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Quinta dos animais

por José Meireles Graça, em 11.11.19

A partir de certo momento na infância, e em toda a adolescência, éramos seis irmãos à mesa. Não havia mimos para ninguém, muito menos fora das horas das refeições, e portanto nunca ninguém sofreu de falta de apetite. Pelo contrário: o que havia era alguma atenção, não fosse algum dos mais velhos apropriar-se indevidamente de mais do que a sua ração.

Com a estadia de um primo angolano largado pelos pais durante quatro dias em nossa casa, fiquei a saber coisas portentosas: o primo em questão, para comer, precisava que lhe contassem histórias, porque sofria de fastio; e com esse meritório propósito existia em Luanda uma empregada que, abençoada, tinha um jeito especial para ultrapassar a dificuldade, narrando ao menino coisas de espantar.

O primo, na primeira refeição, não comeu nada; e, esboçando um princípio de choraminguice porque queria um bifinho, recebeu, no silêncio geral, um olhar severo do meu Pai, que o transiu.

A cozinheira, a quem se dirigiu fora de horas, informou-o de que não se comia a não ser à mesa ou ao lanche; e que este consistia numa fatia de sêmea e um copo de leite.

Na segunda refeição talvez tenha debicado alguma coisa; e ao terceiro dia era um de nós.

Esta experiência, que me revelou aos seis anos que havia estranhos mundos muito diferentes do meu, foi complementada algum tempo depois com outra ainda mais exótica: havia mães que, doentes de ansiedade pelo pouco que os meninos estavam dispostos a comer, e esgotados os artifícios – só havia sobremesa se comesse a sopinha, eram só duas colheres, se não comesse não crescia, etc. etc. –  lembravam que havia no mundo muitos meninos pretos, coitadinhos, a morrer de fome. O argumento perturbou-me porque não percebia por que forma é que o que ficava nas travessas haveria de chegar aos pretinhos – o meu primeiro livro era justamente sobre um menino que ia numa atribulada viagem de barco para África, e durava semanas.

O tempo explicou-me as coisas e acabei por perceber que acabar com a fome não depende de haver menos obesos, nem menos desperdício, mas da liberdade de comércio, das boas vias de comunicação e da gestão inteligente dos países. Dito de outro modo: em África, onde há fome sem guerra há governos corruptos e ineptos, quase sempre de esquerda porque foi a esquerda que patrocinou os movimentos de libertação.

Ou seja: a diminuição da abundância, ou da riqueza, de uns, não se traduz automaticamente no consolo de outros. E todavia:

Esta notícia ofende quem ache que os animais não são pessoas; e que é imoral que, no mesmo país em que tanta gente morre por falta de assistência médica tempestiva, se invistam milhões para prolongar a vida de cãezinhos e gatinhos.

Sempre tive cães, livres de entrarem e saírem de casa quando queiram, bem alimentados e tratados e, salvo no que toca a alguma disciplina básica de higiene e convívio, completamente deseducados. Mas nunca fui paizinho senão das minhas duas filhas; a lamechice de tratar os bichos como “filhos”, e a dona da casa como “mamã” dos bichos, suscita nojo; e a maneira correcta de tratar um animal em sofrimento, se a doença for incurável ou requerer dispendiosos e longos tratamentos, é abatê-lo sem sofrimento.

“A clínica abre agora ao público também com consultas de especialidade e meios de diagnóstico analíticos, radiologia convencional, ecografias e modalidades de reabilitação tais como electromioestimulação, magnetoterapia, ultrassons, terapias com laser e hidroterapia, entre outras, dedicadas a animais”.

Nem vou ver quantas câmaras hiperbáricas tem o país, que doenças tratam ao certo tais equipamentos, e de que montantes estamos a falar. E pode bem ser que esta loucura, se sustada, não se traduzisse em qualquer benefício, tal como a comida desaproveitada não alimenta ninguém.

Mas numa sociedade onde, entre consultas e cirurgias, há mais de 120.000 pessoas em lista de espera há mais de um ano; e onde as redes sociais estão pejadas de animais cuja etologia é ignorada, por ser substituída por antropomorfizações como se vivêssemos num filme de Disney: a notícia pode encher de regozijo os 166.000 votantes no PAN; mas de indignação os restantes.

