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A rábula

por jpt, em 25.10.19

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A rábula na Assembleia da República mostra mesmo o estado da criatura do eixo Barnabé/Jugular: está deslumbrada. Vai ser uma orgia demagoga. Ao princípio divertirá os beatos daquela sacristia. Depois até a esses cansará. Entretanto estes joanasamaraisdias distribuirão alguns financiamentos. E aparecerão na tv.

O deputado da chiclete

por jpt, em 19.07.19

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Quando critico o pessoal político muitos reagem, invectivando-me de "ressentido", "neoliberal" ou, agora, "populista", enfim afascistando-me . Gostaria de saber se esta minha crítica merecerá essa definição:

O Presidente da República convida os parlamentares para um jantar, por ocasião do fim da legislatura. Todos os partidos se apresentam, uns deputados com vestes mais formais outros menos. Mas é um jantar com o PR, no desempenho de funções. Vejam no filme, a partir dos 59 segundos: antes da refeição, perfilando-se entre os presentes, ladeando a veterana comunista Heloísa Apolónia, está um deputado, que desconheço - não sei nem nome nem partido, nunca lhe vira a cara. Está, vejam bem, a mascar pastilha elástica, de boca aberta. E um ar algo embrutecido, claro.

Sumarizo: um jantar formal, o PR convida os parlamentares para celebrar uma legislatura, convoca a imprensa para assinalar a função. E um dos deputados vai para ali a mascar a chiclete.

Isto é um descalabro total. Onde encontram esta gente?

Adenda: um leitor avisou-me, o deputado morcão é Andrê Silva, o do PAN ...

Uma desgraça nunca vem só

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.19

Compreende-se que deslocando-se a Macau e à China a convite do Embaixador da RPC em Portugal, a delegação parlamentar portuguesa chefiada pelo deputado Sérgio Sousa Pinto, presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas na AR, esteja limitada nas declarações que faz. Aliás, seria tão incompreensível que fossem deselegantes para com quem os convidou como que para o agradecimento tivessem de repetir a anterior distribuição de lambidelas.

Mas, convenhamos, dizer que o que se está a passar em Hong Kong com as leis da extradição não é preocupação da Assembleia da República, sendo preocupação dos parceiros europeus de Portugal, do Parlamento Europeu e dos portugueses, que ainda são, que aqui vivem, e ao mesmo tempo, e na posição em que está, vir discutir com a Secretária para a Administração e Justiça questões relativas ao protocolo entre a Ordem dos Advogados e a AAM, é não ter a mínima noção das prioridades. Nem dos dislates.

Com tanta coisa importante e a preocupar quem cá vive, até parece que esse seria assunto para os fulanos tratarem com a Dra. Sónia Chan.

Já não bastava José Luís Carneiro não ler jornais, e ter dito que nenhum português lhe fez chegar quaisquer preocupações sobre a eventual aprovação de uma lei de extradição, o que era mentira, como agora temos os assalariados parlamentares, dependentes profissionais dos compadrios da paupérrima política nacional, a colocarem-se na posição habitual dos meias-lecas de cada vez que saem em excursão para fora da pátria.

É o que dá andarem a ouvir quem não devem, sem se informarem convenientemente, antes de botarem discurso. Há mais mundo para fora das irmandades e confrarias habituais.

Greta Thunberg na Assembleia da República

por Cristina Torrão, em 25.05.19

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Imagem daqui

 

Depois de o meu colega de blogue jpt ter publicado este excelente texto sobre Greta Thunberg, hesitei em publicar o meu. Mas já o tinha alinhavado, desde que a decisão de convidar a activista sueca a discursar na Assembleia da República causou reacções indignadas nas redes sociais, e resolvi avançar.

