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Delito de Opinião

A incompetência de António Costa

jpt, 15.01.22

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Estamos a quinze dias das eleições, em plena campanha eleitoral. Nos últimos dias o ex-ministro da Administração Interna, Cabrita, é constituído arguido naquele processo de atropelamento, no qual teve, pelo menos, uma prática discursiva patética (o que será uma avaliação universal, independente das simpatias políticas de cada um), para além de uma atitude moralmente condenável (o que já dependerá do ponto de vista de cada um. Mas, caramba, é preciso ser muito faccioso para não lhe apontar o dedo...). E agora o tribunal absolve o ex-ministro da Defesa, Lopes, no grave caso do roubo de armamento militar, por o considerar incompetente para o exercício de funções governamentais (e já nem falo da atitude do ex-ministro ao aceitar essa argumentação para se libertar do processo que lhe fora colocado, uma evidente falta de auto-respeito). Ou seja, ao absolver Lopes o tribunal exara uma clamorosa censura a quem o escolheu para ministro, António Costa.
 
Ambos os ex-ministros foram muito criticados por parte da opinião pública e por alguma imprensa. Mas foram também veementemente defendidos pelos "fazedores de opinião" (comentadores, jornalistas) e pelo PS. E, acima de tudo, pelo Primeiro-Ministro Costa, que os sustentou até ao limite do politicamente possível.
 
Se o primeiro governo de Costa foi muito criticado pela sua "endogamia" (até literal), pelo seu ensimesmamento em torno de um pequeno núcleo socialista, este segundo que agora terminou tentou limpar-se dessa imagem, pelo menos abdicando de integrar relações familiares. E as opções de Costa deram nisto: para pastas fundamentais teve uma confiança total num mero "passageiro" que acaba arguido, imoralizado num acidente mortal decorrido em matéria da sua tutela; uma confiança total num juridicamente considerado inimputável, por incompetência intelectual, para exercer a tutela sobre as matérias que lhe competiam.
 
E é absolutamente inenarrável que a mole de apoiantes do PS, militantes, simpatizantes, avençados, meros eleitores flutuantes, face a isto tudo não encarem Costa com, pelo menos, uma estupefacta suspeição sobre a sua competência para chefiar governos. Ainda por cima, repito, porque estamos a apenas quinze dias de eleições.
 
(Mas, estou certo, muitos deles andarão para aí a botar a conversa sobre a competência e legitimidade do P-M da longínqua e pérfida Albion que deixa o seu gabinete fazer festas durante o Covid. Às vezes é uma desgraça ser... compatriota desta gente).

Frase nacional de 2021

Pedro Correia, 15.01.22

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«Já posso ir ao banco?»

António Costa para Ursula von Der Leyen, 16 de Junho

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases:

 

«Tenho um excelente ministro da Administração Interna e vivo muito bem com o senhor ministro da Administração Interna.»

António Costa, justificando a manutenção de Eduardo Cabrita no Governo (Maio)

 

«Estou irritantemente optimista.»

Marcelo Rebelo de Sousa, sugerindo que as medidas de restrição impostas pela pandemia iriam ser suavizadas (Julho)

 

«Vejam o parolo que sou.»

Augusto Santos Silva, demarcando-se de Sócrates, com quem trabalhou durante anos (Maio)

 

«Não há vidas insignificantes nem vidas menos importantes. Somos todos seres humanos.»

Gouveia e Melo, ao receber um Globo de Ouro na SIC (Outubro)

 

«Nunca haverá um governo de direita se o BE o puder impedir.»

Catarina Martins, na ressaca do chumbo do Orçamento em que votou com a direita (Novembro)

 

«Eu sou o passageiro.»

Eduardo Cabrita, sobre o atropelamento mortal de um trabalhador pela sua viatura oficial (Dezembro)

 

«O azar de Rendeiro foi haver eleições em Janeiro.»

Rui Rio, numa crítica à Polícia Judiciária que quase ninguém entendeu (Dezembro)

 

«Fiz mal em ir para o Governo, perdi uma fortuna incalculável.»

Manuel Pinho, tentando - sem sucesso - puxar à lágrima em entrevista ao Expresso (Dezembro)

 

«Temos de ir jogo a jogo.»

