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Delito de Opinião

Foi engano

José Meireles Graça, 09.07.25

Há uns tempos manifestei num artigo algumas dúvidas sobre o Ministério da Reforma do Estado. Acabava assim:

Enganei-me no passado mais vezes do que gostaria e, é claro, como qualquer cidadão temente a Deus arrependo-me. Desta vez também apreciaria vir a arrepender-me. Não me parece.

Premonitório: Passou pouco mais de um mês e o ministro já diz sem rebuço ao que vem: “… o Governo está ‘a trabalhar numa reforma administrativa assente na simplificação, digitalização, articulação e responsabilização, não para reduzir o Estado, mas para fortalecer a sua relevância e legitimidade".

Fantástico: A reforma do Estado é afinal uma reforma administrativa que vai assentar na simplificação e digitalização mas consumindo o mesmo número de horas de trabalho dos funcionários, articulação e responsabilização mas sem ganhos nenhuns potenciais em despesas, além de não se fazer ideia do que querem dizer na prática estas proclamações – vai articular o quê com o quê e responsabilizar quem e de que forma?

Tudo com o objectivo de retirar do pescoço do cidadão a canga da via dolorosa das exigências absurdas ou redundantes, de uma administração fiscal intrusiva, prepotente e inimputável, ou da geral irresponsabilidade dos serviços públicos por atrasos, informações deficientes, descasos e exigências ilegais?

Que nada, para que o Estado fique “mais relevante e mais legítimo”, diz ele.

Tenho más notícias para o ministro: O Estado não precisa de ser mais relevante, já o é em demasia; e a sua legitimidade ninguém discute, o que se discute é a forma como funciona, quanto custa, e o seu grau de interferência na vida das pessoas e das empresas.

Em suma, mais um simplex. Para isso não era preciso um ministério, uma ignota direcção-geral cheia de computadores e moços a escarafunchar as meninges servia perfeitamente.

Um equívoco este ministério, parece. Que infelizmente não é o único:

A ministra do Ambiente lembrou-se de dar prova da sua existência supranumerária e resolveu implicar com os bares de praia. Estes, ficamos a saber, pagam um valor muito pequeno ao Estado, pelo que os preços das águas, cafés, sandes e o mais que more na ministerial cabeça, devem ter limites máximos.

Que a ministra se limitasse a garantir o acesso às praias, que aliás tem valor constitucional, muito bem. Agora que se meta a interferir com o mercado limitando preços sob pretexto de que há toldos caríssimos (só são caríssimos porque há quem os pague) é que faz com que tenhamos, salvo seja, a burra nas couves.

Aqui há muitos anos havia no Algarve um bar de praia reputado por servir um peixe grelhado excelente e ser frequentado por famosos. Não me lembro do nome da praia e creio que o restaurante se chamava Gigi – não sei se ainda existe. Fui lá uma vez e achei cómicos os preços – coisa de fugir, ademais porque havia muitos outros sítios onde o peixe era igualmente bom, e alguns onde talvez não fosse mas a conta não interferia com a digestão. Quer isto dizer que os preços deveriam ser tabelados, impedindo quem não faz contas ou gosta de fingir que não as faz de ter lugares próprios para si? Que ideia, a inveja será natural mas não é fundamento que se aceite para orientar políticas.

Que o diabo leve a ministra se também estabelecer um preço máximo para a sandes de presunto belota. Que já estou daqui a ver o comerciante a impingir presunto salgadíssimo debaixo da etiqueta aldrabona. Mas como o Estado sabe muito mas o comerciante ainda mais, por baixo do balcão lá estará a sandes legítima, para aqueles clientes com discernimento e gosto mas que não precisam da facturinha.

É o que temos. Quem ousar dizer que este Governo é liberal ou não sabe o que é o liberalismo ou não conhece o Governo. Eu começo a conhecer.

Extrema-esquerda pseudo-ambientalista

Pedro Correia, 13.05.25

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Campanha eleitoral para as legislativas. Um líder partidário - Rui Rocha, da Iniciativa Liberal - discursa num comício. De repente sobem ao palco duas pessoas que o interpelam, despejando-lhe pó verde na cara e na roupa.

São «jovens activistas ambientais», apressam-se a escrever os periódicos. Em uníssono. Em tom fofinho.

«Rui Rocha atingido com pó verde por activistas climáticos», titula o Público.

«Rui Rocha atingido com pó verde por a(c)tivistas ambientais», assegura o Jornal de Notícias.

«A(c)tivistas climáticos invadem palco da IL e atiram pó verde a Rui Rocha», diz o Observador.

 

Nenhum jornal usa o termo adequado: extremistas. Da extrema-esquerda pseudo-ambientalista que perverte a nobre causa ecológica pondo-a ao serviço de cartilhas climáticas ultra-radicais. Mesmo com graves atropelos à vida democrática, que implica a livre expressão de ideias, sem coacção de qualquer espécie. 

A defesa do ambiente não pode justificar actos deste género nem atenuá-los no folclore mediático. Enquanto uns encolhem os ombros e outros exibem sorrisos de condescendência. Sem a firme condenação que se impõe.

