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Delito de Opinião

Pintores sem prazo de validade

Pedro Correia, 02.07.24

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Os Mosaicos de Cluny, serigrafia de Manuel Cargaleiro (1992) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O'Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, João Abel Manta (96 anos), Arnulf Rainer (94 anos), Jasper Johns (94 anos) e Frank Auerbach (93 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que Manuel Cargaleiro morreu a 30 de Junho, em total serenidade, «como se tivesse adormecido» para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Art Basel Hong Kong 2024

Sérgio de Almeida Correia, 04.04.24

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Durante três dias, o Hong Kong Convention and Exhibition Centre foi invadido por mais de 75 mil pessoas que ao longo de horas, e algumas em mais do que um dia, percorreram aquela que é seguramente uma das mais importantes feiras de arte do mundo e a primeira da Ásia.

Não sendo um evento para todos, dir-se-ia, todavia, ser um acontecimento cada vez mais popular numa terra em que as mais recentes e recorrentes preocupações das suas gentes estão mais em saber até quando e em que termos será mantido o estatuto internacional de sua cidade face à novel e draconiana lei de segurança nacional. Até que ponto tudo o que é exibido, promovido e vendido é compatível com a governança patriótica e o espartilho da censura?

Não foi por isso, que dez anos volvidos, e passados que foram os dias negros da pandemia da Covid-19, que a Art Basel deixou de regressar àquela que já foi uma das mais belas, esplendorosas e apetecíveis cidades do mundo e que hoje não passa de uma sombra do que foi. Por momentos tornou-se possível voltar a viver dentro das paredes da feira de um clima de liberdade, tolerância e glamour que rareia em cada dia que passa.

As 242 galerias, de cerca de 40 países, que se predispuseram a comparecer, e onde não faltou uma pequena presença portuguesa, juntando o que de melhor se pode encontrar em Nova Iorque, Paris, Londres, Los Angeles, Berlim, Tóquio, Seul, Pequim, São Paulo, Bruxelas, Milão, Florença, Xangai, Madrid, Buenos Aires, Roma, Chicago, Munique, Genebra, Singapura, Viena, Zurique ou Dubai, entre outras cidades, com a sua indiscutível reputação no mundo da arte e a qualidade do que trouxeram, conferiram ao evento uma dimensão pré-covidiana que a muitos terá feito esquecer, por momentos, os tempos difíceis que se viveram na cidade nos últimos anos e que, em alguns aspectos, se continuam, e continuarão, a viver.

Apesar disso, foi possível ver obras que em Macau seriam certamente censuradas e escondidas dos olhos do público, ou confiscadas de alguns expositores, e que não deixariam de o ser por estarem assinadas pelos mais consagrados dos melhores.

E porque não há uma grande feira sem grandes negócios, também este ano houve obras que atingiram valores, significativos para alguns coleccionadores, astronómicos para o comum dos mortais.

Para se ter uma ideia do que foi negociado bastará referir que, por exemplo, a galeria Hauser & Wirth, no primeiro dia reservado a “VIP’s”, vendeu Untitled III (1986), de Willem de Kooning, por (valores em USD) 9 milhões, The Desire (1978), de Philip Guston por 8,5 milhões, e May the Lord be the first one in the car...and the last out, de Mark Bradford, uma obra de 2023, por 3,5 milhões. Outra galeria vendeu Constructed Female Portrait (2024), de George Condo, por 2 milhões, e Victoria Miro “despachou” 3 obras da japonesa Yayoi Kusama pela módica quantia de 11 milhões. Mas centenas, talvez mihares, terão sido transaccionadas por valores bem inferiores, mas sempre na ordem dos cinco e seis dígitos.

Dividida em seis sectores – Galerias, Insigths, Discoveries, Encounters, Kabinett e Magazines –, ocupando dois pisos, incluiu a exibição de 33 filmes de e sobre artistas e duas apresentações especiais no Teatro 2. O curador do programa dos filmes foi o produtor e artista multimedia Li Zhenhua. 

Entre os principais patrocinadores da Art Basel Hong Kong 2024 surgiram nomes como UBS, Audemars Piguet, Ruinart, San Lorenzo, La Prairie, Chubb e Swire, entre outros menores como BMW, Macallan ou The Peninsula.

Para quem não é coleccionador, não tem uns milhares para gastar em arte, e se limita ao deleite de ver, aprender e interrogar-se sobre o mundo em que vivemos e o que está exposto; por vezes também sobre o que se vê circular entre espaços, a Art Basel Hong Kong 2024 valeu bem a visita.

Até pela simples razão, quanto mais não fosse, de que pode não voltar a haver mais nenhuma oportunidade para se comprar um livro de Ai Wei Wei, na banca da Taschen, sem se estar a infringir a lei.

 

Na venda de uma escultura de Shikhani

jpt, 06.01.24

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Nenhuma descrição de foto disponível.

Shikani, Sem Título, Dimensões - 76 x 28 x 15 cm (ligação para o leilão desta obra na Cabral Moncada)

Não me venho armar em parvo... apenas partilho a constatação, própria mas também alheia, de que se na vida algo aprendi uma das temáticas em que isso aconteceu foi a arte moçambicana. É normal, durante alguns anos fui responsável por centros culturais, organizei imensas exposições, olhei catálogos - e muito mais folhas de sala ou desdobráveis. Falei com os veteranos da matéria. Conheci inúmeros artistas, com alguns fiz amizade. Participei em vários júris de selecção e premiação. E, mais divertido, organizei várias (e tão saudosas) passeatas - nas quais grupos de admiradores percorriam ateliers no grande Maputo, vendo e (muito) comprando.

Também escrevi, um pouco, sem ademanes. Lembro os textos mais "sonantes", entre outros, quando os "mais-novos" (da minha geração, entenda-se) que introduziram a Arte Contemporânea no país fizeram Bienal Internacional e me convocaram para escrever no catálogo ("Conversar o MUVART"). E depois me fizeram curador de uma outra dessas bienais. Mais, como memória muito, imensamente, honrosa guardo que - mesmo sendo eu estrangeiro - quando morreu o ícone da moçambicanidade que o grande Malangatana foi, o FUNDAC (de facto, o organismo actuante do Ministério da Cultura) me encarregou de escrever a sua proclamação fúnebre: "Malangatana". E participando eu - e, repito, sendo estrangeiro - no júri de selecção para o prémio de "Consagração" (qua Figura Artística Nacional) que o atribuiu à também tão simbólica escultora Reinata Sadimba, fui incumbido do texto justificativo: "Reinata Sadimba, prémio FUNDAC".

Nesse cadinho de opiniões, explícitas e implícitas, nunca escondi as minhas preferências entre os artistas nacionais. Ídasse, meu enorme amigo, verdadeiro mano. Sobre o qual escrevi, breve, quando aconteceram "Os 60 anos de Ídasse", já eu dele longe, aqui na minha "Pátria Amada". Ele, Ídasse, que foi o único que deixei que me pagasse comissões - pois mano mesmo - sobre o fruto das caravanas de endinheirados que lhe levava a casa, pois lembro de umas moelas no bairro de Benfica, e algumas 2Ms nas barracas ali ao seu Jardim.

E, ainda acima, o grande Mestre Shikhani. Sobre este apenas deixei o meu lamento fúnebre "Neste Ano Após-Shikhani". Onde deixei a razão do meu encanto pelo meu artista moçambicano preferido. Nada extrovertido, mergulhado na sua arte e nos seus, Shikhani foi (e é) muito menos (re)conhecido do que o mereceu. Também por isso me lembro do meu espanto quando, de visita a Lisboa, vi um cartaz da ARCO de Madrid (talvez em 2002, não sei) em que a imagem era uma obra do mais-velho Shikhani... Isso também a demonstrar que alguém nele atentara e o retirara do estereótipo de "arte africana" e quejandos...

Shikhani era único. Neste meu breve texto lembro uma das vezes que entrei sua casa adentro. E ele depois de nos mostrar inúmeras pinturas foi buscar algumas das suas últimas esculturas - e raras, pois deixara de esculpir ("já não tenho força", disse naquela sua voz cava terna). Fiquei absorto, de encantado. Comprei uma, pelo preço que pediu - claro, nunca regateei com artistas e muito menos o faria diante de alguém daquela dimensão. 1000 dólares, nada demais pois naquela época eu podia e o mais-velho merecia muito mais.

A vida decorreu. Agora, 25 anos já passados, vendo algumas obras, entre as quais esta minha escultura de Shikhani. Porquê, se tanto a gaba?, perguntarão. "Vão-se os anéis e ficam os dedos", diz o sábio povo, esse que tudo sabe. Que se vão os dedos e fiquem os cotos, acrescento eu, agora. Vendo esta minha escultura de Shikhani. Sei que se o fizesse em Moçambique, até pelo seu valor identitário, nacional, isso seria fácil, e bem paga - porventura seria ela suficiente para resolver o problema que me assombra.

Mas, enfim, estou na minha "Pátria Amada", o apelo por este artista é diferente, reduzido mesmo. Entreguei a obra (e outras) a uma leiloeira. Avaliou-a pelo preço facial que eu paguei há 25 anos... E colocou-a agora à venda, apenas durante a primeira semana do ano (que me parece um infausto momento para vender arte...). 


Shikhani não foi "típico", nem fez "arte tribal" - aquela que os "cultos" europeus ainda julgam exsudar algo de "genuíno". Nem deixou "sunsets" ou casuarinas recortando o horizonte. Ou a denúncia de algo explícito... Foi Shikhani. Deixou Shikhani!

Enfim, se alguém se puder e quiser interessar, ainda tem três dias para comprar esta peça que eu digo um... mundo. Ou, pelo menos, poderá avisar outrem que conheça que se possa interessar. (E para isso bastará partilhar/reenviar este meu postal, o que eu agradecerei).

