Astérix na Lusitânia

Nós leitores há cinquenta anos que estamos órfãos de Goscinny. A morte - injusta de precoce, cruel de inesperada - do pai René foi-nos tão traumática que nos tornou ingratos. E passámos a tratar o extremoso pai Albert como se este mero tio Uderzo - resmungando nós que se com este nada nos faltava à mesa ainda assim ele não nos dava o carinho, a “joie de vivre”, do qual o pai René fora tão pródigo. E depois continuámos a recusar-nos a crescer, a ascender à adultice. Nisso, acoitados nesta família de acolhimento sempre criticámos, rebeldes, serôdios “problem children”, o gentil casal Ferri-Conrad. Mais ainda, até, após o seu divórcio, com este novo casamento do esforçado Senhor Conrad.
É evidente que há sequelas fajutas - Corto era Pratt, e morreu mesmo... E a profusão de “novidades” Blake & Mortimer torna aquilo pechisbeque (Schuiten fez um belo álbum, mas porque foi Schuiten, recusou “jacobinar-se”). Mas Goscinny preparou-nos para a vida, avisando que “Je ne suis pas Madame Bovarix!” - moldado que fora na Argentina e nos EUA, onde por regra os heróis da banda desenhada não tinham “dono-autor”. Pouco importou pois, distraídos, nisso insistimos, mimados contraditórios. Por um lado, crentes na patranha de que Clemenceau ou Churchill ou qualquer outro desses, havia dito que “quem não é socialista aos 20 anos não tem coração…”, recusamos a continuidade da série, vêmo-la como a via da meretriz Empresa, da busca do vil Lucro, arruamos avenidas abaixo em nome do “primado da Arte”. Mas, por outro lado, não arredamos pé, na ânsia do novo álbum, dos “irredutíveis (reconfortantes) gauleses”. Para depois a cada novidade criticarmos, deseducados.
Por isso tantos destes “Astérix na Lusitânia? Ah, lê-se, mas não é como os antigos…”, ladainha constante, nisso do “dantes é que era bom”. Que seja constatação, mas não desilusão! Acorri a comprá-lo, à hora de abertura da livraria do bairro logo no primeiro dia. Para de imediato encontrar vários sorridentes com o livro debaixo do braço - mesmo no comboio. É óbvio, este Astérix é global, apetecido, amado: o Astérix, o Gaulês teve uma tiragem inicial de 6000, o A Volta à Gália teve 60 000, o Astérix e Cleópatra (a reboque de Hollywood) de 100 000. Sessenta anos depois, com tudo o que mudou no consumo de livros, este Astérix na Lusitânia teve 5 milhões na primeira fornalha … Dantes é que era bom? E quantos dos que agora compram a novidade irão comprar os “antigos”? E quantos os irão reler? Revivê-los? Assim reviver?
Astérix é global. Foi dito reaccionário - gaulista também -, xenófobo. Racista até - Goscinny irava-se, descendente de polacos judeus, fugidos e vítimas dos pogroms sucessivos. Nacionalista - rir-se-iam disso os seus pais-autores, filhos dos tais polacos e de italianos. Michel Serres - talvez por ser tintinófilo militante, justiça lhe seja feita - disparatou que ali havia “nazismo”, devido à tendência para a bordoada e o uso do “doping”. Ou seja, este afã de “cancelamento” não é de agora, desde sempre que acompanhou as aventuras destes gauleses.
Mas Astérix é global. Assim cresceu e ficou. Porque, ao contrário dos críticos, é inteligente. Ele e os seus turbulentos vizinhos camaradas. Por isso herói alegre e nisso cómico, portanto complexo. Brinca-se com os estereótipos. Ou seja, com os pré-conceitos, não vistos como desvalorizadores mas como itens típicos, reconhecíveis, factos de distinção. Matéria única de reconhecimento, de pensamento. E joga-se com os anacronismos, colocando os problemas de hoje num “irredutível” passado, assim demonstrando-os, evidenciando-os aos distraídos de hoje.
Agora, finalmente (!), na 41ª aventura vem à Lusitânia. Alguns dizem que pouco a esmiúça. Sim, de facto apenas a Gália é vasculhada ao longo da série, numa glosa dos manuais escolares e patrióticos de então. Tenho cá em casa, herdado, o Le Tour de France par Deux Enfants, de G. Bruno (1913), depósito do que fora a visão da França (Gália) querida como verdadeira. Algures li que foi matéria-prima para o A Volta à Gália e tantos outros álbuns. Mas para nenhuma das outras excursões internacionais teve Astérix tantos guias Michelin (ou Lonely Planet) …



Do Astérix na Lusitânia já todos saberão da história. Chamados - como tantas vezes - para acudir contra um poder discricionário, Astérix, Obélix e Ideafix (demasiado secundário nesta aventura), aportam às Azenhas do Mar.