Coimbra é uma lição

por Pedro Correia, em 27.09.19

«Esta é uma luta de todos - inclusive dos animais. Como podem ver, há ali um cão que também tem algo a dizer.»

Em declarações à SIC, uma participante na "greve mundial pelo clima" que hoje reuniu cerca de cem pessoas (e um cão) junto ao Jardim Botânico, em Coimbra

Chip Chip

por Maria Dulce Fernandes, em 01.07.19

 

Chipar ou não, eis a questão

 

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Este ano, vou de férias levando pela primeira vez a minha neta comigo.

Dizer que vou com o credo na boca e já estou a sofrer por antecipação é pouco.

O meu marido, com todo o pragmatismo que sempre lhe assistiu, retorquiu meio ironicamente que poderia chipar a criança, à semelhança do que brevemente terei que fazer aos gatos, que sempre estiveram em casa e que servirá para rigorosamente nada, mas que parece que vai ser legislado em conformidade.

Esta situação traz-me à ideia uma outra, há muito, bem, há algum tempo atrás, tanto quanto cerca de 33 anos, não numa galáxia muito distante, mas já ali ao lado na Rua Duarte Pacheco Pereira, quando me escondi  por detrás de umas árvores a aguardar a partida da carrinha com destino à praia de Sto. Amaro de Oeiras no âmbito da acção escolar Praia e Campo, partindo seguidamente numa corrida desenfreada para a estação da CP de Algés, onde apanhei o comboio para a mesma localidade, apenas com o intuito de espiar.

Espiar, por Deus! Eu a espiar se a minha filha estava bem! Perguntam-me, e bem, se eu não tinha confiança nas educadoras, porque é que a deixei ir?

Porque iam todos. A garota ficaria destroçada se lhe negasse a Praia e Campo! E claro que tinha plena confiança nas educadoras, mas eram apenas três e uma auxiliar para 27 crianças!

Será isto o chamado instinto de maternidade levado ao exagero, ou apenas práticas controladoras de uma mente doentia?

É claro que a auxiliar deu comigo por detrás da banca que vendia panamás e fiquei de cara no chão. Tenho a vaga ideia de me ter furtado em ir ao colégio até ao fim das actividades lúdicas ou seja, até ao final do ano lectivo, não que isso esponjasse o sentimento de vergonha que me assolou.

Não tendo a minha neta idade para telemóveis e não é animalzinho de companhia para o dito chip, tem seguramente idade para uma pulseira GPS infantil.

Por outro lado, mesmo sendo o livre arbítrio coisa que não a assiste com esta idade, mesmo sendo muito opinativa e mais teimosa do que eu, não deixo de pensar que lhe estou a aplicar uma medida de coacção apenas porque quero estar mais sossegada e poder ter tempo de férias para mim também.

Xenofobia, misoginia, animalismo

por Pedro Correia, em 01.07.19

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Nietzsche e o Cavalo, quadro de Eric Drass

 

Em 1889, Nietzsche vivia na praça Carlos Alberto, na cidade italiana de Turim. Nesse ano, viu ali um cocheiro a chicotear sem piedade um cavalo. Saiu em defesa do animal, abraçando-se a ele e beijando-o com fervor. O episódio, segundo rezam as crónicas, terá servido para atestar a propalada loucura do filósofo, pondo fim ao seu percurso público: a partir daí, e até à morte, ficou confinado aos muros de uma clínica para tratamento psiquiátrico, em Basileia.

Os tempos são outros: hoje ninguém considera louco quem possa beijar um bicho, até na boca, com as prováveis excepções de tarântulas ou jibóias. Mas sair em defesa de um animal maltratado pode custar uma carreira política, ainda que incipiente. Que o diga uma deputada municipal do PAN na Moita, forçada a resignar por ter feito esta observação no exercício das suas funções autárquicas: «Verifica-se que existe uma etnia que se multiplicou e que todos os dias se passeia pela Moita e arredores, [com os elementos] empilhados em cima de carroças puxadas por um único cavalo subnutrido, espancado, a desfazer-se em diarreias por não ser abeberado e alimentado sequer e que, por vezes, [cai] na via pública, não suportando mais.» Isto numa moção em que recomendava a identificação dos «detentores dos cavalos que se encontram abandonados, amarrados e sem alimento, no sentido de sensibilizar os mesmos para estes actos cruéis que levam os animais a situações de doença, exaustão e morte».

