Um dos motes desta campanha eleitoral foi a luta contra o “fascismo”, papão que tantos dizem encarnado em André Ventura. Dessa aflição brotou a tamanha e tão excêntrica abrangência de apoios e votos, içando Seguro à Presidência, numa adesão geral cujo fundamento mesclará a repulsa pelo tal “fascismo” e o apreço pela aparente decência pessoal do candidato, um bem raro entre os políticos nesta acinzentada era.
O resultado final foi uma vitória mútua. Seguro, que veio para “correr por fora”, após uma década de silêncio público pois abjurado pela redes clientelares do seu partido, teve um sucesso estrondoso: a eleição e uma enorme votação - “a vingança é um prato que se come frio”, presumo que terá desabafado junto da sua família elementar, pensando nos geringôncicos Costas&Santos Silvas do seu partido.
Já Ventura teve o sucesso que pretendia. Firmou-se como a voz nacional relevante que critica o “estado da arte” vigente. E reforçou o seu estrado parlamentar: pois (como escrevi no tal postal O Fim das Linhas Vermelhas) se o PSD se “absteve” de recomendar um candidato final, isso traduziu que o partido do governo não se considera mais longe dele e do CHEGA do que está do PS, pretérito interlocutor parlamentar privilegiado. Este duplo sucesso de Ventura poderá ser uma vitória de Pirro, se ele não souber dirimir a ambivalência resultante, conciliar os estatutos de vozeirão invectivador e de parceiro dialogante do governo (e do tal “regime”).
Ventura é um populista - o que é diferente de “popularucho”, o que muitos confundem -, e nisso segue demagogo. Capta os incómodos, objectivos e subjectivos, sentidos pelos residentes - e não apenas pelos nacionais, algo que é incompreendido por uma série de letrados austrais que, regurgitando um marxismo básico, de manual, vêm perorando inanidades sobre uma propalada indecente alienação dos imigrantes africanos e brasileiros em Portugal que simpatizam com o CHEGA. A esses incómodos populacionais - alguns com raizes factuais, outros apenas frutos de impressões de senso comum - Ventura aponta causas simplistas, torna-os tópicos do seu gritado discurso. Ganha votos.
Mas Ventura não é um fascista - estou crente de que se no poder (vade retro, Satanás) seria uma espécie amansada e até constrangida de Meloni. É certo que a sua ululada demagogia tem efeitos fascizantes em alguns nichos dos seus simpatizantes, convocando os piores preconceitos discriminatórios que subsistem entre nós. E não repudia o convívio dos escassos holigões neonazis que por aí andam. Mas no que proclama - e no vácuo programa partidário que afixa - não é um fascista. Na sua encenação de quem “vai (muito) à missa” e se enrola em modo extático na bandeira pátria, é apenas um bolor “reaccionário”, uma emanação de uma intelectualidade avessa à já velha modernidade, ao racionalismo.
Eu não venho ao blog para simular uma qualquer docência. Mas, face a este despautério que por cá grassa, permito-me recomendar algumas das parcas leituras que me aconteceram. E se alguém tiver paciência poderá, entre outras coisas, ler um breve artigo do conhecido Isaiah Berlin, o “The Counter-Enlightenment” (está no livro “Against the Current”, que decerto se poderá gravar gratuitamente numa das “piratas” na internet), para enquadramento geral. E depois, já sobre a nossa terra, ler “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone, vasta obra que esmiuça o relativo atraso da instauração em Portugal de um pensamento constitutivo das liberdades cívicas. É nesse âmbito, nessas raízes, que se deve comprender Ventura. E não na gritaria antifascista.
É de lembrar o destino daqueles tantos políticos - desde a patética inicial Katar Moreira até ao melífluo Santos Silva - que julgaram conveniente agitar o espantalho “fascismo” face a Ventura. Pois, e mesmo se entre essa gente Costa se tenha alcandorado a um imerecido bem-bom, convém atentar no naufrágio que lhes vem acontecendo nesta meia dúzia de anos face “ao André”.
Enfrentar este crescente fenómeno Ventura, prejudicial no seu cariz ultramontano, exige apenas três acções, uma gigantesca, as outras fáceis. A enorme é simples de dizer: melhores governos, um Estado mais curial. Outra é muito fácil: amputar os devaneios esquerdistas que o tacticista Costa levou para o poder. E nisso do Estado deitar borda fora o lastro do linguajar que foi dito “marxismo estrutural”, “decolonial”, “politicamente correcto”, agora “wokismo”, etc. Isso não implica que não se combatam exageros policiais, obstáculos de índole racista, a desigualdade prática entre homens e mulheres, serôdias desvalorizações homofóbicas, e outras causas sociais queridas a esses núcleos. Mas para isso esqueçam-se os radicais que assentam os problemas contemporâneos numa malvada essência lusa, presente e imorredoira desde Fernão Lopes, o Infante Santo, Gil Vicente e seus coevos. Ou seja, travem-se os discursos demagógicos que demonizam da sociedade portuguesa (pois ela não é demoníaca), os quais tanto vêm irritando as massas. Afinal estas menos ignorantes que tantos dos doutos funcionários públicos ideologizados.
Quanto à terceira acção? É facílima. Trata-se de compreender a razão de ser Ventura tão popular. Para isso basta ver um filme: “Network” (“Escândalo na TV”, era o título aquando da sua apresentação em Portugal). Tive a sorte de o ver, nos meus 13 ou 14 anos, no cinema de São Martinho do Porto, e tanto então me impressionou que disso me lembro. Realizado por Sidney Lumet, com argumento do multipremiado Paddy Chayefsky, interpretado por Peter Finch (o seu último filme, tendo ganho o Oscar entregue após a sua morte), coadjuvado pelos grandes William Holden e Robert Duvall. E pela belíssima Faye Dunaway…
Resumo a trama: uma estação televisiva está em queda de audiências. Faye Dunaway é a nova directora de programação, departamento que passa a gerir o sector noticioso - antes autónomo. Decide transformá-lo em espectáculo de entretenimento. Para isso usa o veterano apresentador dos “telejornais”, em crise existencial. Incentiva-o a dizer nas notícias o que “lhe vai na alma”, a expressar a zanga que o corrói. E ele grita, ao vivo, no horário nobre: “We're as mad as hell, and we're not going to take this anymore!” (qualquer coisa como “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”). E põe o povo a gritar isso à janela! Nisso aumentando, exponencialmente, as audiências da televisão.
O filme é de 1976. 50 anos depois é isso que se passa: as nossas estações televisivas são geridas por fayes dunaways, infelizmente menos bonitas. Que chamam, incessantemente, o André para lá ir gritar “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”. E ele vai, com afã.
Isto passará, as audiências decrescerão. E mais rápido ainda se os fluxos de publicidade reduzirem.
(Reprodução da primeira das cinco partes da minha "Gazeta Semanal 6", dedicada às eleições presidenciais e colocada no meu "O Pimentel")