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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

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Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

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Digerindo o relatório da OMS

por Teresa Ribeiro, em 30.10.15

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Nada disto é novidade. Notícia foi a OMS tê-lo assumido, contra o poderosíssimo lobby dos produtores de carne. Chapeau!

Não li o relatório e através dos media não apurei o principal. E o principal seria saber quanta carne se pode consumir sem arriscar um cancro. Um bife, duas vezes por semana, pode ser? Um cozido só no pino do Inverno e de 15 em 15 dias é razoável? 

A moderação, sobretudo num tempo em que praticamente nada do que se consome para alimentação é isento de contraindicações, é tudo. 

Dito isto, o alerta da OMS pode suscitar alarmismos se não convenientemente enquadrado, mas tem o grande mérito de nos chamar a atenção para a percentagem de carne que a nossa cultura alimentar nos coloca no prato. Com ou sem cancro no horizonte, comê-la quase todos os dias é uma escolha que nos é induzida pela indústria, que está sempre atenta às nossas necessidades e fraquezas. Necessidade, temos sempre a de poupar tempo. Fraqueza temos a da preguiça de cultivarmos hábitos mais saudáveis, mas que dão trabalho. Da sandes de fiambre, à bifana, passando pela empada de galinha e o icónico hamburguer, é de carne que se fazem quase todos os expedientes a que recorremos para saciarmos a fome sem grandes maçadas.  

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Proibido comer

por José Gomes André, em 21.11.14

O nutricionismo é uma notável invenção do século XX, mas corre o risco de ser uma praga do século XXI. À força de sermos todos muito saudáveis, e de dosearmos e seleccionarmos os produtos ideais para a nossa dieta quotidiana,tomámos a via sacra do niilismo alimentício. Não há um santo dia em que não apareça um programa televisivo, um debate na rádio, ou uma reportagem no jornal sobre os “malefícios” de uma dieta “inadequada”, inevitavelmente acompanhados de uma lista de “produtos a evitar”. E é aqui que reside o busílis da questão.
Os doces têm muito açúcar. O pão engorda. O azeite e a manteiga aumentam o colesterol. O leite pode causar pedras nos rins. Os iogurtes e as natas também. Os frutos secos têm valores calóricos excessivos. Os legumes provocam soltura e, em alguns casos, diarreia. Os ovos podem estar contaminados por salmonelas. Enchidos e salgados, é melhor nem falar. Pastelaria diversa? Voltamos ao início. As carnes vermelhas têm demasiada gordura. A das vacas pode estar louca. Mas, pelo sim, pelo não, é melhor evitar frango e peru, por causa da gripe das aves. Fruta verde faz mal aos intestinos. Grão, feijão, ervilhas e castanhas são de difícil digestão: abstenha-se. Azeitonas e ameixas? Hemorróidas. A comida japonesa – aparentemente uma boa alternativa – tem níveis excessivos de mercúrio (e isso não pode ser bom). O arroz branco tem falta de nutrientes. E por causa da concentração de gordura, os fritos são um horror; os assados fazem crescer a conta do gás e os grelhados enchem a casa de fumo.
A continuar assim, ainda acabamos todos a comer raízes.

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Estranhos víveres

por Teresa Ribeiro, em 17.06.13

Os talos dos agriões, antes tenros e delgados, agora concorrem com os das nabiças, que por sua vez apresentam folhas tão largas e tão espessas que mais parecem as das couves, embora a sua configuração menos recortada e longilínea lembre a dos espinafres. As alfaces também mudaram de aspecto. Tornaram-se enormes e de folha grossa. Os morangos estão cada vez maiores e as maçãs, muito polidas, dobraram o volume. As nêsperas, as ameixas e os pêssegos  cresceram, mas à razão inversa do seu perfume e sabor. Fora do frigorífico não aguentam mais de dois dias. Algumas espécies de fruta desapareceram. Lembro-me que quando era miúda me deliciava com as pêras pérola e as carapinheiras, de sabor tão característico, hoje praticamente extintas.

O feijão verde alargou e já nem lembro em que época do ano chegava aos mercados quando apenas se consumia o que a terra dava em cada estação. As cebolas, por exemplo, já não são as mesmas. Apodrecem com manha. Por fora perfeitas e nas camadas interiores putrefactas. As batatas também  enganam. Muitas parecem sãs mas estão pôdres. Diz que é dos químicos. Até o pão já leva aditivos, por isso é que no dia seguinte se transforma numa borracha inodora.

Se os produtos da terra mudaram, dos alimentos de origem animal é melhor nem falar. Os ovos andam estranhos, demasiado quebradiços e com corantes a pintar as gemas. O peixe, contaminado pela poluição das águas, não se recomenda. O melhor é consumir o de plástico, alimentado a ração. A carne, já se sabe, provém de animais criados à pressão, sob stress tão intenso desde que nascem até que morrem que só podem sofrer de grandes perturbações. Alimentamo-nos pois de animais loucos, a que dão antibióticos para se aguentarem dentro dos padrões considerados próprios para consumo até ao dia do abate.

Ingeridos diariamente mesmo que em pequenas doses ao fim de umas décadas os químicos às vezes viram químio. Há cada vez mais informação sobre isto.

Chamam-lhes frescos no supermercado, para distingui-los dos produtos embalados. Frescos como a indústria que os pôs.

 

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