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Delito de Opinião

Eterno retorno - 1

Paulo Sousa, 20.07.21

Vivemos tempos em que para combater as fake news, alguém se lembrou de recorrer a um selo. Ora o selo, já encerra em si toda uma história e um percurso na comunicação e na aproximação de quem está distante.

Começaram por servir como prova de pagamento, e de caminho transportaram imagens de mundos desconhecidos. Frequentemente do retrato se fez arte.

Enquanto aguadamos pelo reerguer do selo, agora como certificado de qualidade, aproveitemos para apreciar os antigos traços e cores que acompanhavam as notícias de outrora.

Selo com imagem de um Órix, também conhecido por Guelengue-do-deserto.
Colecção Animais de Angola
Emissão 1953

Solidários com os milionários

Pedro Correia, 27.01.20

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Pode ter sido distracção minha, mas até ao momento ainda não ouvi uma palavra oriunda do PCP sobre o que está a ocorrer em Angola - nomeadamente, as mais recentes notícias acerca das «lucros fabulosos» (expressão muito cara a Jerónimo de Sousa) acumulados pela filha do antigo Presidente da República que ali se perpetuou durante quatro décadas no poder - e foi amealhando também uns cobres muito razoáveis, ao que rezam as crónicas.

A repugnância dos comunistas perante fortunas pessoais - neste caso em contraste com as situações de extrema pobreza que afligem grande parte da população angolana - dissolve-se quando os milionários pertencem ao MPLA, "partido irmão" do PCP?

Não haverá, nas fileiras comunistas, vozes críticas capazes de se insurgirem contra esta chocante conivência? Pode ser que existam, mas andam emudecidas. Porque daquelas bandas nem um sussurro se tem escutado.

 

A verdade é que, ao longo de todos estes anos, o PCP alinhou sempre com José Eduardo dos Santos, a sua próspera família e o partido que tem gerido Angola em sistema monopolista. Com indecorosas atitudes de subserviência perante o poder angolano, agora deposto. Basta lembrar a censura ao livro Diário de um Preso Político Angolano, de Luaty Beirão, na Festa do Avante! de 2018, e o chumbo comunista de um voto parlamentar contra as penas de prisão aplicadas a 17 activistas angolanos, em 31 de Março de 2016 - aqui em jubilosa parceria com o PSD e o CDS.

Sem um reparo que fosse, sem o mais ligeiro tremor de perturbação. Pelo contrário, o exercício da crítica, por parte dos comunistas portugueses, visou sempre aqueles que ousavam contestar a autocracia angolana, inserindo-os em maquiavélicas conspirações orquestradas por Washington - numa patética recriação da linguagem soviética dos tempos da Guerra Fria.

 

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Aqui ficam alguns exemplos, com sublinhados meus:

 

Avante!, 22 de Outubro de 2015:

«Portugal não deve ser instrumento e servir de plataforma para a promoção da ingerência contra um Estado soberano, designadamente ao serviço daqueles que, envolvendo e mobilizando cidadãos angolanos partindo de reais problemas, contradições, fenómenos negativos e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para desestabilizar e concretizar a denominada «transição» ou «mudança» de regime em Angola. (...) Existem interesses externos e sectores da sociedade angolana que consideram criadas as condições e chegado o momento de fomentar a desestabilização neste país. (...) Não seremos instrumento para fazer de Angola uma nova Líbia com o seu rasto de destruição, sofrimento, devastação e morte.»

 

Declaração de voto parlamentar, 31 de Março de 2016:

«O PCP não acompanha campanhas que, procurando envolver cidadãos angolanos em nome de uma legítima intervenção cívica e política, visam efectivamente pôr em causa o normal funcionamento das instituições angolanas e desestabilizar de novo a República de Angola. (...) O PCP não acompanha os votos apresentados na sequência da decisão do Tribunal Provincial de Luanda, adoptada em 28 de Março, que condenou 17 cidadãos angolanos a penas de prisão pelos crimes que o Tribunal considerou como de actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores. (...) A rejeição do presente voto por parte do PCP emana da defesa da soberania da República de Angola e da objecção da tentativa de retirar do foro judicial uma questão que a ele compete esclarecer e levar até ao fim.»