O primeiro passo para normalizar extremismos é tolerá-los. Sob a capa da juventude. Sob o pretexto do «activismo». Sob a alegação de que agredir e silenciar terceiros se justifica em certas circunstâncias. Com a ilusão de que existem extremismos maus e extremismos bons. Como se nem todos fossem péssimos.

Attenborough: amor ao mar, amor à vida

Pedro Correia, 09.05.25

 

Confesso: David Attenborough é um dos meus heróis. Chega aos 99 anos em plena actividade. Acaba de concluir outro dos seus magníficos documentários sobre a natureza que acompanho desde a adolescência sempre com o maior interesse. Poucos como ele me sensibilizaram tanto para a necessidade de preservarmos e valorizarmos o meio ambiente, tesouro da humanidade. 

Ocean - assim se intitula este seu mais recente filme, ontem estreado, no preciso dia em que o célebre antropólogo, naturalista e produtor televisivo entrava no centésimo ano de vida. Longa e profícua existência, tão bem aproveitada para enaltecer este planeta azul, casa comum de todos nós.

«Quase a chegar aos cem anos, percebo agora que a parte mais importante da Terra é o mar», diz-nos nesta sua enésima declaração de amor ao oceano, componente essencial da natureza. Que é também um hino à vida.

Saibamos seguir-lhe o exemplo. Ou tentar, pelo menos. Já valerá a pena.

Beatas em São Bento

Pedro Correia, 04.10.23

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Em 2019, o PAN - com falta de temas em agenda e procurando seduzir os jornalistas pela originalidade - lembrou-se de apresentar a lei anti-beatas, aprovada na Assembleia da República em Julho desse ano.

Campeão em Portugal nas proibições e multas, o partido animalista rejubilou nas redes. «Vitória para o ambiente!», gritaram de euforia no Facebook. 

A lei - aprovada com o voto contra do PCP - passou a proibir o «descarte de pontas de cigarros, charutos e outros cigarros [sic.] na via pública». Previa «um período de adaptação de um ano» com «acções de sensibilização aos consumidores» (não cesso de me espantar ao ver partidos políticos tratarem os cidadãos como "consumidores"). E, claro, coimas «entre os 25 euros e os 250 euros» a quem deitar beatas para a via pública.

O tal «período de adaptação» terminou em 2020. Aconteceu com esta lei que deixou o PAN tão contentinho o mesmo que a milhares de outras produzidas neste país: os "consumidores" ignoraram-nas.

Para que não restem dúvidas, eis as imagens, colhidas esta semana no Jardim de São Bento, a escassos metros da entrada lateral do palácio onde funciona a Assembleia da República: ia a manhã a meio e já o chão estava pejado de beatas.

«Vitória para o ambiente», diziam eles. E elas.

Pornográfico

Pedro Correia, 29.08.23

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Neymar à chegada a Riade, após um voo de seis horas em que foi passageiro único

 

Neymar, contratado por 98 milhões de dólares pelo Al-Hilal, número inédito na Liga da Arábia Saudita, viajou como único passageiro para este reino árabe num luxuoso Boeing 747-400 de 344 lugares que num só voo contamina 32 vezes mais a atmosfera do que uma pessoa comum num ano inteiro.

Nesta rota de seis horas entre Paris e Riade, o aparelho custa ao meio ambiente 230.000 kg de emissões de CO2, enquanto um cidadão comum, em 365 dias, é responsável por 7.000 kg. Cada hora de voo deste avião custa 23 mil euros, além dos danos ambientais causados.

Não há planeta B

Mas há burros no planeta

Paulo Sousa, 22.04.23

Talvez sensibilizados pela manifestação pelo clima que decorreu durante a cerimónia do 50º aniversário, o PS pôs a mão, não na manifestação, mas na consciência.

Urgia fazer algo mais para salvar o planeta. Até porque não existe um planeta B.

A ideia surgiu numa agitada sessão de brainstorming. Para além de ser uma boa ideia, pois obterá os resultados pretendidos e permitirá olharmos para o futuro com mais optimismo, tem as características necessárias para calar os críticos que sempre repetem a conversa de que este governo é incapaz de fazer reformas estruturais.

Assim, aqui vai:

A partir de 1 de Julho, os voos em jactos privados, com capacidade até 19 passageiros, passam a pagar uma taxa de carbono de 2 (dois euros) por passageiro.

Quem é que não é visionário?

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O povo é sereno*

José Meireles Graça, 04.08.22

Nuno Ribeiro da Silva tem um percurso galáctico em assuntos de energia, cujo mérito não sei avaliar, e teve um percurso político que justificaria que, num país como Portugal, tivesse tento na língua: quem está à cabeça de empresas majestáticas almoça com ministros e secretários de Estado, é tu cá tu lá com altos funcionários e, em entrevistas e declarações, diz coisas redondas segundo o espírito da época e o poder do dia.