Sabemos que a maior parte das crianças crescem super-protegidas e super-vigiadas, até se criou a expressão “pais-helicópteros” para designar os progenitores que constantemente “voam” à volta dos seus rebentos, não lhes permitindo um momento livre e/ou sem ser planeado. Há uma preocupação constante de afastar as crianças de tudo o que seja problema, polémica, ou má notícia. Não são introduzidas nas tarefas domésticas, tudo lhes cai sobre a mesa, como por milagre, as roupas aparecem lavadas nos armários, como por mão de fada invisível. São postas em colégios privados, para e de onde são transportadas de carro, e, chegadas a casa, aterram no sofá, onde se ocupam com os seus telemóveis ou a televisão. Passeios de fim-de-semana? Só se for no Centro Comercial. Quantas crianças tiveram já oportunidade de criarem os seus próprios passatempos, brincadeiras e brinquedos? Quantos adolescentes já deram passeios de quilómetros pela Natureza? Quantos foram sensibilizados para os problemas da pobreza, da discriminação e da solidão? Pais e sociedade queixam-se de que os jovens são preguiçosos, sem interesse por nada, nem sequer empatia pelo sofrimento alheio. Porque será?

Perante este cenário, como não admirar uma activista como Greta Thunberg? Eu admiro, acima de tudo, a sua coragem. Quantas miúdas de quinze anos se atreveriam a faltar às aulas para se plantarem em frente do Parlamento, com cartazes a exigir uma melhor política ambiental? Foi assim que ela começou.

Podem dizer-me que a maior parte dos que participam nas suas manifestações o fazem apenas para faltar à escola. Também me podem dizer que gritam pelo ambiente e contra as alterações climáticas, fazendo, eles próprios, uma vida consumista e sem abdicar dos seus confortos. Ora, este movimento é precisamente a melhor oportunidade para eles tomarem consciência do que se passa e mostrarem aos pais que a vida de todos tem de mudar. É uma boa oportunidade de mostrarem que, por mais boas intenções que os pais tivessem, ao poupá-los ao lado menos bom da vida, cometeram um erro. É nosso dever ouvir a sua voz e reflectir sobre o que os preocupa.

Há uns anos, a activista paquistanesa Malala Yousafzai ganhou a admiração e o respeito da civilização ocidental. Tinha quinze anos, quando sofreu o atentado, dezasseis (a idade de Greta Thunberg), quando discursou na Assembleia da ONU, dezassete, quando foi agraciada com o Nobel da Paz (como co-premiada). Porque se fala agora de infantilização do mundo, em relação à jovem sueca? Por ela dizer o que vai mal na nossa civilização, enquanto Malala Yousafzai atacava os “trogloditas muçulmanos”? É sempre mais fácil arranjar culpados exteriores a nós.

Considero a acção da jovem sueca tão importante como a da paquistanesa. «A nossa casa está a arder», disse Greta Thunberg, na reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça. Chernobyl e Fukushima mostraram-nos que andamos realmente a brincar com o fogo. O trânsito insuportável nas grandes cidades e nas auto-estradas europeias mostram-nos que estamos a ir na direcção errada (todos os dias há engarrafamentos de dezenas, ou mesmo centenas, de quilómetros nas auto-estradas alemãs). Os voos baratos empestam o céu, assim como os cruzeiros empestam os mares e o ar que respiramos (nas suas deslocações europeias, Greta Thunberg viaja sempre de comboio, por ser um meio de transporte muito menos poluente que o avião). A nossa avidez por carne cada vez mais barata criou uma indústria desumana, em que pessoas trabalham em condições esclavagistas e em que animais deixaram de ser seres vivos para serem objectos que se podem manipular a nosso bel-prazer e em que a Natureza é destruída, a fim de produzir soja para os alimentar (cerca de 79% da soja no mundo é esmagada para fazer ração animal; é, por isso, desonesto dizer que são os vegetarianos/vegan os responsáveis pela destruição da floresta sul-americana, mesmo que todos eles consumissem soja, o que não acontece).

É uma ilusão acreditarmos que podemos dominar a Natureza, ou utilizá-la a nosso bel-prazer. A única hipótese que temos é de cooperar com ela. Na minha opinião, Greta Thunberg merece ser ouvida na Assembleia da República, quanto mais não seja, para que sirva de exemplo aos nossos preguiçosos e mimados jovens. Ela mostra-lhes que há problemas graves no mundo e que urge levantarem-se do sofá, adquirirem personalidade e tomarem posição. Ela mostra-lhes que é o futuro dos filhos e dos netos deles que está em causa. Ela mostra-lhes que a vida deles não consiste apenas na satisfação dos seus desejos, com fadas que tratam de tudo o que implique trabalho.

