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Delito de Opinião

Nem sei o que escreva aqui

Paulo Sousa, 23.01.26

O Parlamento Europeu propôs ontem uma resolução de condenação à repressão exercida pelo regime iraniano contra as manifestações do seu povo pela liberdade.

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Catarina Martins absteve-se.

Considerando-a capaz de votar desta forma, tenho de concordar com o Público, que classificou o resultado alcançou nas Presidenciais de Domingo passado, como uma pequenina vitória. Eu diria mais. Diria até que conseguiu 116413 votos para além daqueles que merecia.

 

PS: Ontem, no canal Now, perante a mesma revelação que aqui refiro, Joana Mortágua disse: "Aposto que (a informação sobre essa abstenção) é manipulado". Convinha então esclarecer.

Fé num milagre

Pedro Correia, 06.11.25

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Os mesmos que nas colunas de jornais e tribunas televisivas entoavam hossanas a Mariana Mortágua - chamando-lhe "activista humanitária", entre outros mimos  - já viraram a agulha e apressam-se a louvar agora José Manuel Pureza, incensando-o pela sua moderação.

Repito: são precisamente os mesmos que até anteontem enalteciam a "coragem" da passageira da flotilha. Uma era elevada aos píncaros pelo ímpeto leninista, outro escuta solos de violino por ser católico

 

Fui conferir o que recomendará Pureza para ascender ao posto máximo do Bloco de Esquerda, que com Catarina Martins chegou a preencher 19 lugares no hemiciclo de São Bento e hoje só dispõe de um.

O professor de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra está fora do parlamento. Também não tem hoje assento na Comissão Política nem no Secretariado do partido.

Nas recentes autárquicas encabeçou a lista do BE ao município conimbricense, sem conseguir ser eleito. O partido só recolheu 2002 votos entre mais de 70 mil eleitores que foram às urnas. Percentagem irrisória: 2,8%.

Convenhamos que se trata de péssimo cartão de visita: nem na sua terra Pureza conseguiu sequer chegar a vereador.

Impedirá que o BE saia do fundo do poço? Talvez o facto de ser o único católico bloquista o leve a ter fé neste milagre. É vantagem de peso em relação a qualquer outro.

Bloco a pique: salve-se quem puder

Louçã fundou o BE em 1999, Mortágua afundou-o em 2025

Pedro Correia, 29.10.25

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Trocou campanha autárquica por "show-off" mediterrânico: os eleitores retribuíram-lhe

 

Nunca entenderei o que levou Francisco Louçã, político intuitivo e sagaz, a patrocinar a candidatura de Mariana Mortágua ao posto cimeiro do Bloco de Esquerda. Mortágua não tem feitio nem paciência para a intendência partidária: só aprecia o palco parlamentar. E faltam-lhe atributos indispensáveis à actividade política: é totalmente destituída de dotes empáticos, revela um indisfarçável desdém perante quem não comungue do seu catecismo ideológico e tem nula capacidade de encaixe quando lhe fazem críticas.

Pior: desbaratou todo o esforço de moderação dentro do radicalismo que dirigentes anteriores, como Catarina Martins e Pedro Filipe Soares, vinham ensaiando para alargar a estreita base de um partido com residual representação autárquica e de escassa representação no mundo sindical. 

 

Falar por slogans contra «os ricos», «os privados» e «a direita», aliás quase toda alcunhada «extrema-direita», tornava a gémea de Joana Mortágua numa personagem fora da sua época. Com o vocabulário mecanicista do PCP mas sem a ligação ao terreno que apesar de tudo os comunistas mantêm. Parecia desenterrada do PREC, época que esta mulher nascida em 1986 jamais conheceu excepto por lendas e narrativas.

Terá desejado experimentar a utopia revolucionária de 1975 alimentada pelos partidos que serviram de inspiração e berço à cartilha do BE.

Talvez por essa nostalgia de tempos que nunca viveu, trocou a recente campanha eleitoral autárquica, onde o seu partido lutava pela sobrevivência, por semanas de estridente show-off mediterrânico na chamada "flotilha humanitária". Cambiou os portugueses pelos palestinos a pretexto do respeito absoluto pelos direitos humanos, logo ela que em 2022 tanta compreensão revelou por Vladimir Putin, o carrasco da Ucrânia.

Os eleitores retribuíram-lhe o desprezo. Nem nos seus piores pesadelos os dirigentes do Bloco imaginavam o catastrófico desfecho das autárquicas de 12 de Outubro. Que funcionaram como toque a finados da liderança de Mortágua.