Obélix terá os seus recorrentes problemas de dieta, devido à omnipresença do bacalhau. Mas apreciará os pastéis de nata - e assim sendo é lamentável que Álvaro Santos Pereira não surja na festa na galera romana, entre os poderosos, seria uma boa homenagem... Insurgir-se-á ainda contra a delapidação pétrea dos nossos artífices, dados à calçada portuguesa. E apreciará os nossos excêntricos vinhos, uma “lança na Gália”, tão xenófobos vinícolas continuam a ser os gauleses. A actualidade impõe-se, na crítica contra os capitalistas omnívoros, corruptores - de facto - dos Estados. E, hélas, na canelada à espécie de “coletismo amarelo” surgindo nos afinal simpáticos turistas franceses, histéricos quanto às respectivas reformas… A trama também se adequa, centrada na exportação de … conservas portuguesas - a salmoura garo (que surge intraduzida, por razões que desconheço).
E os Lusitanos? Tipificados, claro, com o anacronismo devido. Sem regionalismos - como aconteceu no Astérix na Hispânia, por exemplo, completamente andaluz… Vigora o turismo, a omnipresente quinquilharia, a calçada portuguesa. E a melancolia, junto ao fado, esses pressupostos tão exportados que até julgamos serem nossos. O Estado (Novo) padronizou o fado o mais-que-pôde, embrulhou-o como canção de “alma triste”, contestou o vadio desgarrado, gentrificou-o. Entretanto um conjunto de poetas burgueses trinou a “saudade” e quejandas coisas, dizendo-as “Portugal”. Depois, o nosso actual regime panteonizou as generalizações “psicossociológicas” de Eduardo Lourenço. E assim vemo-nos e exportamo-nos como tristes… Os outros acreditam. Até nós o fazemos, como se de chapéu retorcido na mão diante desses doutos “senhores doutores”.
Enfim, o Pai René não está lá? Sim, eu já sabia disso. O Pai Albert também não? Sim, soube-o há pouco, ele também partiu. Em suma, gostei imenso do livro, que me importa se o desenho não tenha a densidade, espessura, do “antigo”, que Goscinny não brinque sobre nós? Pois ali é o meu mundo, a minha vida. A minha meninice?, sim, mas acima de tudo a minha felicidade. E logo fui reler os antigos, como sempre, como sempre…

Do que não gostei? Do português do Astérix na Lusitânia. Não por preciosismo linguístico. Há a questão de fundo, a malvada e disparatada tradução dos nomes das personagens, algo que a editora decidiu há anos e que é sinal de menoridade intelectual - os editores nem percebem que não estão a publicar para petizes, a necessitarem de traduções de nomes para se aproximarem das personagens.
Mas neste caso é pior. Pois o corpo do texto é violado. Diz-se sempre traduttore, traditore mas isso é um extremismo, até falacioso. A correspondência total é sempre impossível. Mas a lealdade para com o texto é um valor fundamental, e permite a fidelidade para com o sentido. Ao invés aqui aconteceu mesmo uma tradução que atraiçoa. Pois enfatiza os estereótipos usados pelos autores: basta isto, as personagens não se chamam Saudade, nem Tristês, nem Sacanês. Quem canta não é Amália, nem entoa a “Estranha Forma de Vida”. E a aldeia lusitana nada tem a ver com o manguito do Zé Povinho (nada melancólico, diga-se). E este enfatizar, esta manipulação através dos (significantes) nomes apostos à revelia, é uma traição. Aos nossos “irredutíveis gauleses”.
Em suma, “estes tradutores são loucos”…
(Também no meu "O Pimentel")




