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Frases de 2019 (2)

por Pedro Correia, em 06.01.19

 

«É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa.»

Damares Alves, nova ministra brasileira da Mulher, Família e Direitos Humanos, em comentário feito a apoiantes pouco depois de ter sido empossada, em Brasília, a 2 de Janeiro

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Figura internacional de 2018

por Pedro Correia, em 02.01.19

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JAIR BOLSONARO

Foi o  mais imprevisível triunfo eleitoral de 2018, surpreendendo grande parte dos comentadores e analistas políticos: Jair Bolsonaro, capitão na reserva e deputado federal desde 1991, venceu a eleição presidencial brasileira de Outubro, suplantando na segunda volta o seu rival do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, por uma margem confortável: obteve 55% e quase 58 milhões de votos. Ontem tomou posse, em Brasília, como 38.º Chefe do Estado do maior país de língua portuguesa e líder da sétima economia à escala mundial. Com uma taxa de aprovação muito elevada, que ascende a 61%, segundo os mais recentes barómetros  - algo que praticamente ninguém conseguia prognosticar há um par de meses.

A inclusão do juiz Sérgio Moro no novo Executivo federal, com a pasta da Justiça, terá contribuído para este reforço da popularidade de Bolsonaro, que se apresentou às urnas apenas com o apoio inicial de um pequeno partido, o PSL, e quase sem dispor de tempo de antena nos canais televisivos. Contornou estas dificuldades recorrendo em larga escala às redes sociais e às novas plataformas de telecomunicações. O que vai seguir-se é uma verdadeira incógnita, sendo inegável o peso dos militares na estrutura governativa agora empossada - começando pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.

No DELITO DE OPINIÃO, que o elegeu como Figura Internacional do Ano, Bolsonaro teve uma vitória apertada: recebeu nove votos em 24. Vencendo tangencialmente outro dirigente de um país de língua portuguesa: o Presidente angolano, João Lourenço. Justificação para os oito votos recolhidos pelo homem que em 2017 sucedeu a José Eduardo Santos: o papel relevante que tem desempenhado na abertura das instituições e no combate à corrupção em Angola.

 

O terceiro lugar do pódio, com três votos, coube ao Presidente norte-americano Donald Trump - aqui vencedor nos dois anos anteriores - pelas numerosas polémicas que tem protagonizado, levando a uma constante sangria da sua equipa governativa, mas também pela histórica cimeira que manteve em Abril com o ditador de Pyongyang, Kim jong-un, que terá aberto enfim caminho à desnuclearização da península coreana, há 68 anos em estado de guerra.

Houve dois votos no novo Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, primeiro dirigente desde 1959 que ali não pertence à família Castro. Além de votos isolados no Presidente chinês, Xi Jinping, que em 2018 viu reforçados os seus poderes, sendo-lhe reconhecida a possibilidade de recandidatar-se a novos mandatos, e no magnata norte-americano Mark Zuckerberg pela intrusão que os FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google) têm nas nossas vidas e na forma como estão a mudar o mundo, certamente para pior.

 

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

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Bolsonaro e o clima

por jpt, em 16.11.18

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Bolsonaro apresentou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, assim mais explicitando o seu enquadramento ideológico. Para o novo ministro as questões ecológicas, e a preocupação com o mais que provável processo de alterações climáticas, são reduzidas a uma ideologia ("climatismo"), fruto de um "marxismo cultural" cujo objectivo é transferir o poder económico do ocidente para a China (ler este seu texto de blog do mês passado). Ou seja, os "inimigos internos" já não são os comunistas, esses que serviam para tudo justificar em décadas passadas, são os "pró-chineses", avençados dos neo-Ming que por lá mandam. É este o novo poder do Brasil do Amazonas. 

Antes das eleições o projecto político-económico fora explicitado pelo candidato Bolsonaro: incrementar a utilização da floresta (entenda-se, o desmatar). Em concordância com interesses terratenentes nacionais e industriais internacionais. O projecto político-ideológico? Explicita este Ernesto Araújo, a luta contra o tal "marxismo cultural", esse "sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”. Isto no âmbito de um "ocidentalismo" (às três pancadas), de uma superficialidade pungente ainda que glosando Heidegger (um resumo respeitoso da verve de Araújo está aqui), enquanto se alimenta de Spengler. É este o estado a que aquilo chegou. Com impactos ambientais que serão terríveis, articulados com a política americana nesta matéria, em que Trump canta a mesma boçal melodia (após Obama, que trauteava diferente mas pouco ou nada fez de relevante sobre as questões ecológicas). 

Há mesmo um "marxismo cultural", na pobre definição do agora ministro. Um neomarxismo, comunitarista, que coloca no centro da discussão pública o "género dos anjos", um identitarismo que se tornou uma verdadeira "maré negra" na discussão política. O processo eleitoral que catapultou Bolsonaro é mostra dessa poluição: as suas ligações agro-industriais mal eram afloradas, os seus propósitos ecológicos ignorados. As (ineficazes) acusações que contavam para a oposição eram o seu machismo (e ele não legislará contra as mulheres) ou o seu racismo (e ele não legislará sobre raças). De facto, o que essas suas diatribes anunciavam era a recusa de políticas estatais de discriminação positiva, e foi isso que se tornou a questão central, devido aos grupos corporativos a elas ligadas, quando se tratam de meros epifenómenos.

Esvaizamento do debate que se mostrou nas acusações de racismo (que com toda a certeza correspondem aos seus preconceitos): vi ene vezes partilhadas declarações do candidato sobre a sua visita a um quilombo (habitado por negros). Disse o homem que lá só encontrou "gordos", que o mais magro ia tão obeso "que nem para cobridor servia".  As pessoas ficam agarradas à linguagem provocatória, e perdem o fundamental, caem na esparrela: pois o relevante não é que os "negros" sejam isto ou aquilo ("gordos", "preguiçosos"). O relevante é a oposição à demarcação de terra (protecção ecológica por via de fundamentações histórico-culturais) e o radical confronto com políticas assistencialistas. Mas, claro, a omnipresente questão do "género (e raça) dos anjos", imposta pelo neomarxismo, venda os olhares sobre as dimensões relevantes deste rumo, no Brasil e alhures. Neste caso, a ecologia, e a protecção desenfreada à agro-indústria.

Uma questão paroquial (porque o relevante é o impacto ecológico das políticas de Brasília): leio gente integrante deste novo partido (um partido-birra, de facto) de Santana Lopes a defender Bolsonaro. Leio membros e adeptos do CDS a defender Bolsonaro. Não leio ninguém do partido-Ventura porque presumo que não consigam escrever, mas também se deliciarão com estas bolsonarices. Alguns deles gozam com os "moderados", os não-esquerdistas que não aderem a este bolsonarismo, como se em frémitos anais os gritassem emasculados. Isto levanta uma questão até porque, como aflorei acima, não vivemos na Guerra Fria, onde as piores tropelias eram justificadas pelo omnipresente comunismo. Como se relacionam, como simpatizam, estes quadros (intelectuais, pois vivem da escrita, como funcionários ou da comunicação social) com este trogloditismo intelectual? O que resta da herança filosófica liberal nestes putativos liberais, onde pára o esqueleto da democracia-cristã, diante desta trapalhada bolçada? Onde reside o pensamento ecológico, estruturante do conservadorismo (nacionalista) europeu, romântico ou deste sucessor ? Em lado nenhum, parece, pois os tais frémitos anais destes santanistas, perdão, santanettes e dos assunções, só aceleram mesmo face a este boçalismo. 