Rúben Amorim, treinador campeão pelo Sporting ao fim de 19 anos (Dezembro)

 

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Frase nacional de 2017: «Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

(António Costa)

Frase nacional de 2020: «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

(Ferro Rodrigues)

Da «libertação» à depressão

Pedro Correia, 22.12.21

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A 20 de Julho, numa espiral de propaganda já a pensar nas autárquicas de 26 de Setembro, o Governo começou a anunciar um suposto "dia da libertação total" da covid-19, logo ecoado pela imprensa afim. 

A 29 de Julho, o primeiro-ministro especificava: seriam introduzidas «três fases para a próxima fase de libertação da sociedade e da economia, de modo progressivo e gradual». A escolha das palavras não era inocente.

Nesse dia jornais como o Expresso imprimiram aquilo que António Costa mais queria ler: «Libertação total marcada para Outubro.»

 

Parece ter sido há uma eternidade.

Que «libertação», afinal?

Ontem, na sua enésima conferência de imprensa a propósito do coronavírus, António Costa anunciou um novo pacote de severas medidas restritivas. Num certo sentido, foi mais longe que nunca. Agora vai ao ponto de recomendar-nos que usemos máscaras dentro de casa e partilhemos a ceia natalícia devidamente distanciados, com as janelas todas abertas. E deixa o aviso: «Que ninguém deixe de fazer pelo menos um daqueles autotestes antes da consoada e do almoço de Natal.»

 

Hei-de rever no dicionário o conceito de «libertação». 

Quase apostava que nada tem a ver com este clima de depressão em que voltamos a mergulhar.

A mudança política em curso

Paulo Sousa, 09.11.21

A percentagem da população que passou a auferir de transferências directas do Estado aumentou significativamente nos últimos 20 anos, e parte significativa destes beneficiários têm nestas transferências o seu principal meio de subsistência. Este mesmo período de tempo foi inegavelmente marcado por uma hegemonia do PS, hegemonia essa que tem neste aumento do números de dependentes do estado a sua principal marca. Poderão dizer que não, que a principal marca deste período da nossa história é a estagnação económica, mas essa é apenas outra face da mesma moeda.

É eleitoralmente difícil sair desta armadilha, pois como sabemos é possível ter uma maioria absoluta com pouco mais de 40% dos votos, e a percentagem dos que não querem mudar a actual situação é bem maior.

Aquando da mais recente falência do estado português, os nossos credores exigiram que mudássemos de rumo. Nesse período de tempo foram-nos impostas diversas reformas que acabaram por permitir uma recuperação. A chegada da geringonça apelidou de “reposições” ao recuar deste processo e assim regressamos ao imobilismo e à estagnação. A actual crise política foi desencadeada pelo esgotar das “reposições”, sendo que durante esse processo lá nos continuamos a afundar nas comparações com outros países europeus.

Nestas duas décadas a dívida pública aumentou de 70 mil milhões para 270 mil milhões. Não estivessem as taxas de juro a ser distorcidas pelo BCE e a ilusão da sustentabilidade desta dívida seria impossível de manter. No dia em que as taxas de juro subam 1 ou 2 pontos percentuais entraremos numa nova bancarrota.

Perante uma conjuntura como a actual, em que os aumentos das matérias-primas e da energia provocam uma subida consistente de preços, seria normal contar com um aumento das taxas de juro. As pressões políticas para que o BCE não o faça são significativas, mas não sabemos até quando o ADN do Bundesbank, que corre nas veias do BCE, adiará a tomada das medidas recomendadas pelos livros de economia para travar a inflação.

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Sendo este o cenário de fundo, António Costa afirmou na entrevista de ontem que em 2022 pretende aumentar a função pública, o salário mínimo e as pensões. Essas são as variáveis que considera adequadas para atingir os objectivos do PS, que se resume e continuar no poder.

Num cenário pós-eleitoral em que António Costa não consiga reunir apoio parlamentar que lhe permita governar, já sabemos que sairá de cena. É aí que poderá entrar Pedro Nuno Santos, a quem será mais fácil novos entendimentos à esquerda. Esta possibilidade colocar-nos-á a caminho de mais uma ruptura financeira, embrulhada nas lamechices habituais. E sim, podemos sair destas eleições tendo Pedro Nuno Santos como PM. Votar PS pode ter essa consequência.

