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Património nacional

por Pedro Correia, em 23.07.20

 

Amália Rodrigues (1920-2020)

Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.06.20

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I

Gosto de bons títulos. E não é de agora: sempre gostei. 

Um bom título deve captar a atenção do leitor, deve atraí-lo, deve seduzi-lo. 

Se for necessário, alguém interrompe outras tarefas na azáfama de uma Redacção e concentra-se nisto até encontrar o título ideal. Por vezes, é o próprio autor do texto. Mas acontece, quase sempre, que seja um editor de caderno ou de secção. Ou até um membro da direcção com mais talento para esta função, o que nem sempre acontece. Conheci directores e subdirectores que mal sabiam fazer um título. Ou até uma simples legenda.

 

Um título bem conseguido é uma forma de mostrar consideração e apreço por quem nos lê.

Seja onde for. Também num blogue. E sempre com regras: aqui no DELITO, por exemplo, uma "regra" tácita e de adesão voluntária recomenda que um título não tenha mais de 32 batidas, incluindo espaços. Evitando assim que uma palavra salte, solitária, para uma inútil e redundante segunda linha. Nada recomendável até por motivos estéticos.

 

Quando havia mais tempo e mais gente para elaborar jornais, as pessoas organizavam-se de acordo com as suas aptidões. Havia os repórteres, que andavam quase sempre fora e ligavam a dar dicas ou a ditar entradas de notícias, e os redactores, com mais talento para a escrita, que se encarregavam da versão final dos textos.

Na hora do fecho, com a primeira página prestes a concluir, convocava-se sempre um especialista em títulos. Que podia ser alguém que nem estava munido com carteira profissional. Houve até um arquivista com especial talento para a arte de titular que acabou por tornar-se jornalista deste modo: forneceu tantas sugestões certeiras para manchetes com sucesso à equipa directiva que um dia saltou do arquivo para um lugar destacado na Redacção.

 

II

Há muito tempo que o Expresso abdicou de fazer bons títulos - criativos, chamativos, sintéticos, sem distorcer factos - e optou pela forma mais preguiçosa e previsível de titular. Aquilo a que costumo chamar "títulos de funcionário": aplica-se o molde chapa cinco e fica despachado. 

Exemplos de "títulos de funcionário": aqueles que usam e abusam de títulos de livros ou filmes ao ponto de se tornarem insuportáveis lugares-comuns. Foi o caso, durante anos, da expressão "à beira de um ataque de nervos", decalcada de um filme de Almodóvar.

Ou os que empregam locuções verbais que pela sua natureza já estão mais que vistas e gastas, incluindo as que incluem o verbo haver, o verbo ir, o verbo ser ou o verbo estar.

Ou os que recorrem até à náusea aos pronomes relativos, sobretudo o famigerado "que", quase sempre substituído com vantagem por elegantes dois pontos.

Ou os intermináveis, cheios de vírgulas e palavras inúteis, que cansam o leitor ao ponto de o dissuadirem de passar do título ao texto.

Ou, na política, os que insistem em "dar murros na mesa", em "querer" ou "não querer" ou em "disparar" contra tudo quanto mexe ou em "arrasar" seja o que for - bocejantes expressões mil vezes escritas, mil vez lidas, ao ponto da saturação total. E reveladoras de uma confrangedora pobreza lexical nestes tempos de galopante supressão de vocábulos, condenados à extinção pela iliteracia dominante.

 

Basta-me folhear a mais recente edição do Expresso para encontrar "títulos de funcionário". 

Eis alguns: «Vai começar uma "revolução científica" no Vale do Côa»; «Portugal vai ter mais um centro para refugiados»; «Emergência social dispara em 2 meses»; «Tempo arrasa agricultura»; «Merkel quer resposta rápida»; «Costa quer entendimento à esquerda até 2023»; «Marcelo não quer público nos jogos da Champions»; «Comércio quer aumentar lotação, DGS recusa, "neste momento"».

Isto já para não falar dos títulos incompreensíveis. Deixo uns exemplos, também colhidos desta edição: «Fusão junta SRS Advogados e AAA» (na primeira página); «Leão adia LEO para 2023»; «Avança inquérito sobre origem etnicorracial dos portugueses»

 

III

Mas, felizmente, há excepções. E a que aqui trago é bem honrosa: refiro-me ao título de capa da revista do próprio Expresso, nesta sua mais recente edição. Sob o rosto de Amália Rodrigues no auge da carreira, comprovando a prodigiosa fotogenia da grande diva do fado, nascida vai fazer cem anos. 

«Amália - Nem chegaste a partir» - eis o título-legenda. Justo, conciso e feliz. Quase um verso. Aliás, é mesmo um verso, extraído da letra que David Mourão-Ferreira escreveu para o Barco Negro, a que ela deu expressão eterna: «Eu sei, meu amor, / Que nem chegaste a partir / Pois tudo em meu redor / Me diz que estás sempre comigo.»

 

Para atingir este clímax não basta conhecer todas as potencialidades do nosso belo idioma, tão cheio de ambiguidades e cambiantes, tão vocacionado para uma ampla gama de vocalizações, tão propício a ser cantado. É preciso também ter cultura e conhecer a fundo o tema sobre o qual se escreve.