O Podcast Mudo (3): adenda a Malangatana

jpt, 08.01.23

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Reincido sobre o mais-velho Malangatana pois tendo eu botado uma memória que dele retenho logo ontem uma minha amiga-FB teve a gentileza de me narrar o seu episódio com o Mestre. Breve história mas tão dele denotativa. E também sintomática de outros tempos (felizmente) passados:

Naquele 1971 (sim, 1971...) a minha correspondente embarcara na Portela de Sacavém no avião da TAP que faria a ligação Lisboa-Lourenço Marques. Ainda imobilizados na placa foi sondada em surdina pela hospedeira: uma qualquer passageira - "senhora" dir-se-ia naquele tempo mas não agora - reclamara-se incomodada por seguir ao lado daqueloutro viajante, cujas características somáticas lhe desagradavam. E por isso lhe perguntava se se importaria ela de uma discreta troca de lugares, assim ombreando ao longo do voo com o tal indivíduo, algo a que ela se aprestou sem delongas - e nisto não posso deixar de presumir que a hospedeira tenha exercido o seu experimentado olhar clínico sobre a mole de passageiros, em busca de alguém menos rústico. "Sorte a minha" diz-me ela agora, pois durante o longo trajecto aéreo - presumo que naquela época ainda com escalas - o homem se apresentou, disse do que vinha e nisso se gerou convívio. Era o Malangatana, claro, regressando a casa após a estada em Lisboa financiada pela Gulbenkian - apesar de já ter passado anos na temível prisão da Machava (padecimento que veio a ilustrar) e de nesse mesmo ano ter sido outra vez preso. Ao fim daquela continuada conversa, já em Mavalane, a jovem recebeu este presente - um gesto que nós podemos adivinhar inscrito no continuado "charme" que Malangatana exalava mas também, é evidente, como um carinho à jovem pelo seu acto de ali ombrear, mostrando-se avessa à pestífera arrogância que ainda grassava entre tantos dos seus compatriotas. Deixou-lhe assim este agrado, o "sim meu irmão porque a voz difusa [da] criança é uma flor na boca do nosso dia a dia, 24.9. 71", que seria emoldurado logo que chegado a casa.

Décadas passaram e o então já consagrado Malangatana veio expôr ao Casino Estoril. "Morava perto e fui vê-la. Discretamente meti na sacola o quadrinho. Diante dele, discretamente mostrei-lho. Que alegria!, dizendo-me "Mas tu guardaste isto quando eu ainda não era conhecido?"..., sua tão típica reacção que se pode imaginar, até ver e escutar. 

Sorrio com o pequeno episódio e peço autorização para o divulgar, ao que Nené Barbosa logo tem a amabilidade de aceder. Escrevo o postal e deito-me, ainda cedo. Acordo, insone num qual breu mas estremunhado para ler as coisas demasiado densas que me rodeiam. Assim agarro na tabuleta e revejo o episódio sobre Wiriyamu (e não só) da excelente série "A Guerra" que Joaquim Furtado realizou há uma década, algo que vinha adiando há alguns meses. E venho a ter o prazer de rever o bom do padre Zé Luzia - que há anos raspei em Lisboa mas com o qual não privo desde a sua estada em Angoche... - ali entrevistado. E também Malangatana, num breve aparição neste episódio, centrado nas sevícias prisionais sofridas.  E acalenta-me esta "dose dupla" dele...

Depois, na alvorada, café e cigarro(s) havidos regresso à "primeira forma", volto a resmungar. Com este centramento actual em Wiriyamu, o massacre, a alusão a alguns outros massacres, as "desculpas" apresentadas ou a apresentar. Sem rodeios, este tipo de discursos sobre os "massacres" (que trazem implícita mas indita a definição quantitativa e qualitativa do que é um "massacre"), é apenas eco das nossas sensibilidades actuais, prontas a horropilarem-se com desmandos havidos. 

Não sou pacifista, julgo que há guerras justas e/ou necessárias, sendo defensivas ou  mesmo preventivas (e esta última é uma tese complicada de defender). E muitas das guerras são justificáveis no seu a posteriori - vamos encerrar-nos na avaliação da pertinência moral das Guerras Púnicas, da conquista da Gália?  E nisso temos a tendência para contextualizar o passado longínquo, isentando-o do crivo moralista, mas de julgarmos o passado recente. Ora as guerras têm um contexto histórico e a sua justificação passa muito pela sua adequação às ideias vigentes, por serem contemporâneas de si mesmas. E, de facto, as guerras coloniais portuguesas - as três guerras de independência africanas - não têm essa justificação. Eram, foram, anacrónicas. Injustas por isso. E ao dedicarmo-nos às desculpas por "excessos" militares ou policiais, aos "desmandos", às específicas violações dos "direitos humanos" ou da "convenção de Genebra", poderemos aliviar as consciências, as tais sensibilidades horripiladas. Mas ao centrarmo-nos nesses episódios estamos, de facto, a caucionar o geral da guerra, aquilo que seguia segundo os compêndios. Ora o que é de "lamentar" (o que não é "pedir desculpa") são as três guerras. E não os massacres.

Mas isso é muito mais difícil. Pois muito mais radical. E também não dá para grandes slogans... Até porque, honestamente, já passou meio século. É tempo de ombrearmos, nos aviões e alhures.

O Podcast Mudo (2): Malangatana

jpt, 05.01.23

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Leio, em postal de um seu familiar, que passam hoje 12 anos desde que Malangatana morreu. E estanco, recordando-o. E fico a sorrir, cálido. Presumo, sei, que quem não o tenha conhecido, ou só o conheça pela arte, não apreenda isto, o de que ele foi um homem espantoso, Enorme, multifacetado, vulcânico, delicioso, inebriante... Também algo contraditório, como o são os Homens que o são. Acima de tudo uma energia criativa de dadivosa que parecia inesgotável. Tornada uma alegria de viver, mas sumamente consciente.
 
No cadinho de memórias que sobre ele logo me surgem recupero agora algumas. Esta, a de um divertido jantar lá em casa (ainda na Engels), em que após um dia muito cansativo o mais-velho levou com o meu pedido, "mestre, ponha lá um autógrafo", que ficou este que reproduzo, no livro que a Caminho/Ndjira lhe dedicara - numa pequena colecção de álbuns que o atento Zeferino Coelho dedicou à arte em Moçambique -, que fora organizado pelo bom do Júlio Navarro, seu tão companheiro, homem peculiar, dito irascível mas que era, de facto, a bondade e a gentileza personalizadas em formato rude de carinhoso.
 
Eu e a Inês tínhamos casado (em Lisboa) pouco antes e no regresso a Maputo fizemos uma festa porreira na Costa do Sol, lá numa casa muito precária do Fernando Veloso, a celebrar isso. O mais-velho, com um sorriso do tamanho do amor, disse-me "vou-vos dar um quadro, tens de lá ir buscar". E eu, depois quantas vezes ido lá a casa no "Aeroporto" e à de Matalana, nunca tive a "lata", o atrevimento, de lhe pedir o tal quadro, sempre me deixando maravilhado diante da desarrumada colecção de obras e mergulhado nas conversas infindas...
 
Já cá, há 2 ou 3 anos a minha filha foi a uma festa a casa de um amigo e enviou-me um SMS dizendo-me, entusiasmada, "o pai dele tem um Malangatana" e eu respondi-lhe com uma fotografia, ela sorridente aos 3/4 anos ao colo do mais-velho em Matalana, ladeando o meu mano Ídasse e sua filha Noma, estava ele a fazer um mural em casa-própria. A legenda foi qualquer coisa como "este é o nosso Malangatana". E é. O alento da memória...
 
Quando morreu o Mestre, figura-mor da pátria moçambicana, o FUNDAC, organismo estatal da cultura, pediu-me/encarregou-me de escrever o breve texto alusivo ao momento. Atrapalhado botei o que pude, coisa pouca para tão necessária homenagem (Malangatana). Mas percebendo, estrangeiro, que foi aquele o momento mais honroso que tive em Moçambique. Digo-o, ainda hoje disso vaidoso. E imensamente saudoso. Pois que grande Malangatana foi Malangatana.

Uma obra maior

Paulo Sousa, 06.12.22

Não sei quantas vezes já vi cada um dos filmes da trilogia O Padrinho. Mesmo assim, de cada vez que ali regresso, continuo a conseguir deliciar-me com mais um detalhe. Por vezes encontro um novo, de que nunca tinha notado e vão sendo cada vez mais difíceis de encontrar, outras vezes são apenas um daqueles muitos que preenchem toda a história da família Corleone.

O primeiro filme desta triologia foi lançado em Março de 1972, o que faz deste clássico um belo cinquentão. Há dias revi novamente umas passagens.

Depois de ter assassinado Sollozo e McCluskey num restaurante em Nova Iorque, Michael Corleone (Al Pacino), esconde-se na Sicília profunda. Durante um bucólico passeio a pé até à vila de Corleone, que casualmente lhe deu o nome, Michael conhece a que virá a ser a sua primeira esposa, Apollonia, representada pela lindíssima Simonetta Stefanelli. Tudo isto acontece sob segurança permanente garantida por dois tipos armados de caçadeira.

Toda a sequência é maravilhosa. A música criada por Nino Rota para este trecho é de uma beleza superior.

A cena passa-se no Verão. Numa estrada poeirenta, uns soldados americanos dentro duns Jeep Willys, passam sem parar pelo trio composto de Michael e os seus dois capangas. Estamos no pós-guerra e os americanos são os novos amigos de Itália. Um dos seguranças de Michael acena grita inocentemente para lhes chamar a atenção.

- Take me to América, G.I., hey, hey hey, take me to América, G.I. Clark Gable, Rita Heyworth…

Perante a total indiferença destes, desabafa com um:

- Mannaggia miseria!

Pouco depois, cruzam-se com um grupo de mulheres, onde se destaca Apollonia. Ela e Michael olham-se nos olhos e ele fica como que, nas palavras do seu guarda-costas, “atingido por meteorito”. Mesmo avisado que as mulheres sicilianas são mais perigosas que espingardas, o filho do mafoso novaiorquino não esmoreçe, e o espectador entende que a história não vai ficar por ali.

