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Joana e os jornalistas

por Pedro Correia, em 31.01.19

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Que tenha sido uma psicóloga, num espaço televisivo de comentário político, a revelar ao País aquela que foi até agora a notícia mais importante do ano, divulgando a lista dos megadevedores da Caixa Geral de Depósitos, paga com o dinheiro de todos nós, é algo que devia envergonhar toda a classe jornalística. A começar por alguns directores de publicações, que continuam a ser pagos a peso de ouro por empresas tecnicamente falidas.

Nas últimas duas décadas, proliferaram como cogumelos os jornalistas especializados na "área económica". Deviam ter sido estes - ao menos um deles - a difundir aos portugueses a informação que Joana Amaral Dias divulgou, prestando assim um autêntico serviço público. Tal como deviam ter sido eles a alertar em devido tempo para os riscos sistémicos da governação Sócrates, em irresponsável conúbio com o Grupo Espírito Santo, instrumentalizando e depauperando grupos empresariais como a PT e a CGD.

A diferença, neste caso, é que Joana Amaral Dias nunca aceitou férias milionárias na neve, pagas por Ricardo Salgado, que assim - durante anos - foi comprando o silêncio de directores e editores de órgãos "de referência" na comunicação social. Será também ela a revelar-nos um dia a tal misteriosa lista de avençados do Grupo GES que nenhum "jornalista de investigação" até hoje conseguiu trazer a público?

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A golpada

por Pedro Correia, em 21.04.18

«As luvas alegadamente pagas a José Sócrates, Bava, Granadeiro, Bataglia e mesmo Ricardo Salgado foram financiadas por veículos financeiros que usaram dinheiro dos clientes que compraram papel comercial do BES ou do Banque Privée em esquemas semelhantes aos que destruíram as poupanças de tantos.»

 

Da série de grandes reportagens da SIC que nos tem conduzido aos meandros do maior escândalo político e financeiro da democracia portuguesa.

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Os resultados da medida de resolução do BES.

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.18

Quando Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque anunciaram a medida de resolução do BES com um empréstimo de 4.900 milhões de euros ao Fundo de Resolução, eu escrevi logo aqui que a ideia de que o Estado recuperaria o dinheiro emprestado não passava de um sonho de uma noite de Verão. Mas só agora, passados quatro anos, o Estado reconhece ter perdido todo o capital que meteu irresponsavelmente nesta operação. Naturalmente que os responsáveis por essa decisão já não estão em funções e são os contribuintes que irão assumir uma perda, que lhes garantiram que nunca teriam.

 

Este é um bom aviso para aqueles que com tanta ligeireza quiseram pôr o dinheiro da Santa Casa a financiar o Montepio. Como bem se salientou no El País o dinheiro dos pobres não pode servir para salvar bancos. Houvesse respeito pelos dinheiros públicos, com a garantia de que nunca serviriam para socorrer negócios privados, e é seguro e certo que os privados teriam mais cuidado na gestão dos seus próprios negócios.

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Do descaramento

por João Campos, em 09.01.17

des·ca·ra·men·to 

substantivo masculino

  • 1. Falta de vergonha; desfaçatez.
  • 2. Impudência; desaforo.

"descaramento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

"descaramento", por Ricardo Salgado in Jornal de Negócios [em linha], 09-01-2017

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No Novo Banco a história do costume.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

Penso que fui das poucas pessoas a dizer (veja-se aqui e aqui) que a resolução do BES iria dar um buraco maior do que o próprio BES e que o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução nunca iria ser pago, sob pena de a banca em geral colapsar. Agora sabe-se que, em lugar dos 4,4 mil milhões gastos, apenas nos oferecem pelo Novo Banco uns módicos 750 milhões e ainda exigem garantias de 2,5 mil milhões. O pedido de garantias é muito avisado, sabendo-se dos riscos de litígios que a medida de resolução decretada pelo Banco de Portugal, com o Governo na praia, iria provocar. Mas, apesar disso, o preço é espantoso. Como bem escreve hoje João Quadros no Jornal de Negócios:

"750 milhões pelo Novo Banco? Aposto que a Remax fazia melhor que o Sérgio Monteiro. Não podemos vender o Novo Banco aos vistos gold? Ou aproveitar os balcões para fazer uns hostels?

