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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 10.10.19

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Estou mais que escaldado. Tantas vezes vemos capas e primeiras páginas de revistas e jornais que não correspondem ao conteúdo. É uma burrice da parte de quem produz estes conteúdos informativos: enganam uma vez o cliente, mas não voltam a enganá-lo.

Confesso que raras vezes já compro uma publicação em papel pelo chamariz da capa. Mas hoje aconteceu. Gostei muito do que vi na montra da revista Sábado - e arrisquei. Ainda bem que o fiz: ao contrário do que tantas vezes ocorre, as páginas interiores correspondem àquilo que a capa nos sugere: «A vida desconhecida» de Freitas do Amaral, há dias falecido.

Aqui fica o meu elogio a Marco Alves e Sara Capelo, autores deste trabalho, que se estende da página 36 à 51, desdobrado em vários módulos. Só por isto já valeria comprar esta edição da Sábado. E também para ler o Eduardo Dâmaso, claro: «Rui Rio perdeu em toda a linha mas faz lembrar Álvaro Cunhal e as suas vitórias morais. Ou mesmo a selecção portuguesa de futebol, quando perdia um pouco por todo o lado, mas jogava sempre melhor do que os outros.» E o João Pereira Coutinho, acutilante como sempre: «Rui Rio ficou contente porque venceu as sondagens (palavra de honra). Mas também porque acredita que os 27%, apesar de vexatórios, são capital importante no grande mercado político que a legislatura promete inaugurar. Talvez não se engane, a menos que o corram de lá.»

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Isto cheira cada vez pior

por Pedro Correia, em 30.05.19

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Esta minuciosa investigação do Luís Rosa e da Sara Antunes de Oliveira é um retrato perturbador mas fidedigno do país político e da tentacular administração pública portuguesa em descarado concubinato com redes de esquemas e negociatas. Tudo temperado com o nepotismo agora tão em voga, apesar dos platónicos alertas do Presidente da República. 

Em suma: um país em falência moral. Depois admirem-se que tantos portugueses virem costas às urnas e tanta gente esteja pronta a ovacionar o primeiro populista que irrompa ao virar da esquina. E desta vez nem precisa de vir montado num cavalo branco, como o Sidónio há cem anos: basta aparecer de vassoura em riste.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 27.04.19

A propósito de um vulgar carioca de limão (agora, pelos vistos, nada vulgar), pode nascer um boa crónica jornalística. Esta, de Marta Reis no jornal i, intitulada precisamente "Era um carioca de limão". Que nos conta uma história e nos apresenta ao mesmo tempo um quadro impressivo da realidade lisboeta. De um quotidiano onde uns hábitos se ganham e outros se perdem, onde umas tradições vão morrendo e um consumismo de importação vai ganhando raízes.

Isto numa linguagem acessível e escorreita, em que todas as palavras estão no seu lugar e em que nada fica por entender. Algo cada vez mais raro nos dias que correm. Pode parecer simples? Pode. Mas não é.

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A ler

por Pedro Correia, em 21.10.18

Sou de uma espécie em vias de extinção: todos os dias compro um jornal. Pelo menos um jornal. Hoje comprei o Público, só pela entrevista de Ana Sá Lopes e Manuel Carvalho a Vasco Pulido Valente. E valeu a pena, claro. Se não tivesse mais nada, já justificava o que paguei pelo meu exemplar.

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Imperdível

por Pedro Correia, em 25.07.18

 

A entrevista que o poeta António Barahona, sempre tão distante dos holofotes, concedeu ao jornal i. Insurgindo-se, nomeadamente, contra a «burrocracia» do desacordo ortográfico.

Bom jornalismo é fazer, editar e publicar entrevistas como esta.

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O assalto à PT

por Pedro Correia, em 20.07.18

Alguns insistem em dizer que "acabou o jornalismo de investigação em Portugal". Não acabou, não. A prova está aqui, bem à vista.

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Uma vergonha

por Pedro Correia, em 04.05.18

Prática inaceitável e vergonhosa revelada em reportagem da RTP: deputados de vários partidos - alguns até residentes a poucos metros da Assembleia da República - recebem ajudas de custo diárias e "abonos de deslocação" por indicarem no Parlamento moradas longínquas como habitação permanente. Enquanto no Tribunal Constitucional deixam evidente que residem em Lisboa.

