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Delito de Opinião

O estilo Costa

Pedro Correia, 22.07.21

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Bem ao seu estilo, António Costa anunciou a «libertação total da sociedade» no final do Verão. Medida que coincidirá em absoluto com o calendário eleitoral: as autárquicas realizam-se a 26 de Setembro.

Preparemo-nos para a propaganda que aí vem. Ele nunca dá ponto sem nó.

 

O chefe do Governo adora ser portador de boas notícias. Quando as novidades são más, encarrega dessa tarefa alguns dos seus ministros. Designadamente a pobre Mariana Vieira da Silva, que já aparece nas conferências de imprensa com cara de quem suplica para a tirarem desse filme.

Foi ela que a 18 de Junho anunciou uma das mais inacreditáveis medidas alguma vez paridas num Conselho de Ministos: o "encerramento" da Área Metropolitana de Lisboa entre as 15 horas de sexta-feira e as 6 da manhã de segunda-feira. Quase três milhões de portugueses confinados dentro de parte do território nacional, sem proclamação do estado de emergência, para «impedir contágios». Como se o coronavírus só atacasse aos fins-de-semana.

Foi ela também que a 1 de Julho anunciou o "recolher obrigatório" entre as onze da noite e as seis da manhã em 45 concelhos do País, incluindo Lisboa e Porto, de novo sem estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse à luz da Lua.

Foi ainda ela - desta vez acompanhada pelo ministro da Economia - que a 8 de Julho anunciou outra medida ainda mais estapafúrdia do que as anteriores: a exigência de apresentação de certificados de vacinação ou realização de testes rápidos nos restaurantes e na hotelaria aos fins-de-semana, a partir do jantar de sexta-feira nos concelhos de maior risco e nos alojamentos turísticos em todo o território continental. Medidas que nem existiram quando Portugal ficou em estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse quando estamos a descansar e nunca quando estamos a trabalhar.

 

Nestas ocasiões, que cobrem de ridículo os portadores das novidades, Costa nunca aparece. Manda sempre qualquer outro ocupar o palco. Ele só comparece em contexto positivo, de preferência com palavras associadas à verba da bazuca, oriunda de Bruxelas. Anuncia 252 milhões de euros de investimento na investigação e economia do mar. Anuncia 244 milhões de euros para a área da cultura. Anuncia 465 milhões de euros em respostas sociais para infância, idosos e deficientes. Anuncia 900 milhões de euros para o «sucesso escolar». Numa cadência incessante, incansável. É raro ver um político assim: está em permanente campanha eleitoral.

Ainda a procissão vai no adro. Nos meses que vão seguir-se, teremos isto a um ritmo quase diário: o primeiro-ministro a pronunciar a palava milhões. Com o dinheiro dos outros. Sem o menor assomo de pudor num pais que em 2020 registou uma queda do PIB de 7,6% - superior à média de 6,2% do conjunto da União Europeia - e já neste primeiro trimeste viu o PIB português contrair 5,4%, o que constitui o pior desempenho de uma economia no espaço comunitário.

 

Nada que desencorajasse o chefe do Executivo de ter aproveitado ontem o debate do final do ano parlamentar para sugerir que «só ele saberá salvar o País da pandemia e da crise económica», na feliz definição - não isenta de ironia - da jornalista Rita Dinis no semanário Expresso.

Na divisão de tarefas no Governo, cabe-lhe em exclusivo o papel do bom da fita. Os erros, os disparates e as medidas inaceitáveis ficarão sempre a cargo de outros. E até o outrora «excelente ministro» Cabrita ficou mais isolado que nunca: deixou de poder contar com o aconchego do antigo colega de faculdade. 

É um estilo de governar. O estilo Costa.

António Costa sexagenário

jpt, 17.07.21

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(Conselheiro Acácio, por António)

António Costa faz hoje 60 anos (os meus votos de saúde). O Público, sempre servil ao poder PS, disponibiliza (em acesso livre) este seu panegírico, escrito por Ascenso Simões (o mui ilustre que anda afadigado em derrubar o Padrão de Descobrimentos e, presumo, outras coisas).
 