Para se refrescar, o trio continua a pé até uma tasca ali próxima, o Bar Vitelli. Com tanto calor, um dos seguranças transporta a caçadeira ao ombro enquanto arrasta pelo chão um saco de tiracolo. Ouvem-se uns cães a ladrar à distância e o espectador sente o vento quente que varre a sombra garantida por um toldo ao lado da entrada da tasca. Ao vê-los chegar, o dono do estabelecimento grita para o interior para que tragam vinho para estes clientes. A sonoridade musical da língua italiana dá cor a toda a cena.

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Cena de O Padrinho 1

Depois de elogiar a beleza das mulheres daquela terra (di questo paese)  o trio fica a saber que a Apollonia é filha do dono da tasca. Ele que começa por reagir ofendido pelos comentários que lhes tinha ouvido antes, mas acaba por aceitar o respeitoso pedido de Michael, de poder conhecer e namorar Apollonia.

Após uma breve passagem por um almoço de domingo, onde o endinheirado americano distribui prendas para todos, tudo fica bem encaminhado e, pouco depois, lá vai o par de namorados, num passeio a pé, por um caminho empoeirado. Uns instantes depois vemos que são vigiados de perto por um grupo de mulheres da aldeia. E poucos metros atrás de todos, seguem os capangas de caçadeira em riste.

Adorei fazer este postal. Obrigou-me a ver este excerto três ou quatro vezes.

Arte, museus e boas surpresas

Ana CB, 18.07.22

Quando eu era miúda, de vez em quando a minha mãe gostava de pegar em mim e na minha irmã ao domingo e levar-nos a visitar um museu de Lisboa, ou um palácio ou monumento. Vivíamos nos arredores da cidade e ela nunca tirou a carta de condução, por isso a saída implicava uma viagem mais ou menos longa em transportes públicos, mas nada que a desencorajasse. O meu pai, que conduzia mas se apartava voluntariamente destas excursões – não sei se por razões de trabalho, de falta de vontade, ou porque as suas preferências se inclinavam mais para areia e mar – tinha no escritório os dois magníficos volumes de “As Maravilhas Artísticas do Mundo” do Ferreira de Castro (que nós só tínhamos o direito de abrir sob estrita supervisão parental), mas reservava as visitas a museus para quando viajávamos. Foi ele que nos levou pela primeira vez ao Louvre e ao Museu Britânico, teria eu uns 12 ou 13 anos, apesar de no ano anterior ter ignorado o MoMA em Nova Iorque. Na verdade, o interesse dos meus pais pelos museus tinha menos a ver com o gosto pela arte em geral do que com o prazer de observarem “coisas bonitas”, e a sua noção de beleza restringia-se ao que fosse classicamente identificável, melhor ainda se tivesse ouro ou prata à mistura. Estando as raízes de um e de outro em famílias humildes de origem rural, já era bastante disruptor o facto de os seus interesses incluírem a literatura e as artes plásticas, e na verdade foi suficiente para criarem nas filhas o gosto e um interesse mais alargado pelas artes.

 

Procurei replicar depois com o meu filho aquilo que os meus pais tinham feito comigo e a minha irmã, talvez ainda de forma mais exagerada e com algum sacrifício da parte dele. Nos episódios mais memoráveis está uma visita guiada ao Palácio de Mafra em que ele, com ano e meio de idade e se calhar já aborrecido de marchar (literalmente!) por tanto corredor interminável, decidiu fugir do grupo e atirou-se em corrida contra uma das estantes da famosa biblioteca; e uma incursão ao Louvre quando tinha cinco anos, no final de um dia em que já tínhamos percorrido um exagerado número de quilómetros a pé, em que aproveitou cada banco em cada sala para se sentar, sem um queixume, enquanto os seus impassíveis pais paravam a observar mais um quadro, mais uma escultura, mais um objecto. Apesar destes maus-tratos, creio que não ficou traumatizado, e ter escolhido para curso universitário precisamente uma área artística parece-me ser disso uma prova.

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Museu do Louvre, Paris

 

Da minha mãe também herdei algum jeito para o desenho, e até chegar ao ciclo preparatório dizia que queria ser pintora. Claro que para os meus pais isso não preconizava um futuro bem sucedido, e a pouco e pouco lá conseguiram orientar-me para outra área que eu também apreciava e prometia ser mais rentável O êxito dos seus esforços foi apenas parcial, e à medida que fui crescendo, cresceu também o meu apreço pelas várias formas de expressão artística, sobretudo pela pintura e o design (acabei por tirar depois um curso nesta área), com preferência especial pelas correntes modernas e contemporâneas. Os museus foram, obviamente, parte importante na descoberta do meu gosto – falo de um tempo em que a tecnologia ainda não tinha posto na ponta dos nossos dedos o acesso imediato a (quase) tudo o que se vai fazendo por esse mundo fora. Tínhamos os livros, o cinema e alguma televisão, e tudo o mais tinha de ser “ao vivo”. Sem os museus e as exposições temporárias da Gulbenkian, nos anos 80 não me teria apaixonado por Vasarely e a Op Art, por Escher e as suas construções impossíveis, pelas cores fortes das obras de Robert e Sonia Delaunay, pelo génio de Vieira da Silva, Paula Rego e tantos outros artistas portugueses, pelos objectos fabulosos de Lalique e as estampas estilizadas de Hokusai. Sem o Museu Nacional de Arte Antiga não teria conhecido, ainda bem novinha, os belíssimos biombos Namban ou a pintura onírica e angustiante de Bosch. Sem o Sintra Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo (entretanto substituído pelo Museu das Artes de Sintra) nunca teria aprendido nada sobre a arte minimalista.

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Sala Lalique, Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

 

O espaço e a atmosfera

Nessa altura os museus, fosse qual fosse o seu tema, ainda eram maioritariamente espaços básicos de exposição (da obra de arte) e contemplação (por parte do visitante). Entretanto evoluíram, tal como as manifestações artísticas, e agora temos não só museus com exposições interactivas, muito orientados para atrair ou entreter camadas mais jovens da população, como também museus com espaços mais variados na sua concepção de base, mutáveis e criados para se adaptarem e realçarem as obras expostas, imaginados para enriquecerem a experiência do visitante e combaterem o cansaço que por vezes se instala quando os percorremos. Ainda me recordo da minha visita, há bastantes anos, ao Kunsthistorisches Museum de Viena, onde vi obras icónicas de Bruegel e Arcimboldo, só para citar dois dos grandes pintores representados nas colecções do museu – e que também incluem obras de ourivesaria, relojoaria, escultura e uma variedade enorme de outras peças. A meio da exposição, eu o meu filho, na altura adolescente, já tínhamos uma overdose de arte e de tédio, e estávamos ansiosos por chegar ao fim: as obras sucediam-se monotonamente umas às outras num ambiente meio soturno, expostas e iluminadas sempre da mesma maneira. Em franco contraste, no quarteirão ao lado, os vários museus que integram o Museumsquartier, dedicados à arte moderna e contemporânea, já eram na altura espaços bem mais interessantes e motivadores (apesar de eu nem sequer apreciar muitas das peças), menos pela diversidade do que expunham do que pela forma como as obras estavam organizadas.

 

Outro que me aborreceu solenemente foi o Museu Egípcio do Cairo. Abriga um espólio de tamanho descomunal e valor incalculável, mas mostrado ao público sem qualquer imaginação. Senti-me como se estivesse a visitar um armazém, às tantas já não podia ver à minha frente múmias, sarcófagos, estatuetas, amuletos e tudo o mais que é exibido – em lotes, em prateleiras, e em quantidade. Nem a sala da Colecção Tutankhamon escapa à monotonia, embora a observação das peças expostas seja obviamente bem mais excitante e o ponto alto da visita. Felizmente, prevê-se para Novembro deste ano, quando se celebra o centenário da descoberta do túmulo de Tutankhamon, a abertura (sucessivamente adiada) do GEM, o Grande Museu Egípcio em Gizé, que irá mostrar de forma condigna – a acreditar na divulgação mediática – parte das colecções do Museu Egípcio de Tahrir e do Museu Nacional da Civilização Egípcia. A visitar num futuro próximo.

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Museu Egípcio, Cairo

 

No capítulo atmosfera, um dos meus museus preferidos é o Victoria & Albert, em Londres. É provavelmente o maior museu do mundo de artes decorativas e design, com uma colecção permanente com mais de 4,5 milhões de peças que abrangem 5000 anos de história e versam temas tão variados como moda e têxteis, fotografia, teatro, pintura, arquitectura, joalharia, cerâmica, mobiliário, vidraria. Há objectos da Europa medieval, renascentista e barroca, do Médio Oriente islâmico, da Ásia do Sul, do Japão, e ainda a colecção Gilbert, com cerca de 1200 belíssimos objectos feitos à mão, na sua maioria miniaturas em metais preciosos, esmalte ou mosaico. As exposições distribuem-se por cinco pisos, com as colecções divididas por salas temáticas, e o museu consegue a proeza de não ser minimamente enjoativo para quem o visita. Tem além disso a vantagem de ser gratuito (apenas as exposições temporárias são pagas), tal como sucede com vários outros museus londrinos. Mais ainda, tem um café que abre para o jardim interior, e que também abre o apetite só de olhar para a comida exposta, e uma loja com artigos tão atractivos que apetece comprar tudo.

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V&A Museum, Londres

 

Foi a visitar vários dos excelentes museus de Londres que comecei a reparar tanto na diversidade de pessoas que povoam estes espaços, como na forma como elas observam as peças expostas, como se movem, como interagem com o museu – e como elas também contribuem para a atmosfera mais ou menos acolhedora do lugar. Gosto (e aproveito para fotografar) sobretudo quando há um ambiente descontraído, com pessoas que conversam umas com as outras, crianças que se sentam no chão, entretidas com uma qualquer actividade, casais que descansam relaxadamente num banco ou sofá – como se o museu fosse a casa de um amigo que visitam com frequência. Quando as pessoas se mantêm em silêncio ou falam em sussurros, como se estivessem numa igreja, e vão progredindo monotonamente umas atrás das outras, a fazerem lembrar objectos no tapete transportador de uma qualquer unidade industrial, o ambiente é bem mais aborrecido e desmotivante, mesmo que a exposição seja de grande interesse.