Parabéns à Sandra Machado Soares pela investigação. Eis um exemplo de bom jornalismo.

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Como foi possível?

por Pedro Correia, em 18.04.18

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Acabo de ver e ouvir uma arrepiante reportagem emitida no Jornal da Noite da SIC sobre a vida faustosa e totalmente dissociada da realidade que José Sócrates Pinto de Sousa levou nos anos e meses que antecederam a sua detenção, em Novembro de 2014, no âmbito da Operação Marquês.

Este indivíduo que se considerava um "pobre provinciano", talvez em involuntário plágio de uma célebre citação de Salazar, chegou a ter gastos de 26 mil euros mensais, dissipou 52 mil euros num ano e meio, e recorria a todo o tempo ao misterioso "engenheiro Carlos Santos Silva" - seu suposto amigo de quatro décadas, "um homem de posses", segundo declarou aos autos policiais o ex-chefe do Governo. Que, mesmo com a conta pessoal a zero, avançava para uma proposta de compra de uma sumptuosa quinta nos arredores de Tavira, disposto a pagar por ela a módica quantia de 900 mil euros.

Entretanto ia ligando ao amigo, exigindo em linguagem cifrada dinheiro, sempre mais dinheiro, cada vez mais dinheiro - com uma "sede de anteontem", como cantava Chico Buarque. Só em 2014, o tal amigo remeteu-lhe 47 cheques num valor próximo de meio milhão de euros.

Mesmo assim, na noite em que foi detido, Sócrates já vira novamente a luz vermelha acesa na sua conta bancária: 12 mil euros por saldar, um sorvedouro sem fim.

 

Nos quatro anos anteriores à detenção, um milhão e 200 mil euros em cerca de 150 cheques - com a proveniência de sempre - chegaram em dinheiro vivo às mãos deste político que acumulava uma "rede de amigas" sequiosas de notas bancárias e a quem ele se limitava a retorquir para lhes satisfazer a característica cobiça de qualquer alpinista social: "Tenho de falar ao Carlos."

O dinheiro aparecia, mas nunca em quantidade suficiente para saciar a inesgotável ganância de tais "amigas". Nem do auto-intitulado "animal feroz", que fazia questão em viver mergulhado num luxo depredatório - em Paris, Veneza, Suíça, Quénia, Baleares e Algarves - e comprar favores a terceiros com dinheiro que formalmente nunca foi seu mas de que usufruía com a prodigalidade de um senhor feudal.

 

Repito: é uma arrepiante reportagem, que constitui serviço público. Assinada por três jornalistas conceituados: Luís Garriapa, Amélia Moura Ramos e Sara Antunes de Oliveira.

Vejo-a e escuto-a com atenção. E questiono-me: como foi possível este homem totalmente descontrolado nas contas privadas e que durante anos cultivou um nível de vida muito acima das suas posses, sem fazer a mais remota ideia do valor do dinheiro, ter sido durante seis anos primeiro-ministro de Portugal?

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Ludibriar os portugueses

por Pedro Correia, em 18.07.17

 

Uma excelente peça da SIC, inserida ontem no Jornal da Noite, honrou as melhores tradições da estação televisiva que se prepara para festejar um quarto de século de existência. Esta peça jornalística relata com minúcia toda a fita do tempo da tragédia de Pedrógão Grande, demonstrando sem margem para dúvida que as comunicações entraram ali em colapso, tornando ineficaz toda a estrutura da protecção civil.

Sabendo-se agora tudo isto, torna-se não só chocante mas até insultuosa esta pretensa mensagem de tranquilidade que na noite da tragédia o secretário de Estado da Administração Interna – com a ministra ainda ausente do local – dirigiu aos portugueses em geral e à população de Pedrógão em particular: «Houve falhas momentâneas de comunicação mas que foram restabelecidas. O SIRESP [Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal] está a funcionar com bastante regularidade e bastante bem.»

