Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

O fim dos blogs SAPO

jpt, 13.01.26

Blog – Boarische Wikipedia

Ontem a SAPO, plataforma que nos acolhe, anunciou aqui que irá descontinuar a sua secção blogal, activa desde 2003. Avisa que a partir do próximo 30 de Junho será impossível a publicação nos blogs ou o seu manuseamento. E que todos serão apagados em 30 de Novembro. Ou seja, terão os bloguistas nisso interessados de exportar os seus conteúdos arquivados para uma outra plataforma digital. 

O encerramento desta secção fundamenta-se no descrescente "apelo e utilidade" dos blogs face à disseminação de plurais redes sociais - as quais têm, como é consabido, uma dinâmica mais célere de publicação e de "leituras" (de facto, de visualizações). Não tenho dados estatísticos sobre isso - não sei quantos blogs activos estão na plataforma nem qual é a sua audiência global. Mas nada me custa a acreditar nisso - mesmo se este Delito de Opinião continue, anos a fio, a ter uma grande audiência, compatível com as dos grandes blogs da "Idade de Ouro" da blogosfera (quando havia um fiável "sitemeter" quase omnipresente na rede blogal portuguesa).

Este final não é totalmente surpreendente. Algumas medidas deixavam a ideia da desconsideração da SAPO pela actividade dos blogs. Até há cerca de dois ou três anos o Portal SAPO tinha uma secção de destaques de postais de blog colocada a cerca de metade da sua página inicial geral: cada postal ali colocado recebia largos milhares de visitantes. Depois essa secção passou para o sopé dessa página, implicando uma grande redução do afluxo de visitas aos "destaques", ainda assim usualmente superior ao milhar. E há alguns meses mesmo esse singelo rodapé blogal foi eliminado. Trata-se assim de uma "morte anunciada".

A decisão é empresarial (a plataforma SAPO pertence à MEO) e não questiono a justeza económica do encerramento da publicação de blogs. Lamento-a, claro. Acima de tudo porque este término esgarçará uma real comunidade de leitores. E, pessoalmente, pois nesta SAPO há muito que venho escrevendo neste Delito de Opinião, e antes também no muito lido sportinguista És a Nossa Fé. E para a SAPO exportei há muitos anos o meu blog ma-schamba (activo entre 2003 e 2015) e alojei o Nenhures (até Maio de 2025) - para o qual ia paulatinamente transferindo anteriores postais do meu "O Flávio"  e do anterior colectivo "Courelas", que haviam sido publicados no sistema wordpress. Nessa congregação procurando evitar que os textos - independentemente de serem minudências - se viessem a volatizar no "éter" digital.

E lamento também porque se me aparenta ser ela extemporânea. Pois julgo haver agora um relativo ressurgimento destes espaços mais plácidos, de escrita com menor frenesim típico das "redes sociais". Em Portugal vai-se disseminando a utilização da plataforma Substack - como o comprova esta lista já bem composta de páginas ("substacks" no jargão) portuguesas, elaborada no "Diga-se de Passagem" de João Lameira. Foi nessa Substack  que criei em Abril passado o meu blog "O Pimentel" - e como referi neste postal em poucos meses ali colhi nove vezes mais subscritores do que em mais de uma década na SAPO e os postais têm cerca de 3 ou 4 vezes mais leitores do que no meu anterior Nenhures, aqui alojado. O que acontece é que a Substack é uma plataforma um pouco mais desenvolvida mas muito manuseável, com múltiplas formas de publicação e potenciando as interacções. Enquanto esta SAPO cristalizou nas técnicas, não procurando uma verdadeira "evolução na continuidade" (para glosar uma expressão intentada em 2014). E assim reforçando o  progressivo abandono, de autores e de leitores.

[ADENDA: Nem de propósito!: horas depois de publicar este postal descubro que José Pacheco Pereira - que na primeira década do século teve o "Abrupto", durante longos anos o blog português mais lido, acaba de abrir o seu local na Substack (publicando em inglês) -, o que demonstrará o actual crescimento, o "apelo" para falar como a SAPO, desta plataforma.]

Enfim, reconheço a legitimidade da empresa encerrar o serviço gratuito de produção de blogs. Mas penso diferente quanto à anunciada "solução final", a do posterior apagamento dos arquivos alojados. A questão ultrapassa a mera consideração de custos: a empresa disponibilizou um serviço gratuito, com isso terá lucrado. E agora deita tudo fora.