Nota: aos hipotéticos comentadores que aqui apareçam a bolçar que o "aquecimento global" não é algo científico, pois não há certezas sobre o fenómeno mas apenas previsões, proponho que se poupem ao trabalho de teclar. Eu não aceitarei os comentários. Pois para quem me venha em 2018 dizer que a ciência se resume ao que é comprovadamente certo eu respondo desde já: as aulas do ensino secundário eram más, os explicadores que os papás vos pagaram eram maus, as aulas das universidades eram más, não ganham o suficiente para comprar livros, não têm vagar para irem às "novas oportunidades" ou à Universidade Aberta ou à da Terceira Idade, não têm capacidade para aceder ao youtube e ao vimeo, que a ligação à internet em vossa casa é má, não percebem línguas estrangeiras, como o português de Portugal ou o do Brasil? Lamento. Mas não é agora, tarde e más horas, que um bloguista, ainda para mais à borla, vos vai ensinar que a ciência não é o que as vossas cabeças mui relapsas julgam.

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1923

por Diogo Noivo, em 30.10.18

Caciquismo, corrupção e violência desenfreada. Estas foram as principais características de Espanha no início da década de 1920. Havia um divórcio absoluto entre o regime da Restauración e as necessidades e anseios da população. Os partidos viviam de quezílias, da manutenção de redes clientelares e de discussões estéreis para a maioria da população.

Em 1923 aparece Primo de Rivera, general do Exército que assumiu o papel de “cirurgião de ferro”, uma figura quase mítica há anos reivindicada por uma parte da intelectualidade espanhola e bem acolhida por vários sectores da população. Era a última esperança do regeneracionismo.

Primo de Rivera não foi eleito, é certo, mas o assalto ao poder foi um desfile plácido pela passadeira vermelha. Monarca, industriais, latifundiários, a imprensa relevante e a generalidade do povo cederam o passo ao general. A impressão dominante era a de que se tratava de um mal necessário. Não era o homem que devolveria a Espanha a grandeza de outras épocas, mas era o personagem que instauraria um módico de ordem, que reiniciaria o sistema político e que estabeleceria as bases do desenvolvimento económico a que outros, mais consensuais e legítimos, haveriam de dar continuidade.

Não obstante alguns êxitos, a Ditadura de Primo de Rivera acabou mal, com o ditador isolado e com o regime da Restauración em falência certificada.

Mais do que estabelecer paralelismos entre o fim de Primo de Rivera e o que haverá de ser o fim de Jair Bolsonaro, retiro uma conclusão, de resto suportada por vários episódios semelhantes ocorridos na Europa no século XX: não são necessárias redes sociais ou sistemas de comunicação como o whatsapp para que personagens autoritários se instalem no poder com o beneplácito do povo. Basta que o regime incumbente revele a sua falência para que se abra espaço para o desastre.

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A derrota do jornalismo

por Pedro Correia, em 30.10.18

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Durante meses, andaram a contar-nos a história mutilada, a história incompleta, a história que nos deixou cegos, surdos e quase mudos sobre a verdadeira situação do Brasil.

Forneceram-nos um quadro previsível, dicotómico, com as etiquetas todas no seu lugar. Omitindo o desastre social, económico e político em que a quarta maior democracia do globo havia mergulhado.

O jornalismo genuíno - aquele que parte para cada história de olhos bem abertos, sem catecismos, deixando os preconceitos fechados à chave numa gaveta doméstica - voltou a ser menosprezado. Desta vez na eleição presidencial brasileira.

 

Como podia um "fascista", capitão na reserva, obscura personagem de terceiro plano na hierarquia parlamentar de Brasília, ascender ao Palácio da Alvorada?

Seria imaginável o país do samba e do Carnaval amanhecer "fascista"?

Impossível, claro. A "lógica dos acontecimentos", condimentada pelo determinismo histórico e pela militância ideológica em trincheiras de luta entre o mal e o bem, contaminou o relato factual.

O jornalismo foi substituído, semanas a fio, meses a fio, pela rotulagem rápida do pronto-a-pensar politicamente correcto. Não houve histórias com gente dentro, apenas focos de propaganda política. E nem era preciso rumar ao outro lado do Atlântico: bastava falar com os novos imigrantes brasileiros que se têm fixado em Portugal: são já 80 mil, formando aquela que é, de longe, a maior comunidade estrangeira no nosso país.

Bastava perguntar-lhes por que motivo fizeram as malas e vieram.

 

O "Lulinha paz e amor", que tirou da miséria 20 milhões de brasileiros durante o primeiro mandato, na sequência das medidas iniciadas por Fernando Henrique Cardoso, prevaleceu nos relatos que nos foram chegando.

Esquecendo tudo o resto, que compõe o retrato alarmante do Brasil actual: mais de meio milhão de homicídios cometidos na última década (uma pessoa assassinada a cada nove minutos), impunes em 90% dos casos; a maior recessão de que há memória, ocorrida em 2014; inflação que quase atingiu dois dígitos; um gigantesco cortejo de 13,4 milhões de desempregados.

Esquecendo os escândalos do Mensalão e do Lava Jato.

Esquecendo que o Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva e Dilma Roussef, com os seus aliados no Congresso, montou gigantescos mecanismos de corrupção, alicerçados na construtora Odebrecht, a maior empreiteira da América Latina, e na empresa pública Petrobras, contaminada até ao tutano pelos novos ricos sedentos de dinheiro fácil, protagonistas de inúmeros crimes de desvio e lavagem de dinheiro enquanto o país empobrecia.

Vejam uma imprescindível série da Netflix, chamada O Mecanismo. Aprendem mais sobre o Brasil contemporâneo do que lendo ou escutando quase todas as inanidades que o discurso jornalístico corrente tem produzido sobre o mesmo tema.

 

Os "activistas políticos" travestidos de repórteres que nos andaram a contar histórias de embalar perderam de repente o fio discursivo ao perceberem que o tal obscuro capitão na reserva (que poucos ou nenhuns procuraram sequer entrevistar) havia afinal recolhido 58 milhões de votos.

Nada aprenderam com a eleição de Donald Trump. Nada aprenderam com o Brexit. Nada aprenderam com as rápidas mutações políticas ocorridas em Itália. São permanentemente surpreendidos pelos acontecimentos porque têm andado sempre a contar-nos a história errada - uma história que confunde as "boas intenções" com o iniludível peso dos factos.

 

Fernando Haddad, o representante de Lula, foi claramente derrotado nas presidenciais brasileiras. Mas não ficou isolado: o jornalismo acaba de sofrer também uma pesada derrota. Mais uma.

Receio que esteja longe de ser a última.

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É isto mesmo

por Pedro Correia, em 29.10.18

«Só não sabe fazer a diferença quem olha à volta e não vê homens e mulheres, mas só etiquetas.»

Ferreira Fernandes, no DN de hoje

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Destituição?

por jpt, em 29.10.18

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Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos "jornais de referência", foi secundado por "opinadores". Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa "comunidade" - que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes ("documentados", na gíria politicamente correcta desta falsa "esquerda") assumam - relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo - os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma "assimilação", perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou "colonialismo" um all aboard para definir a história moderna e contemporânea). 