 

Tudo falso nesta declaração. As falhas nunca foram apenas momentâneas, a comunicação não fora restabelecida e o apagão das ligações mantinha-se no preciso momento em que Jorge Gomes falava assim ao País. O SIRESP – que revelou deficiências desde o início, como esta reportagem de Ana Leal, da TVI, já deixava evidente em 2014 – não funcionava “com bastante regularidade e bastante bem”: não funcionava, ponto final.

Este alerta não evitou que a 17 de Maio, um mês exacto antes de eclodir o drama de Pedrógão Grande, Jorge Gomes, depondo numa audição na comissão parlamentar de Agricultura e Mar, tenha ludibriado os cidadãos, tranquilizando-os com estas palavras que os factos não tardariam a desmentir: «Quero transmitir aos portugueses que temos um dispositivo capaz, devidamente estruturado e organizado, no qual temos plena e total confiança, para fazer frente ao período mais crítico dos incêndios florestais» (minuto 8 deste vídeo); «O País tem um dispositivo integrado, competente, forte e mobilizado para defender a floresta, o património e a vida dos portugueses.» (10' 30'' do vídeo).

 

Pior que tudo isto, ainda pior que manter-se sem censura política um membro do Governo em manifesta fuga à verdade num momento tão traumático, é termos hoje a certeza de estarmos perante uma deficiência estrutural gravíssima, com efeitos potencialmente tão irreparáveis como os ocorridos em Pedrógão.

É um problema tão alarmante que por estes dias voltou a estar em foco no grande fogo florestal de Alijó, levando o presidente da câmara local a apontar sem rodeios para novas falhas neste sistema onde o Estado português enterra 40 milhões de euros por ano: «Estive duas horas sentado só a ouvir e apercebi-me que a comunicação falha: não sabemos exactamente onde está posicionada cada equipa, onde está a arder. Às tantas, só recorrendo aos telemóveis é que se consegue comunicar.»

Como escreve o Manuel Carvalho na edição de hoje do Público, «o que torna a história de Alijó num caso ainda mais absurdo e inaceitável é que, sem ser necessário recorrer a comissões de inquérito independentes, podemos desde já suspeitar que as operações de combate foram marcadas pelo desnorte, pela incompetência e, uma vez mais, pela falha criminosa desse sistema delinquente chamado SIRESP».

 

O secretário de Estado ainda em funções teve agora ao menos a sensatez de permanecer calado.

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Um alerta já dado em 2014

por Pedro Correia, em 27.06.17

 

Uma excelente reportagem da jornalista Ana Leal, difundida em Janeiro de 2014 na TVI, já alertava para as deficiências do SIRESP, que agora se tornaram notórias na tragédia de Pedrógão.

Vale a pena (re)ver. E meditar.

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A falta de memória dos jornais

por Pedro Correia, em 21.02.17

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José Fernandes Fafe (1927-2017) com Fidel Castro quando foi embaixador em Havana

 

Li hoje seis jornais diários. Cinco deles, ao contrário do que se impunha, não concederam qualquer destaque à morte de José Fernandes Fafe - embaixador, escritor, político, grande figura do século XX português, uma daquelas pessoas de quem se diria sem favor algum que a sua vida dava um romance.

Conspirou contra o salazarismo, foi protagonista de diversos episódios da resistência à ditadura. Após a Revolução dos Cravos tornou-se um dos primeiros embaixadores "políticos" do nosso regime democrático por decisão de Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros pós-25 de Abril, como muito bem lembra Francisco Seixas da Costa no seu blogue, Duas ou Três Coisas.

Tornou-se assim embaixador residente em Cuba, onde conheceu toda a elite do regime comunista, incluindo Fidel Castro, que biografou num  livro muito interessante, cheio de revelações sobre o tirano que governou a ilha com mão de ferro entre 1959 e 2006. As rotas da diplomacia levaram-no ainda a ser embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Morreu ontem, aos 90 anos e com uma vida cheia. Mas quase toda a imprensa se esqueceu de assinalar o facto com o destaque que se impunha. Incluindo a mais antiga, precisamente a que tinha maior obrigação de avivar as memórias dos leitores. Por ironia, só no mais jovem título da nossa imprensa em papel - o diário i - encontrei um obituário digno do intelectual e do cidadão que Fernandes Fafe foi. Por ironia também, num texto de duas páginas (sem hiperligação disponível) assinado por Sebastião Bugalho, um dos mais jovens jornalistas políticos portugueses.