A matéria dos arquivos de blogs sempre me ocorreu: em 12.4.2004 escrevi o postal "Arquivos Bloguísticos": "Não sei se isto do bloguismo é uma moda mais ou menos breve ou se é um meio de comunicação que veio para ficar, ainda que com progressivas transformações. Mas quando leio existirem milhares de blogs em Portugal (para lá dos milhões mundiais que o Technorati traça) não posso deixar de me surpreender com a sua dimensão... Assim sendo gostaria de saber como está a ser feito o arquivo de tudo isto, deste fenómeno relativamente importante do princípio do século e que virá a dizer algo sobre a sociedade de agora. Há uma política de arquivo bloguístico? Tem a instituição central de arquivos ("Torre do Tombo") uma política, uma lei e um instrumento de arquivo - o qual presumo que só poderá ser robótico? Ou ainda não se pensou no assunto?..."

Voltei ao assunto algumas outras vezes, como neste postal com o mesmo título "Arquivos Bloguísticos" (7.1.2008): "Ao longo dos anos alguns bloguistas vêm falando da necessidade de uma política de arquivo bloguístico - p. ex. no Adufe [que era do Rui Cerdeira Branco, com quem vim a blogar no És a Nossa Fé] desde 2004. E lembro que então também no Último Reduto e no Memória Virtual [que era de Leonel Vicente] se discutiu o assunto [sendo sintomático que todos esses blogs, como tantos outros, foram apagados quando o sistema weblog.com.pt que agregou grande parte da blogosfera portuguesa foi encerrado.] Que me lembre Pacheco Pereira fá-lo também desde 2004, voz avisada na matéria sublinhada pela sua notoriedade. Este seu "Documentos para uma Década Triste" vem retomar a questão, dando-lhe um âmbito ainda mais vastoInterrogo-me sobre o que pensarão as instituições do Estado português às quais caberia actuar. É que os anos vão passando ..."

Em suma, para uma futura análise historiográfica do primeiro quartel de XXI português (da sua "cultura popular", se se quiser), a produção bloguística será muito importante, permitindo um corte interessantíssimo, pois muito específico, na vox populi. Sobre vários assuntos, oriunda de vários segmentos. Mas o Estado português dormiu na forma, descurou a sua preservação - ainda que tendo sido várias vezes avisado sobre o assunto. E agora a MEO, uma grande empresa local, ribomba que irá deitar para o lixo os "papéis velhos", na incultura de considerar desnecessário o "arquivo morto". Pois muito se perderá nesta convocatória a que os remanescentes acorram a recolher e republicar o ... passado. Como aconteceu nas "desinfestações" anteriores. 

O comentário da semana

«Sou pelos blogues como estão: existência pacata de quem ama a escrita»

Pedro Correia, 23.09.25

images.jpg

«Estou farta de personalizar cookies, de os aceitar ou rejeitar. Perco alguma coisa. Mas, na vida, cada escolha é também uma perda, um apertar do caminho.

Creio que os blogues estão ultrapassados, sim. Mas esse é um dos factores que me atrai nos que frequento. O que passou de moda e continua a existir, vale mais: ficaram os fiéis, sem luzinhas a piscar e florinhas que abrem e fecham e demais enfeites - ficaram as palavras no mais intrínseco de si. Hoje, os blogues são lugar de sossego. Dão assunto e tempo para pensar; rasam as novidades e a notícia sem espalhafato, contam histórias verosímeis e tanta vez verídicas, opinam sem alarde.

Tendemos até a julgar conhecer quem está por detrás das palavras, suposição incorrecta: ninguém é o que escreve senão em parte ínfima e tanta vez incerta.

Sou pelos blogues tal como estão: existência pacata e sem alarde de quem ama a escrita.»

 

Da nossa leitora Bea. A propósito deste texto do Paulo Sousa

Dois textos

Pedro Correia, 08.04.24

Por vezes acontece-me isto. Vou lendo blogues assinalados na barra lateral do DELITO, uns puxam-me para outros e acabo por me demorar mais tempo do que o previsto. Bom sinal. E um desmentido vivo de que «a escrita blogosférica não interessa, é chata, maçadora, ninguém quer saber», como argumentam alguns viciados em certas redes onde o que mais importa é disparar primeiro e pensar depois.