 

Avante!, 7 de Abril de 2016:

«Usam ora Rafael Marques ora Luaty Beirão para se guindarem a educadores do povo angolano, ditando aos angolanos o que o seu país é e o que dele devem fazer. (...) Será que ninguém estranha que as posições assumidas por BE e PS nos votos que apresentaram sobre Angola sejam convergentes com aquelas que foram assumidas pelo Departamento de Estado norte-americano e pela União Europeia? (...) O PCP nunca será instrumento ao serviço das operações que querem fazer de Angola mais uma vítima, que queiram fazer de Angola uma nova Líbia

 

Avante!, 14 de Abril de 2016:

«Interesses externos e sectores da sociedade angolana que, não deixando de utilizar uma qualquer oportunidade para envolver cidadãos angolanos a partir de reais problemas e legítimos anseios, de facto agem com o intuito de os instrumentalizar para promover a desestabilização de Angola e, se possível, concretizar a sua tão almejada mudança de regime. (...) Os significativos e genuínos laços históricos e afectivos que unem o povo português ao povo angolano e Portugal a Angola não devem ser instrumentalizados por intensas e hipócritas campanhas mediáticas que, objectivamente, contribuem para "legitimar" obscuras operações contra Angola e os interesses e aspirações do seu povo.»

Arte contemporânea africana no Porto

jpt, 26.01.20

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Sindika Dokolo apresenta a maior coleção de arte africana no Porto (24 Fevereiro, 2015)

(Memória - até intimista - por causa do que está a acontecer por aí).
 
Quando em 15 voltei a Portugal o que mais me custou não foi o frio, do qual me desabituara. Foi o silêncio. O próprio. Passara 15 anos a leccionar, a co-organizar seminários, a participar noutros, a comentar e debater. Assim a falar, muito. Quando regressei isso acabou. Não podia falar ("não tens doutoramento, não podes falar", é assim mesmo, são as regras, é o mercado laboral). Podia assistir mas não convinha contrapor, discordar, esmiuçar, que reina a cultura do silêncio defronte e da maledicência a posteriori ("ela é histérica", "ele é estúpido", diz-se dos colegas sem qualquer rebuço), associada à ofensa sentida se alguém questiona o que se disse. Eu sei que dizer isto provoca noutros a ideia, aqui habitual, do "este está ressabiado, ressentido". Mas estão errados. É apenas observação participante.
 
Pronto, ficou-me o silêncio próprio. Foi uma espécie de envelhecer (um pouco) avant la lettre. Um gajo é velho e ninguém o ouve, foi isso mesmo. Neste caso ainda com lucidez (presunção e água benta ...) para o perceber, e saber que será assim para a frente. Ultrapassei isso, ganhei o hábito de falar sozinho - falo imenso sozinho. A minha filha preocupa-se com isso, teme ser sintoma de algo mais. É nova demais para perceber que é apenas uma escapatória. Um gajo tem que falar, tem o vício, e se não tem audiência fala sozinho. Mal seria se eu começasse a fazer podcasts ou lá como se diz, e a metê-los no facebook.
 
Bem, vem esta memória a propósito disto: o silêncio não foi total. Nos primeiros anos ainda falei um bocadinho. Almas caridosas convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", magnanimizaram), durante dois anos. Lá fui, falar como Amador (no velho e nobre sentido do termo). De literatura africana. De arte moderna e contemporânea africana. Não sei como terá corrido (ao longo dos anos tive alunos que de mim gostaram, outros aos quais fui indiferente, outros que não gostaram. Haverá piores do que eu, há melhores, há muitos mais ou menos na mesma. É como é). Mas, repito, fui lá à terra do meu pai, à universidade do meu pai - e disso gostei muito -, falar de literatura africana e de arte africana.
 
