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Delito de Opinião

Para lá do Marão... (2)

Cristina Torrão, 11.11.25
Continuando a saga da "língua tcharra", transcrevo aqui um esplêndido diálogo, criado por Rui Rendeiro Sousa. Esta série também serve para mostrar aos portugueses sem raízes transmontanas que não há apenas uma "pronúncia do Norte". O falar do Nordeste transmontano nada tem a ver com o do litoral, nomeadamente, do Porto e da província do Minho.
 
Uma dica: ler alto ajuda a perceber.
 
 
(Advertência: O diálogo que a seguir será apresentado, é ficcional, porém baseado em memórias guardadas. É um retrato, o mais fiel possível, da forma de falar da minha Avó Maria, oriunda de uma aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros. Forma de falar que, quando à aldeia ia, absorvia e procurava imitar. Trata-se, apenas, de uma transcrição respeitando a original pronúncia, com todos os fenómenos fonológicos à mesma associada, onde entram paragoges, africadas, betacismos, apócopes, e demais designações estranhas. Em simultâneo respeitando a quase inexistência de vogais átonas, o que conduz, p.e., à recorrente substituição de [o] por [u]... Não se trata de nenhuma forma «científica», sempre tendo em conta que há variações regionais, quer no léxico, quer na pronúncia. Apenas para precaver eventuais protestos...)
 
- Ó mou filhu’e, já tchigaste?
- Ó bó, bote cá um beiju’e! E um tchi-curaçãu dus sous, mim arrotchadinhu’e!
- Fizeste boa biaige? Já te fiz’u café nu pote, q’és ua malga dele? Já te bou pur um cibu de persuntu’e. Abonda di um pão da arca, que já te cort’um carólu’e. Assenta-te aí, mou filhu’e, trai u môtchu’e.
- Ó bó, deixe stare. Só bim pr’á bere.
- Ai u diatchu du raparigu’e! Daqui num sais sim m’rendares, bô! Q’inda te tchegu a roup’ó pêlu’e, pur’i, q’inda sou capaze! Bá, sabes q’stou a mangare, que da tu’ábó nunca alombaste. Stás um home, mas tens d’aparare essas repas’e. Bá, bota lá, q’és ua nabalha, ou trou’xeste a tua?
- Um home que bai pr’ó mare, prupara-s’im terra, num é assim que dize?
- Ó depeis fais um fabore à tu’ábó? Bais ó s’queiru’e, e trais ua gabela de guiçus’e, e de caminhu’e, trai um tóru p’ró depeis serbire de strafugueiru’e. Q’habemus de fazere um magostu’e, que já apanhei ua man’tchêa de caz’tanhas’e. Bá, trai um manhuçu de bides, mas das que já stão amanhadas co baraçu’e, oubiste!
 
A minha avó, naquele seu peculiar estilo de viúva sozinha, de muitos anos, que o meu avô já não conheci, gostava de emitir ordens. Não me incomodavam, afinal era a “nh’ábó Maria”, a única que conheci. E lá fui ao sequeiro, não sem antes passar a cumprimentar a “Marela e á Ruça”, companheiras de aventuras tantas. Um dia, que por vezes também era “atraganadu’e”, para que uma delas andasse, “tchiz’quei-le” num qualquer local que não apreciou, e levei com um “pinote”. Mas ficámos sempre amigos.
 
- Inda stibeste a talhar’us guiçus’e? Bem tempu te lubou’e. Bai à’dega, e trai u assadore, que stá lá imbarradu’e. E si’u q’és, trai binhu’e, mas inda num é du nóbu’e.
...
- Trai daí us lumes’s, ou assopra-le co fole. Num le botes as caz’tanhas sim le fazer um corte, olha que stourum, c’um catanu’e! Bá, rebir-ás, q’és um rudilhu’e, pra num te queimares, pur’i? Ó caralhitchas’e, aban’ó assadore, assim’e, p’ra tráse e p’ra diante. Bai ali pur’ua saca, pr’ás abafare! Ó depeis inda lebas uns bilhós’e.
 