Contra esta corrente, recomendo dois textos blogosféricos de recente data.

 

O primeiro, no Duas ou Três Coisas, intitula-se "Saudades do tio Filipe" - talvez paráfrase de "Saudades para Dona Genciana", um dos melhores contos desse extraordinário escritor que foi José Rodrigues Miguéis. É prosa de blogue, sim, mas também texto literário. Em estrito rigor, será crónica. Bastariam no entanto uns toques estilísticos para se situar no inequívoco patamar do conto. E dos bons.

Aliás muitos textos de Francisco Seixas da Costa são já contos, sem necessidade de aval académico. Assim li este, assim o recomendo. Com os seus laivos de romance oitocentista, centrado na família - o mais fascinante dos temas. 

 

O segundo vem no blogue Causa Nossa. Vital Moreira evoca um seu ilustre contemporâneo como estudante na Universidade de Coimbra: Francisco Lucas Pires (1944-1998). Navegavam já em campos políticos opostos nessa década que antecedeu o 25 de Abril: um seria deputado comunista e voltaria a São Bento integrado na bancada do PS, embora não como militante inscrito; o outro chegaria a presidente do CDS, partido de que se desligou anos antes de ingressar no PSD. Mas mantiveram laços do antigo companheirismo coimbrão.

O constitucionalista é pouco dado a notas de pendor confessional. Daí o redobrado interesse deste apontamento memorialístico, surgido a propósito da novíssima biografia de Lucas Pires, escrita por Nuno Gonçalo Poças. «Tive a sorte de o acompanhar não poucas vezes, depois do quartel, à casa que Teresa, sua mulher, tinha arrendado em Óbidos, em longos repastos e fértil discussão política», lembra Vital Moreira, sob o título "Um singular serviço militar".

 

Dois textos muito diferentes, mas ambos merecem leitura. Aproveitamos bem o tempo, aprendemos alguma coisa com os autores, abrimos horizontes temporais. E também por isto: escutamos vozes singulares, que não se dissolvem no anonimato nem gravitam na nebulosa amálgama do "colectivo". Enorme diferença em relação a tantos outros.

Ler os outros

Paulo Sousa, 15.11.23

"É o maior desbaratamento da história da democracia portuguesa. O governo tinha tudo o que era preciso. Um Primeiro-ministro hábil e habilidoso. Uma maioria absoluta. Um partido de governo coeso e unido. Um Presidente da República cooperante e colaborador como nunca se tinha visto. As esquerdas destroçadas. O Chega a subir, não de mais, mas o suficiente para diminuir o PSD. Uma oposição tépida e desorientada. Um Programa de financiamento europeu de montante inimaginável. Uma situação económica e financeira melhor do que se esperava ainda há pouco tempo. O erário público com uma folga confortável. A admiração, o respeito, a necessidade e a dependência das academias, da administração, das instituições e da imprensa. A colaboração do capital internacional. A atenção dos empresários. E os autarcas em fila de peditório.

(...)

A causa da crise não foi social, nem económica, muito menos internacional. Foi o mau governo. O bem e o mal andam de braço dado! O que parecia um bom governo era feito de maus ministros. Em certos casos, gente vaidosa e prepotente. Noutros, medíocres fantasmas."

 

Já aqui falei várias vezes da clareza com que António Barreto nos consegue observar. Vale a pena lê-lo. Provavelmente o texto completo está no Público, mas pode ser lido na integra aqui.

Ler os outros

Paulo Sousa, 02.05.23

António Barreto regressa ao espaço público com regularidade, onde acrescenta uma clareza de pensamento que aprecio escutar. No seu último artigo de opinião no Público, fala sobre várias aspectos da actualidade de que aqui partilho um excerto.

"Entre as fraquezas da democracia está a mais citada: é o regime de todos, incluindo os não democratas e os antidemocratas. Além desta, outras fragilidades mostram bem como, mais do que imperfeita, a democracia tem vícios, alimenta vícios e premeia vícios. O regime democrático inclui corruptos, mentirosos, exploradores, ladrões e os representantes das várias cáfilas conhecidas. A democracia coexiste ainda com cunhas, droga, machismo, assédio sexual e tráfico de influências. Muitos destes vícios e defeitos têm de ser tratados com civilização. Outros, com a Justiça e o Estado de direito. Quando estes últimos falham, perde a democracia.