António Costa diz que agora, e se tal for necessário, até se poderá entender com o PSD, mas nada diz sobre outra coisa que não seja manter o PS no poder. Certamente seguindo as notas dos seus assessores de comunicação, e para contrapor com Medina, ontem mostrou-se humilde batendo várias vezes com a mão no coração. Mesmo recorrendo a estas mensagens subliminares, nada diz como pretende inverter a estagnação das últimas duas décadas e sobre o que deve ser feito para que se possam aliviar as gerações futuras da dívida que nestes 20 anos quase quadruplicou.

É por isso que as próximas eleições serão uma oportunidade única para invertermos o triste caminho que o país tem trilhado. Para isso, será necessário levar as gerações mais novas às urnas de voto. Só com a entrada dos eleitores que votam pela primeira vez, e dos que normalmente se abstêm, será possível reduzir o peso relativo dos que não querem saber do futuro do país e votam apenas olhando para o respectivo umbigo.

Dia de emoções fortes

Pedro Correia, 27.10.21

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Fotograma de Cape Fear, de J. Lee Marshall (1962)

 

A geringonça morre por implosão, entre o drama florentino e a telenovela mexicana.

O Bloco de Esquerda impõe o "distanciamento social" face a António Costa.

O PCP, afundado nas autárquicas, reforça a máscara protectora para evitar ser contaminado pelo vírus socialista.

Margarida Martins, até há poucos dias presidente da Junta de Freguesia de Arroios, em Lisboa, constituída arguida por suspeita de crime de peculato.

 

Pela primeira vez nos 45 anos de história da democracia portuguesa, um Orçamento do Estado é chumbado.

Eduardo Cabrita abandona enfim a pasta da Administração Interna. 

Aproximamo-nos dos padrões europeus: não há governo. Tal como na Holanda ou na Alemanha.

Nem há orçamento. Como aconteceu em Espanha, que esteve dois anos sem novas contas do Estado aprovadas no parlamento.

 

Do fundo do poço, escuta-se o eco já débil da voz de António Costa: «O governo cai no dia em que precisar dos votos do PSD para aprovar um Orçamento.»

Raras vezes o primeiro-ministro cessante esteve tão certo.

Limianos

jpt, 26.10.21

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Paulo Portas, que desta poda muito sabe, já avisara. Os deputados PSD da Madeira poderão de "modo autónomo" (ou seja, em acordo partidário esconso) viabilizar o orçamento, coisa que o seu dirigente já veio confirmar.

Convirá recordar que numa época de "vacas gordas" (apesar do então celebrizado "discurso da tanga") o PS de Guterrres fez um acordo parlamentar esconso com o CDS de Portas, através do manuseio de deputado Campelo, que aparentemente tudo trocou pelo queijo Limiano. O presidente Sampaio muito hesitou em aceitar tal solução. Os seus conselheiros dividiram-se na opinião. Mas acabou por aceitar tal opção - que de facto foi uma violação do espírito da constituição e, como tal, um perjúrio presidencial. Morreu, em paz, sem que tivesse sido efectivamente escrutinado por tal cedência.

O arranjo "limiano" - cujo vero conteúdo se comprovou, para quem pudesse ter dúvidas, quando o deputado Campelo, apesar de ter sido temporariamente sancionado pelo seu partido, veio a ser chamado para o governo quando Portas a ele acedeu - foi pestífero. Provocou um bamboleio tal que o governo caiu dois anos depois, apesar do PS ter exactamente metade dos deputados. Nesse trambolhão promoveu ao poder uma inconsequente direcção do PSD e causou uma atrapalhada sucessão no PS que desembocou numa incompetente direcção que logo se veio a desagregar, em rumo espúrio. Disto tudo brotou o longo consulado do pérfido José Sócrates - que as pessoas das lideranças políticas já bem conheciam, por mais vestais que se queiram continuar a afirmar. 