 

Tate Britain, Londres
Tate Modern, Londres

 

Outro museu de Londres que aprecio particularmente é o Tate Britain, que expõe colecções de arte britânica datadas do séc. XVI até à actualidade. Embora com grande incidência na pintura, os trabalhos que exibe abrangem todo o espectro das artes visuais. Tanto podemos encontrar aviões de combate transformados em obra de arte por Fiona Banner, como uma exposição temporária de esculturas de Henry Moore. Um dos mais importantes espólios à guarda da Tate é constituído pelo legado de J.M.W.Turner, considerado o maior pintor inglês, o qual engloba 300 pinturas a óleo e vários milhares de esboços e aguarelas, incluindo todos os trabalhos que se encontravam no estúdio do pintor aquando da sua morte em 1851. As obras de Turner são mostradas ao público num espaço especial, a Clore Gallery, em exposições que vão mudando pontualmente – e num ambiente que me faz ter vontade de ficar tempos infindos a olhar para cada quadro.

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Tate Britain, Londres

 

De vez em quando, sou surpreendida por exposições que me deixam maravilhada – e feliz! Aconteceu-me, só para dar um exemplo, quando há uns meses visitei o Fotografizka de Estocolmo. Creio que foi o bilhete de museu mais caro que paguei até hoje, mas valeu cada cêntimo. À entrada, um caminho de patas de cão estilizadas guiava-nos para o Pet Show: várias salas com fantásticas fotografias de animais de companhia, intercaladas com filmes e algumas esculturas, uma mostra de trabalhos de 25 artistas firmemente destinada a despertar emoções, desde a ternura ao riso e à angústia.

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Fotografizka, Estocolmo

 

No piso superior, a imersão num mundo ao mesmo tempo tenebroso e colorido: “Between These Folded Walls, Utopia” são obras concebidas pela dupla (Sarah) Cooper & (Nina) Gorfer, que associam fotografia e colagem em retratos híbridos de jovens mulheres que se viram forçadas a migrar. A ideia por trás deste projecto é chamar a atenção para as tragédias humanitárias e para a perda de identidade e reinvenção de quem é obrigado a afastar-se das suas raízes; ou, como afirmado no texto de apresentação, “a perda da utopia e a nossa capacidade de voltar a sonhar”. Num ambiente de quase câmara escura, os quadros fundiam-se por vezes com a própria parede em que estavam expostos, criando um impacto bem maior do que se estivessem simplesmente pendurados numa parede de cor neutra e completamente iluminada – prova cabal de que para lá da qualidade da obra que se expõe, a forma como ela é exibida faz toda a diferença.

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Fotografizka, Estocolmo

 

É também em Estocolmo que fica o Museu do Vasa, um dos museus mais originais e espectaculares que já encontrei nas minhas viagens, totalmente concebido em torno de um único motivo (e que não tem nada a ver com artes plásticas). O Vasa, navio de guerra do século XVII considerado o supra-sumo da tecnologia naval da época, naufragou na baía de Estocolmo durante a sua viagem inaugural em Agosto de 1628. Resgatado do leito marinho, quase intacto, nos anos 60 do século passado, à volta deste “artefacto” de inegável valor histórico e artístico foi construído um grande museu, onde ficamos a conhecer em pormenor toda a arquitectura e história não só do navio, como da época em que ele foi concebido, das pessoas que nele pereceram, e da forma como foi recuperado. A “estrela” da exposição é obviamente o próprio Vasa. Ver de perto uma nau verdadeira, não uma reconstrução ou embarcação imaginada, é no mínimo excitante. Pensar que esteve durante três séculos debaixo do mar e foi possível recuperá-la, preservando-a e colocando-a em exposição, é perceber o valor do trabalho dos milhares de pessoas (investigadores e não só) que têm contribuído para que a memória do mundo não desapareça. E ainda por cima é um regalo para os olhos, tanto pela riqueza artística das suas ornamentações como pela forma como está exposta e iluminada. O Museu do Vasa é, em todos os sentidos, um tributo ao engenho humano.

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Museu do Vasa, Estocolmo

 

 

Casas que são museus

Lugares de excepção são também as casas que já foram morada de artistas, ou que têm características tão especiais que foram convertidas em museus. Uma das minhas preferidas, neste caso por ser um exemplo primoroso da arquitectura do ferro portuguesa, é a Casa-Estúdio Carlos Relvas, que fica na Golegã. Figura proeminente da alta sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX, proprietário de explorações agrícolas, inventor e fotógrafo de excepção, Carlos Relvas concebeu e mandou construir em 1872 uma lindíssima casa destinada a servir como estúdio fotográfico. Edifício original e ecléctico inserido num jardim romântico, é actualmente um museu dedicado à fotografia, e é para mim um dos edifícios mais bonitos de Portugal.

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Casa-Estúdio Carlos Relvas, Golegã

 

Em terras dos nossos vizinhos, o Museu de Arte Nova e Art Deco em Salamanca está alojado na Casa Lis, um palacete modernista construído em 1905-1906 em estilo Arte Nova mas seguindo os preceitos da arquitectura industrial. Foi mandada construir por Miguel de Lis, um empresário industrial da cidade, que encomendou o projecto ao arquitecto Joaquín de Vargas (que também concebeu o belíssimo edifício do Mercado Central de Salamanca). Uma das suas particularidades é ter duas fachadas bem distintas: a da entrada em pedra e ladrilho, e a maior, virada a sul e sobre um declive, em ferro e vidro. Outra é ter as suas salas dispostas em torno de um pátio interior, com uma abóboda de vitrais coloridos que, tal como os que decoram a fachada sul, são trabalhos de uma delicadeza e originalidade excepcionais e transmitem uma atmosfera quase diáfana às salas agora ocupadas pelas exposições. Na parte de trás do piso da entrada existe uma cafetaria absolutamente encantadora, decorada no estilo da casa e com vistas para o exterior através dos vitrais. Sou grande apreciadora dos estilos Arte Nova e Art Deco, mas confesso que nunca tinha ouvido falar deste museu até começar a preparar a minha viagem a Salamanca – e que lamentável teria sido passar ao lado desta preciosidade! As colecções do museu incluem um número impressionante de peças de artes decorativas criadas entre fins do século XIX e até ao final do período entre as duas Grandes Guerras. Há vidros, estatuetas, bronzes e esmaltes, jóias, leques e têxteis, mobiliário, e uma das mais importantes colecções de bonecas de porcelana em todo o mundo. A casa e o seu museu complementam-se na perfeição.

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Museu de Arte Nova e Art Deco, Salamanca

 

Nascido em Viena em 1928, o artista visual e arquitecto Friedrich Stowasser ficou conhecido para a posteridade pelo nome de Hundertwasser e pelas suas opiniões vincadas sobre a protecção ambiental e o repúdio pelas “linhas direitas” – princípios que estão bem visíveis no mural de azulejos “Submersão de Atlântida” que criou, por alturas da Expo 98, para a estação de metro Oriente em Lisboa. Tal como as suas obras, a casa onde viveu na sua cidade-natal é um edifício colorido e assimétrico tanto exterior como interiormente, onde até o piso foi concebido com ondulações (segundo ele, “um piso irregular é uma melodia para os pés”). É aqui que está actualmente instalado o Kunsthaus Wien, museu que expõe pinturas, trabalhos gráficos e arquitectónicos do artista. Visitá-lo foi imergir num mundo diferente, e saí de lá com toda uma outra visão sobre o que pode ser a arquitectura.

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Kunsthaus Wien, Viena

 

Irregulares e fora do comum são também as Casas Colgadas, na cidade espanhola de Cuenca. Em periclitante equilíbrio sobre o abismo cavado pelo percurso do rio Huécar, este pequeno conjunto de edifícios medievais de finais do século XV é uma visão simultaneamente excêntrica e encantadora. Nelas está instalado o Museu de Arte Abstracta Espanhola, que exibe em permanência uma colecção absolutamente notável de pintura e escultura de artistas espanhóis de meados do séc. XX. Distribuídas pelos vários pisos destas casas, em que o exterior e o interior estão em forte contraste, as salas de exposição são pequenas e acolhedoras, cada uma exibindo poucas obras, e o resultado é ao mesmo tempo intimista e dinâmico – e uma agradável surpresa para quem, como eu, gosta de arte contemporânea.

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Casas Colgadas, Cuenca

 

Tal como o seu excêntrico dono, a casa onde Salvador Dalí viveu entre 1930 e 1982 é tudo menos banal. Fascinado pela paisagem de Cadaquès, uma localidade junto ao Cabo Creus, no extremo nordeste da Catalunha, Dalí escolheu uma pequena casa de pescadores situada na Cala de Portlligat para aí instalar o seu refúgio – que habitou com Gala, a sua muito amada mulher, até à morte desta. Ao longo de quarenta anos acrescentou e transformou a pequena casa branca à sua imagem, decorando-a por dentro e por fora com cores e objectos dos mais díspares, a maior parte deles criados por si. Ali fez o seu atelier e ali recebeu os seus convidados e amigos – no entanto, apenas os acolhia nas dependências exteriores da sua casa, à volta da piscina, pois tanto ele como Gala eram extremamente ciosos da sua privacidade. Hoje a casa está transformada num museu, com visitas guiadas e rigorosamente cronometradas, onde quase tudo está preservado tal como em vida do pintor. É uma casa labiríntica, quase orgânica. Os vários espaços interligam-se uns com os outros, cada um tendo uma função bem definida. Nas palavras de Dalí, era “como uma verdadeira estrutura biológica, (...). A cada novo impulso da nossa vida correspondia uma nova célula, uma divisão”. Uma casa a roçar o surreal, tal como o seu criador.