Os últimos episódios “mediáticos” revelaram o papel crescente do partido Chega e os receios, igualmente crescentes, dos que se dizem defensores da democracia. E que talvez sejam, em título, pelo menos. Mas convém olhar melhor para este confronto que parece simples, mas não é. Na verdade, os provocadores do Chega, ridículos, mas eficazes, são tão perigosos quanto os prevaricadores do PS e do PSD. Os oportunistas do Chega são tão ameaçadores quanto os que não são capazes de gerir a democracia. Sem falar naqueles que se querem aproveitar da democracia."

O artigo na sua totalidade pode ser lido também no seu blog.

Sapo: 18 anos a blogar

Pedro Correia, 04.11.21

Dezoito anos: atingiu a maturidade. Em aniversário do Sapo Blogs, plataforma em que o DELITO está alojado desde o primeiro dia, toda a equipa que a concebeu, a dirigiu, a orienta e produz agora está de parabéns. Por cumprir algo a que podemos chamar serviço público sem favor algum. 

Desde 3 de Novembro de 2003, como lembra aqui o Pedro Neves, mais de 600 mil blogues foram criados com aquela chancela. Muitos desapareceram - incluindo alguns emblemáticos. Mas vários outros vão sendo criados, expressando novas tendências e novas maneiras de abordar este fenómeno que introduziu entre nós o verbo blogar.

São também 18 anos de histórias que aqui ficam documentados para investigadores futuros. E de História, com letra maiúscula. Património inestimável, pois. Desejo e espero que seja preservado: eis o voto que formulo e associo ao meu abraço de parabéns.

Vale a pena ler (17)

Pedro Correia, 06.06.21

transferir.jpg

 

«Os autores norte-americanos são hoje obrigados a assinar cláusulas de moralidade muito abrangentes nos contratos com as editoras que (...) lhes limitam enormemente a liberdade de expressão e implicam até a devolução dos adiantamentos se o escritor for acusado de algum comportamento indigno nas redes sociais, mesmo que por uma única pessoa, pois isso basta para o livro deixar de se vender e causar um enorme prejuízo à editora. Mesmo nos países moralistas, é sempre o dinheiro a mandar..»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Só quem for cego, ou não frequentar balcões de cafés ou tabacaria, é que não vê que as raspadinhas são um flagelo que explora a ilusão dos mais pobres. A mesma lógica que vai levar ao fim das chamadas de valor acrescentado, no serviço público que é a RTP, devia impedir eticamente o Estado de criar novas raspadinhas.»

Francisco Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas

 

«Imaginem construir um circuito pedonal desde Coimbra até à Figueira da Foz, ao longo do rio Mondego. É mais ou menos isso que estão a fazer em Memphis, mas esta coisa de circuitos pedonais que atravessam a cidade encontra-se em muitos sítios nos EUA. Denver, no Colorado, foi uma das primeiras cidades a investir nessa infraestrutura e depois a ideia foi copiada em outros sítios; quando eu vivi em Fayetteville, no Arkansas, há 15 anos, estavam a construir um.»

Rita Carreira, A Destreza das Dúvidas

 

«Foi em África que a hominização começou e a humanidade nunca parou de aqui regressar. Talvez no fundo seja na África sub-sahariana que se encontre o cerne do homem, com o que tem de pior e de melhor. A essência do homem, como diria um filósofo alemão.»

Luís Serpa, Don Vivo

Vale a pena ler (16)

Pedro Correia, 11.04.21

no-1532841_1920.jpg

 

«Do lado da ciência, também existem aqueles que se furtam ao debate, desde logo quando chamam negacionista a alguém que quer discutir a questão - uma maneira de subtrair a pessoa do debate, depreciando-o ao nível do ignorante - e usam essa classificação como substituto de uma argumentação válida da sua posição.»

Beatriz Alcobia, IP Azul

 

«Sobre as folhas de alface tenras e lavadas, salpicadas já de transparentes meias luas de cebola, cortei finamente um pequeno ramo de coentros. Cortei também meia dúzia de folhas de hortelã, enroladas umas nas outras como quem pica caldo verde. Depois veio o sal, o fio de azeite num breve rodopio e sumo de meio limão. Assim, perfumada a rigor, se aprontou a salada que havia de acompanhar o assado de Páscoa.»