Recomendei, através de múltiplas redes sociais (do já velho e-mail ao whatsapp), a leitura deste texto aos meus amigos moçambicanos. Pois na "Pérola do Índico" ao longo dos anos fui lendo alguns extremados elogios (em artigos e até em livro) a políticos bem instalados. E muitos dos meus amigos (quantas vezes eleitores, simpatizantes e até militantes dos partidos dos assim supra-elogiados) diante desses textos faziam um ricto enojado, naquilo tão desconfortável da vergonha pelo alheio. E resmungando "isto só aqui é que é possível!!!".
 
Pois é a esses meus amigos que aviso: leiam este texto. E vejam que "estamos juntos!!!". Que isto de videirinhos despudorados há-os em todo o lado. Já Eça de Queirós o sabia e descrevia.

Presunção de indecência

Pedro Correia, 16.07.21

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Há dez meses, António Costa e Fernando Medina atravessavam-se por um indivíduo que está hoje indiciado por vários ilícitos - ao ponto de ter renunciado ao cargo de presidente do Benfica, que ocupava há 18 anos.

A paixão clubística serve de atenuante para muita coisa, mas não pode funcionar como desculpa para o primeiro-ministro e o presidente da Câmara de Lisboa. Em Setembro de 2020, quando aceitaram figurar na Comissão de Honra da recandidatura deste indivíduo, havia informações muito consistentes de que não era digno do apoio de quem enche a boca com a expressão "ética republicana".

É certo que a pessoa em causa, como qualquer cidadão português, goza da presunção de inocência. Mas, neste caso concreto, prevalece a presunção de indecência - reforçada a cada notícia que nos vai chegando. Que um profissional experiente e calejado como Costa, que não fez outra coisa na vida senão política, tenha cometido este monumental erro de avaliação é algo digno de causar espanto.

A dita Comissão de Honra, dez meses depois, virou comissão de desonra. Convém recordar, por mais que certos arquivos digitais se vão apagando: Costa e Medina estavam lá. 

Merkel critica Costa

Pedro Correia, 22.06.21

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Angela Merkel puxa as orelhas a António Costa, por motivos óbvios: o Governo português escancarou as portas ao turismo britânico na pior altura. E convém lembrar que tanto Costa como Augusto Santos Silva ainda reclamaram quando Boris Johnson pôs fim à via verde turística entre Londres e Lisboa. 

A história vem no Político: a chanceler alemã censura Portugal por ter permitido a entrada de turistas britânicos com a variante Delta. Eis a voz do bom-senso a falar. Infelizmente é necessário surgir alguém de fora para apontar com clareza o que está errado aqui. Como se não houvesse oposição em Portugal. 

Andam a brincar connosco

Pedro Correia, 20.06.21

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«Velocidade do contágio atira o País todo para o vermelho», titula hoje o Jornal de Notícias, certamente com fontes bem informadas no Governo. Especificando: «Variante indiana explica subida e faz soar alarmes sobre descontrolo da pandemia». Isto quando se acentuam notícias sobre a iminente saída de cena da ministra da Saúde, que aliás delegou sexta-feira no seu secretário de Estado Lacerda Sales a defesa das posições do Governo no debate parlamentar sobre a gestão da pandemia. Como se já estivesse a tratar da passagem do testemunho no ministério.

 

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Vale a pena recordar. Este é o mesmo Governo que há escassas semanas fazia declarações públicas de crítica às autoridades britânicas por terem retirado Portugal da lista verde de países a que os súbditos da Rainha poderiam deslocar-se sem necessidade de medidas especiais de precaução.

Este é o mesmo Governo cujo chefe máximo anunciava, a 2 de Junho: «Estamos em condições de prosseguir o processo de desconfinamento». Baixando a matriz de risco e fixando o dia 28 como última etapa.

Este é o mesmo Governo cujo ministro dos Negócios Estrangeiros, em entrevista à RTP, puxava dos galões para declarar isto: «O argumento quanto à taxa de positividade não colhe. A situação pandémica em Portugal é bastante razoável. Cada vez vejo menos lógica na decisão britânica.»

 

Devem andar a brincar connosco, numa espécie de jogo do esconde-esconde que acaba de impor uma "cerca sanitária" de sexta a segunda em toda a Área Metropolitana de Lisboa, onde reside quase um terço da população do País. Depois de todas as garantias que nos transmitiram, ponderam agora fechar todo o País novamente? E como? Sem proclamação do estado de emergência nem estrito controlo do Parlamento, o que constitui manifesta inconstitucionalidade, como já alegou o nosso Luís Menezes Leitão?

