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O campeão da manha

por José Meireles Graça, em 01.07.20

Ultimamente tenho dado comigo a simpatizar com o nosso PM.

Calma, não mudei de opinião: o homem tem sobre o país, a economia e o mundo meia dúzia de ideias (e mais não seria preciso, se elas fossem boas), todas erradas, e isso no seu lado substantivo. No adjectivo, isto é, no feitio, no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette, também não melhorou nadinha.

Por partes: Na luminosa cabecinha dos dirigentes do PS o país nasceu em 1974, titubeou à procura de amparo até 1986, sentou-se à mesa dos ricos em 1992, numa festa por multas para a qual contribuiu com boa disposição e anedotas, e é ocioso pensar nele fora do “quadro” da UE, da qual vem a chuva e o bom tempo. E continuará a vir até, quando chegarmos ao eldorado de uma federação, ficarmos com o mesmo estatuto que o Arkansas nos EUA, mas com óptimas praias que aquele infeliz Estado não tem, como dolorosamente lhe falta também o galo de Barcelos, os pastelinhos de Belém e uma quantidade adequada de dentistas e empregados de mesa.

O Arkansas já forneceu um Presidente e é justamente famoso pelas suas melancias. A comparação deixa a desejar pelo lado das cucurbitáceas mas resulta vantajosa no confronto entre Durão Barroso e Clinton – o primeiro nunca foi embaraçado, que se saiba, com histórias picantes em torno de charutos apagados. É porém um dos Estados mais pobres da União, e nada indica que venha a deixar de o ser. Esse destino ser-nos-á poupado, acreditam à volta de 90% dos 14 milhões de portugueses vivos, entre residentes e expatriados, pelo efeito do princípio dos vasos comunicantes aplicado à riqueza, que não se verifica em lado nenhum mas os europeístas, e Costa com eles, dizem que terá miraculosamente lugar aqui na Ibéria.

Quanto à economia, o homem acha que a tal riqueza cresce pelo efeito de se a dividir por um número crescente de dependentes do Estado, desde que este se encarregue, baseando-se nas opiniões dos ungidos por diplomas das madraças de economia socialista, de fazer aqueles investimentos de grande rasgo e lucidez que um destes séculos porão o país a liderar o mundo nisto e naquilo, nos intervalos de falências periódicas.

O mundo de Costa é o da UE e logo a seguir o da ONU, onde o mestre de cerimónias é o seu colega e luzido estadista Guterres. Portugal está sempre do lado dos bons, isto é, aqueles sempre prontos a tomar medidas para combater as alterações climáticas, a desigualdade entre os antigos sexos, hoje géneros, e entre ricos e pobres e o Norte e o Sul, o imperialismo israelita, a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, a injustiça numa palavra.  Desde que tal combate se faça unicamente nas sociedades onde se pode fazer, isto é, no Ocidente; nas outras não, que deixaria evidente a horrível ideia de as civilizações não serem todas equivalentes.

Para quem ache que o que se deve procurar num político é o mesmo que se deseja para a namorada, o sogro, a nora, o amigo ou o sócio, isto é, para quem determine o seu voto não por ideias mas pelos sinais exteriores do feitio, Costa não serviria se o eleitor se incomodasse com a naturalidade e frequência com que mente, o português sumário em que se exprime, e até mesmo as farpelas com que se atavia quando decide ser natural. Mas não incomoda e, de toda a evidência, a popularidade do homem deve muito ao andor em que a comunicação social beata e comprada o carrega e, sobretudo, aos bodos judiciosos que distribuiu pelo maior número possível de dependentes. Nada que não possa ser revertido – o seu antigo patrão Sócrates também foi um menino de ouro até dar com os clássicos burros na água.

Sucede que este homem tem a fina inteligência dos sobreviventes, que é mais adequadamente descrita como esperteza (transformou uma derrota numa vitória, comprou com mestria apoios inesperados, quebrou tradições da sua igreja partidária dando a impressão de fidelidade aos santinhos da congregação, apoiou-se nos serviços de um hábil vigarista que já despediu e recompensou, dominou competentemente uma comunicação social que conseguiu se demitisse completamente das suas funções) e foi até agora bafejado pela sorte, que porém acabou com a chegada da maldita Covide.

O país fez, para lidar com o problema, o que faz sempre – copiou. E como por toda a parte (salvo na Suécia e pouco mais) a receita consistiu primeiro em conseguir que as unidades de cuidados intensivos não fossem inundadas de casos que lhes ultrapassassem as capacidades (o achatar da curva) mas rapidamente evoluiu para a esperança louca de estrangular a pandemia com o prolongamento e endurecimento de medidas de isolamento, Costa foi obrigado (acredito que a contragosto – é o meu palpite) a acompanhar. Portugal não é hoje, e de há muito, um país independente, nem dispõe de qualquer autonomia face ao que decidem os directórios europeus, mas cabe notar que de qualquer modo a economia levaria sempre um grande tombo, qualquer que fosse o mix de políticas adoptadas, por causa da quebra do turismo e da exportação.