O poder do dia é socialista e o pobre homem é do PSD, ignorando-se se da versão Rio, isto é, PS-B, ou de outra das várias que aquela prestigiada agremiação acolhe no seu seio.

Certo é que há dias pôs a boca no trombone, declarando que haveria já este mês um aumento de 40% na factura da eletricidade. Deslize? Imprevidência? Precipitação?

Não sei. Estes assuntos aparecem ao cidadão comum, e portanto a mim, como herméticos, sinal seguro de que haverá tráfico de influências, parasitagem, moscambilhas sortidas e, sobretudo, vassalagem ao acervo de patetices guterristas e gréticas (de Greta, a pobre Joana d’Arc da histeria climática) que justifica tanto estudo subsidiado, tanto prócere da Academia a prometer hecatombes se não se seguirem os remédios que recomenda, e tanto governante a cavalgar a onda da ansiedade climática para reforçar os poderes do Estado, e portanto os seus.

Entretanto, a própria empresa que Nuno dirige já veio dizer que não senhor, não vai haver aumentos nenhuns, e o ministro do Ambiente aliviou-se de coisas tranquilizadoras, outro tanto fazendo o secretário Galamba.

Quem quiser fazer alguma ideia do que se passa nestes domínios pode fazer pior do que ler os artigos de Mário Guedes no Observador, um funcionário que o dito Galamba em devido tempo despediu, et pour cause.

Em resumo: seja por calculismo, seja por imprevidência, ou por outra razão qualquer, aparecem umas declarações que alarmam os cidadãos que assistem tranquilos ao espectáculo do colapso do SNS, da inflação que galga degraus e do deslizar do país para os últimos lugares do desenvolvimento; os governantes do sector envolvido reagem, sossegando as hostes; e as pessoas comuns terão concluído que aumentos vai haver, mas nada do que aquele espalha-brasas anunciou. Tudo normal, portanto.

Tudo? Não. Galamba, o antigo aguadeiro do PS nos tempos gloriosos da blogosfera, ferido nos seus brios de patrão dos assuntos energéticos, ter-se-á queixado ao chefe. O qual, incomodado em férias, reagiu: O quê, um patrão de uma grande empresa que se permite ameaçar os nossos eleitores, e os outros que ainda não viram o esplendor socialista, com aumentos de preços sem nos dar tempo para preparar a opinião pública com a desculpa da guerra e outras bem-enjorcadas? Ele vai ver.

E viu. Costa pariu um despacho que promete a uma empresa um tratamento diferenciado do das outras, não por algo que tenha feito, nem sequer para evitar o risco do que venha a fazer, mas como castigo por falar demais.

Que o Estado se permita tão ostensivamente discriminar uma empresa cai dentro do domínio da inimputabilidade de que este PS, este governo, e este primeiro-ministro, julgam ser beneficiários.

Talvez sejam. Mas como a alguns cidadãos a oposição às ideias às vezes se transmuta em nojo face aos procedimentos, fica aqui o monumento da ignomínia:

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* Publicado no Observador

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 03.07.22

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Este é O Dia do Salvamento

"Este dia visa divulgar os processos de salvamento existentes nas praias para que os banhistas os conheçam e não entrem em pânico numa situação crítica.

Nesta data fazem-se demonstrações dos meios e processos de salvamento que os nadadores-salvadores utilizam durante um salvamento, como pranchas e bóias. É também divulgado o que se deve fazer para prevenir acidentes na água, como pedir ajuda na água e como agir numa emergência, prestando os primeiros socorros.

O Dia Mundial do Salvamento foi instituído em 1979, a comemorar  no primeiro domingo deste mês."

 

O mar é uma imensidão de azul, é lindo, maravilhoso, inspirador, esteja um espelho de mansidão ou serrado por vagas monstruosas. Há uma grande inconsciência em relação ao mar; quantas vezes a ida não tem volta  apenas pela inconsciência de pensar que se pode vencer a força da água. 

 

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Este é O Dia Internacional Sem Sacos de Plástico 

"Esta data pretende alertar para a produção e o consumo excessivo de sacos plásticos a nível mundial, propondo-se alternativas para resolver este sério problema ambiental. Estima-se que um cidadão na Europa consome cerca de 500 sacos plástico por ano, que acabam no lixo ao fim de meia hora de utilização, ou então no meio-ambiente, criando-se vastas ilhas de lixo plástico nos oceanos (80% da poluição marinha). Como os animais confundem o plástico com alimentos, acabam por morrer envenenados.

Os sacos de plástico são constituídos por resinas tóxicas oriundas do petróleo e levam cerca de 500 anos a decompor-se. Apesar da gravidade da situação, apenas 2% da população recicla sacos plásticos."

 

Se é só um dia por ano sem sacos de plástico, estamos bem arranjados. Qualquer dia, em vez de ilhas imensas de resíduos de plástico, teremos verdadeiros continentes.

