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Delito de Opinião

Frase nacional de 2020

Pedro Correia, 05.01.21

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«Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

Ferro Rodrigues, 22 de Abril

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Frase nacional de 2017: «Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

(António Costa)

Facto internacional de 2020

Pedro Correia, 04.01.21

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PANDEMIA DE COVID-19

Um obscuro vírus surgido no final de 2019 num mercado da República Popular da China - em contexto de péssimos hábitos de higiene, práticas arcaicas, deficiente supervisão e total falta de transparência política e administrativa - transbordou das fronteiras do país e contaminou o mundo. Exibindo a face mais negra da globalização: a que aproxima populações inteiras e une continentes pelos piores elos: os da doença e da morte.

Chegada em final de Janeiro à Europa, a pandemia de Covid-19 - assim declarada, de forma tardia, pela Organização Mundial de Saúde só a 11 de Março - causou até ao fim do ano 85 milhões de infecções e provocou 1,8 milhões de mortos. Deixando evidente o péssimo tratamento que países supostamente evoluídoas dão aos seus cidadãos mais velhos, recolhidos em depósitos a que só por ironia macabra podemos chamar "lares".

Tem sido este, de longe, o segmento social mais atingido pelo novo coronavírus - pessoas que se situam à margem dos discursos oficiais e das respostas dos governos, tratadas como se já sobrassem na sociedade ainda em vida.

 

Este foi o Acontecimento internacional de 2020, assim considerado por 16 dos 21 autores do DELITO DE OPINIÃO que participaram nesta escolha. 

Mesmo outros temas também destacados acabam por se relacionar com este. Foi o caso da descoberta da vacina anti-Covid, que mereceu três votos do colectivo "delituoso". Aprovada e difundida «num prazo inacreditavelmente curto», comprova a existência de uma «maciça cooperação científica mundial», como sublinhou um dos colegas de blogue.

 

Houve ainda votos isolados na "bazuca" europeia - espécie de Plano Marshall aprovado na UE para tentar reerguer as economias abaladas pelo coronavírus no espaço comunitário - e na redução abrupta das ligações aéreas, à escala global, no ano em que o mundo voltou a ser composto por lugares longínquos e distantes. Algo inimaginável a 1 de Janeiro de 2020, comprovando como é sempre arriscado o exercício de fazer previsões.

Facto nacional de 2020

Pedro Correia, 03.01.21

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O VÍRUS QUE NOS MUDOU A VIDA

A culpa é do novo coronavírus que chegou da China e começou a causar baixas em Portugal a partir do terceiro mês do ano: a primeira vítima mortal por Covid-19 - um antigo massagista do Estrela da Amadora - foi registada a 16 de Março.

A partir daí, toda a nossa vida quotidiana ficou virada do avesso. Nada continuou a ser como era dantes. Daí a escolha feita pelos membros do DELITO como Acontecimento nacional de 2020: a maioria dos votos relacionou-se com o conjunto de radicais mudanças que vimos sofrendo desde então. Desde o uso obrigatório de máscaras nas mais diversas circunstâncias ao confinamento domiciliário imposto na grande maioria dos concelhos portugueses. Tendo como pano de fundo a radical supressão de direitos fundamentais, incluindo o direito à livre circulação, por força dos sete estados de emergência decretados a partir de 18 de Março pelo Presidente da República, com aprovação parlamentar. Algo inédito na história do nosso actual regime constitucional, implantado em 1976.

Os reflexos da pandemia em Portugal não ocorreram apenas no campo político ou sanitário: houve também consequências no campo económico. Com uma queda abrupta do PIB nacional (-16,5% logo no segundo trimestre de 2020) e um dramático aumento do desemprego (acima de meio milhão de portugueses sem trabalho, totalizando 8,5% da população activa).

 

Este conjunto de circunstâncias, tendo o Covid-19 como traço comum, mereceu 12 votos dos autores do DELITO. A curta distância - com oito votos - ficou o assassínio do imigrante Ihor Homeniuk por elementos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a 12 de Março, no aeroporto de Lisboa.

Um homicídio que causou imensa polémica, levando à tardia demissão da directora nacional daquele departamento público e à decisão - ainda mais tardia - do Governo português de indemnizar a viúva e os filhos daquele cidadão ucraniano que procurava Portugal para trabalhar. Não esqueçamos: Homeniuk foi morto por funcionários do Estado, em instalações do Estado, quando se encontrava à guarda do Estado.

 

Houve ainda um voto isolado no excesso de mortalidade não-Covid registado em Portugal neste funesto ano bissexto, «que quintuplicou as baixas da Grande Guerra». Desde 1920 não ocorriam tantos óbitos no País. Subida de 9% em relação a 2019, sendo apenas cerca de metade explicados pela pandemia.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Facto nacional de 2019: novos partidos no Parlamento

Figura internacional de 2020

Pedro Correia, 02.01.21

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URSULA VON DER LEYEN

A presidente da Comissão Europeia foi eleita Figura Internacional do Ano pela tribo "delituosa". Em 21 votos expressos, recolheu oito.

Ursula von der Leyen - que tem assumido a liderança comunitária de facto e não apenas no papel - mereceu esta distinção por vários motivos. Desde logo pelo seu impulso à aprovação da ajuda financeira às debilitadas economias dos Estados-membros, que receberão 1,8 biliões de euros para enfrentar a grave crise provocada pela pandemia. Mas também pelo protagonismo no processo que conduziu à validação, aquisição e distribuição das vacinas anti-Covid 19, superando todos os prazos antes registados em questões similares. Sem esquecer o acordo com o Reino Unido que consumou o adeus dos britânicos à Europa comunitária. 

«É hora de virar a página e olhar para o futuro», declarou a 24 de Dezembro, a propósito do Brexit, a primeira mulher à frente das instituições europeias. Desde que substituiu Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão, em Dezembro de 2019, a antiga ministra alemã da Defesa tem-se assumido como personalidade de referência no panorama político internacional. Impedindo, desde logo, eventuais efeitos de contágio do Brexit: nenhum outro país comunitário seguiu o controverso exemplo do Reino Unido.

«Num momento tão conturbado parece manter o sangue-frio e aparentemente leva o barco a bom rumo», comentou um dos autores do DELITO, justificando a votação. «A presidente da Comissão mais competente desde Jacques Delors. Manteve tudo na linha, com suavidade e inteligência», observou outro.

 

Na posição imediata, com sete votos, ficou o malogrado médico Li Wenliang, que terá sido a primeira pessoa a comunicar ao mundo a existência do Covid-19, iniciado na cidade chinesa de Wuhan, em Dezembro de 2019. Quem votou nele enalteceu-o «pelo exemplo de coragem cívica, amor ao próximo e resistência à ditadura».

Este oftalmologista que exercia como clínico no hospital central de Wuhan chegou a ser perseguido pelas autoridades e acusado de «difamar a China». Infelizmente foi uma das primeiras vítimas do novo coronavírus: infectado a 8 de Janeiro, faleceu um mês depois, com apenas 33 anos. O mundo acabará por prestar-lhe justiça.