 

Esta ênfase persecutória sobre os brasileiros é ainda por cima discriminatória, de modo paternalista, essa suprema face do racismo: ninguém nesta "esquerda", se preocupa em andar a escrutinar os votos (se os houver) dos imigrantes nepaleses, dos paquistaneses ou bangladexes, integrados em processos eleitorais complexos, entre ascensões de comunistas, "trumps" asiáticos e fundamentalismos islâmicos; ninguém se lembra de tentar encontrar as simpatias políticas dos imigrantes magrebinos ou do ocidente subsahariano, onde abundam os radicalismos islamófilos. E se alguém aventar a necessidade de fazer essa pesquisa, logo a corporação antropológica (olha logo estes) e os jornalistas do ex-DN e do Expresso, virão contestar, desabridos, a deriva persecutória, racista, securitária. Mas sobre os brasileiros, o voto no energúmeno bolsonar? Tudo é permitido. Isto mostra bem o paroquialismo desta classe-média locutora portuguesa mas também a incongruência e mediocridade intelectual e moral deste meio. Pois trata-se de um meio ambiente, não apenas de alguns miseráveis: eles botam estas coisas e não há, nos seus contextos de referência, partidários, profissionais, uma única voz crítica. Se algum jornalista do CM ou do Observador, se algum professor da Católica ou do ISCSP, escrevesse sobre a necessidade de escrutinar os votos dos imigrantes angolanos ou mauritanos para aferir da pertinência da continuidade dessa comunidade? O que diriam jornalistas, antropólogos e outros intelectuais, as presidentes da junta socialistas, os "comunicadores" e bloguistas-facebuqueiros? O que escreveriam os anticolonialistas directores dos jornais de referência, ex-diários que acolhem estes verdadeiros xenófobos nas suas páginas e nem tugem nem mugem? Mas este lixo? Passa. Porque os seus locutores "fazem parte ...", "são dos nossos" ...

 

 

Margarida Martins, a conhecida guida gorda do frágil, é diferente. Pois é presidente de uma junta de freguesia lisboeta, eleita no PS. Tem responsabilidades oficiais. Representa a besta exactamente como os outros locutores, do Expresso de Balsemão, do DN de Ferreira Fernandes ou das universidades, sejam estas quais forem. Mas representa-a assente, sentada, num cargo público para o qual foi eleita nas listas do partido do governo. Para mais é presidente de Arroios, freguesia onde coabitam imigrantes de dezenas de nacionalidades. E tem este tipo de mentalidade persecutória (e assimilacionista) face a "comunidades" imigradas. Isto é um óbvio caso que requer a destituição. Pelo menos a retirada de apoio de um partido que está no governo e anda com a prosápia que anda - ali logo ao lado a mandar construir um templo com fundos públicos, destinado aos estrangeiros, por exemplo.

 

Claro que os jornais de referência não a atacarão. Afinal a "guida" é "lisboa". E, mais do que tudo, é "pêésse", das "nossas".

 

Um gajo olha para esta gente, estes guidas gordas, estes jornalistas rastejantes, estes antropólogos "de esquerda", e lembra-se, constata, que, como todos, tem um bolsonaro cá dentro. Há que o reprimir. Ser cívico, civilizado. E, nesse civismo, clamar o óbvio: Margarida Martins tem que ser destituída. Isto é inaceitável. Os restantes têm que ser desprezados. E ditos.

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Tentando compreender o Brasil político

por João Pedro Pimenta, em 28.10.18
Nas últimas semanas tenho andado febrilmente a ler e reler coisas sobre a vida política no Brasil. Não somente nos jornais e noticiários actuais, mas também na net (não tanto as redes sociais, embora também sejam importantes para se perceber os humores, mas mais artigos antigos, jornais online, vídeos preciosos que se encontram no Youtube, dados wikipedianos, opiniões), e na biblioteca possível. Voltei aos tempos de Vargas e JK, passei pela ditadura militar, pela redemocratização e pelo percurso efectuado desde então. Para tentar perceber enfim o que o Brasil político, porque é que se prepara para eleger uma personagem tão inquietante como Bolsonaro e porque é que a alternativa que sobra é o agora tão detestado PT (esta última premissa ajuda a perceber a segunda).
 
A primeira ideia que vem à memória, tal como dizem algumas publicações do país, é que estas eleições não são exactamente inéditas e trazem memórias de há uns tempos. A disputa de 1989, primeiras eleições presidenciais em quase trinta anos no novo regime democrático, surgia numa altura negra para a economia brasileira, não tanto o desemprego que se observa hoje, mas uma hiperinflação e a consequente recessão económica, com um presidente impopular (Sarney), tal como agora (Temer), e que só acedera ao Planalto por ser vice do presidente anterior (naquele caso, a morte de Tancredo antes da tomada de posse, agora, a destituição de Dilma pelo Congresso). Nas eleições, disputadas por um grande número de candidatos, surgiu um jovem turco de direita, Collor de Mello, por meio de um pequeno e pouco relevante partido, com uma enorme e eficacíssima rede de propaganda e um discurso alertando para o "perigo vermelho"; a postura agressiva e o discurso pré-ditatorial usado pelo ex-capitão diferenciam-no de Bolsonaro, mas as outras características estão lá; com ele passou à segunda volta o carismático líder de um partido de esquerda "de massas", com base na cintura operária de S. Paulo, mas que ainda atemorizava muitos pelas associações com o comunismo, que naquele tempo fazia a sua espectacular derrocada; sim era Lula da Silva, e não é preciso  mostrar as semelhanças com a actualidade (mesmo que a personalidade seja muito diferente, Lula não é Haddad e vice-versa?). Em terceiro, e fora da segunda volta, ficou o candidato do PDT, de centro-esquerda, um experiente político com uma carreira executiva de respeito, mas desbocado e abrasivo, e então como agora tentou em vão tentou superar o PT; a descrição de Brizola de 1989 aplica-se a Ciro Gomes; Ulysses Guimarães, o "pai" da Constituição brasileira, na altura candidato pelo proeminente PMDB, é comparável a Geraldo Alckmin, do PSDB, pelos apoios que teve e pela fraca votação que recolheu (e que pelo seu passado executivo e pelos partidos que o apoiam tem muito também de Mário Covas e); Marina, a candidata ecológica, teve um antecessor chamado Fernando Gabeira (cuja filha, Maya Gabeira, é uma conhecida surfista que por pouco não desapareceu nas ondas da Nazaré). E assim sucessivamente. Falta saber se Bolsonaro também se envolverá em moscambilhas e verá o movimento que o apoia voltar-se contra ele, como sucedeu a Collor.


A outra conclusão que se retira é que ainda que haja imensos partidos no Brasil - no congresso são uns vinte e tal, com siglas e nomes parecidos - a sua real força é apenas formal. Bolsonaro ganhou dezenas de milhões de votos com o apoio de dois "nanicos" partidários. Por outro lado, Geraldo Alckmin, ex-governador de S. Paulo, o candidato apoiado pelo PSDB (até agora o grande partido de oposição ao PT, e que em tempos esteve no poder), pelo PP  pelo DEM - os dois grandes partidos da direita tradicional - teve menos de 5%. E Henrique Meirelles, apoiado pelo grande partido kingmaker do centrão, o velho PMBD, teve pouco mais de um por cento. Ou seja, a ideia de partidocracia no Brasil não existe, porque são sobretudo votos de ocasião ou barrigas de aluguer para muitas candidaturas, o que se prova pela velocidade com que a maioria dos políticos muda de sigla - Bolsonaro e Ciro, por exemplo, já estiveram em meia dúzia de formações diferentes. Paradoxalmente, e na altura da sua derrota, o PT provou que é o único partido brasileiro com uma máquina estruturada e com um apoio fiel do eleitorado, mesmo sem Lula estar presente, o que poderá ser importante no jogo político dos próximos anos.