 

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Este é O Dia Nacional do Arquitecto

Esta data marca a publicação do Estatuto da Ordem dos Arquitectos, a 3 de Julho de 1998, assim como a data de revogação do Decreto n.º 73/73 com a publicação da Lei 31/2009. Esta lei aprovou o regime jurídico que estabelece a qualificação profissional exigível aos técnicos responsáveis pela elaboração e subscrição de projectos de arquitectura."

Os nossos monumentos mais emblemáticos, datados de há centenas de anos, alguns deles num estilo muito português, demonstram que nem só do mar fizemos história. 

Mais recentemente, sempre que vou para as bandas orientais de Lisboa, me derreto com as construções erigidas a propósito da Expo98, que continuam fascinantes, desafiantes e tão intemporais como o Guggenheim de Nova Iorque. 

 

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A 3 de Julho assinala-se O Dia Nacional do Vinho

"Comemora-se todos os anos, desde 2004, no primeiro domingo do mês de Julho. Este ano a iniciativa é celebrada hoje, numa parceria entre a Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV) e a ViniPortugal.

Oito municípios irão festejar este dia.

Viana do Castelo - Cidade do Vinho 2011, organiza a Gala de Eleição da Rainha das Vindimas de Viana do Castelo que antecederá a Gala da Eleição, Rainha das Vindimas de Portugal, no dia 9 de Julho. Associam-se à data os municípios de Azambuja, Beja, Cartaxo, Oeiras, Ourém, Palmela e Setúbal.

De Norte a Sul do País, quintas, adegas e municípios portugueses abrem as portas e convidam o visitante a participar nesta celebração ao vinho português."

 

O nosso vinho é o melhor do mundo. O vinho francês é bom, o italiano também, mas um bom tinto alentejano mete-os a todos num chinelo. 

Que saudade do tempo em que olhava o sol fugir para detrás do mar, na tranquilidade de uma repousante taça. 

In Vino Veritas. Brindemos e depois, como dizia o meu pai, oremos a Baco, para que possamos continuar a brindar.

Juntos seguimos e conseguimos *

Paulo Sousa, 05.01.22

“A partir das últimas décadas do século XX, este Pinhal tem sido largamente negligenciado. Para se ter uma ideia deste desinteresse, basta referir, por exemplo, que, no domínio dos recursos humanos, em 1980 havia 144 trabalhadores rurais, que, segundo os técnicos da altura, “não chegam para resolver cabalmente os problemas da instalação e tratamento dos povoamentos”, 29 guardas florestais, 4 mestres e 9 técnicos (engenheiros silvicultores). Hoje há 30 trabalhadores rurais (sobretudo mulheres), não há guardas a dependerem desta Direcção Geral (a Polícia Florestal que surgiu em sua substituição actua sobretudo na fiscalização da caça e pesca nos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Pombal, Batalha e Porto de Mós) e há apenas 2 técnicos para uma zona que compreende Marinha Grande, Pombal, Figueira da Foz e Serra dos Candeeiros.

As tarefas dos trabalhadores rurais passam sobretudo por medir pinheiros fiscalizar cortes, pintar casas e pontes. Nas matas do Pedrogão e do Urso, que juntas perfazem 8.000 ha, trabalham apenas duas mulheres. O número é claramente insuficiente, segundo o responsável pela administração deste Pinhal, acrescentado ainda que este “está ao abandono”. Efectivamente o orçamento de 2003 para limpeza e conservação da Mata foi zero. Por outro lado, ela rende anualmente ao estado cerca de milhão e meio de euros.”

 

Vidas de Carvão, As carvoeiras do Pinhal do Rei
de Paula Lemos
Imagens & Letras - 2007

 

O grande incêndio de 2017 destruiu 86% da área da mata conhecida por Pinhal do Rei. O texto acima, quase premonitório, foi publicado dez anos antes deste evento trágico. Já aqui postei sobre a demora na sua replantação e de como é difícil passar por ali, lembrando toda aquela imensidão de verde, que nos idos anos 40 inspirou o poeta Afonso Lopes Vieira.

 

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e esconde
e aonde, ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim

 

Quem não conhece a zona, quem ali não tenha construído memórias e desconheça a sua dimensão, não imagina o sofrimento de quem visita a mata.

Na sua largura máxima a mata tem 8.400 mt e 18.700 mt no seu maior comprimento, num total que ultrapassa os 11.000 ha divididos em 342 talhões. São necessários longos minutos de carro para atravessar a zona. É uma imensidão de área que nunca mais voltarei a ver como a conheci.

Não chegasse a incúria que nos levou a esta tragédia, António Costa, apostado em desrespeitar o “ditoso Lavrador” de Afonso Lopes Vieira, uns meses após a tragédia visitou a área e mostrou-nos que o que ficava ali bem eram sobreiros. Os nossos antepassados eram uns palermas e ele é que sabe.

Em Abril passado, e perante a decisão do Governo de adiar mais uma vez a sua replantação, o PS da Marinha Grande manifestou “a sua mais profunda desilusão e descontentamento" o que é demonstrativo da falta de sensibilidade com que se governa o país a partir de Lisboa.