Foi na época em que o Porto estava todo aperaltado para visitar a exposição - bem boa, digo-vos - da colecção de arte africana contemporânea de Sindika Dokolo, genro de José Eduardo dos Santos. Gostei de visitar, pausadamente. E deu-me muito, imenso, jeito, pois recomendei-a vivamente aos escassíssimos alunos.
 
Então sorri, com o fenómeno. A gente não avalia e frui a arte devido aos mecenas que lhe coube. Mas avalia o fenómeno da recepção. Sorri ao Porto. A Portugal.
 
E falei, sozinho. Continuo a falar sozinho. A Carolina não gosta, teme que seja sintoma de algo. E é, minha querida, é sintoma de ser patrício destes tipos.

 

Angola

jpt, 26.01.20

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Os que me conhecem, e os que me vão aturando no(s) blog(s), sabem que não simpatizo com o BE - ainda que me tenha ocorrido votar, e também por algumas razões até espúrias, em Marisa Matias (depois ponderei e votei bem à "direita", em Henrique Neto). Não gosto da coligação "guevarista" (et al) acima de tudo porque abomino o "identitarismo" e os requebros que o acompanham. E mais coisas, claro. Por isso tanto gostei do "affaire Robles" a desnudar o horizonte que se vê em Telheiras e no Bairro Alto. E tanto gozei com as patacoadas do prof. Rosas ("as nossas meninas", "a direita já tem o seu gay" - cito apenas de cor), a mostrar o quão plástico chinês é o "politicamente correcto" - já para não falar do célebre "eu tenho filhos, você não tem" (idem) de Louçã a Portas, o Paulo. Enfim, são quem são, esta minha Lisboa ...

Dito tudo isto, como vera auto-justificação, aqui fica a entrevista que Louçã e Teixeira Lopes deram quando lançaram o seu livro "Os Donos Angolanos de Portugal", há já cinco anos a mostrarem as ligações desta nossa elite político-económica com o poder económico (a "Isabel dos Santos") de Luanda.

É bom lembrar, porque parece que agora todos se esquecem.

Read my lips

Paulo Sousa, 25.01.20

Quando não há motivos de preocupação os políticos não necessitam de fazer desmentidos nem declarações em contrário. Ou seja, só tentam sossegar o país quando existem ameaças.

Muitos exemplos do passado recente comprovam isso:

  • Portugal não é a Grécia
  • O FMI já não vem
  • Os portugueses podem confiar no BES
  • E por aí a fora...

Além dos casos de ameaças ao país, recorrem também ao método da negação do óbvio quando o óbvio lhes é prejudicial:

  • A vitória do PS não é derrota do PCP
  • Ricardo Robles não se aproveitou do cargo que ocupava
  • O PSD está unido
  • ... todos nos recordamos de muitos outros exemplos

Lembrei-me mais uma vez desta antiga constatação quando ouvi o nosso Presidente Marcelo afirmar que não há razão para preocupação nos sectores económicos e empresas portuguesas nas quais a empresária angolana Isabel dos Santos está a vender as suas participações. E acrescentou dizendo: “Os sinais que me chegam (…) são de que não há razão para nem a economia nesses sectores, nem os trabalhadores, nem os que têm a ver com as empresas, fornecedores ou clientes, estarem preocupados com isso.”

Respiremos pois de alívio.

A Bé

jpt, 24.01.20

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(Memória a propósito disto que aconteceu à Bé):

Há alguns anos abriu o casino em Maputo. Depois inauguraram o restaurante (uma espécie de "brasserie", se bem me lembro). Acorreu-se à novidade. Lá fui: resmunguei-o algo caro para a minha bolsa, e barulhento apesar do ambiente frio. Fui e até voltei, duas ou três vezes, coisas de jantares colectivos.