Falando no Funchal, a 6 de Junho, Costa atreveu-se a dar um puxão de orelhas ao Governo de Londres: «É importante termos estabilidade neste período turístico, porque, havendo avaliações de três em três semanas, é muito difícil para a indústria do turismo estar a adaptar-se a este elevadíssimo grau de incerteza. Hoje verdes, depois amarelos... Admito que eles [britânicos] sejam menos sensíveis aos danos que causam na nossa economia. Mas espero que ao menos sejam sensíveis aos graves prejuízos à liberdade de circulação dos seus cidadãos.»

 

Estão a brincar. Só pode ser isso.

Era como se, há 15 dias, o primeiro-ministro falasse sobre si próprio duas semanas depois.

Governar à Costa

Pedro Correia, 12.05.21

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Segunda, 10 de Maio (manhã)

155 imigrantes impedidos de atravessar a cerca sanitária nas freguesias de São Teotónio e Longueira-Almograve para trabalhar em Odemira. Dezenas destes trabalhadores chegaram a fazer testes rápidos à Covid-19, na berma da estrada, com a GNR a assistir. Mesmo assim, foram impedidos de avançar pela burocracia estatal: faltava cumprir uma alínea do despacho n.º4697-A, de 2021, do ministro da Administração Interna e da ministra da Saúde - em vigor desde o dia 8 - que obriga as entidades empregadoras a comunicar a lista de trabalhadores à Direcção Regional da Agricultura do Alentejo, que por sua vez deve remetê-la GNR... que já estava no local. Pormenor fundamental: sem trabalhar, estes imigrantes não recebem salário.

 

Segunda, dia 10 (tarde)

O presidente da Câmara Municipal de Odemira e os presidentes das duas juntas sob cerca sanitária contestam todo este processo, considerando-o absurdo. José Alberto Guerreiro exige o «fim imediato» daquela cerca. Lembrando que aquele concelho é o mais testado do País e está hoje abaixo dos 240 casos por cem mil habitantes.

 

Terça, dia 11

O primeiro-ministro reúne um "Conselho de Ministros electrónico" e altera a agenda oficial ao início da tarde para se deslocar a Odemira, onde anuncia o fim da cerca sanitária naquelas freguesias. As restrições à circulação no concelho são levantadas a partir da meia-noite.

O estrume

jpt, 10.05.21

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Em tempos João Soares, então ministro da Cultura, bujardou que daria umas bofetadas em Augusto M. Seabra e Pulido Valente, devido a coisas que estes haviam botado na imprensa. A "boca" nem era grave, pirraça dedicada a homens da mesma geração que não tinha sentido efectivo e assim por todos foi entendida. Mas, e apesar de ser um político com passado - não foi mau presidente de Lisboa -, teve de se demitir. Pois há coisas incompatíveis com a gravitas do poder.
 
Agora João Galamba, secretário de Estado de minas e outros negócios, chama "estrume" (aliás, merda) e "asquerosa" a uma rubrica na imprensa, ditos evidentemente dirigidos à senhora que a protagoniza. E nada acontece. O passado político deste Galamba é mais ténue: apenas o socratismo visceral exercido no blog Jugular. Onde, com gente como Palmira Silva, Vale de Almeida e Câncio, entre outros, se defendeu o ex-PM até à última e se promoveu e defendeu com alacridade o ainda artesanal "fake news" avant la lettre de então.
 
Deve ser isto a "compaixão" para com Sócrates e seus esbirros a que a jornalista Maria Antónia Palla apelou há dias no - sempre ele - "Público". Pois Soares, com seus defeitos e qualidades, não foi um socratista. E esta gente, estes Galambas e afins, estes estrumes e asquerosos, foram-no. E assim continuam, neste aggiornamento em formato costista. E por isso realmente convêm a este poder. A este modo de política. Omnívoro.

A clareza habitual

Paulo Sousa, 24.03.21

Com a Páscoa à porta, o governo antecipou-se e preparou um conjunto de regras claras para que tudo seja mais fácil de controlar.

 

A circulação entre concelhos continuará interdita. “A Páscoa não é um momento de deslocações e de encontro, mas, pelo contrário, mais um momento de recolhimento”, clarificou António Costa.

- Então é possível ir ao estrangeiro?