Muito mais do que em qualquer metáfora literária, plantar uma árvore é realmente oferecer algo às próximas gerações, e nisso, estes adiamentos consecutivos dizem muito da forma como este governo lida com o futuro.

Entretanto, as acácias vão progredindo e os sobreiros plantados pelo senhor das meias verdes, sucumbiram.

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Foto minha tirada a 3 de Janeiro de 2020

* Slogan do PS para as eleições legislativas de 30 de Janeiro 

Água radioactiva e velocidade no asfalto

Pedro Correia, 12.08.21

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O ministro do Ambiente soltou esta semana um grito dolorido. É tempo, diz ele, de parar com a produção global de combustíveis fósseis que vai colocando o planeta à beira da catástrofe ecológica. «Mais do que salvar o planeta é salvar-nos a nós próprios como espécie. Nós de facto não conseguimos suportar este aumento de temperatura. A economia tem de crescer de forma completamente diferente e com investimentos que sejam focados na sustentabilidade», declarou o governante, notoriamente alarmado. 

Fui conferir. Matos Fernandes ocupa há seis anos consecutivos a pasta governativa, desde 2018 crismada com o pomposo título de Ministério do Ambiente e da Transição Energética - obedecendo ao péssimo hábito, há muito vigente em Portugal, de alterar constantemente designações para disfarçar a total incapacidade de fazer reformas. 

«Isto não vai lá sem o esforço de todos”, adverte Matos Fernandes, como se fosse um recém-chegado. Afinal prestes a entrar no sétimo ano de funções no Executivo socialista que tanto se orgulha de proclamações retóricas com alvos de longo prazo. Como esta: «Portugal foi o primeiro país no mundo a afirmar o compromisso da neutralidade carbónica em 2050.»

Merecia medalha de ouro se fosse modalidade olímpica.

 

Mas o que nos recomenda já hoje, não para 2050, Sua Excelência, auscultado pela Lusa? «Deixar de usar combustíveis fósseis, plástico de uso simples, o petróleo, reduzir muito as embalagens, beber água da torneira, utilizar os transportes públicos.»

Azar do ministro que gosta de escrever cartinhas à «querida Greta» para receber um aceno de aprovação da activista sueca. Horas depois de fazer tão sábias declarações ao país, ficávamos todos a saber, através de notícia divulgada no Jornal de Negócios, que a era do gás natural barato chega ao fim, havendo expectativa de subida dos preços na ordem dos mil por cento. 

«Com o aumento dos preços do gás natural será mais caro abastecer fábricas ou produzir petroquímicos, atingindo todos os cantos da economia global e reforçando os receios de inflação. Para consumidores, o custo será reflectido nas contas mensais de energia e gás. Vai ser mais caro usar uma máquina de lavar, tomar um banho quente ou preparar o jantar», esclarece o jornal. 

Isto não augura nada de bom. Resta-nos beber muita água da torneira e utilizar os transportes públicos, seguindo a recomendação de Matos Fernandes, que há menos de um mês viu a Comissão Europeia accionar Portugal por alegado incumprimento de regras sobre o controlo da presença de substâncias radioactivas na água potável engarrafada que podem causar sérios danos à saúde pública. O mesmo ministro que há poucas semanas foi apanhado a voar baixinho numa auto-estrada e numa estrada nacional, transgredindo largamente os limites de velocidade impostos ao cidadão comum pelo Governo a que pertence. Como se acelerar no asfalto não aumentasse as emissões poluentes que tanto o assustam. 

A "querida Greta" certamente não iria gostar.

Indústria segura e pouco poluente

Cristina Torrão, 16.11.20

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Há meses, publiquei aqui um texto sobre a minha experiência com a Ebike, ressalvando que tinha conhecimento de que uma bateria de lítio implica trabalho em condições de escravidão e não está livre de emissões de CO2, tanto na fabricação, como nos carregamentos. Acrescentava, no entanto, que, neste nosso mundo globalizado, é praticamente impossível evitar esses dois factores, sendo, para mim, importante tentar poluir o menos possível.

Em resposta a um qualquer comentário, eu perguntava-me se a indústria petrolífera implicaria trabalho infantil e/ou escravo. O comentador André Miguel respondeu categoricamente que não, acrescentando que este tipo de indústria pouco poluía. Disse ser das indústrias «mais avançadas tecnologicamente, das mais seguras, exigentes e menos poluentes (o que polui é o uso dos produtos extraídos, não a extracção em si)».

Não tendo conhecimento de causa, calei-me. E esqueci. Mas, pelos vistos, isto ficou-me guardado num qualquer canto do cérebro, pois, ao ler uma certa passagem deste livro, vencedor do Man Booker Prize 2019, lembrei-me, de repente, das afirmações desse comentador.