Toda aquela marosca, repito, foi no tempo "das vacas (europeístas) gordas". E teve o deletério efeito de longo prazo que teve. Agora, neste estado endividado, (quase) pós-pandémico e diante da crise internacional anunciada, não há espaço para tais artimanhas. E temos o pior presidente da república da história do regime, o mais volúvel e superficial, homem desprovido da gravitas que Sampaio tinha. Incapaz de pensar o país para além da sua vácua vaidade. Só podemos exigir a Rui Rio que não se ponha com brincadeiras destas. E a Costa que tenha tino. E vice-versa.

 

Tudo isto é poucochinho

Pedro Correia, 25.10.21

Uma semana antes do Dia de Finados, a "geringonça" exala o último suspiro. António Costa - outrora o grande agregador da esquerda, derrubador de putativos "muros de Belim" - acaba mais isolado que nunca. Nem PCP, nem Bloco de Esquerda, nem sequer o PAN aprovam o seu Orçamento do Estado.

Como diria António José Seguro, tudo isto é poucochinho. Cá se fazem, cá se pagam.

O Conde de Rebelo*

José Meireles Graça, 14.09.21

Todo o lisboeta sabe onde fica a Avenida Duque de Ávila; e eu também, desde que a invenção do GPS me habilitou a aceder com facilidade aos lugares mais recônditos.

Agora, quem foi o duque poucos saberão. E fazem muito bem porque aquele distinto nobilitado (primeiro conde, primeiro marquês e primeiro duque daquela designação – Ávila porque era o seu nome e Bolama porque desenlaçou um obscuro conflito com o Reino Unido em torno de uma ilhota guineense) teve uma carreira política brilhante, tendo sido deputado, várias vezes ministro e presidente do Conselho, além de presidente da Câmara dos Pares, mas não deixou nenhuma obra, pensamento, escrito, política, iniciativa ou realização memorável.

É lembrado unicamente por ter proibido as Conferências do Casino, umas reuniões inócuas onde o escol intelectual da sociedade portuguesa se propunha “criticar o status quo político, social e cultural português da época, as suas instituições, os seus valores, a sua visão do mundo: a Monarquia, a Igreja Católica, a Universidade de Coimbra, o sistema de ensino, o meio literário, a imprensa, o liberalismo económico e a organização social que daí advinha, e o espírito conservador, acomodado, abúlico, que caracterizava a sociedade de então”.

Aquela nata constatava a decadência e o relativo atraso do país, e queria debater os remédios. Nada, porém, oferecia de concreto, salvo um socialismo mais ou menos romântico, um republicanismo larvar, um anticlericalismo militante, a necessidade da morigeração de costumes e uma denúncia consistente dos mecanismos políticos e do pântano nacional – “choldra torpe” lhe chamou Eça via o alter ego João da Ega.

As Conferências não são lembradas pelo que de relevo lá se disse, mas porque a chamada Geração de 70 se desentranhou em homens brilhantes, entre eles Eça, o escritor que, com Camões, Camilo e Pessoa, produziu o melhor a que a literatura portuguesa já ascendeu (é a minha opinião; e quem tiver outra que se dane). Dali não seria provável que saísse qualquer projecto consistente. Nem poderia: a ideia de que um artista, seja ele escritor, músico, pintor, escultor, dançarino ou arquitecto, é depositário de alguma espécie de lucidez ou sabedoria que falha ao comum dos mortais era na altura, e é hoje, uma fantasia; e a condição de intelectual e pensador, então e agora, produz com frequência suficientes e pesporrentes. É certo que os sábios tendem a ser cultos, mas os cultos burros, não poucas vezes – não faltam exemplos nas cátedras da opinião.

Daquela geração dourada saíram republicanos, políticos da monarquia constitucional, até socialistas, e alguns que por obras valerosas da lei da morte se libertaram. O que não saiu foram soluções para o atraso: estas começariam a desenhar-se mais de meio século mais tarde, com o Estado Novo, que se ocupou primeiro da dívida, depois das infraestruturas públicas e, a seguir à II Guerra e sobretudo desde a adesão à AECL, da convergência.

O regime viria a suicidar-se com a Guerra Colonial, e estava de todo o modo exaurido: a burguesia, que entretanto crescera, queria a Europa, e esta a democracia, de modo que se finou do modo que sabemos – uma história que só agora se começa a poder contar sem demasiados sobressaltos, por as guerras do fascismo e do seu anti estarem obsoletas, em que pese a comunistas e outros die-hard.