- Sim, ao estrangeiro é possível ir! Claro, é a Páscoa!

- Mas como é possível ir ao estrangeiro sem sair do concelho?

- Talvez isso seja só para quem viva nos concelhos junto à fronteira. Pode-se sair, mas só em deslocação ao estrangeiro. Talvez seja isso que o PM queria dizer.

- Mas a fronteira com Espanha estará encerrada até dia 5 de Abril.

- Sim, mas Espanha é a excepção à regra que permite viajar até ao estrangeiro.

- Ah ok! Mas então como é que podemos ir ao estrangeiro se não podemos ir a Espanha?

- Eh pá! A proibição de deslocações para fora do território continental foi levantada, seja por via rodoviária, ferroviária, aérea, fluvial ou marítima.

- Ah, ok! Então se é permitido deslocar-me por via fluvial posso ir até onde?

- A Espanha já sabemos que não é permitido ir.

- E então de avião posso ir ao estrangeiro, desde que não seja a Espanha?

- Claro! Até está bem visto.

- Mas se eu não posso circular entre concelhos como é que posso apanhar um avião?

- Então para ir do Palácio de São Bento até ao aeroporto, é lá preciso por acaso sair do concelho, ou quê? Tu com as tuas perguntas gostas é de complicar, pá!

O método Costa

Pedro Correia, 03.03.21

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País legal e país real: uma vez mais, percebi como pode ser abissal a diferença entre uma coisa e outra. No sábado, que amanheceu soalheiro, as ruas, praças e jardins do meu bairro - Alvalade, em Lisboa - encheram-se de gente. A conviver, a "apanhar ar", a deter-se nos passeios, a espreitar as montras. A passear cães sem trela e trelas sem cães.

Acumulavam-se pessoas à porta dos mais diversos estabelecimentos: hipermercados, frutarias, papelarias, charcutarias, restaurantes a vender para fora, lojas de produtos para animais. Em ambas as entradas que dão acesso ao mercado, o melhor da capital, as filas agigantavam-se. 

O trânsito automóvel era contínuo. E frenético. Como numa vulgar manhã de fim de semana antes da pandemia. 

Uma amostra bem ilustrativa do que se passou no conjunto do País: nesse dia, cerca de quatro milhões de portugueses saíram à rua. Na véspera, tinham sido seis milhões.

Mandando às malvas o "dever cívico de recolhimento".

 

Enfim, um perfeito contraste entre o Portugal da propaganda e o Portugal que teima em antecipar-se ao Governo. Há um ano, enquanto António Costa hesitava sobre o rumo a seguir, as pessoas fechavam-se em casa, os pais retiravam os filhos das escolas, muitas empresas incentivavam os trabalhadores a optar pelo teletrabalho. Agora, fartos do "confinamento" pseudo-obrigatório, os portugueses saem de casa e deambulam por aí sem que ninguém os trave.

Ninguém diria que estávamos - e ainda estamos - em estado de emergência. Isso é pura ficção para entreter incautos e emitir mensagens "tranquilizadoras" nos telejornais. 

Dentro de dias, o Executivo fará o que fez em Março de 2020: ir a reboque da população. Desta vez em sentido inverso. Limitando-se a pôr chancela oficial no facto consumado.

É um método de governar. O método Costa.

 

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Oposição mais fofinha não há

Pedro Correia, 04.02.21

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O alegado "líder da oposição" é um caso de estudo. Num momento de evidente gestão caótica da pandemia, em que o Governo não cumpre uma das promessas feitas aos portugueses e falha todos os objectivos traçados, a principal preocupação de Rui Rio é não melindrar António Costa. Mesmo que o primeiro-ministro nem se preocupe em ocultar o imenso desprezo que sente por ele, como evidenciou na célebre entrevista ao Expresso, no Verão passado: «No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este governo acabou.»

Quanto mais me bates, mais gosto de ti - parece suplicar Rio a Costa. Falando ontem aos jornalistas, nos Passos Perdidos da Assembleia da República, o presidente do PSD voltou a fazer um panegírico do seu suposto adversário: parecia falar mais como assessor do chefe do Governo do que como dirigente da oposição. «O primeiro-ministro não está a trabalhar 24 horas por dia, mas está a trabalhar muito, disso não tenho dúvida», declarou. Enquanto confirmava que a sua preocupação central é que Costa não fique a pensar mal dele: «O Governo pode queixar-se de tudo menos do PSD. Não temos obstaculizado em nada.»