Ela mostra-lhes que vale a pena ter ideais.

“Não acredites em quem te diga que não podes mudar nada / Eles têm apenas medo da mudança.

A culpa não é tua de o mundo ser como é / Só seria tua culpa se ele assim ficasse”.

(excerto da letra de uma canção dos Die Ärzte, banda alemã; tradução minha, original em baixo):

 

Glaub keinem, der Dir sagt, dass Du nichts verändern kannst

Die, die das behaupten, haben nur vor der Veränderung Angst.

Es ist nicht Deine Schuld, dass die Welt ist, wie sie ist

Es wär nur Deine Schuld, wenn sie so bleibt.

O Hemiciclo Preparatório

por Rui Rocha, em 07.01.19

Certo. Devemos aos gregos a semente da democracia e às democracias liberais a ideia de que a uma pessoa corresponde um voto. Mas foi preciso chegarmos à segunda década do século XXI depois de Cristo para encontrarmos um verdadeiro salto em frente na prática da democracia representativa. E desta vez não é à Grécia ou às Ilhas Britânicas que ficamos a dever este feito extraordinário. É verdade. Foi mesmo aqui em Portugal que um grupo de valorosos parlamentares trouxe a um mundo embasbacado o princípio “um deputado, várias passwords, diversos votos”. É claro que, como sempre acontece, estas ideias revolucionárias enfrentam enorme resistência. E mais uma vez aí os temos, os do costume, a pôr em causa a bondade deste avanço civilizacional. Se virmos bem, são os mesmos que se insurgem contra a falsificação de assinaturas ou a venda da Torre de Belém a incautos, os que põem em causa os benefícios das pulseiras do equilíbrio e do Cogumelo do Tempo, os que gozam com a homeopatia, os que duvidam dos mails do Príncipe da Nigéria, os que esboçam um trejeito de desdém quando vem à baila o último acto altruísta do José Paulo Pinto de Sousa a favor do seu primo Zé Sócrates, os que fazem galhofa sempre que se refere a Ericeira, os que não resistem a um trocadilho estafado sempre que se fala em robalos. É sempre assim. Por incrível que pareça, ainda há por aí gentinha que não acha piada a vigarices. Mais. É bem provável que estes acabem por triunfar, que a tacanhez prevaleça. Vamos lá ver. O que é normal é uma pessoa esquecer-se da sua própria password. Vais ao Multibanco e tungas. De um momento para outro, aquele código que sabias de cor há mais de 20 anos varreu-se. Ou tentas aceder ao gmail e tufa. Será que a tua password era abcdefgh ou era isto em maiúsculas? Ou seria 123456789? De um momento para o outro, não sabes. Esforças-te, puxas pela cabeça, ficas com suores frios, mas nada, népias, nickles. E da outra vez foi a tentar fazer login no Facebook, não foi? Pois foi. Isto é mesmo assim. O ser humano está “programado” para, mais tarde ou mais cedo, em geral mais cedo do que tarde, esquecer-se da sua própria password. Mas há deputados, verdadeiramente sobredotados, passe o pleonasmo, que não só sabem o seu código de login como ainda se lembram do de vários colegas do Parlamento. É verdadeiramente assombroso. Tão assombroso que o mais certo é mesmo, como dizíamos, que a inveja venha a prevalecer, impedindo a Humanidade de chegar mais cedo ao futuro, derrotando esses portentos capazes de votar uns pelos outros. Agora, se tiver de ser assim, e por certo será, se o imobilismo tiver de prevalecer, e por certo terá, que tudo isto se faça ao menos de forma adequada. Há quem tente paralisar a façanha preconizando um sistema de reconhecimento da íris? Há. Mas, a íris é a parte mais visível (e colorida) do olho dos vertebrados, sendo esta uma condição que a maior parte dos deputados já perdeu há muito tempo, pelo que o método é, a bem dizer, inviável. A verdade é que se o que se pretende, vá lá saber-se porquê, é garantir que os nossos eleitos estão mesmo presentes, o melhor mesmo é o Dr. Ferro fazer a chamada. Deputado Carlos César? O deputado Carlos César pediu para informar que foi aos CTT levantar a duplicação do subsídio de viagens aos Açores e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Fertuzinhos? A deputada Fertuzinhos pediu para avisar que apanhou trânsito à saída da sua residência em Guimarães e que vai chegar um bocadinho mais tarde, Senhor Presidente. Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira? Deputada Isabel Moreira, eu estou a vê-la aí a pintar as unhas, importa-se de responder à chamada? Presente, Senhor Presidente. Ai, senhora deputada, senhora deputada, se continuar assim desatenta vou ter de chamar cá o seu paizinho outra vez. Deputado Duarte Marques? Presente vírgula Senhor vírgula Presidente. Deputado Silvano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Cerqueira, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Silvano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Silvano está ou não, deputada Cerqueira? O deputado Silvano está neste momento a tomar um banho de ética, Senhor Presidente. Demora muito? Demorará, Senhor Presidente, uma vez que a sujidade estava muito entranhada. Hmmm. Deputado Feliciano? Presente, Senhor Presidente. Deputada Maria das Mercês, escusa de fazer voz grossa para fazer-se passar pelo deputado Feliciano que eu vejo-a bem daqui. Peço desculpa, Senhor Presidente. O deputado Feliciano está ou não, deputada Maria das Mercês? O deputado Feliciano está neste momento a tomar banho com o deputado Silvano, Senhor Presidente. O ponto é este: a introdução do método de chamada, ademais de garantir a presença dos deputados, já que assim tem de ser, tomará tanto tempo que os impedirá de legislar, circunstância que só poderá reverter a benefício da Nação. Para além disso, é completamente adequado ao estádio médio de desenvolvimento de boa parte dos eleitos parlamentares que estará em linha com o da garotada que frequenta a escola primária ou, nos casos mais favoráveis, o ciclo. Nada melhor, portanto, que transformar a Assembleia da República numa espécie de hemiciclo preparatório com chamadas, faltas de material e recados nas cadernetas dirigidos aos encarregados de educação.