De nada lhe valeu o amor ao bicho vergastado, comprovando o seu zelo militante. Nem ter omitido o vocábulo "cigano". Aquelas palavras bastaram para configurar delito de opinião: foi acusada de xenofobia e viu o PAN retirar-lhe a confiança política num comunicado da Comissão Política Permanente que lamenta «profundamente a situação» e pede desculpa a todos os que se possam ter sentido «discriminados ou desidentificados com esta referência imprópria». Noutro contexto, talvez não faltassem acusações de sexismo e misogonia ao afastamento da senhora, que vê abortada a sua fugaz carreira política. Felizmente sem necessidade de internamento psiquiátrico.

Do animal escravizado e flagelado nunca mais ninguém falou - ao contrário do cavalo de Nietzsche, ainda lembrado 130 anos depois. «Até para se ser animal é preciso ter sorte», como dizia a minha avó. Jamais imaginando que haveria de existir um partido animalista em Portugal.

Abaixo de chimpanzé

por Pedro Correia, em 24.06.19

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André Silva nunca pediu desculpa pela mais aberrante frase proferida por um político português nos últimos anos: «Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.» Tendo em conta que este dislate já data de 2015, numa entrevista ao Expresso, devemos concluir que o porta-voz do PAN, se nem sempre é pessoa para pensar no que diz, pelo menos diz aquilo que realmente pensa.

Com o brilharete conseguido a 26 de Maio, ao superar os 5% e eleger um eurodeputado, o PAN goza dias de glória. Levado em ombros pelas mesmas trombetas mediáticas que quase o ignoraram na recente campanha eleitoral (houve até um canal televisivo que o excluiu do debate entre os cabeças de lista de maior relevo, optando em seu lugar pelo partido unipessoal de Marinho e Pinto, que saiu das urnas com 0,5%).

Mas toda a medalha tem um reverso. O partido animalista que ultrapassou a CDU em sete dos 20 círculos eleitorais e ficou à frente do CDS em Faro e Setúbal vai finalmente ser escrutinado – como aliás devia ter acontecido logo em 2015, quando André Silva se estreou como deputado. Com um atraso de quatro anos a comunicação social descobre só agora, muito surpreendida, que o PAN celebra congressos à porta fechada, quer impor a utilização do «copo menstrual» às mulheres e orgulha-se de ter conseguido nesta legislatura uma redução do IVA no consumo de algas. Entre os devastadores incêndios de Junho e Outubro de 2017, que causaram 116 mortos, entreteve-se a legislar sobre a admissão de animais de companhia nos restaurante citadinos, o que define bem as suas prioridades.

 

Eis um partido new age, digno de subscrever proclamações pela «paz no planeta» com a convicção de qualquer candidata a Miss Universo. Um partido «ideologicamente amorfo», segundo o rótulo que alguns politólogos contemporâneos adoptaram para caracterizar este pensamento capaz de cruzar o melhor do Dalai Lama com o pior de Paulo Coelho.

O maior indício da consistência gelatinosa do PAN detecta-se, aliás, no facto de já ter mudado duas vezes de nome desde que surgiu, faz agora dez anos. Começou por chamar-se Partido Pelos Animais. Em 2011 registou-se no Tribunal Constitucional como Partido Pelos Animais e Pela Natureza. Três anos depois, num dos tais congressos interditos a jornalistas, adoptou a actual denominação pleonástica: Pessoas-Animais-Natureza.

André Silva recorre às técnicas dos pregadores evangélicos, alternando o discurso do medo, próprio dos milenaristas de antanho, com a invocação subliminar do halo de santidade só ao alcance dos convertidos. Arauto da virtude, lança anátemas aos que insistem em repudiar o tofu: apenas um mundo convertido ao veganismo e ao ciclismo sobreviverá à inevitável catástrofe ambiental. Ele e os seus acólitos, magnânimos, estão dispostos a conceder-nos a absolvição dos pecados da carne e do plástico desde que cumpramos a indispensável penitência e abracemos «um novo paradigma disruptivo», seja lá o que isso for.

