem sempre se saber do que raio é que estão eles a falar, pelo que se entra numa jiga-joga de prà frente e pra trás
E, tendo encontrado, expus com rigor, clareza e economia, tendo o cuidado de indicar o meu e-mail.
E então, virá resposta? Talvez sim, talvez não, talvez por pombo-correio, que no nevoeiro das modernices às vezes voa o bom senso.
E se não vier? Boas notícias para os meus amigos de Lisboa, que são muitos e bons, ainda que alguns do Benfica: lá irei.