 

Registaram-se três votos no Presidente cessante dos Estados Unidos da América, Donald Trump (Figura Internacional do Ano no DELITO em 2017), e dois no seu sucessor, Joe Biden, eleito pelos norte-americanos com a maior votação popular de sempre e prestes a tomar posse do cargo, o que ocorrerá em Washington no próximo dia 20.

Houve ainda um voto isolado num trio de cientistas: o casal alemão de origem truca Uğur Şahin Özlem Türeci (principais responsáveis pelo desenvolvimento da primeira vacina anti-Covid) e a húngara Katalin Karikó (que se destacou no desenvolvimento do uso terapêutico de mRNA, molécula que copia as instruções do código de ADN, localizadas no interior do núcleo das células, para outras estruturas celulares, os ribossomas, onde são produzidas proteínas e treinando o sistema imunitário para reconhecer o vírus, em caso de infecção). Não será de admirar que venham a receber o Prémio Nobel da Medicina.

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura internacional de 2019: Boris Johnson

Figura nacional de 2020

Pedro Correia, 01.01.21

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MARTA TEMIDO

Ela entrou-nos casa adentro muitas vezes ao longo de 2020. Quase sempre para anunciar más notícias, todas relacionadas com a pandemia do novo coronavírus que também se abateu sobre Portugal. E deixou estragos, desde logo em número de contágios e óbitos. Segundo os dados estatísticos com chancela oficial, até 31 de Dezembro a pandemia provocou 413.678 infectados e causou 6906 mortos no nosso país. Em apenas dez meses. 

Marta Temido foi, seguramente muito a contragosto, a face mais visível desta tragédia sanitária a que o Governo foi dando respostas nem sempre convincentes. Teve grande protagonismo mediático, sim. Mas poucos desejariam estar no lugar dela ao longo deste ano terrível que agora fica para trás. Apesar de tudo aguentou estoicamente, resistindo a imitar o colega que tinha a pasta das Finanças: mal soaram os primeiros sinais irrefutáveis de crise muito grave, Mário Centeno transitou para o conforto da poltrona suprema no Banco de Portugal. 

Foram razões suficientes para ela merecer a eleição da tribo "delituosa" como Figura Nacional de 2020. Escolhida mesmo à tangente, diga-se. Com seis votos em 20. No segundo posto, com cinco, ficou Rui Pinto, o pirata informático que expôs diversos podres relacionados com a finança, a política, o futebol e até com o sistema judicial em casos que conduziram a investigações policiais baptizadas com nomes sonantes, como Luanda Leaks e Football Leaks.

 

Outros escolhas de autores do DELITO DE OPINIÃO distribuíram-se por nomes avulsos. Todos com apenas um voto.

Foi o caso do Presidente da República, que agora se apresenta como recandidato a Belém: Marcelo Rebelo de Sousa apenas conseguiu um voto entre nós. E por um motivo nada lisonjeiro: «Por conseguir nunca ter dito nada que mereça ser lembrado, nunca ter feito nada que não recebesse o apoio da opinião pública e ter contribuído para a anestesia geral enquanto o país desliza para os últimos lugares do desenvolvimento na Europa, guardando sempre níveis de popularidade invejáveis.»

 

Quem mais? 

A directora-geral da Saúde, Graça Freitas. «Provavelmente a única a ombrear com Marcelo e Costa na notoriedade», em termos nacionais, ao longo de 2020, disse quem votou nela. Os pilotos Filipe Albuquerque (campeão do Mundo e campeão da Europa de Resistência, vencedor das 24H de Le Mans) e Miguel Oliveira (vencedor de duas provas de Moto GP, incluindo o Grande Prémio de Portugal). O presidente do Sporting, Frederico Varandas. Um senhor chamado José Brito, herói quase anónimo que «arriscou a vida para salvar um desconhecido que tinha caído à água junto ao Cais da Colunas», em Lisboa.

Sem esquecer Centeno, ele mesmo. Também com um voto, irónico ou sarcástico: «Trocou o Ministério das Finanças pelo Banco de Portugal, o que parecia impossível (e seria impossível noutro contexto) sem grandes críticas nem sobressaltos.» Há homens com sorte. 

 

Destaque, enfim, para um voto em pessoa colectiva: «todos os trabalhadores a que agora chamamos essenciais e que estão há meses e meses em risco acrescido, desgaste emocional, cansaço extremo, mantendo o país a funcionar.»

Não venceram nesta votação mas têm lugar assegurado na consideração e admiração de todos os portugueses.

 

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Figura nacional de 2018: Joana Marques Vidal

Figura nacional de 2019: D. José Tolentino Mendonça

Os melhores livros do meu ano(3)

Pedro Correia, 31.12.20

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À medida que vamos acumulando leituras, outro prazer os livros nos proporcionam. Refiro-me ao gosto da releitura, que em 2020 cultivei em doses adicionais.

Aproveitando o longo período de reclusão imposto pelas autoridades sanitárias e por força das circunstâncias, revisitei várias obras literárias, de autores muito diversos. Como se fosse um reencontro com velhos amigos, sem precisar de máscara.

Isto aconteceu-me tanto com autores portugueses como estrangeiros. Tratando-se, em certos casos, de uma leitura já em dose tripla. Mas nem por isso menos estimulante.

Fica a lista dos dez melhores livros que fui relendo no ano que agora acaba. Por ordem alfabética, como aconteceu aqui e aqui.

 

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A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queiroz (1901). Já longe da estética realista, de que foi um dos principais cultores, Eça escreveu em França esta magnífica declaração de amor a Portugal. Com personagens, cenários e diálogos inesquecíveis, entre o luxo de Paris e a beleza rústica da paisagem duriense.

 

A ILHA DO TESOURO, de Robert Louis Stevenson (1883). Romance de aventuras para todas as idades - um dos mais célebres de sempre. Na sua galeria de personagens fabulosas destaca-se Long John Silver, o marinheiro renegado que abraça a pirataria, cruzando para sempre a linha divisória entre o bem e o mal.

 

A LINHA DE SOMBRA, de Joseph Conrad (1917). Um navio estagnado devido a uma imprevista calmaria oceânica, com dezenas de tripulantes infectados a bordo, parecendo alvo de uma insólita maldição. O protagonista jamais esquecerá esta sua viagem iniciática em mares orientais com galões de comandante.

 

A SELVA, de Ferreira de Castro (1930). Um dos raros romances portugueses com alcance universal. Castro transforma a sua experiência como jovem trabalhador braçal na Amazónia em material literário de inegável qualidade. Uma obra que tem como protagonista a floresta, com os seus mistérios e os seus terrores. 

