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Fora da caixa (26)

por Pedro Correia, em 07.10.19

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«Este resultado é positivo

Rui Rio, há pouco

 

O PSD proporcionou esta noite um espectáculo patético e deplorável aos portugueses, festejando uma pesada derrota eleitoral - a segunda em quatro meses, após as europeias - como se fosse o Real Madrid a vencer a Liga dos Campeões. Numa sala de hotel cheia de militantes a urrar vivas e a aplaudir calorosamente o derrotado.

Com Rui Rio ao leme, o partido laranja obtém o pior resultado deste século em eleições legislativas: 27,9%, só acima das percentagens obtidas em 1976, na primeira eleição para a Assembleia da República (24,4%), e em 1983, no escrutínio que originou o breve Executivo do bloco central (27,2%).

Ao contrário de outra derrotada, Assunção Cristas, que ao princípio da noite anunciou que irá abandonar a presidência do CDS, Rui Rio tenta improvisar uma jangada a partir das tábuas que sobraram do naufrágio do navio. Vai ficar, claro, em desesperada fuga para a frente. Com alguns militantes em delírio idolátrico, proclamou-se vencedor. Derrotou as sondagens, derrotou os jornalistas, derrotou os comentadores, derrotou os piores augúrios. Nivelando-se por baixo a um ponto que mesmo alguns dos seus mais fanáticos seguidores certamente não imaginariam. «O PSD teve o pior resultado de sempre? Não teve», ufanou-se, entre palmas delirantes dos apaniguados que enchiam a sala. Eis o perfeito equivalente, em política, às vitórias morais no futebol.

Tendo alcançado agora o triunfo nas urnas que lhe fugiu há quatro anos, embora distante da maioria absoluta que alguns dos seus panegiristas imaginavam, António Costa só pode ter recebido com imenso agrado a notícia de que Rio permanece imune à devastação no PSD. Com um parlamento atomizado e previsíveis reivindicações acrescidas do Bloco de Esquerda (que, mesmo recuando 0,5%, mantém 19 deputados), o líder socialista precisará provavelmente do aconchego daquele que já foi o maior partido português e hoje se configura como o mais firme aliado a prazo dos socialistas em matérias decisivas da governação.

Se pudesse, também ele estaria naquela sala aplaudindo com fervor o derrotado que agora se agarra ao umbral da porta.

Um homem só no meio de uma multidão

por Paulo Sousa, em 04.10.19

A reacção de António Costa à interpelação de um popular marcou o último dia de campanha.

Segundo o Expresso terão sido os seguranças do PM que o terão travado. À primeira leitura pode parecer que protegeram o candidato, mas não, defenderam foi o cidadão de um “chega para lá” de António Costa.

Os guarda-costas fizeram as vezes da PSP. Não fosse a falta de investimento nas forças de segurança e certamente que a Polícia teria podido a defender o cidadão.

Ironia à parte, este é um tipo de situação que pode perturbar os candidatos. Há dias Assunção Cristas passou por um episódio idêntico.

Estes eventos, em que se cruzam figuras públicas com cidadãos anónimos são interessantes. Ali se cruzam dois ângulos de observação totalmente opostos com um potencial de desvantagem para o “famoso”. Todos os indivíduos ali presentes o conhecem, a sua voz, o seu percurso pessoal, os seus sucessos e insucessos. Pelo contrário, ele só conhece, e não muito bem, o seu círculo imediato. É um homem só no meio de uma multidão.

É impossível não ter uma opinião sobre essa pessoa, especialmente por se tratar de um político. Para uns pode ser uma figura simpática e para outros exactamente o contrário disso. Ele sabe que uns estarão satisfeitos consigo, mas também sabe que para outros ele poderá representar o que de mal lhes terá corrido na vida no passado recente.

A distância física que sempre separau o decisor público do cidadão anónimo naquele momento esbate-se.