É com alguma emoção de permeio, porém com imenso orgulho, que me recordo dos longos diálogos com a “nh’ábó”. À custa deles e de, um dia, dois colegas «alfacinhas» me terem perguntado que idioma falava a minha avó, questionando-me, por exemplo, o que era “butare as carabunhas pr’ó lume”, hoje me aturam aqueles que paciência têm para ler estas “tchabaz’quices”. É, também, uma forma de honrar e prestar uma sentida homenagem a todas as “Abós Maria” destas magníficas terras.
 
“C’ua lágrima nu cantu du ólhu’e”... “Bá, bou-me lá, c’os deseijus d’um bô f’riadu’e!”… Assim o diria a minha Avó Maria…
 

Rui Rendeiro de Sousa 02.jpg

 

Nota: O Rui Rendeiro Sousa deseja "bom feriado" porque publicou este post no passado dia 31 de Outubro. Resolvi assim deixar por igualmente estar escrito em "língua tcharra".

Para lá do Marão... (1)

... mandam os que lá estão. E durante muito tempo, foi mesmo assim.

Cristina Torrão, 08.11.25
Na verdade, no Nordeste transmontano, terras de Bragança, até há cerca de cem anos, não se falava Português, no dia-a-dia das aldeias. E, ainda nos anos 1970, os dialectos transmontanos eram de muito difícil compreensão para os compatriotas de outras paragens. Eu própria só comecei a entender a minha avó transmontana, a partir dos sete anos. Antes disso, não lhe entendia palavra, embora ela insistisse em me contar histórias e lengalengas. Também a minha mãe tinha sérias dificuldades em compreender os parentes e restantes habitantes da aldeia-natal do homem com quem casou. Hoje, já se tornou raridade encontrar alguém que fale "à moda antiga".
 
Todos nós sabemos que existe uma outra língua, em Portugal: o Mirandês. O que quase ninguém sabe, pois muitos estudiosos só actualmente têm chegado a essa conclusão, é que, em tempos, esse Mirandês não se confinava à região de Miranda do Douro, pois seria falado em quase todo o distrito de Bragança.
 
Um desses estudiosos é o Rui Rendeiro Sousa, natural de Macedo de Cavaleiros (o concelho onde nasceu o meu pai). No grupo Memórias e outras coisas... Bragança, do Facebook, ele tem publicado textos sobre essa "língua tcharra", que me enchem de nostalgia. E de pena. De nunca ter gravado esse falar, enquanto era quotidiano, na freguesia do Lombo, onde ia visitar a minha avó Ludovina Amélia Rodrigues. E, com a devida autorização do autor, decidi trazer alguns desses textos para aqui.
 
Não sei se os leitores e comentadores do Delito irão apreciar. Mas não posso deixar de o fazer. Não só porque estes textos me dizem muito. Também por fazerem parte de uma realidade portuguesa praticamente desconhecida em Portugal, nomeadamente, para quem não tem raízes transmontanas.
 
 
Ou um comentário que me “spritou’e”… E, outra “bêze”, a “língua tcharra e á proa”
 
Surpreendido vou ficando por, ao optar por escrever em modo “parolo”, assim bem ao género de “ua galdrumada”, parecer despertar um orgulho que supunha adormecido. Confesso que fico de olhos arregalados, boquiaberto, os meus genes trasmontanos ficando “spritadus’e” com tais inexpectáveis reacções.
 
Por entre todos os valiosos e gratificantes comentários, um houve que me “arrascanhou’e” este profundo orgulho, vaidade até, que sinto nestas terras, que não são melhores nem piores do que outras, todavia sendo MUITO diferentes. Já tive a oportunidade de deixar uma resposta no referido comentário, não apenas o agradecendo, mas informando que já me tinha dado o mote para “butare mais uas palabras’e”.
 
Para os curiosos, tratou-se do seguinte: «De quando em vez aparece um "visconde" que se diz transmontano que diz que em Trás-os-Montes não se fala/nunca se falou assim». “Ah peis é, tamém já nus apanhei’e, ós biz’condes e às biz’condessas’e”… Um apreço especial tendo por apanhá-los. Apenas e tão só porque, em simultâneo, com eles consigo falar na sua “língua fidalga” e na minha/nossa “língua tcharra”. O que representa “ua bantaige”…
 