Os restantes, lamentavelmente, fizeram de conta que não sabiam. Ou não sabiam mesmo, num dia em que os cinco jornais generalistas concederam nada menos de 24 páginas a noticiário avulso sobre futebol.

A crise do jornalismo, de que tanto se fala, tem muito a ver com estas omissões. Cada uma delas é grave. Todas somadas, tornam-se imperdoáveis.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.01.17

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 Rita e Catarina Almada Negreiros com a avó, Sarah Afonso (1983)

 

1

Confesso-me cada vez mais farto do culto da banalidade, da apologia da irrelevância, da propagação do mau gosto em doses cavalares: o jornalismo anda a copiar o pior das redes sociais. Com o mesmo esquematismo, a mesma superficialidade, a mesma falta de memória.

Quantas vezes não vos sucedeu já, como sucede com frequência comigo, comprar jornais que não vos apetece ler por absoluta falta de matéria noticiosa digna desse nome?

 

2

Voltei a fazer o exercício este fim de semana ao comprar vários jornais num quiosque: encontrar lá assunto com interesse é quase como pesquisar agulha no palheiro. Deparamos com a despudorada invasão da privacidade das chamadas "figuras públicas", o boato travestido de notícia, a conversa de porteira armada em "análise política", o crime mais boçal erigido em matéria informativa de excelência, a sistemática tentativa de nivelar tudo por baixo.

Felizmente ainda existem inesperados oásis de qualidade, remando contra a maré dominante. Ao folhear a revista Magazine, adquirida com o Diário de Notícias, deparo com uma entrevista de rara qualidade às duas netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina. Que evocam recordações do avô, uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa do século XX, e também da avó, a pintora Sarah Afonso. É uma entrevista longa, para ler devagar, saborear. Com revelações familiares, mas sem indiscrições. Uma entrevista com linguagem elegante, com emoção contida, como quase já não se usa. Estão de parabéns as entrevistadas e a jornalista Alexandra Tavares-Teles, que tão bem soube dialogar com elas.

 

3

Descubro no suplemento de outro jornal - o P2, do Público - uma crónica que me prende igualmente a atenção. É assinada por uma redactora deste diário, Maria João Lopes, e também vai contra a corrente, sublinhando a importância do olhar, insubstituível no percurso diário de um profissional da informação. O universo de um jornalista não pode confinar-se às quatro paredes de uma redacção, por maior que esta seja, nem a um ecrã de computador, por mais longe que pretenda conduzir-nos. Nada no mundo virtual substitui o mundo real. Com os seus ruídos, os seus odores, as suas rugosidades, as suas asperezas, a sua inesperada e estonteante fragmentação.

A cronista fala-nos um pouco de tudo isto. "Andar a pé conta-me tantas histórias como abrir o jornal todos os dias. Faz-me falta andar a pé horas, perceber que essa ideia dos tempos mortos afinal não existe, que esse tempo morto está vivo. Um repórter tem de andar a pé, sem medo de se perder e de perder tempo. Porque vai chegar muitas vezes (ou sempre) a lado nenhum. Mas aí vai haver, claro, uma história para contar".

Nada tão fora de moda, nada tão urgente. Valeu a pena comprar o Público só para ler este texto que incentiva os repórteres a caminhar.

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Dizer muito em duas palavras

por Pedro Correia, em 02.12.16

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Excelente capa, a do Courrier International. Com um dos melhores títulos que li por estes dias para assinalar a morte de Fidel Castro: "Cuba libertada."

O jornalismo de qualidade é assim: consegue dizer quase tudo com um número mínimo de palavras. Neste caso bastaram duas.