Algumas figuras públicas é ali que se sentem bem e se encontram consigo próprios. Para outros, a arruada é um tormento e representará o preço mais alto a pagar pela carreira política. O ruído que rodeia a caravana talvez ajude a distrair a exposição que sente, mas por mais alto que a música toque nunca irá substituir a roupa que parece ter deixado em casa.

Sem dúvida que António Costa se encaixa neste tipo de desconforto e, sem pestanejar, aceitaria trocar meio Centeno por campanhas eleitorais sem arruadas.

Quem aprecia o actual PM arranjará para si próprio e para os amigos explicações para o que aconteceu e apontará culpados em número suficiente para que não tenha de ajustar a decisão de voto. Pelo contrário, quem não gosta dele, encontrará neste episódio a cereja em cima de um bolo feito de arrogância, cativações, incêndios, Tancos e nepotismo.

A reacção destemperada de hoje mostra uma face escondida de alguém que, estando no limiar de esforço, não se conseguiu conter. A campanha é fisicamente cansativa, o músculo piramidal reclamou, as sondagens não o confortam e a surpresa do caso Tancos pesou muito mais do que as boas notícias que os amigos do INE lhe tinham preparado.

O que vi naquelas imagens foi um homem a soçobrar no limiar da fadiga.

Estará apto a lidar com os cenários que se abrirão domingo à noite?

Fora da caixa (22)

por Pedro Correia, em 04.10.19

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«Poucos deram tanto a Portugal, à liberdade e à democracia.»

António Costa, ontem, sobre Freitas do Amaral 

 

A campanha eleitoral terminou ao princípio da tarde de ontem. Precisamente quando foi conhecida a triste notícia do falecimento de Freitas do Amaral, o último fundador civil do nosso regime democrático - resta o general Ramalho Eanes, ilustre sobrevivente desta estirpe já com lugar na História.

Este infeliz acontecimento relegou para segundo plano tudo quanto vinha a ser discutido no espaço mediático, o que muito jeito dá a António Costa - confirmando que o secretário-geral socialista é o político com mais sorte em Portugal. A campanha corria-lhe razoavelmente mal: Costa está longe de ser brilhante nas caravanas de propaganda eleitoral, para as quais tem pouco jeito e quase nenhuma paciência. A nova dimensão dada ao lamentável caso de Tancos, centrada na acusação deduzida pelo Ministério Público ao ex-titular da pasta da Defesa Azeredo Lopes, fragilizou o primeiro-ministro numa das dimensões que mais cultiva: a sua faceta de homem de Estado.

O desaparecimento de Freitas, senador da democracia, e as cerimónias fúnebres que lhe serão devidas hoje e amanhã, dia de reflexão eleitoral, encerram simbolicamente um capítulo da nossa vida colectiva. E põem fim prematuro a uma campanha que se revelou mais incómoda para o PS do que alguns responsáveis socialistas previam.

Recordo-me da dramática recta final das legislativas de 1999, marcada pelo súbito falecimento de Amália Rodrigues, que gerou comoção nacional. Foi a 6 de Outubro, vai fazer 20 anos depois de amanhã - quatro dias antes de os portugueses irem então a votos.

Também a campanha terminou nesse dia. E dela saiu uma vitória pírrica do PS: António Guterres ficou a um escasso lugar da maioria absoluta e acabou por nunca recuperar desse trauma. Nascia uma legislatura condenada ao fracasso desde o vagido inicial.

Embora com protagonistas diversos, a História tem tendência a repetir-se.

Fora da caixa (21)

por Pedro Correia, em 03.10.19

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de "geringonça", eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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His master's voice de Setembro

por Pedro Correia, em 30.09.19

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«Ontem, no debate a seis, houve tudo menos um arrufo. Não foi bonito de se ver a interpelação de Catarina Martins a Costa. E ele respondeu-lhe à letra. António Costa foi obrigado a descer a terreiro pq [porque] eram seis contra um. Já chega de debates.»