 

* publicado na edição de Dezembro do Dia 15.

Sopesar os pesares

por jpt, em 20.03.18

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Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No "dia da Paz" em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.  

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto ...) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou sej, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada ("brutalmente assassinada" é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o "pesar". Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas "campanhas de pacificação"? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário "one-drop" a afirmarem "negra" ("preta", no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao "correctismo", mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita "lusofonia", que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

Situação política

por Tiago Mota Saraiva, em 06.12.15

Foi particularmente interessante assistir aos debates parlamentares que decorreram durante a semana.
A maioria que sustentou o actual governo demonstra estar tranquila com a sua diversidade. Um governo do PS, uma maioria de esquerda à qual só faltará juntar um presidente de esquerda - mas esta questão fica para outros escritos.
A posição conjunta entre PS e BE, PCP e PEV é um bom ponto de partida que parece ser simpático para todos. Ainda assim, muitos desafios terão pela frente. Ao contrário do que a trupe de comentadores que se repete nas TV's, demasiado ocupados a papaguear questões financeiras, o grande engulho para a maioria parlamentar não será o orçamento ou o défice mas, muito provavelmente, as eleições autárquicas - caso não sejam preparadas em conjunto (que não quer dizer em coligação) e com tempo.
Ao invés, PSD e CDS, estão em processo de auto-flagelação. A tese da ilegitimidade e o ataque de carácter a Costa tem eco na população. O problema é que não se consegue resistir quatro anos a dizê-lo. O pico máximo de popularidade dessa tese ocorreu no dia em que foi declarada pela primeira vez. A partir daí só perde simpatizantes. Mais dia menos dia o PSD deverá ir para Congresso. Fora do poder, com um Passos Coelho radicalmente contra o governo de Costa e, muito provavelmente, com algumas das suas medidas sob investigação (política e judicial) surgirá, certamente, um candidato que procure retomar as pontes ao centro porque isso significa mais votos e muitos lugares na administração pública, mesmo com um governo do PS. Para já o CDS parece-me imprevisível. Veremos se os próximos tempos ajudarão a clarificar-se.

