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As fobias do BE

por Paulo Sousa, em 11.01.20

O estado dos serviços públicos, nomeadamente os de saúde, chegou a uma degradação tal que já motivou os cartoonistas a comparar o SNS com um SOS.

É apenas o resultado das políticas do governo PS que, sem conseguir que a nossa economia cresça ao nível das nossas congéneres europeias, preferiu trocar défice público por défice de serviços.

António Costa entendeu que o PR quer manter a imagem de fiel da balança e por isso sabe que tem de negociar o OE com a esquerda.

O BE sabe disso e também sabe que votar contra o OE equivale a ser desqualificado na corrida ao poder que anda há anos a fazer, e por isso, com grande sacrifício, cala-se (abstém-se o que é o mesmo) perante a degradação dos serviços públicos em troca de um OE com um tão neo-liberal superavit.

Em política isto é perfeitamente normal, mas fez-me lembrar um episódio clássico da TV, o famoso “Ponha, Ponha, Ponha!!”. Vejam as imagens e imaginem a Catarina Martins ser arranhada pelo superavit.

 

Como se os crimes tivessem cor

por Pedro Correia, em 08.01.20

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Dois jovens foram assassinados no «quarto país mais seguro do mundo» (António Costa dixit). Com cinco dias de intervalo, em duas cidades diferentes. Um em Bragança, outro em Lisboa.

O primeiro foi morto por espancamento, o outro por esfaqueamento.

Um chamava-se Luís, o outro chamava-se Pedro.

Eram ambos estudantes. Um tinha 21 anos, outro 24.

 

Um está a suscitar marchas e vigílias de homenagem póstuma a nível nacional. O outro, não.

«Barbaramente assassinado», proclama o Esquerda.net - órgão nacional do Bloco de Esquerda - perante um destes revoltantes crimes.

Sobre o outro, nem uma linha.

A deputada Joacine Katar Moreira expressou «consternação e repúdio» sobre um destes homicídios.

Sobre o outro, nada.

 

Há muitas formas de racismo. Distinguir os cadáveres de dois jovens em função da pigmentação da pele é uma delas.

Instrumentalizando um deles, de modo obsceno, com fins políticos.

As coisas mudam

por Pedro Correia, em 30.10.19

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1

Revi-me há dias nesta imagem de arquivo no Jornal da Noite da SIC. Estava sentado na bancada de imprensa da Assembleia da República com os meus colegas Nuno Simas e Paula Sá - os três em representação do Diário de Notícias. No primeiro dia da legislatura 1999/2002, há 20 anos exactos.

À nossa frente, dois deputados caloiros: Francisco Louçã e Luís Fazenda. Acabavam de ser eleitos e recusaram sentar-se numa segunda ou terceira fila, como figuras adjacentes da bancada parlamentar comunista. O PCP não queria dar palco político e mediático àquele jovem partido que prometia crescer à custa de fatias cada vez mais dilatadas do seu eleitorado.

Louçã e Fazenda teimaram em permanecer de pé, recusando os postos secundários que lhes haviam sido destinados por consenso dos imobilistas que dominavam no Parlamento - mesmo os da autoproclamada esquerda, tão avessos como os outros à mudança. E fizeram muito bem. Viriam a ter os lugares que reivindicavam: um na primeira fila, o outro atrás dele. Em lugar nobre do hemiciclo e perto dos focos mediáticos. Não podiam, aliás, estar mais perto: a bancada da imprensa é logo ali.

 

2

Revejo com certa nostalgia esta foto do meu tempo de repórter parlamentar, onde surge Lino de Carvalho, qualificado deputado comunista, tão prematuramente desaparecido. Parece que foi anteontem e já nos transporta ao século passado. Estreantes no hemiciclo, Louçã e Fazenda vestiam a rigor, ambos com fatinho de deputado: a única nota de rebeldia, que na altura gerou imenso clamor, foi a ausência da gravata - prenunciando o que o Syriza, na Grécia, fez 16 anos mais tarde e o deputado da Iniciativa Liberal faz hoje em São Bento, duas décadas volvidas.

Basta esta imagem fixada no tempo para se perceber como os padrões de vestuário mudaram entre as vetustas paredes do Palácio de São Bento. Falta pouco para vermos deputados de chinelos. Alguns equipam-se mais a rigor quando vão para a esplanada do que quando chegam ao Parlamento. Embora exijam - estou certo disso - code dress num posto clínico, numa esquadra, num tribunal ou até num daqueles restaurantes caros e péssimos que costumam frequentar.

O modo como nos vestimos diz muito do nosso respeito pela casa que visitamos - respeito suplementar tratando-se de uma instituição angular da democracia portuguesa. No caso dos jornalistas, acresce que - como um dia disse a um colega mais jovem, quando o vi em São Bento de sandálias e calções - não estamos ali em representação própria, mas do órgão de informação em que trabalhamos. Razão acrescida para salvaguardar a imagem desse título jornalístico: naquele momento, naquele local, ele é personificado em nós.

Fala-se muito na degradação dos trabalhos parlamentares, evidenciada pela fraca qualidade média dos deputados. Essa degradação começa nos padrões de vestuário. Anda tudo ligado, como dizia o outro.