Luísa Meireles, directora de Informação da Lusa, comentando o debate na RTP entre os líderes dos seis principais partidos

Twitter, 24 de Setembro

Fim-de-semana

por jpt, em 29.09.19

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Enquanto decorre a campanha eleitoral e o secretário-geral Jerónimo de Sousa defende o governo minoritário do PS, proclamando que o PSD ataca o "affaire" Tancos à falta de outros argumentos contra ... o governo minoritário do PS (o que diria o camarada Pimentel deste clamoroso e desnorteado "desvio de direita" do Partido....!?)

convirá recordar - naquele anglicismo do "shame on you" - as hostes socialistas (e, face ao acima exposto, também os "camaradas e amigos" do PCP) de que neste último sábado se cumpriu exactamente um ano que o juiz Ivo Rosa foi "sorteado" - como os trabalhadores judiciais bem sabiam que iria "acontecer" - para abafar, perdão, julgar o processo de José Sócrates.

O regime protegeu-se e prossegue, kamoviano. O PCP aplaude. Os socratico-costistas suspiram, aliviados. Os BEs saracoteiam.

E o povo vota.

 

Uma inflamação providencial

por Paulo Sousa, em 29.09.19

A inflamação do músculo piramidal de António Costa foi-lhe providencial para se esquivar às perguntas dos jornalistas sobre o caso Tancos.

Parece que a sorte política que lhe é frequentemente apontada continua a funcionar.

Senhor Primeiro-Ministro, desejo-lhes rápidas melhoras.

Plausible deniability

por João Sousa, em 27.09.19

António Costa, jura-o, não sabia de nada.

Uma quantidade não negligenciável de material bélico foi roubada de Tancos; foi montada uma encenação para justificar a sua devolução (e com juros, uma espécie de campanha "roube 4 e devolva 5"); o ministro da Defesa, que antes, durante e depois multiplicou-se em declarações atabalhoadas sobre o assunto, sabia da encenação e nem teve, pelos vistos, pejo em confirmá-lo por SMS a um badameco deputado do PS; mas o mesmo ministro não achou por bem informar o seu chefe de governo dos progressos em assunto tão melindroso.

António Costa diz que não sabia de nada, não viu nada, não ouviu nada e ninguém lhe disse nada. E o aparelho de propaganda do PS, que não brinca em serviço, já fez chegar às redes sociais esta pequena gravação de um Conselho de Ministros da época na qual vemos Costa a dizer, explicitamente, isso mesmo - que não sabia de nada do que iria acontecer:

Fora da caixa (14)

por Pedro Correia, em 23.09.19

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«Adoro as espetadas madeirenses.»

António Costa, ontem à noite, na sede do PS 

 

O secretário-geral do PS reagiu de forma original, no Largo do Rato, à derrota eleitoral do seu partido na eleição para a Assembleia Legislativa da Madeira. Com esta declaração de amor ao principal cartaz da gastronomia insular, alicerçado na comprovada excelência do gado bovino.

Fiquei preocupado. Isto vai trazer-lhe imensos dissabores junto do lóbi animalista, da vetusta academia coimbrã e até no seio do seu próprio governo (espero que as patrulhas me autorizem a escrever a expressão "no seio", de que tanto gosto).

 

Já antevejo o reitor Falcão enraivecido de indignação, de dedo acusador apontado a Costa, repetindo o que o levou a interditar a carne de vaca nas cantinas que tutela: «Vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada.»

Antevejo também o titular da pasta do Ambiente a balbuciar protestos à entrada do próximo Conselho de Ministros, lembrando ao chefe do Executivo o compromisso governamental de declarar o País «neutro de carbono» até 2030 e a recentíssima declaração do próprio Costa sobre a substituição da carne por peixe nos jantares oficiais. Malhas que a correcção política tece.

 

Basta olhar para o líder socialista para se perceber que é bom garfo: imagino-o a deliciar-se com um leitão à Bairrada ou um chacuti de cabrito. Para ele, deve ser uma tremenda chatice aturar os fiéis devotos da rúcula e os talibãs do tofu.

