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Fiscalização a olhómetro

por João Sousa, em 15.01.21

"A polícia tem bom olho para perceber quem está a aldrabar e quem está de boa fé". (António Costa, ontem, sobre a fiscalização do confinamento)

O fascismo

por jpt, em 08.01.21

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É dos livros: o fascismo (e também o comunismo, mas a esse não o conhecemos por cá) é o regime no qual os críticos internos são acusados de fazerem campanha para prejudicar o país no estrangeiro. São o "inimigo interno".

É um mero silogismo: ao acusar Paulo Rangel e Poiares Maduro de liderarem uma campanha internacional contra Portugal, António Costa não está apenas a ser abjecto, António Costa. Ou a mostrar-se algo desorientado neste período. Denota-se fascista. Pois pode-se tirar o rapaz do anterior regime mas não se tira o anterior regime do rapaz.

O que me surpreende é o silêncio dos "capitães de Abril". E o dos seus bardos. Que diz a este inequívoco sintoma de uma deriva fascizante o presidente da Assembleia de República? Ou estará Ferro Rodrigues pronto para mascarar a memória do 25 de Abril? E, mais ainda, que disto diz o poeta Manuel Alegre, a sempre cava voz d'Abril?

 

A generosa injecção de fundos público nos decrépitos órgãos de comunicação social já começa a ter frutos.

Eis a capa de ontem do DN, dia em que este histórico jornal voltou a ter versão impressa:

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E eis também a reacção do nosso Exmo PM:

Ficheiro_001.png

Em época de final de ano, é interessante verificar como a vida é feita de ciclos que se repetem.

Neste documentário da RTP sobre a Reforma Agrária, ao minuto 25, podemos ouvir duas quadras laudatórias dedicadas em 1973 ao Presidente do Conselho Dr. Marcelo Caetano, aquando à sua visita a uma herdade modelo, e que bem podiam estar no editorial da edição do dia 30 de Dezembro do 2020 do DN. Aqui vai:

Somos humildes trabalhadores
Dizemos isto sinceramente
Hoje vivemos mais à vontade
Graças ao nosso Presidente

Presidente como este
No mundo não há igual
Melhorou a vida a todos
Salvando assim Portugal (o jornal)

Sem Título (2).png

Aproveito para desejar um Feliz Ano Novo aos co-autores do Delito de Opinião, assim como a todos os leitores que diariamente nos presenteiam com a sua atenção e disponibilidade.

Muito obrigado.

Frases de 2020 (37)

por Pedro Correia, em 27.12.20

 

«Certamente não fizemos tudo bem e cometemos erros.»

António Costa, na mensagem de Natal aos portugueses

Toma lá, dá cá

por Pedro Correia, em 27.11.20

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1

Raras vezes uma barganha política ficou tão evidente na mercearia interpartidária: o PCP inaugura hoje o seu XXI Congresso, em Loures, após ter viabilizado ontem as contas públicas para 2021 propostas pelo Governo minoritário do PS naquele que foi o último suspiro da "geringonça", nascida em Novembro de 2015 e falecida neste ano da desgraça de 2020.

É algo que, ao nível da linguagem popular, se traduz na expressão "toma lá, dá cá". Neste caso - e na perspectiva do Governo - toma lá congresso, dá cá voto parlamentar. E nem foi necessário ser um voto favorável: para aprovar o Orçamento do Estado bastou a abstenção do partido vermelho e do seu vitalício apêndice verde.

Não custa vaticinar que foi a última vez que tal aconteceu. A tentação de romper já com o PS, a exemplo do que fez o Bloco de Esquerda, era grande entre os comunistas. Também não custa perceber que a aprovação da Direcção-Geral de Saúde ao conclave partidário num dos derradeiros bastiões autárquicos do PCP funcionou como moeda de troca. Apesar de Loures ser um concelho de alto risco sanitário e o congresso implicar a mobilização de centenas de militantes oriundos das mais diversas partes do País em pleno estado de emergência.

