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Livros que inspiram viagens (3)

por Paulo Sousa, em 05.01.20

Na sequência da rubrica anterior sobre livros que inspiram viagens, este poderia ter exactamente o título inverso. O livro que hoje vos falo, para quem o quiser ou conseguir ler até ao fim, desincentiva a viagem. Quem no seu perfeito juízo depois de ler Se isto é um homem de Primo Levi deseja visitar Auschwitz? Eu só li o livro depois da segunda visita.

Visitei este campo de extermínio a primeira vez em 1993 durante um InterRail. Dessa vez e ao contrário do que aconteceu há poucos meses atrás, não me precavi com uma carapaça de insensibilidade necessária para sair de lá a conseguir planear o dia seguinte. Não que o Holocausto nazi fosse em abstrato novidade para mim, mas em concreto pisar o mesmo chão do que os mais de um milhão de vitimas do ódio nazi acertou-me em cheio. Fiquei arrasado.

Não vale a pena repetir a ladainha habitual do maior crime contra a humanidade, ou do horror perante o que o homem é capaz de fazer ao homem ou ainda da privação absoluta da dignidade do ser humano. O que mais impressiona é o rigor e precisão com que tudo foi planeado, organizado, anotado e fotografado.

Registo de memória a imensidão de uma sala com o chão coberto com armações de óculos retirados aos prisioneiros, outra com fardos empilhados até ao tecto de cabelo que era vendido ao quilo para a industria têxtil ou ainda as várias centenas de metros de inúmeros corredores forrados com fotografias, tiradas em três ângulos, no registo meticuloso de cada vitima. Nesta segunda vez reparei nas fotos de duas gémeas, numeradas em sequência, que segundo o registo foram assassinadas com um mês e meio de diferença.

Primo Levi descreve-nos como com o frio, a fome e os espancamentos arbitrários lhe foi retirada a capacidade de se sentir um ser humano.

 

É homem quem mata, é homem quem faz ou sofre injustiças; não é homem quem, perdida qualquer vergonha, divide a cama com um cadáver. Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem qualquer culpa própria, mais afastado do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais selvagem ou o sádico mais atroz.”

 

Apesar de todo o terror que encerra, Auschwitz deve ser visitado. Infelizmente não foi o último campo de extermínio da história, mas quantos mais de nós o visitarmos, mais distante estará o dia em que algo idêntico possa voltar a acontecer. E esse é o apelo de Primo Levi:

 

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos

(…)

Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 07.08.16

«Um dos livros que mais me marcaram foi Se Isto é Um Homem, do escritor/químico Primo Levi. Como ninguém ele descreve o horror vivido na primeira pessoa em Auschwitz-Birkenau e mais tarde em Treblinka.
Esta parte da história sempre me fascinou, e no curso de Ciências da Religião abordei-a no sentido de como a Fé e a Esperança se mantêm num lugar de morte e horror constante e permanente.
"Descobri" que o ser humano, sendo dotado de Sopro Divino, RUAH, é capaz de aguentar todo o tipo de provações e privações.
Exemplo clamoroso é o de Raimundo Kolbe ou São Maximiliano Maria Kolbe.
Nome que diz muito a quem conhece a liturgia cristã católica.»

 

Do nosso leitor Nobre. A propósito deste texto do Alexandre Guerra.

Memória

por Alexandre Guerra, em 02.08.16

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Um "lugar de horror", foi desta forma que o Papa Francisco qualificou os antigos campos de concentração Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, que este fim-de-semana visitou no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventudade que decorreram em Cracóvia. O Papa caminhou sozinho, rezou, reflectiu em recolhimento e nada disse durante a visita. Limitou-se a escrever no livro de honra do Museu de Auschwitz (um excelente museu, a propósito) o seguinte: “Senhor, tem piedade do teu povo. Senhor, perdoa tanta crueldade”. Antes, num gesto de enorme simbolismo, tinha colocado uma lamparina com uma chama junto ao Muro da Morte no Auschwitz I, local onde eram fuzilados os judeus condenados à morte. Visitou ainda a cela de Maximiliano Kolbe, um nome que pouco dirá aos portugueses, mas que na Polónia é venerado e adorado, sendo possível encontrar a sua fotografia em quase todas as igrejas daquele país. Kolbe foi um frade franciscano que se voluntariou junto dos guardas de Auschwitz para sacrificar a sua vida pela de um sargento do exército polaco, que também ali estava preso e que tinha sido condenado à morte. O frade franciscano tinha-se emocionado ao ouvir o choro do sargento, desesperado com o que iria acontecer à sua mulher e filhos. Kolbe falou com os guardas que aceitaram a sua oferta e acabaria por vir a morrer na sua cela à fome. A mesma cela em que o Papa Francisco rezou.