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Passo a citar, das páginas 171 a 173:

«Ela própria ainda se lembra de como a sua mamacinho a levou de Opolo, no delta do rio Níger

foi depois de Moses, o seu papá, morrer numa explosão quando estava a refinar crude

fervia os barris ali nos pântanos, tudo muito malfeito, os barris todos muito colados uns aos outros e destapados e a chama logo ali

todo aquele crude tão próximo do fogo era perigoso

e todos eles estavam cientes disso, mas de que outra forma podiam sobreviver naquele lugar desolado onde as petrolíferas procuram petróleo a milhares de metros de profundidade com as suas sondas, para depois o sugarem com as suas gigantescas torres de extracção, enchendo milhões e milhões de barris para fornecerem o precioso combustível ao resto do planeta

enquanto o lugar onde nasce esse mesmo combustível vai apodrecendo

(…)

fugiram das refinarias e das chamas alaranjadas do gás que ardiam 24 horas por dia, e fizeram centenas de quilómetros a pé pelo matagal húmido

fugiram dos gases tóxicos que envenenavam o ar, havia que respirar com cuidado, porque encher os pulmões era morrer aos poucos

fugiram das chuvas ácidas que tornavam a água imbebível

fugiram dos derrames de petróleo que envenenavam as colheitas, da pescaria doente nas enseadas de águas pastosas, dos cestos que emergiam das águas com o peixe envolto numa gelatina escura e pegajosa

caranguejo, lavagante, lagosta - tudo morre

peixe-espada, bagre, corvina - tudo morre

barracuda, sável, pampo - tudo morre»

A incúria do Estado

Paulo Sousa, 18.10.20

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Esta semana assinalou-se o terceiro aniversário do incêndio que destruiu 86% da área da Mata Nacional de Leiria.

Logo de seguida e por recomendação do fucus groupAntónio Costa fez-se fotografar e filmar na plantação de sobreiros num dos talhões afectados. Ao mudar de espécie, de pinheiro para sobreiro, terá pretendido corrigir um erro com mais de 500 anos. El Rei Dom Dinis enganou-se ao escolher pinheiros e finalmente alguém ajuizado iria corrigir o erro. Logo depois a natureza, essa ingrata, fez com que os sobreiros não sobrevivessem naqueles areais e, talvez pela afronta, o governo decidiu entregar-lhe então a gestão daqueles 9.480 hectares.

Depois disso, e pelo facebook, soube de várias iniciativas de grupos de cidadãos identificados como amigos do Pinhal de Rei, que foram travados na sua vontade de replantar um talhão que fosse, pois esse processo teria de obedecer a um plano do ICNF.

Neste terceiro aniversário um grupo de cidadãos assinou uma carta pedindo explicações ao governo sobre o plano de recuperação desta área que equivale a 54% do concelho da Marinha Grande.

É tal a desolação que evito por ali passar. Hoje, pela segunda vez desde o incêndio, regressei a este espaço de que guardo recordações maravilhosas. Olhando em volta, tudo isso parece mais distante do que nunca. É uma dor de alma.

Para quem o quiser entender como tal, esta é mais uma prova da incúria do Estado, da sua incapacidade em resolver os assuntos que advoga como seus.

Este vídeo é por isso dedicado aos que acham que aquilo que precisamos é de mais Estado.

Quando a bonança vier

Paulo Sousa, 03.04.20

Não duvido que depois de ultrapassarmos esta crise algumas coisas passarão a ser muito diferentes. O teletrabalho, a que agora se recorreu como reacção às limitações de circulação, abrirá portas a que pelo menos em alguns dias da semana deixe de ser necessário ir fisicamente ao local de trabalho. Este efeito não será igual em todos os sectores, mas globalmente as poupanças energéticas e de qualidade de vida serão inquestionáveis. A Covid-19 pode mesmo vir ser a única solução para a IC19.

O ensino nunca mais será igual. Quando o Sr. Mário Nogueira reparar que uma turma de 25 alunos on-line não terá de obedecer ao critério do local de residência, irá ficar irritado, pois esse é o seu argumento para empurrar alguns alunos para escolas desinteressantes e para professores desmotivados.

E se os professores pudessem ser avaliados pelos alunos e isso pudesse ser relacionado com os resultados obtidos nessa turma... e toda essa informação pudesse estar disponível numa plataforma independente do ministério... e se tudo isso pudesse ser combinado com ensino on-line...?

Se o terceiro período arrancar com recurso a este tipo de tecnologia e funcionar razoavelmente, poderá ser como abrir a caixa de Pandora para a tribo da FENPROF.

A vida escolar necessitará sempre da presença física dos alunos e dos professores, mas tal como no que acima disse, pode ser reduzida a menos dias que os actuais, o que até coincidiria com um tema que é tão querido às novas gerações, o School Strike for Climate.

Claramente o novo normal será muito diferente do que era normal.

O ar que respiramos

João Pedro Pimenta, 22.03.20

Eis uma explicação racional para a quantidade de mortes em Hubei, Norte de Itália e Norte do Irão. Tudo zonas que pela sua densidade populacional, geografia (zonas planas rodeadas de cordilheiras, que limitam a circulação do ar) e sobretudo indústria pesada e, no caso de Itália, posse de automóveis per capita, das maiores do mundo (e todos sabemos como os italianos apreciam carros), levam a que haja muito pior qualidade do ar, doenças respiratórias e a situação tão complicada que temos vindo a assistir nessas regiões.