Com ela ao leme, o BE perdeu 80% dos seus vereadores a nível nacional, baixando de cinco para um - este à boleia do PS em Lisboa. Em 2021 elegera 94 deputados municipais em todo o País, restam-lhe 20. Tinha 62 eleitos em freguesias, agora ficou com 31. Desastre absoluto.

 

Há dois anos, quando chegou ao topo com aclamação das bases, o Bloco de Esquerda tinha cinco deputados: perdeu quatro de então para cá, baixando de 4,4% para 2% em percentagem eleitoral. Queda abrupta também em votos, passando dos 244.603 obtidos em 2022 para os 125.710 das legislativas de Maio. Tinha dois eurodeputados, resta-lhe um assento solitário em Bruxelas (o de Catarina Martins). No parlamento regional dos Açores perdeu metade, baixando de dois para um (com 1,3% nas urnas). Manteve-se fora do parlamento regional da Madeira (onde se ficou pelos 0,3%).

Ao ser eleita, em Maio de 2023, declarou aos camaradas que lhe tributaram sonora ovação: «É só o começo, ainda não viram nada.» 

Tinha razão, mas pelos piores motivos na óptica dos seus apoiantes.

 

Enfim, atingiu o Princípio de Peter ao aceitar um encargo para o qual não tinha competência. Hoje o BE, que em 2019 chegou a ser o terceiro maior partido português - com 19 deputados em São Bento, dois eurodeputados, dois deputados regionais, 12 vereadores, 125 deputados municipais e 213 eleitos em freguesias - está reduzido à expressão ínfima.

Tornou-se um micropartido. 

Tão micro como a UDP, o PSR e a Política XXI que em 1999 estiveram na sua base. Neste sentido, e para usar um termo leninista, Mortágua actuou como aliada objectiva da direita. Obviamente, demite-se: acaba de anunciar que abandonará a liderança. Percebeu demasiado tarde o problema. A questão é que nunca lá devia ter chegado. 

Louçã fundou o Bloco em 1999, a sua protegida acaba de afundá-lo. Sem salvação à vista: nenhuma "flotilha humanitária" virá em seu socorro.

 

Leitura complementar:

A liberdade em marcha-atrás (21 de Maio de 2024)

Extremismo contra os «ricos» e o «lucro» (22 de Outubro de 2024)

A Mortágua (21 de Maio de 2025)

Assim não consegue

Pedro Correia, 22.10.25

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Certos candidatos a cargos políticos abusam da informalidade. Eis um exemplo. A Catarina Martins conhece-me assim tão bem ao ponto de me tratar por tu nos cartazes com o seu rosto espalhados pela cidade de Lisboa?

Por acaso ela até me conhece: entrevistei-a em tempos para o Diário de Notícias, em anos recentes cruzámo-nos com frequência nos corredores parlamentares e viajámos duas ou três vezes na carreira 727 da Carris (lembro-me dela de máscara sanitária em tempos pandémicos). Mas nunca fomos próximos apesar de eu ter alguns amigos no Bloco de Esquerda.

 

Olho o cartaz e questiono-me qual será o grau de eficácia desta falsa intimidade com o eleitor.

Tenho sérias dúvidas de que resulte, a avaliar pela hecatombe eleitoral do partido que já teve 19 deputados e hoje só ocupa um lugar na segunda fila do hemiciclo. O mesmo partido que perdeu 75% dos seus vereadores nestas autárquicas, passando de quatro a nível nacional para um solitário assento na câmara de Lisboa, aliás à boleia do PS.

Havia elegido 94 deputados municipais, desta vez só conseguiu 17 - e apenas seis em listas próprias.

Perdeu agora mais de cem mil votos, baixando de 137.560 para 30.629.

 

Conclusão óbvia: o eleitorado quer distância do Bloco. Nada a ver com o tratamento por tu. Os gurus da propaganda do partido mais esquerdista do parlamento andam equivocados: aquela letra T ganharia muito em ser trocada por um S. Assim a comunicação política talvez funcionasse, com um distanciamento respeitoso. Porque não somos todos lá de casa. Aliás, neste momento quase ninguém é.

"Consigo" teria vantagem suplementar: a óbvia analogia com a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo conseguir. Duplo significado, portanto. Como expressão de uma vontade firme. Andaram mal, os estrategos do BE: assim estragam mais do que remendam. E garanto: não é por me tratarem por tu que me aproximam mais deles.

Como dizia o poeta, sei que não vou por aí.

Leituras

Pedro Correia, 19.09.25

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«Em Outubro de 2013, Pedro Nuno Santos votou a favor de um projecto de resolução, apresentado pelo Bloco de Esquerda, que defendia a renegociação urgente da dívida pública e a denúncia do memorando de entendimento. (...) Só o BE, o PCP e Pedro Nuno Santos aprovaram a denúncia do memorando da troika.»

