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Cinemanias

por José Navarro de Andrade, em 21.04.16

O autorismo em cinema é conceito tão operacional e contemporâneo como a tecnologia usada para levar o homem à Lua. E, no entanto, persiste, como as pulgas no pêlo do cão. Agora deu-lhes - hossanas nos céus! - para esgravatar a boçalidade esteroidal de Verhoeven à cata de um "auteur" Força rapazes que ainda haveis de descobrir "diferância" em Harlan e rizomas em Pudovkin.

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Saul Bellow

por Patrícia Reis, em 11.06.15

Ontem, Saul Bellow, autor canadiano, vencedor de um Nobel da Literatura, teria feito 100 anos. Escreveu vários livros, muitos traduzidos em português. Para quem não leu, fica a dica e uma citação:

"Eu quero dizer-te, não te cases com o sofrimento. Algumas pessoas fazem-no. Casam-se com ele, dormem e comem juntos, como marido e mulher. Se se deixam levar pela alegria acham que é adultério."

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Excertos (20)

por Patrícia Reis, em 03.03.15

«Quando me dirigia para o autocarro, uma mulher de 30 anos magros e trigueiros, deteve‑me com esta pergunta, perto do Café Biarritz:
– Sabe‑me dizer onde fica a rua Alexandre Ferreira?
– No Lumiar, minha senhora.
– Mas disseram‑me que era aqui, em Alvalade.
– Não, não é.
Teimou, renitente:
– Mas disseram‑me que…
Como percebi que não estava disposta a acreditar em mim, com cara de mau informador, resolvi empregar um argumento decisivo:
– É que eu sou filho de Alexandre Ferreira.
– Oh! Que coincidência!... – exclamou a mulher, pasmada.
Acreditou logo, claro. E à despedida apertámos as mãos – ela vagamente vaidosa de conhecer o filho do nome de uma rua.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns VII - RASTO CINZENTO (11 de Junho)

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Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 03.01.15

A Isabel já o disse, mas não faz mal reafirmar: a falta que faz. Hoje faria anos. Resta-nos o que nos deixou.

 

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

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Excerto (18)

por Patrícia Reis, em 31.12.14

« Avançámos até ao fim da avenida e continuámos pela cidade velha. Demorei a encontrar a saída. À medida que avançava, o carro mergulhava num dédalo de ruas estreitas e sentidos únicos, onde cada opção parecia conduzir a um interior mais profundo, a uma rua ainda mais apertada, a um lugar mais distante de qualquer princípio de organização. O rapaz olhava alternadamente para mim e para as ruas que diante de nós se iam contraindo, com os muros cada vez mais colados às rodas do carro. Via-me prosseguir pelos empedrados, hesitar nos cruzamentos, continuar nos sentidos obrigatórios. Fixava o fim da rua, parecendo duvidar que o carro aí coubesse, voltava-se para mim. De um lado e do outro, paredes brancas, janelas com grades, portas fechadas. Levantava-se no banco e espreitava para trás, como se suspeitasse que a única saída viável fosse meter a marcha atrás e refazer, invertido, o percurso que ali nos conduzira. Metro a metro, centímetro a centímetro. Refazer o caminho, refazendo as dúvidas e as hesitações, e assumindo o erro de ter pretendido optar onde não havia opção. Tarde ou cedo acabaríamos numa rua barrada por um muro caiado. Continuámos ainda durante mais vinte minutos. Um percurso circular. Reconhecia as ruas, os edifícios, os empedrados. Por fim, ele sugeriu que deveríamos parar e perguntar a alguém. Respondi-lhe que não perguntava.
«Nunca.»
Acenou com a cabeça. Talvez compreendesse. Acelerei. Minutos depois acabámos por desembocar junto do rio, não muito longe da ponte romana. Nenhum de nós disse nada. Contornámos os bairros antigos e apanhámos as avenidas novas. Duas faixas em cada sentido.»

H.G. Cancela, Impunidade, Relógio d' Água, um grande livro de que a crítica não quis saber

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Excerto (17)

por Patrícia Reis, em 16.12.14

 "O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não estou a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta." (p.87)

 

Maria Manuel Viana, Teoria dos Limites, Teodolito

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Excerto (16)

por Patrícia Reis, em 01.10.14

Natália

Cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela professora Isabel da terceira classe era amarrado à volta dos olhos de uma menina, a cabra-cega, que ficava acocorada no centro de uma roda.

 

Cabra-cega, donde vens?

Venho da serra.

Que me trazes?

Trago bolinhos de canela.

Dá-me um!

Não dou.

Gulosa, gulosa, gulosa...

 

Era isto que repetia, incessantemente, o coro formado pelas crianças, numa lengalenga impiedosa, renovada até à exaustão, que acabava por fazer surgir as lágrimas, apenas ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

Rute Coelho, Gostas do que Vês?

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Excerto 15

por Patrícia Reis, em 30.09.14

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

 

Almeida Faria, Paixão

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Excerto 14

por Patrícia Reis, em 23.09.14


"O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. Uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta."

 

Maria Manuel Viana, A teoria dos limites

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Excerto (13)

por Patrícia Reis, em 13.09.14

"É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros..."