De modo que o pobre Costa deve ter visto há muito (antes da camarilha acéfala de que se rodeou, que anda aliás a dormir) o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés e apostou as fichas no maná europeu (que vai espatifar, a esperteza não chega para ter um ataque de clarividência em economia, nem ele pode vir dos gurus da especialidade), no desconfinamento e na propaganda.

Daí o ataque de fúria na famosa reunião no Infarmed. A ministra Temido julga que a alhada em que estamos metidos é a da Covide, que das galinhas sem cabeça que pontificam na matéria, isto é, médicos de especialidades várias, virá alguma solução que preste, e que a máquina da Saúde pública, as polícias, a patética DGS, o stop-and-go de medidas em que com habilidade se transfere a responsabilidade das políticas públicas para os comportamentos individuais, são necessárias e suficientes para estancar o desastre.

Mas não são. O problema, antes de outra coisa qualquer, sempre foi de engenharia (como diz um amigo meu, dono de uma excelente cabeça, ainda que lá não more um jota de ciências sociais, particularmente história, que sobranceiramente despreza), isto é, de meios e organização para lidar com o problema. Ora, a administração pública portuguesa nunca se distinguiu pela eficiência; o SNS sobrevive com crónica falta de meios, que foram desviados para comprar votos; a elite política, que é quem decide, calha ser socialista, ou seja, farinha do mesmo saco da massa ignara dos governados; e para limitar os estragos convinha falar cada vez menos da doença e cada vez mais da recuperação, o que é difícil porque o génio histérico que saiu da lâmpada agora não quer lá regressar.

Tudo leva a crer que isto vai acabar mal, e não me refiro à doença, que se vai juntar ao catálogo das outras com as quais um certo número de pessoas de idade se passa todos os anos para o outro lado, mas à economia.

Sócrates lixou-se não por causa das suas roubalheiras, que nunca teriam sido denunciadas se o país não tivesse falido, mas pela vinda da troica. E o mesmo eleitorado, que lhe deu vitórias e agora lhe dá desprezo, está aí pronto para crucificar quem esteja ao leme quando o desemprego subir sem subsídios e quando a austeridade não puder ser mais disfarçada com expedientes.

De modo que o homem, com uma mão de cartas baixas díspares, está a fazer das tripas coração porque vê o monte das fichas a diminuir e pergunta a si mesmo se, com o galo com que está, conseguirá recuperar. E vê uma brutinha como a ministra Marta, que não conhece as regras do jogo e não sabe interpretar os sinais dos outros parceiros de mesa, a insistir em apostas altas sem bluff? É um desespero.

De onde vem então a minha alegada simpatia do primeiro parágrafo, só disto? Não. O homem deu protagonismo a duas mulheres, cada uma medíocre à sua maneira (no caso da Directora-Geral com laivos de comicidade patética, no da ministra com uma imagem atraente de política queque), e isso sempre me pareceu estranho. Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.

Bem visto. E como não peço desculpa a ninguém por ter uma grande admiração por Victor Lustig, tiro com respeito o meu chapéu ao prestidigitador Costa – não me tinha lembrado desta jogada. É verdade que o país não ganha nada com isso, e quase certo que desta vez os truques não vão chegar. Mas que o nosso António, como o descreviam com ternura os dois compères na Quadratura do Círculo, é o campeão da manha, lá isso é.

Ofereçam um GPS a Costa

por Pedro Correia, em 01.07.20

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Alguém lá no palacete de São Bento, onde funciona a residência oficial do primeiro-ministro, devia oferecer um GPS a António Costa.

Veio ele dizer agora, em entrevista ao jornal catalão La Vanguardia, que não haverá qualquer problema com festejos de rua nos jogos da fase final da Liga dos Campeões, que irão disputar-se na capital portuguesa, pois o "dever cívico de recolhimento" imposto a 19 freguesias da Área Metropolitana de Lisboa, no âmbito do estado de calamidade que ainda aqui vigora, não abrange o centro da cidade, onde se situam o estádio José Alvalade e o estádio da Luz.

«Não se trata de Lisboa, mas apenas de alguns bairros pertencentes a municípios vizinhos», declarou Costa nesta entrevista. Dizendo, categórico e taxativo: «Não existe nenhuma relação com o centro da cidade de Lisboa, onde se celebrará [a Liga dos Campeões].»

 

Há aqui uma óbvia fuga à verdade - eufemismo próprio dos editorialistas da imprensa portuguesa como alternativa ao substantivo mentira quando visam governantes.

Costa parece ignorar que Lisboa é um dos concelhos abrangidos pelas mais recentes medidas de confinamento impostas pela necessidade de conter a expansão do Covid-19, estando representada nesta lista nada lisonjeira pela freguesia de Santa Clara, que abrange as antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca do Lumiar. 

 

Vamos lá medir distâncias. Apenas 3,6 km separam a Ameixoeira do Campo Grande, onde irão disputar-se alguns dos jogos. Até dá para ir a pé.