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Mau jornalismo, bom jornalismo

por Pedro Correia, em 29.07.16

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Atentado de Bruxelas, a 22 de Março: 32 mortos e 300 feridos 

 

Nos dias que correm, qualquer assassino torna-se uma celebridade instantânea. Quanto mais repugnante é o crime praticado - seja o de Orlando, seja o de Nice, seja o de Saint-Etienne-du-Rouvray - mais garantida está a fama mediática dos criminosos.

A besta norueguesa que matou 77 pessoas em 2011 tem honras de wikipédia, o homicida da deputada trabalhista britânica Jo Cox recebe mais espaço na imprensa do que um galardoado com o Nobel, o atirador sanguinário que matou nove seres humanos em Munique é tratado por  "jovem" ou  "rapaz" por parte dos nossos benevolentes órgãos de informação - quase como se a chacina na capital da Baviera fosse uma espécie de rave party.

Começamos a ficar tão indiferentes que a existência de nove cadáveres já nos parece um número irrelevante.

 

O tratamento jornalístico do terrorismo abusa de dois males simétricos: confere projecção global a quem dispara, mata, fere, mutila e viola - favorecendo comportamentos miméticos de um incontável número de potenciais assassinos sequiosos dos seus 15 minutos de fama - enquanto silencia os nomes e esconde os rostos das vítimas. Como se elas nos envergonhassem.

O New York Times procedeu ao contrário: em vez de esmiuçar a biografia dos homicidas, farejar putativos "traumas" que os colocaram na senda do crime ou indagar supostas "questões sociais" como causa justificativa dos morticínios, o excelente diário norte-americano rompeu o tabu, falando dos mortos.

Quem eram, como se chamavam, que sonhos perseguiam, porque estavam à hora errada no local errado. Em paragens tão diversas como Bruxelas, Istambul, Lahore, Ummarari (Nigéria), Iskandaria (Iraque), Grand Bassam (Costa do Marfim), Ancara ou Peshawar.

 

Um total de 247 mortos em três continentes durante duas semanas no passado mês de Março. Pessoas de 26 nacionalidades, vítimas do terrorismo - 17 das quais sem ter sequer ultrapassado uma década de vida. A mais velha contava 84 anos, as mais novas - três - ficaram por nascer.

Outros números trágicos: 1168 pessoas perderam familiares muito próximos na barbárie daquelas duas semanas tão bem documentada no artigo do Times. Duzentas e onze ficaram sem pai ou sem mãe, 78 nunca mais viram o marido ou a mulher.

Pessoas que - estas sim - merecem ver o nome transcrito nos jornais.

Pessoas como nós, você que lê estas linhas ou eu que agora as escrevo. Possíveis vítimas de um acto terrorista num amanhã qualquer.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 17.08.15

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Há entrevistas e entrevistas. A maioria serve apenas para preencher agenda política de circunstância. Mas algumas constituem preciosos documentos humanos. Porque são feitas com sensibilidade e genuína intenção em escutar o que o entrevistado tem para dizer. Mesmo que seja alguém que tenha perdido a voz, como infelizmente sucedeu com João Semedo. Numa entrevista à edição do jornal i deste fim de semana, muito bem conduzida por Ana Sá Lopes, o ex-coordenador do Bloco de Esquerda pronuncia-se (por escrito) sem complexos nem rodeios sobre a doença que o afecta e do combate sem tréguas que lhe vai dando com a lucidez do médico competente que sempre foi.

Mais do que uma entrevista, é um notável testemunho que deve ser lido com atenção muito para além da espuma política que domina o quotidiano português. João Semedo justifica, mais que nunca, o cognome de João Sem Medo. Conheço-o há vários anos - ainda antes de ter ingressado no Bloco de Esquerda, onde se notabilizou como parlamentar respeitado por todos, aliados ou adversários - e não tenho a menor dúvida sobre a qualidade do seu contributo para a política portuguesa em geral e a Assembleia da República em particular.

Nesta fase difícil da sua vida, merece uma palavra de louvor pelo desassombro com que fala de uma doença que afecta tantos portugueses, conhecidos ou desconhecidos. Aqui lhe deixo essa palavra. E uma outra, tornada ainda mais obrigatória após ter lido esta entrevista, de incentivo pelo seu pronto e total restabelecimento.