Tudo à semelhança do que já sucedera noutros actos litúrgicos a que o clero comunista atribui prioridade absoluta nos seus rituais de culto: o 1.º de Maio, este ano celebrado com a CGTP a violar a interdição governamental de circulação entre concelhos, e a Festa do Avante!, no primeiro fim de semana de Setembro, quando a segunda vaga da pandemia já galopava no Seixal, outro concelho de elevado risco. Dias depois, quando a progressão do vírus se tornara iniludível, o Governo declarou todo o território nacional continental em "situação de contingência".

 

2

Cumpre assinalar que nada de relevante será debatido neste congresso. No PCP, que tem metade do Comité Central composto por funcionários do próprio partido, sem efectiva ligação ao mundo do trabalho real, todo o processo de decisão ocorre à porta fechada, nas impenetráveis reuniões do Secretariado (oito homens, duas mulheres) e da Comissão Política (18 homens, três mulheres), nunca sujeitas ao menor escrutínio jornalístico.

O conclave será um mero desfile de monótonos discursos formalmente "anti-sistema", proferidos sempre no mesmo estilo, no mesmo tom e na mesma langue de bois repleta de chavões forjados num partido ainda "revolucionário" de fachada mas rendido ao reformismo burguês. E que usufrui hoje de chocantes privilégios negados ao cidadão comum: enquanto a população se vê forçada a encerrar-se em casa, no próprio concelho de Loures, os congressistas usufruem ali de livre-trânsito em aberto desafio ao recolher obrigatório.

Tudo isto para no domingo reconduzirem como figura máxima o mesmo secretário-geral que ocupa o cargo há 16 anos. Homem, claro: nunca o PCP foi liderado por uma mulher ou teve sequer uma mulher à frente da sua bancada parlamentar. E alguém que é funcionário do partido há largas décadas, como acontece com tantos outros dirigentes, intitulados "operários" sem o serem de facto.

 

3

Toma lá o último apoio parlamentar; dá cá congresso e três dias de tempo de antena, a meses das autárquicas, com chancela das autoridades sanitárias: eis o recado de Jerónimo de Sousa a António Costa. O primeiro-ministro, que se prepara para votar Marcelo Rebelo de Sousa na eleição presidencial de 24 de Janeiro, deixa de ter amparo à esquerda.

Longe vão os tempos das manchetes festivas, em que as trombetas da propaganda governamental enalteciam o ilusório "milagre sanitário" português. Mais longínquos ainda, os dias em que Costa fazia graçolas com uma frase que terá sido proferida por Passos Coelho ao advertir que "vinha aí o diabo".

Pois o diabo chegou, em forma de vírus. Já estilhaçou a "geringonça" e já retirou o PS do Governo dos Açores ao fim de 24 anos de poder absoluto. Na crescente solidão do seu gabinete, Costa estará hoje cem vezes arrependido das farpas que lançou a Passos. Enquanto ganha ânimo para anunciar aos portugueses que este ano não haverá Natal.

Cada povo tem o Churchill que merece

por João Sousa, em 24.11.20

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"A vacina não será ainda o fim desta pandemia, pode não ser sequer o princípio do seu fim, mas pode ser o fim do princípio da crise pandémica" - António Costa ontem.

O vírus é reaccionário

por Pedro Correia, em 16.11.20

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O recente fracasso nos Açores, onde foi excluído da Assembleia Legislativa Regional por decisão dos eleitores, parece não ter ensinado nada ao PCP: os comunistas teimam em marchar em sentido oposto às medidas de elementar precaução sanitária.

Cegos perante as evidências e surdos ao apelo quase lancinante do primeiro-ministro: «A regra é simples: temos de ficar em casa.»

 

O Governo tem sido justamente criticado pela caótica gestão da comunicação em tempo de pandemia: estabelece a regra e contemporiza com toda a espécie de excepções, incentivando assim os portugueses a contornar a norma - exercício em que somos exímios.