Mais uma razão para pensarmos que há questões prementes a ser resolvidas, e que o ar que respiramos é sem dúvida uma delas. Até lá, resta-nos aprender com as lições, por duras que sejam. A economia tem de reerguer-se e o ar ficará novamente mais poluído, mas convinha voltar a este assunto, que aliás esteve no ordem do dia no último ano logo que possível. Talvez muito do cenário terrível que temos vindo a assistir fosse mais ténue.  Que este ar mais limpo que respiramos agora nos ajude a perceber isso, e a curto prazo nos ajude. 

Sobre os pesticidas

Paulo Sousa, 08.02.20

Já ouvimos aqui e ali que as autoridades monitorizam o consumo de cocaína a partir dos efluentes urbanos. Quer isso dizer - surpresa!! - que as substâncias que ingerimos depois de circularem dentro do nosso organismo acabam por ser devolvidas ao meio ambiente.

É fácil entender que também os banais paracetamóis, ibuprofenos e demais medicamentos para gripes, digestões difíceis, irritações da garganta, depressões, ou até quimioterapia ingerida ou injectada, levam a que ocorra a libertação de parte destes compostos químicos nos efluentes urbanos e por aí regressam à natureza.

Os puristas dos alimentos bio, macrobióticos e outras variantes e tendências, que já deixei de me esforçar por memorizar, ainda não se lembraram de se manifestaram contra esta forma de “poluição”.

A conservação da natureza é determinante e deve ser permanentemente considerada em toda a actividade humana. Apesar disso, qualquer posição equilibrada sobre este assuntos tem de partir de uma base de que a poluição óptima não é nula.

É claro que cada um de nós poderá defender um ponto de equilíbrio diferente para o binómio sustentabilidade/bem estar. Até que as dores ou doenças nos aflijam, ou aos nossos, é muito mais fácil ser purista.

Toda esta introdução para fazer um paralelismo com a produção agrícola.

No tempo em que o meu pai era criança os anos de míldio eram anos de dificuldades. Outra forma de relatar este facto era como sendo anos em que havia pouca fartura, mas no fundo isto não são mais que metáforas para dizer que eram anos de fome.

Quando se plantava uma saca de batata e no dia da colheita se colhiam apenas três ou quatro, em vez das trinta ou quarenta potenciais, o regresso a casa era triste e cinzento.

As famílias eram numerosas e as mais de setecentas refeições previstas num ano exigiam colheitas generosas. Ratear poucos ingredientes para muitas refeições a servir a muitas bocas de crianças e jovens em crescimento, que não passavam o dia imóveis agarrados a écrans, era um exercício difícil e ingrato.

Olhando a partir de hoje, com as prateleiras dos supermercados cheias, pode parecer estranho mas a introdução da cultura do milho, cereal muito mais produtivo que o centeio, teve como consequência um aumento da população. A história do vinho verde também está ligada a esta revolução agrícola, mas isso são contas de outro rosário.

Os pesticidas, agora designados tecnicamente como produtos fitofármacos, foram e são os medicamentos que se administram às plantas e que previnem este exercício ingrato de ouvir os filhos a pedir comida e não a ter para lhe dar.

A nossa geografia, exposta à humidade atlântica, é excepcionalmente propícia ao aparecimento de míldio e de outros fungos que apreciam humidade e temperaturas amenas. Os fungicidas, introduzidos há muitas décadas, foram a solução para travar fomes como a Grande Fome na Irlanda, que deixou atrás de si um país arrasado.

Numa economia aberta como a nossa, os anos de míldio deixaram há muito de serem anos de fome. Nos anos de fraca produção nacional as batatas aparecem igualmente cruas, empacotadas já fritas ou processadas em puré instantâneo no supermercado, ou cozidas sob um fio de azeite no restaurante da esquina. A globalização anulou o binómio míldio/carência alimentar.

Para quem nunca soube, ou já esqueceu, da realidade que aqui descrevo é fácil concordar com o mantra de que os pesticidas são a origem de todos os males. As doenças que não conseguimos controlar (que são apenas um ínfimo número das com que já lidamos na história) são o resultado dos pesticidas com que envenenamos os alimentos e o ambiente.

Como referi acima, a poluição óptima não é nula, assim como o uso de medicamentos óptimo não é nulo e também o uso de pesticidas óptimo não é nulo.

É natural que o crescimento exponencial da população humana em curso leve a uma maior procura de alimentos. A forma de travar a conquista de mais áreas, agora selvagens e não cultivadas, passa por aumentar a produtividade dos solos actualmente dedicados à agricultura. Só maximizando a produção de cada parcela permitirá que o natural aumento da procura global de alimentos não tenha como consequência um aumento das áreas dedicadas à agricultura.

Podemos por isso dizer que a conservação dos espaços naturais depende da produtividade agrícola com base cientifica, e por isso do uso dos pesticidas.

A beleza das coisas simples

Paulo Sousa, 04.02.20

O nosso colega jpt já aqui postou sobre o maravilhoso salto em frente que Lisboa está a dar.