Como se não bastasse, a proposta da Lone Star, segundo se diz, é em torno dos 750 milhões, mas a garantia pedida ao Estado é de 2,5 mil milhões de euros. Isto não é vender o Novo Banco, é pagar pelo dote da mais nova".

É por isso que agora surge a proposta mirabolante de nacionalizar o Novo Banco, tão ao agrado da extrema-esquerda. Devem estar milagrosamente esquecidos do que deu a nacionalização do BPN, onde o Estado estoirou 6.000 milhões para depois revender o banco nacionalizado por 40 milhões.

Os Bancos são negócios como quaisquer outros. Se não são viáveis, devem ser liquidados, com perdas para os credores e os grandes depositantes. Fazer os contribuintes suportar negócios inviáveis só serve para provocar a ruína do Estado. E antes de fazerem qualquer disparate, comecem mas é a olhar para os juros da nossa dívida.

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O incendiário.

por Luís Menezes Leitão, em 30.06.16

Na resolução do BES o Estado meteu 3,5 mil milhões de euros, que "emprestou" ao Fundo de Resolução, confiando em que o nosso pujante sistema bancário devolveria o dinheiro. Não só não devolveu nada, como agora o Novo Banco precisa de reforçar o capital em mais 1,4 mil milhões de euros. Como se isto não bastasse, surgiu entretanto a necessidade de resolução do BANIF que custou 3 mil milhões de euros. A isto há que acrescentar as necessidades de recapitalização da CGD que serão no mínimo de 5 mil milhões de euros. 

 

Perante este cenário claro, Schäuble fez uma declaração, que eu até acho simpática, a dizer que Portugal precisa de um novo resgate e que estaria em condições de o ter. A seguir lá lhe puxaram as orelhas, e voltou atrás dizendo que Portugal não vai precisar de qualquer resgate se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice. Eu traduzo: Portugal não precisará de resgate se tiver condições para ter um orçamento equilibrado, o que manifestamente não vai ter.

 

Mas entretanto lá surgiu o inevitável João Galamba, a acusar Schäuble de ser incendiário, já que Portugal não precisaria de resgate algum. Só falta agora explicar onde é que vai o país buscar o dinheiro para recapitalizar os bancos. Vai continuar a endividar-se no mercado? Com a dívida que já temos, é a garantia que a breve trecho os mercados se fecham. Vai ligar as rotativas? Enquanto estiver no euro, isso não é possível. É por isso manifesto que o segundo resgate é a única solução. Por isso fariam melhor em ouvir Schäuble, em vez de continuar a viver num mundo de ilusão. Schäuble não pega fogo às finanças da Alemanha, que estão fortes e pujantes. O mesmo já não posso dizer do actual governo português.

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Arteirices

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.09.15

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"Aquilo que digo é aquilo que sempre disse - e que tive oportunidade de dizer na comissão de inquérito ao BES (Banco Espírito Santo): que os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo com este processo. Isso cabe ao Fundo de Resolução."

 

"É verdade que há um banco público (CGD - Caixa Geral de Depósitos), que faz parte dos bancos do sistema, mas isso decorre da existência de um banco público, que é um banco igual aos outros em termos de direitos e obrigações para esta matéria. Em todas as outras questões, os contribuintes não serão chamados. E no caso da CGD é uma via indire[c]ta, que decorre do facto de o banco ser público." - Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças

 

A senhora ministra também pode dizer de dedo espetado que os alunos das universidades portuguesas não pagam propinas, que não têm que se preocupar com o seu valor porque quem paga não são eles, são os seus pais. Qualquer aluno, por muito cábula que seja, mesmo um jotinha, sabe que isso não é verdade. E se perder o ano, sendo um aluno e filho minimamente responsável, ficará envergonhado perante os pais. Porque sabe que o dinheiro dos seus pais, se não tiver sido roubado nem caído do céu, lhes custou a ganhar, saiu-lhes do pêlo para que as propinas fossem pagas e ele pudesse frequentar a universidade. E sabe que esperavam que ele também tivesse correspondido ao esforço que fizeram.

Por isso, declarações como as transcritas só são boas para serem aplaudidas nos comícios da Universidade de Verão. Lá é que a senhora ministra pode fazer dos outros parvos, ser aplaudida em cada frase que profere, dar a volta à praça e sair em ombros.