 

ATÉ AO FIM, de Vergílio Ferreira (1987). Romance crepuscular do autor de Aparição, centrado num pai que vela o corpo do filho numa capela à beira-mar enquanto desfia memórias relacionadas com encontros e desencontros que mantiveram. Vigília povoada de interrogações e perplexidades sobre o homem e o seu destino.

 

CRIME IMPUNE, de Georges Simenon (1954). Obra capital entre os romances que o prolífico autor belga escreveu sem a presença tutelar do seu comissário Maigret. Ambientado numa pensão de Liège, com hóspedes de várias nacionalidades e oriundos de encruzilhadas diversas. Um deles terá um futuro trágico.

 

MAU TEMPO NO CANAL, de Vitorino Nemésio (1944). O melhor romance português do século XX. Imbatível como ficção literária no cenário açoriano - desenrolada em quatro ilhas: Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Obra apropriada nestes tempos difíceis: a epidemia (aqui, de peste bubónica) é um dos temas centrais.

 

O MALHADINHAS, de Aquilino Ribeiro (1922). Obra-prima da nossa novelística, escrita na primeira pessoa do singular, com linguagem pícara e castiça, dando voz a um almocreve de meados do século XIX que percorria serranias beirãs no rescaldo da guerra entre liberais e miguelistas que dilacerou Portugal por muitos anos.

 

O TRIGO E O JOIO, de Fernando Namora (1954). A chamada escola neo-realista produziu romances de indiscutível qualidade. Talvez nenhum com tanta autenticidade como este, centrado num humilde camponês alentejano que ambiciona ser proprietário de uma burra e move tudo para concretizar tal sonho. 

 

VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS, de Júlio Verne (1870). Quinto romance mais traduzido em todo o mundo, tem encantado sucessivas gerações de leitores e mantém intacto o seu fascínio. Quantos de nós não desejámos embarcar no Nautilus - o primeiro submarino da literatura - sob o comando do enigmático capitão Nemo?

Os melhores livros do meu ano(2)

Pedro Correia, 30.12.20

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Como referi anteriormente, há muitos anos que não lia tantos livros como neste 2020 prestes a ficar para trás. Desde a adolescência, mais precisamente. O longo período de confinamento a que estive sujeito, à semelhança do que sucedeu com tantos de nós, incentivou-me a mergulhar ainda mais na leitura. E com proveito, devo confessar.

Ler, como alguém assinalava um dia destes, é a actividade intelectual que mais nos permite contrariar tendências dominantes, rejeitar o espírito de rebanho ou alcateia e mergulhar na subjectividade - no fundo, aquilo que nos diferencia dos restantes mortais.

Senti isso como nunca neste ano de pesadelo. Graças, em boa parte, a autores que escreveram sobre mundos e modas tão diferentes dos que agora experimentamos. Esta é uma conquista ímpar da literatura: fazer-nos viajar a qualquer momento no tempo e no espaço, abrindo-nos horizontes de toda a espécie. Graças a ela, ficamos a saber o que nos antecedeu e a conhecer a face oculta do que nos rodeia. E passamos até a ser iluminados sobre nós próprios.

Fica a lista dos dez melhores livros de autores estrangeiros que li no Ano da Pandemia. Por ordem alfabética, para facilidade de consulta.

 

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A IDADE DA INOCÊNCIA, de Edith Wharton (1920). Romantismo tardio cruzado com suave mas inequívoca denúncia social: eis alguns ingredientes desta fascinante viagem literária que nos apresenta a arrogante e pretensiosa classe dominante de Nova Iorque na década de 1870, com mais sombras do que luzes.

 

A MÃE, de Máximo Gorki (1907). O primeiro - e talvez o melhor - romance da escola do "realismo socialista", que mesclava ficção literária com cartilha política e produziu imensas cópias inferiores em que o talento se rendia ao proselitismo. Inesquecível, a personagem principal - figura cimeira da literatura.

 

A MENTE APRISIONADA, de Czeslaw Milosz (1953). Corajoso libelo contra o totalitarismo comunista a partir da experiência do autor, no auge da ditadura vermelha na Polónia, antes de rumar a um exílio que durou décadas e lhe custou a perda da cidadania. O equivalente em ensaio a O Zero e O Infinito em ficção.

 

A TIA JULIA E O ESCREVEDOR, de Mario Vargas Llosa (1977). Até que ponto a vida, tal como ela realmente é, pode funcionar como eficaz matéria literária? Desafio difícil, mas superado com brilhantismo neste divertidíssimo romance, aquele em que o Nobel de 2010 mais se desvenda sem biombos nem artifícios.

 

CORAÇÃO TÃO BRANCO, de Javier Marías (1992). Talvez o melhor romancista actual de Espanha, Marías elabora aqui uma teia de encontros e desencontros que se vão prolongando no tempo e no espaço, suscitando-nos interrogações sobre o destino humano. Basta o capítulo inicial para ascender ao patamar de obra-prima.

 

O AMANTE DE LADY CHATTERLEY, de D. H. Lawrence (1928). Muito mais do que um clássico da literatura erótica, é um estudo admirável da psicologia feminina e uma desassombrada denúncia dos preconceitos sociais vigentes na Inglaterra saída da I Guerra Mundial, ainda povoada de sombras atávicas.

 

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS (1997). O realismo mágico transposto para uma comunidade cristã na Índia com um arrojo e uma destreza literária em nada inferiores ao de Gabriel García Márquez. É também uma obra sobre as marcas da infância que permanecem para sempre inscritas nos sulcos da memória.

 

O MUNDO PERDIDO, de Conan Doyle (1912). Livro de aventuras, na mais genuína acepção do termo, esta obra-prima demonstra-nos que existem sempre novas fronteiras por desbravar, por vezes em desafio aberto à lógica cartesiana. Recomendável aos nostálgicos do género, que suscita fascínio em todas as idades.

 

RESSURGIR, de Margaret Atwood (1972). Admirável romance sobre o fascínio das raízes familiares, os precários laços afectivos que provocam cicatrizes e a atribulada relação entre o homem e a natureza, desenrolada em cenário florestal do Canadá. Ambientalista e feminista antes de estes conceitos se tornarem moda.

 

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM, de James Joyce (1916). Um dos melhores livros sobre as encruzilhadas da adolescência: Joyce conduz-nos à sua Dublin natal do final do século XIX em óbvia evocação autobiográfica. Tornando-nos testemunhas privilegiadas das suas crises de identidade e dos seus dilemas existenciais.

Os melhores livros do meu ano(1)

Pedro Correia, 29.12.20

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É sempre assim. Chego a Dezembro e elaboro o meu balanço de livros e filmes. Neste ano de pesadelo, como muitos de nós classificamos 2020, os meus livros ganharam por larga vantagem aos meus filmes. Apesar do confinamento, ou talvez até por isso, apeteceu-me muito mais mergulhar na leitura do que assistir a filmes. Ler e cozinhar foram, aliás, os meus passatempos favoritos no ciclo de 12 meses que agora chega ao fim.