Quem ousar dizer o contrário, já está em coma, embora ainda não saiba. Desceu abaixo de chimpanzé.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

Cá por casa

por Pedro Correia, em 19.03.19

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31 de Janeiro

 

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3 de Fevereiro

 

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13 de Fevereiro

 

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17 de Fevereiro

 

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9 de Março

Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 03.03.19

 

Animal é animal, ser humano é ser humano.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Inversão de valores

por Pedro Correia, em 22.01.19

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Numa recente edição de um mesmo jornal, que se vem especializando em fornecer aos leitores "conteúdos patrocinados" - ou seja, publicidade e propaganda em vez de jornalismo - podemos ler um rasgado elogio a um hotel português recentemente remodelado, situado no centro de uma capital de distrito. «Tivemos um grande cuidado na escolha dos colchões, roupa de cama e atoalhados», declara o administrador do hotel, citado no periódico. Enquanto se elogia o estabelecimento por ser «um espaço onde reina o sossego». Acrescentando-se: «Razão pela qual não aceita crianças com idade inferior a quatro anos, nem reservas de grupos.»

Vira-se a página, fugindo deste hotel alérgico a crianças, e o que encontramos? Outro artigo, dando um enorme destaque a esplanadas e restaurantes «onde os animais entram mesmo», como proclama o título. «Se gosta de levar o seu animal de estimação para todo o lado, esta lista é para si. Compilámos vários restaurantes 'pet-friendly' [sic], onde os animais entram mesmo e não são recambiados para as esplanadas.»

 

Estas quatro páginas - primeiro em desbragado elogio ao hotel que proíbe a entrada de crianças até quatro anos, depois em apologia não menos calorosa aos restaurantes que permitem a entrada de animais - são um perfeito retrato desta envelhecida Europa em que vivemos: bebés postos à distância e cachorrinhos acolhidos com beijos e abraços.

A narrativa corrente bestializa seres humanos (desde logo por impedirem o "sossego" alheio) e humaniza a bicharada, em versão ainda mais delicodoce do que os filmes de Walt Disney. Nesta visão, que se vai tornando dominante, um mundo perfeito seria aquele que não tivesse bebés (com o seu abominável cortejo de fraldas, sessões de choro e noites mal dormidas), entretanto substituídos por adoráveis mascotes de quatro patas com os seus irresistíveis e submissos latidos.

 

Contra a corrente, chamo a isto inversão de valores, sujeitando-me a que me chamem um impenitente reaccionário. Sinto-me, de facto, muito antigo ao defender que não existe equivalência entre seres humanos e animais nem estes são titulares de direitos na medida em que ninguém pode impor-lhes o correspondente catálogo de deveres. E sinto-me quase pré-histórico por recusar hospedar-me em hotéis que não são 'children-friendly', para usar esta expressão popularizada na modernaça escrita jornalística cá do burgo.

Até aprecio sossego. Mas esse não, obrigado.

Quem não tem cão caça com PAN

por Pedro Correia, em 13.12.18

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O PAN, justamente preocupado com possíveis situações de stress psicológico causadas aos bichinhos pelos ancestrais provérbios populares desde sempre ligados à tradição portuguesa, vem agora recomendar que ponhamos de parte este péssimo hábito e passemos a dizer expressões alternativas, tais como «pegar na flor pelos espinhos» em vez de «pegar no touro pelos cornos».

Não posso estar mais de acordo com esta iniciativa fracturante do partido animalista. Venho, portanto, propor aos leitores do DELITO propostas de provérbios alternativos que não configurem situações de injúria ou difamação dignas de traumatizar os animaizinhos. 

E adianto, desde já, duas alternativas da minha lavra: «Quem não tem cão caça com PAN» e «A PAN dado não se olha o dente».

Façam o favor de deixar aqui as vossas sugestões.

Tradições

por Teresa Ribeiro, em 09.11.18

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Na China havia, como é sabido, a tradição de enfaixar os pés das meninas desde a mais tenra idade para que não crescessem mais que uns ideais dez centímetros. O sofrimento atroz que resultava da compressão dos ossos e das unhas por forma a impedir o normal crescimento do pé era justificado por motivos estéticos: um pé minúsculo era considerado mais atraente e os passinhos doridos das donzelas, a sublinhar a sua fragilidade, algo de muito erótico. Na  Índia, o costume de queimar vivas as viúvas junto à pira funerária do seu falecido marido (o sati), embora proibido, parece que chegou ao século XXI (há registos de sacrifícios realizados em 2006) nalgumas comunidades hindus. A excisão genital feminina, outra prática bárbara que impende sobre as mulheres, essa está longe de ser erradicada. 