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Casa Salvador Dalí, Portlligat, Cadaquès

 

Mais conhecida pelo seu espaço exterior – os incontornáveis Jardins Majorelle – a icónica casa azul e amarela que Yves Saint-Laurent comprou em 1980 em Marraquexe também inclui um museu. Complemento perfeito aos jardins, que são um autêntico oásis no calor marroquino, com vários ambientes exóticos onde a água e a cor são elementos importantes, o Museu Pierre Bergé das Artes Berberes expõe centenas de objectos, coleccionados ao longo dos anos por Pierre Bergé (mentor, sócio, companheiro e eterno amigo de Saint-Laurent) e pelo próprio costureiro. Articulado tematicamente em espaços distintos, o museu é ao mesmo tempo um testemunho e um tributo à riqueza e diversidade da cultura dos “homens livres” do Norte de África.

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Casa Majorelle, Marraquexe

 

 

Para lá dos museus

Por feliz coincidência, visitei Veneza durante a Biennale. Este evento de divulgação artística realiza-se desde 1895 e continua a ser um dos mais importantes do género – mesmo hoje em dia, quando são organizadas anualmente mais de 300 feiras e bienais de arte em todo o mundo (até finais do século passado eram apenas 50…). A cidade, já por si só senhora de um charme muito especial, deitava arte por todos os poros, com inúmeras manifestações e exposições à margem do grande acontecimento. As surpresas surgiam ao virar de cada esquina, num passeio pelos canais, numa montra, num jardim, na varanda de um hotel, em palácios e igrejas. Fiquei encantada com esta facilidade de convivência, com a enorme quantidade de exposições de livre acesso para o público, e com a descoberta de obras inesperadas até em situações triviais. E foi precisamente num local insuspeito, uma espécie de armazém na margem do Dorsoduro, longe dos Giardini da Biennale e das confusões, que tropecei por acaso numa das exposições mais interessantes que já vi até hoje, concebida à volta de um objecto que faz parte da vida diária de milhões de pessoas: a chávena de café. Criada pelo director cénico americano Robert Wilson para a conhecida marca de café Illy, e com o sugestivo título “The dish ran away with the spoon - everything you can think of is true”, esta exposição sensorial celebrava o 25º aniversário da Colecção de Arte Illy, que na altura já contava com 400 chávenas de café (e seus inseparáveis pires) com o formato icónico lançado pela marca, decoradas por 111 artistas de renome. Ao longo de sete salas sucediam-se ambientes surrealistas diferentes, parcialmente inspirados na Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, cada um mais delirante do que o anterior e com grande impacto visual e sonoro. Uma exposição inesquecível.

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Exposição Illy, Veneza

 

De facto, se há país onde se respire arte, esse país é a Itália. No Palazzo Vecchio de Florença, depois de admirar o magnífico e recém-renovado Pátio de Michelozzo, dei por mim numa enorme sala povoada por figuras híbridas e desproporcionadas, estilizadas, estranhas, homens que são animais, animais com rodas… São assim as esculturas de Paolo Staccioli, ceramista toscano que expandiu entretanto os seus dotes para o bronze. Na Sala de Armas do Palácio, dividida em seis espaços definidos por pilares e abóbadas cruzadas, as esculturas estavam expostas como instalações individuais, mas visualmente unidas pela sua morfologia similar. Muito a propósito, a esta exposição foi dado o título “Nel Ventre Antico del Palazzo. Esercizi di guerra e giochi di bimbi”.

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Palazzo Vecchio, Florença

 

Em Madrid, o magnífico Palácio de Cristal, no Parque do Retiro, é lugar habitual de exposições temporárias, e ficou-me particularmente na memória a instalação criada de propósito para aquele espaço pela artista coreana Kimsooja e baptizada como “Respirar - una mujer espejo”: um espelho contínuo colocado no solo, que reflectia não só os visitantes (que tinham de entrar descalços) como também as cores do arco-íris criadas pela película de difracção translúcida que recobria a estrutura envidraçada do palácio. Como “música” de fundo, os sons da respiração da própria artista.

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Palácio de Cristal, Madrid

 

E na localidade de Alarcón, pequena vila na província espanhola de Castilla-La Mancha, existe uma igreja do século XVI que foi esvaziada e dessacralizada, e é hoje a “casa” de um projecto incomum executado pelo pintor Jesús Mateo. Apadrinhados pela UNESCO, que os classificou como obra de interesse artístico mundial, os murais criados por Mateo evocam, pelas formas e pelas cores, a pintura primitiva, ao mesmo tempo naïf e surreal. É uma obra esmagadora pela dimensão, surpreendente pelo contraste entre o vanguardismo da temática dos murais e o cariz religioso da arquitectura do edifício, simultaneamente envolvente e remetendo para espaços sem fim. Um lugar com alma própria, que se pode amar ou detestar, mas ao qual de certeza ninguém fica indiferente.

Afinal, não é este o cerne de qualquer obra de arte?

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Antiga igreja de São João Baptista, Alarcón

 

Pedras

Maria Dulce Fernandes, 06.07.22

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Provavelmente já tinha tomado alguns. Não sou de beber, mas pélo-me por um bom gin&tonic sempre que entro em fase de transgressão e quando tomei por resolução um post no blog por dia, estava seguramente alienada, demente, insana, ou simplesmente um nadinha alterada.
A inspiração não é algo que se tenha na mala ou na carteira ou haja lá por casa sempre uma nova, bem arrumada e ainda por estrear com as etiquetas da marca numa gaveta do camiseiro. 
Ou se tem ou não se tem, tão simples como isto.
É como o cabelo, por exemplo. Se o tenho, posso cortá-lo, enfeitá-lo, ondulá-lo... a infinitude de tratos que posso dar ao cabelo é imensa. Se não o tenho, sou careca, tento disfarçar com perucas, capachinhos, chapéus, mas como dizia o actor, desses, há muitos, os palermas, os falsos inspirados.
Saí do trabalho mentalmente exausta. Apesar de ser Verão era de noite e pensei para comigo que o mundo me passa ao lado e só reparo que faz um barulho ensurdecedor.
Fui pelo caminho a contar as pedrinhas e a adivinhar em qual cairia cada pingo da chuva que se abatia de mansinho. Podia ser inspirador, quem sabe. Li não sei onde que o Björn Ulvaeus escreveu o "Take a Chance on Me" quando chegou a casa depois de caminhar pela chuva e atentar na melodia que os seus passos entoavam quando tocavam nas pedras molhadas da calçada.
Quem sabe o mesmo não aconteceu a Beethoven quando cozinhava, ou a Bach quando polia com suavidade e perícia o seu orgão preferido, ou até mesmo a Wagner enquanto passava o espanador nos livros da biblioteca do tio Adolf.
Não, decididamente hoje não desceu em mim qualquer bafejo de Erato, Melpômene, Polínia ou Talia, portanto, e sem mais delongas, vou fazer uma lasanha, uma deliciosa e fantástica lasanha e ai de quem se atravesse no meu caminho e me difame a arte!

Dürer fazia anos ontem

beatriz j a, 22.05.22

A propósito de ter lido no texto da Dulce que hoje é o dia da biodiversidade, lembrei-me de Dürer, um dos meus pintores preferidos, cujo aniversário se celebrou ontem (aqui num famoso auto-retrato de 1500) e que foi um grande desenhador e pintor da natureza e da sua diversidade.

Dürer, era um grande apaixonado pela natureza em toda a sua diversidade e, se bem tenha viajado pela Itália para se inteirar das obras dos mestres renascentistas e tenha observado a recorrência deste tema nas suas telas, ninguém, à época, deu tanto destaque à natureza e à sua multiplicidade de formas como ele. 

Foi um dos primeiros pintores a interessar-se em pintar animais e plantas por si mesmos. Naquele tempo era costume pintar-se estes temas como estudos que se vendiam a outros artistas -ou os próprios usavam- para incluir como pormenores em telas grandes, mas Dürer desenhou-os e pintou-os como obras acabadas. Atribui-se-lhe a frase, "É de facto verdade que a arte é omnipresente na natureza e o verdadeiro artista é aquele que consegue revelá-la". 

Toda a gente conhece obras suas: a Lebre, a Asa de Um Rolo Azul, O Grande Turfo de Ervas, o Rinoceronte (cujo desenho está ligado ao início da construção da calçada portuguesa) e muitos outros desenhos e pinturas onde ele mostra a sua paixão pela natureza, a sua atenção ao detalhe (ao contrário dos italianos que usavam então o sfumato, Dürer preferia os traços bem definidos - dizem os entendidos que talvez por ter começado a sua carreira como gravador). Mesmo em obras sobre outros temas, estou a lembrar-me do Massacre dos Dez Mil, a natureza não está pintada como um mero pano de fundo, não: está pintada como um suporte de vida independente, em grande pormenor, ao ponto de podermos ver num ramo, por exemplo, um pássaro a fazer o ninho.

Já me aconteceu viajar para ir ver uma exposição deste pintor ou até uma obra só. Como outros pintores, mais até que muitos, as obras de Dürer têm que ver-se ao vivo. As nuances nos traços, na cor e na textura e outros aspectos, porque Dürer não deixava nada ao acaso na sua obsessão pelos detalhes e seus significados, perdem-se nas reproduções, por muito boas que sejam.

Uma obra dele que gostava muito de ver ao vivo é o desenho do escaravelho, Lucanus cervus ou Vaca-Loura, como o conhecemos, popularmente. 

É uma vaca-loura macho, como se vê pelo tamanho das mandíbulas. Tem a cabeça levantada e o corpo erguido, como que a preparar-se para a luta ou para a defesa de algum inimigo. A sombra por baixo dele dá movimento ao corpo e faz parecer que está a sair do papel. 

Aqui não se vê mas quem já viu ao vivo este desenho fala da mudança de cor e de textura no corpo do bicho e da definição de todos os pelinhos das suas patas. 