Mesmo várias freguesias de concelhos vizinhos agora abrangidos pelas medidas especiais de contenção estão a curtíssima distância daqueles estádios. Seguem-se alguns exemplos: vai-se de Odivelas a Carnide, onde se disputarão outros desafios, em apenas 2,8 km; o trajecto de Camarate (Loures) ao Campo Grande esgota-se em 5,3 km; basta percorrer 2,4 km para chegar da Venda Nova (Amadora) a Benfica; e vai-se de Moscavide (Loures) ao Campo Grande em escassos 5,7 km.

 

Serve isto para demonstrar que o chefe do Governo, nesta entrevista destinada a conter danos junto dos espanhóis após uma notícia com destaque de primeira página no conceituado El País que aludia a três milhões de lisboetas novamente confinados, respondeu à falsidade com informações inexactas (outro eufemismo). 

Serve também para confirmar que necessita com urgência de um GPS. Um dos seus assessores deveria encarregar-se disso já no próximo dia 17, quando Costa soprar as velas do bolo de aniversário. As melhores prendas são sempre aquelas que se tornam úteis.

Medina na calçada para São Bento

por jpt, em 30.06.20

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Nas últimas décadas da história do PS é muito raro encontrar este tipo de críticas internas. Medina confronta-se com o disparatado rumo de tudo isto e "chega-se à frente". Durante a época do confinamento (esse que Costa diz não ter existido) andou por aí em delírio de demagogia a fingir que entregava bilhas de gás, a atrasar distribuição de material médico oferecido para aparecer na fotografia e mariolagens similares. E agora, no pós-confinamento (esse que Costa diz não ter existido), dá o primeiro passo na corrida para o pós-Costa, perdão, para o pós-Covid. Já em Abril batera na pateta DGS, mas agora vem malhar a sério.

 
Mas diz o que se sabe há muito, que "fraco rei faz fraca a forte gente". Muitos fazem para que nos esqueçamos mas Medina vem agora lembrá-lo, coisas da sua agenda própria, e nós agradecemos-lhe o mote: o desatino de Fevereiro e Março, a homohisteria do pusilânime Sousa, no seu desvairado "gozo fininho" de semi-quarentena festiva; esse florentino MNE a preparar a sagrada "presidência" dizendo da inutilidade de fechar fronteiras e agora a apregoar retaliações ... fechando fronteiras; a pateta ministra da Agricultura (como estão as exportações portuguesas que ela prenunciava lucrarem com o Covid?), o desnorte errático da consabidamente incompetente Temido - essa tipa que acha que não devemos "mamar copos" e se vai saracotear desengraçadamente entre as barrascas do Cinco para a Meia-Noite, deslumbrada com a visibilidade que este Covid lhe trouxe - e mais da Dra. Freitas (ide visitar os idosos, sede solidários), catatuando contra a escola das netinhas que encerrava à revelia da inacção estatal. Depois nós, os fascistas/populistas/tóxicos/lusotropicalistas, a resmungarmos que não se fizessem festas políticas diante do boçal Rodrigues a recusar máscaras e contenção, a sinalizar o "degelo" com o afirmar da unicidade sindical na festarola do camarada Sousa, mais o festival "born in usa" dos demagogos da cidade universitária, resquícios putrefactos da imundície socratista, e nisto agora também o mariola do Benfica a pavonear-se, todos unidos no "o que o que é preciso é animar a malta" ...
 
Meses passaram nisto, mas prepararam o tal degelo?, reescalonaram os transportes públicos (Medina pavoneia as suas ciclovias, eu sei, gutural na sua cidade-para-turistas, onde estão os turistas agora?)?, e já agora, onde estão aquelas centenas de ventiladores comprados, já estão disponíveis?, reescalonaram os serviços de saúde pública?
 
Costa, que se rodeia desta pobre gente porque é esta que é fiel - lembrai-vos quando nós populistas/fascistas/tóxicos/lusotropicalistas contestávamos um poder carregadinho de gente das mesmas famílias? - tem agora esta primeira infecção grave. Ele que se cuide, e com antibióticos - isto não é um vírus, é mesmo bactéria residente, estava adormecida. Aloja-se na peçonha, esta estirpe PS.

RGI (Reunião Geral Infarmed)

por jpt, em 26.06.20

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[Fotografia de Horácio Villalobos (Corbis via Getty Images)]

 

Interessante relato na Visão da RGI (Reunião Geral Infarmed) de ontem: a "narrativa" levou um tiro no porta-aviões. Clama Costa que a ministra Temido afinal não é o máximo, que a dra. Freitas ("ide visitar os idosos, sede solidários") só atrapalha com a sua atrapalhação, que os sacanas dos doutores esparvoam quando se atrevem a que a culpa disto tudo afinal não é dos putos que festejam. E pontapeia os gajos dos hoteis e dos restaurantes para que se amanhem com a falta de clientela - que ele já fez o que tinha a fazer, até trouxe a Champions. Ainda por cima o mascarado Rodrigues fala-lhe em "segunda vaga" do covídio, sem o avisar antes, qual Centeno, num "ninguém me diz nada"? Barafusta que a "culpa não é minha", levanta-se, num adeusinho "que já se faz tarde", segue à sua vida e dá as costas àquela malta, ali deixada a entreolhar-se até um bocado aflita com a zanga do Chefe. Até o Sousa, que ainda julgava ser o presidente.