 

Oposição mais fofinha não há. Este é o mesmo Rio que ainda há poucos dias se insurgia contra quem ousasse criticar a eventual precedência concedida ao primeiro-ministro no plano de vacinação. «Imaginemos que o primeiro-ministro do país ficava infectado e com sintomas e até tinha de ser hospitalizado, o que é que o País ganhava? Só perdíamos, não podemos estar com esta demagogia. A minha posição é fácil, para quem me conhece e está atento: eu discordo completamente da demagogia de não vacinar político nenhum.» E jurava que não recusaria a vacina para oferecê-la a um idoso e assim «fazer um brilharete».

Isto foi a 27 de Janeiro. Três dias depois, Rio acabou mesmo por «fazer um brilharete», declarando que o mandassem excluir de uma lista de 50 deputados pré-seleccionados para a vacina. Lá conseguiu assim o título noticioso que, na sua própria definição, o inclui no lote dos demagogos. Provavelmente nem reparou na contradição. 

 

Já vai sendo tempo de Costa lhe conceder a esmola de uma atenção. O pobre homem que se esforça a todo o momento para lhe agradar, que verte palavras de admiração pela capacidade de trabalho do primeiro-ministro, que se preocupa com a hipótese de ver o chefe do Governo infectado com COVID-19 e assegura que o Executivo «pode queixar-se de tudo menos do PSD», bem merece um ligeiro afago, uma palavrinha doce, um sorriso contrafeito. 

Não custa nada, António. Mostra lá ao Rui que afinal não o desprezas tanto assim.

Presidenciais (16)

Pedro Correia, 24.01.21

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NO PIOR MOMENTO

Para que não restem dúvidas, a minha objecção a este insensato calendário eleitoral da corrida ao Palácio de Belém - com ou sem pandemia - já há dez anos me levava a escrever isto:

«É absurdo as eleições presidenciais continuarem a realizar-se em meados de Janeiro, o mês mais frio. Sei do que falo: andei na estrada em Janeiro de 2006, acompanhando como jornalista a caravana eleitoral de Manuel Alegre, que se viu impedida de se deslocar a certas regiões - a Bragança, por exemplo - devido a fortes nevões. Um deles deixou-nos bloqueados no Marão: lá tivemos de regressar imprevistamente ao Porto às tantas da noite, com a agenda por cumprir.

São absurdas estas corridas presidenciais com as festas de Natal e de Ano Novo de permeio. Que dispersam as atenções e distanciam os eleitores dos candidatos, fomentando a abstenção. O primeiro calendário eleitoral, em Junho de 1976, fazia bastante mais sentido. E até o segundo, no início de Dezembro, em 1980. Janeiro é que não faz sentido algum.»

 

Palavras publicadas no DELITO DE OPINIÃO a 13 de Janeiro de 2011

O que fizeram os decisores políticos perante este problema, que ultrapassa largamente uma simples questão formal? Nada.

Como de costume em Portugal, a inércia apodera-se do processo de decisão, neutralizando-o. Medidas que noutros quadrantes são resolvidas com rapidez, tendo em vista o combate à abstenção e a aproximação entre eleitos e eleitores, por cá são empurradas com a barriga. Durante anos. E o maior especialista em adiar soluções, como temos visto ao longo destes meses, chama-se António Costa.

 

Chegou mais um processo eleitoral, anunciado com cinco anos de antecedência. O País vive desde Março debaixo de sucessivos estados de emergência, agrilhoado pelo coronavírus que matou mais de mil pessoas só na semana passada. O Governo, como barata tonta, manda-nos ficar em casa em nome do cumprimento dum dever cívico e manda-nos sair de casa em nome do cumprimento doutro dever cívico. Tudo ao mesmo tempo.

Como nada quiseram alterar, mantendo a rigidez do calendário com o fervor de Moisés agarrado às Tábuas da Lei, vivem hoje horas angustiantes. Se a abstenção atingir níveis nunca vistos em Portugal, isto representa o maior descrédito das instituições políticas precisamente quando Costa exerce por inerência as funções de presidente do Conselho da União Europeia. E enfraquece ipso facto a legitimidade do próximo mandato do inquilino de Belém. No pior momento.

