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Vale a pena ler (14)

por Pedro Correia, em 07.03.21

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«Com uma infância tão solitária [Jorge de] Sena acabou por não resistir ao fascínio dos livros. A leitura chegou pelas mãos da mãe e da avó, as mulheres que o incentivaram a amar a leitura e a literatura. Especialmente a avó Isabel que adorava literatura policial e fazer palavras cruzadas, gostos que acabaram por contagiar o neto. Quero crer que foi este amor pela leitura que provocou o seu acto de escrita e, por extensão, o amor à literatura que o fizeram dedicar-se ao seu estudo. E talvez aquele gesto especial por parte da avó, a oferta de um caderno que lhe serviu de diário durante a viagem de cadete da Marinha, tenha sido o gesto que terá despertado a sua genialidade.»

Miss X, Livrologia

 

«Obras, remodelações e mudanças dão cabo de mim. Nunca me apetece arrumar nada. Descobrem-se coisas que pensávamos perdidas, perdem-se outras que achávamos a salvo. A minha mesa de cabeceira, que não foi substituída, contém uns porta-retratos de há séculos que não consigo guardar. Vão ali ficando e pegando de estaca. Mas a verdade é que, por muito que pense que é desleixo, se calhar é o meu subconsciente a implorar-me para que alguma coisa faça a ponte entre o que era e o que agora é.»

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado

 

«Estão de volta as borboletas brancas, as abelhas estão mais activas, por vezes ameaçando um favo no canto da varanda. Só falta o regresso das andorinhas. O arrulhar dos pombos, o canto dos melros, dos pintassilgos e afins serve de fundo às conversas entre vizinhos, que falam de janela para janela ou em encontros fugazes na rua. Ao longe o mar, a lembrar que continua à minha espera. Não fossem as fitas em torno do escorrega e baloiços do jardim infantil e até esquecia esta maldita pandemia.»

MgA, Entre Ser e Estar

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Vale a pena ler (13)

por Pedro Correia, em 28.02.21

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«Não concordando com o que sucede na Holanda, porque me parece que a "artilharia" está mal apontada, penso nesta maneira de ser, de estar, tão diferente, da nossa. Nós, os portugueses, escolhemos protestar difamando todas as mães, exceptuando a nossa, uma santinha, esbracejamos um "isto não pode ser", cerramos os punhos ao ritmo de um "quem é que eles julgam que são?" e terminamos, mansamente, perguntando "o que é o almoço?". Talvez por isso tenhamos aguentado, impávidos e serenos, 40 anos de nostálgica ditadura.»

Vorph Valknut, B(V)logue de Alterne

 

«Está tudo maluco, enfim. Uma vez disseram-me que uma livraria portuguesa punha no Top da loja os livros que não se estavam a vender para ver se as pessoas assim lhes davam atenção e os levavam. É o marketing, senhores, ou seja, não nos podemos fiar nele...»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Ao fim de uma mão cheia de meses com a minha neta tomei consciência de duas situações:

- A primeira, já o havia referido no outro postal, prende-se com a minha maior paciência;

- A segunda é que a miúda leva-me a fazer coisas impensáveis tais como brincar com bonecas, imaginem;

Depois os ritmos de vida cá em casa dependem exclusivamente dela. Mas sabe tãããããããããããaõ bem esta mudança.»

José da Xã, Lados AB

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Vale a pena ler (12)

por Pedro Correia, em 21.02.21

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«Lia hoje numa rede social a alusão irónica da venda de um livro juntamente com um bife num qualquer talho. De facto, não percebo. Se posso comprar online e ir buscar um livro a um cacifo de uma grande livraria, por que motivo não posso ir a um postigo de uma pequena ou média livraria? O livro é para mim e muitos um bem essencial e deve sê-lo para uma sociedade, para um país democrático, para um país do século XXI.»

Marina Malheiro, Horas Extra

 

«Estar a ter aulas em casa não é o mesmo que estar em férias, portanto existem regras básicas que devem ser seguidas, como vestir roupa adequada, ter a webcam ligada e o microfone desligado, mantendo sempre a máxima atenção. O lugar de aprendizagem deve estar bem definido, de preferência deve ser um espaço que permaneça em silêncio e sem acesso a outras formas de comunicação, como por exemplo a tv.»