Os filmes foram ficando para trás. Sendo com frequência trocados também por séries, vistas ou revistas - dos clássicos Columbo e Uma Família às Direitas até ficções televisivas contemporâneas de inegável qualidade, como a intrigante Shetland, a devastadora Hinterland, a negra Absolvição, a sombria Linha Invisível, a desbragada Narcos, a tensa Os Crimes de Valhalla, a cáustica Barão Negro, a surpreendente Hierro, a empolgante Salvação, a imprescindível The Crown

 

Pois desta vez os livros venceram por larga margem: 100-40. Uma goleada, como se diz em linguagem futeboleira. Refiro-me apenas aos livros lidos integralmente neste 2020 que nos virou a vida do avesso: os que abandonei a meio, fosse por que motivo fosse, não entram nesta contabillidade. 

Durante três dias, começando hoje, deixarei aqui a lista dos dez melhores destes cem, multiplicada por três: a primeira, já de seguida, respeitante só a autores portugueses. Amanhã virão os autores estrangeiros. Depois de amanhã, recordo os dez que mais gostei de reler. Títulos sempre acompanhados por duas ou três frases sobre cada obra.

Cada lista fica por ordem alfabética. Podia ter sido outro o critério, mas prefiro este.

 

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A PAZ DOMÉSTICA, de Teresa Veiga (1999). Romance de estreia desta escritora avessa a protagonismo mediático, mais conhecida como contista. Relato sincopado do singular percurso de uma mulher ao longo de um quarto de século de convulsões políticas em Portugal, com drama e comédia entrelaçados.

 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago (1995). Ponto culminante da literatura portuguesa de ficção em matéria de distopias. Lúcida descrição de um mundo sem fronteiras espaciais ou temporais convulsionado pela cegueira colectiva. De leitura quase obrigatória em tempo de pandemia.

 

GAIBÉUS, de Alves Redol (1939). O neo-realismo português entrava em cena neste romance, trocando as personagens individuais pelo protagonismo colectivo de humildes trabalhadores agrícolas das Beiras que desciam ao Ribatejo para ganhar a vida em tempo de ceifas e colheitas. Quase como escrita de repórter.

 

GAIVOTAS EM TERRA, de David Mourão-Ferreira (1959). Quatro novelas que marcaram a estreia em ficção deste grande poeta. À sua maneira, cada uma celebrando com nostalgia a Lisboa burguesa de meados do século XX. Duas delas originaram filmes, realizados por Jorge Brum do Canto e José Fonseca e Costa.

 

KURIKA, de Henrique Galvão (1944). Muitos ignoram que o futuro opositor de Salazar se distinguira antes como escritor, sobretudo de temática africana, como reflexo dos anos vividos em Angola. Este é um romance em que os animais surgem em surpreendente destaque, num contraponto português a Lassie ou Bambi

 

QUANDO OS LOBOS UIVAM, de Aquilino Ribeiro (1958). Romance-libelo sobre a luta dos camponeses da Beira Alta pelo cultivo de baldios que valeu ao autor um processo judicial e a ameaça de prisão. Inesquecível, a longa cena desenrolada num Tribunal Plenário, com palavras desassombradas em desafio à ditadura.

 

SILÊNCIO PARA 4, de Ruben A. (1973). Quatro personagens em diálogo neste romance incompreendido à época. Obra imediatamente anterior à revolução, ganha em ser lida à distância de quase meio século. Por ser sinal evidente de um fim de ciclo: a mudança de costumes antecipava o vendaval político.

 

TERRA MORTA, de Castro Soromenho (1949). Houve um tempo em que a literatura portuguesa não se circunscrevia ao continente europeu. Entre o legado dos nossos escritores africanistas distingue-se este apaixonado e pungente retrato da gente e do espaço em zonas remotas de Angola na era colonial. 

 

VIVER COM OS OUTROS, de Isabel da Nóbrega (1964). Um prodígio formal, este romance escrito da primeira à última linha num discurso directo que nunca soa a artifício. Na Lisboa privilegiada em que se anteviam os primeiros sinais de desagregação das classes sociais que funcionaram como âncora do Estado Novo. 

 

VOLFRÂMIO, de Aquilino Ribeiro (1943). Romance escrito quase em tempo real, no auge da guerra, quando ingleses e alemães disputavam as riquezas minerais do interior português, aproveitando a nossa neutralidade no conflito. Com personagens credíveis e uma impressionante riqueza vocabular, marca distintiva do autor.

Facto internacional de 2019

Pedro Correia, 06.01.20

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SUBLEVAÇÃO POPULAR EM HONG KONG

A larga maioria dos votos, ao escolhermos o facto internacional de 2019, foi a sublevação popular em Hong Kong, que paralisou por completo, em diversas ocasiões, a antiga colónia britânica que é desde 1997 Região Administrativa Especial da República Popular da China. Pequim comprometeu-se a aplicar ali durante meio século o chamado princípio "um país, dois sistemas", garantindo a manutenção neste território - uma das principais praças financeiras mundiais - o sistema capitalista e a aplicação de direitos civis que são negados à esmagadora maioria da população chinesa. Mas estas promessas têm vindo a ser postas em causa.

Tudo começou em Junho com um vigoroso protesto estudantil contra uma nova lei que autorizaria a extradição de residentes em Hong Kong para outras parcelas do país, onde vigoram um código penal e um sistema carcerário muito mais severos: basta lembrar que a China é a nação do mundo que mais aplica a pena de morte. O movimento alastrou a outras faixas populacionais, dando origem à greve geral de 15 de Agosto e a gigantescas manifestações que não desmobilizaram quando o Executivo local, em Outubro, deixou cair a anunciada alteração legislativa. Havia já então novas reivindicações populares: a demissão da chefe do Governo, Carrie Lam, que ascendeu ao cargo em 2017 por escolha de um colégio eleitoral muito restrito em que obteve apenas 777 votos, e a eleição por sufrágio universal dos 70 membros do Conselho Legislativo - o órgão parlamentar de Hong Kong. Actualmente só metade dos deputados resultam do voto directo dos eleitores locais.

O novo ano começou da mesma forma: cerca de um milhão de pessoas desceram à rua exigindo reformas democráticas, em aberta oposição ao sistema ditatorial chinês.

 

A crise política, económica e social em Hong Kong - ainda sem solução à vista - foi designada facto internacional de 2019 por 15 dos 24 autores deste blogue que participaram na votação.

Com quatro votos, o segundo mais mencionado - e de algum modo relacionado com este - foi o conjunto das manifestações populares em vários continentes que agitaram sobretudo a Europa, a América do Sul, o Norte de África e o Médio Oriente. Em países tão diversos como França, Venezuela, Chile, Bolívia, Colômbia, Argélia, Irão, Iraque e Líbano.

 

A ameaça de destituição de Donald Trump - já concretizada na Câmara dos Representantes mas que deverá ser travada no Senado - foi escolhida por dois de nós.