Os brasileiros votam sobretudo em caras e em personalidades fortes. Collor, Lula, FHC, como tem tempos votaram em Getúlio e em JK de Oliveira. Agora preparam-se para votar em Bolsonaro. O ex-capitão tem apoios corporativos fortes, dos sectores militares aos grupos de jovens turcos da nova direita, como o Movimento Brasil Livre. E a aposta nas redes sociais e nos meios de comunicação instantânea e de massas, como o WhatsApp, tem-se revelado uma mina num país em que as pessoas lêem poucos jornais e acham que a informação "está na internet". Tudo isso num panorama em que as pessoas se cansaram da corrupção extrema, da violência sem fim, da queda da economia. Claro que o PT não é o único culpado, como se comprova pelo mandato Temer. Mas  está igualmente na origem desses problemas, e obviamente grande parte da população não quer votar em quem não sabe sequer fazer um mea culpa e continua com a tese única do "golpe". além disso,  aquelas manifestações sempre a bater nas mesmas teclas "direitos LGBT" e sei lá que letras mais, a "transfobia", as minorias, etc, pouco dizem à esmagadora maioria dos brasileiros, mais preocupados com problemas gerais do país. Por cada uma dessas manifs, Bolsonaro devia ganhar mais uns milhares de votos. E pouco se ouviu falar de temas ecológicos, como o perigo que ameaça a Amazónia. E também não se subvalorizar deve o factor "desilusão": o partido e o homem que anunciavam uma nova era (e que durante uns anos lá se ia cumprindo) revelaram-se afinal iguais aos outros.

E no meio desse turbilhão, há cento e quarenta milhões de eleitores - 14 vezes a população portuguesa - que podiam colocar do avesso todas as análises feitas sobre as eleições e mostrar que estes escritos são tão válidos como muitos outros. Aguardemos.

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Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas - sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual ...). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): "Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018". 

 

O documento é interpretável, claro. E, assim sendo, cada um o lerá segundo a sua ... decisão prévia. Está acessível na ligação que incluí mas copio a sua conclusão: "Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!". Cada um que tire as suas conclusões, segundo a sua ... decisão prévia. Mas, caramba, é difícil não encontrar aqui uma elíptica alusão, como é tão habitual na igreja católica, à retórica (e às intenções proclamadas) do capitão Bolsonaro.

 

Interessam-me as reacções portuguesas ao caso bolsonar. A simpatia para com ele, óbvia ainda que implícita - pois explicitá-la ainda tem custos sociais -, na comunicação social e na política. Jornalistas e bloguistas, "comunicadores" como agora se diz, e políticos que se situam na direita elaboram-se com enleios de neutralidade. Esta tendência anuncia o que um ambiente sociocultural e profissional lisboeta está pronto para acolher, caso surja a hipótese (muito implausível em Portugal, ainda assim). Dessa retórica "neutralidade" é exemplo o que li ontem de um conhecido e veterano bloguista: é "paternalismo" botar opinião sobre as eleições brasileiras! 15 anos depois do advento dos blogs, onde participou e onde nos seus blogs e em tantos interactuantes imensa opinião se botou sobre as várias eleições americanas, francesas, russas, a "hermana" Espanha, angolanas, Tsipras e Varoufakis, se calhar até brasileiras, brexits, autonomias, etc. Mas agora? É paternalismo opinar. 

 

É interessante pois este é um meio, político, social e cultural, que usualmente se revê no CDS, com mais ou menos flutuações. Partido que se reclama (ou reclamou) da democracia-cristã, da doutrina social da igreja e com ligações, muito legítimas, ao mundo eclesiástico.  Ora muito dos agora "neoneutrais", simpatizantes, militantes (e até presidentes, como Cristas, a quem referi ontem), fazem "orelhas moucas" ao (elíptico) parecer eclesiástico. 

 

Deixemo-nos de subterfúgios, a democracia-cristã portuguesa morreu. E esta direita "neoneutral" anseia por um "movimento de capitães". Deste tipo bolsonar. A igreja? Serve para a pompa do casamento dos filhos, enterrar os conhecidos, quiçá a missa do galo, para alguns só alguns ainda para um convívio dominical. Eu, ateu e nem baptizado, conheço mal a Bíblia. Mas tenho a ideia de lá ter lido "bem-aventurados os hipócritas, porque eles serão fartos" (Mateus 5: 3-9). 

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Cristas e o Brasil

por jpt, em 26.10.18

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"J'ai vu des démocraties intervenir contre à peu près tout, sauf contre les fascismes" é daquelas frases de Malraux que vingaram na Readers Digest de hoje, a wikipedia (e aviso já que não aceitarei comentários invectivando Malraux por não ter criticado Chavez e Maduro).

 

Cristas anuncia qual seria o seu voto no Brasil. Uma inutilidade, poderia ter-se escudado na não ingerência. Mas opinou, igualando as candidaturas, como se se filiando na crescente simpatia pelo bolsonarismo entre locutores da direita portuguesa. Fez mal. É certo que a sua opinião é irrelevante naquelas eleições (que aparentam estar já decididas - ilustra-o o já velho Chico Buarque terminando em lágrimas o seu discurso num recente comício da candidatura de Haddad). Mas falhou a oportunidade para explicitar o conteúdo exigível ao arco do poder.

 

Será muito difícil a uma líder democrata-cristã sentir, e expressar, simpatia por uma candidatura conjunta de um socialista (de ala esquerda?) e de uma comunista (uma comunista latino-americana, decerto mais castrista do que berlingueriana, isto usando imagens para gente mais idosa do que Cristas). Mas três aspectos poderia considerar:

 

1. o primeiro é interno ao Brasil. O PT dominou o XXI daquele país, ganhando várias eleições presidenciais. Por criticável que seja a sua governação, por evidente que seja a sua degenerescência, por problemático que seja o seu programa actual, nesse período não usou o poder para terminar o regime democrático (para o minar?, porventura; para o terminar?, não.) e não tem uma maioria no fragmentado sistema parlamentar que lhe permita hipotéticas (reais?) veleidades de lhe subverter as características essenciais. Já Bolsonaro vem anunciando, até mesmo agora, uma semana antes, um conjunto de propósitos à total revelia da democracia (prisões, expulsões, "nomeem que mais ...").

 

2. o segundo é global, a questão ecológica. Nos avessos a Bolsonaro isto nunca surge, poluída que está a "mente colectiva" pelas agendas neocomunistas, as do altergender vs cisgender, do racialismo e - neste caso em particular - do mulherismo. Se a ecologia não foi verdadeira prioridade do PT, Bolsonaro anuncia-se como campeão do seu desrespeito, em modalidades irreparáveis (direitos individuais e colectivos podem-se repor, a demência omnívora face à natureza é irreparável). Ora esta temática é hoje colossal. Apesar de grande silêncio no debate português, o que bem mostra o atraso cultural do país (ainda que os Erasmus já sejam geração de poder). É o equivalente ao debate nuclear (guerra atómica, energia nuclear) nos anos 70s e 80s, o ocaso da Guerra Fria. Ou até mais relevante, pois menos polarizado quanto a centros de decisão.