Maribel Maia, Educar (com) Vida

 

«Cheia de ânimo, sentei-me à mesinha da sala pronta a passar a pente fino todos os afazeres anotados no meu post it amarelo. Que se mantenham as tradições de quando éramos gente de contacto e afectos sem barreiras nas faces e munidos de álcool gel que nos secam as mãos. Mas aí, ah, aí eu andava de bota pelas ruas de Lisboa! A pantufa no soalho de casa, não é bem a mesma coisa. 

Carolina Novo, Vem à Janela

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Vale a pena ler (11)

por Pedro Correia, em 14.02.21

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«O avião é um dos maiores produtores de poluição. A deslocação de pessoas por avião devia acabar nas viagens curtas e nas médias. Um comboio transporta muita mais pessoas que um avião. Um comboio polui muito menos que um avião. E se a viagem demora mais tempo, talvez seja tempo de nos adaptarmos a esse novo tempo. A um tempo onde o tempo conta menos que agora. É tudo uma questão de hábito e de programação de vidas.»

Folhas de Luar

 

«Costumas voar peregrino por descampados, onde a erva solta agarra geadas intemporais que o sol há-de capturar a si. Deixas cair de ti, cá em baixo, a tua vaga sombra, quando voas lá no alto, onde ventos frescos e sólidos sopram nomes que não conheces. É quando planas livre sem horas, nas horas azuis de um imenso céu, que te sentes maior que o tempo e o silêncio que ainda existe.»

Sandra, Mão à Noite

 

«Cansado, desgostado, furioso, impotente na raiva mas não no desprezo das camarilhas que me tiram a liberdade, desdenhoso dos que se vendem e dos que os compram, espécies tão baixas que nem aos vermes que se arrastam na lama os quero comparar. Nunca foi por aí além a minha capacidade de julgá-los com alguma desculpa, mas agora que mostram a verdadeira natureza que os move a proibir e a impor, tudo pelo "carinho e o cuidado" de salvar a plebe, só asco me merecem.»

J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado

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Vale a pena ler (10)

por Pedro Correia, em 07.02.21

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«Já posso olhar para trás e enfrentar aquilo que senti quando vi o positivo no teste rápido. O primeiro sentimento foi medo. Antes eu dizia que não tinha medo de apanhar Covid-19 porque achava que teria sintomas leves já que não tenho factores de risco (um resfriadinho, como dizia o Bolsonaro). Mas quando me vi naquela situação receei que a doença evoluisse para uma situação grave quando já era patente que o SNS estava a chegar ao colapso.»

O Voo da Garça

 

«Um sentimento de tristeza e desolação emerge dos olhares de quem vende, mas também de quem compra. Para muitos a feira [da Malveira] também servia de motivo para simplesmente dar um passeio, isso agora não é possível, compra-se o que se tem de comprar e vai-se embora, as caras das pessoas nem as vemos, dois dedos de conversa com alguém conhecido não se dá, até porque não encontramos lá essas pessoas.  »

Maria, Abrigo das Letras

 

«Haverá sempre gente pior. Há pessoas a viver debaixo de explosões de morteiro no exacto momento em que escrevo este texto. Ainda assim, os nossos dramas são os nossos. Ninguém saberá nunca que estilhaços estão a deixar dentro de nós. Por isso, tenhamos todos um pouco mais de empatia. Se não temos nada para dizer, calemo-nos. Por vezes, basta escutar.»

Sónia Morais Santos, Cocó na Fralda

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Vale a pena ler (9)

por Pedro Correia, em 30.01.21

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«Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História.»

Robinson Kanes, Não É que Não Houvesse...

 

«Foi difícil ler as últimas páginas deste livro [A Peste, de Albert Camus], foi doloroso perceber as conclusões e a maneira como foi encarado o fim daquela epidemia. Provavelmente por estarmos a viver toda esta situação, ficamos mais sensiveis a algo que noutro momento seria lido como pura ficção.»

I.M. Silva, Livros Que São Amigos

 

«Alguém fuma muito, e dentro de casa. O cheiro sobe pela ventilação, invade a casa de banho. Deve ser a vizinha do primeiro andar, que vive sozinha e nestes anos nunca largou um "bom dia" ou um sorriso. Nunca vi a vizinha do terceiro. Tem uma empregada interna com uma farda verde e azul turquesa. Que tem medo de andar de elevador, sobe as escadas carregada de compras. Nunca vi a vizinha, mas deve ser uma pessoa alegre. Ninguém sorumbático escolheria aquelas cores para uma vestimenta.»