Serei o último a admirar-me de o ver mais vezes na Madeira nos meses que vão seguir-se, até em incursões clandestinas, para matar saudades das suculentas espetadas em pau de loureiro. É verdade que o PSD continua ali a ganhar eleições, mas quase ninguém vota no PAN e o boicote à boa carne ainda não contaminou a Pérola do Atlântico.

 

De Costa podemos esperar muita coisa, mas sou incapaz de imaginá-lo convertido ao feijão maduro cozido com um fio de azeite, apregoe frei André Silva o que apregoar.

Percebo cada vez melhor que prefira entender-se com Jerónimo de Sousa. Não tanto por uma imperiosa necessidade de convergência política mas pela possibilidade de ambos partilharem mão de vaca com grão ou ensopado de borrego, tudo regado com tinto alentejano. A "descarbonização" pode esperar.

Fora da caixa (10)

por Pedro Correia, em 18.09.19

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«Tentámos tudo, mas foi impossível

Pedro Sánchez, presidente em exercício do Governo espanhol

 

Não conheço político mais afortunado que António Costa: as circunstâncias acabam sempre por favorecê-lo. Bafejado pelo ciclo de fortes estímulos introduzidos pelo Banco Central Europeu às economias periféricas durante esta legislatura, pela manutenção em baixa das taxas de juro e do preço do petróleo durante o mesmo período e pela nova estratégia global de Bruxelas, hoje muito mais compreensiva e benevolente para Portugal do que no quadriénio anterior. Aconchegado pelo abraço fraterno de um Presidente da República em quem não votou. Favorecido pela rendição dos partidos à sua esquerda, que da noite para a manhã puseram termo aos clamores contra o pacto de estabilidade e silenciaram os insistentes apelos à «renegociação da dívida», assinando de cruz quatro orçamentos do Estado. Robustecido enfim por uma crise sem precedentes neste século do maior partido à sua direita, onde até já se registou uma cisão.

Ainda há governantes assim, cada vez mais raros nesta era de turbulências: parecem sempre a coberto de ventos incómodos. Faltava a Costa a cerejinha em cima do bolo eleitoral, surgida nas últimas horas com a confirmação da ruptura entre o PSOE de Pedro Sánchez e o Podemos de Pablo Iglesias que levará os espanhóis novamente às urnas, a 10 de Novembro, para escolherem o próximo elenco do Congresso dos Deputados - as quartas eleições legislativas em quatro anos. Nem Sánchez nem o partido hermano do Bloco de Esquerda se entenderam nas negociações subsequentes às legislativas de 28 de Abril  para uma solução governativa estável e coesa. Porque o PS de lá é mais fraco do que o nosso e o BE deles tem maior expressão eleitoral do que o congénere luso. Consequência: Espanha permanece há cinco meses sem governo em plenas funções e com um parlamento que se limita a cumprir serviços mínimos.

Costa aponta a dedo para a bagunça no país vizinho e acena aos eleitores de cá com a palavra mágica: estabilidade. Até isto o ajuda a pedalar para a cobiçada meta da maioria absoluta.

Reafirmo: não conheço político com tanta sorte.

Fora da caixa (9)

por Pedro Correia, em 17.09.19

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«Estamos a viver num período de desaceleração geral de grande parte das economias europeias

António Costa, no debate com Rui Rio (ontem)

 

Rui Rio venceu esta noite o mais badalado debate da campanha eleitoral em curso. Teve a tarefa facilitada: em vez de lhe surgir um "animal feroz", para usar uma expressão popularizada por um antigo líder do PS, saiu-lhe um bonzo propenso à beatitude. António Costa, embalado por todas as sondagens, entrou em estúdio com ar de quem passara parte da tarde a dormir uma boa sesta. Faltava-lhe ânimo para uma refrega. E, sobretudo, faltava-lhe motivação: Rio anda há quase dois anos a dizer que o seu principal desígnio estratégico é tirar o Bloco de Esquerda da área da governação e rubricar grandes pactos de regime com o PS. Música para os ouvidos socialistas.