Luísa, À Esquina da Tecla

 

«Quando alguém se escandaliza, desconfio. Durante anos, usar camisolas poveiras era sinónimo de provincianismo e piroseira. Parte dos que se escandalizaram agora também se escandalizaram quando o ministro Álvaro Santos Pereira propôs a internacionalização do pastel de nata. Em vez de se escandalizarem, mexam-se como deve ser.»

Francisco José Viegas, A Origem das Espécies

 

«Comprei uma camisola de linho e algodão, muito à moda do que se veste pelos lados de Nova Inglaterra. As camisolas são como os chapéus--ele há muitos. Tem âncoras, barcos à vela, conchinhas, e custou $128, quer dizer, depois dos portes e dos impostos ficou em quase $150. E é fabricada na China. Não pica e é muito confortável, ao contrário da camisola poveira de Portugal. Até me serve lindamente. Agora tenho de arranjar maneira de ir passar uns dias a uma praia onde faça frio para a poder usar.»

Rita Carreira, A Destreza das Dúvidas

Vale a pena ler (15)

Pedro Correia, 14.03.21

presidente-da-republica_marcelo-rebelo-de-sousa.jp

 

«Julgo que a pandemia e a crise económica e social que lhe vem associada não justificam que o Presidente da República assuma poderes que constitucionalmente não tem, e que são do Governo, como o de fixar critérios de desconfinamento e de - no discurso de tomada de posse - estabelecer as prioridades políticas da governação nos próximos anos.»

Vital Moreira, Causa Nossa

 

«Quando alguém me diz “vi no Facebook” (não tenho) não ligo importância ao que vem a seguir; não por preconceito – só por sanidade; é um albergue de loucos. Acontece que boa parte dos alertas “para o perigo das redes sociais” são, no entanto, duvidosos. Muita gente ganhou “nome e fama” nesse albergue – e estava tudo bem enquanto eram só beijinhos e retratos com gatinhos. Mas o género humano não engana; o que sobe, há de descer; o que é bom, há de ser atacado com inveja e despeito; por isso, quando alguém alerta “para o perigo das redes sociais”, limito-me a sorrir.»

Francisco José Viegas, A Origem das Espécies

 

«Sem querer tirar qualquer mérito a Saramago ou a Lobo Antunes, Aquilino, Vergílio e Cardoso Pires são os meus escritores do século XX.»

Luís Millheiro, Largo da Memória

Vale a pena ler (14)

Pedro Correia, 07.03.21

243.jpg

 

«Com uma infância tão solitária [Jorge de] Sena acabou por não resistir ao fascínio dos livros. A leitura chegou pelas mãos da mãe e da avó, as mulheres que o incentivaram a amar a leitura e a literatura. Especialmente a avó Isabel que adorava literatura policial e fazer palavras cruzadas, gostos que acabaram por contagiar o neto. Quero crer que foi este amor pela leitura que provocou o seu acto de escrita e, por extensão, o amor à literatura que o fizeram dedicar-se ao seu estudo. E talvez aquele gesto especial por parte da avó, a oferta de um caderno que lhe serviu de diário durante a viagem de cadete da Marinha, tenha sido o gesto que terá despertado a sua genialidade.»

Miss X, Livrologia

 

«Obras, remodelações e mudanças dão cabo de mim. Nunca me apetece arrumar nada. Descobrem-se coisas que pensávamos perdidas, perdem-se outras que achávamos a salvo. A minha mesa de cabeceira, que não foi substituída, contém uns porta-retratos de há séculos que não consigo guardar. Vão ali ficando e pegando de estaca. Mas a verdade é que, por muito que pense que é desleixo, se calhar é o meu subconsciente a implorar-me para que alguma coisa faça a ponte entre o que era e o que agora é.»

Sofia Loureiro dos Santos, Defender o Quadrado

 

«Estão de volta as borboletas brancas, as abelhas estão mais activas, por vezes ameaçando um favo no canto da varanda. Só falta o regresso das andorinhas. O arrulhar dos pombos, o canto dos melros, dos pintassilgos e afins serve de fundo às conversas entre vizinhos, que falam de janela para janela ou em encontros fugazes na rua. Ao longe o mar, a lembrar que continua à minha espera. Não fossem as fitas em torno do escorrega e baloiços do jardim infantil e até esquecia esta maldita pandemia.»