As "tradições" são assim: difíceis de combater. Nem todas refletem o lado mais pérfido dos seres humanos, mas as que o fazem felizmente têm sido pouco a pouco desacreditadas pela civilização, embora - e esse é um traço comum - sob os mais vivos protestos das camadas conservadoras.

Os elos mais fracos - mulheres, crianças, idosos, pessoas doentes - têm sido ao longo dos tempos as vítimas preferenciais de muitos rituais, que sob falsos pretextos mais não fazem do que dar largas à agressividade larvar que faz parte da natureza humana. Mas se no mundo civilizado a que pertencemos a censura social já está perfeitamente estabelecida relativamente a maus tratos infligidos a outros seres humanos, quando se fala de animais, o consenso desaparece. Defender seres que estão abaixo da condição humana é subir mais um patamar civilizacional e isso demora tempo. 

Pessoas e animais não estão no mesmo plano, nem têm os mesmos direitos, mas a discussão não é essa. O que está em causa quando se fala de maus tratos a animais mais do que o sofrimento da vítima é a atitude do flagelador e a complacência que deve ou não existir face à crueldade que manifesta. No fundo é a tolerância relativa ao prazer da carnificina, ao gozo de provocar sofrimento num ser capaz de sentir com todas as fibras do seu corpo a atrocidade a que está a ser sujeito, que se discute. E essa é a questão de fundo da tourada. Algo que os aficcionados pretendem iludir quando falam da "arte do toureio". Mas de eufemismo em eufemismo a que se referem eles, quando elogiam a "festa brava"? À estética. Às chiquelinas, aos pasos dobles, ao confronto estilizado entre homem e besta. A visão crua da realidade, a de que no fundo gozam com a tortura de um bicho, não lhes interessa.

Fossem os toiros robots, as praças ficariam vazias. Porque a festa brava precisa de sangue. Sem sofrimento, sem aquela luta desesperada e inglória do bicho pela sua vida, não seria a mesma coisa.

Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

Ainda os animais em restaurantes

por Marta Spínola, em 03.03.18
Disclaimer: não me levem demasiado a sério, estou apenas num exercício de reflexão que ainda não tinha feito sobre o tema.

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Bem sei que os projectos têm diferentes contornos, e não está em causa uma gata na mesa, um cão na cozinha. Mas é divertido pensar nos vários cenários ainda assim. 

Pergunto: quererão os mesmos lá estar? Esperar que a refeição acabe, quietos, ao lado da mesa, ou mesmo que participem recebendo bocadinhos da dita, preferirão isso a estar num espaço que lhes é familiar? E que dizer da companhia que não pediram e terão a cheirá-los, a inspeccioná-los em busca de uma amizade? Tenho muitas dúvidas que cães e gatos adorem a ideia, mas não tenho animais, não posso garantir. E não acho que tenha a ver com a educação dos mesmos, mas com a sua própria natureza. 
Além disso, conheço donos que dispensam que os seus cães estejam em sítios com outros cães, basta ver locais de férias que aceitam animais e promovem o convívio entre os mesmos: não raras vezes os donos preferem que os seus fiquem recatados no quarto. Foram de férias com eles, mas preferem mantê-los longe dos restantes animais. Num restaurante, ainda que haja uma área restrita, não será simples controlar esse convívio. 

Também penso em situações pontuais como gatos nos santos populares. Tem um lado divertido, se fosse um desenho animado, mas quantos de nós apreciarão partilhar uma sardinha com o gato do vizinho? Ou vários? Imagine-se o Castelo ou Alfama cheios de donos e gatos em noite de Santo António. Já estou cheia de pena e ainda nem começou (estou a brincar, relembro).

Na verdade, cães e gatos nem são a minha maior preocupação. Eu quero saber é se a lei abrange aquelas aves que há quem traga ao ombro, porque de papagaios e araras é que eu morro de medo. Nesses restaurantes não entro. E se tiver o azar de já lá estar, fujo. 

Grande galo

por Pedro Correia, em 30.08.17

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Ontem:

PAN quer impedir "morte do galo" em Seia

«Estas pessoas são chamadas uma a uma, tendo na sua posse um pau com o qual é suposto desferirem pauladas sucessivas até que o galo morra. O galo é consecutivamente agredido com o pau, agonizando lentamente fruto dos ferimentos, até que alguém finalmente o consiga matar. Quem conseguir por fim matar o galo ganha-o como prémio.»