 

Auschwitz faz parte da memória histórica colectiva e é ainda para muitos uma horrorosa lembrança, que os afectou de forma directa, sejam antigos prisioneiros ou descendentes directos de quem lá esteve e não resistiu. Quando Steven Spielberg realizou o filme A Lista de Schindler, em 1993, estava a prestar uma homenagem emotiva aos seis milhões de judeus que perderam a vida no Holocausto (este número tem sido motivo de acesa discussão entre historiadores), mas também estava a despertar consciências (ou a relembrá-las) para uma realidade específica daquele genocídio, que se viveu nos campos de concentração de Auschwitz (eram três), no sul da Polónia. As célebres imagens recriadas por Spielberg, também ele judeu, em que se vêem comboios compostos por vagões apinhados de judeus a chegarem a Auschwitz II-Birkenau, veio relançar o interesse do público por aqueles acontecimentos dramáticos da História recente da Humanidade.

 

O campo de Auschwitz II-Birkenau, que ficou genericamente conhecido por Auschwitz, o campo de extermínio, era o maior e o único que tinha acesso ferroviário, no entanto, havia mais dois campos, o Auschwitz I e o Auschwitz III - Monowitz. Em Birkenau terão sido mortos cerca de um milhão de judeus e ciganos (também aqui não há consenso quanto ao número), embora, tenha sido no primeiro campo que começaram as experiências de extermínio numa câmara de gás construída propositadamente para o efeito, com o respectivo crematório anexado.

 

Sensivelmente três anos após a libertação dos campos de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, as autoridades polacas decidiram fazer um museu e um memorial de homenagem às vítimas, que engloba Auschwitz I e Birkenau e, por isso, é denominado de Auschwitz-Birkenau. Este complexo foi considerado Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, sendo que em Birkenau houve maior dificuldade em restaurar os edifícios originais (devido aos materiais de que eram feitos) do que no complexo de Auschwitz I (ambos estão separados por apenas 3 km) que, para quem já teve o privilégio de visitar, apresenta um bom, mas arrepiante, estado de conservação. 

 

Ao cruzar-se o portão de entrada de Auschwitz I (onde a dimensão da tragédia não foi tão massiva, estimando-se que ali tenham sido exterminados 60 mil judeus) tem-se sobre a cabeça a célebre frase forjada a metal: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"). Lá dentro, o visitante é confrontado com uma realidade física impressionante, onde tudo parece estar como era dantes. Aliás, fazendo-se uma comparação do que se vê hoje em dia com os registos fotográficos da época, percebe-se como Auschwitz I mantém praticamente intacto o seu espaço. O Muro da Morte onde eram feitos os fuzilamentos, as celas do Bloco 11, o Bloco 10 onde se faziam as experiências médicas, tudo está lá, igual. Ainda mais impressionante é visitar a única câmara de gás existente naquele campo, que foi a primeira a ser construída a título experimental. Birkenau viria depois a acentuar o extermínio dos judeus com as outras câmaras (em Birkenau restam apenas algumas ruínas).

 

No que diz respeito à preservação da memória histórica das milhares de pessoas que ali pereceram nas mãos do regime nazi, nada é tão chocante como entrar numa sala de um dos blocos de Auschwtiz preparada para o efeito museológico e ver uma vitrine com cerca de 30 metros cheia até cima de cabelo humano, cortado aos prisioneiros antes de irem para a câmara de gás. Noutro espaço pode-se ver ainda pertences pessoais, como roupa, óculos e outro tipo de objectos e utensílios. Muito perturbador. 

 

Embora Auschwitz I não tenha tido a dimensão trágica de Auschwitz II-Birkenau, como objecto histórico é provável que ofereça uma perspectiva mais cruel e realista do que aconteceu, atendendo ao seu estado de conservação é à forma como está organizado em termos museológicos. Por outro lado, Birkenau oferece aquela vista aterradora que Spielberg projectou no cinema, do caminho de ferro a entrar directamente nas portas daquele campo, e imagina-se o que terá sido aqueles comboios a conduzir milhares de pessoas literalmente para a morte. Por isso mesmo, os responsáveis do Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau aconselham que os visitantes conheçam os dois campos para melhor compreenderem a dimensão de toda a tragédia.

 

Faz por estes dias 21 anos que visitei Auschwitz I, num dia cinzento, que mais parecia de Outono. No entanto, estava nas minhas férias de Verão, ainda jovem, prestes a entrar no curso de Relações Internacionais, movido pela paixão que me suscitava (e suscita) essa disciplina. Apesar de chegar àquele local já com algum conhecimento sobre as atrocidades ali cometidas, percebi de imediato que nada é comparável ao exercício empírico na reconstrução dos factos in loco. Uma experiência enriquecedora e sobretudo inesquecível.

 

Texto adaptado à versão original publicada aqui a 21 de Agosto de 2015.


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