Uma sexta-feira lá isso me aconteceu. Cheguei, só e cansado, sentei-me na mesa dos conhecidos. Ainda não deitara o olho ao cardápio e entrou um patrício, desses muito conhecidos da política, que por lá aportara nas negociações da entrega de Cahora-Bassa e fora ficando, em regime "sanduíche" claro, em conselhos de negócios e coisas dessas. Rosnei para o lado "não janto na mesma sala deste fdp". Levantei-me, enjoado - que era o tempo do Sócrates, cujo fedor chegava a Maputo ainda que aqui os inteligentes, antropólogos, outros académicos e gente bem-informada o sentissem "perfume" -, e fui-me embora, talvez para o Piripiri, talvez para casa, não me lembro.

Os anos passa(ra)m. Eu sou da "direita" (e escrevo coisas que parecem da "extrema-direita", diz-me gente mui amiga). E vim-me embora do Índico. E os tipos como aquele botam agora o quão incomodados estão com aquilo da Bé, cá no Atlântico. Eles são muito de esquerda, estão no governo. Ou perto, seguindo muito apreciadores do simpático presidente que temos. A mim vale-me, pelo menos, que não sou migrante. Ahnn? É isso mesmo. Não sou migrante.

m'espanto às vezes

Diogo Noivo, 22.01.20

Há algo que me fascina no caso de Isabel dos Santos: aqueles que a apoiaram, que enalteceram o seu investimento na economia portuguesa, que se desdobraram em vénias, que acusaram de provincianismo quem recomendava prudência (troque “Isabel dos Santos” por “República Popular da China” e verá o futuro, caro leitor), desapareceram. Pura e simplesmente desapareceram. A Helena Matos escreve no Blasfémias que esta gente lhe dá asco. Eu ainda estou na fase da estupefacção.

Em defesa da corrupção

José Meireles Graça, 17.01.20

Pessoas em geral de bom conselho dizem-me, a respeito do meu hábito persistente de ver a Circulatura do Quadrado: O quê, esses marretas? Deixei de os ver há anos.

Se deixaram, deixaram mal. Porque nenhum daqueles três tipos é um idiota. À sua maneira, representam três formas convencionais e tradicionais de ver as coisas; e são um espelho vivo do bloqueio em que o nosso país se encontra. O eleitorado, porém, do nevoeiro da sua ignorância e distracção, fareja esse bloqueio e como não vê ninguém que lhe aponte algum caminho convincente diferente do de qualquer daqueles senhores (isto é, o PS tachista, o CDS europeísta e adepto do respeitinho e da missa dominical, e a esquerda bloquista sacrificando no altar da economia do endividamento, do calote e da redistribuição do que não há) enervantemente previsíveis, batidos e falhados, abstém-se.

Noutra maré, se calhar, escreverei sobre isso. Hoje, é só sobre o prato de resistência do último programa, relativo à corrupta (não tenho dúvidas de que o seja) Isabel dos Santos e a perseguição de que está a ser objecto por parte das novas autoridades angolanas. Aquelas luminárias pronunciaram-se do seguinte modo:

Jorge Coelho acha que o poder judicial angolano e o presidente Lourenço estão a desencadear um meritório esforço, já com impressionantes resultados (p. ex, ex-ministros presos) para combater a corrupção, e que as autoridades portuguesas acompanham esse esforço com simpatia. E que, tanto quanto sabe, aquando da transferência de fundos que Isabel fez para Portugal, todos os deveres de diligência das autoridades portuguesas foram cumpridos. As excessivas proclamações de Pacheco Pereira sobre o regime angolano e as suas realidades são uma manifestação de neocolonialismo, acrescentou (grande Coelho, às vezes tem-nas boas).

Lobo Xavier disse que, se a origem dos fundos de Isabel é duvidosa, hoje seria impossível passarem pelo crivo dos bancos, por causa do controle da circulação de capitais, da prova da legitimidade da origem dos fundos, e do combate ao branqueamento de capitais e ao tráfico de droga, acrescentando que Portugal tem um controle rigorosíssimo, para toda a gente sem excepção, e agravado para pessoas politicamente expostas. Ele, Xavier, aprova estas coisas, dá a entender, de mais a mais porque têm origem nas instâncias europeias, portanto ungidas de lucidez, da qual há um cruel défice nestas paragens do extremo ocidental dos Estados Unidos da Europa.