Sendo o jornalismo uma actividade cuja carpintaria se desenvolve com frequência no anonimato das salas de trabalho, ignoro a quem devemos, enquanto leitores, este título tão digno de elogio. Mas foi seguramente alguém que leu com muita atenção o primeiro dos três textos que justificam esta capa. Um texto de Jorge Calado que vivamente recomendo, em que o autor equipara Amália a Maria Callas e Ella Fitzgerald, convicto de que ela «habita o panteão das maiores vozes do século XX»

Porquê? «Amália ampliava as vogais, arrastava as consoantes, esticava a linha vocal sem a partir, antes percorrendo todas as notas intermédias num alucinante legato cromático que nos deixava estupefactos e em transe, como ela.» E cá surge a referência explícita à canção que ela estreou no filme francês Os Amantes do Tejo, rodado em Lisboa: «Ouça-se, por exemplo, o que Amália faz com a palavra "loucas", do Barco Negro (em que virou do avesso a Mãe Preta, de Maria da Conceição), e a seguir compare-se com o "Amami, Alfredo" da Callas em La Traviata

 

Felizmente ainda surge por vezes um texto que basta, só por si, para nos levar a comprar um jornal sem arrependimentos. É o caso deste, que bem justifica o belo título que lhe serve de chamariz.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 06.10.14

 

 

 Uma Noite em Casa de Amália, de Filipe La Féria

Teatro

(edição Chiado Editora, 2013)

Amália, Estrela, Inês

por Pedro Correia, em 23.06.09

 

A Maria Inês de Almeida estava muito satisfeita - e tinha bons motivos para isso. A sessão de lançamento do seu livro sobre Amália Rodrigues - quando a obra já vai na segunda edição - foi um sucesso. Sei do que falo: acabo de vir de lá. Sala cheia, no último piso do Corte Inglês, em Lisboa, para esta apresentação da obra, a cargo de Herman José, que lembrou vários episódios da vida de Amália com o bom humor que lhe conhecemos. Lá vi gente da política, como Miguel Relvas e Nogueira Leite. E do jornalismo, como Bessa Tavares e Ribeiro Cardoso. E do espectáculo, como Jorge Fernando (que foi guitarrista de Amália), Júlio César e a bela Ana Moura. E, claro, também gente da blogosfera, como o Duarte Calvão, o Nuno Ramos de Almeida e as nossas Cristina Ferreira de Almeida e Teresa Ribeiro. O Corta-Fitas, onde a Maria Inês milita, compareceu em peso (Francisco Almeida Leite, Luís Naves, Nilton...). Manuel Fonseca, o editor da Guerra & Paz, tem motivos para estar satisfeito: Os Meus 30 Anos com Amália, relatos de Estrela Carvas (que foi secretária da diva do fado) passados à escrita pela Maria Inês, reúne todos os ingredientes para ser um sucesso. Convém sublinhar que Amália Rodrigues morreu há quase dez anos - assinalam-se a 6 de Outubro. Como o tempo passa...

A reboque

por Ana Vidal, em 17.05.09

 

Já disse aqui o que penso desta coisa que apareceu este ano, chamada Projecto Amália Hoje. Não vou repetir-me. Mas hoje vi os meninos do "projecto" em palco - nos Globos de Ouro da SIC - cheios de uma importância que nunca terão, embandeirando em arco numa homenagem à sua musa. Ou, mais exactamente, àquela que lhes vai permitir, a reboque do seu nome, vender muitos discos e cassetes piratas.

 

Engoli em seco e sustive a respiração, à espera de que aquilo acabasse. Findo o suplício, ainda abananada mas já quase refeita da agressão, veio o golpe de misericórdia na voz da bela Bárbara. Exibindo o seu mais hollywoodesco sorriso, comovida, brindou a plateia com esta espantosa frase:

 

"São momentos destes que levam Amália para a intemporalidade."

 

Tirem-me daqui.

 

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Amália Ontem

por Ana Vidal, em 07.05.09

 

Acabei de ouvir uma coisa que dá pelo nome pomposo de "Amália Hoje", e fiquei siderada. Não consigo chamar-lhe outra coisa que não seja uma "coisa". É tão mau que dói. Os melhores temas de Amália (a de ontem, a de sempre) são barbaramente assassinados por um trio modernaço, que ainda por cima tem o topete de dizer, no comunicado de apresentação do cd, entre outras solenes enormidades: "(...) atrás das letras, do tom triste e melancólico, havia melodias, que queriam mais espaço que umas tristes duas guitarras". O resto é no mesmo tom altivo e pateta, além de profundamente desconhecedor do que significa Amália, o Fado e a guitarra portuguesa. Para esta gente, só a música pop tem valor.

 

Em "Foi Deus", agora travestido de pop, até a letra está adulterada, ou a vocalista enganou-se e achou que não valia a pena emendar. Canta: "E deus-me esta voz a mim"... Se por acaso é um trocadilho propositado, então, nem classifico.

 

Não me tomem por velho do Restelo: sou pelas fusões e experimentalismos na música, incluindo o Fado. E até penso que a Amália, que tanto inovou e provocou no seu tempo, acharia a maior graça a essas fusões.  Mas o mínimo que se exige é qualidade, palavra que não se aplica a esta "coisa". Ou se inova com qualidade ou é melhor estar quieto, e estes três não tiveram talento para ficar quietos. Só tiveram pretensiosismo e mau gosto. É pena. Resta-me esperar que o ruído deste gift envenenado não chegue ao Panteão.

 

Nota: Parece que não estou sozinha nesta tristeza. Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, pelo menos, também não gostaram.

 

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