Poder-se-ia supor que acho mal que os senhores D. Pedro V e D. Luís tivessem nobilitado o ilhéu. De modo nenhum: não partilho do generalizado desprezo por quem dedica a vida ao serviço público, nem exijo que os líderes políticos sejam pessoas de excepcional craveira, nem acho que a comunidade tenha alguma coisa a ganhar se a actividade política não tiver nenhum apelo para os melhores, e muito menos entendo que quem anda no meio tenha alguma variedade de sarna.

Com uma carreira política, se não se for desonesto, não se enriquece. E mesmo que a condução desastrada do país tenha levado a que o que alguém chamou elevador social (expressão detestável, mas não estou com vagar para escabichar outra) tenha encravado, e que portanto haja políticos que veem na carreira pública as oportunidades que não veem noutras actividades, daí não decorre que o país não deva distinguir percursos ilustres.

De mais a mais quando essas carreiras se baseiam em generalizada, permanente e reiterada aprovação, por nulo que seja o objecto da estima popular.

Pensei este texto para o nosso Primeiro Costa, que deixará em herança a maior dívida da nossa história (não conferi: sei lá como estava a dívida em 1385 ou 1834 ou 1892, mas nem por isso a alegação parece pouco verdadeira), os jovens e os talentos que emigram, a população que decresce, o Estado obeso, a impostagem opressiva, a AT inquisitorial, a comunicação social domesticada, o deslizar do país para os últimos lugares do desenvolvimento, a alienação do módico de soberania que nos resta na EU, e um longo etc.

Ia sugerir que, quando Costa fosse ocupar uma sinecura e uma datcha em Bruxelas, era justo que a República pedisse ao senhor D. Duarte que o nomeasse barão. Tinha inclusive pensado no nome: barão de Santos, indo pescar-lhe ao nome, ou de S. Sebastião da Pedreira, à naturalidade.

Mas tropecei nesta notícia, em que o Presidente da República se ocupa com ternura do destino ­­do referido Costa, opinando com argúcia que em 2023 sairá, uma grande desgraça que de resto (isso Marcelo não diz porque é uma pessoa estóica) encara com aflição.

E fez-se luz: Comparar Costa ao duque de Ávila é um grande exagero, desde logo porque o segundo se exprimia em bom português e passava por conservador, enquanto o primeiro usa um dialecto próprio e não se sabe bem o que seja politicamente, se alguma coisa, mas de direita é que não. É certo que a graduação em barão, e não conde ou duque, já traduzia uma hierarquização, mas toda a arquitectura do raciocínio me começou a parecer forçada.

Forçada para Costa, mas que assenta como uma luva ao próprio Marcelo: A herança de Costa é uma pré-falência do regime. E ninguém jamais o encarnou, ao regime, mais completamente do que o nosso Presidente, que, ao contrário dos Vencidos da Vida, lisonjeia o ego popular enunciando-lhe as superioridades imaginárias da Situação, e o bem fundado das escolhas que faz, e das políticas e das pessoas que, com a graça de Deus, as executam.

De modo que o senhor D. Duarte decerto não se lembrou, mas alguém lhe deveria sugerir, que um título para Marcelo seria da maior justiça e oportunidade: conde de Rebelo não estaria mal.

 

*Publicado no Observador

A estrela da fortuna continua a bafejá-lo

António Costa

Pedro Correia, 10.09.21

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Dizem que no seu círculo privado António Costa costuma gabar-se de ser um homem bafejado pela sorte. Tem motivos para isso. Até agora, nas mais diversas circunstâncias, contrariou todos os profetas da desgraça.

Há um ano, com o país amedrontado e devastado pela pandemia, alguns comentadores apressaram-se a passar-lhe certidões de óbito político. Desatentos, menosprezaram a capacidade de resistência do líder socialista, que fez um longo tirocínio para chegar ao posto onde se encontra. O poder não é para contemplar mas para exercer, ensinavam os clássicos. E António Luís Santos da Costa, com 60 anos recém-completados, bebeu dessa sabedoria. Não delega: manda mesmo. O que lhe tem facilitado a tarefa.