A beleza das coisas simples, que circula nas veias da máquina do estado, merece hoje e aqui um destaque especial. Veja-se como são belas as regras de acesso à Zona de Emissões Reduzidas Avenida.

"Os residentes poderão receber visitas?

Sim, mesmo que o próprio residente não tenha automóvel e desde que esteja registados no sistema. Mas atenção que o carro tem se ser posterior a 2000. Cada residente pode receber até um máximo de dez visitantes por mês. Terão de avisar previamente, indicando a matrícula do respectivo veículo, o que poderá acontecer através de uma app criada para o efeito ou por telefone. Para estacionar, é que só poderão fazê-lo num dos parques da zona. Por outro lado, os cuidadores de residentes também podem entrar (tem de ser requerida uma autorização prévia), mas só poderão estacionar nos parques de estacionamento."

Qualquer sílaba, ou mesmo vírgula, a mais criaria um desequilíbrio na métrica desta quase poesia.

Não fosse a app, que dá um ar modernaço e não emite carbono, podia ser uma tradução de um edital na RDA.

E quando tinhas 16 anos?

João André, 20.12.19

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A Time escolheu Greta Thunberg como pessoa do ano. Penso que ela não liga muito a isso e que se ligar será só pela forma como irão falar da sua causa.

Haverá muitas pessoas, incluindo neste blogue, que menorizarão a escolha. Falarão em como ela é obcecada, ou que devia ir para a escola, ou que isto ou aquilo.

A única coisa que lembro é: começando por se sentar no passeio com um cartaz, esta miúda de dezasseis (16!) anos colocou milhões de jovens envolvidos numa causa que lhes é importante: o seu futuro. Falou com líderes políticos, económicos e discursou, fluentemente, nas Nações Unidas. Conseguiu ainda atrair o ódio dos ogres políticos deste mundo (sim, como Trump ou Bolsonaro - os Putins ou Kims são piores).

Para quem ainda lhe cause urticária o que Thunberg conseguiu, deixo a pergunta: e tu, o que fizeste aos 16 anos?

Diálogos gretados

Pedro Correia, 03.12.19

 

Ela - Gostaste de ver a Greta em Lisboa?

Ele - Não. Esta Greta não tem garbo.

Ela - Ela é determinada e fofinha. Gosto muito dela. Miúda voluntariosa e bem intencionada. Luta por uma causa que devia ser de todos.

Ele - Eu vejo-a como uma ignorante que se destaca por faltar à escola.

Ela - Incomoda e mobiliza os outros jovens para uma causa justa.

Ele - Apela aos miúdos para fazerem greve às aulas a pretexto da defesa do clima. Assim é fácil ser popularíssima. Qual o miúdo que não sonha ser liderado e manipulado por alguém assim?

Ela - A Greta não sabe o que é ser falso ou dissimulado ou manipulador. Ela é genuína, autêntica.

Ele - O problema nem é ela, mas os oportunistas que a manipulam para se tornarem "celebridades". Como estes velejadores ricaços que lhe deram boleia durante semanas no Atlântico e deliram por terem "milhões de seguidores" nas redes sociais. E os políticos que se vergam à miúda porque assim ficam bem vistos nos meios de comunicação.

Ela - O que ela diz e faz só pode incomodar negacionistas como tu e quem se sente posto em causa como cidadão por não fazer nada ou quem é de direita e imagina que os activistas pró-ambiente são todos de esquerda. Ela é um exemplo para os da geração dela, que vivem alheios a tudo e todos, sempre ligados ao telemóvel.

Ele - Os alarmistas como tu podem achar muito gracinha, mas o lugar de uma miúda como ela é na escola, na universidade. Tem de aprender, estudar, investigar. Aos 16 anos ninguém dá lições ao mundo.

Ela - A geração dela é que levará em cheio com as consequências das alterações climáticas. Portanto tem toda a legitimidade para se manifestar pois quem está no poder não faz nada. Ou não faz o suficiente. Que moralidade tem alguém para criticar a causa destes miúdos? Em última análise estão a lutar pela vida.

Ele - Quem lutou e luta pela vida não é a Greta: é a Malala, que arriscou tudo na defesa do direito das miúdas paquistanesas em frequentar as escolas quando eram perseguidas ou até mortas por quererem instruir-se. Ela levou em 2015 o Governo a aprovar a primeira lei que reconhecia o direito universal à educação lá no país. Foi gravemente ferida, esteve quase à morte, mas não desistiu. Enquanto a Malala defende as meninas nas aulas, a Greta quer tirá-las de lá. Se admiro uma, não posso admirar a outra.

Ela - Que argumento mais manipulador e demagógico! Assim não dá para manter uma discussão com pés e cabeça.

Ele - Deixemos então de discutir. Queres vir ao cinema comigo? Apetecia-me ver O Irlandês.

Ela - Não está no cinema, só dá para ver na Netflix. Vai ser o meu programa para esta noite, mas sem ti. Passa bem.