Já falta pouco para sabermos. Mas não auguro nada de bom.

Fé e ideologia

Paulo Sousa, 20.01.21

Gostei de ouvir, e recomendo que oiçam o José Manuel Fernandes no Contra Corrente de hoje no Observador.

Destaco as seguintes notas.

O Director do NHS inglês é um técnico superior que responde ao Parlamento e não ao Governo. Está em funções desde 2014, o que significa que já trabalhou com vários PM.

Tem ao seu dispor a rede hospitalar do país, pública e privada, e é com base nela que planeia a evolução das necessidades, sem a pressão de ir embora quando houver eleições, nem a desculpa do governo anterior.

A pandemia chegou a todos, mas nem todos têm a mesma proporção de mortos não-covid.

O apego à ideologia na actualidade, o ódio ao privado, a demonização do lucro e o desprezo pelas consequências, só será comparável ao apego à fé cristã noutros tempos da nossa história. Os ingleses eram uns merceeiros que não entendiam nada de tradição, nem de honra e muito menos de fé. Só queriam fazer comércio e ganhar dinheiro, mas nós é que iríamos converter o mundo na verdadeira fé. No fim de contas, bem sabemos o resultado.

Hoje, embora com uma crença diferente, agimos rigorosamente da mesma forma. É a sina da grandeza a que aspiramos mas que nunca conseguimos concretizar.

Os relatos que aqui tivemos no texto do João Sousa e nos comentários do nosso leitor Carlos Sousa e da nossa leitora Susana V, lembram-nos como as rupturas do nosso SNS são frequentes nesta época. As queixas dos utentes que são assistidos pelo mesmo médico de manhã nas urgências e à tarde no privado, e que empurram assistências de um lado para o outro, só existem por não haver coragem nem condições políticas para fazer reformas, para fixar médicos e enfermeiros e a mantê-los motivados.

A maravilha da geringonça bloqueou qualquer hipótese de reformas e nós (alguns) insistem em ficar encantados a apreciar as habilidades do nosso PM. É ele a fazer habilidades e malabarismos, e nós a ficarmos para trás nos rankings europeus que interessam e à frente nos que nos envergonham e entristecem.

Até quantos mortos estamos dispostos a sofrer, sem exigir reformas efectivas?

De súbito, a vichyssoise

jpt, 20.01.21

 
Tudo piora, numa crise extrema qual a Itália de Fevereiro. Muito pior, aliás, pois mostra a quem tenha um mínimo de decência que neste último ano o governo foi incapaz de aprender e de preparar a administração e a sociedade para a mais-que previsível nova vaga, num insuportável cúmulo de inépcia e inacção, uma incompetência inenarrável. E há quem, numa abjecta indignidade, ainda os sufrague.
 
Os governantes, para se defenderem, sempre fiéis à ideia de que o importante é "ficarem bem na foto", clamam que afinal a culpa é nossa, da nossa "mentalidade" diz Costa, diz a Temido, essa aberração, dizem os prostitutos do regime, os (...) das administrações não executivas, os académicos em busca de "grupos de trabalho", os jornalistas avençados, moles apenas sôfregas das tenças. Miserável gente. Passaram meses a criticar governos de países nos quais a pandemia mais grassava, o Trump, o Bolsonaro, o Boris, até um pouco os suecos e por aí afora. Agora, aqui? Os governantes estão correctos, o povo não presta ...
 
É a nossa "mentalidade" que está errada? Não foram os portugueses a recuar para casa, encerrando seus filhos, seus mais-velhos, logo em início de Março quando o governo inconsciente continuava a protelar, clamando (a senhora da DGS) contra o encerramento das escolas privadas, apelando (a senhora da DGS) a que visitássemos os lares, afirmando (o PR e o MNE) a impossibilidade do fecho das fronteiras? Augurando (a ministra da agricultura) que agora é que ia ser, o inundar da China com as nossas exportações? É a nossa "mentalidade" que está errada? Não clamámos, tantos de nós, contra os sinais erráticos do poder, do "25 de Abril" não mascarado, das manifestações autorizadas, do avante às festas e aos grandes prémios?, não contestámos que isso implicaria uma aligeirar da concentração diante dos perigos? Não apontámos o desvario (do PR Sousa) na trepidante campanha veraneante, em tronco nu Algarves afora? Onde esteve, estes meses todos, a "mentalidade" do poder, a gravitas, a consciência? A razão? Um poder tonto, é que tivemos, que temos.
 