Dürer assinou a obra, com o seu monograma, AD (Albrecht Dürer), como sempre fazia, mas acrescentou aqui as garras da vaca-loura às pontas do 'A', o que na opinião de um crítico de arte sugere que ele talvez se visse como um insecto, antecipando Kafka ou que talvez se indentificasse com o espírito lutador da vaca-loura, tendo tido muitos inimigos. Será? É verdade que não era comum, no século XVI, dar-se atenção a insectos, pois na obra do Criador que era a natureza, estavam no fundo da hierarquia das criaturas de Deus. Esse comentador acrescenta que a letra, 'D' que se forma com a sombra da pata mais próxima da assinatura e data não são uma casualidade, pois Dürer não deixava nada ao acaso, mas que é uma afirmação filosófica de Dürer se ver como um homem em consonância com a sua sombra - o seu lado sombrio. Isso não sei, mas parece-me um bom pretexto para fazer uma viagem a Los Angeles, na Califórnia, ao Museu Getty, onde o desenho se encontra. 

também publicado no blog azul

Esperança

Paulo Sousa, 26.03.22

Violinists Support Ukraine surgiu como forma de apoiar a Ucrânia. Violinistas de todo o mundo juntaram-se a nove ucranianos que mesmo debaixo do chão, enquanto tentam sobreviver aos bombardeamentos russos, não deixam de nos maravilhar.

Entre muitos outros defeitos, será no apego e na necessidade de arte, que melhor nos distinguimos dos bichos. Enquanto isso acontecer, há razões para termos esperança.

Pré-Natal

jpt, 22.12.21

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Isto de andar alheado do mundo, coisa que não é de um solstício pessoal mas sim do verdadeiro ocaso, dá azo a surpresas. Pois só hoje, e bem atrasado, me apercebo de três notícias que a muitos parecem relevantes:
 
1) no Chile houve eleições. A esse propósito vejo quem se reencarne como Victor Jara, e cante revoluções e amanhãs que cantam. E outros que clamam "os russos vêm aí", anunciando o descalabro daquele país, até do continente e, presumo, mesmo do mundo global - ainda que, permito-me, entre estes não abundem doutas reflexões sobre o destrambelhamento social dos últimos anos chilenos;
 
2) agentes da GNR em Odemira passaram anos a deleitarem-se torturando e insultando imigrantes, e com o desplante de filmarem os actos, decerto que "para mais tarde recordar". Vá lá que alguns foram apanhados pela PJ. Mas isto mostra mesmo, sem rebuço, um ambiente geral (uma "cultura institucional", se se quiser), pelo menos permissivo. Noto, com um sorriso, que no meu universo-FB (consagrado pelo omnipresente Algoritmo), e blogal sempre tão politicamente empenhado e até abrasivo, este assunto não foi um "must". Cheira-me que enviesei um bocado demais, e em rumo destro, as minhas ligações-FB e atenções blogais. Ainda assim, e como reflexo de outras minhas estações de vida, resmungo que se eu fosse professor convocaria muitos destes doutores liberais que para aqui andam em azáfama e ensinar-lhes-ia que o liberalismo não é baixar os impostos e contestar as vacinas estatais. Pois é muito mais combater, até à última, ambientes que minguem as liberdades individuais. Dos nacionais e dos estrangeiros. Mas nem eu ensino. Nem eles aprendem.
 
3) A artista Grada Kilomba, a qual pelas fotografias presumo ser mulata, foi excluída de uma exposição por um júri de selecção para uma exposição. E vai uma grande polémica. Tendo eu 57 anos durante os últimos 37 fartei-me de ouvir resmungos, mais ou menos irados, contra júris nas mais variadas expressões artísticas e literárias. E sabe-se que alguns "grandes vultos", com décadas como consuetudinários jurados, alguns sempre mui respeitados na hora da morte, fizeram vida de serem execráveis clientelistas nessas artes. Mas agora a polémica é enorme e deu azo a "Carta Aberta" denunciatória, subscrita por várias organizações de nomenclatura radical e personalidades estrangeiras instando-nos a bons comportamentos.
 
Mas o delicioso do documento é um excerto: "Parece também de grande importância referir que a comissão foi composta por quatro pessoas brancas, e entre elas três mulheres e um homem, (...), deixando-nos com a complexidade das estruturas patriarcais e coloniais do sistema". Ou seja, isto já nem é só estes activistas exigirem-nos que nos assumamos como mónadas raciais, qu'isso já é o "pão nosso de cada dia" destes curandeiros. É mesmo esta coisa de que se um júri tem três mulheres e um homem e não actua como os activistas querem então é fruto das "estruturas patriarcais"... Tralha, claro, que dá gáudio aos académicos "decoloniais"..., que não há nada que dê tanto jeito como argumentos "infalsificáveis", como antes alguém disse, um alguém que não lhes convém que se leia ou se recorde.
 
Enfim, face a este estado "da Nação" e "do Mundo", para além do meu próprio, nenhum dos quais se recomenda, cumpre-me uma súmula que dê alento aos compatriotas, nos seus respectivos ocasos. Por isso aqui partilho esta informação: adquiri no fronteiro Pingo Doce este tinto "Portal de São Braz" a 1,8 euro cada garrafa, dada a simpática "promoção" então em curso, o qual é muito bebível - ainda que connoisseurs e doutores ("quem rima sem querer é amado sem saber") que por aqui passem possam clamar "zurrapa" - e do vizinho Lidl trouxe a consagrada "Queen Margot", ainda abaixo dos 7 euros, apesar da inflacção natalícia. A estas associo o que belas mãos amigas, seguidoras dos conselhos da DGS, me ofertaram: uma compota de abóbora e laranja, uma marmelada, ambas de confecção caseira.
 
E a todos afianço que com esta conjugação, e apesar do referido estado geral das coisas, se não inverto o ocaso pelo menos imagino solstícios. Imaginai-os também, se vos for possível.

Souza Felgueiras

José Meireles Graça, 03.12.21

O menino da casa trouxe um amigo para almoçar.

Ficou em frente à menina, e esta confidenciou muitos anos volvidos que ficara espantada com o paleio torrencial – nada que perturbasse o pater famílias que presidia à mesa e que deu corda ao palavreado do atrevido.

Achou a amesendação fora do mundo, comeu com apetite e reteve com espanto o formato dos pratos – eram todos quadrados.

O formato dos pratos, que aliás sumiram há décadas, era o menos, que com o tempo foi aprendendo que aquilo era uma casa de artistas com uma hierarquia de prioridades muito particular: não havia cortinados porque não eram precisos mas havia móveis ou peças de arte preciosas adquiridas em leilões ou antiquários; não havia televisão (veio a haver muitos anos mais tarde) porque isso não dá nada de interesse mas a aparelhagem sonora era caríssima.

De música, ouvia-se jazz, e dentro deste clássicos da especialidade e não experimentalistas ocos. A menina e os meninos gostavam mesmo era das musiquetas anglo-saxónicas e francesas da época – anos 60 – pelas quais o dono da casa nutria uma intensa aversão. Às vezes cedia e punha, do mundo da música boa, uma Aretha Franklin ou um Ray Charles, mais próximos do nosso gosto pop.

Uma vez vi uma história de bolso do jazz, que comprei e li rapidamente. E logo que calhou estar a passar na aparelhagem (um amplificador Revox que aquecia prodigiosamente, um gira-discos Thorens) um pianista qualquer declarei meditativamente que me parecia reconhecer ali traços de um Jelly Rol Morton, senão mesmo de um Art Tatum. O (para mim) velho espantou-se: como raio é que você os conhece? Ora, declarei com falsa modéstia, não havia de conhecer? – são clássicos.

O mundo que fui espreitando, porque jamais deixei de ser visita assídua ainda antes de ser familiar, era o de uma rotina em torno das aulas na Escola de Belas Artes do Porto e de pintura num atelier então fora daquela primeira casa. E com conversas e discussões de visitas fui lentamente absorvendo o interesse (no meu caso distante, como ainda hoje) por aqueles assuntos: a minha praia eram leituras, e ali o deus era Camilo, não o Eça que lia (e, dada a idade, mais seguramente treslia) compulsivamente.

O centro dos meus interesses não era o Mestre (assim naquela época, e não sei se agora, muitos alunos tratavam os professores) mas, sem querer, acabei por ser influenciado reflexamente pelo seu natural papel de figura tutelar da vida daqueles dois irmãos (a filha viria a concluir o curso de Pintura, o amigo o de Arquitectura).

A peça era, a seu modo, fascinante: tinha um conhecimento enciclopédico sobre História de Arte, com opiniões definitivas sobre importância relativa, mérito e demérito de artistas, tanto clássicos como contemporâneos, um reconhecimento instantâneo de quaisquer trabalhos, incluindo o local ou museu em que se encontravam, e uma detecção infalível de quem influenciou quem e quem inovou o quê; conhecia razoavelmente a história da música mas ouvia sobretudo jazz; era versado em literatura, sobretudo portuguesa do séc. XIX; de História, sem ser especialista, dominava a portuguesa; um bricoleur impenitente; e de sistemas políticos, economia, ciências exactas, sabia o suficiente para ter detestado o salazarismo sem todavia ter absorvido a moeda corrente no meio em que se movia, e que eram declinações várias de doutrinas comunistas, que abominava, além de guardar, para certos projectos ou realizações arquitectónicas desastradas, a condenação definitiva: são coisas de engenheiros.

Ideias claras sobre pintura e escultura incluíam a consideração de que os três verdadeiramente grandes pintores portugueses foram Nuno Gonçalves, Domingos Sequeira e Henrique Pousão; que, dos contemporâneos, talvez os maiores fossem Júlio Pomar, de Lisboa, Tito Roboredo, Júlio Resende e Eduardo Luís, do Porto, ou ainda Dórdio Gomes, de quem foi aluno dilecto; que a fama de estrelas como Vieira da Silva era uma coisa nascida em Paris, por razões de promoção interesseira, e ecoada em Portugal, sem verdadeira dimensão para extravasar desses limites, assim como a de Paula Rego derivava da excessiva  filiação em Lucian Freud, nos dois casos sem a marca do génio que fica; e que na escultura portuguesa Soares dos Reis podia ombrear com os melhores seus contemporâneos estrangeiros, sendo Salvador Barata Feyo, nos nossos dias, um gigante insuficientemente conhecido.