Excerto de comunicado do partido animalista, insurgindo-se contra as festas do Santíssimo Sacramento, em Várzea de Meruge, no concelho de Seia, e anunciando denúncias ao Ministério Público, à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária e à Câmara Municipal de Seia

 

Hoje:

Aldeia desmente PAN sobre "morte ao galo"

«Américo Brito, membro da comissão de festas da aldeia, desmente categoricamente. Confrontado pelo JN, explicou que, apesar do nome, o jogo é praticado única e exclusivamente por crianças que tentam acertar num ovo. "Quem conseguir parti-lo leva o galo vivo para a família", precisou. (...) O presidente da Câmara de Seia recebeu a carta do PAN mas desconhece a tradição nela referenciada. Já fui às festas e nunca presenciei semelhante coisa", afiançou o autarca.»

Notícia publicada na edição de hoje do Jornal de Notícias

O PAN em serviços mínimos

por Pedro Correia, em 22.06.17

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Apetece-me perguntar: vale a pena termos um partido pleonasticamente intitulado Pessoas-Animais-Natureza? Um partido que nesta semana que se segue à morte confirmada de 64 pessoas, de milhares de animais e de um número incalculável de árvores nos dramáticos incêndios de Pedrógão Grande (entretanto alastrados a concelhos vizinhos, como Góis, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Ansião, Alvaiázere, Pampilhosa da Serra, Arganil, Penela, Sertã e Ferreira do Zêzere) devia ocupar-se e preocupar-se com particular atenção destas matérias.

Devia, mas não o faz. Consultando o sítio oficial do PAN na internet deparamos só com 32 palavrinhas sobre os dramáticos acontecimentos que enlutaram o País e estão a emocionar a Europa. Estas, que passo a transcrever: «Partilhamos os nossos sentimentos com todas as vítimas, amig@s e familiares, lembrando também os milhares de animais de companhia, de pecuária e selvagens, tal como o património ecológico que desapareceu nesta catástrofe.»

 

Nem um sussurro mais.

Neste seu sítio, o “Partido dos Animais” coloca a tragédia de Pedrógão no mesmo plano gráfico da notícia “PAN concorre pela primeira vez em Cascais nas autárquicas” (aqui num texto com 11 parágrafos) e preocupa-se em promover um “São João vegetariano”, marcado para amanhã no Porto.

Enfim, quase nada. É chocante verificar que uma força partidária tão apostada em promover e enaltecer os valores da natureza se limite numa situação destas a cumprir serviços mínimos, exprimindo sucintas condolências em duas linhas de comunicado. Sem um assomo de indignação nem um arremedo de perplexidade. Pior: sem a exigência pública de um apuramento rigoroso e exaustivo de todas as responsabilidades, doa a quem doer.

 

Mais chocante ainda por contrastar com vigorosas posições assumidas pelo mesmo partido. Há uns anos, por exemplo, quando espalhou pelo País cartazes exigindo o fim daquilo a que chamavam "barbárie dos circos". E num passado muito recente, ao insurgir-se contra a "cegueira ideológica" dos EUA na saída do Acordo de Paris ou quando dirigiu à ONU uma denúncia perante os "novos incumprimentos" de Espanha em relação à central de Almaraz.

Não sei se Donald Trump e Mariano Rajoy ficaram a par destas ruidosas proclamações do pleonástico PAN. Eu confesso-me muito decepcionado com a inesperada apatia do partido naturo-animalista perante o maior incêndio de sempre em Portugal, já registado como o 11.º mais mortífero ocorrido em todo o mundo desde 1900.

Em política, o silêncio também é uma forma de comunicação. Neste caso, o resignado e silencioso conformismo do PAN pesa como chumbo. E deve envergonhar muitos dos seus militantes.

Grandes animais

por Pedro Correia, em 28.04.17

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Nestas coisas nunca sei o que me choca mais: se aqueles que são capazes, aos milhares, de subscrever um abaixo-assinado contra o abate de um rottweiler que segundo fonte policial deixou  praticamente desfigurada uma criança de quatro anos na via pública (faltando saber se os mesmos ou outros militantes animalistas já se mobilizam em defesa de um arraçado de Serra da Estrela que arrancou uma orelha a outra criança, esta de nove anos), se aqueles que são capazes de desejar a morte de um menino de seis anos só porque teve a desdita de confessar que gostaria de ser toureiro.