Foi-se treinando para o cargo actual nos governos de António Guterres e José Sócrates. Colheu lições também pela negativa. Com o primeiro, enquanto ministro dos Assuntos Parlamentares e da Justiça, aprendeu que a indecisão pode ter custos incalculáveis. Com o segundo, de quem se afastou a tempo de evitar contaminações após ter sido ministro da Administração Interna, confirmou que a política exacerba o narcisismo ao ponto de se tornar patológica. Desse pecado ninguém o pode acusar.

Quarenta anos de exercício partidário foram-lhe apurando qualidades como «génio da gestão política», para usar uma expressão que António Barreto justamente lhe colou. Mas nada disto produziria consequências sem a tal conjunção astral que tem iluminado o percurso de Costa.

Foi assim quando decidiu disputar o poder interno a António José Seguro após ter garantido que só desejava permanecer ao leme da Câmara de Lisboa. Foi assim no rescaldo das legislativas de 2015, quando perdeu para Passos Coelho e logo recebeu recado de Jerónimo de Sousa para gerarem um governo alternativo – inédita aproximação ao PS que o PCP jamais assumira desde a implantação da democracia. Foi assim, finalmente, quando viu emergir como suposto líder da oposição alguém como Rui Rio: se o primeiro-ministro pudesse votar para a presidência do PSD, esta teria sido certamente a sua escolha.

Confortado com as sondagens que lhe auguram vitória clara nas autárquicas, satisfeito com o êxito do processo de vacinação, só alcançado quando pôs um vice-almirante a comandar as operações, acaba de sair em ombros da reunião magna socialista: ninguém o belisca, ninguém o questiona, ninguém ousa contestá-lo. Dá-se ao luxo de ter uma galeria de quatro presumíveis sucessores em segundo plano. E para sacudir a modorra do conclave lembrou-se até de inventar uma quinta candidata, a actual ministra da Saúde: é caloira no partido, não tem currículo nem apetência para o lugar, mas contribuiu para diminuir os bocejos em Portimão.  

Costa, que costumava fazer puzzles nas horas vagas, bem pode retomar o passatempo. Desta vez com as verbas da bazuca europeia como peças para encaixar. E vai sorrindo. A estrela da fortuna continua a bafejá-lo.

Now I can go to the bank?

João Sousa, 30.08.21

No país das maravilhas de Alice:

"Só o PS tem António Costa, uma das vozes mais respeitadas da Europa" - Mariana Vieira da Silva.

 

No mundo real:

"As the clock ticked past midnight into day four, the fiscal hawks held frantic discussions over a bowl of cherries. Portugal’s Antonio Costa sprawled out on a sofa as he waited for all the leaders to reconvene." - Bloomberg.

Omnipresente, embora ainda não omnipotente

Pedro Correia, 25.08.21

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António Costa não é omnipotente, como desejariam alguns dos seus apaniguados, mas tornou-se omnipresente. Por obra e graça da televisão, entre nós ainda o principal veículo de informação que uns quantos anseiam transformar em instrumento de propaganda.

Nos últimos trinta dias antes de rumar a férias, o primeiro-ministro apareceu 26 vezes nas pantalhas. Falou sempre em contexto positivo – pôr o país a crescer, estimular a economia, dar combate com sucesso à pandemia, «libertar a sociedade». Não precisa de uma agência de comunicação para lhe recomendar isto: experiente profissional da política, calejado em quatro décadas contínuas de exercício desta actividade, Costa sabe muito bem que o contexto é tão importante como a mensagem. Se os portugueses se habituam a associá-lo a mensagens insufladas de esperança e optimismo, isto tem inevitáveis reflexos nas sondagens.

Ao longo desse mês que ficou para trás, as más notícias – quando as havia no alinhamento dos telediários – ficavam confiadas a outros membros do Governo. À ministra da Presidência, coitada, coube a ingrata tarefa de anunciar aos portugueses que era necessário apresentarem certificados de vacinação «ou fazerem um autoteste» ao novo coronavírus antes de entrarem em restaurantes aos fins-de-semana. Ao ministro da Economia ficou reservado o nada invejável ónus de confirmar a insolvência da empresa de vestuário Dielmar, uma das maiores empregadoras do distrito de Castelo Branco.