Concha, Crónicas do Chão Salgado

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Vale a pena ler (8)

por Pedro Correia, em 24.01.21

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«Ao começo do dia, tinha uma videoconferência internacional. Eu era o único português nos ecrãs. Antes de se entrar no assunto da conferência, a primeira pergunta vinda de outros mundos foi para expressar preocupação pelas notícias que estão a chegar, relativas ao Portugal da pandemia. Perguntaram-me se estava resguardado. E um participante disse-me que em Bruxelas muitos não entendem a razão que levou o primeiro-ministro português a insistir, nesta passada sexta-feira, numa reunião presencial, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, com a presidente e vários comissários europeus. O PM sabia, já nessa altura, que o risco de contágio era elevadíssimo.»

Victor Ângelo, Vistas Largas

 

«Decidi antecipar o meu voto. (...) Foram filas intermináveis, mas acima de tudo a sensação de falta de organização tão necessária em um momento de pandemia como este. (...) Na mesa 1 ficaram despachados em 1 hora, na mesa 3 em 30 minutos e eu em 3 horas. Sim, leram bem: em 3 horas.»

Lavanda

 

«Tal como nas noites anteriores, nestas peregrinações solitárias a que já me habituei, cruzo-me com muito pouca gente, mesmo muito pouca. Quase todas essas pessoas trazem cães pela trela. Ora eu nem gato tenho, mas, se tivesse, numa interpretação extensiva da lei (como parece que está na moda incívica fazer, durante a pandemia), poderia passeá-lo? Creio que não. Pensando bem, não me lembro de ter visto alguém passear um gato, alguma vez, pelas noites de Lisboa.»

F. Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas

 

«Escrever é um trabalho solitário. No limite, a escrita só gera amizades postumamente. Ironicamente, o escritor morto é uma criatura estupidamente sociável.»

Roberto Gamito, Fino Recorte

 

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Vale a pena ler (7)

por Pedro Correia, em 16.01.21

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«A essência de escrever não é ser descoberta. A essência de escrever é descobrir a minha verdadeira voz interior. A essência de escrever é descobrir o mais profundo do meu ser em cada letra, em cada palavra.»

Cátia Santos, Escrita de Alma

 

«Filipa Leal tão depressa nos mostra aquilo que sente no momento, numa antecipação em relação ao futuro, como nos leva até à infância e às memórias das férias passadas em Vigo – as idas ao El Corte Inglés e tudo o que lá comprava em pequena. A leitura deste livro [Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano] foi uma experiência muito intimista, quase como se estivesse a conversar com alguém que conheço bem..»

Rita da Nova, Rita da Nova

 

«Que frio que está. Dou por mim a cruzá-los e a soprá-los como o meu pai fazia nos dias de Inverno em que se lembrava de Moçambique, esta terra é um gelo, dizia ele e a minha mãe troçava dele, isto é Lisboa, sabes lá tu o que é frio, homem. Facilmente nos tornamos na ausência dos nossos pais. Mas o meu pai, ao contrário de mim, tinha uma caligrafia elegante, dava um balanço teatral com a mão antes de começar a escrever e concedia uma rara paciência à lentidão da sua própria mão, sabes lá tu o que é frio, homem e as pontas de dos dedos também a gelarem-se-me agora, por cima do teclado, essa bênção sem rasuras dos impacientes que escrevem, esta terra é um gelo, Lá, agora, seria Verão.»

Cristina Nobre Soares, Em Linha Recta

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Vale a pena ler (6)

por Pedro Correia, em 09.01.21

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«Alguém deveria ter explicado à chorosa menina do "We're storming the Capitol, it's a revolution" (3'48") que, numa revolução (até numa "revolução" do Trampas), é de esperar que haja, pelo menos, gás lacrimogénio, e que encontrar caves repletas dos melhores vinhos não é para quaisquer revolucionários/reaccionários em part time (explicação, aliás, indispensável, da esquerda à direita).»

João Lisboa, Provas de Contacto

 

«Chama-se O Infinito num Junco – A Invenção do Livro na Antiguidade e o Nascer da Sede de Leitura e assina-o Irene Vallejo, uma leitora apaixonada, doutorada em Estudos Clássicos em Saragoça e Florença e com uma ampla cultura sobre a história do livro. Trata-se de um ensaio que se lê como ficção; e, entre as dezenas de passagens que fui sublinhando (...), está uma pequena história muito bonita sobre o amor que uniu Marco António e Cleópatra.»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Podia ser uma qualquer vila desertificada do interior do país. Mas não. Estou em Sintra. O relógio diz-me que são 10h. Vazia de gente. Sem carros. Os autocarros para a Pena sem passageiros. (...) Respirar o verde de nariz a descoberto. Sem praticamente ninguém nesses passeios. Sem me cruzar com conversas faladas noutra línguas. Quietude inquietante.»