 

3. o terceiro é político, principalmente europeu. O pós-guerra deu-nos este sistema democrático ao qual os comunistas (nas suas diferentes versões) pertencem. Pode ser um oxímoro, podemos considerar que eles estão de corpo mas não de alma dentro da democracia. Mas em sendo-o é um oxímoro funcional, estruturante do sistema político com melhores resultados económicos e sociais - não será um "fim da história" mas é um belo momento da história. Em Portugal os anteriores a Cristas lembrarão Melo Antunes a cercear o extremismo anti-comunista considerando-os integrantes da democracia portuguesa e os mais lúcidos saudarão também a democraticidade do general Eanes, nesse mesmo sentido. Mas será de lembrar que nessa mesma era a DC italiana (uma das matrizes do CDS) teve a grandeza estratégica de fazer um "compromisso histórico" com o PC. E foi este regime europeu englobante que trouxe para as interacções democráticas os grandes PCs europeus (Berlinguer, Marchais, Carrillo - o tal de "eurocomunismo"), e foi integrando os maoístas, enverhoxistas e 68ístas nos PS locais e nos ecologistas. Ora deste sistema amplo, deste "arco do poder" representativo consagrado no pós-guerra não constam, por definição, os fascismos. Exigem-se "cordões sanitários" em seu torno, para preservar os regimes democráticos. Há excepções, e fala-se de Finni, integrado nessa primeira bolha populista moderna, mas esse mau sinal estava subordinado ao peculiar (mas não fascista) Berlusconi e correlacionou-se à desagregação do sistema partidário italiano. E falarão do partido da Liberdade holandês ou do Interesse Flamengo, mas esses são muito mais movimentos soberanistas (e independentista no caso belga) do que fascizantes. E mesmo assim são integrados nestes peculiares regimes de coligações governamentais que são verdadeiros estudos de caso de concatenação política. De facto, os fascismos mais ou menos explícitos são ostracizados, como o foi Haider pela comunidade da Europa e pela sua Comunidade Europeia. Tal como esta coisa bolsonara de agora o parece dever ser ... Fernando Henrique Cardoso, sábio e conhecedor como nenhum de nós, di-la outra coisa que não fascismo, fruto desta nova era, um "transfascismo" se se quiser. Porventura será, mas tem todas as características que extravasam o primado do estado de direito e a democracia liberal. 

 

Nesta declaração de neutralidade, desnecessária ainda por cima, Cristas mostra que nada disto apanha ou considera. Mostra-se sensível aos discursos de direita assanhada que já por ali pululam - muito pela analogia que se faz entre o podre PT e o degenerado PS socrático do qual este costismo recusou apartar-se (Augusto Santos Silva na tétrica declaração de que não faz "julgamentos éticos" quando é de avaliações políticas que o seu partido, e o país, necessita; um governo actual onde as pastas estratégicas estão nas mãos de gente que foi dos governos socratistas ou de seus admiradores ferrenhos). Mas essa analogia, que é grosseira, e mesmo que não o fosse, não é o fundamental. Cristas foi incapaz de dizer "não" a essa extrema-direita (ainda para mais agora que tanto se frisa que "um não é um não") e deixou-se, em ademane de "coquette", dizer-se namorável, se com melhores modos alheios.

 

O que lhe faltou, e assim sendo o que lhe falta, é a densidade de estadista. De perceber o que está em causa e ver lá à frente. Afirmar-se, e aos seus, como um motor de consenso democrático em torno de um modelo de regime. Aquilo que o socialista (de facto socialista, e isto vai sem acinte) Rui Tavares recordou há dias "No imediato, é preciso que a esquerda, centro e direita democráticas se unam contra os fascistas - chamem-lhes o que chamarem.".  É difícil isso, por muitas razões. Uma das quais é porque todos nós, avessos ao patrimonialismo socialista ou ao credo estatizante ou às agendas políticas pós-modernas/coloniais temos sido neste XXI constantemente "fascistizados" (homofobizados, racistalizados, lusotropicalizados, etc.). No mesmo processo de abaixamento intelectual que se vê agora na direita soberanista, apelidando os europeístas, as instituições democráticas e democratizadoras (por mais criticáveis que sejam) de "Bruxelas" como "estalinistas". Este tipo de radicalismo invectivador deixa máculas, dificulta articulações. E, como é óbvio, gasta as palavras - se quase todos nós fomos ou somos "fascistas" por uma qualquer razão como reforçar posições comuns contra outros "fascistas"? Mais, como delimitar esses ("trans)fascistas" de hoje?

 

Nada disto interessará a Cristas. Talvez mais preocupada com um ou outro deputado que poderá subtrair a um centro desnorteado, como o que vai agora. Incapaz de perceber que é agora o momento de afirmar o seu partido como trave. Até aproveitando os ventos deste tempo, sabendo-os depurar da pestilência que também transportam. 

 

E tudo isto, para além de Cristas, mostra também o final das "internacionais". Há algumas décadas as articulações partidárias internacionais tinham vozes mais ou menos comuns sobre os temas cruciais. Hoje estarão mais centradas na agenda parlamentar comum. Que nos dizem elas (quem são os seus presidentes? que relevância têm?) sobre tudo isto? Como articulam os seus partidos-membros e respectivos líderes? Que resta das ideologias? 

 

Adenda: no último fim-de-semana foi divulgado este filme com declarações de Bolsonaro. A uma semana das eleições, nas quais será vencedor promete colocar os apoiantes de Haddad ("petralhada") na "ponta da praia". Julguei que tal significasse expulsão (tipo "devolver às naus") mas nada disso: amiga, portuguesa mulher de direita, avisa-me que "ponta da praia" significa a base militar da Marinha na Restinga de Marambaia, em Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, um presídio de tortura e abate durante o regime militar brasileiro.

Negar a diferença, pelo menos de grau, entre este energúmeno e os malfeitores do PT e associados torna-se um bocado difícil. Que pensará a hierarquia católica portuguesa da líder do partido democrata-cristão que se demonstra relativamente neutral a este tipo de declarações?

 

 

 

 

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O acto de votar

por Alexandre Guerra, em 23.10.18

Contrariando a tendência que se tem verificado nas televisões, jornais e redes sociais em Portugal, não me pronunciei até ao momento sobre as eleições presidenciais no Brasil. Não o fiz porque nada ou quase nada tinha para dizer sobre um processo democrático num país soberano, onde os seus cidadãos têm total liberdade para escolher quem querem para liderar os seus desígnios. Até que ponto um cidadão português como eu, sem familiares brasileiros, que nunca viveu naquele país e que só lá esteve uma vez há muitos anos, teria o direito de “julgar” aquilo que um brasileiro, num país livre e democrático, deve ou não deve fazer, naquele que é o acto que considero mais sagrado da vida em sociedade? Nem sequer tenho o direito de julgar o voto de um meu concidadão. Mesmo que não concorde ele, por uma questão de respeito democrático e cívico, devo tentar compreender o seu gesto, mas nunca estigmatizar.

 

É quase como condenar ou criticar publicamente um casamento, a relação de um crente com a sua Igreja, os princípios que norteiam a educação que uns pais dão a um filho, ou seja, “contratos” sociais basilares que sustentam a vida em sociedade e que resultam, única e exclusivamente, da vontade e convicções individuais. Para mim, a relação do cidadão com o voto é igualmente sagrada e merece todo o respeito. Seguramente, todos temos direito à opinião e a proferi-la quando achamos que é oportuno, mas essa é uma escolha de cada um. Tenho uma opinião consolidada sobre o processo eleitoral que se vive no Brasil, mas nunca teria a pretensão de me colocar no papel de um brasileiro à boca de urna e de advogar aquilo que seria melhor para o seu futuro.

 

A democracia num Estado soberano é o direito de cada cidadão escolher de forma livre os seus governantes. Mas, como escrevi há umas semanas no Público, por não ser um sistema perfeito, a democracia pode provocar dilemas, pode gerar consequências nefastas para um sistema de Governo e país. E quando assim é, têm de ser as sociedades a reagir, com os seus mecanismos de “checks and balances” e, em último recurso, com a força imparável da vontade popular.