Por “bantaige” ter mencionado, por vezes é preciso ter “curaige” para escrever assim, fazendo estas literárias “biaiges” por uma terra onde se “debagum nas baiges”. Terra essa onde parece não ter chegado, entre muitas outras coisas, o sufixo [-agem]. Por “bias” disso, ouvia dizer que éramos uns “selbaiges” que corrompíamos e falávamos mal a Língua Portuguesa. Acrescia, a essa observação, que essa forma de falar era de pessoas analfabetas, e que era muito semelhante ao Galego. O que a paradoxal me soava, porque fui, orgulhosamente, “paridu e criadu’e” nestas terras, e não era analfabeto. Mas também gostava de falar a “língua tcharra”…
 
Um dia, contingências da vida, resolvi aprender o tal de Galego. E até descobri que havia duas versões, o Galego-Português, seguido pelos mais puristas, e o Galego-Castelhano, adoptado pelos aculturados. Confusão me tendo feito que, essencialmente o Galego-Português, tivesse muito mais semelhanças com o Português propriamente dito, do que com a tal de “língua tcharra”. Mais tarde, tive o raro privilégio de, nestas andanças linguísticas, conhecer e privar com o meu saudoso amigo Amadeu Ferreira, um dos grandes instigadores e defensores da Língua Mirandesa. E lá me convenceu a aprender «Mirandés». Espanto meu, a “língua tcharra” da minha Avó Maria era “quaije” que igual ao tal de «Mirandés»! Até na ausência e transformação do [-agem] era «igualzinha»...
 
Idioma esse que também tem mais [u] que a Língua Portuguesa, como são bons exemplos «cumprar, cumbersa, frunteira, buber». Ou no qual sucede um processo fonológico de apócope, «comendo-se» a letra final em, por exemplo, «home» ou «onte», tal qual como a Avó Maria dizia. Tal como dizia “trasdonte”, por «anteontem», como consta do «Mirandés». Idioma no qual «depois de amanhã» é «passado manhana», expressão que a Avó Maria dizia «passado manhã». Coincidências… Mais havendo, como o «disse», que em «Mirandés» é «dixe», e a Avó Maria «dixu» pronunciava. Ou «fez», «fizo» em «Mirandés», «fezu» na pronúncia da Avó Maria. Senhora minha que não utilizava os [v], letra que, viria a saber, nem sequer consta do Alfabeto Mirandês. São incontáveis os exemplos das afinidades…
 
Nesta insanidade por perceber que não falávamos mal Português, «cada maluco com a sua panca», passei a estudar os mais eminentes Linguistas, portugueses, espanhóis e de nacionalidades outras. Entre os quais, o inevitável e insuspeito Leite de Vasconcellos. Personalidade que, instigado pelo seu grande amigo, o «nosso» Mogadourense Trindade Coelho, por estas terras andou, há sensivelmente 140 anos, para entender uma tal de «língua estranha» que por aqui se falava. Esclarecedores sendo os valiosos testemunhos que nos deixou, seguidos que seriam por outros eminentes Linguistas. E imaginem lá que idiomas falavam, na esmagadora maioria das terras do distrito, essencialmente nas da chamada Terra Fria, os nossos bisavós/trisavós? “Peis é!”… Ou aquilo a que ele designou por «Mirandês», que seria incluído no ramo das línguas Ásturo-Leonesas, ou dialectos daí derivados, alguns que até ganhariam nome específico, como o Riodonorês, o Guadramilês ou o Sendinês.
 
Posteriormente, outros desenvolvimentos surgiriam, que concluiriam que o tal de «Mirandés» já tinha tido uma extensão muito maior do que aquela a que hoje está confinado. Conclusões que advieram, não apenas do aturado estudo de processos fonológicos, mas também da permanência, na toponímia, de vocábulos de filiação «Mirandesa», sendo o exemplo maior as «Urretas» ou «Orretas» que abundam no cadastro toponímico das nossas freguesias. Ou palavras como «cochino» ou «cachico», tipicamente «Mirandesas».
 
Conclusão: NUNCA falámos mal Português! Falávamos, sim, idiomas de um ramo distinto do Galego-Português, idiomas que até o antecederam, do ramo do Ásturo-Leonês. O que me conduziu a aprender «Asturianu», e com isso melhor ainda percebendo que… NUNCA FALÁMOS MAL PORTUGUÊS! Como tal, para os “biz’condes e pr’ás biz’condessas’e”, cujos bisavós/trisavós até falavam em “língua tcharra”, este “rapaze ou raparigu’e, c’mu le quijerim tchamare”, como muitos outros iguais a ele, “paridus e criadus’e” nestas terras “selbaiges”, tem “ua bantaige” em relação aos “fidalgus’e”: é poliglota! E tão rapidamente fala e escreve, escorreitamente, em Português, a “língua fidalga”, como o faz em versões “língua tcharra”, as derivadas do Ásturo-Leonês.
 