Falta de decência

por Paulo Sousa, em 18.06.20

Era uma vez um país em que um quinto dos seus cidadãos vivia na pobreza ou no seu limiar, que tinha recebido milhares de milhões de euros por ano em transferências de fundos europeus, que mesmo assim tinha conseguido ir à falência, e que depois disso continuava a aumentar a sua dívida em várias dezenas de milhares de milhões euros por ano.
Nesse país, um dia reuniram-se as três principais figuras de Estado para anunciar pelas televisões ao país que - orgulho! - a Final da Champions seria realizada na nossa capital!!
Dizem que o tipo que escrevia os discursos do PM lá do sítio não jogava com o baralho todo, coitado. Os pais eram primos direitos e ele babava-se um bocado, mas tinha sido o melhor no ensino especial. Deixavam-no andar por ali porque ajudava a preencher as quotas para que a equipa de assessores fosse inclusiva.
O discurso tinha de mostrar ao país que esta grande conquista – não, não tínhamos nenhum astronauta na ISS, era muito melhor do que isso – era uma conquista de todos os cidadãos. O gajo adorava bola e estava em êxtase. Ele latejava de inspiração e o teclado já estava em brasa.
Se estivéssemos a atravessar mais uma época de incêndios, esta fantástica e maravilhosa conquista seria um prémio para os nossos bombeiros, os nossos heróis, mas como ainda não está a fazer calor... então ia bem era para os profissionais de saúde, pronto! Isso sim, era uma boa ideia. As palmas na varanda já lá vão. Eles mereciam alguma coisa objectiva e de efectivo valor. Era por isto que eles ambicionavam!
Felizmente o chefe dos Spins leu o discurso antes de o passar para as mãos do PM e achou que afirmar que este evento “era um prémio merecido para os profissionais de saúde” seria ofensivo para os próprios, riscou a frase e, à costa da mão, deu uma bofetada ao anormal que a tinha escrito.
E assim o último limite da decência foi salvo.

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Monumento ao cinismo político

por Pedro Correia, em 09.06.20

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António Costa falou ao país à hora dos telediários do almoço, tendo à sua direita o cessante ministro das Finanças, pouco depois de este ter consumado sem mais delongas a séria ameaça feita há escassos 29 dias.

Fê-lo obedecendo novamente a uma estratégia de contenção de danos: procurou transmitir a ideia de que mudar o titular da pasta das Finanças no próprio dia em que é apresentado ao País um orçamento suplementar - algo inédito em Portugal e muito difícil de justificar em tempo de pandemia -  constitui o acto de gestão corrente mais natural do mundo. 

 

Fiel cultor da política florentina, que teve Maquiavel como expoente máximo, António Costa não resistiu, no entanto, a espetar uma farpa em directo ao ministro demissionário: «Infelizmente, o Covid não me permite dar agora o abraço que me apetecia dar ao Mário Centeno.»

Minutos depois, revelando ter aprendido muito com ele ao longo destes quase cinco anos de estreita convivência, Centeno deu-lhe o troco em tom idêntico e com o mesmo sorriso glacial: «O abraço fica para uma altura sanitariamente conveniente.» 

O vírus, aqui, só serve de desculpa: ficou evidente que os dois agora se detestam.

 

Esta nada edificante troca de galhardetes, com o País a assistir, é um monumento ao cinismo político. E um mau prenúncio dos tempos que vão seguir-se.

Apesar de tudo, do mal o menos: o novo ministro das Finanças chama-se João Leão. Com este apelido, só pode contar com o meu aplauso e o meu apoio.

 

Leitura complementar: Le parti c'est moi.

Táctica + Estratégia = Agora é que é!

por Paulo Sousa, em 01.06.20

A aterragem do paraquedista António Costa da Silva no nosso espaço público foi o mais parecido com o envio dos dois astronautas para a Estação Espacial Internacional que o nosso governo nos conseguiu oferecer.

Dizem que o senhor é que vai delinear a estratégia do país. Agora é que vai ser! Se calhar o que tínhamos até agora era apenas uma táctica, o que no fundo é a estratégia dos pobres.

Um bêbado letrado da minha terra dizia que a táctica era delineada com vinho branco e a estratégia com vinho tinto e, vendo bem, essa lógica pode explicar os ziguezaguiantes sucessos do nosso país.

Depois existem aquelas tretas chamadas formalidades democráticas. Para se ser ministro não é necessário ser-se eleito, mas é necessário ir ao palácio do PR tomar posse e assinar uns papéis.