E Sousa, esse, serve-lhes, aos do governo, a vichyssoise: o governo não se preparou para a terceira vaga, diz o PR. Como se não tivesse qualquer influência no que se passa. Eanes demitiu governos e constituiu os seus, Soares bateu-se com Cavaco, Sampaio demitiu governos maioritários, Cavaco restringiu-se mas em surdina marcou. E este pateta apenas troca de cuecas em público, roça-se, sem pudor, no povo, partilha bolos com os meninos, fotografa-se. E mente.
 
É evidente que foi o social do Natal que catapultou o que se passa. Exaurindo SNS e matando gente. Apesar de tudo houve gente no governo que quis incrementar as restrições nesse período. Inclusive lançou-se uma campanha publicitária (de facto propagandística, propaganda de cidadania): esta "Não deixes entra o vírus" - feita à revelia do inenarrável Ministério da Saúde, para o qual é suficiente deixar um ridículo doutor, de bigode retorcido, a mandar-nos fazer compotas, para re-mobilizar as pessoas diante dos perigos (que melhor ilustração da desvairada cultura das elites da administração pública, dos atrevimentos dos pequenos poderes?). Pois então as opiniões internas eram diversas. E o vosso "Marcelo", o meu abjecto "Sousa", influenciou-os, aos do governo, a animar o Natal, isso pressionou, para proteger tanto o comércio como os "afectos" e "famílias" deste país tão "católico". E, ainda que muitos quiséssemos "não deixar entrar o vírus" no Natal, veio ele (lembrai-vos?), risonho, anunciar que iria fazer várias refeições em família. Quereis maior minar das preocupações, das cautelas? Só se pensar na propaganda do governo, na véspera do Natal a anunciar as vacinas, quais prendas no sapatinho, e a enviar SMS's aos portugueses (aos eleitores, que é só assim que nos percebem, só assim, para isso, contamos). Haverá maior desincentivo para uma "mentalidade" hiper-cautelosa?
 
E vem agora Sousa atirar a vichyssoise aos pacóvios do governo, apontar-lhes a responsabilidade, descartar a caspa que lhe cobre a alma. Os do governo muito merecem e fazem por merecer as deslealdades dos cúmplices. E comem agora do que promovem. O aldrabismo visceral - e, infelizmente, neste caso assassino - do "católico" Sousa.
 
Entretanto, passam-se semanas em negociações, esperando pareceres de infarmeds e umas eleições que ninguém pensou em planificar - nem um boletim de voto apropriado conseguiram fazer, para além do caos das votações antecipadas, sob um ministro tétrico, esse abominável Cabrita. E, ainda que Costa tivesse dito em finais de Abril que tudo faria para nos proteger da pandemia, mesmo que violando a Constituição, nem conseguiram antecipar tudo isto, planificar o adiar das eleições. E dizem-nos, afinal e como se não fosse para eles letal, que não têm tempo para a "revisão constitucional" que seria necessária para esse adiamento. Que andaram a pensar nestes meses? Enfim, todas estas delongas, todas estas "excepções", toda esta abissal disfucionalidade, toda esta "crónica da crise anunciada", tudo isto pela vontade titubeante, nada esclarecida, de querer proteger "interesses". E tudo descamba.
 
Costa não é Sócrates (quer sê-lo quando procura controlar, para ganhos dos seus, o dinheiro europeu, nas manigâncias da ministra Dunem). De facto, Costa mostra-se agora tal e qual é, o pouco que é: um Guterres de segunda, emaranhado nas indecisões e nos tacticismos, na aflição da opção, numa indecisão radical para tudo que ultrapasse o mero jogo de bastidores, esse pouco que julga ser a política. Costa nada é, para além deste desastre evitável.
 
Guterres foi-se quando se levantaram os produtores de vinho, por causa do limite alcóolico dos condutores. Foi-se por uma minudência, a gota de vinho a transbordar o copo. Foi há vinte anos. Ainda havia energia para protestos consistentes.
 
E agora, apenas vinte anos passados, aceitamos este aldrabismo de Sousa, esta atrapalhação de Costa.
 
O país precisa de ventilador.