 

Independentemente das “fake news”, de todo o ruído mediático, dos excessos da campanha, das perversidades das redes sociais, os brasileiros têm ao seu dispor toda a informação para exercer um voto livre e consciente. Um voto dotado de todas as condições para que cada eleitor possa exercer o seu direito cívico da forma que bem entende. Ao depositar o boletim na urna, a responsabilidade do voto é apenas sua e só sua.

 

Não me parece que a moralidade e ética de cada cidadão seja um bom argumento para justificar escolhas individuais em democracias livres. De certa maneira, quando alguém critica o voto de um eleitor, pressupõe-se uma certa condescendência e até arrogância moral de quem "julga". Em Portugal, nos últimos tempos, muitos analistas e comentadores (na verdade, activistas) não se têm coibido de fazer esse exercício, debaixo de um pseudo-manto de clarividência espiritual e intelectual que muitos advogam para si próprios. Lendo e ouvindo muitos destes “iluminados”, depreende-se que quem vota em Bolsonaro é imoral e quem vota em Haddad é virtuoso. Será mesmo assim?

 

Não me identifico com este tipo de visão. Identifico-me, sim, com o princípio democrático do voto livre e da consequente responsabilização desse mesmo acto. No “day after” não é apenas o Presidente eleito, seja ele qual for, que terá de prestar contas a “todos” os brasileiros, é também o eleitorado que terá que assumir as suas responsabilidades. Tudo pode correr bem, mas também tudo pode correr mal. E se o processo for doloroso, será o povo brasileiro que sofrerá as consequências das suas próprias escolhas, mas também lhe caberá a obrigação de encontrar as respostas para combater os males da sua sociedade.

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Brasil (e não só)

por jpt, em 20.10.18

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Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

 

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

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Os pirilampos

por jpt, em 08.10.18

 

(Transcrevo um postal meu no facebook, apenas elidindo uma expressão trocada pelo seu acrónimo):

 

Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

1 - tenho várias ligações-FB de veementes adeptos desse partido. Não todos mas vários, até dos mais arreigados (tipo com fotos de PPC afixadas nos murais), transpiram simpatia pelo efeito bolsonárico, entre o sarcasmo e a ironia face aos escombros da "esquerda" e a empatia com os dichotes do futuro presidente. Tenho alguma dificuldade em compreender como quem todos os dias defende a prévia PGR (como eu o faço) tem algum apreço por um tipo que proclama a tortura como um necessário instrumento de investigação; que quem se ira com MRS a exigir silêncio substantivo a Cavaco Silva considere despiciendo que se proclame a necessidade de matar Fernando Henrique Cardoso; que indignados com os kamovs de Costa e seu "não me faça rir" diante da desgraça florestal lusa achem piada ao anúncio da privatização dos restos da floresta brasileira; e por aí adiante. Sarcasmo ou pirraça para serem laicados que tudo isso seja.

Acho que esta gente vai ser um problema ... para o PSD, coito deste rebotalho. E digo-o com pena, preparado que estava para votar em PPC (pessoa que isento desta vergonha toda) na sua desejável candidatura contra o inaceitável PR que vamos tendo. Mas se na sua base de apoio abundarem estes piadísticos desprezíveis isso ser-me-á impossível. Por questões ideológicas: pois se nada tenho contra as aspirantes a modelos (como a actual gentrificação da prostituição consigna) tudo me move contra aquilo, tão diferente, dos "fdps": esta mescla de blasés imbecis e de lineares fascistas.

2. Muitos devaneios se escreveram sobre o Brasil (ainda há pouco aqui vi transcrição de uma intelectual pomposa botando ontem que são os ricos que apoiam Bolsonaro. Viu-se ...). Mas talvez o mais significativo foi o que li ontem, um enfático apelo de uma intelectual a um não Bolsonaro em nome dos "mulheres, homossexuais, afrodescendentes, ameríndios". Um tipo olha para isto e pensa "quer-se dizer, um gajo como eu, homem, medianamente heterossexual, totalmente eurodescendente, não serve?". Ou vai como mero "companheiro de viela"?

Talvez tudo isto promova um "efeito Bolsonaro" em algumas mentes: por um lado, e de uma vez por todas, a consciência de que a criminalização do exercício de funções políticas, que o PT praticou, promove a extrema fragilização das instituições e das adesões democráticas. Ou seja, que não é preciso esperar que o deputado Galamba, tarde e a péssimas horas, se pronuncie contra o fartar vilanagem para que as pessoas se sintam legitimadas para criticar a "esquerda"; e, por outro lado, a percepção que esta visão comunitarista, centrada na imaginação e estrategização de raças, géneros, comunidades de crentes e tralhas afins, é uma mera importação de agendas e modos de pensar, e é insuficiente. E incompetente. Por mais simpáticos que sejam (alguns) objectivos. E pensar que há que largar este danado radicalismo cristão, a fusão de poder(es) e culpa, alimentado pelas esquizofrénicas ciências sociais embrenhadas na cartografia denunciatória e ilegitimadora dos (micro)poderes. Pois estes, "injustos" que surjam, são ordenadores, são vistos como tal e, afinal, são requeridos como tal. Como se viu, ai, ai, ontem. Por maiores ou melhores "políticas" que os queiram combater ...

Há sempre uma outra solução, a tradicional: dizer que os outros estão alienados quando pensam/actuam diferente do que nós pensamos. E que estão iluminados quando connosco concordam. Honestamente, aos 54 anos (e dito trumpista, homofóbico, quase-nazi, ressabiado, invejoso, fascista e, mais-do-que-tudo, lusotropicalista), nada percebo do Brasil e pouco mais sobre o resto. E gostava de ser algo iluminado. Mas estou farto destes pirilampos que se acham focos eléctricos.

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As eleições no Brasil.

por Luís Menezes Leitão, em 08.10.18

Os resultados das eleições brasileiras mostram um país à beira do abismo, com um candidato de extrema-direita radical quase a ser eleito à primeira volta. Isto é um sintoma de uma sociedade em colapso, onde um povo está disposto a trocar a sua liberdade por uma simples promessa de segurança. Mas é verdade que a insegurança no Brasil atingiu o extremo. Estive em São Paulo no fim de Agosto e, quando me levaram a jantar, avisaram-me de que podia estar tranquilo porque o carro era blindado. No dia seguinte de manhã, vi na televisão que um desgraçado que tinha ido de bicicleta comprar pão, como fazia todos os dias, fora morto sem qualquer motivo, apenas por uma bala perdida. Pensei logo que num país que se deixa chegar a este ponto tudo pode acontecer.

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Bolsonaro e Trump

por João André, em 03.10.18

Leio em muitos lados a comparação entre Trump e Bolsonaro e fico incrédulo. Bolsonaro não é Trump. Trump é um populista, com tendências autoritárias e uma ténue compreensão de democracia. No entanto é o presidente de um país com créditos democratas bem fundados e que compreende que tem limites no seu poder (mesmo que não goste deles).

 

Bolsonaro é um fascista que apoia ditadores, louva torturadores, ameaça mulheres, gays e pessoas não brancas. Se for eleito (o que é improvável, embora as alternativas não sejam para sorrir) Bolsonaro ou será um presidente paralisado pela sua incapacidade de se mover em democracia (pelo que percebi, só conseguiu passar 2 leis em toda a sua carreira de mais de duas décadas no senado) ou optará pela força. Nenhuma das opções é agradável e são infinitamente piores que aquilo que acontece nos EUA.

 

Trump é mau, não tenho dúvida. Mas Bolsonaro seria um desastre.

