O PS de Lisboa

O tribunal voltou a condenar a Câmara Municipal de Lisboa a uma pesada multa devido às suas práticas delatórias, no caso cognominado "Russiagate". A primeira condenação acontecera há um ano e a CML recorrera. Agora o tribunal confirmou a condenação mas reduziu a quantia a pagar - devido à prescrição de vários dos delitos (delações). O executivo municipal prepara-se para mais um recurso, decerto intentando promover mais prescrições, assim reduzindo os seus gastos finais.
É compreensível - neste caso custa-me dizer louvável - o rumo da administração de Carlos Moedas. Pois não se trata de indemnizações a alguém prejudicado mas de uma sanção estatal. Deste modo procura minorar os danos financeiros que lhe são causados por inaceitáveis acções dos seus antecessores. As quais são politicamente inadmissíveis. E, mais ainda, moralmente execráveis.
Não é necessário ilustrar este texto com fotografias das acções desse poder israelita em Gaza ou do moscovita na Ucrânia, nem das gigantescas vagas de refugiados da Venezuela. Nem vasculhar imagens sobre repressões na insondável China. Foram esses os regimes cujos serviços de "informações" foram beneficiados pela CML com informações sobre dados pessoais dos seus opositores em território português - inclusivamente, ao que foi noticiado, de cidadãos portugueses! Nem preciso de apor o rol de cidadãos russos que o regime de Putin vem eliminando mundo afora. Nem afixar a fotografia de Alexei Navalny, o oposicionista russo que morreu aprisionado na Sibéria. E cujos apoiantes aqui, ao terem feito mais uma denúncia pública das delações da CML, causaram o final dessas malvadas práticas - as quais eram conhecidas pela imprensa e público pelo menos desde 2019. Mas nem essa anterior repercussão pública fizera o executivo municipal socialista - que as conhecia sobejamente desde há muito - interrompê-las.
Abaixo reproduzo o postal que escrevi há um ano sobre este caso: "Medina e o Russiagate". Mais centrado na imagem de Fernando Medina, que perspectivei (e ainda perspectivo) como ambicionando ascender a secretário-geral do PS, apesar desta chaga imorredoira no seu percurso político.
Mas agora - face à herança jurídica recebida por este executivo municipal, mas também diante das próximas eleições autárquicas - é necessário recordar que então sobre este caso o PS "cerrou fileiras" em torno de Medina e do seu antecessor Costa, ambos responsáveis nesse rumo delatório. Não falo do PS histórico, sempre invocado como motor da democracia - esse agora epitomizável pelo sonante Manuel Alegre, esse do "a mim ninguém me cala". Falo do PS actual, falo do PS da concelhia de Lisboa, falo dos autarcas eleitos, dos candidatos, dos militantes. Ao longo dos anos em que isto se soube, nenhum deles saiu à rua, "desceu a Avenida", fez abaixos-assinados que fosse, invectivando esta desgraça democrática. Foram cúmplices, veementes cúmplices.
E são estas gentes que agora se coligam com aqueles partidos LIVRE e BE, esses compostos de gentes tão prenhes de superioridade moral e racional democrática. E é de evitar que eles voltem ao poder.
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Medina e o Russiagate (8.8.2024)
O Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa aplicou agora à Câmara de Lisboa uma multa de um milhão de euros devido ao ao envio para a embaixada russa, durante largos anos, de dados pessoais de organizadores - portugueses e estrangeiros - de acções avessas ao regime de Putin decorridas no município. Ao escândalo chamou-se "Russiagate", epíteto minimalista pois a Câmara enviava também dados do mesmo teor, e por razões similares, às embaixadas da Venezuela, da China e de Israel.
A delação municipal ocorreu durante a presidência de Fernando Medina. Quando foi confrontado com a ignomínia Medina sacudiu a água do capote, tendo imolado um qualquer quadro médio camarário, feito "bode expiatório". Depois seguiu a Ministro das Finanças, cargo no qual soube embelezar as contas. Os correligionários gabaram-no. Entretanto o governo caiu, o PS fez ascender o truculento Santos.
Medina, sagaz, querendo-se qual "peixe de águas profundas" 2.0, recuou, e deixa-se marinar aguardando o óbvio, que Santos esboroe. Após esse futuro evidente os da "esquerda democrática" acolherão o seu regresso, lembrarão o quanto retocou os recantos da baixa lisboeta e as referidas contas públicas. Ser-lhes-ão indiferentes as denúncias dos que se erguiam contra Putin, Maduro, Xi Jinping. E dos defensores da Palestina. E se confrontados com a ignomínia de Medina argumentarão que a responsabilidade foi de um... bode expiatório, já imolado.
Sobre isto escrevi em 11 de Junho de 2021: Que a Câmara de Lisboa informe as embaixadas locais sobre os organizadores de manifestações é inaceitável. Que Medina venha clamar que se está a fazer um "aproveitamento político" mostra bem que segue alheio ao fundamental: pois isto é algo "político", remete para os valores fundacionais da democracia. E mostra uma mundividência antidemocrática (policiesca, mesmo) no topo da administração.
Há quem o queira eximir, aventando que nada soube disto - e mesmo quem aluda aos milhares de trabalhadores da câmara, mole que será suficiente para nela se encontrar um atávico amanuense expiatório. Esta notícia (em 2019 o gabinete de Medina confirmava esta prática) comprova o contrário. Medina está há muito tempo na Câmara, o seu gabinete há pelo menos dois anos que sabe destes procedimentos - muito provavelmente conhece-os e pratica-os desde que entrou em funções. Ou Medina não sabe o que se passa no seu gabinete, mesmo sobre uma matéria tão delicada e fundamental como esta - o que seria um caso de incompetência funcional e de incapacidade em seleccionar os colaboradores mais próximos. Ou sabe, e "deixou correr" ao longo de anos - até aos protestos dos cidadãos luso-russos em Janeiro passado, que a imprensa foi calando mas decerto fazendo chegar ao pessoal camarário.
Se não é diante de algo desta monta, que remete para os valores centrais de democracia, que se pede "responsabilidade política" esta deixa de ser convocável. Deixemo-nos de rodeios, este homem não serve, nem para a Câmara nem para quaisquer postos políticos. Pois, como isto mostra, não serve a democracia. E não é um qualquer apressado face-lifting que o esconderá.