Na vida real não é assim. Directa ou indirectamente, o dinheiro vai sair do bolso de sempre. Umas vezes é pescado pela mão direita do contribuinte, de outras pela sua mão esquerda. Depende das legislaturas. Mas às vezes o dinheiro é-lhe retirado antes de entrar na conta bancária, antes de lhe chegar ao bolso, sem que lhe tenha sido perguntado se está disposto a pagar. E, às vezes, até depois do primeiro-ministro lhe ter dito que podia ficar tranquilo. É este o caso.

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Teremos, portanto, um Novo Bang

por Rui Rocha, em 12.08.15

Anbang vence corrida ao Novo Banco.

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Está a fazer um ano

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.15

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Em 4 de Agosto de 2014:

"Passos Coelho tinha dito que o Estado não seria obrigado a salvar o BES. Que não haveria dinheiro dos contribuintes lá metido, que seriam os privados a arcar com os prejuízos. Concluí, ingenuamente, que seriam os "capitalistas" a resolver o problema. Mas o que se vê, ao contrário do que foi afirmado e da mensagem que o governador Carlos Costa quis passar, é que estamos perante uma nacionalização encapotada do BES. Ainda que temporária será paga com o dinheiro que não saiu do bolso dos seus accionistas, que não saiu do bolso dos privados e cujos custos serão pagos, uma vez mais, pouco ou muito, com juros ou sem juros, por todos."

 

Em 3 de Agosto de 2015:

"Ofertas abaixo dos 4900 milhões "atrasam" venda do Novo Banco

Os três candidatos à compra da instituição bancária entregaram propostas bastante abaixo do valor injectado no banco

(...) Assim, qualquer proposta abaixo dos 4900 milhões traduzir-se-á numa perda a suportar pelo sistema, o que afectará a Caixa Geral de Depósitos com 30% do mercado, e, por essa via, os contribuintes. E ao terem de absorver “prejuízos”, os bancos degradam os resultados o que se reflectirá igualmente em menos receitas para o Estado. É a dimensão dos prejuízos que as autoridades procuram agora minimizar potenciando a venda. E, por isso, solicitaram ao Anbang, à Fosun e à Apollo, que até 7 de Agosto submetam ao BdP novas intenções vinculativas. Uma parte de valor será para encaixar pelo vendedor, outra destina-se a recapitalizar o NB, que necessita de nova injecção de fundos até 1500 milhões. Contas feitas (e incluindo o polémico aumento de capital de Junho de 2014, ainda com Ricardo Salgado no banco), com o apoio adicional a ser realizado, a instituição terá recebido nos últimos 14 meses, cerca de 7500 milhões de euros. (...) O Governo e o BdP têm vindo a ajustar as suas expectativas optimistas iniciais de que a transacção do Novo Banco se faria próximo dos 4900 milhões. O que os obrigou a colocar em cima da mesa uma quarta solução “não desejada”: a possibilidade de atrasar o fecho da operação até que as condições de mercado se tornem mais favoráveis. É a via que menos interessa a Pedro Passos Coelho e seria encarada como um falhanço." - Público

 

Espero que as contas finais apareçam antes das Legislativas de 4 de Outubro. Conviria deixar a casa limpa para que os próximos inquilinos não venham também dizer, quatro anos depois, que a culpa do que correu mal foi dos antecessores. 

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Quem é (ou, vá, era) amiguinho do BES?

por José António Abreu, em 28.03.15

Câmara Municipal de Lisboa permite que empresa ligada ao BES construa quase o dobro do que o dono anterior.

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Deve ser tempo de dizer basta

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.15

A culpa é de Carlos Costa. Também pode ter sido de Vítor Bento. Ou do Banco Central Europeu. Talvez dos bombeiros...; minha é que não foi. Ponto. Fui eu quem esteve à cabeceira da equipa do INEM. A controlar o soro e o cartão de ponto.

Enfim, depois de tudo o que aconteceu no BPN/SLN e na respectiva Comissão de Inquérito, e das criticas que aí foram feitas à supervisão do Banco de Portugal (em 2008, no auge do "socratismo", eu chamei-lhe "supervisão congolesa"), em especial por Nuno Melo (CDS/PP) e João Semedo (BE), não houve hipótese de modificar nada.