O António Costa II O Estratego, que foi convidado pelo António Costa I O Táctico, foi dispensado de tudo isso porque o nosso regime não prevê ter estratégia alguma. Por omissão então aceita-se sem sobressaltos que o PM angarie alguém, sem esclarecer quem lhe remunera as horas gastas, se há acumulação de funções ou conflito de interesses.

E isto é normal, porque estamos em Portugal.

Bloco central, versão Covid

por Pedro Correia, em 22.05.20

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Nasceu hoje, em Ovar, de parto natural, para deleite dos progenitores e do gentil obstetra que acompanhou os procedimentos na maternidade local. Aparenta robustez e já mama vigorosamente, segundo relatam as gazetas com base em relatos fornecidos por testemunhas presenciais do feliz acontecimento. 

Associamo-nos às congratulações generalizadas que têm emanado do Minho ao Algarve, sem esquecer as ilhas adjacentes, augurando desde já ao rebento uma vida longa, próspera e repleta de bênçãos terrenas e celestes.

A bem da Nação.

Diário do coronavírus (11)

por Pedro Correia, em 21.05.20

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Foto: Miguel A. Lopes / Lusa

 

O primeiro-ministro foi almoçar com o presidente da Assembleia da República. Isto é notícia cá na terra: convocaram-se os jornalistas, que logo acorreram, e todos derramaram abundante eco de tal facto.

No final, Rodrigues não teve nada de mais interessante para dizer do que recomendar, ele também, o voto em Rebelo de Sousa, o candidato socialista. Costa, bem ao seu estilo, ironizou algo desdenhosamente com um dos raros méritos da pandemia: agora já não anda a ser tocado ou atropelado por jornalistas, que mantêm irrepreensível zelo na manutenção da distância física. A que quase todos chamam "distanciamento social" - expressão de óbvia importação dos States, a terra de todos os absurdos. E nós adoramos aportuguesar de imediato qualquer expressão imbecil que traga selo "amaricano".

 

Rebelo de Sousa, também muito ao seu estilo, decidiu não ficar atrás. No dia seguinte (ontem) decidiu ele almoçar num restaurante e fez questão de que isso fosse igualmente notícia.

Falta muito pouco para regressarmos ao espírito da época em que se imprimiu a primeira notícia do Diário de Notícias, a 29 de Dezembro de 1864: «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

 

Convocados os jornalistas, que acorreram com idêntico zelo ao que haviam revelado na véspera e o mesmo sacrossanto respeitinho sanitário, Sua Excelência abancou no restaurante usando máscara e luvas, enquanto o Chefe da Casa Civil da Presidência da República, sentado à conveniente distância de dois metros, transportava uma aparatosa viseira.

Lá estiveram nestes preparos, muito "higienizados", enquanto a cordata chusma de repórteres filmava e fotograva. Sem que ninguém ousasse dirigir ao Presidente a pergunta que se impunha: «Se veio aqui para demonstrar aos portugueses que agora já podem ter confiança nos restaurantes por que motivo está sentado à mesa de máscara e luvas, e a pessoa que o acompanha veio de viseira, à semelhança dos agentes da GNR quando inspeccionam veículos suspeitos?»

 

Ao nosso enluvado e mascarado Presidente parece não ter chegado ainda o eco das mais recentes "evidências científicas" divulgadas pela Organização Mundial de Saúde: não existem provas de contágio de Covid-19 através de superfícies eventualmente contaminadas. Segundo a OMS, a constante desinfecção das ditas é um mero placebo, equivalente ao copo de água que alguns tomam todas as manhãs em jejum e certamente menos intrusiva do que a hidroxicloroquina sem prescrição médica que Donald Trump ingere: dá «maior tranquilidade à população»

Que bom: poderemos recuperar a vontade de "tocar em superfícies". Faltam poucos dias para que as damas sanitárias que nos pastoreiam anunciem a Boa Nova aos indígenas em conferência de imprensa. 

Mal posso esperar.

O candidato socialista

por Pedro Correia, em 19.05.20

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António Costa, na Autoeuropa, 13 de Maio: 

«Como não há duas sem três, cá devemos voltar outra vez. A terceira data é óbvia: é no primeiro ano do [próximo] mandato do Senhor Presidente. Portanto, faço-me desde já convidado.»

 

Ferro Rodrigues, no Bairro Alto, 18 de Maio:

«Tinha dito há um ano e meio que se as eleições fossem amanhã não hesitaria em votar no Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Não tenho motivos nenhuns para retirar isso.»

Le parti c'est moi

por Pedro Correia, em 14.05.20

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António Costa foi ontem confrontado com o pedido de demissão do ministro das Finanças devido ao conflito surgido a propósito de uma injecção financeira ao Novo Banco - aliás prevista no contrato assinado em Outubro de 2017 entre o Estado e o fundo norte-americano Lone Star, em obediência à Resolução 151-A/2017, do Conselho de Ministros. Assinada por ambos, Costa e Centeno.