O presidente do PSD seguramente não se encostou ao travesseiro durante a tarde. Na mais recôndita parcela do seu instinto político deve ter soado enfim uma campainha de alarme: se desperdiçasse o tempo de antena proporcionado por este debate - transmitido em simultâneo por três canais de televisão - podia desde já fazer as malas, de regresso definitivo ao suave aconchego doméstico do seu Alto Minho.

Decidiu, portanto, ser combativo. E fez bem: assim o que resta da campanha promete tornar-se menos desinteressante. Naquele seu estilo peculiar de quem parece sempre um recém-chegado à política, apesar de não lhe ser conhecida outra actividade relevante nos últimos 35 anos, Rio falou de coisas concretas. Dos novos salários dos magistrados, em chocante disparidade com os dos professores. Da queda sem precedentes do investimento estatal, sujeito às cativações do ministro Centeno. Da enorme degradação dos serviços públicos. Da carga fiscal que não cessa de aumentar. Da actual execução orçamental na saúde, inferior à registada nos duros anos da tróica. Dos 330 mil portugueses que abandonaram o País nesta legislatura, num silencioso êxodo que noutros tempos daria notícias de abertura nos telejornais.

Bastou-lhe isto para sobrepor-se num debate ao qual chegou com expectativas pouco acima do zero, dadas as suas prestações anteriores e o seu insólito hábito de gastar energias a combater jornalistas e empresas de sondagens em vez de dar luta aos rivais políticos.

O bonzo, à sua frente, parecia surpreendido com o assomo de protagonismo de quem até aí só lhe merecera um aceno de condescendência, não isento de comiseração. A dado passo, terá até sentido um vago impulso de se sujeitar ao confronto verbal. Mas a inércia levou a melhor. Picou o ponto, debitou os chavões da praxe («devolvemos rendimentos», «temos contas certas», etc.), foi advertindo a massa ignara para a «desaceleração» que está prestes a chegar - quase como se falasse no diabo - e deu-se por satisfeito com a sofrível prestação. «Poucochinho», diria ele se estivéssemos em 2014. Falando não de si próprio, mas de outro.

Esta tarde - sou capaz de apostar - volta a dormir uma boa sesta outra vez.

Perguntas que gostava de fazer (1)

por Paulo Sousa, em 13.09.19

Dr. António Costa,

Disse-nos que, mesmo após muitos anos de uma relação próxima com José Socrates, ficou surpreendido com as revelações levantadas pelo processo Marquês.

Podemos confiar na sua capacidade de avaliar pessoas?

Fora da caixa (3)

por Pedro Correia, em 07.09.19

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«Um programa de Governo não pode ser uma lista de prendas de Natal.»

António Costa para Catarina Martins (ontem, na RTP)

 

Os eleitores de centro-direita, que andavam desconcertados por falta de representação política nesta campanha legislativa, encontraram enfim alguém que fala para eles: António Costa. O secretário-geral do PS, depois de ter feito um nó cego ao PSD e ao CDS na campanha europeia a propósito da questão da contagem do tempo de serviço dos professores, em nome do rigor das contas públicas, adopta agora idêntica estratégia para estancar as perspectivas de crescimento do Bloco de Esquerda. Tarefa que parece exercer sem rebates de consciência, indiferente ao facto de os bloquistas lhe terem estendido a passadeira vermelha ao longo da legislatura.

O outro, comportando-se com a inconsciência narcísica dos adolescentes, proclamava-se "animal feroz". Mas a ferocidade mais temível, como os livros ensinam, é a dos que aparentam placidez. Catarina Martins que o diga: foi ontem arrasada sem contemplações, num frente-a-frente na RTP, pelo mesmo político que recebeu o seu abraço efusivo em forma de voto legitimador de quatro orçamentos do Estado. Em louvor à memória da defunta geringonça, subsistiam sorrisos naquele estúdio - mas o de Costa era de aço. O sorriso gélido de quem marcha para a guerra disposto a não fazer prisioneiros.