Estamos em 2015 e vê-se que durante sete anos, sete anos, porra, não foi um nem dois, ficou tudo na mesma. Os vícios são os mesmo de sempre. As explicações idem. O padrão é sempre o mesmo

E depois vem a gente que há décadas vegeta e mantém esta choldra em ponto-morto dizer que eu tenho asco. Tenho sim, tenho asco, muito asco. Tenho asco a quem politicamente é estruturalmente indecente. A gente politicamente desonesta. A gente que se alimenta do padrão para sobreviver e singrar. A gente que é ética e moralmente desestruturada (na minha perspectiva, é claro). À direita, à esquerda, em cima e em baixo.

(Quando me cansar de escrevê-lo, de dizê-lo, limitar-me-ei a articular com os maxilares doridos os movimentos que produziriam essas palavras. Como Marceau faria com o movimento, com o gesto. Ou como Herberto com as palavras. Em silêncio e às escuras para não incomodar os ouvidos e os olhos sensíveis da canalha)

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Não aprendem nem querem aprender

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.15

Aquilo que há um ano era veementemente negado tornou-se ao fim de doze meses numa inevitabilidade.

Podiam ter aprendido alguma coisa com as meias-verdades e as aldrabices dos que os antecederam, mas a partidarite e a cegueira política e ideológica eram de tal forma graves que preferiram aldrabar os portugueses enquanto lhes atiravam areia para os olhos. Uma coisa é dizer que não há custos, outra é escamoteá-los, negá-los, ridicularizá-los desde a primeira hora para por fim acabar a admitir uma "minimização" de custos do lado dos contribuintes.

Qualquer solução teria custos. A escolhida pode ter sido a menos gravosa para os contribuintes, mas ainda assim não valia a pena ter mentido de forma tão descarada dizendo que os contribuintes não iriam suportar quaisquer custos. Se outros não houvesse sempre haveria os sociais.

É esta tão flagrante falta de seriedade no exercício do poder, no exercício da actividade política, e que persiste há várias décadas, que torna tudo mais difícil neste país. Pior só mesmo vir agora dizer que se se for governo se vai pagar a toda a gente e mais alguma.

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Frases de 2015 (9)

por Pedro Correia, em 20.03.15

«Premiei um escroque da pior espécie.»

João Duque, sobre Ricardo Salgado

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O tableau de bord pifou

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.15

Tirando as partes gagas, que obviamente têm de ser contextualizadas perante os interlocutores externos, o rapaz esteve muito bem. À rasca mas bem. 

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Facto nacional de 2014

por Pedro Correia, em 03.01.15

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DERROCADA DO GRUPO ESPÍRITO SANTO

O facto nacional do ano - e talvez até da década - foi, para uma clara maioria de membros do DELITO DE OPINIÃO (15 em 26), a derrocada do Grupo Espírito Santo, que tinha Ricardo Salgado como figura de referência. Um facto que representou também o fim da última dinastia familiar na área financeira em Portugal.

Formalizada a 18 de Julho de 2014, a insolvência do GES - que foi notícia um pouco por todo o mundo - abalou não só a banca portuguesa mas também grande parte do tecido empresarial do País, na medida em que o Banco Espírito Santo era o maior financiador das pequenas e médias empresas portuguesas.

O "buraco" superior a mil milhões de euros detectado nas contas do Grupo - que em 2011 havia recusado um empréstimo posto à disposição da banca portuguesa no âmbito da assistência de emergência ao País - forçou a intervenção do Banco de Portugal, que dividiu os activos financeiros do GES em "banco mau" e "banco bom", dando este origem ao Novo Banco, entretanto posto à venda perante o aparente interesse de 17 potenciais compradores.

O caso deu origem a um megaprocesso judicial e a uma comissão parlamentar de inquérito que decorrerá pelo menos ao longo do primeiro trimestre de 2015 na Assembleia da República. Nunca os portugueses acompanharam com tanto interesse um caso ligado à alta finança - na certeza de nos dizer respeito um pouco a todos nós.

 

O segundo facto mais votado do ano, embora a larga distância do primeiro (quatro votos), foi a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que irá prolongar-se por 2015. Em terceiro lugar (três votos), a saída da troika e o fim do programa de assistência financeira externa a Portugal.