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Oliveira: o ruído e o silêncio

por Pedro Correia, em 04.04.15

Apreciei a atitude austera de John Malkovich no funeral de Manoel de Oliveira. Os "directos" televisivos, inimigos da contenção verbal, buscavam declarações dele sobre o cineasta, mas o consagrado actor norte-americano optou por um lacónico recolhimento - o que constitui quase sempre a melhor forma de respeitar alguém nos momentos de luto e dor. E mais ainda um realizador que trabalhava desde os dias do cinema mudo.

Vivemos infelizmente numa época nada propícia ao silêncio. E até na hora da morte irrompem as palmas que noutros tempos eram reservadas nestas ocasiões aos artistas de palco - eles sim, habituados desde sempre ao sonoro fragor dos aplausos. Desta vez não faltou sequer o ruído político, bem expresso nas insensatas declarações do secretário de Estado da Cultura ao reclamar sem demora os restos mortais do cineasta do Porto para o Panteão em Lisboa - frase típica de quem só ambiciona 15 segundos de relevo momentâneo nos telediários.

 

Mas houve também palavras inteligentes e sentidas que merecem ser valorizadas. Apontamentos de repórteres em directo - destaco o trabalho de Pedro Cruz, da SIC - informando sem estridências nem frases em excesso, relatando com sobriedade, como o bom senso e o bom gosto impõem. Houve declarações doridas e dignas, como a de Luís Miguel Cintra, lembrando que a melhor forma de homenagearmos o cineasta é ver e rever a sua obra - projectada em sala, não no televisor doméstico. Houve frases de pura emoção, como a do neto Ricardo Trêpa: «Agradeço a quem olha por nós, a essa entidade omnipotente, por me ter dado um avô como o meu avô Manuel.» Houve a oportuna ironia de João Botelho, estabelecendo a indispensável distinção entre cinema e filmes - o cinema eleva o espírito, os filmes mastigam-se como as pipocas: «Levou o cinema com ele para o céu. Porque os filmes estão hoje no inferno dos centros comerciais.»

 

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Mas o pormenor televisivo que mais me tocou nesta Sexta-Feira Santa em que Manoel de Oliveira ficou sepultado no jazigo de família no cemitério de Agramonte foi um plano que devemos ao operador de imagem da SIC apontado ao interior da viatura onde se sentava a viúva do realizador, Maria Isabel, à saída da igreja do Cristo-Rei. Plano longo e mudo, da senhora de mãos postas como em prece, prolongando para além das contingências da morte física o elo com o marido após um casamento que durava desde 1940.

Um momento extraordinário de televisão. Extraordinário também, em todos os sentidos, por não necessitar de ruído algum. A imagem dizia tudo.

E que melhor homenagem para celebrar Oliveira senão esta da sua companheira de toda a vida continuando a dialogar com ele agora que o cineasta já cá não está?

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 14.10.14

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Nos dias que correm, com a crise na imprensa provocada desde logo pela mudança radical de hábitos de consumo, cada aniversário de um título jornalístico é motivo para festejar. Sobretudo, como é o caso da Time Out Lisboa, quando essa publicação não emite sinais de crise. Assim merece parabéns redobrados. E todos nós, leitores, também acabamos por estar de parabéns: nenhuma democracia funciona sem cidadãos esclarecidos e este objectivo só se concretiza com uma imprensa de qualidade.

Sou talvez suspeito por deixar aqui um elogio a esta revista nascida há sete anos: conheço vários dos profissionais que lá trabalham. Por isso não estranho o conjunto de qualidades da Time Out. Desde logo, sabe ter ideias próprias. E uma linguagem inconfundível. E criatividade a vários níveis, surpreendendo os leitores pela positiva. Sem nunca perder a noção de que presta um dos mais relevantes serviços públicos: informar.

Tenho a pretensão de conhecer bem Lisboa, nas suas múltiplas facetas. Mas já aprendi muito sobre a capital lendo semana após semana esta versão alfacinha da Time Out - marca internacional de referência em matéria de jornalismo de lazer, um nicho de mercado em contínua expansão.