O Grande Irmão partidário

por Ana Vidal, em 17.01.14

 

Notável o que se passou hoje na Assembleia da República: a votação para a realização de um referendo (adopção e co-adopção por casais do mesmo sexo) levantou um mar de "declarações de voto" de deputados obrigados ao absurdo da disciplina de voto, sobretudo numa matéria que é nitidamente de consciência individual. Esta é uma das razões, talvez a mais importante de todas, por que eu jamais me filiaria num partido. Não admito que pensem por mim.

Aplaudir é tranquilo

por André Couto, em 08.11.13

Diz o artigo 16.º 1 q), do Regimento da Assembleia da República, sobre as competências do seu Presidente, que compete ao titular deste cargo "manter a ordem e a disciplina, bem como a segurança da Assembleia, podendo para isso  requisitar  e  usar  os  meios  necessários  e  tomar  as  medidas que  entender convenientes". Quando, nos últimos tempos, alguém apupa uma intervenção de um membro do Governo, as galerias são imediatamente evacuadas, escorraçando-se o Povo da sua Casa, como se de cães se tratassem. Já hoje, quando um conjunto de polícias aplaudiram o Ministro da Administração Interna, nada aconteceu. Aplaudir é tranquilo, é um balão de oxigénio para os carbonizados pulmões do Governo. Já apupar, ou grandolar, é chato, abre telejornais, e desgasta. (E não, não me interessa que não fosse Assunção Cristas a presidir aos trabalhos, naquele momento.) Assim se trabalha na Casa da Democracia.


PS. É giro ver que a reacção dos polícias foi um momento de aplauso do populismo, porque o Orçamento de Estado para 2014 aumenta os cortes e nada muda no estatuto desta classe. Os próprios dirigentes sindicais esclareceram, no fim, que aquele aplauso havia sido uma espécie de equívoco... 

Os foguetes e as canas

por Rui Rocha, em 14.06.13

Enquanto três milhões de portugueses batem diariamente com os ossos contra o limiar de pobreza, os excelentíssimos senhores deputados não se deixam perturbar e continuam a sua jornada, intransigentes na defesa dos interesses colectivos, sempre atentos aos assuntos prioritários da nação.

 

A 12 de Junho, por exemplo, foi publicada em Diário da República uma resolução em que recomendam ao Governo o estudo e a tomada de medidas específicas de apoio à sustentabilidade e valorização da actividade das empresas itinerantes de diversão.

 

Faz muito sentido. Tristezas não pagam dívidas e, na impossibilidade de os próprios deputados se deslocarem por esse Portugal fora para animarem o povo com gingajogas e números de trapézio e de malabarismo (meu Deus, o que eu não pagava para ver o Galamba a tirar notas de euro da cartola e o Abreu Amorim a engolir fogo em plena Feira do Cavalo de Ponte do Lima), pois que pelo menos não faltem carrosséis e carrinhos de choque sustentáveis, já seja em Linhares da Beira ou em Trancoso.

 

Todavia, e isto também se percebe, deve existir um certo equilíbrio entre coisas sérias e regabofe. Compreende-se, por isso, que os incansáveis tenham aprovado hoje legislação que proíbe a utilização de artigos de pirotecnia em reuniões ou manifestações cívicas ou políticas. É, reconheça-se, uma decisão corajosa. Os deputados sabem melhor do que ninguém que, se retiramos o foguetório e o fogo preso aos comícios, não sobra lá grande coisa.

 

Mas, como diz o outro, em tempos de guerra não se limpam armas. E, se devem ir-se os anéis, que fiquem ao menos os dedos. Nas manifestações políticas (não falo já das cívicas, porque em verdade creio que as não temos), não se podem, a partir de agora, deitar foguetes. Não se proíbe, todavia, que continuem a atirar-se aos sete ventos toda a sorte de promessas eleitorais. E se é verdade que, e passo a transcrever, fica interdita "a distribuição de potes de fumo", nada impede, ao que parece, que continuem a distribuir-se outro tipo de potes.