Ana Sá Lopes, Na Cabeça de Pedro Nuno, p. 80

Ed. Zigurate, 2025

Ela ri de quê?

Pedro Correia, 30.05.25

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Viu a irmã Joana riscada do parlamento: assim aconteceu com quatro quintos dos deputados bloquistas. Perdeu o grupo parlamentar. Disse adeus a metade da generosa subvenção estatal de 930 mil euros anuais ao partido. Teve o pior resultado de sempre do BE, fundado em 1999. Falhou por completo a aposta no regresso das "cabeças grisalhas": Francisco Louçã, cabeça-de-lista por Braga, recolheu menos de metade dos votos de 2024; Fernando Rosas, em Leiria, ficou igualmente abaixo da metade; Luís Fazenda, por Aveiro, conseguiu menos de um terço face ao resultado anterior. Baixou muito o apoio eleitoral junto das mulheres, sobretudo com formação universitária.

Causa da hecatombe? Muito simples: é a «viragem à direita no mundo»Demissão? Nem pensem em tal cenário: a ética da reponsabilidade é coisa burguesa, nada a ver com o espírito revolucionário, que privilegia a liderança colectiva, mesmo quando apenas resta uma cadeira das 19 de que outrora usufruiu no hemiciclo. Debate interno para analisar os motivos deste rombo? Nada de pressas: será no fim do ano, quando tudo já estiver quase esquecido. A Convenção Nacional convocada para o efeito só acontecerá nos dias 29 e 30 de Novembro, seis meses depois da eleição legislativa. Se não chover.

É assim que funciona a "verdadeira esquerda". Deve ser por isso que ela ri à gargalhada.

A Mortágua

Pedro Correia, 21.05.25

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Acaba de conduzir o partido fundado em 1999 ao pior resultado de sempre, perdeu 80% dos deputados, viu desaparecer um grupo parlamentar que chegou a ocupar 19 lugares em 2011 e 2015, com Catarina Martins. E mesmo assim ela levanta o punho como se estivesse pronta a assaltar o Palácio de Inverno, a juntar-se aos barbudos na Sierra Maestra ou a erguer barricadas contra Franco em Madrid.

É a Mortágua. Protagonista de um filme do qual não entende o essencial do enredo: o Bloco de Esquerda acabou. 

Separadas à nascença?

Pedro Correia, 11.04.25

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Mariana Mortágua e Inês de Sousa Real no debate de ontem na CNN Portugal. Mais do que um frente-a-frente, foi um tête-a-tête.

 

O mais relevante diálogo que travaram ocorreu logo a abrir.

Foi assim:

Mariana - Muito boa noite, Inês. Cumprimento-a pela escolha da roupa, que é muito parecida com a minha. Ainda bem, quer dizer que temos bom gosto.

Inês - Cumprimento também a Mariana e felicito-a também pela escolha.

 

Uma de amarelo e preto, a outra de preto e amarelo. Mal se deu pela diferença.

Napoleão em Lisboa?

jpt, 28.10.24

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Passo pela televisão, desatento percebo que continuam a debater os "desacatos" na Grande Lisboa, e ouço um tipo clamar contra "este pequeno Napoleão que tomou Lisboa...", uma "boca" de acinte óbvio.
 
"Quem é este gajo?", pergunto. Ao que a minha companhia responde "é o tipo do BE na Assembleia". Rio-me, nem enojado. Ao ver o chefe parlamentar dos comunistas identitaristas a gozar com a estatura física de Carlos Moedas. Não por naquilo reconhecer qualquer ofensa. Mas sim pela imbecil contradição com a exigência que têm para com os outros, essa que apela ao discurso "correcto", envernizado. Mas neles quebra-se-lhes o verniz, sempre... Talvez por isso sigam tão... minguantes.

Extremismo contra os «ricos» e o «lucro»

Pedro Correia, 22.10.24

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Vejo Mariana Mortágua sempre de ar carrancudo, como se tivesse eternas contas a ajustar com o mundo. Brada agora contra o «discurso extremista» de Luís Montenegro. Imputação patética, quando da banda oposta há quem acuse o primeiro-ministro de «vender-se ao PS».

É extraordinário que pretenda dar lições de anti-extremismo, a pretexto do recente congresso do PSD. Sendo coordenadora do Bloco de Esquerda, precisamente o único partido parlamentar que recusou fazer-se representar na reunião magna dos sociais-democratas. Gesto extremista. Como se sentisse asco em imaginar-se ali. Sem cumprir regras de elementar cortesia democrática. Ao contrário do que fizeram PS, Chega, IL, PCP, Livre, CDS e PAN. 