Houve ainda votos isolados na vitória conservadora no Reino Unido, que permitirá concretizar o Brexit, na guerra comercial EUA-China e na contínua destruição da Amazónia.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados

Facto internacional de 2016: Brexit

Facto internacional de 2017: crise separatista na Catalunha

Facto internacional de 2018: movimento #MeToo

Facto nacional de 2019

Pedro Correia, 04.01.20

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NOVOS PARTIDOS NO PARLAMENTO

O ano que agora terminou foi dominado por factos políticos a nível nacional. A 6 de Outubro, os portugueses regressaram às urnas para escolher um novo elenco parlamentar do qual saiu o segundo Executivo liderado por António Costa - desta vez vencedor, embora longe da maioria absoluta que o PS ambicionava. Em 2019, recorde-se, houve dois outros escrutínios: as europeias, a 26 de Maio (triunfo eleitoral do PS, com 33,4%), e as regionais na Madeira, a 22 de Setembro (vitória do PSD, com 39,4%, e a consequente formação de um Governo de coligação com o CDS, facto inédito a nível regional).

Na opinião maioritária dos autores do DELITO DE OPINIÃO, o mais relevante neste conjunto de consultas eleitorais foi a entrada de novos partidos na Assembleia da República - ampliando o que já sucedera em 2015, com a eleição do solitário deputado do PAN.

Desta vez o partido animalista foi muito mais bem sucedido: obteve 3,3% nas urnas, multiplicando por quatro a representação parlamentar. E três forças políticas estreantes passaram a ter assento no hemiciclo: o Chega (1,3%), com André Ventura, a Inciativa Liberal (1,3%), com João Cotrim de Figueiredo, e o Livre (1,1%), com Joacine Katar Moreira.

Onze dos nossos 24 votos distinguiram esta ascensão dos novos partidos parlamentares como acontecimento do ano em Portugal. Em segundo lugar, com seis votos, ficou a degradação do Serviço Nacional de Saúde - facto que não deixou de ser notícia ao longo de 2019.

 

Os restantes sete votos recaíram, isoladamente, noutras ocorrências, confirmando o variado leque de opções aqui registado de ano para ano.

Foram mencionadas desta forma:

- Vitória eleitoral do PS nas legislativas;

- Prepotência de Ferro Rodrigues como presidente da Assembleia da República;

- O fim da "geringonça";

- Greve dos camionistas de matérias perigosas;

- O novo sindicalismo;

- Violência doméstica;

- A maior carga fiscal de sempre.

 

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Figura internacional de 2019

Pedro Correia, 03.01.20

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BORIS JOHNSON

Nem por ser já esperada deixou de constituir uma das vitórias eleitorais mais marcantes da cena política de 2019. Boris Johnson, que começou por chefiar o Executivo britânico sem passar pelas urnas, limitando-se a receber a pasta de Theresa May, conduziu em 12 de Dezembro o seu Partido Conservador ao maior triunfo eleitoral desde 1987, passando a dispor de uma sólida maioria absoluta na Câmara dos Comuns, ao contrário do que acontecia com a sua antecessora. Tem 365 assentos parlamentares - 39 acima do patamar da maioria absoluta.

O seu estilo excêntrico - mesmo para os padrões britânicos - e a linguagem acutilante que cultiva como imagem de marca levaram alguns, mais distraídos, a considerá-lo uma réplica de Donald Trump. Nada mais errado. Desde logo, Johnson tem impecáveis credenciais académicas e pedigree intelectual. Foi aluno na Escola Europeia em Bruxelas, depois em Eton e Oxford, diplomou-se em Estudos Clássicos, é um reputado biógrafo de Winston Churchill. Exerceu o jornalismo em periódicos conceituados: The Times, Daily Telegraph e The Spectator (sendo editor deste último). Antes de ascender à chefia do partido e do Governo, em Julho de 2019, destacou-se como presidente da Câmara de Londres (2008-2016) e ministro dos Negócios Estrangeiros (2016-2018).

A eleição deste irrequieto nativo do signo Gémeos, nascido há 55 anos em Manhattan e que só em 2016 renunciou à cidadania norte-americana deveu-se em boa parte à sua promessa de solucionar de vez o impasse em torno do Brexit. Johnson é um entusiasta da saída definitiva do Reino Unido da União Europeia, que deverá consumar-se em 2020. Ao contrário de Jeremy Corbyn, o seu rival do Partido Trabalhista, que manteve posições muito ambíguas nesta matéria. O que talvez explique o terramoto eleitoral do Labour: em Dezembro, obteve o pior resultado desde 1935.

 

O DELITO DE OPINIÃO elegeu Boris Johnson como Figura Internacional do Ano na votação mais apertada de 2019. O chefe do Governo britânico superou apenas por um voto (nova contra oito) a activista sueca Greta Thunberg, que liderou a batalha mediática à escala mundial contra as alterações climáticas num ano que suportou o mês de Julho mais quente desde que há registos credíveis e em que a Islândia viu desaparecer o primeiro glaciar.

O terceiro lugar do pódio, com cinco votos, coube ao primeiro-ministro etíope  Abiy Ahmedy, distinguido com o Prémio Nobel da Paz pelos seus esforços para «alcançar a paz e a cooperação internacional», justificou a academia de Oslo. Em alusão ao seu protagonismo na obtenção de um acordo de paz entre a Etiópia e a Eritreia, pondo fim ao tenso impasse que permanecia entre os dois países, envolvidos num sangrento conflito no final do século XX.

Houve ainda dois votos isolados. Um em Juan Guaidó, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, reconhecido por mais de cinco dezenas de países (incluindo Portugal) como líder legítimo do país, embora Nicolás Maduro ainda ocupe o Palácio de Miraflores. O outro voto recaiu em John Bercow, o carismático presidente cessante da Câmara dos Comuns, que ganhou fama planetária pelo modo peculiar como presidia aos debates - começando pelo seu inconfundível "grito de guerra": «Order! Order!»

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura internacional de 2018: Jair Bolsonaro

Figura nacional de 2019

Pedro Correia, 02.01.20

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D. JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Pela primeira vez numa década, uma personalidade da Igreja portuguesa surge em destaque no balanço anual do DELITO DE OPINIÃO. Cabe a distinção ao padre-escritor José Tolentino Mendonça, que a 1 de Setembro foi designado cardeal pelo Papa Francisco. Passou a fazer parte do restrito núcleo de 224 cardeais hoje existentes no mundo - apenas 124 dos quais com capacidade eleitoral, por terem menos de 80 anos. Podendo eleger, pode também ser eleito num dos conclaves à porta fechada na Capela Sistina.

«Arrisco que chegará a Papa. Dificilmente na próxima eleição, mas é um jovem», observou um dos nossos colegas de blogue no processo de votação. Na mesma linha, uma colega justificou votar nele «pela projecção internacional e porque lhe prevejo grandes voos futuros». D. José Tolentino, que recebeu as novas insígnias a 5 de Outubro, tem 54 anos: é de facto um jovem, pelos padrões médios do colégio cardinalício da Santa Sé.