Pacheco entende que Angola é um país muitíssimo corrupto, que a sua classe dirigente é uma corja de ladrões, e dá, com generosidade, o benefício da dúvida a Lourenço, esperando para ver, mas sem grande fé. Em Portugal reina, além da corrupção, a hipocrisia, porque nunca ninguém teve dúvidas que os fundos de Isabel resultam de pilhagem e todavia sempre lhe estenderam a passadeira vermelha, a mesma que agora se apressam a retirar. Coisa que Pacheco também não acha bem, por não apreciar que se bata em quem está na mó de baixo (o bom do Pacheco acerta uma, de longe em longe).

Eu não acho nada disto, e pelo contrário sou adepto da hipocrisia, da aldrabice e da corrupção. Quer dizer que estou mais perto, mas mesmo assim ainda distante, de Coelho do que dos outros dois.

Explico:

O combate à fraude e evasão fiscais, pelo qual juram todos os responsáveis políticos, em toda a parte, esbarra na independência dos países, e não pode ser, e não é, universalmente assegurado. Há paraísos fiscais até mesmo nos Estados Unidos, incluindo garantias de absoluta confidencialidade, aproveitando o facto de aquele país ser federal e haver Estados federados que nisso encontram substanciais rendimentos. E a férrea, e muitíssimo estúpida e perigosa, ditadura do Banco Central Europeu, do qual o nosso Banco de Portugal é um miserável balcão, pode servir para liquidar a banca portuguesa, o que aliás já quase completamente sucedeu; mas não pode servir para combater senão a pequena evasão fiscal – os frutos da corrupção encontram, porque os há, outros caminhos, lá onde os Pachecos, e os Blocos desta vida, não fazem as regras nem desconfiam da riqueza por acharem que, salvo prova em contrário e mesmo assim, é suja.

A independência das nossas antigas colónias deveria recomendar a abstenção de atitudes de interferência nos assuntos internos desses países, como são as tentativas pueris do Ministério Público de incriminar cidadãos estrangeiros, próceres decaídos de regimes que achamos, e são, por boa parte ilegítimos, mas sobre os quais não temos, enquanto país, que ter opinião. De resto, se as relações entre Estados se norteiam pelos sãos princípios das credenciais democráticas dos regimes, conviria pôr o dinheiro chinês pela porta fora – a China pode ser descrita de muitas maneiras, mas como uma democracia não.

Afastar fundos de Portugal, sob pretexto de que o dinheiro, aqui, tem odor, e o a esturrado rejeitamos, poderia garantir uma medalha da ONU, se na ONU não mandassem países como a China ou os EUA, e outros que não têm interesse em promover ingenuidades e frescuras. Essa condecoração, porém, acompanharia as orelhas de burro que por direito próprio já temos, dado que a corrupção no mundo não diminui pelo facto de não a aceitarmos

Defendo, portanto, a corrupção – lá fora.

Portugal não é já, e há muito, um país independente (isto é, com aquele módico de independência que os países pequenos e pobres podem ter), porque está ligado à máquina do BCE para sobreviver, porque precisa dos fundos europeus para investimento e sustentar funcionários e agências parasitas, e porque é para os países ricos europeus que exporta os seus excedentes de mão-de-obra qualificada. Portanto, hostilizar as autoridades europeias não é viável, porque nem os portugueses o compreenderiam.

Defendo portanto a aldrabice: os responsáveis políticos devem defender em público todos estes combates virtuosos, e sapá-los o mais que possa ser, incluindo o abandono da condição de bom aluno. Bom aluno só na medida necessária para que o professor não tope que estamos a aldrabar nos exames.

Pergunta-se: Sendo evidente que o interesse nacional não fica defendido pelo efeito de termos todos um par de asas nas costas, mas provável que o eleitor médio, movido pelo ódio que tem aos nossos ricos, que já quase não existem, o torne extensivo aos ricos dos outros, que deve o político responsável e patriota fazer?

Ser hipócrita: pregar uma coisa e fazer outra. Suspeito que é isso que acha Coelho provavelmente, Lobo Xavier talvez, e Pacheco não.