Perante este problema, o chefe do Governo recorreu a um dos seus truques mediáticos: desviou o foco noticioso, aproveitando uma visita à Autoeuropa para lançar a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa ao Palácio de Belém. Com o apoio implícito do partido do Governo e a convicção plena de um triunfo nas urnas - ao ponto de ter antecipado aos portugueses que daqui a um ano Marcelo continuará ao leme da barca presidencial. 

De uma assentada, resolveu três problemas: mudou de imediato o curso das manchetes noticiosas, com óbvio impacto internacional, pois Centeno é também presidente do Eurogrupo; reforçou o afecto do Chefe do Estado, algo sempre útil em situações de crise; e afastou de cena a incómoda Ana Gomes, que não contará com o seu voto. 

spin governamental apressou-se a comunicar que, naquele momento, Costa não falava enquanto primeiro-ministro - apesar de a visita a Palmela constar da sua agenda oficial - mas como secretário-geral do PS. O que torna tudo mais insólito, pois não consta que tenha consultado os órgãos dirigentes nem as bases a propósito de tão magna questão. Aliás o congresso socialista que devia decorrer no fim do mês em Portimão e as eleições internas a ele associadas - incluindo a eleição do secretário-geral - foram remetidos para data incerta, algures no Verão. 

Eis uma curiosa concepção unipessoal da política: Costa decide pelo PS sem consulta prévia ao partido. Como se batesse no peito, proclamando: «Le parti c'est moi.» Singular cruzamento de Luís XIV com Tarzan: os socialistas parecem apreciar.

Recordar é viver.

por Luís Menezes Leitão, em 13.05.20

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Em 2017 escrevi isto sobre a ascensão de Mário Centeno: "Por muito bom que seja o seu desempenho na pasta das Finanças, não há a mínima possibilidade de Mário Centeno aspirar a substituir António Costa. Se Mário Centeno tem alguma esperança de usar a pasta das Finanças para chegar a primeiro-ministro, que se desengane. A história não se repete e nem Mário Centeno é Salazar nem António Costa se chama Domingos Oliveira".

Hoje, conforme então previ, a história não se repetiu.

Vinte e quatro horas

por João Sousa, em 18.04.20

Na quinta-feira:

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Na sexta-feira:

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Por todos os santinhos, não lhe perguntem nada hoje!!!

Manifestação do 1º de Maio

por jpt, em 18.04.20

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É uma questão de racionalidade, só. Manifestações do 1º de Maio são desrespeito por quem está confinado. É também uma indução para que todos saiamos de casa o mais depressa que nos apetecer (já hoje de manhã). E acima de tudo, "caramba", é um perigo. É um perigo naquele dia - por mais que invoquem as loas das "regras de segurança".. E é um perigo porque dá sinal para nos juntemos em massa a partir daí. Os tipos do regime perderam a cabeça - e não percebo como não encontro gente da dita "esquerda" a dizer esta coisa simples: não é o momento para manifestações. Nem sanitário, nem político. Esta ligeireza, esta cabotagem, é demencial. Vivemos a maior crise da nossa vida e esta gente dá esta pontapé no próprio regime? Urge reencontrar algum tino:

Marcelo não o tem, ocupado no "gozo fininho" de flanar, na patética homoerotização do poder. A Costa terá acontecido algo, exaustão talvez, para se meter nisto (e aquela ministra Vieira da Silva, dizendo que a proibição de presença nos funerais é "por acontecimentos que aconteceram no mundo" e que é diferente de permitir manifestações porque foi uma decisão anterior, ultrapassa tudo o que se tenha visto em governos). Rio é o que é, em volta de si mesmo - o que poderia ser bom, caso fosse pintor ou músico, mas o homem é político. A IL é muito pequena e o CDS, enfim, é uma memória, e agora uma irrelevância júnior e inculta. E o BE é óbvio que adere a um COVID Parade, para celebrar a vitória sobre o vírus com as gentes festivas.

Resta o PCP. Goste-se ou não sempre teve uma racionalidade. Dizem-no monolítico e repetitivo muito porque tem a sua racionalidade e as suas razões. E o 1º de Maio é palco da CGTP. Quer o quê, fazer uma "jornada de luta" na exacta conclusão do confinamento, a este afirmar/celebrar como feito "dos trabalhadores"? Ok (de facto até concordo com essa versão). Mas faça-o de outra forma. É o PCP que deveria ser o primeiro a dizer "não é o momento". A data é importante? Os símbolos são importantes? Sim. Mas são-no pelo que significam, não como bonecos do menino jesus ou santinhos de loiça. Proponham a troca de data. E mostrem a "nave de loucos" em que estes tipos se tornaram. Ou então vão, também, na onda. Troquem uma manifestação por esta "parade". Sejam como os outros, descabidos e irrelevantes.

És muito bom, António

por Pedro Correia, em 15.04.20

A esposa do ministro da Economia, falando na primeira pessoa do plural enquanto vice-presidente da Associação de Hotelaria de Portugal, surge na TVI a felicitar a entrevista concedida escassas horas antes pelo primeiro-ministro ao Observador«Aplaudimos. Foram, de facto, declarações muito felizes.»