Nada contribuiu tanto para isso como o comportamento refractário do PCP, acolitado pelo seu braço sindical, a CGTP. Furou o dever geral de confinamento com a "celebração" do 1.º de Maio na Alameda, em pleno estado de emergência. Insistiu em promover a Festa do Avante! (ao contrário do que fez o Partido Comunista Francês, que anulou de imediato a sua quase centenária Festa do L' Humanité), quando as estatísticas sobre novas infecções já eram alarmantes. E persiste agora em manter o congresso, com uma chocante indiferença pelas vítimas da pandemia, quando ultrapassámos os 500 óbitos por semana.

Ao contrário do que fez o PS, que adiou sine die o congresso nacional previsto para Maio. Ao contrário do que fez o PSD, que cancelou todas as festas partidárias - mesmo as mais emblemáticas, como as do Pontal e do Chão da Lagoa. Ao contrário do que fez o Bloco de Esquerda, que adiou para a Primavera de 2021 a XII Convenção Nacional do partido e desmarcou o seu acampamento de Verão.

O PCP, ao invés, persiste em moldar a realidade aos seus desejos. Com idêntica obstinação, chama "epidemia" à pandemia. Num afã negacionista, similar ao que todos os anos, na Assembleia da República, leva os comunistas a opor-se aos voto de congratulação pela queda do tenebroso Muro de Berlim, como há dias voltou a acontecer. Quatro décadas depois, mostram-se incapazes de aprender elementares lições da História.

 

O Presidente da República já advertiu: «Aquilo que for decidido para o estado de emergência, no futuro, será igual para todos.» Mas António Costa precisa dos votos do PCP - e do seu apêndice verde - para ver aprovado o Orçamento do Estado de 2021. Cederá, portanto, a qualquer capricho dos comunistas. Mesmo que o Governo faça uma breve pausa no estado de emergência para que o partido da foice e do martelo reúna tranquilamente no conclave de Loures, entre 27 e 29 de Novembro, e retome o confinamento geral na segunda-feira, dia 30. 

Que isto acabe por engrossar a maré dos protestos colectivos, cada vez mais inflamados, é o preço que Costa paga para obter o aval de Jerónimo de Sousa às suas contas, tornando-se refém político dos comunistas. As consequências deste abraço de urso a um Governo em queda de popularidade ficarão à vista nas autárquicas de 2021, para uns e outros. 

No fim acabarão todos por culpar o vírus, chamando-lhe reaccionário.

Frases de 2020 (33)

por Pedro Correia, em 13.11.20

 

«A regra é simples: temos de ficar em casa.»

António Costa, falando ontem aos portugueses

Estranha forma de governar

por Pedro Correia, em 03.11.20

 

31 de Outubro, 19.42:

Primeiro-ministro anuncia ao País que eventos com mais de cinco pessoas (salvo se pertencerem ao mesmo agregado familiar) ficam proibidos, tal como a realização de feiras e mercados de levante.

 

1 de Novembro, 13.38:

Com esta proibição, «fecham as feiras e mandam os portugueses para recintos fechados até às 22h00», acusa representante dos feirantes, considerando esta decisão «uma vergonha».

 

2 de Novembro, 13.01:

PCP questiona Governo sobre a decisão de proibir de forma geral e indiscriminada todas as feiras e mercados de levante como forma de combater a pandemia.

 

2 de Novembro, 14.01:

Federação de feirantes acusa o Governo de lhes «tirar o pão» e convoca manifestação para Lisboa.

 

2 de Novembro, 15.44:

Directora-geral da Saúde justifica encerramento das feiras devido à pandemia: «Relativamente à questão das feiras versus o comércio mais tradicional, isso tem a ver com este período de excepção.» 

 

2 de Novembro, 17.41:

Feiras e mercados de levante vão poder realizar-se mediante autorização das autarquias. Governo muda de ideias horas depois de Graça Freitas ter defendido o contrário.

 

2 de Novembro, 17.58:

«Não conheço surtos associados às feiras. São espaços exteriores», diz presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia.