Alguém me perguntava, recentemente, qual a minha nacionalidade. Respondi-lhe, a sorrir, que tinha dupla nacionalidade: Galego-Português por adopção, Ásturo-Leonês por essência.
 

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A origem do Mirandês

Cristina Torrão, 27.10.24

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Fotografia de 1914

Deparei, há dias, com um vídeo do Professor Marco Neves sobre o Mirandês, reconhecido como língua, pela Assembleia da República, há vinte e cinco anos. Infelizmente, tenho apenas este link do Instagram, não sei se há acesso ao vídeo por outro meio.

Costumo seguir os vídeos do linguista Marco Neves e este chamou-me particularmente a atenção, porque a língua mirandesa é algo que me tem ocupado, nos últimos anos, não tivesse eu uma boa costela transmontana – de “Trás-os-Montes Oriental”, acrescente-se, pois há grandes diferenças entre os distritos de Vila Real e de Bragança, incluindo os dialectos que se falavam nas aldeias.

O Professor Marco Neves vem clarificar um equívoco: muita gente pensa que o Mirandês começou por ser um dialecto do Português. Nada mais errado! Sabemos que o Português e o Galego têm a mesma origem. O Mirandês, no entanto, pertence a um outro grupo linguístico, o Asturo-Leonês, uma variante situada, geograficamente, entre o Galaico-Português e o Castelhano.

Acrescento (isto não vem no vídeo) que, à altura da formação de Portugal, Castela ainda não era o grande reino no qual se tornou mais tarde. O reino mais poderoso da Península Ibérica era Leão (ao qual pertencia o condado Portucalense). E, nesse reino, como é óbvio, não se falava Castelhano, mas Asturo-Leonês. Esta língua acabou por desaparecer. Falava-se na região que, das Astúrias, descia para Zamora e Salamanca e espalhou-se ainda mais para Sul, enquanto o rei de Leão deu cartas na Reconquista. Leão acabou, porém, por ser engolido por Castela, com uma (grande) ajuda de Portugal. A independência da nossa nação foi-lhe fatal. Enquanto, a Leste, Castela se tornava cada vez mais poderosa, a expansão de Afonso Henriques para Sul impediu a progressão do malogrado reino para Ocidente. Enfim, o nome ficou eternizado na grande região espanhola de “Castilla-León”.

Tudo isto para dizer que, no Portugal dos primeiros séculos, em vastas regiões das terras de Bragança, não se falava o Galego-Português, mas o Asturo-Leonês. Tenho seguido com muito interesse este estudo, através de Rui Rendeiro Sousa. Natural de Macedo de Cavaleiros, dedica-se, há mais de trinta anos, à História do seu concelho, tendo já publicado livros sobre muitas freguesias.

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Carrapatas, anos 1960 (desconheço o autor da fotografia)

Rui Rendeiro Sousa afirma que a língua, hoje conhecida como Mirandês, se falaria numa vasta região do actual distrito de Bragança. Esse idioma foi, ao longo dos séculos, sendo empurrado, pelo Português, cada vez mais para Leste, até se limitar a uma pequena zona circunscrita (a de Miranda do Douro).

Uma coisa é certa: quando eu era criança, não entendia as pessoas da aldeia-natal do meu pai, com o curioso nome de Lombo. Quase nem entendia a minha própria avó. Falavam Português, mas de uma maneira, digamos, estranha. Hoje, já quase ninguém fala assim. O sotaque transmontano continua a ser especial (não o confundam com o da faixa litoral Minho/Porto, não tem nada a ver), mas já nenhum português de outras paragens tem dificuldade em entender os naturais da região.