Defendo portanto a hipocrisia.

#EleNãoJoãoLourenço ?

jpt, 17.10.18

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200 000 congoleses expulsos de Angola, entre os quais refugiados (pelo menos 27 000). A indução de uma desgraça humanitária. Relatos iniciais de saque dos bens dessa população. Violação dos tratados internacionais. Ferocidade e cupidez da tropa angolana, soberanite desbragada do poder angolano. 

Onde estão as reacções internacionais? Não falo dos organismos multilaterais, hoje esfacelados nas suas capacidades políticas. Nem mesmo da portuguesa, dissipada qualquer capacidade de influência nos grandes países africanos da CPLP neste XXI, em processo culminado pelo saracoteio banhista do PR que nos cabe e pela pequenez estadista do PM - Marcelo é totamente irrelevante mas quanto a Costa analise-se a frio o conteúdo das suas viagens de 18 a Luanda e Maputo, uma pobreza. 

Trata-se mesmo da reacção popular internacional. Não, João Lourenço não ataca as "mulheres" congolesas, os "homossexuais" congoloses, os "afro-africanos" congoleses, não descobre "ciganos" congoloses, não denuncia "muçulmanos" congoleses. Não anuncia um "muro da Lunda", não agita a "Fortaleza Angola". Ou seja, não toca as campaínhas que fazem salivar os "indignados" do costume, colhe o silêncio.

Mas João Lourenço expulsa duzentos mil imigrantes, pobres, dezenas de milhares dos quais considerados refugiados da guerra congolesa, outros 180 000 que assim seriam considerados pela imprensa bem-pensante se imigrantes ilegais aportados nas costas italianas, pois gente miserável que fugiu à pobreza da sua terra devastada da guerra. João Lourenço viola os tratados internacionais. Associa o discurso anti-corrupção à violência xenóba estatal e à purificação étnica. Tem todos os constituintes do fascismo. Onde está o  #EleNãoJoãoLourenço?

Mas é só África, para quê a gente chatear-se ... Ainda para mais isto confunde essas "categorias" que lhes dão tanto mimo ao pensamento.

Reciprocidade.

Luís Menezes Leitão, 17.09.18

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Eu, se estivesse no lugar do João Lourenço, depois dos calções de banho de Marcelo na praia da Ilha e das jeans de António Costa em revista às tropas, trataria a viagem de Estado a Portugal exactamente da mesma maneira. Optaria por isso por surgir em todas as ocasiões solenes com uma roupa leve e desportiva. O único senão desta estratégia é que Novembro em Portugal costuma ser muito frio.

Angola; Ralações e Relações

João Villalobos, 03.03.18

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Angola é o grande tema em comum nos jornais deste sábado. Temos Álvaro Sobrinho no Expresso com os desvios de centenas de milhões do BES em Angola e os problemas nas Ilhas Maurícias (manchete no 1º Caderno e uma biografia na revista E), a fortuna de 420 milhões em Portugal do General 'Kopelipa' como principal título do Correio da Manhã e os desenvolvimentos positivos - no âmbito do Processo Fizz - para a defesa de Manuel Vicente na capa do semanário SOL. Tudo isto, como também noticia o Expresso, quase na véspera da cimeira “Portugal/Angola — Uma aposta de futuro”, organizada pela Câmara de Comércio Portugal-Angola mas com os presidentes e governos dos dois países nos bastidores, numa manobra de diplomacia económica agendada para dia 27, em Lisboa. Marcelo será, aliás, o autor do discurso de encerramento.

 

(Imagem retirada do SOL, crónica de Ana Sá Lopes; 'Angola-Portugal. E se a ameaça de corte de relações se concretizar mesmo?')

A purga de 27 de Maio de 1977 e a relação do Bloco com o regime de Angola

Rui Rocha, 27.05.17

Há 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamentodo do regime agora encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda mantém. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso da Venezuela, por exemplo, onde se esperava indignação, temos silêncio. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas de uma ferida histórica que continua aberta.