Andava a doce Catarina a colher papoilas nesse jardim das delícias que é o programa eleitoral do BE quando Costa, mirando com enfado o mesmo documento, a alvejou com fogo verbal: «Isto é absolutamente irrealizável.»

O advérbio de modo, certamente não escolhido por acaso, sugeria sem ambiguidades o que figura no topo da lista das prendas de Natal do primeiro-ministro: governar sem a muleta bloquista. Mas para que isto se tornasse ainda mais evidente Costa aplicou a Martins um gancho de direita: «O BE propõe-se contrair dívida para nacionalizar um conjunto de empresas. Gastar 10 mil milhões de euros a nacionalizar a Galp significa o mesmo montante da despesa corrente do Serviço Nacional de Saúde. Qual é o sentido desta despesa?»

Aberta a época da caça ao voto da direita, que Rui Rio deixou em estado de orfandade, o líder do PS supera a concorrência com larga vantagem: estrangulou o défice e bate-se contra as nacionalizações, fazendo das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento as suas tábuas da lei.

O centro-direita tem motivos para celebrar: volta a ter um líder em Portugal.

Frases de 2019 (23)

por Pedro Correia, em 29.08.19

«Os portugueses não gostam de maiorias absolutas.»

António Costa, ontem, em entrevista à TVI 24

A geringonça e a caranguejola

por Pedro Correia, em 26.07.19

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1

A caranguejola em Espanha - o equivalente à geringonça em Portugal - funcionou muito bem para destruir, deitando abaixo o anterior Executivo, de Mariano Rajoy. Mas está a revelar-se totamente ineficaz para construir: à segunda votação consecutiva, Pedro Sánchez - o émulo de António Costa em Madrid - continua sem conseguir reunir os votos na Câmara dos Deputados que lhe permitam tomar posse como presidente do Governo. 

Ao contrário de Costa, derrotado por Passos Coelho nas legislativas de 2015, Sánchez venceu a eleição parlamentar de 28 de Abril - após quase 11 meses de Executivo interino, governando com o orçamento de Rajoy e sem se sujeitar ao teste das urnas. Mas foi uma vitória muito insuficiente para governar sem parcerias: não chegou aos 29% dos votos recolhidos nas urnas e apenas conseguiu eleger 123 deputados, num hemiciclo em que são necessários 176 lugares para atingir a maioria absoluta.

Virou-se então para as forças políticas que se associaram ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no derrube de Rajoy: desde logo o equivalente local do Bloco de Esquerda fundido com as migalhas que restam do quase defunto Partido Comunista sob a sigla Unidas Podemos (UP). O líder desta formação política, Pablo Iglesias, apressou-se a exigir várias pastas ministeriais e uma vice-presidência do Governo - mesmo tendo obtido nas urnas apenas 14,3% dos votos e os seus 42 deputados, somados aos do PSOE, serem insuficientes para formar maioria sólida no parlamento.

 

2

Na monarquia constitucional espanhola não existe tradição de coligações governamentais: as que existiram no país vizinho remontam ao atribulado sistema republicano, na década de 30, e não deixaram saudades. Desde a reintrodução da democracia, há 42 anos, todos os Executivos foram monocolores, à esquerda e à direita. Os minoritários acabaram por vingar com apoios pontuais do Partido Nacionalista Basco ou da antiga Convergência catalã, entretanto dissolvida na deriva independentista. 

Sánchez está hoje prisioneiro da própria armadilha que montou a Rajoy: mostra-se incapaz de transformar a anterior maioria de bloqueio ao Partido Popular em maioria de governo. Após o segundo "não" recebido pelo PSOE no hemiciclo - onde ontem só recolheu 126 votos favoráveis, contra 154 negativos e 66 abstenções - o líder socialista começa a render-se à evidência: pouco mais lhe resta senão enfrentar novas eleições, que não deverão ocorrer antes de Novembro. Quando Espanha se prepara para entrar no quarto mês de Executivo interino, sem orçamento com marca socialista e o parlamento permanece impedido de se constituir em comissões de fiscalização da actividade governativa.