MgA, Entre Ser e Estar

Vale a pena ler (13)

Pedro Correia, 28.02.21

601170051d2df20018b710f9.jpg

 

«Não concordando com o que sucede na Holanda, porque me parece que a "artilharia" está mal apontada, penso nesta maneira de ser, de estar, tão diferente, da nossa. Nós, os portugueses, escolhemos protestar difamando todas as mães, exceptuando a nossa, uma santinha, esbracejamos um "isto não pode ser", cerramos os punhos ao ritmo de um "quem é que eles julgam que são?" e terminamos, mansamente, perguntando "o que é o almoço?". Talvez por isso tenhamos aguentado, impávidos e serenos, 40 anos de nostálgica ditadura.»

Vorph Valknut, B(V)logue de Alterne

 

«Está tudo maluco, enfim. Uma vez disseram-me que uma livraria portuguesa punha no Top da loja os livros que não se estavam a vender para ver se as pessoas assim lhes davam atenção e os levavam. É o marketing, senhores, ou seja, não nos podemos fiar nele...»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Ao fim de uma mão cheia de meses com a minha neta tomei consciência de duas situações:

- A primeira, já o havia referido no outro postal, prende-se com a minha maior paciência;

- A segunda é que a miúda leva-me a fazer coisas impensáveis tais como brincar com bonecas, imaginem;

Depois os ritmos de vida cá em casa dependem exclusivamente dela. Mas sabe tãããããããããããaõ bem esta mudança.»

José da Xã, Lados AB

Vale a pena ler (12)

Pedro Correia, 21.02.21

images.jpg

 

«Lia hoje numa rede social a alusão irónica da venda de um livro juntamente com um bife num qualquer talho. De facto, não percebo. Se posso comprar online e ir buscar um livro a um cacifo de uma grande livraria, por que motivo não posso ir a um postigo de uma pequena ou média livraria? O livro é para mim e muitos um bem essencial e deve sê-lo para uma sociedade, para um país democrático, para um país do século XXI.»

Marina Malheiro, Horas Extra

 

«Estar a ter aulas em casa não é o mesmo que estar em férias, portanto existem regras básicas que devem ser seguidas, como vestir roupa adequada, ter a webcam ligada e o microfone desligado, mantendo sempre a máxima atenção. O lugar de aprendizagem deve estar bem definido, de preferência deve ser um espaço que permaneça em silêncio e sem acesso a outras formas de comunicação, como por exemplo a tv.»

Maribel Maia, Educar (com) Vida

 

«Cheia de ânimo, sentei-me à mesinha da sala pronta a passar a pente fino todos os afazeres anotados no meu post it amarelo. Que se mantenham as tradições de quando éramos gente de contacto e afectos sem barreiras nas faces e munidos de álcool gel que nos secam as mãos. Mas aí, ah, aí eu andava de bota pelas ruas de Lisboa! A pantufa no soalho de casa, não é bem a mesma coisa. 

Carolina Novo, Vem à Janela

Vale a pena ler (11)

Pedro Correia, 14.02.21

airplane-sunset.jpg

 

«O avião é um dos maiores produtores de poluição. A deslocação de pessoas por avião devia acabar nas viagens curtas e nas médias. Um comboio transporta muita mais pessoas que um avião. Um comboio polui muito menos que um avião. E se a viagem demora mais tempo, talvez seja tempo de nos adaptarmos a esse novo tempo. A um tempo onde o tempo conta menos que agora. É tudo uma questão de hábito e de programação de vidas.»

Folhas de Luar

 

«Costumas voar peregrino por descampados, onde a erva solta agarra geadas intemporais que o sol há-de capturar a si. Deixas cair de ti, cá em baixo, a tua vaga sombra, quando voas lá no alto, onde ventos frescos e sólidos sopram nomes que não conheces. É quando planas livre sem horas, nas horas azuis de um imenso céu, que te sentes maior que o tempo e o silêncio que ainda existe.»