 

3

Esta imagem reconduz-me também a um episódio da vida jornalística que demonstra como a inércia é uma força muito poderosa nas redacções dos jornais. Quem assumia então responsabilidades na secção política do DN entendeu distribuir equipas de trabalho para cobrir a campanha eleitoral de 1999 em obediência ao cânone tradicional: PS, PSD, CDS e PCP.

Quando perguntei, numa reunião, quem iria acompanhar o BE, obtive uma resposta burocrática: «É irrelevante. Seguimos pela Lusa.» Contestei, argumentando que o recém-surgido Bloco iria ser a novidade daquelas legislativas. E lá voltou o contraponto burocrático: «Nem pensar. É um epifenómeno, mero folclore eleitoral.»

Insisti. Como o Parlamento estava fechado, ofereci-me como voluntário para cobrir as acções de campanha do BE. E lá andei na rua, acompanhando a ainda incipiente caravana bloquista, cada vez mais convicto de que a razão estava do meu lado. Como se viu. O novo partido não se limitou a eleger um solitário representante, como noutros tempos sucedeu com a UDP ou o efémero Partido da Solidariedade Nacional de que já ninguém se lembra, mas dois deputados - requisito mínimo para constituir grupo parlamentar. E aquela legislatura revelou-se crucial para o seu crescimento.

Foi, aliás, uma legislatura histórica desde o primeiro dia - a que decorreu sob o signo 115-115, quando o número de deputados apoiantes do Governo se equivalia ao dos representantes da oposição todos somados, o que acabou por ditar o seu fim prematuro.

 

4

Lembro este episódio e concluo que nestes últimos 20 anos, nas redacções jornalísticas, só se mudou para pior. Desde logo pela flagrante falta de meios em comparação com os que existiam em 1999.

Voltaram a imperar as rotinas burocráticas, voltou a evidenciar-se a falta de rasgo na cobertura de campanhas eleitorais, voltou a apostar-se só no que já se conhecia. Quase nenhum meio informativo acompanhou em pormenor as acções de campanha das três forças políticas emergentes das legislativas de 6 de Outubro: Chega, Iniciativa Liberal e Livre. Imagino que alguns repórteres terão ouvido, nas respectivas redacções, os mesmos argumentos que eu ouvi há duas décadas das chefias de turno: são epifenómenos, não chegarão a lugar algum.

E no entanto as coisas mudam. Basta por vezes vermos uma foto antiga para percebermos isto.

Notas breves sobre a noite eleitoral

por Diogo Noivo, em 07.10.19

1. Ao contrário do que foi dito por António Costa, os portugueses não gostam da geringonça. Os portugueses gostam do PS. Os socialistas reforçaram o seu respaldo eleitoral, mas o Bloco de Esquerda perdeu mais de 57.000 votos e a CDU mais de 115.000 (um desaire colossal). Ver nestes resultados um triunfo da geringonça é um delírio.

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fonte: SGMAI

 

2. O resultado do PSD é inenarrável. Pior só mesmo o discurso de Rui Rio. O Pedro Correia já aqui disse o essencial sobre o assunto.

 

3. Mais do que um mau resultado, o CDS pode ter iniciado o princípio do fim. A próxima liderança será determinante.

 

4. Dos pequenos partidos que entram o parlamento, o mais votado foi o Chega, ainda que por margem diminuta. É favor abrir os olhos. A culpa não é dos eleitores, frequentemente acusados de incultura quando partidos desta natureza chegam aos parlamentos (aliás, olhando para a votação por grau de escolaridade, o campeão junto daqueles que menos formação têm será o PS). Os eleitores têm sempre razões atendíveis e importa compreendê-las.

 

5. A Tunísia também foi às urnas ontem. Tem cerca de 11 milhões de habitantes e 7 milhões de eleitores. Portugal tem mais ou menos a mesma população e mais de 10 milhões de eleitores. Um destes países tem um Ministério para a modernização administrativa.

Fora da caixa (27)

por Pedro Correia, em 07.10.19

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«O Bloco de Esquerda cresceu em tantos distritos deste país..

Catarina Martins, ontem à noite

 

Politicamente, a "geringonça" só foi um bom negócio para o PS. O Bloco de Esquerda recuou nas urnas e o PCP teve o pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas.

Os números aí estão, para demonstrar.

 

Após quatro anos de acordo político entre o PS e os dois parceiros à esquerda, que viabilizaram todos os orçamentos concebidos por António Costa e Mário Centeno, o PCP recua de 8,3% para 6,5%. Perde cinco deputados (tinha 17, agora tem 12, dois dos quais cedidos ao partido-satélite PEV) e vê fugir mais de cem mil votos (em 2015 recolheu 445.900 boletins nas urnas e desta vez não chega aos 330 mil).

Para o BE, estranhamente eufórico na noite de ontem, este escrutínio também evidencia um recuo. Não em número de deputados (mantém os 19 representantes que já tinha), mas em percentagem (perde 0,5%, recuando de 10,2% para 9,7%) e sobretudo em número de eleitores (vê fugirem cerca de 60 mil, baixando dos 550.892 em 2015 para os actuais 492.487).