Nada mais natural nela, aliás, do que a exibição do extremismo. Quando dispara contra os «ricos», quase cuspindo tal palavra. Quando diaboliza o «lucro», palavra interdita no léxico bloquista - como se preferissem o seu antónimo, prejuízo. Quando menciona a «direita» com desprezo visceral que lhe franze ainda mais o cenho.

Comparada com ela, Catarina Martins tornou-se modelo de moderação: não por acaso, a actual eurodeputada chegou em tempos a aludir ao suposto carácter «social-democrata» do programa do Bloco. Frase que jamais imaginaríamos proferida pela sua sucessora na sede da Rua da Palma.

 

Mas afinal o que propõe o «extremista» Montenegro?

Acordo imediato com Madrid para o pagamento da utilização da albufeira de Alqueva por agricultores espanhóis e a garantia de caudais mínimos no Tejo - bandeiras ambientalistas. Reforçar o policiamento de proximidade e ampliar o recurso a sistemas de videovigilância no combate ao crime - medidas que o trabalhista Keir Starmer pôs em vigor no Reino Unido. Lançar um projecto de reabilitação da Área Metropolitana de Lisboa que tem como primeiro pólo um denominado Parque Humberto Delgado - o mais célebre dissidente do salazarismo. Conceder a 150 mil doentes o acesso aos medicamentos hospitalares em farmácias de proximidade - promessa da defunta geringonça que ficou por cumprir. Garantir a universalidade do acesso ao ensino pré-escolar - antiga reivindicação da esquerda parlamentar. Duplicar as verbas de apoio às vítimas de violência doméstica - causa que o próprio BE abraça.

Conclusão: fez bem Mortágua em ordenar aos seus camaradas para nenhum deles comparecer em visita ao congresso laranja. Podiam ficar contaminados pelo «extremismo». E sair de lá tão «sociais-democratas» como Catarina Martins.

Hecatombe

Pedro Correia, 11.06.24

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Sorriram, pularam, bateram palmas nas noite eleitoral. Tudo um bocado patético, na vã tentativa de iludir a realidade. Que foi esta: o Bloco de Esquerda afundou-se nas eleições europeias.

Caiu de terceira para quinta força política.

Perdeu mais de metade da percentagem obtida no anterior escrutínio, em 2019 - de 9,8% para 4,3%.

Perdeu metade dos deputados que tinha em Bruxelas - só elegeu a cabeça de lista.

Perdeu quase metade dos votos - tombando de 325 mil para 167 mil.

Se isto não é hecatombe, não sei o que será uma hecatombe.

A liberdade em marcha-atrás

Mortágua em 2024 desmente o Louçã de 2008

Pedro Correia, 21.05.24

 

Mariana Mortágua lidera um movimento favorável à supressão da liberdade de expressão no reduto onde ela deve estar mais salvaguardada: a sala das sessões da Assembleia da República, sede da soberania nacional.

Uma frase de mau gosto debitada por André Ventura na sexta-feira de manhã desencadeou uma onda de exclamações inflamadas contra o presidente da Assembleia da República por não ter mandado silenciar aquele deputado. Aguiar-Branco declarou, pelo contrário, que advoga um conceito muito lato, nada restrito, da liberdade de expressão. Pelo mais louvável dos motivos: não tem vocação para censor.

Faz muito bem. O contrário é que seria preocupante, tratando-se da segunda figura do Estado.

Era o que faltava, neste ano em que celebramos o 50.º aniversário do 25 de Abril, os cravos murcharem ao ponto de alguns quererem transformar o presidente da AR num mestre-escola a distribuir reguadas pelos meninos irreverentes ou num velho regedor de aldeia pronto a suprimir expressões indecorosas. Como se a liberdade em Portugal andasse em marcha-atrás.

 

Acontece que o presidente da AR não pode censurar nenhum deputado. O mandato popular confere-lhes, em absoluto, o direito a não serem perseguidos judicialmente pelas opiniões que emitem em sede parlamentar.

Nem poderia ser de outra forma. Concordemos ou discordemos do que dizem, todos representam a nação, eleitos pelos portugueses. Se exprimirem opiniões que detestamos, mais ainda devemos garantir que possam continuar a emiti-las.

Esta é uma trave mestra da democracia liberal. 

 

Não me espanta que a coordenadora do Bloco de Esquerda pretenda silenciar quem discorda dela: o radicalismo que imprimiu ao partido, desfazendo o legado de relativa moderação de Catarina Martins, é o corolário disto.