Sandra, Mão à Noite

 

«Cansado, desgostado, furioso, impotente na raiva mas não no desprezo das camarilhas que me tiram a liberdade, desdenhoso dos que se vendem e dos que os compram, espécies tão baixas que nem aos vermes que se arrastam na lama os quero comparar. Nunca foi por aí além a minha capacidade de julgá-los com alguma desculpa, mas agora que mostram a verdadeira natureza que os move a proibir e a impor, tudo pelo "carinho e o cuidado" de salvar a plebe, só asco me merecem.»

J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado

Vale a pena ler (10)

Pedro Correia, 07.02.21

covid-19_insa_8.jpg

 

«Já posso olhar para trás e enfrentar aquilo que senti quando vi o positivo no teste rápido. O primeiro sentimento foi medo. Antes eu dizia que não tinha medo de apanhar Covid-19 porque achava que teria sintomas leves já que não tenho factores de risco (um resfriadinho, como dizia o Bolsonaro). Mas quando me vi naquela situação receei que a doença evoluisse para uma situação grave quando já era patente que o SNS estava a chegar ao colapso.»

O Voo da Garça

 

«Um sentimento de tristeza e desolação emerge dos olhares de quem vende, mas também de quem compra. Para muitos a feira [da Malveira] também servia de motivo para simplesmente dar um passeio, isso agora não é possível, compra-se o que se tem de comprar e vai-se embora, as caras das pessoas nem as vemos, dois dedos de conversa com alguém conhecido não se dá, até porque não encontramos lá essas pessoas.  »

Maria, Abrigo das Letras

 

«Haverá sempre gente pior. Há pessoas a viver debaixo de explosões de morteiro no exacto momento em que escrevo este texto. Ainda assim, os nossos dramas são os nossos. Ninguém saberá nunca que estilhaços estão a deixar dentro de nós. Por isso, tenhamos todos um pouco mais de empatia. Se não temos nada para dizer, calemo-nos. Por vezes, basta escutar.»

Sónia Morais Santos, Cocó na Fralda

Vale a pena ler (9)

Pedro Correia, 30.01.21

joachim-von-ribbentrop-as-foreign-minister-of-the-

 

«Causa-me alguma angústia pensar que muitos jovens não sabem o que foi o Holocausto nazi. Causa-me também igual angústia imaginar que um número ainda maior nem sabe o que foi a União Soviética, o que não é de estranhar tendo em conta os adeptos que esta ainda vai tendo, sobretudo em Portugal onde, neste campo, se tenta reescrever a História.»

Robinson Kanes, Não É que Não Houvesse...

 

«Foi difícil ler as últimas páginas deste livro [A Peste, de Albert Camus], foi doloroso perceber as conclusões e a maneira como foi encarado o fim daquela epidemia. Provavelmente por estarmos a viver toda esta situação, ficamos mais sensiveis a algo que noutro momento seria lido como pura ficção.»

I.M. Silva, Livros Que São Amigos

 

«Alguém fuma muito, e dentro de casa. O cheiro sobe pela ventilação, invade a casa de banho. Deve ser a vizinha do primeiro andar, que vive sozinha e nestes anos nunca largou um "bom dia" ou um sorriso. Nunca vi a vizinha do terceiro. Tem uma empregada interna com uma farda verde e azul turquesa. Que tem medo de andar de elevador, sobe as escadas carregada de compras. Nunca vi a vizinha, mas deve ser uma pessoa alegre. Ninguém sorumbático escolheria aquelas cores para uma vestimenta.»

Concha, Crónicas do Chão Salgado

Vale a pena ler (8)

Pedro Correia, 24.01.21

img_440x274$2021_01_11_15_06_45_392913.jpg

 

«Ao começo do dia, tinha uma videoconferência internacional. Eu era o único português nos ecrãs. Antes de se entrar no assunto da conferência, a primeira pergunta vinda de outros mundos foi para expressar preocupação pelas notícias que estão a chegar, relativas ao Portugal da pandemia. Perguntaram-me se estava resguardado. E um participante disse-me que em Bruxelas muitos não entendem a razão que levou o primeiro-ministro português a insistir, nesta passada sexta-feira, numa reunião presencial, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, com a presidente e vários comissários europeus. O PM sabia, já nessa altura, que o risco de contágio era elevadíssimo.»