 

O estado da arte

por jpt, em 25.10.20

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Raramente leio o "Expresso". E nunca leio Clara Ferreira Alves. Ontem uma amiga convocou-me: "Lê a crónica da CFA". Li. E recomendo-a, pois é uma boa descrição do actual "estado da arte" português. Trata-se de "O Torso Dispensável".

(Como o texto tem acesso reservado a assinantes poder-se-á ler uma transcrição parcial, mas quase completa, aqui.)

Orçamento de Estado 2021

por jpt, em 21.10.20

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Por uma vez que seja louve-se António Costa. Nesta outonal Lisboa chuvosa ao receber os dirigentes partidários para discutir um orçamento de Covidoceno - que terá de ser austero -, afasta-se do azul Carris Plus mandatório aos apparitchiki. E anuncia-se irredutível austeritário neste seu até espampanante "casaco branco em Janeiro, sinal de pouco dinheiro". Os visitantes não terão percebido?...

O recuo

por Cristina Torrão, em 20.10.20

Governo recua e retira proposta para app Stayaway Covid obrigatória.

Oh, que pena!

Mas ninguém deve ficar triste. A eficácia da App deixa muito a desejar. Na Alemanha, calcula-se que cerca de 50% dos utilizadores infectados com o vírus não actualizam os dados na "Corona-Warn-App" (assim se chama a aplicação, por aqui), dando falsas informações a quem se acha muito seguro, por presumivelmente não ter contactado com ninguém infectado.

Mas Costa não seria Costa se não desse o tal nó no ponto:

Verifiquei que das duas propostas que fizemos houve uma razoavelmente consensual - estranhamente, para mim: a obrigatoriedade do uso da máscara na rua e outra que houve muitas dúvidas e rejeição.

O PSD prontamente apresentou uma proposta apenas relativa às máscaras e Costa garante: Nas máscaras há um consenso grande (...) e vamos resolver já o problema das máscaras.

Impagável, o nosso Primeiro...

 

Nota: na Alemanha, a instalação da App não é obrigatória, nem nunca ninguém por aqui pôs essa hipótese (fosse do governo ou da oposição).

A vizinha de António Costa

por Pedro Correia, em 19.10.20

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«Noutro dia uma vizinha minha vinha de máscara e disse-me: "Então o senhor primeiro-ministro não anda de máscara?!" Eu disse: não é obrigatório. Ela disse: "Não é mas devia usar." E eu fiquei a pensar nisso.»

 

Com esta risonha declaração aos jornalistas, António Costa desvendou o segredo do processo de decisão política no seu governo. Nomeadamente na recente intenção de tornar obrigatório o uso de máscara na generalidade dos espaços públicos ao ar livre.

A sagaz vizinha de Costa funciona como conselheira. É quanto basta. Para quê ouvir epidemologistas, virologistas e especialistas em saúde pública - entre outras sumidades da medicina - em chatíssimas  reuniões tantas vezes inconclusivas, se é possível beber sabedoria num simples encontro de vão de escada?

Líder da oposição

por Pedro Correia, em 16.10.20

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O Governo, denotando um autoritarismo galopante que o leva a remover personalidades incómodas, como a anterior Procuradora Geral da República e o cessante presidente do Tribunal de Contas, quer agora pôr as polícias a invadir a intimidade das nossas comunicações móveis.

Com o ar expedito que já adoptou para insultar médicos e apoiar a recandidatura do presidente do Benfica, António Costa anunciou o uso obrigatório, em contexto estudantil e laboral (começando pelos trabalhadores da administração pública), de uma aplicação com nome "amaricano" que coloca cada cidadão sob escrutínio permanente das autoridades sanitárias, fornecendo metadados aos gigantes da tecnologia digital Apple (iOS) e Google (Android). Em nome da "geolocalização de infectados" - empestados e leprosos do século XXI.