Houve ainda dois votos na justiça, sem especificação de casos, e votos isolados distribuídos pela mudança de secretário-geral no PS e o aparecimento do jornal digital Observador.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

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A parasitagem devia ser tributada

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.12.14

10862623_10204529016417037_6466921365339397911_o.jDuvido que algum dia os portugueses venham a perceber por que razão esta gente ainda está toda à solta e o processo dos submarinos continua em águas turvas, mas o que fica desta parte do depoimento de mais um dos senhores da família Espírito Santo foi o de que o 25 de Abril não aconteceu, o PREC nunca existiu, o 25 de Novembro foi uma gravação para uma novela que contou com a participação de alguns oficiais superiores do Exército português, o Estado de direito é uma pura ilusão e de vez em quando enfiam-se uns tipos mais desbocados e delirantes na prisão apenas para "inglês ver". Alguns safam-se como podem e chegam a secretários de Estado, ministros e primeiros-ministros, antes de se tornarem avençados das empresas do regime. Um ou outro mais manhoso recebe os dividendos e vai a "supremo magistrado da nação" com o ar mais sério deste mundo. Os restantes, os milhares que são miseravelmente pagos pelo que trabalham, que pagam impostos a tempo e horas, que não gozam de isenções nem planos especiais para escaparem às taxas gerais de tributação e assim pagarem menos, que depositam o seu salário, por vezes por imposição das entidades patronais, nos bancos que o regime acolhe e esta malta "gere", são os que são sempre chamados a pagar as crises, a apertar o cinto e a sustentar os parasitas.

Não há nenhum português que não gostasse de receber um milhão de euros para resolver os seus problemas, pagar as dívidas (os que as têm), liquidar o empréstimo do T2 ao banco ou fazer a viagem da sua vida, sem que para isso tivesse que fazer alguma coisa ou ter algo mais do que um simples apelido.

Se têm horror a investigar de forma competente e atempada, se a Justiça não passa de uma miragem longínqua num país de cidadãos medrosos e acomodados, se tremem perante um nome, só têm uma solução para compensar todos os portugueses honrados que trabalham para cumprir as suas obrigações: criarem um imposto sobre a parasitagem. À falta de melhores ideias para se acabar com esta pouca vergonha, sempre seria mais sério, mais justo e mais equilibrado do que a criminalização do enriquecimento ilícito com a inversão do ónus da prova. E este seria um caso flagrante. Porque agora já ninguém tem dúvidas que daquilo que os portugueses pagaram, e vão continuar a pagar, pelos submarinos, uma parte acabou nas contas dos parasitas do regime ou a financiar campanhas políticas. E isto é ética e moralmente inaceitável, ofensivo da consciência colectiva e viola os mais elementares padrões de decência, justiça e respeito pela comunidade. 

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Frases de 2014 (33)

por Pedro Correia, em 14.12.14

«O BES não faliu. O BES foi forçado a desaparecer.»

Ricardo Salgado

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 13.12.14

«Ricardo Salgado demorou muito tempo até falar mas ainda não se calara e já estava a ser desmentido pelo Banco de Portugal. Depois, foi destruído por José Maria Ricciardi. Depois, foi gozado por Pedro Queiroz Pereira. Depois, foi responsabilizado por Amílcar Morais Pires. Agora, será desmentido pelo contabilista e responsabilizado por Álvaro Sobrinho. O caso BES tornou-se o caso Ricardo Salgado.

A sequência televisionada de audições desta semana mostrou que este caso se vai deslindar entre três pessoas: Salgado, Ricciardi e Carlos Costa. Os demais são mais ou menos importantes, mas secundários. O sangue frio de Salgado foi liquidado pelo sangue quente de Ricciardi, que tirando não gostar de jornalistas que não o bajulem tem razão em quase tudo o que contou. E descredibilizou completamente a tese angelical de que Ricardo Salgado não sabia, não mandava e não fincava pé.»

Pedro Santos Guerreiro, no Expresso

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O leopardo, o gato e o gelo

por Pedro Correia, em 11.12.14

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Durante anos, que se prolongaram por décadas, Ricardo Salgado foi uma espécie de imperador absoluto da banca portuguesa, bafejado por uma poderosa lei não-escrita: a lei do silêncio. Chegou a ser o homem mais influente do País, mas sempre atrás do biombo, sem se expor ao desgaste das aparições quotidianas a que se sujeitam os decisores políticos.

Mandava, sem parecer que mandava.