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A propósito de Bolsonaro

por jpt, em 03.10.18

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Mais dois textos péssimos sobre Bolsonaro, o "Quem tem medo de Bolsonaro" no "Público" e o "#VocêsTambémNão" no "Observador". Ambos higienizam Bolsonaro, até dulcificando-o. O primeiro é mais simples, criticando as deputadas portuguesas por protestarem com o candidato fascista brasileiro mas sem se oporem a Maduro, o títere venezuelano, o que lhes ilegitimará a "virtude" denunciatória. Sim, tem alguma razão, e vários factores justificam a nossa atenção na Venezuela - o respeito pelos princípios democráticos logo à cabeça, a grande comunidade emigrada e lusodescendente, o facto de ser um enorme produtor de petróleo e, claro, a rábula do "Magalhães", mais um item da tramóia socratista que até hoje assombra o nosso país.

Mas este argumento, que é muito comum, tem algo que se lhe diga: é que políticos, articulistas e locutores de redes sociais que se aprestam a invectivar Maduro também se calam face a Duterte, excepto, porventura, quando o pérfido líder do maior país católico asiático insulta o papa; e se protestaram contra o (ex)marxista Mugabe nada dizem face aos desmandos do (nada)marxista Museveni; e se lhes ocorre criticar a teocracia iraniana não leio muitos "militante do CDS" - como assina Borges de Lemos, assim explicitamente associando o seu partido na tralha que alinhavou - a invectivarem a ditadura ateocida saudita, nem a do Qatar, para onde a Federação Portuguesa de Futebol, organismo tutelado pelo estado, contribuiu para enviar o apetecível negócio do Mundial de futebol. Ou seja, se isto é para criticar os zarolhos, então é melhor que o "militante do CDS" que desarticula no "Público" se dezarolhe, tal como os seus concordantes se devem dezarolhar. Porque assim estão a cuspir para o ar, a ilegitimarem as suas "virtudes" críticas, políticas.

O segundo texto, de Rui Ramos, é mais refinado, a expressão alta, editada, em voz de intelectual relevante de uma linha de textos em jornais e redes sociais de figuras menores sobre esta matéria. Confesso a minha irritação, repulsa mesmo, vendo que pessoas que se reclamam de uma direita democrática (ou mesmo de um centro-direita) - os termos valem o que valem, acima de tudo têm usucapião simbólico - diante da erupção de um tipo como Bolsonaro num país que nos é tão relevante (política, cultural e economicamente) como o Brasil, têm como pulsão da escrita não a crítica a esse energúmeno mas sim à dos críticos ao energúmeno. Para Ramos a questão da ascensão de Bolsonaro, tal como a anterior de Trump - assim elidindo que, por menos que se goste de Trump, os discursos de ambos não são compagináveis -,  centra-se nisto: a malevolência dos discursos e práticas da esquerda radical. Isto não é, como faz com muito tino, Luís Menezes Leitão considerar que as modalidades histriónicas de luta anti-Bolsonaro são incompetentes, alienam opositores. Isto é apontar o cerne da questão à esquerda e não ao movimento fascizante. 

Isto tem dois corolários e uma dimensão prévia: o primeiro é, que pela ausência de discursos de políticos, de intelectuais e de sub-intelectuais de direita/centro e até mesmo da esquerda democrática - e decerto que em muitos casos por higiene, pela aversão dos hipotéticos locutores em se verem misturados com o trauliterismo da extrema-esquerdalhada -, se deixa o monopólio do repúdio aos movimentos anti-democráticos às expressões dessa extrema esquerda e da esquerda folclórica. Há o abandono de um campo de (re)afirmação dos valores democráticos a esse corropio de agit-prop. E depois queixam-se que são estes desvairados movimentos que causam e/ou reforçam os fenómenos à extrema-direita. Isto tem algum fundamento? Em tudo isto há mesmo o matizar da bestialidade, que transpira condescendência: "Bolsonaro tem um jeito agressivo e grosseiro", reduz Ramos! Estará o autor a brincar? Ou está a deixar que só entre a tatuada Isabel Moreira e os enverhoxistas Rosas e Fazenda se diga o óbvio: que Bolsonaro é um fascista do piorio, completamente avesso aos valores democráticos - esses mesmos que o centro e a direita afirmam.

O segundo corolário bem que se casa com este, e vem, até por coincidência, no belo texto de ontem de Adolfo Mesquita Nunes,  "A afirmação da direita" no "Diário de Notícias: uma direita politicamente deprimida e intelectuamente deficitária que pensa a realidade em função do posicionamento da esquerda (seja lá o que esta for), esta é que é o pólo dinamizador ("a esquerda não gosta do Bolsonaro?" "então eu até nem digo mal do gajo").

E nisto tudo continua-se a dizer uma semi-verdade que é de facto uma falsidade ("com a verdade me enganas"): que são estas expressões trauliteiras e maximalistas, estas tipas com as mamas e as bundas à mostra nas manifestações, que reforçam os bolsonarismos, que os causam, que é a extrema-esquerda que os "empodera" (como agora se diz em péssimo português). Não é verdade, o que potenciou Trump - fenómeno que R. Ramos associa ao de Bolsonaro - foi, em primeiríssimo lugar, a incapacidade dos republicanos (da direita americana, se se quiser) de promover dentro de si (Trump nem era do partido, convém lembrar) uma alternativa enérgica e consistente o suficiente para enfrentar uma estafada Clinton. Tal como o que reforça Bolsonaro é a incapacidade do centro e da direita brasileira (naquele espectro político demencial) de afirmarem movimentos e personalidades o q.b. significantes. Essa é a verdade factual, não são os guinchos da Isabel Moreira, quais bateres de asas da borboletas no Atlântico Austral, que há limites para isso da "fractalidade" fazer medrar o mal.

Esta esquerda folclórico-neocomunista demoniza os adversários do momento, como o RR avança? Sim. E nós, bloguistas portugueses vimos isso em Portugal, e até podemos sorrir na memória, como Pacheco Pereira do Abrupto era o diabo na terra, a reencarnação de Primo de Rivera ou coisa assim e desde que passou a ser o ideólogo da geringonça regressou ao estado humano. E notei-o, chocado, no meu regresso ao país, nesta constante invectiva dos geringôncicos socratistas aos seus críticos como "invejosos, ressentidos, ressabiados", o tal argumento que imputa deficiência moral ou doença mental (ranço/podridão, raiva) aos adversários políticos, típica modalidade bolchevique. E está espalhado esse tique velho-comunista. Mas, sem rodeios, não é essa a questão importante face ao bolsonarismo.

Finalmente, há o tal ponto subjacente. É que o matizar da relevância bolsonar, esta remetência para uma mera "grosseria", estes sorrisos que se vão vendo nos textos e sub-textos das redes sociais diante de um aparente mero "politicamente incorrecto", esta pulsão da escrita direccionada para a crítica ao críticos e não para a imundície, denota algo de profundo: em muitos, para além do paroquialismo do isabelomoreiracentrismo, há uma muito superficial (para não dizer pior) adesão aos valores democráticos. É isso que sai por todos os poros destes textos, por mais militantes ou simpatizantes do partido de Amaro da Costa, Francisco Lucas Pires ou Mesquita Nunes surjam. De facto e se, tal como o RR escreve, não há grandes diferenças entre Sanders e Trump quanto à valia dos tratados internacionais também não há grandes diferenças quanto à valia dos principios democráticos entre os Fazendas e Mortáguas e estes redutores de Bolsonaro a um atrevido algo grosseiro.