Só o PS cresce. Em percentagem (mais 4,4%), em número de votos (mais cerca de 120 mil) e sobretudo em deputados (para já são mais vinte, subindo de 86 para 106 ainda antes do apuramento dos círculos da emigração, que atribuem quatro lugares no hemiciclo).

 

Quando derrotou Freitas do Amaral na duríssima campanha presidencial de 1986, Mário Soares deu-se ao luxo de enviar no dia seguinte um enorme ramo de flores à esposa do seu antagonista. Um gesto galante que bem poderia ser agora imitado por António Costa: Catarina Martins não merece menos que isto. E Jerónimo de Sousa justifica pelo menos um generoso cabaz de frutos secos.

Fora da caixa (21)

por Pedro Correia, em 03.10.19

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de "geringonça", eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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Perguntas que gostava de fazer (2)

por Paulo Sousa, em 16.09.19

Drª Catarina Martins,

Em tempos disse que o Syriza era a "possibilidade de esperança e de que na Europa se possa sorrir".
Poucos meses depois o governo de Alexis Tsipras usou gás lacrimógenio para dispersar uma manifestação de reformados.

Acha que o gás lacrimogénio faz sorrir?

Fora da caixa (5)

por Pedro Correia, em 09.09.19

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«O programa do Bloco é social-democrata.»

Catarina Martins, em entrevista ao Observador (2 de Setembro)

 

Não sei o que terá acontecido a ambas. Tão duras, enérgicas e rebarbativas na campanha para as eleições europeias, tão doces, etéreas e cândidas nesta caminhada para as legislativas.

Convenço-me de que as duas se abastecem de sabedoria junto do mesmo tipo de guru. Alguém que lhes sussurra: limem arestas, falem com voz pausada, sorriam muito na pantalha. Mesmo que Rio vos mire com desprezo, mesmo que Costa vos triture com metralhas verbais.

E elas assim fazem: Assunção Cristas, outrora émula da brava Padeira de Aljubarrota, surge-nos com maviosos trinados de rouxinol; Catarina Martins, que já se assemelhou à indomável Maria da Fonte, parece agora estagiar para Madre Teresa de Calcutá.

Os gurus pós-modernos recomendam-lhes: não caiam na tentação do azedume, que provoca inúteis rugas de expressão e afugenta a clientela eleitoral. Pratiquem a castidade ideológica, previnam-se contra tentações radicais. 

Serão conselhos presumivelmente sábios. Mas receio que a coordenadora do BE ande a exagerar nas práticas revisionistas que a tornam quase irreconhecível. Confessar-se «social-democrata», nesta altura do campeonato, pode tresandar a eleitoralismo desbragado junto das pituitárias mais sensíveis.

E que diria o velho Trotsky, mentor da primeira geração de dirigentes do Bloco? «Ao prolongar a agonia do regime capitalista, a social-democracia conduz somente à decadência ulterior da economia, à desintegração do proletariado, à gangrena social», uivava o velho áugure num dos seus textos doutrinários que moldaram o pensamento do doutor Louçã.

Os resíduos trotsquistas são hoje uma curiosidade arqueológica no BE. Não me admirava que o neoguru de Catarina lhe recomendasse ao ouvido, insuflado de espírito feelgood: «Na próxima entrevista diga que o seu autor de cabeceira é Paulo Coelho.»

Fora da caixa (3)

por Pedro Correia, em 07.09.19

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«Um programa de Governo não pode ser uma lista de prendas de Natal.»

António Costa para Catarina Martins (ontem, na RTP)

 

Os eleitores de centro-direita, que andavam desconcertados por falta de representação política nesta campanha legislativa, encontraram enfim alguém que fala para eles: António Costa. O secretário-geral do PS, depois de ter feito um nó cego ao PSD e ao CDS na campanha europeia a propósito da questão da contagem do tempo de serviço dos professores, em nome do rigor das contas públicas, adopta agora idêntica estratégia para estancar as perspectivas de crescimento do Bloco de Esquerda. Tarefa que parece exercer sem rebates de consciência, indiferente ao facto de os bloquistas lhe terem estendido a passadeira vermelha ao longo da legislatura.

O outro, comportando-se com a inconsciência narcísica dos adolescentes, proclamava-se "animal feroz". Mas a ferocidade mais temível, como os livros ensinam, é a dos que aparentam placidez. Catarina Martins que o diga: foi ontem arrasada sem contemplações, num frente-a-frente na RTP, pelo mesmo político que recebeu o seu abraço efusivo em forma de voto legitimador de quatro orçamentos do Estado. Em louvor à memória da defunta geringonça, subsistiam sorrisos naquele estúdio - mas o de Costa era de aço. O sorriso gélido de quem marcha para a guerra disposto a não fazer prisioneiros.

Andava a doce Catarina a colher papoilas nesse jardim das delícias que é o programa eleitoral do BE quando Costa, mirando com enfado o mesmo documento, a alvejou com fogo verbal: «Isto é absolutamente irrealizável.»

O advérbio de modo, certamente não escolhido por acaso, sugeria sem ambiguidades o que figura no topo da lista das prendas de Natal do primeiro-ministro: governar sem a muleta bloquista. Mas para que isto se tornasse ainda mais evidente Costa aplicou a Martins um gancho de direita: «O BE propõe-se contrair dívida para nacionalizar um conjunto de empresas. Gastar 10 mil milhões de euros a nacionalizar a Galp significa o mesmo montante da despesa corrente do Serviço Nacional de Saúde. Qual é o sentido desta despesa?»