Nem sequer me surpreende que um cortejo de «personalidades da música e do entretenimento» tenha logo saído em defesa da lei da rolha. E que uma organização intitulada SOS Racismo, que nenhum português elegeu, exija aos gritos a demissão de Aguiar Branco. Dando razão a Ricardo Araújo Pereira, quando em 24 de Abril escrevia no Expresso: «A frase, tão popular, "a minha liberdade acaba onde a dos outros começa" é curiosa porque, fingindo ser sensata, costuma ser usada para justificar vários atropelos à liberdade. Normalmente, quem a profere não está mesmo a falar dos limites da sua liberdade. A minha formulação "a minha liberdade acaba" faz parte do logro. É sempre da liberdade dos outros que se trata.»

Já me espanta um pouco mais que uma dirigente socialista que respeito, como Alexandra Leitão, navegue nas mesmas águas. Ao ponto de, nessa manhã de sexta-feira, quase ter intimado Aguiar Branco a retirar a palavra ao líder do Chega. Como se o presidente da AR tivesse alguma tutela sobre aquilo que os restantes 229 deputados afirmam, no pleno uso da liberdade que a Constituição lhes faculta.

 

Neste lamentável episódio, Mortágua faz o papel de José Sócrates, que em 11 de Julho de 2008, no mesmíssimo local, exigiu a Francisco Louçã - fundador e então deputado do BE - que tivesse «tento na língua». Enquanto bradava: «Eu não confundo a liberdade com a liberdade de insultar.» E perorava sobre «o excesso de liberdade que põe em causa a liberdade dos outros.» Nada mais triste.

Levou réplica sem demora.

«Entendo que qualquer vertigem censória nunca passará neste parlamento. Eu direi sempre aqui, na minha bancada e neste parlamento, tudo aquilo que quero dizer. E se algum dia alguém lhe disser a si para ter tento na língua, eu estarei a defendê-lo. A grandeza da democracia é defender também o direito de opinião de todos, sem excepção.» 

Palavras de Louçã nessa sessão parlamentar, ripostando a Sócrates em defesa intransigente da liberdade de expressão. Palavras que mereciam aplauso antes e continuam a merecer aplauso agora.

Que diferença. Que degenerescência do Bloco de Louçã para o actual bloco censório de Mariana Mortágua. Pronto a silenciar os outros - hipocritamente, em nome da liberdade.

Ausentes

Pedro Correia, 03.04.24

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BE e PCP decidiram ontem não comparecer à cerimónia de posse do XXIV Governo Constitucional, no Palácio Nacional da Ajuda.

Esta ausência simultânea dos dois parceiros do PS na defunta geringonça revela muito. Nada abonatório para ambos os partidos, que ocupam hoje apenas nove dos 230 assentos na Assembleia da República.

Falta de estatura institucional, falta de sentido de Estado, falta de espírito democrático, falta de ética republicana.

Legado positivo de António Costa

Pedro Correia, 15.03.24

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Desde que se amigaram com o PS para formar a geringonça, PCP e BE perderam 25 deputados.

Em 2015 tinham 36, somados: 19 bloquistas, 17 comunistas.

Hoje restam-lhes 9 (5 do BE + 4 do PC). Quatro vezes menos.

 

Eis o mais visível legado político da geringonça: praticamente a extinção da esquerda radical.

Neste caso, um legado positivo de António Costa - sou o primeiro a reconhecer.

«Atenta às questões dos trabalhadores»

Legislativas 2024 (12)

Pedro Correia, 28.02.24

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Nada mais conveniente, para os partidos com fraquíssima representação parlamentar, do que integrar manifestações alheias para aparecerem na fotografia, fingindo que os poucos afinal são muitos. Consultar a agenda diária de manifestações e colar-se a elas: eis uma forma fácil e expedita de fazer política.

Nestes dias iniciais de campanha eleitoral das legislativas de 2024 o campeão desta chico-espertice tem sido Rui Tavares. No sábado conseguiu aparecer um par de vezes nos telediários integrando-se em duas concentrações populares em Lisboa: uma no Rossio, de repúdio pelos dois anos de agressão da Rússia à Ucrânia; outra na marcha contra o racismo e a xenofobia, na Alameda D. Afonso Henriques. 

Exibiu-se em qualquer dos eventos, transmitindo assim a mensagem subliminar de que toda aquela gente apoia o Livre. 

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A mesma táctica tem vindo a ser seguida por dois outros partidos muito carentes de votos: o PCP e o Bloco de Esquerda.

Aproveitando um protesto dos trabalhadores da empresa multinacional Teleperfomance, também em Lisboa, Paulo Raimundo e Mariana Mortágua surgiram na primeira fila. Com a certeza de que picariam o ponto nos noticiários da noite.