 

Largos milhares de portugueses escutaram-no anteontem pela primeira vez na longa audição que protagonizou na comissão de inquérito ao caso BES na Assembleia da República. Conheciam-no de nome, de fotografia, de imagens fugazes dos ecrãs televisivos. Mas ignoravam quase tudo quanto à capacidade de expressão, ao domínio vocabular e às modulações de voz do homem que foi acumulando uma espiral de dívidas ocultas por detrás da aparente solidez do seu couraçado financeiro, afinal um gigante com pés de barro.

Pudemos escutá-lo durante dez horas graças aos canais televisivos de notícias, que desta vez desempenharam uma verdadeira missão de serviço público, pondo de lado as irrelevâncias do futebol. Mas o que escutámos, ao longo de todo esse tempo, não nos permitiu descortinar o rosto humano oculto sob a máscara que em momento algum Ricardo Salgado desafivelou.

 

Recebido com rara deferência no Parlamento, onde entrou por um acesso inusual, ao abrigo das indiscrições fotográficas, e poupado a perguntas verdadeiramente incómodas pela maioria dos deputados (destaco, como excepções, Mariana Mortágua, Miguel Tiago e Carlos Abreu Amorim), Salgado continuou a comportar-se como Dono Disto Tudo.

Sem nada esclarecer.

 

Terá ele dificuldade em «lidar maravilhosamente com a verdade", para utilizar a saborosa expressão ontem proferida pelo empresário Pedro Queiroz Pereira também na comissão de inquérito?

Alguns indícios apontam nessa direcção.

Afirmou, por exemplo, que o governador do Banco de Portugal nunca lhe terá dito que recusava a sua solução de continuidade para a comissão executiva do BES - e não tardou a ser desmentido pelos correios electrónicos entretanto divulgados por Carlos Costa. Sugeriu que o contabilista do GES estava desaparecido em parte incerta - e afinal Machado da Cruz já contactou o Parlamento, manifestando-se disponível para comparecer perante os deputados. Confessou ignorar que as reuniões do Conselho Superior do GES era gravadas e foi de imediato contraditado pelo primo: ouvido também na comissão de inquérito, José Maria Ricciardi não deixou lugar a dúvidas, afirmando que o gravador se encontrava bem visível na mesa das reuniões.

 

Sem nunca abandonar a pose esfíngica, aquele que - para usar outra metáfora de Queiroz Pereira - se encontrava há muito sentado sobre um "castelo de cartas" foi incapaz de desfazer por um instante a expressão de aço para emitir um pedido de desculpa aos pequenos e médios accionistas que nos últimos anos financiaram o grupo com as suas poupanças entretanto desencaminhadas para operações de alto risco cujo destino ainda hoje em parte se desconhece.

Salgado, com gelo ancestral no olhar e na voz, citou pausadamente um velho provérbio chinês: «O leopardo, quando morre, deixa a sua pele. O homem, quando morre, deixa a sua reputação.»

Mas talvez outro provérbio, também chinês, seja mais adequado às circunstâncias que agora enfrenta o antigo rei-sol da banca que viu o seu império ruir: «É difícil agarrar um gato preto num quarto às escuras. Especialmente quando o gato não está lá dentro.»

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Uma pequena frase

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.12.14

carlos-costa-c180mch-c8a4.jpg(Hugo Correia, Reuters)

 

A Comissão de Inquérito ao caso BES ainda agora começou a funcionar, mas pela passadeira de inocuidades e vaidades que por estes dias desfila em S. Bento, há pequenas notas que vão sendo respigadas, aqui e ali, que revelam muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar para se compreender por que razão se chegou até hoje da forma como chegámos. Não me refiro à intrigalhada familiar exposta em praça pública, reveladora do baixo nível, e que não é por razões de extracção social, de alguns dos seus membros, nem aos desmentidos que já começaram a aparecer, como foi aquele que o Banco de Portugal sentiu necessidade de fazer face ao depoimento prestado por Ricardo Salgado. Tudo isso é do domínio do cómico, do novelesco, e está de acordo com a forma como o País foi gerido politica, económica e financeiramente pelas suas "elites" nas últimas décadas. Com o tempo que o espectáculo vai durar muita coisa haverá para acompanhar e ir comentando no virar dos dias. Por agora, registo que os senhores deputados parecem ter aprendido a lição de anteriores comissões, percebendo que é do interesse de todos esclarecer devidamente o que se passou, retirando as ilações necessárias para uma correcção de práticas e modelos, enfim, esforçando-se por cumprirem bem o seu papel. Aqui será justo realçar o conhecimento e a preparação que a jovem deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, tem revelado.