Aprecio a qualidade da escrita, sem mutilação de consoantes. O grafismo atraente. O bom gosto das escolhas. O discreto sentido de humor.

Gosto de pequenas rubricas que tantas vezes já me fizeram sorrir - "Ouvido no metro", por exemplo. Frequento com proveito as páginas de crítica, redigidas numa linguagem que evita o jargão encriptado daqueles que preferem escrever para os amigos do que para os leitores. E descobri inesquecíveis ângulos da cidade com "Lisboa à Lupa", a página que serve de remate.

Para mim, a Time Out continua in. Superado o ano sete, número mítico, faço votos para que muitos aniversários se sigam. Com a qualidade de sempre.

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 07.08.14

Durante oito meses, circularam nas televisões e nos jornais as teses mais desencontradas e mirabolantes sobre o chamado "caso do Meco", que custou a vida a seis jovens universitários numa trágica madrugada de Dezembro. A opinião pública foi bombardeada com teorias e supostas verdades propagadas por quem se pôs a adivinhar e viu nesses palpites uma excelente forma de ganhar audiências e vender papel.

Faltava escutar a única voz autorizada para falar sobre o que se passou. João Gouveia, o solitário sobrevivente, fala enfim. Numa extensa entrevista à revista Sábado que constitui um inestimável documento humano e um notável trabalho jornalístico iniciado meses antes para ultrapassar a compreensível relutância do jovem. Só agora João acedeu em prestar declarações públicas, já sem condicionalismos de ordem processual porque a investigação foi arquivada pelo Ministério Público. E ainda bem que o fez. Para ele próprio e para o esclarecimento dos factos.

Do ponto de vista jornalístico, esta foi a vitória da persistência. Após muitas recusas, muitos prazos adiados, muitos telefonemas que ficaram por devolver. Mas valeu a pena para obter esta manchete em discurso directo: «Se não tivesse encontrado o gorro também estaria morto."

 

 

Está de parabéns o director da revista, Rui Hortelão, também autor desta entrevista de dez páginas em que tudo se pergunta e a tudo João Gouveia responde. Como se estivesse no consultório de um psicanalista a fazer uma catarse através da confissão. Com declarações impressionantes, como a que descreve o momento em que ele e os colegas foram engolidos pela onda assassina na praia do Meco: «Foi um tempo muito curto, uns minutos. Eu fui o último a sentar-me, e estivemos a conversar um pouco. Só que eu comecei a sentir muito frio, a humidade parecia que estava a entrar-me no corpo. Então levantei-me, e o Tiago também, segundos depois fomos levados pela onda. Foi tudo muito rápido...»

Perdeu seis amigos, esteve às portas da morte, foi vilipendiado em centenas de textos escritos por quem não o conhecia de parte alguma. Regressa agora, do mundo do silêncio onde se refugiara, para contar a verdade dele. Que será também – para sempre – a verdade dos companheiros que já cá não estão para falar. «Aquilo que mais me custou foi ver os meus colegas a serem expostos da maneira que foram pela comunicação social e as insinuações que fizeram sobre eles, não estando cá para se defenderem", revela à Sábado.

Por capricho do destino, ninguém poderá contradizê-lo. Isto confere uma força acrescida ao testemunho de João Gouveia, o sobrevivente do Meco. É um duvidoso privilégio: ele não deixará de arrastar este pesadelo até ao fim dos seus dias. Resta-lhe aprender a conviver com a memória dolorosa daquela noite fatídica.

Ninguém fica indiferente ao ler esta entrevista. Eu não fiquei. E estas linhas são a prova disso.

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Contrastes

por Pedro Correia, em 19.02.14

Bom jornalismo, mau jornalismo.

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TVI24: isto é serviço público

por Pedro Correia, em 10.01.14

 

 Eusébio travado em falta na jogada mais emocionante do Portugal-Coreia do Norte (1966): ainda não hava cartões vermelhos

 

É o mais célebre jogo de sempre da selecção nacional de futebol -- aquele de que todos falavam mas poucos tinham visto. Até agora. Porque a TVI24, numa verdadeira missão de serviço público, lembrou-se em boa hora de o transmitir na íntegra a pretexto da morte de Eusébio, marcador de quatro dos cinco golos portugueses dessa partida.