Ana Cristina Gomes, O Sopro Mágico das Palavras

 

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Vale a pena ler (5)

por Pedro Correia, em 03.01.21

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«Nunca conseguiremos pagar a Carlos do Carmo todos os arrepios na pele e de todas as lágrimas que caíram pelos nossos rostos, quando a sua voz nos invadia por dentro com a força das palavras dos Poetas que nos assaltam a alma. Agradecer é pouco e por isso vou continuar a ouvir Estrela da Tarde e Uma flor de verde pinho até saber tudo isto de cor.»

Sérgio Guerreiro, Melhor Política

 

«2020 ficará, certamente, marcado nos nossos corações pelas piores razões. Mas não será por mudarmos de ano que tudo se tornará melhor como num passe de mágica. Nada se alterará e vamos ter que manter uma vida estranha, sem festas, reuniões, almoços ou jantares numerosos.»

José da Xã, Lados AB

 

«É um dia importante pelo significado que tem o início da vacinação contra o vírus da COVID-19. Pelo que significa do esforço concertado de toda a comunidade científica e dos decisores políticos, investindo a sério no estudo, desenvolvimento e distribuição da vacina. Não é o fim, mas o princípio do fim. Risco zero não há em coisa nenhuma. As cautelas existem e ainda bem. Só assim aprendemos e avançamos. O ano novo parece um pouco mais risonho.»

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado

 

«Embora ache que nunca se falou tanto de saúde mental, com tantas campanhas e divulgação, e sobretudo num ano que mudou todas as regras do jogo e nos obrigou a olhar para dentro de nós próprios e levantar tantas questões, mais uma vez deixo um apelo. Falem destes asssuntos, deixem-se a vocês próprios e aos que vos rodeiam suficientemente à vontade para não se sentirem julgados por precisarem de ajuda e terapia.»

Filipe B, O Blog do Fi

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Vale a pena ler (4)

por Pedro Correia, em 27.12.20

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«Finalmente li este clássico da literatura norte-americana [Mataram a Cotovia, de Harper Lee]. Conta a história de um advogado que, durante a década de 30 no Alabama, defende um homem negro que é acusado injustamente de violar uma mulher. A história é contada do ponto de vista de Scout, uma criança. Um clássico que deve ser lido por todos.»

Inês, Mar de Maio

 

«No Barrocal Algarvio, as laranjas, colocadas no presépio, não eram apenas para ornamento. Possuir laranjas era sinal de distinção. Quando um afilhado ou pessoa amiga fazia uma visita na quadra natalícia, dava-se uma laranja que estava no Presépio. Se vinha o médico ou o prior a casa, as famílias ficavam muito felizes e sentiam-se honradas se eles retirassem uma peça de fruta do seu Presépio.»

Maria José, Liberdade aos 42

 

«Eu gosto muito de silêncio. Tenho dificuldade em pensar se houver pessoas por perto a conversar, seja ao vivo, seja na rádio e na televisão. Penso menos mal, é certo, se for num sítio em que muita gente fala ao mesmo tempo e indistintamente, como num aeroporto, por exemplo, em que as falas se tornam uma espécie de ruído de fundo que não me incomoda. No entanto, o silêncio das igrejas e das bibliotecas é de ouro, ambas são templos sagrados onde se pode pensar sem interferências. Borges dizia que o mais parecido que havia com o Paraíso eram as bibliotecas, e talvez não andasse longe da verdade.»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

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Vale a pena ler (3)

por Pedro Correia, em 20.12.20

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O célebre escritor, possivelmente o grande responsável pela redefinição do policial do século XX, encontrou no cinema, não a sua derradeira imortalização, mas um cúmplice para os seus "crimes". A imaginação de [John le] Carré aliou-se às imagens e nesse bando geraram filmes... e muitos deles, que filmes! O autor deixou-nos... maldito 2020 que não termina de jeito nenhum... mas as suas histórias, essas, persistem nos diferentes formatos.»

Hugo Gomes, Cinematograficamente Falando

 

«Dir-se-ia que a esquerda se deveria unir à volta da candidata Ana Gomes (se outras razões não houvesse até para desmascarar André Ventura), e que o PCP e o Bloco deveriam abdicar das suas candidaturas. Não creio que haja grandes condições para isso. A figura de Ana Gomes, o seu populismo, o seu discurso, e a sua imagem pouco institucional, por uma lado, e a forma desastrada como está a conduzir a campanha, por outro, tornam muito difícil a marcha-atrás dos dois partidos.»