Dizia isto e muito mais, na serenidade algo ingénua de quem não pretendia chocar, por ser completamente desprendido. Por um lado sabia com que fios se cosiam as reputações no mundo da Arte, e por outro espantava-se com a debilidade de conhecimentos técnicos e históricos em que se fundavam boa parte dos chamados críticos de Arte. Numa entrevista gravada (e com a qual me fartei de rir por adivinhar o espanto do entrevistador) lhe ouvi, sobre José-Augusto França, que respeitava: Sabe, o Professor Augusto-França de pintores do Porto não sabe nada!

Além do bricolage, teve interesses esporádicos, que duravam anos antes de se finarem, por outras coisas: fotografia e corridas de minimodelos, nas quais participava com entusiasmo, ou comboios eléctricos para os quais construiu uma minuciosa paisagem do velho Oeste, por onde eles serpenteavam, e que enchia uma sala, por exemplo. E contagiou-me no amor duradouro da banda-desenhada franco-belga, cujas principais revistas, o Spirou e o Tintin, assinou até que acabaram.

Foi feliz, enquanto professor, até ao 25 de Abril, após o qual acabou por odiar a guerra pelo poder que se instalou na Escola, o abandalhamento da exigência, a hiperpolitização dos procedimentos, as assembleias gerais intermináveis, os saneamentos, as facadas nas costas, a promoção de medíocres e a geral decadência que, ainda que abrandando com o tempo, se estendeu até que se aposentou, por limite de idade, em 2000.

Descia facilmente a assuntos que a nós, adolescentes, interessavam. Derrotava-nos, por exemplo, sobre automóveis: o melhor que há é o Rolls-Royce, em carros correntes o Renault (sempre teve Renaults); Mercedes são carros de praça e os Volkswagens são muito resistentes mas as oficinas estão cheias deles.

No meio artístico particularmente endogâmico (a galeria financia a exposição, incluindo no estrangeiro, mediante comissão, o crítico é amigo do dono da galeria, que é amigo do pintor, e todos ganham a vida como professores da Escola do Elogio Mútuo, ao serviço do cliente metido a amador de Arte que espera valorização com os panegíricos) foi sempre um outsider, porque isso lhe quadrava com o feitio e com a independência económica. Independência que não o poupou a algumas picardias carreirísticas de colegas ambiciosos – o meio universitário é sacana – mas sem males maiores: só queria dar as suas aulas e pintar em paz, não fazer sombra a colegas. Para a pequena história, quando calhava virem a propósito galões professorais, sempre se omitia cuidadosamente que Souza Felgueiras havia sido, em 1958, classificado com 20 valores na sua tese de formatura, o que já não sucedia desde 1930 (com Dominguez Alvarez).

Deixa obra em edifícios públicos, por exemplo no Tribunal de Castro Daire com um fresco, no Palácio de Justiça do Porto com uma tapeçaria ou óleos nas Pousadas de Bragança e Miranda do Douro ou no Museu Soares dos Reis, e em numerosas colecções particulares.

Sobre ela tenho uma opinião, mas não a vou consignar aqui. Não por causa da falta de autoridade (que, se achasse útil, supriria com franqueza e suficiência – uma das razões porque tanto trafulha faz passar como Arte a sua genuína inépcia artística é que o cidadão comum espera, para formar a sua, pela opinião do entendido) mas por não duvidar de que o único grande crítico é o tempo.

Tempo é o que não falta agora à memória de Souza Felgueiras, que morreu ontem. Por mim, foi um imerecido privilégio da minha vida não apenas ter com ele privado, mas ter sempre podido contar com a sua inabalável tolerância.

Fim de semana (11)

Pedro Correia, 21.11.21

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«A lógica pode de facto ser inabalável, mas não pode resistir a um homem determinado a viver."

Franz Kafka, O Processo

 

Pode ser visitada na Cordoaria Nacional (Avenida da Índia, Lisboa). É uma das melhores exposições do ano na capital. Com trabalhos visuais de todo o tipo - desenho, gravura, escultura, filme, fotografia - de Ai Weiwei, o mais célebre artista chinês contemporâneo. Perseguido, preso, diabolizado e expulso pela ditadura chinesa, de que é firme opositor. Nestes dias de exílio forçado, sem perspectiva de regresso, radicou-se no Alentejo, onde se sente como nunca se sentiu no seu país: cidadão livre.

Esta exposição é um grito de revolta contra a tirania de Pequim. E contra todos os sistemas totalitários. Com remadores de galés retratados em cerâmica. Quadros de repressão que podem aplicar-se a diversas latitudes, inspirados na estética da banda desenhada. A reprodução espantosamente realista da cela onde ele próprio esteve detido e foi submetido a duros interrogatórios só por querer dar livre expressão ao seu talento fora do cânone  definido pelo partido único que governa a China desde 1949.

 

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Filho do grande poeta Ai Qing, censurado e torturado durante a chamada "Revolução Cultural", nas décadas de 60 e 70, declara-se artista de dimensão política, assumido opositor ao regime comunista. Nasceu em 1958 e passou cinco anos com a família num campo de trabalhos forçados - facto que o marcou para sempre. E bem se reflecte no seu trabalho, eloquente grito de revolta contra a opressão, simbolizado na frase de Kafka citada acima e destacada na exposição. «A arte salvou-me da crueldade da vida», confessou numa entrevista recente.

Ai Weiwei, até domingo que vem na Cordoaria, bem merece uma visita. Ter escolhido Portugal para viver é motivo de orgulho para todos nós.

 

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Os grafitos no Padrão dos Descobrimentos

jpt, 11.08.21

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Alguém foi-se ao Padrão dos Descobrimentos e escreveu uma qualquer tralha. Caiu "o Carmo e a Trindade". Gente "saiu à rua" (hoje em dia é "aos teclados") arrepenhando os cabelos, rasgando as vestes, acorrendo à honra pátria, a Câmara aprestou-se a limpar a ofensa aos ancestrais, a célere Polícia Judiciária pôs-se em campo e logo desvendou ser o crime uma agressão estrangeira, assim sossegando-nos por não se tratar de uma sempre temível traição.
 
Todo este disparate dá-me vontade de... também bramir. Desde há imensos anos que está Lisboa (e não só) carregada dos tais grafitos. Boçais e imundos. Dizeres estapafúrdios, desenhos indigentes, rabiscos, miríades de "bastos" de todos os tamanhos e posições. Toda essa tralha amadora e morcona de facto legitimada e potenciada pela consagração - pela academia, pelas instituições estatais, pelo "gosto informado", agora até pelos construtores civis - da "street art" (de facto, uma mera "street curio"), que nada mais é do que o piroso desta era - a patética Pasionaria da Graça, os "Pierrot com lágrima" a louvar os profissionais de saúde ditos a "linha da frente" contra o Covid, etc. No fundo, tudo isto seguindo a coberto pelo culto da "intervenção".
 
E agora todo este "ó da Guarda!", "Aqui-d'el-rei!"? Recordo que há uns tempos o jornal "Público" (claro) publicou um artigo de 4 universitários sitos em universidades americanas. Portugueses, brancos, de meia-idade, e de nome compósito. Defendiam a prática espontânea da "intervenção" "decolonial" sobre os monumentos. E desvalorizavam os críticos dessa festança como meros "homens, velhos, brancos e de certa classe social" [burgueses, entenda-se. Ou seja, os que tendem a assinar com nomes compósitos, para quem não perceba]. Alguém deu porrada nesse "paper curio"? Nada, que ninguém se vira a esta gente dos ademanes.
 
Enfim, vai um ror de disparates. E nisso lembrei-me de um texto que escrevi há sete anos quando encontrei uma "intervenção" "decolonial" no ex-libris colonial em Bruxelas. Para quem tiver paciência aqui deixo a ligação.

Música, mas da boa

Paulo Sousa, 12.04.21
Diz-me porquê diz-me
Nós não sabemos nada
Mas resistimos por ti
Até que seja de madrugada
Até que seja de madrugada
 
(Refrão)
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
Sócrates sempre presente
José Sócrates sempre
 
Quem prend´água que corre
E a ribeira enchendo
Saberá que nunca morre
O sonho de a ver correndo
O sonho de a ver correndo
 
(Refrão)
 
Liberdade não morre
Nem silêncio pesado
De um povo a entristecer
Por te saber tão magoado
Por te saber tão magoado
 
(Refrão)
 
Ser livre não tem preço
Nem se conhecem margens
A vida é reconheço
A esperança não e uma miragem
A esperança não e uma miragem
______________
Letra Luísa Lopes
Musica de Jorge Andrade Pinheiro
 
PS: Ando à procura das tablaturas para obrigar o meu mais velho a tocar isto na guitarra.
Seria porreiro pá, se quem as tiver, puder partilhar.

Pintores sem prazo de validade

Pedro Correia, 24.11.20

cruzeiro-seixas-arte-pintura-obras-moty-gq-portugaO Rapto ou o Tão Amável Intruso, óleo de Cruzeiro Seixas (1972) no Museu Gulbenkian

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Júlio Pomar (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Manuel Cargaleiro (93 anos), João Abel Manta (92 anos), Arnulf Rainer (91 anos), Jasper Johns (90 anos) e Frank Auerbach (89 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Cruzeiro Seixas se despediu de nós a 8 de Novembro, a menos de um mês de completar 100 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

As tatuagens

Paulo Sousa, 14.10.20
- Porque é que certos homens gostam de tatuagens?
- Tatuagens? A que propósito vêm agora as tatuagens?
- Não sei, João, lembrei-me. Conheci um tipo que tinha uma nas costas daqui até aqui. É esquisito, não é?
(...)
- Ainda que fossem exibicionismo - continuou Guida - ou ridículo, ou feira de virilidades, se fossem só isso, enfim, que se lixassem as tatuagens. O pior é que estão carregadas de ritual, as tatuagens, carregadas de superstição. No fundo não passam de um ritual religioso para eternizar a autoridade. Ou os sentimentos, vem a dar no mesmo.
 