Esta medida, inexistente na União Europeia, foi instituída pela ditadura chinesa. Cenário distópico - digno das páginas do 1984, de Orwell - tornado realidade a pretexto do combate à pandemia. A mesma ditadura que impõe testes clínicos a todos os súbditos numa cidade com 9,4 milhões de habitantes em apenas cinco dias, apenas porque ali surgiram seis casos de infecção com o novo coronavírus. Quem recusar, fica sob a alçada imediata da "polícia de vigilância e defesa do Estado".

 

Acontece que não vivemos em ditadura: a polícia portuguesa não existe para violar a privacidade de cidadãos pacíficos. Aliás o Tribunal Constitucional já chumbou a utilização dos metadados de telecomunicações pelos serviços de informações para prevenir actos de terrorismo. Nada autoriza o primeiro-ministro a assinar decretos por capricho autoritário, vulnerando direitos fundamentais: o Governo tem de submeter-se ao império da lei.

Felizmente a nossa democracia conta com uma oposição activa e enérgica. «É inconstitucional tornar obrigatória a app #StayAwayCovid: além da violação da privacidade num país em que a Comissão Nacional de Protecção de Dados não tem dentes, da ineficácia e da análise custo-benefício, equivaleria a consagrar a discriminação contra pobres e idosos mais vulneráveis. Espero que a AR chumbe o projecto-lei», apressou-se a opinar a líder da oposição.

Sem papas na língua, como sempre.

Frases de 2020 (31)

por Pedro Correia, em 15.10.20

 

«Eu não gosto destas soluções.»

António Costa, referindo-se às medidas autoritárias do seu Governo, que quer impor o uso permanente da geolocalização a cada português, a pretexto do combate à pandemia

A sensação de falsa segurança

por jpt, em 15.10.20

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Nesta coisa da cidadania verbal (da análise densa ao "amandar bocas", nisso a cada um como a cada qual, e cada dia é um dia ...) o mais importante é o conforto, a demansa do estado reconfortado. Obtém-se este por "pertença", "ser" do clube e holigar em sua defesa. Ou seja, "ser" do partido (do governo) ou "ser" de um qualquer partido/grupo contra (o governo ou outra coisa). Seja lá a propósito do que for. 

Ontem li imensa gente a clamar contra as medidas/propostas anunciadas pelo governo. Francamente, são palavras loucas. Leio agora este seu resumo, em forma de declaração do PM que anuncia a vontade de "abanar" os cidadãos, e não lhe encontro nenhuma falta de senso comum: os funcionários públicos, e adjacentes, serão convocados - se tiverem disponibilidade material para tal, e grande percentagem decerto que a terá - a usar uma aplicação securitária que não lhes viola os direitos individuais, e que o poder político considera útil para este momento de crise sanitária. E a sociedade civil será convocada para estender a céu aberto o uso de máscaras, quando isso for espacialmente recomendável. Qual o problema, qual a irracionalidade?

Por outro lado, isto - este pretendido "abanão" nos cidadãos - permite repensar. Não o futuro Natal mas as práticas do poder político neste 2020. Lembrar a descarada modorra intelectual que antecedeu o confinamento (o vírus que nunca chegaria; a oportunidade de exportar para a China; as fronteiras que não se podiam fechar; a urgência em visitar os lares de terceira idade; a superficialidade do "gozo fininho" da semi-quarentena presidencial - essa série de dislates ditos por dignitários do PR para baixo). Mas acima de tudo, deveria lembrar a mediocridade do discurso que reclamava, em Março e Abril, contra "a sensação de falsa segurança" - contra as máscaras, há século sabidas como boa medida para este tipo de praga; contra os testes (e esta alarvidade, então, foi inenarrável, demonstrativa da mediocridade das autoridades sanitárias). Porque estas medidas de agora são, a um nível imediato, praticamente nada mais do que promotoras da tal "falsa segurança".