Aberta a época da caça ao voto da direita, que Rui Rio deixou em estado de orfandade, o líder do PS supera a concorrência com larga vantagem: estrangulou o défice e bate-se contra as nacionalizações, fazendo das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento as suas tábuas da lei.

O centro-direita tem motivos para celebrar: volta a ter um líder em Portugal.

Postais de Lisboa (16)

por Pedro Correia, em 23.08.19

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No interior da sede do Bloco de Esquerda, na Rua da Palma 

(foto minha, ontem à tarde)

Um governo fura-greves

por Pedro Correia, em 08.08.19

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A ver se a gente se entende: instituir 100% de "serviços mínimos" numa greve significa, na prática, anular a prática deste direito. Além de perverter as palavras. Cem por cento não é mínimo: é máximo.

Se o Governo considera que uma greve prejudica seriamente a economia nacional, tem sempre o recurso de ordenar a requisição civil dos grevistas: existe, desde logo, o histórico precedente criado em 1977, durante a vigência do I Governo Constitucional, quando Mário Soares determinou a requisição por quinze dias dos trabalhadores da TAP.

Distorcer o direito à greve, reduzindo-o a uma caricatura, é que não faz o menor sentido.

 

Tenho aliás verificado que este é o Governo que mais "narrativas" vem desenvolvendo contra movimentos grevistas, sobretudo no último ano. Foi assim com os professores, com os médicos, com os estivadores, com os enfermeiros - transformados em alvos preferenciais do Executivo no seu afã de se mostrar "centrista". Está a ser assim com os motoristas de matérias perigosas, em que se coloca declaradamente do lado da entidade patronal, em colisão aberta com os representantes dos trabalhadores.

Bastou ouvir o ministro Vieira da Silva na bem encenada conferência de imprensa de ontem, já como peça da campanha eleitoral que se avizinha. Segundo afirmou o titular da pasta do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, entre os motivos que levaram o Governo a decretar estes "serviços máximos" inclui-se o facto de a greve «pôr em causa a qualidade de vida das famílias portuguesas e aspectos essenciais da nossa economia». É curioso: nunca estes motivos foram invocados para travar as incontáveis greves nos sectores dos transportes urbanos e suburbanos - dualidade de critérios difícil de justificar. Além disso, tais considerandos inviabilizarão doravante a realização de qualquer greve geral no País - e recordo que já houve dez desde a entrada em vigor da Constituição de 1976.

 

Que tudo isto decorra sem o menor esboço de perplexidade por parte dos parceiros que apoiam o PS na actual solução governativa é algo que não deixa de me surpreender. BE e PCP calam e consentem. Num futuro nada distante, quando perceberem enfim que as restrições severas ao direito à greve se tornaram regra e não excepção em Portugal, já terão acordado tarde. E os protestos que então esboçarem serão sempre confrontados com o pesado silêncio destes dias.

A geringonça e a caranguejola

por Pedro Correia, em 26.07.19

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1

A caranguejola em Espanha - o equivalente à geringonça em Portugal - funcionou muito bem para destruir, deitando abaixo o anterior Executivo, de Mariano Rajoy. Mas está a revelar-se totamente ineficaz para construir: à segunda votação consecutiva, Pedro Sánchez - o émulo de António Costa em Madrid - continua sem conseguir reunir os votos na Câmara dos Deputados que lhe permitam tomar posse como presidente do Governo. 

Ao contrário de Costa, derrotado por Passos Coelho nas legislativas de 2015, Sánchez venceu a eleição parlamentar de 28 de Abril - após quase 11 meses de Executivo interino, governando com o orçamento de Rajoy e sem se sujeitar ao teste das urnas. Mas foi uma vitória muito insuficiente para governar sem parcerias: não chegou aos 29% dos votos recolhidos nas urnas e apenas conseguiu eleger 123 deputados, num hemiciclo em que são necessários 176 lugares para atingir a maioria absoluta.

Virou-se então para as forças políticas que se associaram ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no derrube de Rajoy: desde logo o equivalente local do Bloco de Esquerda fundido com as migalhas que restam do quase defunto Partido Comunista sob a sigla Unidas Podemos (UP). O líder desta formação política, Pablo Iglesias, apressou-se a exigir várias pastas ministeriais e uma vice-presidência do Governo - mesmo tendo obtido nas urnas apenas 14,3% dos votos e os seus 42 deputados, somados aos do PSOE, serem insuficientes para formar maioria sólida no parlamento.

 

2

Na monarquia constitucional espanhola não existe tradição de coligações governamentais: as que existiram no país vizinho remontam ao atribulado sistema republicano, na década de 30, e não deixaram saudades. Desde a reintrodução da democracia, há 42 anos, todos os Executivos foram monocolores, à esquerda e à direita. Os minoritários acabaram por vingar com apoios pontuais do Partido Nacionalista Basco ou da antiga Convergência catalã, entretanto dissolvida na deriva independentista. 