O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires
 
 

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"É professor e tem o corpo, o rosto e até a língua cobertos de tatuagens. Sylvain Helaine recorreu mesmo a cirurgia para que o branco dos olhos ficasse preto. É professor primário em Paris e mas já foi impedido de continuar a ser educador num jardim de infância francês depois de um pai ter reclamado que Helaine assustou o seu filho.
A história gerou discussão em França e com o novo ano lectivo Sylvain Helaine, de 35 anos, ainda dá aulas para crianças a partir dos seis anos e rejeita que o seu aspecto cause problemas e afirma que, após um choque inicial ao vê-lo pela primeira vez, os seus alunos acabam por se habituar à sua aparência."
 
Tenho um amigo que garante que um dia, juntamente com a mulher barbuda, será atracção num circo como sendo o último caucasiano branco sem tatuagens.
Os apreciadores acreditam que a pele do corpo é uma tela para uma livre expressão artística e com ela permanecerão juntos até que a morte os separe, e mais 40 dias.
Outros aceitam mas só se houver bom gosto nos motivos tatuados. Outros ainda ficam incomodados com o mínimo traço, ou ponto tatuado.
Saber o que estará na mente de cada um de nós será sempre um mistério insondável, mas quão legítima será a queixa dos pais dos alunos do ensino primário e quão legítima será a defesa do professor conhecido como Freaky Hood que se queixa de discriminação?

Torres Vedras de Nuno Rebelo

jpt, 31.05.20

Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. 

É um trabalho do Nuno Rebelo (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: "Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."

É uma pérola. Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.

Arte contemporânea africana no Porto

jpt, 26.01.20

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Sindika Dokolo apresenta a maior coleção de arte africana no Porto (24 Fevereiro, 2015)

(Memória - até intimista - por causa do que está a acontecer por aí).
 
Quando em 15 voltei a Portugal o que mais me custou não foi o frio, do qual me desabituara. Foi o silêncio. O próprio. Passara 15 anos a leccionar, a co-organizar seminários, a participar noutros, a comentar e debater. Assim a falar, muito. Quando regressei isso acabou. Não podia falar ("não tens doutoramento, não podes falar", é assim mesmo, são as regras, é o mercado laboral). Podia assistir mas não convinha contrapor, discordar, esmiuçar, que reina a cultura do silêncio defronte e da maledicência a posteriori ("ela é histérica", "ele é estúpido", diz-se dos colegas sem qualquer rebuço), associada à ofensa sentida se alguém questiona o que se disse. Eu sei que dizer isto provoca noutros a ideia, aqui habitual, do "este está ressabiado, ressentido". Mas estão errados. É apenas observação participante.
 
Pronto, ficou-me o silêncio próprio. Foi uma espécie de envelhecer (um pouco) avant la lettre. Um gajo é velho e ninguém o ouve, foi isso mesmo. Neste caso ainda com lucidez (presunção e água benta ...) para o perceber, e saber que será assim para a frente. Ultrapassei isso, ganhei o hábito de falar sozinho - falo imenso sozinho. A minha filha preocupa-se com isso, teme ser sintoma de algo mais. É nova demais para perceber que é apenas uma escapatória. Um gajo tem que falar, tem o vício, e se não tem audiência fala sozinho. Mal seria se eu começasse a fazer podcasts ou lá como se diz, e a metê-los no facebook.
 
Bem, vem esta memória a propósito disto: o silêncio não foi total. Nos primeiros anos ainda falei um bocadinho. Almas caridosas convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", magnanimizaram), durante dois anos. Lá fui, falar como Amador (no velho e nobre sentido do termo). De literatura africana. De arte moderna e contemporânea africana. Não sei como terá corrido (ao longo dos anos tive alunos que de mim gostaram, outros aos quais fui indiferente, outros que não gostaram. Haverá piores do que eu, há melhores, há muitos mais ou menos na mesma. É como é). Mas, repito, fui lá à terra do meu pai, à universidade do meu pai - e disso gostei muito -, falar de literatura africana e de arte africana.
 
Foi na época em que o Porto estava todo aperaltado para visitar a exposição - bem boa, digo-vos - da colecção de arte africana contemporânea de Sindika Dokolo, genro de José Eduardo dos Santos. Gostei de visitar, pausadamente. E deu-me muito, imenso, jeito, pois recomendei-a vivamente aos escassíssimos alunos.
 
Então sorri, com o fenómeno. A gente não avalia e frui a arte devido aos mecenas que lhe coube. Mas avalia o fenómeno da recepção. Sorri ao Porto. A Portugal.
 
E falei, sozinho. Continuo a falar sozinho. A Carolina não gosta, teme que seja sintoma de algo. E é, minha querida, é sintoma de ser patrício destes tipos.

 

Vanitas vanitatum

José Meireles Graça, 15.01.20

Sobre a poluição instalada numa praia de Leça da Palmeira escrevi há dias o que convinha.

O espaço onde está é público; na minha terra, como na generalidade das outras, prolifera o esterco soi-disant artístico dos Pedros Cabritas Reis (que só não são legião porque nem todos dominam a arte da promoção, da propaganda e das influências no meio, não porque haja escassez de candidatos a aldrabões); e sou contribuinte (da variedade que não está isenta de IRS, o que, não me dando mais direitos, também não dá menos), isto é, pago estas coisas.

Tenho, como cidadão e contribuinte, uma palavra a dizer, e podendo ela, a palavra, estar errada, é ainda assim duplamente legítima – em nome da liberdade de expressão e do uso que é dado ao meu dinheiro.

Pedro acha que também tem uma palavra a dizer, e que não apenas o direito dele é igual ao meu como é ainda superior.

Mas não é igual: eu pago e ele recebe, ou seja, eu compro e ele vende, e só uma inversão ostensiva das coisas, e uma entorse à lógica e ao senso, é que pode autorizar a que se diga que ele, o produtor, é que decide o que eu devo comprar.

“A comunidade não o pode ser sem os artistas”, diz o iluminado, com razão, e eu acrescento que também não sem padeiros e escritores, ainda que, surpreendentemente, uns não exigem que se lhes compre o pão, se maçudo, e os outros que se lhes leia a obra, se for chata. Maçudo e chata na minha opinião, homem de Deus, não na deles, ainda que pelo menos no que toca aos escribas haja fortes probabilidades de que se imaginem génios, como milhares de autores esquecidos antes deles.

E mesmo que Cabrita se ache infinitamente superior ao padeiro, que é um mero artesão, não leva, suponho, a vaidade ao ponto de acreditar que nos mais de 60 anos que conta de vida não terá havido um escritor, unzinho, ou um pintor, unzinho, que nunca vendeu nada que se visse e a quem a posteridade reconhecerá o génio que ele, não sabemos se apenas com a inconsciência que talvez tenha, se com a lata que efectivamente tem, se atribui.

“Os artistas determinam o que é ou não é passível de ser considerado como obra de arte”. Portanto, Cabrita, que é um artista, na opinião dele, decide o que é, e não é, Arte, e eu, que na opinião dele e na minha, não sou um artista, não tenho nada a dizer. Não tenho eu mas têm os senhores edis porquê? Acaso o voto dá, em matéria artística, uma clarividência ao eleito que cruelmente falta ao eleitor?

De resto, se é unicamente o artista que faz também de crítico, que impede que todos os que se declarem artistas reivindiquem que os poderes públicos os sustentem, comprando-lhes as obras? E, já agora, o preço, quem o fixa? O artista ou o mercado das autarquias? Porque, se forem estas, temos um bando de leigos a decidir em matéria do foro reservado dos artistas, uma ofensa à hierarquia cabritiana; e, se forem aqueles, receio que não se entendam quanto ao mérito respectivo das obras e acabem à estalada.

Isto deveria bastar para arrumar o palavreado pueril e ingenuamente pedante deste fenómeno. Mas não resisto a comentar algumas deliciosas frases do texto para que acima remeto, no Público: Cabrita, a escrever, tem um lado cómico que falta às suas instalações.

“A realização da obra começa no momento da sua concepção. Imaginar a obra, pensá-la, é já fazer”. A sério, Pedrinho? Temos então que, de futuro, os corpos municipais bem podem, quando quiserem ornar uma rotunda com um trambolho delirante qualquer, ir pensando em fazer adiantamentos por conta. Bem lembrado, ainda que o Tribunal de Contas pudesse colocar algumas reservas à prática, tendo em conta que os senhores juízes, presumivelmente, não terão uma excessiva inclinação para as artes.

“A Linha do Mar, para profundo desagrado de alguns, é uma obra de arte. Afirmo-o eu, Pedro Cabrita Reis, seu autor, sem qualquer pudor ou arrogância, mas porque sim, porque tenho de o fazer, porque o devo fazer e porque o posso fazer”.

Lá pudor, pudor, realmente, não se encontra aqui muito. Mas a afirmação não será um tanto… suspeita? É que o nosso povo, para casos destes, sancionou há muito a expressão “elogio em boca própria é vitupério”. Ora, a voz do povo não será talvez a voz de Deus, mas mesmo assim faz-se ouvir nas eleições locais. Pelo que, ao povo, conviria talvez, já que paga, afagar com carinho o lombo, para dar a impressão que por ele não se tem um grande desprezo.

“… e já que temos de falar em dinheiro, é que a arte não tem preço. Uma obra de arte nunca será nem cara nem barata”.

Confesso: tenho simpatias por alguns, poucos, artistas, tanto que não desdenharia comprar um quadro de Tito Roboredo, que tenho aliás debaixo de olho. E esta ideia inspirou-me: vou pagar com um cheque sem cobertura, e ao pamonha do marchand é isso mesmo que vou dizer – não tem preço.

O artigo termina, no ponto 4, com um arrojado voo retórico que, descontado o exagero lírico e ribombante, prova que Pedro Cabrita Reis tem talvez mais jeito para redigir que para instalar coisas. Duvido porém que o Público lhe tenha pago pelo esforço: não vive, que se saiba, à custa do contribuinte.