O secretário-geral do PCP lá se ajeitou com o megafone para debitar banalidades, proclamando-se «solidário» com os trabalhadores. A porta-voz do Bloco nem necessitou de megafone, sem ficar atrás do comunista ali na caça ao voto. 

A diligente repórter da RTP deu uma ajudinha. Dizendo isto: «Porque é ao lado dos trabalhadores que o Bloco quer estar.» Enquanto mostrava a bloquista enxugando uma furtiva lágrima de comoção. E culminou a peça desta forma: «Atenta às questões dos trabalhadores, Mariana Mortágua promete que as condições dignas de trabalho vão estar num entendimento à esquerda pós-eleições.»

Linguagem carregada de tintas épicas: pedia sonorização a condizer. Pena não se terem escutado os acordes d' A Internacional. Até a mim daria vontade de chorar.

Sob o signo do Cupido

Legislativas 2024 (5)

Pedro Correia, 09.02.24

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Mariana Mortágua e Rui Tavares "debateram" ontem na SIC Notícias. Debate é força de expressão: parecia antes um rendez vous, tantas foram as miradas enternecidas que dirigiram um ao outro. E as frases plenas de concórdia, harmonia e fraternidade universal. Nem houve um sussurro crítico ao PS.

«Temos objectivos comuns», sublinhava o porta-voz do Livre. «Temos diagnósticos comuns», afiançava em coro a coordenadora do Bloco de Esquerda. Como se estes dois partidos pudessem fundir-se a qualquer momento.

Esperava-se um frente-a-frente, saiu um tête-à-tête. Sob o signo do Cupido, talvez por estar tão próximo o Dia dos Namorados. Entre Mariana Tavares e Rui Mortágua. Amor é cego e vê, como diz o verso da canção. Coisa mais linda não há.

Com o Irão?

jpt, 28.09.22

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Há dias aqui deixei ligação à minha análise do Chéquia-Portugal (0-4): na qual me limitei a expressar a minha estupefacção pela ausência de uma acção simbólica dos jogadores em solidariedade para com Mahsa Amini, a iraniana assassinada pela polícia por não cobrir devidamente os cabelos, e para com os inúmeros iranianos entretanto assassinados nos protestos subsequentes. Tal como referi algum espanto pelo silêncio do jornal da SONAE, carregado de identitaristas activistas, bem como dos sempre tão solidários em causas anti-americanas BE e LIVRE, que não se aprestaram à mobilização de arruadas contra estes factos. Em parte é compreensível, consabida que é a soez hipocrisia destes esquerdistas de "campus" e avenças... Mas o mesmo não se esperaria dos nossos jogadores, lestos a ajoelhar-se por uma morte masculina americana, mas agora prontos a encolher os ombros diante de inúmeras mortes iranianas. Por isso titulei o postal com um "O Futebol Não É Para Mulheres!".
 
Fica agora a notícia que os jogadores da selecção do Irão têm a coragem de afrontar a sua vil ditadura, simbolicamente usando casacos negros sobre o equipamento. Está dado o mote - não a@s esquerdalh@s lus@s, que continuam algo silenciosos face a estas ocorrências, encerrados na sua vilania de prosápia identitarista. Mas sim aos jogadores da bola... 

Cada vez mais colados a Putin

Pedro Correia, 17.09.22

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O PCP arrogou-se ontem o direito de desautorizar os legítimos órgãos políticos da Finlândia e da Suécia. Em Maio, os dois países nórdicos decidiram solicitar a adesão à NATO, no pleno exercício da sua soberania. Em consequência directa da agressão da Rússia de Putin à Ucrânia iniciada a 24 de Fevereiro.

Para que a adesão se concretize, tem de ser ratificada pelos parlamentos dos 30 Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Portugal foi um dos últimos a fazê-lo, algo lamentável: só faltam Eslováquia, Hungria e Turquia.

Muito pior - embora nada surpreendente - foi ver o partido da foice e do martelo atrever-se a contestar tal adesão na Assembleia da República para de novo se ajoelhar perante o ditador russo, saudoso do tempo da URSS, quando orava virado para Moscovo.

 

A líder parlamentar do PCP rejeitou categoricamente a integração daqueles dois países na NATO, organização a que Portugal pertence, argumentando que isso «aumentará a tensão» na Europa. Uma vez mais, sem um sussurro de condenação das atrocidades russas nestes mais de duzentos dias de invasão da Ucrânia.

Pelo contrário, Paula Santos mencionou o «processo de alargamento da NATO para Leste» como causa imediata da guerra. Coincidindo com a narrativa oficial do Kremlin.

 

A ratificação passou no hemiciclo, com o apoio da esmagadora maioria dos deputados, merecendo o voto favorável de seis partidos ali representados: PS, PSD, Chega, IL, PAN e Livre.