Sánchez está hoje prisioneiro da própria armadilha que montou a Rajoy: mostra-se incapaz de transformar a anterior maioria de bloqueio ao Partido Popular em maioria de governo. Após o segundo "não" recebido pelo PSOE no hemiciclo - onde ontem só recolheu 126 votos favoráveis, contra 154 negativos e 66 abstenções - o líder socialista começa a render-se à evidência: pouco mais lhe resta senão enfrentar novas eleições, que não deverão ocorrer antes de Novembro. Quando Espanha se prepara para entrar no quarto mês de Executivo interino, sem orçamento com marca socialista e o parlamento permanece impedido de se constituir em comissões de fiscalização da actividade governativa.

 

3

Nos últimos dias, Sánchez deve ter sentido ciúmes do amigo Costa: a vida é muito mais dura para os socialistas espanhóis. Isto ficou bem evidente, no frustrado debate de investidura travado ontem nas Cortes, quando a dirigente socialista Adriana Lastra - número 2 do PSOE - subiu à tribuna para arrasar os putativos parceiros de esquerda.

«A UP exigiu [para formar coligação] controlar mais de metade da despesa pública e todas as fontes de receita - impostos, inspecção tributária, autoridade da responsabilidade fiscal. Exigiu, praticamente, controlar a economia deste país. Em privado, exigiu quatro das seis áreas de Estado prioritárias nesta legislatura: trabalho, ciência, área energética e área social», declarou no seu duríssimo discurso, sublinhando: «O PSOE necessita de sócios leais. Não necessita de quem se apresenta como guardião das essências da esquerda.»

E, visando directamente Iglesias, disse-lhe: «Não queria um Governo de coligação com o PSOE: queria um Governo exclusivamente à sua medida. Quer gerir um carro sem sequer saber onde está o volante. Esta é a segunda vez que impedirá a Espanha de ter um Governo de esquerda. Curioso progressismo, o seu...»

 

4

Costa e o seu braço direito, Mário Centeno, não têm dificuldades semelhantes às de Sánchez. Pelo contrário: o dócil BE e o cordato PCP passaram uma legislatura a aprovar sucessivos orçamentos sujeitos às regras do pacto de estabilidade imposto por Bruxelas e Berlim. Nunca mais saíram à rua a exigirem a «renegociação da dívida». Assistiram quase sem pestanejar ao mais brutal aumento da carga fiscal de que temos memória, à maior redução do investimento público de que há registo e a um montante de cativações ditadas pelo Ministério das Finanças nunca antes ocorrido em democracia. E nem se escandalizaram pelo facto de - mesmo sem tróica - o Executivo Costa/Centeno ter ultrapassado as metas do défice fixadas pelo Banco Central Europeu. 

Ao contrário dos camaradas espanhóis hoje integrados sob a sigla Unidos Podemos, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa jamais perturbaram a navegação austeritária dos socialistas, justamente premiada pela elevação de Centeno à presidência do Eurogrupo e talvez até ao cargo de director-geral do FMI.

 

5

Costa, ao invés de Sánchez, não precisa de incluir os "parceiros de esquerda" no Governo, à luz da original solução governativa que concebeu em 2015. Ao contrário do colega espanhol, que anda a negociar há três meses sem sucesso, por cá bastaram-lhe três dias e ainda lhe sobraram várias horas desses dias. Obteve quase tudo do BE e do PCP, oferecendo-lhes em troca uma mão cheia de quase nada. Manteve a legislação laboral, manteve o mapa administrativo, manteve o essencial da organização judiciária, manteve as traves mestras da ortodoxia financeira: os que antes gritavam contra tudo isto passaram a pronunciar-se sotto voce, de sorriso ameno e aplauso garantido. 

Se em Outubro lhe apetecer reorganizar o Governo oferecendo duas ou três secretarias de Estado a simpatizantes do Bloco, Costa comprará outros quatro anos de "paz social" à esquerda. Não precisa de mais para uma governação tranquila. Calculo que Sánchez deva invejá-lo. Seria bem diferente se o espanhol pudesse exportar Iglesias para cá, cambiando-o pela doce Catarina.

Europeias (7)

por Pedro Correia, em 17.05.19

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BLOCO DE ESQUERDA: TRÊS PROPOSTAS

 

  • Protecção das pessoas intersexo e das pessoas de género fluido, assim como a consagração da autodeterminação de género para transexuais.
  • Fim imediato da aquisição de armamento a países que fomentam guerras e de petróleo a territórios ocupados por grupos terroristas.
  • Revogação imediata do Tratado Orçamental e do Pacto de Estabilidade, que impõem políticas que fomentam o desemprego e a exclusão social.

 

Do manifesto eleitoral, A Força que Faz a Diferença

Reformismo e revolução

por Pedro Correia, em 02.04.19

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O Bloco - bloqueado como nunca - acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada "verdadeira esquerda", os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em "locomotiva da história", não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares - seu principal mentor ideológico - iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma "geringonça", fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio - autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

A melancolia de António Costa

por Pedro Correia, em 13.02.19

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A mais recente debandada de vários membros do Bloco de Esquerda - entre os quais se encontram diversos fundadores daquela que constitui hoje a maior bancada parlamentar situada à esquerda (embora à direita, no hemiciclo) da do PS - constitui certamente um aviso de que poderá estar para breve uma recomposição deste tabuleiro político. Em alternativa à sua definitiva decomposição.