 

3

Nos últimos dias, Sánchez deve ter sentido ciúmes do amigo Costa: a vida é muito mais dura para os socialistas espanhóis. Isto ficou bem evidente, no frustrado debate de investidura travado ontem nas Cortes, quando a dirigente socialista Adriana Lastra - número 2 do PSOE - subiu à tribuna para arrasar os putativos parceiros de esquerda.

«A UP exigiu [para formar coligação] controlar mais de metade da despesa pública e todas as fontes de receita - impostos, inspecção tributária, autoridade da responsabilidade fiscal. Exigiu, praticamente, controlar a economia deste país. Em privado, exigiu quatro das seis áreas de Estado prioritárias nesta legislatura: trabalho, ciência, área energética e área social», declarou no seu duríssimo discurso, sublinhando: «O PSOE necessita de sócios leais. Não necessita de quem se apresenta como guardião das essências da esquerda.»

E, visando directamente Iglesias, disse-lhe: «Não queria um Governo de coligação com o PSOE: queria um Governo exclusivamente à sua medida. Quer gerir um carro sem sequer saber onde está o volante. Esta é a segunda vez que impedirá a Espanha de ter um Governo de esquerda. Curioso progressismo, o seu...»

 

4

Costa e o seu braço direito, Mário Centeno, não têm dificuldades semelhantes às de Sánchez. Pelo contrário: o dócil BE e o cordato PCP passaram uma legislatura a aprovar sucessivos orçamentos sujeitos às regras do pacto de estabilidade imposto por Bruxelas e Berlim. Nunca mais saíram à rua a exigirem a «renegociação da dívida». Assistiram quase sem pestanejar ao mais brutal aumento da carga fiscal de que temos memória, à maior redução do investimento público de que há registo e a um montante de cativações ditadas pelo Ministério das Finanças nunca antes ocorrido em democracia. E nem se escandalizaram pelo facto de - mesmo sem tróica - o Executivo Costa/Centeno ter ultrapassado as metas do défice fixadas pelo Banco Central Europeu. 

Ao contrário dos camaradas espanhóis hoje integrados sob a sigla Unidos Podemos, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa jamais perturbaram a navegação austeritária dos socialistas, justamente premiada pela elevação de Centeno à presidência do Eurogrupo e talvez até ao cargo de director-geral do FMI.

 

5

Costa, ao invés de Sánchez, não precisa de incluir os "parceiros de esquerda" no Governo, à luz da original solução governativa que concebeu em 2015. Ao contrário do colega espanhol, que anda a negociar há três meses sem sucesso, por cá bastaram-lhe três dias e ainda lhe sobraram várias horas desses dias. Obteve quase tudo do BE e do PCP, oferecendo-lhes em troca uma mão cheia de quase nada. Manteve a legislação laboral, manteve o mapa administrativo, manteve o essencial da organização judiciária, manteve as traves mestras da ortodoxia financeira: os que antes gritavam contra tudo isto passaram a pronunciar-se sotto voce, de sorriso ameno e aplauso garantido. 

Se em Outubro lhe apetecer reorganizar o Governo oferecendo duas ou três secretarias de Estado a simpatizantes do Bloco, Costa comprará outros quatro anos de "paz social" à esquerda. Não precisa de mais para uma governação tranquila. Calculo que Sánchez deva invejá-lo. Seria bem diferente se o espanhol pudesse exportar Iglesias para cá, cambiando-o pela doce Catarina.