Mas estas medidas têm uma outra dimensão, menos efectiva pois menos material: convocam-nos, mobilizam-nos, apelam a um maior cuidado individual/familiar nos núcleos de sociabilidade, de interacção, e também nos contactos episódicos. Melhor dizendo, reconvocam-nos ... Alertam-nos para não baixarmos a guarda, e será essa a sua grande qualidade. E, se assim é, seria interessante que os adeptos deste poder e sua geringonça capitaneada pela dupla PR/PM, repensassem as atoardas que vieram dizendo ao longo de meses. Quando em pleno confinamento tantos (em poucos dias 100 000 pessoas assinaram um documento!) apelaram para uma redução das comemorações do 25 de Abril, pela sua dimensão simbólica para afirmar o estado de concentração tão necessário? Eram adversários da liberdade e da democracia, quiçá adeptos do Chega. Quando o boçal Ferro Rodrigues clamou que não se iria mascarar e tantos o apuparam? Éramos fascistas ... (o homem nem tem a dignidade de se demitir, apesar de ter passado ao lado da maior crise da sua carreira política). Idem para o 1º de Maio, idem para a Festa do Avante, idem para as festividades anti-história de Portugal. E quando Sousa veraneou em bamboleios sob trajes menores, saracoteando-se pelas praias em campanha presidencial, e tantos de nós nos torcemos diante de tamanha indecência histriónica? Fomos ditos da extrema-direita, zangados com este histérico presidente porque não afronta o PS.

Talvez agora este "abanão" que Costa quer dar possa abanar alguns dos seus adeptos palavrosos. E que assim possam perceber que muito do que foi dito e feito por esta incompetente elite política foi contraproducente, de facto criando uma efectiva sensação de "falsa segurança" ao longo de meses. Que desconcentrou, descentrou. Estará na altura de sairem do tal "conforto". A administração desta crise pandémica tem sido errática, com coisas boas e más, mas muito longe de qualquer "milagre português" que a imprensa patrioteira (e muita dela avençada) propalou. E só os "cobardes", para falar a la Costa, os adeptos holigões, tão timoratos que avessos à (auto-)crítica, é que são incapazes de ver isso. Não precisam de pedir outro poder, de passar à oposição. Pois, lá está, cada um como qual. Mas podem, e devem, pedir, exigir, melhor.

O pregador recém-convertido

por Pedro Correia, em 15.10.20

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O primeiro-ministro que permitiu um 25 de Abril sem máscaras na Assembleia da República (dispensáveis por a cerimónia oficial decorrer num «edifício grande», na assombrosa definição da doutora Graça Freitas), a celebração ritual do 1.º de Maio pela CGTP em pleno estado de emergência e a Festa do Avante!, entre muitos outros "eventos", vira agora pregador evangélico dizendo aos portugueses que «temos o dever de nos proteger e de proteger os outros».

Convém não sermos ludibriados por esta pose de recém-convertido aos rigores sanitários, entre ameaças de coimas pesadíssimas e da tentativa de imposição obrigatória (obviamente inconstitucional), em contexto laboral, de uma aplicação digital gerida por multinacionais da recolha de dados. Trata-se do mesmo chefe da mesma equipa governativa que, pela voz da directora-geral da Saúde, antecipava em Janeiro que «não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal» e em Março desaconselhava o uso de máscaras por incutirem «falsa sensação de segurança». É o mesmo que em Junho "vibrava" entre duas mil pessoas que assistiram a um concorrido show humorístico no Campo Pequeno.

Soaram entretanto as doze badaladas da meia-noite e eis-nos imersos em nova quarentena social. Decretada por um governo que carece em absoluto de autoridade moral para o efeito. Fazem-se desde já prognósticos sobre as próximas excepções às novas regras - e a cor política que terão.

Carnaval

por João Sousa, em 14.10.20

A fantasia da propaganda política:

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A realidade:

"CCDR distribuídas como Rio e Costa combinaram. Único candidato independente perde para socialista"Observador

 

28 de Outubro de 2005: Presidente da República [Jorge Sampaio], sob proposta do Governo [de José Sócrates], nomeia Oliveira Martins como novo presidente do Tribunal de Contas.