E depois dizem que não querem ser tratados assim

por José Navarro de Andrade, em 26.08.12

Um das expressões mais bizarras do léxico português é o substantivo plural “políticos”, quase sempre acompanhado pelo artigo definido, pronunciado com inflexão e acinte – “os políticos”.

É uma estranha palavra porque indiferencia uma ampla e heterogénea colecção de objectos, abrangendo na mesma penada os deputados Ribeiro e Castro e Mariana Aiveca, que nada têm em comum, e é incapaz de distinguir entre o sr. Luís Montenegro, prestimoso líder da bancada do PSD, e o sr. Sérgio Azevedo, por exemplo, importante figura do PSD da freguesia do Sacramento (624 eleitores) e de resumidíssima intervenção parlamentar. Um substantivo que se aplica tanto a um Presidente de Junta de Freguesia como ao Presidente da República, deve faltar-lhe alguma qualidade.

E no entanto a expressão “os políticos” costuma fazer todo o sentido na linguagem comum. Porquê? Será porque as pessoas são grosseiras, incultas e pouco dextras com a língua? Ou será porque há qualquer coisa muito nítida que atravessa todos “os políticos” que permite reduzi-los à indiferenciação?

Por exemplo: no dia 29 de Junho a Assembleia da República (AR) votou por unanimidade a transmissão do Canal Parlamento na TDT. Disto pode-se retirar uma importante conclusão: a AR, na abstracção jurídica representante da nação, na prática representa tão somente os interesses corporativos dos seus ocupantes – precisamente “os políticos”.

Tal como os rios, a atmosfera, ou a orla marítima, as frequências televisivas e radiofónicas são considerados bens comuns, pelo que se diz que devem estar sob a alçada do Estado. Este só as cede à prática de terceiros, mediante minuciosa e cuidadosa legislação, concurso público e caderno de encargos. Ora, quando a AR toma a TDT como propriedade sua e não do Estado e delibera o usufruto próprio de uma frequência de TDT, fora das condições que impõe ao resto da sociedade, ela está a ser autocrática, conveniente e irresponsável. Havendo unanimidade nesta votação, só demonstra que os deputados, ou por ignorância ou por má-fé, agiram como uma corporação, ou seja, mesquinhamente em busca da satisfação dos seus interesses particulares.

Assim sendo, a expressão “os políticos” é estúpida, mas, talvez por isso mesmo, faz todo o sentido.

Uma dúvida que me apoquenta

por Rui Rocha, em 13.07.12

Atendendo à composição da Assembleia da República, o que ali se debate é o estado da Nação ou o estado do mação?

Excepção ao aforismo

por Ana Lima, em 22.06.11

Apesar de não conhecer o trabalho da nova presidente da AR, para além do que se tem lido e ouvido durante o dia de hoje, é caso para dizer que, neste caso , a acreditar no que se tem dito, foi muito melhor a emenda que o soneto...

O PS e a pescada fresca

por João Carvalho, em 21.04.10

É muito interessante verificar, no final de cada audiência da comissão parlamentar de inquérito sobre o caso PT/TVI, o modo como o porta-voz ad-hoc de cada partido dá conta aos repórteres do respectivo resultado. Fazem-me lembrar um taxista que costumava dizer-me que só há duas marcas de carros: os Mercedes e os outros.

A verdade é que o PS sai invariavelmente esclarecido e fresco de cada audiência, sem indiciar a necessidade de ir além por um qualquer caminho. Já os restantes partidos, esclarecidos ou não, dão conta das dúvidas suscitadas e manifestam sempre que os dados obtidos apontam para que se prossiga no apuramento dos factos por esta ou por aquela via.