Que uns e outros são grandes animais, não me restam dúvidas. Acrescento que, ao contrário do que os visados possam supor, isto não constitui um elogio.

Animais de estimação

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.17

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Nunca tive animais de estimação. Nem mesmo cães, esses que se consideram os melhores amigos do homem. Mas os telejornais de ontem não só deram conhecimento de que essa amizade por vezes se torna raiva, como lembraram o longo historial da série de acidentes havidos recentemente por investidas de cães contra adultos crianças.

Nada sei da psicologia dos canídeos. Apenas lembro que a minha querida amiga Madalena Fragoso, foi gravemente ferida por uma cão que estimava há já vários anos. E o dela não era de uma raça potencialmente assassina.
Agora que temos um deputado que defende a natureza e os animais talvez fosse ajuizado pedir-lhe que se ocupe de propor legislação que presida à defesa não só destes últimos, mas, sobretudo, à defesa daqueles que, sem qualquer responsabilidade, se vêem num hospital, em consequência deste tipo de agressões, que se está a tornar cada vez mais frequente.

 

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Os talibãs e a tentação da carne

por Pedro Correia, em 28.03.17

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 Um touro desenhado por Picasso

 

Sinto uma aversão inata a todo o tipo de extremismos. Por mais em voga que estejam. Isto inclui o extremismo animalista, povoado de fanáticos com vocação para policiar comportamentos alheios. Não tenho a menor dúvida: hoje invadem ruedos e cercam ganadarias, exigindo a abolição imediata das touradas. Amanhã assaltarão instalações agro-pecuárias reivindicando o fim do abate de aves e gado. Depois de amanhã patrulharão restaurantes para impedir os incautos de consumir iscas ou bifanas.

As minhas últimas dúvidas dissiparam-se ao ler há dias, numa revista feminina, a exaltada proclamação de uma activista vegan contra os agricultores que se atrevem a colher leite em vacarias e ovos em capoeiras. Eis a tese marxista da luta de classes aplicada à relação entre o homem, as vacas e as galinhas. “Os animais trabalham indevidamente para servir os seres humanos”, escandalizava-se esta animalista, insurgindo-se contra o “stress e o sofrimento dos animais quando estão em fila para o sacrifício” em aviários e matadouros.

 

Se pudessem, no seu incansável proselitismo, estes devotos da rúcula e do agrião decretavam o consumo exclusivo de produtos macrobióticos. Aboliriam rodízios e encerrariam churrasqueiras. Proibiriam a extracção de mel das colmeias para não beliscar o labor das abelhas. A matança de porcos, frangos e coelhos seria rigorosamente interdita. No limite, todas estas espécies – só existentes pelo seu valor alimentício e, portanto, comercial – extinguir-se-iam, para deleite destes supostos defensores dos direitos dos animais. Antes vê-los desaparecidos de vez do que em “sofrimento potencial".

Como mandam as cartilhas, tudo isto ocorre em nome de autoproclamados princípios éticos, levando as falanges animalistas mais extremas a entrincheirar-se sem um esgar de hesitação contra os bípedes no milenar confronto entre homens e bestas. A exemplo daquela talibã “antitaurina” que nas redes sociais em Espanha desejou a morte imediata de um rapazinho doente de cancro só porque o miúdo teve a desdita de confessar que quando fosse grande queria ser toureiro.

“Devias morrer já”, assanhou-se a meiga patrulheira, acusando o menino de querer “matar herbívoros inocentes”.

 

Quem é capaz disto é capaz de tudo. Capaz inclusive de exigir a extracção compulsiva dos dentes caninos à população humana para evitar a proliferação do pecado entre quase todos nós, aqueles que continuamos a ceder à tentação da carne.

Já estivemos mais longe.

Os malucos das vacas voadoras

por Rui Rocha, em 11.01.17

vacas vos.jpg

Pois olha, não sei

por Rui Rocha, em 22.12.16

Ou o gajo está a chamar filho ao cão ou passou a usar o plural majestático em substituição da 3ª pessoa do singular.

gustavo.jpg

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