O fim dos blogs SAPO

Ontem a SAPO, plataforma que nos acolhe, anunciou aqui que irá descontinuar a sua secção blogal, activa desde 2003. Avisa que a partir do próximo 30 de Junho será impossível a publicação nos blogs ou o seu manuseamento. E que todos serão apagados em 30 de Novembro. Ou seja, terão os bloguistas nisso interessados de exportar os seus conteúdos arquivados para uma outra plataforma digital.
O encerramento desta secção fundamenta-se no descrescente "apelo e utilidade" dos blogs face à disseminação de plurais redes sociais - as quais têm, como é consabido, uma dinâmica mais célere de publicação e de "leituras" (de facto, de visualizações). Não tenho dados estatísticos sobre isso - não sei quantos blogs activos estão na plataforma nem qual é a sua audiência global. Mas nada me custa a acreditar nisso - mesmo se este Delito de Opinião continue, anos a fio, a ter uma grande audiência, compatível com as dos grandes blogs da "Idade de Ouro" da blogosfera (quando havia um fiável "sitemeter" quase omnipresente na rede blogal portuguesa).
Este final não é totalmente surpreendente. Algumas medidas deixavam a ideia da desconsideração da SAPO pela actividade dos blogs. Até há cerca de dois ou três anos o Portal SAPO tinha uma secção de destaques de postais de blog colocada a cerca de metade da sua página inicial geral: cada postal ali colocado recebia largos milhares de visitantes. Depois essa secção passou para o sopé dessa página, implicando uma grande redução do afluxo de visitas aos "destaques", ainda assim usualmente superior ao milhar. E há alguns meses mesmo esse singelo rodapé blogal foi eliminado. Trata-se assim de uma "morte anunciada".
A decisão é empresarial (a plataforma SAPO pertence à MEO) e não questiono a justeza económica do encerramento da publicação de blogs. Lamento-a, claro. Acima de tudo porque este término esgarçará uma real comunidade de leitores. E, pessoalmente, pois nesta SAPO há muito que venho escrevendo neste Delito de Opinião, e antes também no muito lido sportinguista És a Nossa Fé. E para a SAPO exportei há muitos anos o meu blog ma-schamba (activo entre 2003 e 2015) e alojei o Nenhures (até Maio de 2025) - para o qual ia paulatinamente transferindo anteriores postais do meu "O Flávio" e do anterior colectivo "Courelas", que haviam sido publicados no sistema wordpress. Nessa congregação procurando evitar que os textos - independentemente de serem minudências - se viessem a volatizar no "éter" digital.
E lamento também porque se me aparenta ser ela extemporânea. Pois julgo haver agora um relativo ressurgimento destes espaços mais plácidos, de escrita com menor frenesim típico das "redes sociais". Em Portugal vai-se disseminando a utilização da plataforma Substack - como o comprova esta lista já bem composta de páginas ("substacks" no jargão) portuguesas, elaborada no "Diga-se de Passagem" de João Lameira. Foi nessa Substack que criei em Abril passado o meu blog "O Pimentel" - e como referi neste postal em poucos meses ali colhi nove vezes mais subscritores do que em mais de uma década na SAPO e os postais têm cerca de 3 ou 4 vezes mais leitores do que no meu anterior Nenhures, aqui alojado. O que acontece é que a Substack é uma plataforma um pouco mais desenvolvida mas muito manuseável, com múltiplas formas de publicação e potenciando as interacções. Enquanto esta SAPO cristalizou nas técnicas, não procurando uma verdadeira "evolução na continuidade" (para glosar uma expressão intentada em 2014). E assim reforçando o progressivo abandono, de autores e de leitores.
[ADENDA: Nem de propósito!: horas depois de publicar este postal descubro que José Pacheco Pereira - que na primeira década do século teve o "Abrupto", durante longos anos o blog português mais lido, acaba de abrir o seu local na Substack (publicando em inglês) -, o que demonstrará o actual crescimento, o "apelo" para falar como a SAPO, desta plataforma.]
Enfim, reconheço a legitimidade da empresa encerrar o serviço gratuito de produção de blogs. Mas penso diferente quanto à anunciada "solução final", a do posterior apagamento dos arquivos alojados. A questão ultrapassa a mera consideração de custos: a empresa disponibilizou um serviço gratuito, com isso terá lucrado. E agora deita tudo fora.
A matéria dos arquivos de blogs sempre me ocorreu: em 12.4.2004 escrevi o postal "Arquivos Bloguísticos": "Não sei se isto do bloguismo é uma moda mais ou menos breve ou se é um meio de comunicação que veio para ficar, ainda que com progressivas transformações. Mas quando leio existirem milhares de blogs em Portugal (para lá dos milhões mundiais que o Technorati traça) não posso deixar de me surpreender com a sua dimensão... Assim sendo gostaria de saber como está a ser feito o arquivo de tudo isto, deste fenómeno relativamente importante do princípio do século e que virá a dizer algo sobre a sociedade de agora. Há uma política de arquivo bloguístico? Tem a instituição central de arquivos ("Torre do Tombo") uma política, uma lei e um instrumento de arquivo - o qual presumo que só poderá ser robótico? Ou ainda não se pensou no assunto?..."
Voltei ao assunto algumas outras vezes, como neste postal com o mesmo título "Arquivos Bloguísticos" (7.1.2008): "Ao longo dos anos alguns bloguistas vêm falando da necessidade de uma política de arquivo bloguístico - p. ex. no Adufe [que era do Rui Cerdeira Branco, com quem vim a blogar no És a Nossa Fé] desde 2004. E lembro que então também no Último Reduto e no Memória Virtual [que era de Leonel Vicente] se discutiu o assunto [sendo sintomático que todos esses blogs, como tantos outros, foram apagados quando o sistema weblog.com.pt que agregou grande parte da blogosfera portuguesa foi encerrado.] Que me lembre Pacheco Pereira fá-lo também desde 2004, voz avisada na matéria sublinhada pela sua notoriedade. Este seu "Documentos para uma Década Triste" vem retomar a questão, dando-lhe um âmbito ainda mais vasto. Interrogo-me sobre o que pensarão as instituições do Estado português às quais caberia actuar. É que os anos vão passando ..."
Em suma, para uma futura análise historiográfica do primeiro quartel de XXI português (da sua "cultura popular", se se quiser), a produção bloguística será muito importante, permitindo um corte interessantíssimo, pois muito específico, na vox populi. Sobre vários assuntos, oriunda de vários segmentos. Mas o Estado português dormiu na forma, descurou a sua preservação - ainda que tendo sido várias vezes avisado sobre o assunto. E agora a MEO, uma grande empresa local, ribomba que irá deitar para o lixo os "papéis velhos", na incultura de considerar desnecessário o "arquivo morto". Pois muito se perderá nesta convocatória a que os remanescentes acorram a recolher e republicar o ... passado. Como aconteceu nas "desinfestações" anteriores.