Mas o PCP não ficou sozinho: foi acompanhado no voto contra pelo Bloco de Esquerda, que desta vez deixou cair a máscara. 

 

«A história da NATO é uma história de guerra e da agressão contra os povos», bradou a deputada bloquista Joana Mortágua. Falando, também ela, como se Portugal não integrasse esta organização. E fazendo coro natural com Mariana Mortágua, sua irmã gémea e parceira de bancada parlamentar.

Lembro que em Fevereiro, na SIC-N, Mariana rendeu-se de tal maneira às posições russas que chegou a justificar a iminente agressão à Ucrânia, ainda antes de se consumar, porque Putin estaria a «sentir o seu espaço vital a ser ameaçado» - argumento similar ao das hordas nazis na invasão da Polónia que originou a II Guerra Mundial.

A posterior retórica desalinhada do BE foi meramente táctica, como a votação de ontem confirmou. No momento da verdade, comunistas e bloquistas convergiram no chocante desrespeito pela autodeterminação da Finlândia e da Suécia.

Gostaria de saber como reagiriam se deputados destes países, adoptando a mesma lógica, colidissem com decisões soberanas do parlamento português.

A aceitabilidade vigente

jpt, 01.03.22

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Face ao que se passa na Ucrânia dir-se-ia secundário atentar no que algumas figuras proeminentes de pequenos partidos portugueses têm proclamado a esse respeito. Mas será importante entender (até "para mais tarde recordar") o que vêm dizendo, tão demonstrativas são essas declarações das mundividências que têm e dos anseios políticos que perseguem. Não para estabelecer postulados meramente moralistas mas para sublinhar a sua fobia à democraticidade, que transparece nas suas manipulações da História, e a qual convém explicitar até pela sua influente presença na comunicação social (televisão e jornais ditos "de referência") - muitíssimo maior do que o efectivo peso eleitoral dos actuais partidos comunistas -, na qual promovem uma chã propaganda falsificacionista. Mas também para sublinhar a absurda ausência de crivo crítico sobre as aleivosias que vão botando, embrulhada numa carnavalesca máscara dita "diálogo democrático" mas que nada mais é do que colaboracionismo.

Esta incompetente colaboração com os locutores destas aleivosias chegou agora a um ponto quase inacreditável. Na sequência da invasão russa da Ucrânia o secretário-geral do PCP criticou Putin, reclamando - em declarações tornadas oficiais pelo seu partido - o respeito pela "notável solução que a União Soviética encontrou para a questão das nacionalidades e o respeito pelos povos e suas culturas". Sabia-se que a ex-deputada Rita Rato - à qual a estrutura do PCP fez herdar a direcção de um museu estatal - desconhecia o tema "Gulag". E que o ex-deputado tatuado Miguel Tiago é um negacionista do Holodomor. E todas essas ignomínias intelectuais são acolhidas como meras idiossincrasias dos comunistas locais. Mas temos agora o desplante total do PCP e do seu secretário-geral, de um vil negacionismo anunciando como "notável" (no sentido de "virtuosa") a política soviética face às "nacionalidades" (muitas vezes ditas "minorias étnicas).

E proclamam uma aleivosia destas, sem rebuço, 66 anos depois do XX Congresso do PCUS, 30 anos após a queda da URSS. Sabendo-se bem os dramáticos atropelos feitos às populações daquele país (ver p. ex. aqui um rol dessas acções de perseguição a "nacionalidades", sendo que existe vasta literatura historiográfica sobre este assunto. E sobre o genocídio na Ucrânia ver, para seguir bibliografia portuguesa, este estudo). E é esta falsificação da História que o PCP e os seus dirigentes continuam a promover, apoiados por militantes e simpatizantes mais ou  menos intelectualizados, essa "parada de idiotas úteis" como bem os define Paulo Batista Ramos, sempre acolhidos no "jornalismo de referência" - como nota o Pedro Correia, exemplificando com o "Público" de hoje, jornal cuja activíssima célula "decolonial" se esquece de atentar numa barbárie destas.