 

Com a formação da "geringonça", em Novembro de 2015, António Costa secou os dois principais blocos políticos que ainda se afirmam defensores da via revolucionária - ou "socialista" - para a tomada do poder e a transformação da sociedade.

O BE equivale hoje à ala esquerda do PS, sendo notórios os vasos comunicantes entre os dois partidos e a ambição do núcleo dirigente bloquista de integrar um Executivo liderado pelo partido que Mário Soares fundou em 1973.

O PCP abandonou a via do protesto, trocando-a pela via do resmungo ocasional enquanto baixa os decibéis para não ferir a sensibilidade governativa.

Ambos os partidos aceitaram nesta legislatura o que recusaram na anterior: a ortodoxia financeira de Bruxelas, o aperto na despesa pública, a primazia atribuída ao controlo do défice. Costa anestesiou BE e PCP com umas vagas flores de retórica "socialista" enquanto entregava a condução integral dos assuntos do Estado, na componente financeira, a Mário Centeno, recém-convertido à austera disciplina imposta pelo Banco Central Europeu. E com tanto zelo o professor de Finanças se prestou à missão que acabou glorificado com o título honorífico de presidente do Eurogrupo. Uma justa recompensa por se ter revelado o campeão das cativações. Ou dos orçamentos mentirosos, para evitar um eufemismo.

 

Há quase quatro anos que não escutamos ninguém, por bandas do BE, exigir a renegociação da dívida - estribilho incessantemente martelado nos quatro anos anteriores - nem reivindicar a saída de Portugal do sistema monetário europeu. Ainda menos se ouve por aquelas bandas um vago sussurro em defesa da "revolução socialista". Os bloquistas, já com um pé no umbral da porta que lhes dará acesso directo à próxima coligação governamental, nada fazem para ensombrar o sorriso de Centeno.

Quanto ao PCP, continua a reivindicar em teoria o adeus ao euro e o regresso ao escudo, mas já ninguém leva a sério esta proclamação mecânica após a bancada comunista ter votado cordatamente, de braço dado com o PS, quatro orçamentos que validavam a moeda única e as políticas a ela associadas. Transfiguração reformista e proto-capitalista que lhe valeu, de resto, uma derrocada eleitoral nas autárquicas de 2017. E vem gerando muita contestação interna, que seguramente seria alvo de notícias nos jornais se estes aplicassem ao PCP os critérios informativos que reservam aos restantes partidos.

 

O socialismo europeu há muito ultrapassou a sua fase épica: limita-se hoje a gerir o sistema capitalista, desempenhando a tarefa insubstituível de secar as alternativas de cariz revolucionário que ainda lhe mordiam o flanco esquerdo. É este o papel que António Costa tem exercido em Portugal. Um papel histórico, podemos já dizê-lo sem desmentido.

Daí o ar melancólico que o primeiro-ministro vem exibindo nas suas mais recentes aparições públicas. Ele não ignora nada disto. Nem a debandada em curso nos dois parceiros da "geringonça" - ruidosa no BE, muito mais silenciosa no PCP - o apanha de surpresa. No fundo, está lá para cumprir esta missão, por mais que intimamente lhe custe. Sem estados de alma, Centeno - o seu operacional máximo nesta estratégia - foi devidamente recompensado. O mesmo sucederá com ele, num futuro próximo. Mas, de algum modo, o essencial do seu encargo já pertence ao passado.

Debandada

por Pedro Correia, em 12.02.19

«É ainda esse tacticismo que faz o Bloco abdicar de posições claras e de agir em conformidade como no caso da questão da renegociação da dívida externa que era central e incontornável com o governo anterior, agora transformada em mero pormenor retórico que não perturba o apoio a um governo que perpetua a austeridade.»

 

Excerto de carta assinada por 26 aderentes do Bloco de Esquerda - incluindo dois irmãos de Francisco Louçã - anunciando que se desvinculam do partido

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Venezuela: quase tudo dito aqui

por Pedro Correia, em 12.02.19

«Venezuela. O PC e o Bloco tomaram uma posição política e moralmente abjecta. A extrema-esquerda continua a fazer a política externa da Rússia, por puro ódio à América, agora reforçada pelo ódio a Trump. (...) Ainda por cima esta gente não percebe que a Rússia é hoje uma potência de segunda ordem; o "Gabão com mísseis" de Helmut Schmidt. Há cinco estados dos Estados Unidos com um PIB maior que o da Federação Russa; e sobram 45. Os americanos salvaram a Europa dos nazis e dos comunistas, mas não tencionam salvá-la de Putin.

(...) É para isto que o PC e o Bloco aplicadamente trabalham. Maduro abriu as portas da Venezuela aos russos e aos chineses. Os russos venderam-lhe armamento (15 mil milhões de euros) e os chineses emprestaram-lhe dinheiro (3 mil e quinhentos milhões de euros). Consola saber que os nossos revolucionários defendem estes negócios contra a ambição imperialista da Europa e da América de ajudar as 370 mil pessoas que estão em risco de morrer.»