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Freguesia do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros (fonte: página da freguesia no Facebook)

Acrescento palavras do próprio Rui Rendeiro Sousa, até porque ele consegue muito bem demonstrar uma maneira de falar única e que começou a desaparecer nos anos 70/80 do século passado. Estas palavras são excertos de textos que vai publicando no Facebook, na sua luta pela verdadeira identidade do que ele denomina de “Trás-os-Montes Oriental”. O primeiro vem a propósito de um artigo sobre a mania de os nortenhos trocarem os “vês” pelos “bês”, acrescentando-se: «No passado, o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam a mesma língua, o galaico-português»:

Um Norte ao qual também tenho imenso orgulho em pertencer! Todavia, há dois «Nortes», geográfica, histórica, linguística, etnológica e etnograficamente. Por isso não dançamos por aqui o Vira Minhoto, nem Pauliteiros ou Caretos há pelo Norte Litoral… Mais orgulho ainda tenho em pertencer ao segundo dos «Nortes», o Interior, que nada tem a ver com o Litoral! E ainda mais orgulho tenho em pertencer a «Trás-os-Montes Oriental» denominação que se vem tornando tradição, no universo da historiografia, para designar, grosso modo, o território que corresponde ao actual distrito de Bragança!

No que respeita à publicação em causa, desconhecerá (naturalmente) a autora (e todos aqueles que a partilham), que pelas bandas do tal de «Trás-os-Montes Oriental», especificamente na tal de Terra Fria, não havia Galego-Português para ninguém (à excepção dos letrados da corte que para aqui vinham em públicos cargos). Havia, sim, um outro ramo, o Asturo-Leonês, do qual derivam os dialectos Riodonorês e Guadramilês, e a oficial Língua Mirandesa. Idioma este que até era o por aqui falado pelos nossos bisavós/trisavós… E no qual não há nenhuma troca de «vês» por «bês», ou o inverso, porque o alfabeto Mirandês nem sequer contempla a letra «v»! Dito de outra forma, enquanto a «Língua Fidalga», a norma-padrão Português, é uma evolução a partir do Galego-Português, a «Língua Charra», na qual se inclui o Mirandês e os dialectos com raízes aí, é uma evolução com origem no Asturo-Leonês.

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Fotografia de Artur Pastor (desconheço a data)

E a propósito da passagem, em 1884, do linguista Leite de Vasconcellos por Macedo de Cavaleiros:

Porque falavam os nossos “abós d’ua forma ztranha” e temos Pauliteiros em Salselas? [Salselas é uma outra freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros]

As “belhinhas” e medievais «Terras de Miranda» abrangiam, histórica e geograficamente, uma vasta extensão, que incluía, não só os concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, mas também uma grande parte dos concelhos de Bragança, Freixo, Moncorvo e… Macedo de Cavaleiros!!!

É por isso que (ainda) temos por cá Pauliteiros (os magníficos de Salselas!), e outros já tivemos…

Havia outras coisas, que ele [Leite de Vasconcellos] deixou magnificamente registadas. Nomeadamente a soberba essência dos nossos “abós”, os tais que falavam de uma forma “ztranha”. E é delicioso ver os apontamentos desse «básico» Homem que incluiu as Terras Macedenses no seu périplo, por cá andando “d’a cabalu’e n’ua burra”… E descansando numa hospedaria, que na altura era chamada de “stalaige”, porque os seus donos eram os “stalajadeirus’e” (e as “stalajadeiras’e”). E “habia deis im Macedu’e, pur’u menus’e”, não sabendo a qual dos dois terá solicitado repouso… Mas sei que, nessa época, pediu batatas para acompanhar o jantar e os convivas riram-se… Porque, a contrariar a realidade actual, na qual a “balula” é indissociável da nossa riquíssima gastronomia, nesse tempo dos nossos “abós/bisabós”, o digno tubérculo era produzido, quase exclusivamente, para “butare na bianda”… A dos “cutchinus’e”…

E “prontus’e”… Lá vou “intentandu’e” partilhar o tanto que “fêzu” o que “sêmus’e”, trazendo por aqui o muito que guarda uma terra que até já foi “mim piquerrutcha”…

Dizem, por «Terras de Miranda», no seu fantástico idioma, que também já foi o nosso, que têm imensa «proua an ser Mirandés». Deturpo-lhes a expressão, alterando-a para algo que melhor se me adapta, não a escrevendo em «Pertués», mas no original «Mirandés»: «proua an ser de Macedo de Cabalheiros»! Porque «ye a tierra adonde naci, a mie tierra»…

 

Castanhas assadas.jpg

Desconheço autor e data