A Costa – com fato de primeiro-ministro ou na pele de secretário-geral do PS – coube o reverso da medalha. Usou como quis o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) aprovado em Bruxelas e os milhares de milhões de euros que lhe estão associados para fazer política à sua maneira. Só lhe faltou a canção do Sinatra a servir-lhe de banda sonora.

A 9 de Julho, antecipou que 16% das verbas daquele plano serão destinadas à habitação. No dia seguinte, congratulou-se porque 70% dos portugueses já haviam recebido pelo menos uma dose da vacina. A 19 de Julho, na Pampilhosa da Serra, presidiu à cerimónia de assinatura de contratos para a criação de áreas integradas de gestão da paisagem florestal no âmbito do PRR. A 20, proclamou: «Temos um conjunto de investimentos que assegurarão o crescimento sustentado da economia portuguesa nos próximos anos.» A 21 de Julho, no debate do estado da nação, nova mensagem com choruda verba explícita: «Onze mil milhões de euros [do PRR] são dirigidos em encomendas às empresas.»

E por aí adiante. Vimo-lo na apresentação de três novas carruagens da CP compradas a Espanha, a anunciar fundos europeus para construir a barragem do Pisão, a comentar os dados favoráveis da economia portuguesa no segundo trimestre, a tuitar sobre o ouro de Pedro Pichardo no triplo salto olímpico. A 29 de Julho foi ele a dar a boa nova aos compatriotas, no Palácio da Ajuda: terminariam as limitações horárias impostas pela pandemia.

Merece umas férias bem repousadas. E nós também.

 

Texto publicado no semanário Novo

Governar à vista: é assim que se faz

Pedro Correia, 02.08.21

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António Costa, na quinta-feira à tarde: bares e discotecas permanecerão encerrados até Outubro.

Reacção de donos de bares e discotecas: «É uma sentença de morte.»

Governo, na quinta-feira à noite: afinal os bares podem reabrir, com regras idênticas às dos restaurantes.

Governo, no sábado: afinal as discotecas podem reabrir, mas sem pista de dança.

Só agora?

Pedro Correia, 01.08.21

«Temos de assumir de uma vez por todas que a população é responsável e adulta e portanto não é o Estado que tem de andar a definir a régua e esquadro qual é o número de pessoas com quem é preciso usar máscara.»

 

António Costa em conferência de imprensa (29 de Julho). Depois de ter andado mais de um ano a tratar todos os portugueses como se fossem irresponsáveis e crianças grandes

O estilo Costa

Pedro Correia, 22.07.21

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Bem ao seu estilo, António Costa anunciou a «libertação total da sociedade» no final do Verão. Medida que coincidirá em absoluto com o calendário eleitoral: as autárquicas realizam-se a 26 de Setembro.

Preparemo-nos para a propaganda que aí vem. Ele nunca dá ponto sem nó.

 

O chefe do Governo adora ser portador de boas notícias. Quando as novidades são más, encarrega dessa tarefa alguns dos seus ministros. Designadamente a pobre Mariana Vieira da Silva, que já aparece nas conferências de imprensa com cara de quem suplica para a tirarem desse filme.

Foi ela que a 18 de Junho anunciou uma das mais inacreditáveis medidas alguma vez paridas num Conselho de Ministos: o "encerramento" da Área Metropolitana de Lisboa entre as 15 horas de sexta-feira e as 6 da manhã de segunda-feira. Quase três milhões de portugueses confinados dentro de parte do território nacional, sem proclamação do estado de emergência, para «impedir contágios». Como se o coronavírus só atacasse aos fins-de-semana.

Foi ela também que a 1 de Julho anunciou o "recolher obrigatório" entre as onze da noite e as seis da manhã em 45 concelhos do País, incluindo Lisboa e Porto, de novo sem estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse à luz da Lua.

Foi ainda ela - desta vez acompanhada pelo ministro da Economia - que a 8 de Julho anunciou outra medida ainda mais estapafúrdia do que as anteriores: a exigência de apresentação de certificados de vacinação ou realização de testes rápidos nos restaurantes e na hotelaria aos fins-de-semana, a partir do jantar de sexta-feira nos concelhos de maior risco e nos alojamentos turísticos em todo o território continental. Medidas que nem existiram quando Portugal ficou em estado de emergência. Como se o coronavírus só atacasse quando estamos a descansar e nunca quando estamos a trabalhar.