Eduardo Louro, Quinta Emenda

 

«Nos últimos anos, houve dois momentos em que senti vergonha pelo meu país: na palhaçada de Tancos e no assassinato de um imigrante ucraniano por membros do SEF.»

Francisco Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas

 

«Aguardo a minha vez para o exame ecográfico e reparo na sinalética por cima da porta que dá acesso a uma das salas de TAC: extinção em curso. Quando me chamam para o vestiário, antecâmara da sala onde vou ser observada, vejo outro sinal idêntico. Pergunto à assistente que me encaminha a razão daquele aviso. Não sabe. Que até já se tem questionado sobre isso, mas não sabe. Intrigada com o que se estará a extinguir, tento manter a calma e acreditar que não, não estou numa sucursal do fim do mundo.»

Luísa, À Esquina da Tecla

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Vale a pena ler (2)

por Pedro Correia, em 13.12.20

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«Agora, que já consigo falar dele sem me virem as lágrimas aos olhos (custou a sua morte), queria dizer que não conheci mais nenhum intelectual do seu gabarito em Portugal com tanta graça e tão pouca vaidade. Sim, refiro-me ao enorme Eduardo Lourenço, uma pessoa que não tinha peneiras nenhumas e estava cheio de razões para as ter.»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Crenças limitadoras são crenças que diminuem as possibilidades, as capacidades, o poder de transformação e o nosso crescimento. São crenças que nos impedem de obter melhores resultados e alcançar os nossos objectivos. Tornam-nos "reféns" de medos e de regras que nos enfraquecem e limitam o nosso potencial. Impedem-nos de ver as oportunidades que a vida nos apresenta diariamente.»

Luísa de Sousa, Uma Pepita de Sucesso

 

«A ponte rodoviária metálica sobre o Sado é uma das principais imagens que fica na memória de quem visita Alcácer do Sal. Parece estar ali desde sempre, imutável e bela na sua robustez que faz lembrar outras eras. Os mais velhos, no entanto, ainda se recordam da anterior e instável passagem, mas poucos saberão que a actual ponte foi criada para unir as margens de outro rio e receber comboios, em vez de automóveis. Ganhou uma nova “vida” por iniciativa do conhecido ministro das Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco.»

Cristiana Vargas, O Sal da História

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Vale a pena ler (1)

por Pedro Correia, em 06.12.20

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«A verdade é que realmente começamos a valorizar ainda mais as coisas quando nos vemos privadas delas. Sempre gostei destes convívios com os amigos próximos e com a família, mas agora? Agora desejo-os como nunca, não sabemos como será o Natal, não sabemos qual será a próxima vez a estarmos juntos e muito menos quando poderemos dar aquele verdadeiro abraço. É isto que mais me tem custado no meio de todas estas imposições.»

Just Smile

 

«Li algures - creio que ontem -, qualquer coisa semelhante a isto: ser moderado não é valorizar de igual modo dois lados opostos, mas escolher e defender o lado que nos parece mais razoável. É-me quase sempre impossível. Habituei-me a ver sempre os dois ângulos de uma questão e, apesar de consciente dos dissabores que me isso me traz, designadamente o de parecer inconsistente e inconsequente, não creio que algum dia vá mudar.»

Isabel Paulos, Comezinhas

 

«Conhecia bem as imagens da menina negra que em 1960, desafiando a tradição segregacionista, foi para a escola primária pública em New Orleans, EUA, escoltada por quatro US Marshals que a mantinham longe das ameaças e dos insultos dos brancos. Mas nunca me tinha ocorrido que esta menina de seis anos, Ruby, não tinha de facto ido para a escola sozinha. Foi ela que ficou famosa, sim, por ser a primeira aluna negra naquela escola, mas foi a mãe, obviamente, que a meteu nesta batalha. Lucille Bridges é o seu nome.»

Maria João Caetano, A Gata Christie

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 12.04.20

 

Entre as Brumas da Memória merece destaque: acaba de chegar aos 13 anos. Parabéns à Joana Lopes, que continua incansável nestas lides blogosféricas.

 

Ouriquense, um dos blogues que vou lendo sempre com gosto nestes dias de confinamento sem fim à vista.

 

Há blogues para todos os gostos. Inclusive, de grande qualidade literária. Quem souber procurar, encontra. Deixo uma pista: Os Canhões de Navarone, de Rui Ângelo Araújo. Em textos como este. Ou este. Dois entre tantos.