Este foi o segundo ano consecutivo em que mereceu destaque noticioso. Em Junho de 2018, por escolha pessoal do Papa Francisco, havia sido nomeado arquivista do Arquivo Apostólico do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo, com 85 quilómetros de estantes. No mês seguinte era ordenado bispo.

Nascido em Machico, na ilha da Madeira, José Tolentino distinguiu-se como teólogo, professor universitário, pároco no Funchal e em Lisboa, director do curso de Teologia da Universidade Católica e membro do Conselho Pontifício para a Cultura. É autor de vários livros de poesia, ensaio e teatro. Foi distinguido com o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio Pen Club de Ensaio (2005), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2016) e o Grande Prémio APE de Crónica (2016), entre outros.

 

O novo cardeal recebeu oito dos 24 votos recolhidos no nosso "colégio eleitoral". Na tradicional escolha de fim de ano feita pelos autores do DELITO, o segundo posto para Figura Nacional de 2019, com cinco votos, coube a Joacine Katar Moreira, recém-eleita deputada do partido Livre.

Outro deputado estreante, André Ventura, recolheu três votos - tantos como o primeiro-ministro António Costa, vencedor das legislativas de Outubro, e o treinador Jorge Jesus, que levou o Flamengo à conquista do campeonato brasileiro e da Taça Libertadores, o mais importante troféu futebolístico do continente americano.

 

Houve ainda dois votos solitários. O primeiro em António Guterres, pelo seu «desempenho ecologista» como secretário-geral da ONU, e o segundo em Mário Centeno, o ministro das Finanças responsável pelo primeiro excedente orçamental em democracia e também pela maior carga fiscal de que há registo no País.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Figura nacional de 2018: Joana Marques Vidal

Facto internacional de 2018

Pedro Correia, 04.01.19

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MOVIMENTO #METOO

 

A repercussão, praticamente à escala planetária, do movimento feminista #MeToo, iniciado no final de 2017 mas com particular visibilidade só no início do ano passado,  mereceu do DELITO DE OPINIÃO a escolha como Facto Internacional de 2018. Houve oito votos nesta opção, atendendo sobretudo ao profundo impacto deste movimento no circuito intelectual e artístico dos Estados Unidos - sem esquecermos os ecos que produziu também na Europa, onde (por exemplo) em 2018 não se atribuiu o Prémio Nobel da Literatura devido às alegações de que o marido de um dos membros da academia, o dramaturgo e fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, terá assediado sexualmente algumas mulheres - o que foi desmentido pelo visado.

Em Portugal, ao contrário do que tem sucedido noutros países, o movimento parece tardar em implantar-se: ainda não foram conhecidas, por cá, denúncias de supostas agressões sexuais a figuras mediáticas, designadamente do espectáculo, do teatro, da televisão, dos meios empresariais ou da política.

 

Em segundo lugar, com cinco votos, ficou aquilo que denominámos de revolta dos pagantes, abrangendo nomeadamente o movimento dos chamados "coletes amarelos" que despontou em Novembro em França e parece ter perdido força nas semanas mais recentes.

Outro acontecimento em destaque, com quatro votos: a brutal crise na Venezuela, que já levou ao êxodo de cerca de três milhões de pessoas, enquanto o país se afunda na depressão económica, na mega-inflação e na repressão política, às ordens do ditador Nicolás Maduro, reeleito em Maio de 2018 entre acusações quase unânimes de fraude eleitoral num escrutínio de que foram afastados, logo à partida, os principais opositores.

 

Houve dois votos na formação de um Governo populista em Itália, onde a Liga xenófoba e o movimento pós-ideológico Cinco Estrelas formaram uma coligação com efeito práticos a partir de Junho, desafiando as regras impostas por Bruxelas num dos Estados fundadores da União Europeia e naquela que é hoje a terceira maior economia do espaço comunitário.

Outros dois votos recaíram na inédita cimeira EUA-Coreia do Norte, ocorrida em Abril em Singapura, reunindo o inquilino da Casa Branca, Donald Trump, e o ditador de Pyongyang, Kim Jong-un, com vista à desnuclearização da península coreana, que alberga a fronteira mais perigosa do planeta, vigorando ali o estado de guerra desde 1950.

 

Registaram-se ainda votos isolados na dissolução definitiva da ETA no País Basco espanhol, na invasão comercial da Europa pela China, que vem comprando à peça infra-estruturas basilares do Velho Continente (o porto do Pireu, em Atenas, é um exemplo entre muitos) e ainda na chamada consciência ambiental, com esta justificação que ficou lavrada em acta: «Desde o plástico, passando pelas alterações climáticas (que receberam finalmente uma necessária dose de realidade - outros chamaram-lhe alarmismo), seguindo pela água e acabando (nesta sequência) nas extinções. Nunca o ambiente recebeu tanta atenção da população.»

 

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados

Facto internacional de 2016: Brexit

Facto internacional de 2017: crise separatista na Catalunha

Facto nacional de 2018

Pedro Correia, 03.01.19

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INCÚRIA DO ESTADO

 

Houve consenso generalizado, entre os autores do DELITO DE OPINIÃO, quanto ao Facto Nacional do Ano: elegemos a reiterada incúria do Estado português na protecção e segurança de pessoas e bens. Isto a propósito de acontecimentos tão diversos - mas todos igualmente dramáticos - como o devastador incêndio de Monchique, que dizimou grande parte do maior pulmão verde do Algarve, a derrocada de um troço da estrada municipal que ligava Borba a Vila Viçosa, causando a morte de cinco pessoas, a queda de um helicóptero do INEM em circunstâncias que estão a ser investigadas, havendo a lamentar a perda de quatro pessoas que se haviam distinguido a salvar vidas humanas, ou ainda as repercussões do roubo de material bélico em Tancos, ocorrido em 2017 mas com desenvolvimentos no ano que agora terminou.

Dezoito dos nossos 26 votos recaíram neste conjunto de ocorrências, cada qual com o seu grau de dramatismo e controvérsia. Não apenas em função do que aconteceu mas devido à incapacidade das autoridades em apurar responsabilidades e aplicar a respectiva e efectiva punição. O que deixa muitos portugueses perante a angustiante convicção de que ninguém, ao nível da administração do Estado, nos protege em verdadeiras situações de perigo.

 

Os restantes oito votos dividiram-se em partes iguais.

Metade destacou o brutal assalto à Academia do Sporting, em Alcochete, cometido a 15 de Maio por cerca de quatro dezenas de elementos da principal claque do clube, o que teve consequências aos mais diversos níveis. Para os assaltantes, que em grande parte se encontram detidos, aguardando a conclusão do debate instrutório; para os jogadores agredidos, vários dos quais decidiram rescindir unilateralmente os contratos que os ligavam ao clube; e para o próprio Sporting, que entrou em convulsão interna, culminando no afastamento do presidente Bruno de Carvalho, a 23 de Junho, por vontade expressiva dos sócios, que em 8 de Setembro elegeram Frederico Varandas para o seu lugar.