 

20 de Novembro de 2009: Presidente da República [Cavaco Silva], sob proposta do Governo [de José Sócrates], reconduz Oliveira Martins como presidente do Tribunal de Contas.

 

13 de Novembro de 2013: Presidente da República [Cavaco Silva], sob proposta do Governo [de Passos Coelho], reconduz Oliveira Martins como presidente do Tribunal de Contas.

 

19 de Maio de 2016: Presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa], sob proposta do Governo [de António Costa], nomeia Vítor Caldeira como novo presidente do Tribunal de Contas.

 

4 de Outubro de 2020: Governo decide não reconduzir Vítor Caldeira como presidente do Tribunal de Contas - proposta que o Presidente da República aceita.

 

6 de Outubro de 2020: António Costa justifica afastamento de Caldeira invocando o «princípio da não-renovação de mandatos em funções de natureza judiciária».

 

8 de Outubro de 2020: Marcelo Rebelo de Sousa justifica assim a decisão: «A revisão constitucional de 1997 estabeleceu um mandato único para o presidente do Tribunal de Contas».

 

 

Leitura complementar:

As sete críticas do Tribunal de Contas que não caíram bem em São Bento. De Pedro Sousa Carvalho, no Eco.

A nomeação do presidente do Tribunal de Contas. Do Luís Menezes Leitão, no i.

 

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Há neste momento uma guerra cada vez menos surda no PS, já a pensar no ciclo pós-António Costa.

Defrontam-se dois projectos, que não são apenas pessoais: são também políticos. Ou uma hipotética parceria de longa duração com o PSD, que encontraria em Fernando Medina o protagonista ideal, ou uma provável fusão a prazo entre socialistas e bloquistas, com Pedro Nuno Santos ao leme.

 

Esta facção acaba de receber um poderoso incentivo com a entrada em cena de Ana Gomes, que ao apresentar-se como candidata presidencial fez questão de proclamar os laços de amizade que mantém com Marisa Matias, sua concorrente na campanha. Algo que só terá soado estranho a quem ignore o conflito que germina nos bastidores do PS.

Costa tem uma aversão inata ao Bloco e detesta Ana Gomes. O instinto político diz-lhe que a ex-embaixadora funcionará, nesta corrida a Belém, como aliada objectiva de Pedro Nuno Santos na disputa pela liderança do partido. E não ignora que este grupo tem ligações estreitas a influentes sectores da comunicação social: filho de jornalista, irmão de jornalista, é-lhe fácil reconstituir o circuito de cada manchete na imprensa e cada abertura de telediário. Sabe que o intervalo de poucos dias entre o anúncio público da candidatura de Ana Gomes e a notícia do seu envolvimento no apoio a Luís Filipe Vieira no Benfica não foi coincidência.

 

Alguns analistas políticos asseguram que nas presidenciais o confronto principal será entre Ana Gomes e André Ventura: isso é próprio de quem só consegue ver a espuma dos acontecimentos.

O que interessa acompanhar verdadeiramente é a evolução de posições no processo de substituição de Costa, que de algum modo já está em marcha. E de que a mais recente substituição no elenco de secretários de Estado constitui indício. Não apenas do esgotamento da capacidade de recrutamento do primeiro-ministro, hoje incapaz de atrair personalidades fora do circuito partidário para o elenco governativo, como do reforço do peso relativo de Pedro Nuno Santos: duas das cinco mudanças ocorreram no ministério que lhe está confiado e simbolizam o avanço de peões num tabuleiro de xadrez.

Dama, já existe: é a candidata presidencial.

 

O dilema hamletiano de um PS liderado por Medina, que privilegiaria um novo bloco central, e um partido sob o comando do titular da pasta das Infraestruturas, dando prioridade absoluta a entendimentos à esquerda, dominará a partir de agora as movimentações internas no PS. Cabendo à desalinhada Ana Gomes um papel decisivo.

Na corrida a Belém, ela funciona como lebre de Pedro Nuno para o Largo do Rato.


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