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Delito de Opinião

Sim, não é futebol

Sérgio de Almeida Correia, 04.06.25

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Diz a presidente da Comissão de Honra de Marques Mendes, Leonor Beleza, que "[o] presidente da República não é um árbitro, não estamos no futebol aqui. Não tem o presidente da República como árbitro que enfrenta as diferenças ou as competições entre distintas equipas. O presidente da República é ele próprio um ator. É um ator de primeira grandeza, nos termos da nossa arquitetura constitucional. Ele não arbitra, ele participa.

Creio que Leonor Beleza tem toda a razão quando o afirma. O seu candidato, Marques Mendes, é um verdadeiro actor. Ele não tem experiência política. A sua experiência é cénica. A política foi uma peça na sua vida de actor.

E como actor tem estado no palco, há decénios, com prejuízos pessoais, diariamente sentidos na bolsa, sujeitando-se à luz forte dos holofotes, à provação de horas de maquilhagem, de tal forma que o pó de arroz, os trejeitos e as sombras já fazem parte da sua pele. Da sua personalidade.

É um actor habituado à novela política, experiente nos jogos de bastidores e nas deixas. Tão experiente que, não raras vezes, tem feito de ponto. Consoante o guião e o encenador adapta-se às circunstâncias.

E a melhor prova de que é um actor está em levar a palma à multiplicidade de sensibilidades dos apoiantes de Henrique Gouveia e Melo.

Marques Mendes conseguiu reunir na sua Comissão de Honra um painel tão ecléctico, tão garrido, tão animado, que desmente a ideia daquele outro candidato, o que vem da casta militar, quando transmite a ideia de que a política não é exclusivo daqueles "(palavrão) que fizeram um curso especial que é o curso da política".

Sim, Leonor Beleza tem razão. Marques Mendes não é um árbitro. Ele para o apito não tem jeito. E corria o risco de passar despercebido dentro do campo. Ou de engolir o apito na hora de exibir os cartões quando os jogadores começassem a encher o peito e a lançar-lhe uns perdigotos nas lentes.

Marques Mendes é um actor de primeira grandeza. Que ninguém tenha dúvida. Há anos que o mostra pública e religiosamente em horário nobre nas suas récitas e homilias. Tão depressa compungindo como irado, solidário e justiceiro, ora condescendente e tolerante quanto implacável e esquecido, surgindo perante o povo português com a sabedoria amestrada de um Sinhozinho Malta na hora de conquistar a viúva Porcina.

Não sei se alguma vez irá receber um Globo de Ouro ou um Grande Prémio do Teatro Português. Estará sempre a tempo.

O facto de ainda não ser o candidato preferido de José Sócrates dá-lhe pontos, mas o seu grande trunfo, e daí a oportunidade da tirada de Leonor Beleza, é Marques Mendes apresentar-se a eleições no seu papel de actor e apoiado por uma Comissão de Honra que parece o elenco completo de uma produção de Filipe La Féria para o Politeama. De Toy a Moedas, dos verdadeiros árbitros do chuto-na-bola ao Toni, de António Sala a Margarida Rebelo Pinto e à tropa, há lugar para todos. Até para abades.

E se no final a peça for um fiasco – não seria a primeira vez –, haverá sempre a possibilidade de se recuperarem as figurantes, pedir um subsídio à Solverde e abrir em Fafe, que tão carecida está, uma escola de samba.