 

Estrada para Damasco, blogue de fresca data: basta ser de Cristina Nobre Soares para merecer atenção. Também ela estranha a nossa "cegueira botânica" - algo a que aludi aqui, inconformado com esta nossa tendência para olhar as plantas sem nunca as vermos.

 

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 29.03.20

Será um salutar efeito secundário da pandemia? A verdade é que três blogues que me habituei a ler até entrarem em estado de hibernação regressaram por estes dias. E em grande forma, ao que parece.

Bem regressados sejam: Bomba Inteligente, Escrever é Triste e 31 da Armada.

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Os blogues que elegemos em 2019

por Pedro Correia, em 31.12.19

 

No ano que agora termina, como fazemos há mais de uma década, fomos elegendo por cá o blogue da semana.

Em 2019, foram estes:

 

A Origem das Espécies

A Página Negra

Alice Alfazema

Alma de Viajante

Atlas de Bolso

BD Gest

Bic Laranja

Blasfémias

Blog de Gaizka Fernández Soldevilla

Cidadania Lx

Da Rússia

Der Terrorist

2 Dedos de Conversa

Duas ou Três Coisas

Em Linha Recta

Entre as Brumas da Memória

Ephemera

Extramuros

HenriCartoon

I Met God, She's Green

IP

Largo da Memória

Mesa Marcada

Na Bicicleta

Net Politics

Non Dubium Pro Libertate

O Lugar da Língua Portuguesa

Os Canhões de Navarone

Por Falar Noutra Coisa

Provas de Contacto

Quinta Emenda

Quinta Temporada

Sapos do Ano

Split Screen

Talking Politics

Toponímia de Lisboa

Triptofano

Vida Extra

Xaile de Seda

 

Em 2020, haverá mais. Continuaremos atentos.

Blogue da semana

por Pedro Correia, em 23.11.19

Calha-me a mim, desta vez, a escolha do blogue da semana. Nem hesito: é o Sapos do Ano. Iniciativa meritória da Magda Pais e do David Marinho, que voltam a promover a eleição dos melhores blogues de 2019 em diversas áreas temáticas.

Recordo que o DELITO DE OPINIÃO recebeu em 2018 a distinção Sapo do Ano na categoria de blogue de política e economia - o que muito nos honrou e sensibilizou.

E aproveito para lembrar que o nosso blogue voltou este ano a ser nomeado, na categoria Blogues de Opinião.

Chegámos à fase final: a votação vai decorrendo por estes dias.

Livros com nomes de blogues

por Pedro Correia, em 12.10.19

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«"Conheci uma pessoa." Eis uma expressão que nalguns casos implica dois evidentes exageros.»

Pedro Mexia, Prova de Vida

 

Sinto por vezes algumas saudades do tempo de maior pujança da blogosfera, em que o debate de ideias se impunha sem o colete-de-forças compressor do Twitter nem o umbiguismo grupal do Facebook. Um tempo em que era possível dialogar com quem pensava de forma muito diferente, até antagónica, sem reduzir o pensamento a legendas, sem coleccionar bonequinhos de polegar levantado, sem confundir afectos e cumplicidades com a carneirada dos clubes de fãs, sem esse anátema sempre implícito no ridículo verbo "desamigar".

Fui coleccionando livros que resultaram da escrita blogosférica - e eles cá continuam, na minha biblioteca doméstica, como memórias vivas desse tempo que já passou. Livros com nomes de blogues, como O Acidental (que reunia o Paulo Pinto Mascarenhas, o Rodrigo Moita de Deus, o Vítor Cunha, o Luciano Amaral, o Vasco Rato e o Bernardo Pires de Lima, entre outros), Portugal dos Pequeninos (feliz título com a marca inconfundível do João Gonçalves antes da sua irreversível migração para o FB), Prova de Vida (diário do Pedro Mexia nascido como blogue e polvilhado de argutos aforismos, como aquele que serve de epígrafe a estas linhas) e Jaquinzinhos (onde o João Caetano Dias deixou um pioneiro rasto liberal antes da sua irreversível migração para o Twitter). 

A escrita blogosférica tornou-se residual, quase anacrónica: é precisamente por isto que eu insisto nela. Quando a prosa de Facebook originar livros, agradeço que me avisem.

No comboiozinho do Peixoto

por Pedro Correia, em 28.02.19

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Pedro "Abrantes" Marques, cabeça-de-lista do PS às europeias, fez parte do blogue socrático Câmara Corporativa.

 


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