(...) Toda a gente diz que o Exército decidirá tudo. Mas toda a gente sabe que esse Exército é um Exército patrioticamente sul-americano, sem a mais vaga tradição de combate e com 2 mil e tantos generais (os Estados Unidos, a primeira potência militar do mundo, têm 900) que se dedicam a roubar o Estado e ao tráfego de droga e divisas. Quando Guaidó apela à "honra" dessa camarilha burocrática e suja, não fico muito convencido.»

 

Vasco Pulido Valente, no Público (9 de Fevereiro)

Ba e a polícia

por jpt, em 28.01.19

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Ba disse que a polícia é uma "bosta" (nota: "bosta" é um termo canónico). Muita gente indigna-se, pois Ba é do BE e não deveria dizer isso. Torço o nariz. Não sei se ele tem razão na interpretação do caso que causou as declarações - pelo que se vê nas curtas imagens, feitas pela vizinhança, é um típico caso de "porrada no beco", com os cidadãos a investirem contra os polícias ali convocados para sanarem a situação. E estes a responderem. E daquele pouco que tenho lido de Ba e seus correligionários - alguns deles demagogos com palco usual no jornal "Público" e galões universitários - acho aquele discurso histriónico e sob uma ideologia execrável: são racialistas, e no caso dos académicos a adesão a essa ideologia é uma estratégia de obtenção de recursos, económicos e estatutários. Mas isso são contas de outros rosários.

Ba é um assessor do grupo parlamentar do BE. É um emprego. Presume-se que o exerça devido a que o BE nele tenha confiança política. Mas não representa a coligação estalinista-maoísta. É empregado. Não é autarca, não é deputado, não é membro do governo. Se o fosse a crítica às suas declarações teria em conta essas funções de representação (e/ou executivas). Neste caso é "apenas" um cidadão a ter declarações. É conotável com a tal coligação? Sim. Mas qualquer cidadão pode ser conotável com um movimento político. Melhor dizendo, tem o direito de ser conotável com um movimento político. Assim sendo, se o que Ba diz é conotável com o BE e se isso é positivo e negativo é apenas problema do tal BE - raciocínio que não se aplica quando deputados da coligação ecoam essas posições, pois a função de representação tem outras implicações. Mas isso, outra vez, são contas de outros rosários. Há quem resmungue que Ba é dirigente da SOS Racismo e como tal não poderia dizer coisas destas. Mas essa é uma organização da sociedade civil, representa-se a si própria, aos seus membros. As declarações de Ba podem ou não ser prejudiciais para a organização, podem ou não vinculá-la, é problema deles.

Ou seja, pode-se criticar o conteúdo das declarações de Ba, a sua pertinência. Mas nunca pôr em causa a pertinência de as proferir. Esta é algo que deverá ser questionado (não é a pertinência do seu conteúdo, é o acto de as realizar) por aqueles que pertencem à sua organização e pelos seus empregadores. E isto é límpido como água cristalina, como se diz na língua dos imperialistas racistas e dos afro-americanos. O coro de ofendidos, que refutam não o conteúdo mas tê-las ele proferido, é um coro ignaro, desafinado. E hipócrita.

Entretanto o deputado do PSD João Moura manda Ba à "bardamerda" (nota: "bardamerda" é um termo não canónico). Moura é deputado. Não deveria dizer coisas destas, é representante do eleitorado. Ou por outras palavras, não é empregado do PSD (ele se calhar sente-se bem empregado, mas isso é outra coisa), é seu representante. Mas, pior do que citar o antigo Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo (que utilizou o célebre termo em invectiva impessoal, um desabafo, "vão bardamerda com o fascista", que era o termo de moda que os sindicalistas do PCP contra ele utilizavam), é a patetice de Moura, que vem dizer a posteriori que não utilizou o termo com vontade insultuosa. Patetice pura. E conviria que um deputado não fosse tão pateta. Ou que, pelo menos, não o mostrasse.

Mas as declarações deste João Moura são algo bem pior do que patetice. Pois mostram bem o fascistazeco que habita no pobre deputado - e nos seus apoiantes, que os deve ter, caso contrário não seria parlamentar. Ba afirma que tem sido ameaçado. Há imagens dele a ser confrontado por indivíduos do PNR. Estes não foram violentos, foram incisivos, e quem se expõe em público arrisca este tipo de confronto, pois "quem anda à chuva molha-se". Mas as coisas não são tão simples. Por um lado porque Ba afirma que tem sido ameaçado e, infelizmente, isso é de crer. Em segundo lugar porque este PNR é comandado por um homem (a quem a RTP de serviço público dá espaço de antena por se candidar a chefiar uma claque da bola; a quem um Goucha entrevista longamente para tentar ganhar audiências contra a Cristina) - errata: nos comentários um leitor avisa que o PNR não é comandado, mas apenas integrado por esse indivíduo - que foi preso por cumplicidade num assassinato cometido pelos militantes desse partido, cujo móbil foi exactamente o facto do assassinado ser ... negro. Ou seja, é normal que Ba se preocupe. E é totalmente curial que solicite protecção policial.  A polícia existe para isto, é esse o seu dever numa sociedade liberal, democrática, o de proteger a vida dos cidadãos (já agora, precavendo ressalvas de comentadores "inteligentes", sendo eles naturais ou estrangeiros, residentes ou turistas, "originários" ou selenitas, neo-nazis do PNR ou estalino-maoístas com frescuras new age). Ao apoucar esse direito, ao insultar Ba por solicitar protecção, o deputado Moura mostra assim o quão está longe de compreender o que é o chamado Estado de direito, democrático. É um morcão? É. Mas, acima de tudo, e talvez nem o saiba, talvez seja apenas uma besta, mas é uma besta fascistóide.