Gente que não sabe estar durante os incêndios

por Tiago Mota Saraiva, em 23.07.19

Mais uma vez, o hábil e ponderado negociador António Costa, erra com estrondo na resposta que dá à crise dos fogos. Polemizar com o vice-presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei atacando-o num momento em que está a lidar com uma calamidade é um disparate político e um gravíssimo erro de comunicação. Se o que Costa diz não é mentira - os autarcas são os “primeiros responsáveis pela protecção civil em cada concelho" - também não é menos verdade que o governo é o principal responsável pela protecção das populações em risco e situação de calamidade.
Costa tarda em aprender com Marcelo que percebe que estes momentos são para ouvir, estar e deixar-se levar, mais do que assumir grandes declarações políticas. No que toca a Marcelo, e assim que os fogos estejam adormecidos, importará perceber como ultrapassará a declaração feita há um ano de que não se recandidataria se sucedesse uma nova tragédia.

Descubram as diferenças

por Pedro Correia, em 12.07.19

 

«Entendi, por dever de lealdade institucional, informar o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República que a aprovação em votação final global desta iniciativa parlamentar [contabilização total do tempo de serviço dos professores] forçará o Governo a apresentar a sua demissão.»

António Costa, 3 de Maio de 2019, em declaração ao País

 

«Nunca farei chantagem com os portugueses dizendo que só governo nesta ou naquela situação.»

António Costa, 8 de Julho de 2019, em entrevista à Rádio Renascença

Uma metáfora

por João Sousa, em 07.07.19

cais do sodré 06-07-2019

António Costa disse ontem "não se poder aceitar a ideia" de que "nada aconteceu" nos últimos quatro anos além do défice. Não é hábito, mas desta vez concordo por inteiro com ele: muita coisa - infelizmente - aconteceu nestes últimos quatro anos além da tal redução do défice. Até digo mais: a fotografia acima, que tirei ontem à tarde numa das salas de embarque da Transtejo no Cais do Sodré, é toda uma metáfora para o país em 2019.

É obra

por Pedro Correia, em 11.05.19

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Em apenas uma semana, António Costa afastou as atenções de uma campanha eleitoral que lhe estava a correr mal, meteu os dois partidos da oposição na algibeira, pôs a esquerda "radical" em sentido, perturbou o inamovível Mário Nogueira e até silenciou o Presidente da República.

Sai da pseudo-crise com imagem reforçada: moderado, "centrista", zelador das contas públicas e do equilíbrio orçamental, sem ceder à demagogia nem atirar dinheiro para cima dos problemas. Deixando Rui Rio ainda mais atarantado e até a sagaz Assunção Cristas a tropeçar no próprio pé. Com os deputados do PSD e do CDS, desautorizados pelas próprias direcções partidárias, aturdidos com tanta cambalhota.

É obra.

A política não é para aprendizes

por Pedro Correia, em 05.05.19

Os partidos da oposição - com destaque para o PSD - acabam de oferecer a António Costa o melhor dos troféus: o da responsabilidade orçamental, demarcando-o da esquerda que ainda não aprendeu a fazer contas.

No actual contexto de campanha eleitoral para as europeias, confrontado com sondagens pouco animadoras, Costa precisava com urgência de surgir aos olhos dos portugueses como um dirigente moderado e "centrista". PSD e CDS fizeram-lhe a vontade numa farsa em dois tempos com epicentro na Assembleia da República: na sexta-feira, uniram-se à esquerda radical na questão da contagem do tempo de serviço dos professores; ontem e hoje, acossados por Costa e certamente pressionados pelo Presidente da República, saltaram dessa carruagem, desautorizando os seus deputados e dando de si próprios uma imagem de penosa incompetência. Enquanto Pires de Lima, ex-braço direito de Paulo Portas no CDS, se atira a Assunção Cristas, personalidades do PSD como Pedro Duarte e Luís Montenegro não poupam nas justas críticas a Rui Rio. E Marques Mendes, na SIC, acaba de reconhecer o óbvio: «António Costa teve talvez a melhor prestação desde que é primeiro-ministro.»

A política não é para meninos. Nem para aprendizes.


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