Aconteceu na quarta-feira e apesar das imagens serem a preto e branco -- o Portugal-Coreia do Norte realizou-se a 23 de Julho de 1966 -- a emissão resultou num enorme sucesso: o canal de notícias da TVI no cabo obteve o maior número de sempre de espectadores, com 4,8% de audiência média e uma quota de audiência de 9,8%. Quase meio milhão de pessoas acompanhou o desafio no serão de anteontem.

 

Eu fui uma dessas pessoas. E tenho de felicitar a TVI24 pela proeza. Desde logo porque não se limitou a transmitir o mítico jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo de 1966, considerado o melhor desse certame. Teve também a excelente ideia de reunir em estúdio três jogadores dessa selecção, dois dos quais participaram no jogo: o benfiquista José Augusto e os sportinguistas Hilário e José Carlos. Com Fernando Correia -- que já relatava jogos de futebol há 48 anos -- encarregado de recriar um pouco do ambiente daquela época, em que os portugueses acompanhavam os jogos de futebol sobretudo através de relatos radiofónicos pois eram raras as partidas transmitidas pela televisão.

 

Hilário e José Augusto nunca tinham visto na íntegra as imagens daquele desafio em que foram dois dos mais destacados participantes. E portanto os seus comentários ao longo do jogo tornaram-se noutro espectáculo dentro do espectáculo da emissão, muito bem conduzida pelo jornalista Joaquim Sousa Martins.

  

A visão integral do jogo permitiu desfazer alguns mitos, que passarei a enumerar:

- Naquele desafio, por bandas de Portugal, jogaram "Eusébio mais dez". Não é verdade: Eusébio foi excelente, mas vários outros jogadores destacaram-se. Desde logo Simões, incansável no corredor esquerdo. E José Augusto. E Jaime Graça. Sem esquecer Hilário: nenhum dos três golos norte-coreanos ocorreu no lado esquerdo da nossa defesa, onde ele era um baluarte;

- Aquela selecção quase só tinha jogadores do Benfica. Falso. Do Benfica, neste jogo, eram cinco: Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. Havia três do Sporting (João Morais, Hilário e Alexandre Baptista), dois do Belenenses (José Pereira e Vicente Lucas) e um do Vitória de Setúbal (Jaime Graça);

- Os coreanos dominaram, pelo menos na primeira parte. As imagens não mostram nada disso. Excepto no quarto de hora inicial, quando a pressão ofensiva da equipa adversária foi mais notória, Portugal dominou sempre a partida. Sem nunca se desviar da rota do golo.

- Naquele tempo jogava-se um futebol muito mais lento. Pelo contrário, este jogo desenrolou-se a uma velocidade estonteante, do primeiro ao último minuto. Sem tempos mortos, mesmo quando havia interrupções por faltas. Sem manobras ardilosas dos jogadores para retardarem o tempo de jogo. E numa espécie de antecipação do "futebol total", com frequentes incursões dos avançados em manobras defensivas. Futebol-espectáculo por excelência.

 

Os 11 que jogaram contra a Coreia do Norte: Alexandre Baptista, Jaime Graça, Hilário, Vicente, Morais, José Pereira (em cima), José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões (em baixo)

 

Por uma questão de idade, nunca tinha visto este jogo. Mesmo muitos portugueses que já eram adolescentes ou adultos naquela época não chegaram a assistir ao Portugal-Coreia do Norte porque os televisores não tinham nessa época a difusão que hoje têm.

Está de parabéns a TVI por ter concretizado esta missão de serviço público. Que devia envergonhar a RTP, detentora de um canal Memória que é capaz de passar na íntegra o jogo Cascalheira de Cima-Alguidares de Baixo de há vinte e três anos mas nunca voltou a difundir o Portugal-Coreia do Norte, cujas imagens certamente a televisão do Estado possui em arquivo.

Fica agora um pedido extra aos responsáveis da TVI24: e que tal difundirem agora o Portugal-Brasil, também do Mundial de 1966? Será novo sucesso garantido, tenho a certeza.

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