Quanto mais a crise aperta, mais se percebe que este Governo não brinca em serviço.

Oh meu!! A tua atitude é repugnante!!

por Paulo Sousa, em 28.03.20

Um fanfarrão que se preze sabe que há combates que não vale a pena travar.

Depois de começar a levar murraças do diabo invisível, aka covid-19, o António Arrasa Pandemias Costa convocou o “focus group” com urgência e foi-lhe recomendado que devia mudar rapidamente de nome artístico.

Foi tudo muito rápido. Ele ofereceu porrada à pandemia num dia e a ordem dos médicos desmentiu-o no dia seguinte. O público esquece as promessas, é certo, mas deviam ter passado mais umas horas.

O Conselho Europeu por video-conferência foi assim a ocasião ideal para fazer esquecer o desaire anterior.

Senhoras e senhores, e a nova estrela chama-se... António Arrebenta Ministros Holandeses Costa.

O bom senso recomenda que não se façam ameaças que não se esteja disposto a cumprir, mas isso não trava o António Arrebenta Ministros Holandeses Costa. Ou recuas ou a UE acaba!!

O público sabe bem que sem o dinheiro da UE para distribuir o PM português nunca teria público, mas a realidade é um detalhe, aqui joga-se com a ilusão. E ele não vacila, de mangas arregaçadas, grita para o écran, através do qual o holandês se protege: Oh meu, lembras-te do golo do Maniche no Euro? Não tás bem a ver com quem te estás a meter!! A tua atitude é repugnante!!

O público, que estava retraído já há uns dias (já havia quem dissesse que António Arrasa Pandemias Costa era um fanfarrão) levantou-se numa ruidosa ovação. Isto sim! Política espectáculo!

Agora que já só há futebol na RTP Memória, valha-nos o António Arrebenta Ministros Holandeses Costa para animar as hostes.

Por-tu-gal!! Por-tu-gal!! Por-tu-gal!!

Quantos são? Quantos são?

por Paulo Sousa, em 27.03.20

É vulgar dizer-se que estudar a história ajuda-nos a evitar a repetição de erros cometidos. Faz sentido. Até por ser frequente isso se confirmar da pior forma, quando erros evitáveis acabam por ser repetidos.

Sobre a maneira de lidar com a ameaça que estamos a viver, podemos olhar para trás e procurar em que período histórico algo idêntico ocorreu, e não encontramos nada comparável que se tenha passado em democracia e nem com um volume de actividade económica e envolvimento internacional comparável.

Governantes realistas, que não pretendessem iludir os seus cidadãos, deveriam assumir que a imprevisibilidade do desafio poderia surpreender a todos da pior forma.

Por mais precavido e apetrechado que seja um sistema de saúde existirá sempre um ponto a partir do qual deixará de conseguir responder. Esse ponto varia de sistema de saúde para sistema de saúde, mas todos têm um ponto de ruptura.

Se as coisas assim forem explicadas à população, jogo aberto sem nada na manga, cada cidadão fará o seu juízo. Existem sempre alguns que gostam que lhe prometam impossíveis e por isso continuam a preferir ser governados por mentirosos, mas quando falamos em maturidade democrática importa falar claro e assumir a realidade. Numa hora de ameaça absoluta Churchill não prometeu mais que sangue, suor e lágrimas. E não desiludiu.

O nosso governo, na figura do Sr. Costa, tem se comportado como um fanfarrão à beira de uma rixa de rua com um possível campeão de pesos pesados, a que ainda nem sequer vislumbrou o caparro. Enquanto arregaça as mangas já tem um olho à Belenenses e já começou a gritar que o animal se vai arrepender, pois ainda nada faltou nem é previsível que venha a faltar ao SNS.

Bem sabemos que o esforço feito nos últimos anos para eliminar o défice desguarneceu alguns serviços públicos. Foi uma opção legítima mas que levou a que o ponto de ruptura do SNS estivesse, mesmo sem pandemia, intermitentemente à vista.

Chegados a este ponto, ninguém com seriedade pode garantir que está preparado para a refrega.

Se tivessem lido os antiquíssimos ensinamentos do mestre Sun Tzu na Arte da Guerra, teriam consciência que não conhecem o adversário, nem o terreno e não tiveram a iniciativa. Não garantir apenas um destes pontos pode ser suficiente para ser derrotado.

Mas ele continua voluntarioso a esbracejar para que no final ao menos se venham a lembrar dele como um fanfarrão enérgico. A imprensa amiga irá tentar cozer-lhe os sobrolhos. As baixas serão uma estatística lamentável, mas a deslealdade com que trata os seus soldados, os profissionais de saúde, ficará para memória futura.