Como um Parlamento, uma comissão parlamentar de inquérito e os parlamentares só podem ser sérios, é evidente que jamais passaria pela cabeça dos deputados socialistas dificultar um inquérito parlamentar desconfortável para o primeiro-ministro. O que acontece é que o próprio primeiro-ministro, diga-se dele o que se disser, é um político cheio de sorte, por ser também secretário-geral do partido mais esclarecido de todos — tão esclarecido que nem precisa de esclarecimentos. O PS é como a pescada, que "antes de o ser já o era".

A não ser que o PS seja como aquele soldado que marchava numa parada e que era o único que ia com o passo certo, quando todos os outros marchavam com o passo trocado. Nesse caso, nós é que ficamos esclarecidos. Que é como quem diz: já pescámos a coisa. E o peixe é do graúdo.

Pague-se

por João Carvalho, em 21.04.10

«Parlamento vai pagar viagens de Inês de Medeiros a Paris». A Paris e de Paris, suponho. Mais ajudas de custo.

Mas não é preciso entrar em pormenores, porque estou em condições de dizer que a Assembleia da República não vai pagar nada disso. Nós é que vamos.

Diz-se cada coisa

por João Carvalho, em 08.02.10

A vida pública caiu tão fundo que tudo o que se ponha a circular já ninguém estranha: rapidamente se propaga e logo começa a constar como verdade. Vejam bem que várias pessoas, em poucos dias, me fizeram chegar que há uma deputada pelo PS que, por ter residência em Paris, não só recebe passagens aéreas de ida-e-volta uma vez por semana como ainda anda a receber ajudas de custo diárias da Assembleia da República. Diz-se cada coisa por aí.

Uma iniciativa de mestre

por João Carvalho, em 05.11.09

A partir desta legislatura, acabaram-se os desdobramentos dos bilhetes de avião e a acumulação de créditos de milhas aéreas para os deputados, por proposta do presidente da Assembleia da República apresentada em conferência de líderes e aprovada por unanimidade. Quer isto dizer que é posto cobro ao hábito de trocar uma passagem aérea em classe executiva por duas em classe turística, para que o beneficiário que se deslocava em serviço pudesse viajar acompanhado, e que o crédito por milhas percorridas deixa de ser uma mordomia para quem não suporta o custo da deslocação.

Com esta louvável iniciativa, Jaime Gama contribuiu para que o comportamento dos parlamentares se torne mais escorreito, em matéria de utilização de dinheiros públicos, e legitimou o apelo que fez de seguida, ao exortar os restantes órgãos de soberania, todos os serviços da administração pública e as empresas públicas a adoptarem o mesmo procedimento.

De repente, com uma medida simples, aqueles casos lamentáveis das "viagens-fantasmas", dos "deputados-batmen" e coisas assim, passados ainda há poucos anos, ficaram a anos-luz desta nova prática. E a ocasião foi de mestre: no início da legislatura e perante os líderes parlamentares, alguém iria opor-se?

Deus Pinheiro

por Jorge Assunção, em 16.10.09

Um não caso transformado em grande caso pelos que querem correr com Ferreira Leite da liderança do PSD. Tem um valor simbólico negativo? Certamente. Mas, objectivamente, qual é a diferença entre ter lá Deus Pinheiro ou Pedro Rodrigues? Nenhuma. Votei em Bacelar Gouveia quando decidi votar PSD aqui no Algarve? Obviamente que não. Ficaria muito incomodado se Bacelar Gouveia renunciasse ao mandato? Não, ficaria até agradado.

 

Estabeleçam círculos uninominais, deixemos de ter (na sua maioria) ovelhas na Assembleia da República, e depois logo falamos sobre questões relativas aos deputados como se fossem um assunto político muito sério neste país.

 

Adenda: Com este post não pretendo de forma alguma minimizar ou enquadrar a atitude de Manuel Pinho. O seu gesto é a todos os níveis condenável e injustificável. Não há pressão, conjuntura ou diálogo que justifiquem aquela atitude rude na Casa da Democracia. Manuel Pinho soube-o logo melhor do que ninguém e teve uma atitude digna demitindo-se.

Aqui quero apenas frisar que quem tenha protegido o deputado do PSD carece de legitimidade para criticar Manuel Pinho. Tão só.


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