Houve ainda quatro votos no facto de Portugal ter conseguido em 2018 o défice mais baixo em democracia, excedendo as previsões da Comissão Europeia e do próprio Governo, com o ministro das Finanças - agora também presidente do Eurogrupo - a antecipar um défice cada vez mais próximo do zero nas contas públicas de 2019.

 

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

 

 

Figura internacional de 2018

Pedro Correia, 02.01.19

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JAIR BOLSONARO

Foi o  mais imprevisível triunfo eleitoral de 2018, surpreendendo grande parte dos comentadores e analistas políticos: Jair Bolsonaro, capitão na reserva e deputado federal desde 1991, venceu a eleição presidencial brasileira de Outubro, suplantando na segunda volta o seu rival do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, por uma margem confortável: obteve 55% e quase 58 milhões de votos. Ontem tomou posse, em Brasília, como 38.º Chefe do Estado do maior país de língua portuguesa e líder da sétima economia à escala mundial. Com uma taxa de aprovação muito elevada, que ascende a 61%, segundo os mais recentes barómetros  - algo que praticamente ninguém conseguia prognosticar há um par de meses.

A inclusão do juiz Sérgio Moro no novo Executivo federal, com a pasta da Justiça, terá contribuído para este reforço da popularidade de Bolsonaro, que se apresentou às urnas apenas com o apoio inicial de um pequeno partido, o PSL, e quase sem dispor de tempo de antena nos canais televisivos. Contornou estas dificuldades recorrendo em larga escala às redes sociais e às novas plataformas de telecomunicações. O que vai seguir-se é uma verdadeira incógnita, sendo inegável o peso dos militares na estrutura governativa agora empossada - começando pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.

No DELITO DE OPINIÃO, que o elegeu como Figura Internacional do Ano, Bolsonaro teve uma vitória apertada: recebeu nove votos em 24. Vencendo tangencialmente outro dirigente de um país de língua portuguesa: o Presidente angolano, João Lourenço. Justificação para os oito votos recolhidos pelo homem que em 2017 sucedeu a José Eduardo Santos: o papel relevante que tem desempenhado na abertura das instituições e no combate à corrupção em Angola.

 

O terceiro lugar do pódio, com três votos, coube ao Presidente norte-americano Donald Trump - aqui vencedor nos dois anos anteriores - pelas numerosas polémicas que tem protagonizado, levando a uma constante sangria da sua equipa governativa, mas também pela histórica cimeira que manteve em Abril com o ditador de Pyongyang, Kim jong-un, que terá aberto enfim caminho à desnuclearização da península coreana, há 68 anos em estado de guerra.

Houve dois votos no novo Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, primeiro dirigente desde 1959 que ali não pertence à família Castro. Além de votos isolados no Presidente chinês, Xi Jinping, que em 2018 viu reforçados os seus poderes, sendo-lhe reconhecida a possibilidade de recandidatar-se a novos mandatos, e no magnata norte-americano Mark Zuckerberg pela intrusão que os FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix, Google) têm nas nossas vidas e na forma como estão a mudar o mundo, certamente para pior.

 

 

Figuras internacionais de 2010: Angela Merkel e Julian Assange

Figura internacional de 2011: Angela Merkel 

Figura internacional de 2013: Papa Francisco

Figura internacional de 2014: Papa Francisco

Figuras internacionais de 2015: Angela Merkel e Aung San Suu Kyi

Figura internacional de 2016: Donald Trump

Figura internacional de 2017: Donald Trump

Figura nacional de 2018

Pedro Correia, 01.01.19

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JOANA MARQUES VIDAL

É consensual: a investigação criminal, com ela no vértice supremo do Ministério Público, deixou de olhar a ricos e poderosos, fingindo que os ilícitos não existiam. Há hoje a sensação generalizada de que não basta ser influente para escapar às malhas da justiça. E que terminou enfim a inércia no combate à corrupção, um dos cancros que corroem a democracia.

Isso deve-se, em boa parte, à orientação imprimida por esta jurista à frente da Procuradora-Geral da República durante os seis anos do seu mandato, concluído em Outubro de 2018. O Governo poderia ter proposto a sua recondução ao Presidente da República, a quem cabe nomear o titular máximo da acção penal, mas logo em Janeiro a ministra da Justiça, Francisca Van Dunen, deixava claro que isso não iria acontecer.

Joana Marques Vidal  sai, certamente com a sensação do dever cumprido, tendo sido substituída por Lucília Gago, uma das suas colaboradoras mais próximas. Na nossa tradicional escolha de fim de ano, os autores do DELITO DE OPINIÃO elegeram por maioria a procuradora-geral cessante como Figura Nacional de 2018, com 11 votos em 25 possíveis.

 

Na segunda posição, com seis votos, ficou o nosso eleito de há um ano: Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez não venceu, mas a justificação manteve-se inalterada: o Presidente da República distingue-se pela intervenção diária e constante como moderador na política portuguesa.

O terceiro lugar do nosso pódio, com quatro votos, é ocupado pelo ministro das Finanças. Mário Centeno foi outra figura em relevo ao longo de 2018, tanto pela sua estreia como presidente do Eurogrupo como por ter anunciado que Portugal está prestes a atingir o mais baixo défice nas contas públicas pela primeira vez em democracia: 0,2% do PIB.

 

Houve ainda dois votos em Cristina Ferreira, protagonista da mais cara transferência de sempre na televisão portuguesa ao passar da TVI para a SIC por valores que só costumamos ver ao nível dos clubes de futebol. E dois votos solitários. O primeiro em Ricardo Robles, o vereador do Bloco de Esquerda em Lisboa que se viu forçado a cessar estas funções quando se tornou público que praticava especulação imobiliária, contrariando o que defendia no seu discurso político. O segundo no eterno Pedro Santana Lopes, que renunciou à militância no PSD, onde se manteve filiado durante 40 anos, e em Outubro fundou a Aliança, que terá o primeiro teste eleitoral nas europeias de 26 de Maio.

 

Figura nacional de 2010: José Mourinho

Figura nacional de 2011: Vítor Gaspar

Figura nacional de 2013: Rui Moreira

Figura nacional de 2014: Carlos Alexandre

Figura nacional de 2015: António Costa

Figura nacional de 2016: António Guterres

  Figura nacional de 2017: Marcelo Rebelo de Sousa

Frase internacional de 2017

Pedro Correia, 12.01.18

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«Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em copos e mulheres e depois ir ter consigo a pedir-lhe ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu.»

Jeroen Dijsselbloem, 20 de Março

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

Donald Trump (Novembro)
 
  

.................................................................. 

 

Frase internacional de 2013: «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.» 