Victor Ângelo, Vistas Largas

 

«Decidi antecipar o meu voto. (...) Foram filas intermináveis, mas acima de tudo a sensação de falta de organização tão necessária em um momento de pandemia como este. (...) Na mesa 1 ficaram despachados em 1 hora, na mesa 3 em 30 minutos e eu em 3 horas. Sim, leram bem: em 3 horas.»

Lavanda

 

«Tal como nas noites anteriores, nestas peregrinações solitárias a que já me habituei, cruzo-me com muito pouca gente, mesmo muito pouca. Quase todas essas pessoas trazem cães pela trela. Ora eu nem gato tenho, mas, se tivesse, numa interpretação extensiva da lei (como parece que está na moda incívica fazer, durante a pandemia), poderia passeá-lo? Creio que não. Pensando bem, não me lembro de ter visto alguém passear um gato, alguma vez, pelas noites de Lisboa.»

F. Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas

 

«Escrever é um trabalho solitário. No limite, a escrita só gera amizades postumamente. Ironicamente, o escritor morto é uma criatura estupidamente sociável.»

Roberto Gamito, Fino Recorte

 

Vale a pena ler (7)

Pedro Correia, 16.01.21

writing-better-person.jpg

 

«A essência de escrever não é ser descoberta. A essência de escrever é descobrir a minha verdadeira voz interior. A essência de escrever é descobrir o mais profundo do meu ser em cada letra, em cada palavra.»

Cátia Santos, Escrita de Alma

 

«Filipa Leal tão depressa nos mostra aquilo que sente no momento, numa antecipação em relação ao futuro, como nos leva até à infância e às memórias das férias passadas em Vigo – as idas ao El Corte Inglés e tudo o que lá comprava em pequena. A leitura deste livro [Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano] foi uma experiência muito intimista, quase como se estivesse a conversar com alguém que conheço bem..»

Rita da Nova, Rita da Nova

 

«Que frio que está. Dou por mim a cruzá-los e a soprá-los como o meu pai fazia nos dias de Inverno em que se lembrava de Moçambique, esta terra é um gelo, dizia ele e a minha mãe troçava dele, isto é Lisboa, sabes lá tu o que é frio, homem. Facilmente nos tornamos na ausência dos nossos pais. Mas o meu pai, ao contrário de mim, tinha uma caligrafia elegante, dava um balanço teatral com a mão antes de começar a escrever e concedia uma rara paciência à lentidão da sua própria mão, sabes lá tu o que é frio, homem e as pontas de dos dedos também a gelarem-se-me agora, por cima do teclado, essa bênção sem rasuras dos impacientes que escrevem, esta terra é um gelo, Lá, agora, seria Verão.»

Cristina Nobre Soares, Em Linha Recta

Vale a pena ler (6)

Pedro Correia, 09.01.21

CP114537671-e1609974055767.jpg

 

«Alguém deveria ter explicado à chorosa menina do "We're storming the Capitol, it's a revolution" (3'48") que, numa revolução (até numa "revolução" do Trampas), é de esperar que haja, pelo menos, gás lacrimogénio, e que encontrar caves repletas dos melhores vinhos não é para quaisquer revolucionários/reaccionários em part time (explicação, aliás, indispensável, da esquerda à direita).»

João Lisboa, Provas de Contacto

 

«Chama-se O Infinito num Junco – A Invenção do Livro na Antiguidade e o Nascer da Sede de Leitura e assina-o Irene Vallejo, uma leitora apaixonada, doutorada em Estudos Clássicos em Saragoça e Florença e com uma ampla cultura sobre a história do livro. Trata-se de um ensaio que se lê como ficção; e, entre as dezenas de passagens que fui sublinhando (...), está uma pequena história muito bonita sobre o amor que uniu Marco António e Cleópatra.»

Maria do Rosário Pedreira, Horas Extraordinárias

 

«Podia ser uma qualquer vila desertificada do interior do país. Mas não. Estou em Sintra. O relógio diz-me que são 10h. Vazia de gente. Sem carros. Os autocarros para a Pena sem passageiros. (...) Respirar o verde de nariz a descoberto. Sem praticamente ninguém nesses passeios. Sem me cruzar com conversas faladas noutra línguas. Quietude inquietante.»

Ana Cristina Gomes, O Sopro Mágico das Palavras