Há muitos anos, 30 já, Rushdie publicou "Os Versículos Satânicos" e foi condenado à morte pelo poder iraniano. Isto foi antes da I guerra do Golfo e da expansão do terrorismo do fascismo islâmico. A abjecção por essa via era bem menor na Europa. A esquerda europeia balbuciou um pouco com essa "fatwa", entre a ignorância do que aquilo era e o estupor. Os comunistas gostavam do Irão, porque anti-americano. E aqueles que então eram ainda o embrião desta "nova" esquerda identitarista (os neo-comunistas) também. Estes, tal como hoje, à menor aragem já espirravam referências a Foucault. O qual, no seu desprezo pela democracia, pela razão, pelo ocidente e pelos EUA (apesar de adorar os prazeres de Frisco, onde terá adoecido mortalmente) fora um grande defensor da teocracia homofóbica e falocrata iraniana, sob o lema que perseguiu, o "tudo contra o Ocidente" (excepto, claro, os ares "liberais" de Frisco. E a universidade francesa). Um apreço que se mantém, basta ver como estes identitaristas actuais se indignam mais com um barman dizer que "não tem copos com paneleirices" do que com as penas de morte aos nossos, ateus, ou aos homossexuais, lá pelo Irão foucauldiano ou sítios religioso-politicamente aparentados. Nesse ambiente, de "pacto germano-soviético", de colaboracionismo com o fascismo islâmico, por aversão aos EUA e por ademanes a la Foucault, a tal esquerda europeia algo balbuciou. Entre o tal estupor e o desagrado com a "blasfémia", num "não havia necessidade", a la Diácono Remédios, que Rushdie tivesse sido tão desbragado na sua utilização do corão. 

À direita foi diferente. O escritor fora um crítico do poder tatcheriano. E por isso vieram invectivá-lo por pedir protecção estatal (policial), como se isso fosse paradoxal. O desagrado com o escritor advinha também do repúdio pela "blasfémia", esse refúgio anti-liberdade de expressão que o modelo de "secularização" anglófono (génese do multiculturalismo que depois grassou) carrega, isso de que temos de respeitar as religiões (o que é completamente diferente de respeitar a liberdade de culto). Enfim, devido ao seu repúdio pelo direito à blasfémia e com a oposição a Tatcher, a direita anti-Estado de Direito britânica invectivou escritor e sua necessidade de protecção. Depois, com o tempo e a expansão do terrorismo islâmico, esse repúdio baixou. Rushdie passou a ser pensado (quando ainda o é) como uma das vítimas, e não apenas como um alvo (algo) merecido, devido ao seu "desrespeito".

Ba não é Rushdie, claro. E o PNR e outros feixes de holigões não são o estado iraniano nem as organizações fundamentalistas islâmicas. Mas em termos abstractos as situações são algo similares. Até porque temos em Portugal antecedentes de violência rácica por causas políticas, até mortal. E mesmo que não os tivéssemos. Como tal Ba tem não só o direito inquestionável de pedir protecção policial, independentemente do que pensa sobre a acção policial. Tem também o dever, cívico, de se proteger. Incompreender isto é incompreender a democracia. 

Que um deputado não o perceba, que mande Ba à merda por isto, é inaceitável, e mostra o miserável intelecto que tem, e a sua visceral aversão à democracia. E o PSD deveria perceber o que o Pedro Correia aqui deixou, com ironia, isso de que é hora de serrar fileiras. E expurgar-se deste Moura e de holigões similares que por lá andem. Aboletados, em busca de empregos estatais ou comissões.

Delírio político.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.18

A actual direcção do PSD vive no delírio político absoluto. PSD e BE, a mesma luta. Camaradas e camarados, lutemos unidos, que é nossa a vitória final. Vão ver o resultado disto nas próximas eleições.

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Ventania

por jpt, em 14.10.18

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A ventania que remodelou o governo PS é muito mau sinal. Com o PSD igual ao Sporting pós-Alcochete, Cristas encantada com o pseudo-sucesso lisboeta e o CDS incapaz de por Mesquita Nunes onde já devia estar, o BE roblesado e o PCP no respeitável mas doloroso e inimputável estado mental em que tantos dos nossos queridos mais-velhos vão ficando, o vice de Sócrates reforça-se bem. A senhora da Cultura é competente (também quem lá estava era péssimo, fácil de substituir). E Cravinho é muito bom, cumpriu bem como presidente da cooperação e foi excelente como secretário de estado. Está na óbvia rota para futuro MNE. E o Matos Fernandes, tão resguardado que nunca chamuscado nos terríveis fogos e nas coisas do petróleo, vai-se alargando. "Marquem as minhas palavras", querem alguém do Porto no poder?, esperem-pouco e olhem para ali.

Contornar estes baixios vai ser muito difícil. Mas, como em tempos se disse, navegar é preciso, viver (a vida videirinha, funcionária/avençada) não é preciso ...


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