(Malala Yousafzai)

Frase internacional de 2014: «Somos todos americanos.»

(Barack Obama)

Frase internacional de 2015: «Je suis Charlie.»

(Lema parisiense, e mundial, após os atentados de Janeiro em Paris)

Frase internacional de 2016: «Vim aqui enterrar os restos da Guerra Fria nas Américas.»

(Barack Obama)

Frase nacional de 2017

Pedro Correia, 10.01.18

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«Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

António Costa, 13 de Dezembro

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

Capoulas Santos (Agosto)
 

 

Azeredo Lopes (Setembro)

 

«Sócrates usou um domingo para a licenciatura e um Domingos para o mestrado.»

João Miguel Tavares (Novembro)

 

António Lobo Antunes (Novembro)

 

.................................................................. 

 

Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Facto internacional de 2017

Pedro Correia, 09.01.18

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CRISE SEPARATISTA NA CATALUNHA

Catalunha dominou grande parte do ano informativo em termos internacionais, sobretudo a partir de Setembro, quando o Parlamento autonómico catalão aprovou a "lei da desconexão", com os votos favoráveis das forças separatistas regionais, num arco ideológico que ia da direita nacionalista à extrema-esquerda anticapitalista, apenas unidas na necessidade de acelerar o corte dos laços políticos com Madrid.

O processo desembocou na convocação de um referendo ilegal para validar o processo de independência unilateral, convocado pelos separatistas à margem da Constituição e contra o parecer expresso de todas as instituições do Estado espanhol - Rei, Governo, Senado, Câmara dos Deputados, Tribunal Constitucional e tribunal comuns. Realizada a 1 de Outubro, sem campanha eleitoral, sem cadernos eleitorais credíveis e sem mecanismos independentes de verificação dos resultados, a consulta não foi reconhecida pela comunidade internacional.

As semanas que se seguiram foram alucinantes: declaração unilateral da independência em Barcelona (10 de Outubro), logo seguida da suspensão dos efeitos do acto separatista, aprovação por ampla maioria no Senado espanhol do artigo 155.º da Constituição que revogou a autonomia, convocação de eleições antecipadas na Catalunha para 21 de Dezembro, fuga para Bruxelas do presidente cessante do Governo regional, Carlos Puigdemont, acusado - tal como outros ex-membros do executivo - de rebelião, sedição e peculato pela justiça espanhola.

As eleições de Dezembro deram pela primeira vez a vitória a uma força não-nacionalista, o Cidadãos. Os separatistas, sem maioria do voto popular, mantiveram no entanto a maioria dos lugares no Parlamento autonómico. Mas nenhum dos seus dirigentes máximos tem condições para formar Governo: Puigdemont, líder do Juntos Pela Catalunha, permanece refugiado na Bélgica e Oriol Junqueras, líder da Esquerda Republica, encontra-se detido às ordens da justiça espanhola.

 

A crise catalã, muito longe de estar resolvida, foi o acontecimento do ano para o DELITO DE OPINIÃO, merecendo 11 dos 21 votos referentes ao Facto Internacional de 2017.

Em segundo lugar, com seis votos, ficou o início da presidência Trump, outro dos factos mais relevantes do ano que passou em termos internacionais.

Registaram-se ainda votos isolados na fundação do movimento #metoo, no êxodo forçado do povo roínguia na Birmânia, no puritanismo macartista travestido de "progresso" e nos sinais de esperança na luta contra a corrupção, o nepotismo e o branqueamento de capitais.

Perspectivas plurais num mundo sempre turbulento.

 

Facto internacional de 2010: revelações da Wikileaks

Facto internacional de 2011: revoltas no mundo árabe

Facto internacional de 2013: guerra civil na Síria

Facto internacional de 2014: o terror do "Estado Islâmico"

Facto internacional de 2015: a crise dos refugiados

Facto internacional de 2016: Brexit 

 

Facto nacional de 2017

Pedro Correia, 08.01.18

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PORTUGAL A ARDER DE JUNHO A OUTUBRO

 

Não há memória de um incêndio tão mortífero. Os portugueses não esquecerão a tragédia de Pedrógão Grande, com as chamas a devorarem árvores, mato, casas, carros e lamentavelmente também pessoas a 17 de Junho. O balanço deste fogo florestal - que alastrou aos concelhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera - foi dantesco: 66 pessoas mortas, 254 feridas (muitas em estado grave), 150  famílias desalojadas e quase 50 mil hectares de floresta reduzidos a cinzas.

Portugal continuou em chamas. Em Julho já tinham ardido 118 mil hectares de área florestal e agrícola. Em zonas tão diferentes como  Alijó e MaçãoMértola e AbrantesCoimbra e Sertã. Uma situação de calamidade nacional, entre críticas generalizadas de falhas das comunicações e da protecção civil.

Os incêndios prosseguiram a sua acção devastadora no mês seguinte, confirmando 2017 como um dos piores de sempre em matéria de fogos florestais. Registaram-se 268 fogos num só dia, a 12 de Agosto. E este máximo foi superado no dia 20, quando houve 304 incêndios simultâneos.

Ainda traumatizado pelo drama de Pedrógão, o País viu-se confrontado com outra enorme tragédia, a 15 de Outubro, quando a área florestal de dezenas de concelhos do interior e até do litoral foi total ou parcialmente destruída pelas chamas. Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Braga, Aveiro e Guarda foram os distritos mais afectados pelos incêndios, que provocaram a morte de 45 pessoas, arrasaram empresas, pastos e áeas de cultivo, inutilizaram aldeias, cercaram cidades, calcinaram o pinhal de Leiria e deixaram um rasto de devastação com prejuízos ainda difíceis de contabilizar. Com ecos noticiosos em toda a imprensa internacional, até às mais recônditas regiões do globo.

No plano político, os fogos de Outubro levaram à tardia  demissão da ministra da Administração Interna e a um reajustamento no elenco governamental.

No total do ano, morreram 125 portugueses vítimas dos incêndios. Este foi, infelizmente, o Facto Nacional do Ano para o DELITO DE OPINIÃO, numa votação que congregou 22 dos 30 membros deste blogue.

 

Só três votos destoaram da linha dominante.

Um deles recaiu na Operação Marquês, enfim concluída a parte investigatória com acusações deduzidas ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, ao antigo banqueiro Ricardo Salgado e aos gestores Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, entre vários outros arguidos.

Outro voto realçou o facto de Portugal ter conseguido em 2017 o défice mais baixo em democracia, excedendo as previsões da Comissão Europeia e do próprio Governo.

Houve, finalmente, ainda um voto isolado na degradação do regime e das suas instituições. "Notório em tudo o que aconteceu na Administração Interna, na Protecção Civil, na Saúde, na Defesa, na Assembleia da República, nos factos constantes da Operação Marquês, nas nomeações para as empresas onde o Estado tem uma palavra a dizer, nalgumas sentenças e acórdãos judiciais, no desporto."

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol