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Delito de Opinião

Epifanias de ano novo

Paulo Sousa, 01.01.24

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Com umas legislativas marcadas para daqui a uns longos meses e que garantidamente produzirão uma enxurrada adicional ao ruído mediático a que estamos normalmente sujeitos, dei por mim, na madrugada de ano novo, numa conversa com um jovem com quem partilhei uns copos de uma bebida destilada.

Talvez impelido pelo voluntarismo fogoso da idade, notei que o que ele dizia sobre o referido evento eleitoral assentava na busca de uma proposta partidária límpida, sólida e escorreita. Da mesma maneira que quando se dá um pontapé numa bola ou se aperta um parafuso, da mesma maneira que uma acção tem uma consequência, ele procurava uma solução que nos resolvesse os nossos problemas que não vale a pena aqui discriminar para não alongar demasiado o postal.

Fiquei tentado em não lhe cortar as vazas no carácter linear da escolha que procura, mas acabei por ter de partilhar com ele que o cepticismo poderá ser uma excelente arma de defesa da remanescente sanidade mental. Não estou em condições de garantir que o é, pois cada qual terá a sua opinião e chegará à sua conclusão se entender que vale a pensa gastar tempo a pensar nisso. Ainda assim, tenho de confessar que me sinto razoavelmente confortável em andar sempre com uma dose generosa de descrença à mão de semear.

Falamos daquela clássica distinção entre a esquerda e direita baseada na forma como avaliamos a natureza humana, essencialmente boa mas estragada mais tarde pela sociedade, vulgo capitalismo, como defendem os esquerdalhos, ou naturalmente egoísta e que por isso carece de instituições que funcionem como contrapeso a esses impulsos, como acham os direitolas.

Tive de lhe perguntar como é que numa visão de esquerda, pessoas maduras, cheias de mundo e de humanos defeitos, conseguiriam alguma ocupar um lugar num governo, sem terem consciência que eles próprios nunca poderiam encaixar nessa visão idílica de serem essencialmente bons. Nem foi necessário começar a nomear governantes recentes para mostrar que só um alienado pode achar isso de alguém, muito menos das mais destacadas figuras públicas que nos têm tentado apascentar. Mas adiante.

A conversa seguiu e dei por mim a acinzentar-lhe as convicções dizendo que quando votamos, estamos apenas a ajudar a escolher alguém que garantidamente nos irá desiludir. E este pensamento aplica-se não só mas principalmente ao eleitor que vota no partido que irá ser governo. Por isso, não podemos deixar de ter compaixão por aqueles que engrossam as veias do pescoço a defender a pureza de uns ou de outros, especialmente dos que comprovadamente não fazem outra coisa para além de desiludir.

Este jovem interlocutor era novo suficiente para não se recordar de que o final do cavaquismo teve traços em comum com a actual situação, ainda que durante essa era tenha havido uma evolução efectiva das condições de vida dos portugueses. Por isso, e na lógica que defendi, está na hora de nos irmos desiludir com outros, pois já chateia ser desiludidos sempre pelos mesmos. Depois de acabada a garrafa, regressamos à sopa da pedra.

Ler (16)

Um para o Inverno, outro para o Verão

Pedro Correia, 01.01.23

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Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo é assim: chego a 1 de Janeiro sempre com um plano de leituras. Numa espécie de desafio comigo próprio.

Houve um ano em que me propus ler quase em exclusivo escritores galardoados com o Prémio Nobel. Outro, em que só li obras de autores portugueses publicadas entre 1901 e 2000. Mais recentemente, e com relativo sucesso, imaginei-me a eleger o melhor livro de ficção estrangeira de todos os anos do século XX - o que me forçou a canalizar as leituras nesse sentido, a partir de tal meta imaginária, e quase consegui concretizar o meu propósito (faltam-me três ou quatro anos).

De caminho, fui fazendo descobertas de títulos e até de autores que jamais havia lido ou de todo desconhecia. Tenho na mesa de cabeceira, por exemplo, um candidato a melhor livro de 1923: A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Hoje comecei o dia - e o ano - a ler , de Joseph Roth, possível melhor livro de 1930. É sempre assim: umas obras puxam outras, no seu conjunto vão compondo um quebra-cabeça imaginário.

Questão de método. Ajuda a concentrar, não a dispersar.

 

Para 2023, o meu objectivo é mais modesto. Contentar-me-ei se concretizar este plano muito sucinto: só tenho dois livros na minha lista. É verdade que ambos se desdobram em vários volumes. Mas são marcos da literatura mundial que até agora me passaram ao lado: Guerra e Paz (vi o filme mas não li o livro) e Em Busca do Tempo Perdido

Com prioridade absoluta na minha agenda. E até já os dividi por estações do ano: o agreste Tolstoi para o Inverno, o lânguido Proust para o Verão.

Alimento há muito a convicção de que existem obras literárias adequadas a cada ciclo anual: é absurdo lermos O Doutor Jivago, ambientado em extensas estepes geladas, no sufocante estio de Agosto; ou O Deserto dos Tártaros, que decorre em cenário de tórrido calor, à lareira do Inverno. Tal como existem livros próprios para ler de dia ou de noite. Tal como existem livros adequados a transportar connosco e outros que devem permanecer em casa. 

Cá os tenho, portanto. Prioridade absoluta para Guerra e Paz: três volumes da extinta Editorial Inquérito, com tradução do filósofo José Marinho. Seguem-se - quando o calor apertar - os seis volumes do Tempo Perdido, com chancela Relógio d'Água e tradução do poeta Pedro Tamen, há pouco falecido. Neste caso, confesso, parto apenas com a ambição de ler os dois primeiros, aqueles que realmente me interessam: "Do Lado de Swann" e "À Sombra das Raparigas em Flor".

 

Será preciso tempo: meia hora diária, pelo menos. E concentração - dom cada vez mais raro e precioso. E o tal método. Sem aquele péssimo hábito muito português que leva tantos a dizer «só leio quando me apetece» ou «só costumo ler quando preciso de relaxar» enquanto se dispersam em inutilidades sem préstimo algum. E relegam o nosso país para um dos piores índices de leitura no continente a que pertencemos: 61% não abriram um livro em 2022.

Números que deviam envergonhar-nos enquanto europeus. Sou capaz de apostar, porém, que alguns por cá até se riem destas estatísticas. Prestam tributo à ignorância e fazem gala disso.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 01.01.23

Votos de um Bom 2023 para toda a tribo delituosa, autores, comentadores, leitores e passantes. Que haja saúde e que alveje a paz.

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Hoje celebra-se O Dia de Ano Novo

«A partir de hoje, feriado em muitos países, começa um novo calendário anual. A história do Ano Novo é antiga. No império romano, a população celebrava este dia em homenagem a Jano, deus das mudanças e transições. Em 46 a.C., Júlio César decretou que a partir desta data seria comemorado o novo ano, estabelecendo o calendário juliano.

Apenas no final do século XVI este dia foi oficializado com a adopção do calendário gregoriano pela Igreja Católica. 

Ano Novo é esperança, renovação e mudança. Todos aspiramos à concretização de sonhos e aspirações diversas. Não faltam neste dia listas de projectos sempre animadas de boas intenções. Em Portugal e em quase todas as partes do globo".

Esperança,  renovação e mudança... Esperança,  sempre, quanto ao restante, se for para melhor e para todos, apoio incondicionalmente a grande aspiração dos povos .

 

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A 1 de Janeiro celebra-se O Dia Mundial da Paz

«A mensagem para a celebração deste Dia Mundial da Paz em 2023 tem como tema "Ninguém pode salvar-se sozinho". Juntos, recomecemos a partir da covid-19 para traçar sendas de paz.

O Papa Francisco convida, na sua mensagem, a “mudar o coração”, no pós-pandemia, apelando ao reforço do “sentido comunitário” e de fraternidade, na humanidade.

“Não podemos continuar a pensar apenas em salvaguardar o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas devemos repensar-nos à luz do bem-comum, com um sentido comunitário, como um ‘nós’ aberto à fraternidade universal”, indica o Papa

“Não podemos ter em vista apenas a nossa própria protecção, mas é hora de nos comprometermos todos em prol da cura de nossa sociedade e do nosso planeta, criando as bases para um mundo mais justo e pacífico, seriamente empenhado na busca dum bem que seja verdadeiramente comum”, sustenta Francisco.

O Dia Mundial da Paz foi instituído em 1968 por São Paulo VI (1897-1978) e é celebrado no primeiro dia do novo ano com uma mensagem papal.»

Pensar na guerra é apenas pensar na guerra, porque felizmente nenhum de nós sentiu a guerra na pele e desejamos ardentemente que nunca venhamos a sentir. Não há ninguém, que nunca tenha vivido uma guerra, a poder "calcular" o que as pessoas estão a sentir. Creio que todos sentem medo. Não é cobarde ter-se medo, muito pelo contrário. Podemos fazer o quê pela Paz? Nada, senão rezar. Não está nas nossas mãos acabar com este sacrifício de vidas. Podemos ajudar, mas o fim, esse depende da vontade de alguém que nunca foi bom. Talvez o Ano Novo traga uma revelação que lhe ilumine os pensamentos. 

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Hoje é O Dia do Domínio Público 

«No primeiro dia do ano, as obras de autores que morreram há 70 anos perdem os direitos autorais e entram em domínio público para serem distribuídas e partilhadas gratuitamente. As leis variam, mas muitos países os direitos autorais terminam 50 ou 70 anos depois da morte do criador. Em Portugal os direitos autorais caducam só 70 anos após a morte do autor (incluindo os direitos das obras póstumas). 

Livros, filmes, músicas, fotografias, pinturas ou outros produtos com direitos autorais deixam de necessitar de autorização para partilha, saindo da posse dos herdeiros do autor, das editoras ou outros detentores do conteúdo. Estas obras passam a estar acessíveis ao consumo do público em geral, fazendo parte do património cultural comum.»

A Wikipédia tem uma lista de autores cujas obras passam ao domínio público em 2023. Segue o link:

https://en.m.wikipedia.org/wiki/2023_in_public_domain

          (Imagens Google)

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 31.12.22

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Hoje é O Dia de S. Silvestre

«São Silvestre foi o 33.º Papa, de 31 de Janeiro de 314 a 31 de Dezembro de 335, dia em que faleceu. Foi responsável pelo início da paz na Igreja, ao conseguir pôr fim à perseguição aos cristãos no Império Romano.

Em diversos países realiza-se neste dia a tradicional Corrida de São Silvestre, prova de atletismo aberta a homens e mulheres de várias idades.

Em Portugal a tradição da corrida de São Silvestre também se faz sentir, com a realização de cerca de 50 corridas, com destaque para Lisboa, Porto e Amadora. Outrora realizadas na noite de fim de ano, com o aumento das provas de São Silvestre as corridas espalharam-se no calendário, com a realização de provas em Dezembro e Janeiro. As corridas têm tradicionalmente a extensão de 10 quilómetros.»

 

Há muito, muito tempo, era eu uma criança... bem, tinha 19 anos e combinámos no trabalho ir fazer a corrida da Amadora. Este episódio remonta a 1979, se não estou em erro, numa altura em que o encerramento era à meia-noite, mas tínhamos cerca de quinze minutos de tolerância para o réveillon. Naquele ano não conseguimos os quinze minutos e perdemos a corrida. Nunca mais alimentámos esse tipo de expectativa. 

 

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A 31 de Dezembro celebra-se a Véspera de Ano Novo 

«Chegamos à recta final do ano, em noite marcada pela tradicional ceia festiva, geralmente ao som de música, que acolhe o primeiro dos próximos 365 dias do calendário.

Algumas tradições de passagem de ano :

  • À meia-noite, brindar com champanhe e comer uvas passas
  • Comer uma uva passa por cada badalada e pedir um desejo em cada uma
  • Vestir pelo menos uma peça de roupa interior nova e de cor azul
  • Entrar no ano de pé direito

Como é dia de festa, e cheio de superstições, há um cuidado especial com a indumentária. Muitas pessoas optam por vestir roupa especial.

As opções para esta noite são várias:

  • Num hotel
  • Na rua
  • Em casa
  • Viajar, seja em Portugal ou no estrangeiro

É um dia propício ao balanço do ano que termina, sendo lembrados os momentos bons e maus que ficaram para trás, tanto a nível pessoal como profissional.

É também o momento apropriado para as resoluções que a mudança de ano proporciona.»

 

Este ano o balanço é positivo, porque apesar de tudo o que aconteceu estou viva para contar a história, tenho a minha família saudável, tenho casa, comida e vivo em paz.

      (Imagens Google)

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 30.12.22

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A 30 de Dezembro celebra-se O Dia da Sagrada Família

«A Sagrada Família celebra-se no domingo seguinte ao Natal. Caso o Natal calhe a um domingo, festeja-se a 30 de Dezembro.

A Sagrada Família é constituída por Jesus Cristo; sua mãe, a Virgem Maria; e pelo seu pai adoptivo e terreno, São José. A festa da Sagrada Família remonta ao século XVII e consiste na celebração da família de Jesus como exemplo de vida familiar para todas as comunidades cristãs. Amor incondicional, simplicidade, união, trabalho e sacrifício são algumas das lições a aprender com a Sagrada Família, "a primeira de muitas outras famílias santas", na palavras de João Paulo II no Ano Internacional da Família, celebrado em 1994.

"Sagrada Família de Nazaré,
desperta na nossa sociedade a consciência
do carácter sagrado e inviolável da família,
bem inestimável e insubstituível.

Cada família seja morada acolhedora de bondade e de paz
para as crianças e para os idosos,
para quem está doente e sozinho,
para quem é pobre e necessitado."

 (Papa Francisco)

Este dia sublinha a importância de valorizarmos os momentos em família, enaltecendo a educação familiar para vivermos em sociedade.»

 

As famílias da era digital passam mais tempo a "conversar" com os telefones e com os tabletes do que a conversarem uns com os outros. Falo por mim, que, durante o tempo em que estive basicamente "presa" à cama, dava-me muito mais jeito enviar um SMS ao meu marido a pedir qualquer coisa de que me pôr a gritar por ele. Ao que uma pessoa chega... tornar-se naquilo que mais se detesta. 

 

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Hoje é O Dia das Resoluções de Ano Novo 

«A antiga tradição de tomar resoluções para o ano novo começou no festival babilónico de Akitu, há mais de 4.000 anos. Abrangendo 12 dias, o "renascimento do mundo natural" seria celebrado pelos babilónios. Um novo rei seria coroado, colheitas seriam plantadas e promessas seriam feitas aos deuses. Eles acreditavam que se essas resoluções fossem cumpridas, os deuses ficariam felizes em vez de vingativos.

Em 153 a.C., para homenagear o deus Jano, o senado romano declarou o 1.º de Janeiro como início do ano novo. Janus era uma entidade com duas faces que tinha a capacidade de olhar para trás e para a frente no tempo - simbolizando o fim de um ano e o início de outro. Mas só cem anos depois, em 46 a.C., o conceito do Ano Novo nesta data foi oficializado por Júlio César.

Na Idade Média, o 'Voto do Pavão' seria renovado no final de cada ano. Essencialmente, eram resoluções com as quais os cavaleiros se comprometiam, colocando as mãos num pavão cozido e renovando juramentos de honra e cavalheirismo

 

Antigamente guardavam-se as notas grandes e a roupa interior azul para a passagem de ano. Então, chegada a hora, de cuequinha azul, as notas numa mão e as passas na outra, subia-se a um banco, agitava-se malucamente o dinheiro, comiam-se as passas e depois da décima segunda badalada fazia-se o brinde e batiam-se os tachos para afastar os maus espíritos. Era então que se proclamava em voz alta uma qualquer resolução maluca a que todos nos policiavam o cumprimento. Presentemente, depois do barulho e de ver os fogos de artifício, não vejo a hora de me ir deitar.

       (Imagens Google)

Natal e Fim de Ano

João André, 23.12.22

Desde que era pequeno que tenho festejado de uma forma ou outra o Natal. Tinha até uma certa sorte de ter duas noites de Natal, dado que o meu avô paterno era sacristão e, como tinha que estar de serviço à missa a 24, só reuníamos a família paterna na noite de 25. Duas noites de Natal consecutivas e, tendo eu o meu aniversário em Dezembro, até tinha direito a receber múltiplas prendas porque toda a gente se lembrava "ah pois, o Joãozinho fez anos há pouco tempo".

Devo notar no entanto que nunca foram noites de Natal muito religiosas. Lá havia a referência a prendas "do menino Jesus", coisa que me deixava confuso com a logística dele e do Pai Natal em entregar as prendas - lá me convenci que o Pai Natal deixava Portugal para o Menino Jesus e que dividiam territórios - mas fora a história de o meu avô ser sacristão, não tínhamos grande presença da religião. Era uma festa de família. Com os anos isso não mudou. Cresci não crente (que é uma maneira mais simpática de dizer ateu até à medula num blogue povoado de bons cristãos cuja Fé não quero incomodar) e como tal a religião sempre foi como a água num submarino: está ali em todo o lado mas não entra. É o ambiente em que me movo neste período - não nego a religiosidade do Natal, como é óbvio - mas deixa-me indiferente. Adiante, isto não era para falar de religião especificamente. Esclarecimento feito.

Hoje, numa Holanda que dá relativamente pouca importância ao Natal no sentido que nós o damos, numa família internacional onde a minha cara metade não liga ao dia 25, e com os preços dos bilhetes de aviões a tornarem uma viagem a Portugal um custo ridículo para 7 ou 8 dias passados essencialmente em casa, acabei por ir ligando pouco. Temos as prendas, a árvore, amanhã haverá Bacalhau e os telefonemas à família e... já está. Aproveitarei o dia 26 ser feriado por cá, tirarei o resto da semana porque também preciso de descansar e estará feito o período festivo. Penso que esta falta de espírito natalício advém também de não ver televisão (as transmissões, que temos o aparelho) e não ser inundado pelos votos de Boas Festas! a cada 5 minutos. Nas ruas ao redor não há decorações festivas, as lojas não fazem grande esforço (as prendas foram no período do Sinterklaas - São Nicolau - a 5-6 de Dezembro) e a atmosfera não existe.

O fim do ano torna-se assim apenas isso, um final de ano. Um momento para balanços do ano, de pensar no que foi e vai ser, de enviar os votos de boas festas a amigos e colegas e de desejar que este mundo louco melhore.

Então, e respeitando esta lógica, deixo aqui os meus desejos de um Santo Natal a quem o festeje de forma religiosa, bom período festivo a outros que festejem o Natal, feliz Hanukkah (tenho dois amigos que o festejam e como tal lembro-me dele) a quem o celebre e votos que para o ano de 2023 as coisas não piorem - já seria um passo em frente em relação aos últimos anos. Gostaria de ser mais festivo, mas talvez me falte o espírito ou talvez eu seja simplesmente um pessimista. Seja como for, bom Natal, bom Ano Novo e muita saúde para vós e vossos, co-autores e leitores.

Pequenos fogos por todo o lado

Maria Dulce Fernandes, 01.01.21

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2021 entrou com pompa e circunstância. Entrou com estrondo, com cor e aplausos.

Por todo o lado, pequenos foguetes, luz e cor espelharam a esperança e a resiliência herdada de um ano que saiu de mansinho, envergonhado e triste por ter sido o ano de todos os tormentos, de todos os medos, de todas as angústias e contradições.

A humanidade depositou a sua fé no porvir e recebeu ruidosa o novo ano desanuviando os céus e espanando a alma com estrépito para afastar o mal, os maus espíritos encarnados num morbo vil.

Dos telhados do seu isolamento lançaram o seu clamor muitas luzes ao céu e de tal modo que, durante largos minutos, a noite virou um arrebol de claridade por toda a parte, com uma toada alegre e barulhosa.

Esta noite todos os que olharam os céus iluminados, crentes e ateus, olharam com um sorriso no peito.

Com um misto de saudade, confiança, coragem, esperança e triunfo recebemos 2021.

 

Bom Ano Novo

Adeus, 2020

Pedro Correia, 01.01.21

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PASSAGEM DO ANO

 

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

 

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

 

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

 

Surge a manhã de um novo ano.

 

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

Carlos Drummond de Andrade

Aquilo de que te vais lembrar.

Catarina Duarte, 04.01.20

Aquilo de que te vais lembrar, dos teus 14 anos, vai estar rodeado de névoa.

 

Vais recordar-te, vagamente, do teu melhor amigo. E, vagamente também, te recordarás do nome dele. Mas não terás a certeza.

 

Vais lembrar-te da tua escola, das suas secretárias e das suas cadeiras. Tens a vaga ideia de serem desconfortáveis e de serem castanhas, da cor da madeira. Mas também podiam ser pretas. Ou, algumas delas, castanhas; outras, pretas.

 

Vais também recordar-te da cor do vestido que usaste no casamento do teu primo. E vais referir que ficou um espanto com aquela pochete emprestada pela tua mãe. Terá sido um conjunto em tons de azul, aquele que fez furor e suscitou comentários, quase todos elogiosos.

 

Mas, no dia em que o voltares a ver, bem acondicionado num plástico direitinho da lavandaria, vais pensar: “que estranho, não tinha a ideia do azul ser tão aberto."

 

Vai haver também um dia em que vais recordar-te da amizade do teu melhor amigo, aquele que, aos 14 anos, te ajudou a compreender melhor os teus pais e vais - juro - agarrar-te sempre ao amor que sentiste no casamento do teu primo, aquele onde usaste o vestido azul de tom mais aberto, e de como dançaram até ao amanhecer, de como se abraçaram, de como se beijaram e de como, em cima das mesas, foram brindando ao amor, ao amor e ao amor.

 

Podes não ter a certeza da cor das cadeiras da tua escola, nem, tão-pouco, se eram confortáveis mas, para sempre te vais lembrar, do professor que, no final de uma aula de fim de período, te chamou à parte, para te dizer que devias escrever mais pois, se o fizesses, muita coisa boa iria acontecer.

 

Há poucas coisas que têm a importância devida para serem recordadas, ano após ano. E a nossa memória, nesse sentido, dá-nos uma grande ajuda, peneirando as que interessam abraçar e connosco morrer.

Um Bom Ano para todos. Cheio de recordações fáceis do tempo fazer permanecer. São sempre as que verdadeiramente importam.

Atrasos

Sérgio de Almeida Correia, 02.01.20

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Os atrasos têm justificação, embora não pretenda justificar-me. Por isso mesmo, enquanto não voltar a dar notícias por estas bandas, ficam três textos saídos noutra vida. Para colmatar a ausência. E votos de um Bom Ano de 2020 para todos os delituosos, escribas e leitores; também para os outros, que eu não sou egoísta e quero apenas que sejam felizes e me deixem viver em paz e liberdade. Já basta a tristeza.

sintonia

aniversário

camaradas

Feliz Ano Novo

Pedro Correia, 30.12.19

Com o pé direito mesmo direito

Maria Dulce Fernandes, 28.12.17
"Um espirito mesquinho é como um microscópio, aumenta as pequenas coisas, mas impede de ver as grandes."

                                                                P. Chesterfield




O perdão no geral, é um mito. 

É necessário uma sublime nobreza de alma para alcançar o engrandecimento do perdão.

Não acredito na capacidade de perdoar. Normalmente confundimos perdão com tolerância, com aceitação, mas não poderão ser de modo algum confundidos em termos de grandeza espiritual.

Não será seguramente o perdão um dos meus votos para o vindouro 2018. Não lhe vejo futuro e há que ser pragmático.

Os meus melhores votos de entendimento e paz e que os homens consigam finalmente desempenhar o seu papel de vigilantes da vida e não se limitem a ser apenas estáticas figuras de acção e espectadores passivos dos factos.

Ao toque da décima segunda badalada, guardemos alguns minutos para introspeção e depois libertemos o grito que nos exorciza os demónios , nos purifica a alma e nos liberta da masmorra dos últimos 365 dias, de onde corremos para abraçar a vida nova que se nos oferece.

Que tenhamos a sabedoria de a saber viver com sensatez.

                    BOM 2018


             

Feliz Ano Novo

Teresa Ribeiro, 31.12.15

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Não me quero meter num 31. Se o Natal é quando um homem quiser também o ano novo nasce quando muito bem entender. Ainda há dois dias ouvi um curioso discurso contra as 12 passas e os 12 desejos (não desgosto de passas, mas também prefiro m&m's). Os 12 desejos são, de facto, um exagero. Uma clara invenção da sociedade de consumo, que como sabemos tem na venda de desejos o seu grande negócio. Eu gosto de dizer "não" ao desperdício. Além de que não me tenta apresentar um tão extenso caderno de encargos ao destino. No que toca ao meu destino sou supersticiosa. Acho que o melhor é deixá-lo estar, distraído de mim, não vá o diabo tecê-las. De modo que não lhe vou pedir nada.

Gosto daquela máxima que diz: "Não peças nada, espera pouco e deseja tudo". Desejar tudo é só uma questão de princípio. Ninguém deseja tudo esperando que tal se concretize, por isso estou de mala aviada para 2016 sem grandes expectativas. Apenas com uma ideia de pragmatismo que me agrada, que é a de fazer o que estiver ao meu alcance para me sentir bem. Se for competente, haverá consequências para quem estiver próximo e até longe de mim. Quantos mais, melhor, porque o efeito multiplicador é muito importante.

Conto de Ano Novo

José António Abreu, 31.12.15

As dores começaram a sério na manhã do dia 31 de Dezembro. Para Susana, não constituíram uma surpresa. Há meses que as esperava a qualquer instante. Sentira-as até muitas vezes, em parte reais, em parte por antecipação. Fez uma tentativa débil para se convencer de que ainda não seria agora, de que não passava de um falso alarme, mas desistiu de imediato. Para quê fingir optimismo nesta fase?

Vítor estava a trabalhar. Pensou telefonar-lhe mas desistiu também dessa ideia. Fá-lo-ia mais tarde. Ou não. Os esforços que ele fazia para lidar com a situação deviam agradar-lhe (sabia-o perfeitamente) mas, em vez disso, irritavam-na.

Deitou-se no sofá da sala e recordou os dias do diagnóstico. A preocupação do médico, cuja confiança profissional se esvaiu ao perceber o grau do pessimismo dela. «Precisa de ânimo. Uma visão positiva é essencial.» As garantias de Vítor de que tudo correria bem: «Não há verdadeiras razões para ficares assim. As taxas de sobrevivência são altíssimas, hoje em dia.» (Evitava sempre dizer «taxas de mortalidade», em mais uma demonstração de tacto que a irritava profundamente.)

Ela sabia que era verdade. Mas também conhecia os factores de risco, que, honra lhe fosse feita, o médico nunca suavizara. E, acima de tudo, conhecia a história da sua família. Pesquisara. Por entre um mar de imprecisões e contradições, os familiares mais idosos recordavam pelo menos cinco mortes, todas pelo mesmo motivo. A penúltima, claro, fora a da mãe dela. A última, a de uma tia, irmã da mãe. Era a única de que Susana se lembrava, embora vagamente. Tinha seis anos. Haviam-na poupado ao funeral mas recordava a viagem até à Guarda, onde a tia residia com o marido. No final da década de 1970, as viagens ainda eram difíceis e, talvez por isso, memoráveis.

 

As dores não desapareceram. Pelo contrário, foram aumentando ao longo da manhã, como ela sabia que aconteceria. Almoçou uma maçã, voltou para o sofá. Perto do final da tarde, desistiu. Ligou para o telemóvel de Vítor. O som de chamada prolongou-se tanto que ela desligou num espasmo. Deu um par de minutos e ligou o número do médico. Dia 31 de Dezembro à tarde. Seria possível apanhá-lo? Foi. Atendeu, disse-lhe que seguiria de imediato para o hospital, profissional até na forma como escondeu a mais do que natural desilusão pela noite de passagem de ano estragada. Perguntou-lhe se tinha quem a levasse. Susana hesitou e depois respondeu que sim. «OK, encontramo-nos lá. Anime-se. Vai correr tudo bem.»

Ela sabia que as pessoas estranhavam. Que, no íntimo, a consideravam egoísta. Não era suposto reagir daquele modo. Tornava tudo mais difícil para toda a gente. Devia facilitar-lhes a vida, aceitando o desafio com estoicismo; não, com mais do que isso (estoicismo tinha ela): com ânimo, talvez mesmo entusiasmo. Era incapaz de o fazer. Percebia a inutilidade do seu comportamento, a injustiça que cometia e pela qual, se tudo acabasse mesmo por correr bem, teria de se penitenciar, mas as coisas eram como eram.

À segunda tentativa, Vítor atendeu. O tom de pânico na voz dele devia tê-la enternecido. Não o fez. Ele prometeu estar em casa em menos de um quarto de hora. Susana disse-lhe para não exagerar no trânsito. Só faltava ter um acidente. Depois de desligar, lembrou-se do comportamento dele nos primeiros tempos. De como parecia sentir mais medo do medo dela do que do risco que ela corria. Susana acabara por lhe garantir: «Sossega. Não vou fazer nada de irreflectido. Não condiz comigo.» Mas nem por isso ele ficou mais tranquilo.

Sabia que correra riscos. Perguntou-se várias vezes porquê. Um desafio à sorte? Mas então por que não conseguira assumi-lo até ao fim? Porquê o negativismo, a sensação de que o trajecto era inexorável e ela (como na viagem para a Guarda, há cerca de trinta e cinco anos) uma simples passageira?

As dores regressaram, tão fortes que a atiraram ao chão. Ao longo dos últimos meses, a sogra, especialista numa mistura de encorajamento e crítica, dissera-lhe várias vezes para rezar. Susana nem sequer sabia uma oração.

 

A filha tinha testa ampla como o pai mas os olhos eram os dela. E o nariz. Susana perguntou-se que efeitos negativos teria programado o seu pessimismo naquele corpo minúsculo. Desconhecia se, há quarenta e um anos, a mãe a chegara a ver e não conseguia decidir qual a melhor hipótese: morrer depois de verificar a sobrevivência de uma filha ou antes de confirmar a existência de um ente que se abandona no mundo. Mas Susana sobreviveria. Pelo menos isso.

O médico entrou no quarto. Já vestia roupa normal, tinha um ar cansado.

«Deu luta, hã? Mas está de parabéns. Tem uma bela rapariga. E sortuda, ainda por cima. Vai começar já a ter presentes. Foi o primeiro parto do ano aqui no hospital e provavelmente em todo o país.»

Mas logo a seguir explicou-lhe que, agora, talvez fosse mesmo preferível evitar nova gravidez. «Não estou a dizer taxativamente que não possa. Digamos que é algo a avaliar com cuidado, dependendo da evolução da situação, OK?» Tocou-lhe no braço, desejou-lhe um bom ano e saiu.

Vítor começou a falar. Dizia o que devia dizer (tudo correria bem; era cedo para ter certezas; ainda que não pudessem ter outros filhos, isso não constituiria uma tragédia) mas ela não sentia vontade de o ouvir. Olhou para a filha, que ainda nem tinha nome. Alegria e renovação do medo, pensou. Talvez a única forma adequada de entrar num ano novo.

 

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