A placidez da recepção a esta proclamação negacionista é tão absurda que me parece necessário um contrafactual para a explicitar, desnormalizando-a. Imagine-se que o partido CHEGA ou o seu presidente Ventura, sobre os quais se exige uma "cerca sanitária", desencadeia proclamações basto elogiosas sobre o colonialismo em África - não será assim tão descabido esperar isso pois lembro-me que, in illo tempore, no do frenético bloguismo "liberal", o prof. Arroja clamava que os escravos africanos levados para América tinham com isso beneficiado, pois passando a gozar de melhores e mais longas vidas, argumento muito a la XVIII e até inícios de XIX... Fujamos ao nosso colonialismo, sempre temática sensível. Imaginemos que, por algum motivo, a liderança do CHEGA elogia o "notável" regime colonial na Namíbia ou as "notáveis" virtudes civilizatórias da Bélgica de Leopoldo no Congo

Que então se diria, entre aqueles para cá da "cerca sanitária", sobre essa abjecta falsificação da História? Louvaríamos (seguindo o ror de elogios que recobriu o sec.-geral Sousa aquando do seu recente problema de saúde) a "face granítica" de "homem honrado", "simples", "franco", "simpático", "empenhado", "humilde" do locutor dessas aleivosias colonialistas? Com toda a certeza que não, e decerto que cairia o Carmo e a Trindade entre os entusiásticos "decoloniais". Então a que propósito é que se aceita com simpatia esta comunista falsificação, ainda por cima sobre assuntos similares que nos são historicamente mais próximos e que, evidentemente, se estão a refractar na actual crise europeia?

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Mas estes quadros mentais não se esgotam no PCP. Há dias vi um excerto televisivo no qual a deputada Mariana Mortágua algo sumarizava as causas desta crise ao invectivar o governo ucraniano de "corrupto" e "neonazi" - sendo que este é um tópico recorrente, e lembro que já há três anos o activista anti-discriminações Ba reduzia os ucranianos a nazis, ante o silêncio das hostes identitaristas, quantas outras vezes mui especiosas em questões de epítetos... -, reproduzindo qual um desses "idiotas úteis" a propaganda moscovita. E ao falar sobre o assunto logo amigo mais atento me recomendou a audição deste programa Linhas Vermelhas

Convém ouvir - e até bastarão os primeiros cinco minutos. Em primeiro lugar, e num plano mais geral, é um espantoso exemplo desta perversão normalizada na imprensa portuguesa, a atribuição aos políticos do papel de animadores/comentadores. Ou seja, o primado da reflexão sobre as realidades actuais não é destinado a jornalistas, a investigadores, a profissionais especialistas, a académicos, a membros das associações da sociedade civil, etc. Mas sim aos políticos. Isso é uma dupla perversão: se quantas vezes nos queixamos da falta de qualidade da "classe" política como é possível que isso não se reflicta na pobreza da análise generalista que os políticos trazem? E é evidente que os políticos em actividade têm uma análise do real em função das agendas partidárias, o que ainda mais a empobrece, por defeito de enviesamento e, quantas vezes, de autocensura.

E estes breves minutos iniciais são disso exemplo paradigmático. Nas vésperas da invasão russa Mortágua nega a possibilidade dessa ocorrência, atribuindo os alvitres dessa possibilidade a mera propaganda ocidental e aos discursos de alguns líderes (Biden, Johnson) - tamanho o seu aprisionamento a um visão anti-"ocidental", de facto avessa às democracias liberais. O vigor das suas certezas ali proclamadas são um evidente, enorme e até acabrunhante sinal de incompetência para aquela mera tarefa de "comentário político" sobre a actualidade internacional. Mortágua torna-se ali ridícula. Mas não será decerto por isso afastada daquele palanque de propaganda político-partidária. 

Mas muito mais relevante do que isso é o conteúdo da sua argumentação. Critica Putin e seus anseios. Mas algo justifica a sua política devido a uma contextualização (a la carte) do processo daquela região, uma típica historicização que se pretende legitimadora. Invoca a condição "humilhada" da Rússia e a sua necessidade de um "Espaço Vital". Isto é tão boçal que custa a crer - pois é a pura  recuperação do argumentário da Alemanha nazi, a questão da "humilhação" com o tratado de Versailles e a necessidade de abranger um Espaço Vital (a apropriação nazi do Lebensraum de Ratzel). Chegámos a isto, em Mortágua a repulsa pelas imperfeitas democracias liberais é tamanha que "compreende" o seu agressor imediato através de termos, ideais, com esta genealogia. E temos então a tão "respeitada" e tão "competente" deputada da "esquerda" tão "identitarista" (e nisso "multicultural") a valorizar a necessidade do Lebensraum...

Enfim, há anos tanto se gozou quando Cavaco Silva trocou Mann por Morus, tal como quando Santana Lopes se atrapalhou com Chopin, anódinas asneiritas. E agora a camarada Mortágua avança o Lebensraum contra os norte-americanos e a União Europeia? E a atoarda passa incólume. E ainda bem que não é apanhada como dislate, até aparvalhado. Pois não é apenas isso, mas sim denotativa da malvadez da deputada, dos seus perversos desígnios políticos.