 

Nestas ocasiões, que cobrem de ridículo os portadores das novidades, Costa nunca aparece. Manda sempre qualquer outro ocupar o palco. Ele só comparece em contexto positivo, de preferência com palavras associadas à verba da bazuca, oriunda de Bruxelas. Anuncia 252 milhões de euros de investimento na investigação e economia do mar. Anuncia 244 milhões de euros para a área da cultura. Anuncia 465 milhões de euros em respostas sociais para infância, idosos e deficientes. Anuncia 900 milhões de euros para o «sucesso escolar». Numa cadência incessante, incansável. É raro ver um político assim: está em permanente campanha eleitoral.

Ainda a procissão vai no adro. Nos meses que vão seguir-se, teremos isto a um ritmo quase diário: o primeiro-ministro a pronunciar a palava milhões. Com o dinheiro dos outros. Sem o menor assomo de pudor num pais que em 2020 registou uma queda do PIB de 7,6% - superior à média de 6,2% do conjunto da União Europeia - e já neste primeiro trimeste viu o PIB português contrair 5,4%, o que constitui o pior desempenho de uma economia no espaço comunitário.

 

Nada que desencorajasse o chefe do Executivo de ter aproveitado ontem o debate do final do ano parlamentar para sugerir que «só ele saberá salvar o País da pandemia e da crise económica», na feliz definição - não isenta de ironia - da jornalista Rita Dinis no semanário Expresso.

Na divisão de tarefas no Governo, cabe-lhe em exclusivo o papel do bom da fita. Os erros, os disparates e as medidas inaceitáveis ficarão sempre a cargo de outros. E até o outrora «excelente ministro» Cabrita ficou mais isolado que nunca: deixou de poder contar com o aconchego do antigo colega de faculdade. 

É um estilo de governar. O estilo Costa.

António Costa sexagenário

jpt, 17.07.21

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(Conselheiro Acácio, por António)

António Costa faz hoje 60 anos (os meus votos de saúde). O Público, sempre servil ao poder PS, disponibiliza (em acesso livre) este seu panegírico, escrito por Ascenso Simões (o mui ilustre que anda afadigado em derrubar o Padrão de Descobrimentos e, presumo, outras coisas).
 
Recomendei, através de múltiplas redes sociais (do já velho e-mail ao whatsapp), a leitura deste texto aos meus amigos moçambicanos. Pois na "Pérola do Índico" ao longo dos anos fui lendo alguns extremados elogios (em artigos e até em livro) a políticos bem instalados. E muitos dos meus amigos (quantas vezes eleitores, simpatizantes e até militantes dos partidos dos assim supra-elogiados) diante desses textos faziam um ricto enojado, naquilo tão desconfortável da vergonha pelo alheio. E resmungando "isto só aqui é que é possível!!!".
 
Pois é a esses meus amigos que aviso: leiam este texto. E vejam que "estamos juntos!!!". Que isto de videirinhos despudorados há-os em todo o lado. Já Eça de Queirós o sabia e descrevia.

Presunção de indecência

Pedro Correia, 16.07.21

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Há dez meses, António Costa e Fernando Medina atravessavam-se por um indivíduo que está hoje indiciado por vários ilícitos - ao ponto de ter renunciado ao cargo de presidente do Benfica, que ocupava há 18 anos.

A paixão clubística serve de atenuante para muita coisa, mas não pode funcionar como desculpa para o primeiro-ministro e o presidente da Câmara de Lisboa. Em Setembro de 2020, quando aceitaram figurar na Comissão de Honra da recandidatura deste indivíduo, havia informações muito consistentes de que não era digno do apoio de quem enche a boca com a expressão "ética republicana".

É certo que a pessoa em causa, como qualquer cidadão português, goza da presunção de inocência. Mas, neste caso concreto, prevalece a presunção de indecência - reforçada a cada notícia que nos vai chegando. Que um profissional experiente e calejado como Costa, que não fez outra coisa na vida senão política, tenha cometido este monumental erro de avaliação é algo digno de causar espanto.

A dita Comissão de Honra, dez meses depois, virou comissão de desonra. Convém recordar, por mais que certos arquivos digitais se vão apagando: Costa e Medina estavam lá.