O raspanete

por Pedro Correia, em 26.03.20

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Em tempo de emergência, e não estando em funções o governo de unidade nacional que o ex-ministro socialista Marçal Grilo reclama, a oposição cumpre o seu estrito dever fiscalizando o Executivo e criticando-o, se for caso disso. Seja aqui, seja em qualquer outro país democrático. Aliás, não é preciso inventar nada: basta proceder agora, por exemplo, como fez o PS quando militou na oposição activa à coligação governamental PSD-CDS durante a grave emergência financeira que durou de 2011 a 2014.

Mas com Rui Rio investido no papel de "líder da oposição", o padrão altera-se. Este presidente do PSD continua a opor-se não ao Governo mas ao seu partido. Anteontem quebrou um prolongado silêncio para criticar duramente os seus deputados, dando-lhes um público raspanete. Porque assinaram a folha de presença e desapareceram, como fez o secretário-geral José Silvano na legislatura anterior? Não, porque se encontravam presentes no hemiciclo de São Bento, cumprindo a função para que foram eleitos.

«Tenho aqui um conjunto de senhores deputados que não deviam estar aqui e estão. E vou ser o primeiro a sair para dar o exemplo àqueles que aqui estão e não deviam estar.» Foi este o raspanete que Rio deu ao grupo parlamentar, com as televisões a registarem em directo e os socialistas a assistirem de poltrona. Como um menino queixinhas e birrento, abandonou a sala das sessões e deixou todo o hemiciclo atónito com esta desqualificação inédita aos seus deputados. Não aos "tenebrosos passistas", como Maria Luís Albuquerque, Luís Montenegro, Hugo Soares ou Miguel Morgado, que já não integram a bancada, mas por gente que ele escolheu.

 

É pena que Rio, tão indignado com os seus, não tenha reservado uma réstia dessa energia para se indignar contra a falta de condições dos hospitais públicos no combate à pandemia, cumprindo à risca o assumido lema de «colaboração com o Governo» que dias antes anunciara. Isto impediu-o, portanto, de questionar o primeiro-ministro sobre a grave carência dos meios de saúde pública no combate ao coronavírus: faltam médicos, faltam camas hospitalares nos cuidados intensivos, faltam ventiladores, falta equipamento de protecção individual. O que tem levado os profissionais de saúde a fazerem desesperados apelos a empresas para a oferta de máscaras e luvas. E agem assim por saberem melhor que ninguém o que lá se passa: neste momento, 8% do número total de infectados em Portugal com Covid-19 são profissionais de saúde.

«Continuam a chegar-me todos os dias vários relatos de médicos que trabalham sem condições mínimas de segurança, por falta de equipamentos básicos para todos os profissionais de saúde», denunciou o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, contradizendo o primeiro-ministro, que na fleumática entrevista ao Jornal das 8 da TVI, segunda-feira, garantira sem hesitar: «Até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja.»

Para Rui Rio, nada disto parece importar. Daí que ninguém se admire ao vê-lo protagonizar o passatempo habitual deste partido: fazer oposição a si próprio. O país real, como de costume, vai passando ao lado.

Discordâncias.

por Luís Menezes Leitão, em 17.03.20

Diz-se aqui que o Primeiro-Ministro e o Presidente da República discordam sobre a declaração do estado de emergência.Esta discordância não é irrelevante. Apesar de o art. 138º da Constituição prever que a declaração é da competência do Presidente da República, após obtida a autorização da Assembleia da República e apenas exigindo a audição do Governo, a verdade é que este acto do Presidente da República precisa de ser referendado pelo Primeiro-Ministro sob pena de ser considerado juridicamente inexistente (art. 140º da Constituição).

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Agora virão dizer que é aproveitamento (populista) para criticar governo e o topo da hierarquia do funcionalismo socialista. Mas como digerir a notícia de que a Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares encerra o atendimento público a partir de amanhã. E as escolas não encerram! Estes gajos estão loucos!?

(Conviria entretanto perceber que o tal Conselho Nacional de Saúde Pública, que decidiu "esperar para ver" nisto da questão do encerramento das escolas, são 30 pessoas. Cuja esmagadora maioria nada tem a ver com a matéria, meros representantes da "sociedade civil".)

Isto é uma pantomina, desnorteada. As "duas catatuas", a apatetada ministra e a anciã das hortas (essa decerto directora-geral da Saúde que nos dizia que muito dificilmente o raio do vírus cá chegaria, tanto ajudando assim à consciencialização dos cidadãos e dos seus próprios funcionários) . Acima Costa dirá, a seu tempo, "não me faça(m) rir, a esta hora".

Adenda: A Direcção-Geral nega, dá o dito por não dito, volta atrás. A notícia é esclarecedora, adiantaram-se umas horas ao que vai ser anunciado. Entretanto o governo continua à procura de um "consenso político" entre os partidos para encerrar as escolas, e isto porque o "Conselho Nacional de Saúde Pública" (os tais representantes dos grupos corporativos, dita falsamente "sociedade civil") terem negado esse encerramento. Isto não é um desnorte. É até pior, é uma disfuncionalidade. Desesperante.


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