Mas aquele que para mim foi o momento mais marcante até agora de tudo o que se passou, tem muito pouco de técnico. É mais do domínio do conhecimento da natureza humana, sendo importante para se perceber quem depõe, a forma como pensa e como age. E sobre isto recorde-se o momento em que Ricardo Salgado esclarece que tendo sido sugerido ao Banco de Portugal o nome "do Amílcar" [Morais Pires] para dirigir o BES, Carlos Costa lhe pede dois dias para pensar. De acordo com o relato de Ricardo Salgado, dois dias depois o senhor governador do Banco de Portugal telefona-lhe e diz-lhe: "Será quem o Sr. Presidente quiser".

Que um banqueiro afectado se refira a quem fora proposto lhe suceder em termos que não são aqueles em que se refere a outros membros da sua própria família que integravam a administração do BES, e a quem provavelmente conhece há mais tempo, ao fim e ao cabo vincando a diferença social e o modo de ascensão "do Amílcar", não é de estranhar. Amílcar Morais Pires fizera um percurso diferente, não era do meio, não exibia os mesmo pergaminhos. Era um homem da casa que trabalhava há muito na instituição, subira a pulso, conhecia os cantos e, digo eu, era suficientemente grato para fazer o que lhe mandassem.

Mas o que para mim é mais penoso é ver que da mesma forma altiva e sobranceira com que Ricardo Salgado se refere a Amílcar Morais Pires, verificamos que o governador do Banco Portugal exibe o respeitinho parolo e subserviente que é a marca de toda uma geração, de que com razão se queixava O'Neill e que quarenta anos depois do 25 de Abril continua a marcar os dias. Repare-se que, nas palavras de Ricardo Salgado, Carlos Costa não o trata pelo nome próprio, nem por "dr.", como é típico nos meios nacionais. Para Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, Ricardo Salgado era (é?) o "Sr. Presidente"! E, quer se queira quer não, foi desta forma que o regulador Banco de Portugal sempre se comportou em relação a quem manda nos bancos.

Fosse agora no caso do BES, ou tivesse sido no caso do BPN, do BPP ou do BCP, esta forma acanhada e subserviente de lidar com quem tem o poder do dinheiro, que neste pequena frase se revela, é afinal a mesma que se encontra no modo como, por exemplo, jornalistas falam com presidentes de clubes de futebol ou com políticos. Bem sei que alguns, de presidentes de juntas de freguesia a presidentes de filiais de empresas, tal como antes acontecia com alguns governadores civis, ficam de "trombas" (a culpa é de Mário Soares) quando os tratam pelo nome ou pelo convencional "dr.", em vez de a eles se dirigirem pelo título do cargo que ocupam. Porém, esse será um problema deles decorrente da sua errada percepção das coisas, da sua própria falta de noção do ridículo.

No país de Boliqueime, "Será quem o Sr. Presidente quiser" é uma frase que é também um espelho do modo como alguns exercem o poder. Mesmo que o "Sr. Presidente" seja um qualquer pantomineiro de boas famílias, que foge ao fisco e bate na mulher, ele será sempre o "Sr. Presidente". E é também um reflexo da susceptibilidade de alguns que exercem o poder numa sociedade democrática se deixarem influenciar por atavismos pouco consentâneos com as regras de uma república democrática em que os cidadãos são todos iguais perante a lei. É esta maneira de estar na vida, de uns serem "o Amílcar" ou a Irene do leite-creme e outros o "Sr. Presidente", é este estado de espírito, esta mentalidade, que nos separa e faz a diferença entre uma nação civilizada e uma sociedade moldada no preconceito e no paroquialismo, incapaz de sair de si para se elevar. Das coisas mais corriqueiras às que têm que ver com o nosso destino colectivo, como é a supervisão bancária e a forma como o Banco de Portugal exerce as funções que lhe foram legamente cometidas. "Será o que o Sr. Presidente quiser" é hoje a nossa imagem. No BES, na Presidência da República, em S. Bento, nos Tribunais, no Estádio do SLB ou do Dragão, na Junta de Freguesia da Mexilhoeira ou até no caso dos "vistos gold". Por aqui se vê o espelho da nossa desgraça. Da nossa miséria. E de como estão errados os modelos sociais e educacionais que se têm vindo a cultivar. Até nisto conseguimos falhar.

 

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