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# Ele Não?

por Luís Menezes Leitão, em 01.10.18
Acho a estratégia de combate a Bolsonaro que está a ser seguida no Brasil completamente errada. Um slogan de campanha a dizer "ele não" equivale a dizer "todos menos ele", o que dá a entender aos eleitores que nenhum outro candidato é suficientemente bom para lhe disputar a eleição. Isso também aconteceu nos EUA em que o partido democrata, em vez de louvar as qualidades de Hillary Clinton, assentou a campanha nos defeitos de Donald Trump, com o resultado que se viu. Esse é um erro básico de estratégia em qualquer campanha. Como dizem os especialistas, "there's no such thing as bad publicity".

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Ferro e fogo no Brasil

por João Pedro Pimenta, em 14.09.18
 
No último 7 de Setembro o Brasil comemorou mais um aniversário. Dificilmente poderia ser mais atribulado. Poucos dias antes tinha ardido o seu Museu Nacional, a memória de duzentos anos de acervos e colecções de paleontologia, etnologia, geologia, etc, espalhados pelo velho Palácio de S. Cristóvão, a morada da família real portuguesa aquando da sua prolongada estadia no Rio. Naquele edifício moraram seis monarcas ou futuros monarcas (entre os quais uma futura Rainha de Portugal e um futuro Imperador do Brasil, que aliás eram irmãos), e ali se delineou o futuro de Portugal e a independência da gigantesca colónia, entretanto promovida a Reino. O estado de degradação e negligência do edifício e do seu conteúdo, divulgado após o desastre, chocam pelo terceiro-mundismo da coisa. Sabe-se que já se tinha assinado um acordo que libertaria fundos para obras de fundo, o que só avoluma a tragédia do caso: afinal os meios existiram, mas a salvação chegou tarde demais. O caso, como seria de esperar, despoletou acusações e discussões políticas de todo o tipo, incluindo manifestações frente à carcaça fumegante do edifício, com bandeira empunhada e tudo, acusando os actuais poderes instituídos. A verdade é que o último chefe de estado brasileiro a visitar o Museu e a casa dos seus longínquos antecessores reais e imperiais fora Juscelino Kubischek de Oliveira - esse mesmo, J.K, o construtor de Brasília. Desde então mais nenhum tinha visitado, oficialmente, ao que se sabe, aquelas salas. Nem seque Fernando Henrique Cardoso, um reconhecido intelectual. É uma triste metáfora do desinteresse a que os dirigentes do Brasil votaram a memória histórica e a cultura do país, e por sua vez, o incêndio é ele mesmo uma metáfora e uma lição do momento que vive o país.
 
 
Poucos dias depois, o candidato Jair Bolsonaro, à frente nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de Outubro, é esfaqueado por durante um comício em Minas Gerais, ao que parece por um desequilibrado que já militara no PSOL (o equivalente ao Bloco no Brasil). À primeira vista parece quase uma ironia eleitoral, já que Bolsonaro não se cansa de apelar à violência contra os seus adversários e é um saudosista da ditadura militar. É daquelas figuras que se pode apelidar de "fascista" sem provocar grandes reclamações, além de  ter demonstrado nos debates televisivos que não dá muito mais do que aquele discurso básico. Pessoas que elogiam Marine LePen dizem cobras e lagartos dele. Só que o Brasil já não é uma ditadura e o candidato teve a devida autorização para se apresentar a eleições. O normal seria poder andar pela rua sem receio de sofrer atentados. Se eventualmente apela ao ódio, isso é responsabilidade das autoridades competentes, eleitorais, policiais ou outras, não de pobres  diabos armados.
 
 
Não se sabe se o atentado terá o efeito "Marinha Grande", mas é bem possível que tenha acrescentado mais uns votos ao militar. De qualquer maneira, é mais um capítulo do ódio que percorre a política e a sociedade brasileira. Vale a pena lembrar que este ano já tivemos tiros dirigidos à caravana de Lula (tal como aconteceu com Bolsonaro, não faltaram as teorias de "fingimento") e o assassínio da vereadora Marielle Franco, no Rio. E ainda os episódios da prisão de Lula, da sua politização e dos desgaste que isso provocou ao PT e aos seus apoiantes. Só mesmo no último minuto é que o partido que durante anos governou o Brasil confirmou o ex-prefeito de S. Paulo e ex-ministro Fernando Haddad como candidato presidencial. Ao menos os "petistas" livram-se de ver o seu candidato acusado de ser "analfabeto" (esta parcela será mais facilmente preenchida por Bolsonaro). No meio deste carrossel de intriga, ódio, e violência que mina o Brasil, temos ainda dois candidatos minimamente decentes, que se chegarem à segunda volta terão a eleição quase garantida. São eles os repetentes Ciro Gomes (que tem aquele pequeno defeito dos políticos brasileiros de ter feito parte de não sei quantos partidos, parando agora no clássico PDT, fundado por Leonel Brizolla) e a ecologista evangélica Marina Silva. Junte-se-lhes Geraldo Alckmin, político experiente mas também algo desgastado, pelo PSDB, e apoiado pela direita clássica, Henrique Meirelles, até agora ministro das finanças de Michel Temer e primeiro candidato do hegemónico MDB desde ha mais de vinte anos, e mais os habituais candidatos de partidos minoritários, formações de esquerda radical ou evangélicos lunáticos. A eleição da primeira volta promete. A da segunda está para se ver. Uma coisa é certa: o vencedor já não irá a tempo de visitar o Museu Nacional do Brasil. JK foi mesmo o último. Se alguma coisa se tentar fazer ali, será um pastiche entre as paredes do velho Palácio de S. Cristóvão. A maior missão será impedir que o Brasil, para mais encurralado entre uma Argentina entre grave crise económica e o êxodo de venezuelanos fugidos à tirania de Maduro, pegue fogo.
 

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Deve haver algo errado

por Pedro Correia, em 10.09.18

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À minha volta, escuto e leio proclamações de regozijo pelo atentado quase fatal ao candidato presidencial brasileiro Jair Bolsonaro. Indago os motivos de tanto júbilo. Dizem-me que o indivíduo em causa terá feito a apologia da violência e da barbárie. Deve haver algo errado nisto. Mas ainda não percebi bem o quê.

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As eleições no Brasil.

por Luís Menezes Leitão, em 27.08.18

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É difícil uma revista conseguir retratar melhor o sentimento que hoje assola o Brasil. Aqui em São Paulo, onde me desloquei em viagem de trabalho, ninguém tem quaisquer saudades de Dilma Rousseff, que acusam de ter deixado a economia de rastos, embora considerem que Temer trouxe apenas melhorias insignificantes. Quanto a Lula, apesar da sua enorme popularidade, ninguém o dá como possível candidato, mesmo que seja libertado, em virtude da lei da ficha limpa que ele próprio fez aprovar. O seu substituto Fernando Haddad teve um mandato desastroso como prefeito em São Paulo, nem sequer tendo conseguido ser reeleito, pelo que não levará os votos dos apoiantes de Lula, a menos que este se envolva intensamente na campanha dele, para o que teria que ser libertado. Os mercados veriam com bons olhos a eleição de Alckmin, do PSDB mas este não descola nas sondagens e tem o maior índice de rejeição dos candidatos. Quanto a Bolsonaro, espera na sombra, nem sequer se dando ao trabalho de ir aos debates, esperando ser eleito da mesma forma que Collor o foi em 1989, como um tiro no escuro por parte daqueles que não queriam ver Lula na presidência, e que deu o resultado que se sabe. Mas, nesta eleição, aqueles que votarem não estarão iludidos, sendo o pavor e a rejeição que vão ditar as escolhas do eleitorado, que bem pode dar um grito nas urnas. "Les jeux son faits".

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