 

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'

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Excerto (12)

por Patrícia Reis, em 10.09.14

"Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo:

no seu corpo e fora dele, na cama e no varão da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; cancelando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude; atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma capacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir"

 

 

"Alguma esperança & Leite materno" de Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas, Sextante Editora

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H.G.Cancela

por Patrícia Reis, em 07.09.14

H.G.Cancela, blog contra mundum, escreve sobre a Literatura:

" Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.
No livro não cabem nem o som nem a memória íntima das palavras, o timbre que ecoa na consciência como correlato de uma voz que ultrapassa a possibilidade de qualquer fixação gráfica. Na literatura mal cabe a multiplicidade de registos nos quais o livro se desdobra.
Importa acreditar mais na literatura do que no livro. Na voz, no ritmo, no fio de consciência que se faz mundo. Importa acreditar mais nas palavras do que em qualquer suporte. Acreditar que literatura é uma forma de compreensão. Não uma explicação, uma compreensão. Interior e voluntariamente condicionada pelas suas próprias opções. Exigente e sem compromissos que não sejam o da sua estrita legibilidade."

 

Já leram os livros deste senhor? Se a resposta for não, lamento informar, mas estão atrasados:) Boa semana

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Excertos (11)

por Patrícia Reis, em 06.09.14

«Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer, aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser preciso como chaperon, aos domingos, era certo e sabido no Estrêla- Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné, repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático, chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada», e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar ao dia-a-dia onde não era poderoso nem herói. Nem sequer adulto, sim um garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos».

 

J. Rentes de Carvalho in Ernestina

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Excerto (10)

por Patrícia Reis, em 02.09.14

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Excerto (9)

por Patrícia Reis, em 30.08.14

 "Os porcos são um autêntico mistério, é o que é, disse. O que é que uma pessoa consegue saber sobre um porco? Não muito. Ando a guardar porcos desde os meus tempos de catraio e nunca consegui chegar a percebê-los muito bem. E não tenho dúvidas que outros como eu tiveram a mesma experiência. Um porco é um porco. Pura e simplesmente. E é mais ou menos tudo que se pode o se pode dizer sobre ele. E são espertos, não penses que não. Espertos comó diabo. E não te deixes enganar por um que não tenha a pata fendida, porque esse é tão endiabrado comós outros.
Acho que os porcos são porcos e pronto, comentou Holme."

 

Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy.

Excerto de um diálogo inesquecível entre um porqueiro e o Culla Holme.

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Excerto (8)

por Patrícia Reis, em 26.08.14

"Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.
Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós."

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe

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Excerto (7)

por Patrícia Reis, em 25.08.14

Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo: no seu corpo e fora dele, na cama e no varão
da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro
olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através
de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-
servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; can-
celando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude;
atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;
inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de
um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como
a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma ca-
pacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da
ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que
verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir

 

Edward St Aubyn in "Alguma esperança & Leite materno", tradução de Daniel Jonas, Sextante

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Excerto (5)

por Patrícia Reis, em 20.08.14

“A Perturbação, mas também o deslumbramento estremecido que me tomam ao ler cada um deles, deve-se não sei se à acutilante lucidez a que o seu pensamento conduz, agudizando-se em mim a consciência da minha atroz condição com um futuro eternamente adiado, se à aproximação já dos ventos de revolta que a Lua inevitavelmente arrasta consigo. Tendo como meta abrir no mundo portas e janelas de claridade, desse modo destruindo o antigo estado de negrume onde se encontram firmadas as raízes dos nossos antepassados.”

 

Maria Teresa Horta, “As Luzes de Leonor”

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Excertos (6)

por Patrícia Reis, em 20.08.14

A imprecisão sempre me irritou.
- Sim, mas eu disse-lhe que não fiz outra coisa senão pensar em si - respondi. Não me disse que pensou em mim.
Decorreu um instante. Por fim ela respondeu:
- Disse-lhe que pensei em tudo.
- Não deu pormenores.
- É que tudo é tão estranho, foi tão estanho...estou tão perturbada...Claro que pensei em si...
O meu coração bateu com força. Precisava de pormenores. O que me emociona são os pormenores, não as generalidades.

 

Ernesto Sabato in O Túnel,

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Excerto (3)

por Patrícia Reis, em 15.08.14

 

I

 

Da cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela Professora Isabel da terceira classe, era amarrado à volta dos olhos da cabra-cega-A vítima que ficava acocorada, com os olhos escondidos pelo tecido, no centro de uma roda de mãos das outras crianças.

 

 «Cabra-cega, donde vens?»

 

«Venho da Serra.»

 

 «O que me trazes?»

 

«Trago bolinhos de canela.»

 

 «Dá-me um!»

 

«Não dou.»

 

“Gulosa, gulosa, gulosa...”

Repetia, incessante, o coro formado pelas crianças, numa lenga-lenga impiedosa renovada até à exaustão das lágrimas que acabavam por surgir ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

A Cabra-Cega levantava-se.

Se agarrasse alguém, todos se calavam. O pátio ficava mudo, os corpos pequenos permaneciam, por instantes, apenas por instantes, imóveis. Depois a Cabra-Cega para se libertar da sua condição precisava de adivinhar quem tinha conseguido aprisionar com as suas mãos miudinhas. Apalpando com os dedos, entre risos e cócega lá tentava adivinhar quem era o apanhado. Se acertasse, a venda mudaria de olhos.

 

Gostas do que vês?, Rute Coelho

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