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O País do trabalho sem direitos

por Pedro Correia, em 17.07.19

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Férias no Algarve. São 18.30 quando chego a um dos meus restaurantes favoritos, sem marcação prévia. Em busca do peixe bem grelhado de que tanto gosto. 

Atende-me um empregado que bem conheço. Hoje [ontem] parece-me pouco satisfeito.

- Que se passa? - pergunto.

- Falta de folgas. Cansaço. Dias após dias sem folgar.

- Mas ontem [segunda-feira] estiveram fechados, aliás como é costume...

- Sim, mas foi o último dia. O patrão acaba de avisar-nos que durante os próximos dois meses não teremos folgas. Até 15 de Setembro estaremos sempre a funcionar.

- E vão ter alguma compensação financeira por isso?

- Nem mais um cêntimo. É pegar ou largar, disse ele.

- E ele nega-vos mesmo a folga semanal?

- Sim. Ainda tentámos que no desse meia folga, ao menos isso. Mas recusou.

 

Eis um quadro que se vai multiplicando por esse Algarve fora. Acumulam-se os clientes, acumula-se a receita, acumulam-se os lucros - e diminuem os direitos dos trabalhadores, a começar pelo mais básico: o direito ao descanso.

Até Deus, que é omnipotente, descansou ao sétimo dia. Estas entidades patronais, julgando-se num mundo em que são elas a ditar as leis, arrogam-se no direito de explorar até ao tutano quem lhes presta serviço. É o caso deste restaurante, que tem um número fixo de empregados: em vez de reforçar os quadros nos meses de maior afluência de público, adequando a oferta à procura com o recrutamento de trabalhadores temporários, estica ao máximo os recursos de que dispõe, insuficientes nesta quadra, negando-lhes contrapartidas remuneratórias ou as mais que justas folgas de compensação.

Às sete da tarde, as duas salas estão cheias e começa a formar-se fila à porta para jantar. Os empregados correm de mesa em mesa: já ao almoço ocorreu algo semelhante e terão pelo menos mais três horas seguidas neste ritmo frenético.

 

Não é difícil fazer uma estimativa perante tal afluência, multiplicando comensais diários por custo médio de refeição: a meio da semana, neste estabelecimento, já a despesa estará coberta. A partir daí, tudo é lucro. O problema é que estes patrões - que adoram intitular-se "empresários" - mostram pressa em matar a galinha dos ovos de ouro. São cada vez mais frequentes os casos de cozinheiros e empregados de mesa que, cansados de tanta exigência a tão baixo preço, procuram vias profissionais alternativas. 

Tenho um amigo, proprietário de três restaurantes em Lisboa sempre cheios, que se queixa disto mesmo:

- Eles deixam de aparecer, muitas vezes nem avisam. Temos de improvisar tudo, transferindo pessoal de um estabelecimento para outro às vezes em cima da hora de abertura.

- Porque é que vocês não lhes pagam mais? - indago.

- Eh pá, sabes, a vida está difícil para todos...

 

Segue-se o habitual rosário de queixumes da parte de quem prospera a olhos vistos mas só pretende dividir escassas migalhas desses dividendos. Em Lisboa como no Algarve.

Mesmo em férias, vou pensando: eis o País que não mora nas estatísticas nem na propaganda do "Portugal positivo". O País do lucro máximo de alguns à custa dos direitos mínimos de muitos. O País onde é possível trabalhar dois meses sem sequer meio dia de folga diária, quase em regime de servidão feudal. O País do trabalho sem direitos a que partidos que tanto invocam a "classe trabalhadora", como o BE e o PCP, fecham os olhos neste quarto ano contínuo de "geringonça".

Foi para subsidiar patrões como estes que o Governo Costa/Centeno decretou logo no início uma das medidas mais demagógicas de que há memória em anos recentes: a redução da taxa do IVA na restauração. Os restaurantes não baixaram preços nem recrutaram gente: limitaram-se a ampliar as margens de lucro. Enquanto o Estado via diminuir quase 400 milhões de euros a receita fiscal neste sector, que logo tratou de compensar por outras vias, esmifrando os do costume - nós, os contribuintes - com a maior carga tributária de sempre: 35,4% do produto interno bruto.

 

Pela primeira vez, confesso, não apreciei o peixe grelhado que comi aqui.

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Nestas minhas férias algarvias

por Pedro Correia, em 19.06.19

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Almoço no Pezinhos n' Areia (Praia Verde, Castro Marim)

 

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Jantar na Noélia (Cabanas, Tavira)

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Poetisa, pitonisa

por Pedro Correia, em 20.03.19

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Eis-me em Lagos. E a caminho da Meia Praia, num final de Inverno que mais parece início de Verão, deparo com esta placa. Homenageando justamente uma das maiores escritoras portuguesas de todos os tempos. E também justamente aqui, pois Sophia está profundamente ligada a Lagos, onde compôs alguns dos seus mais belos poemas.

Gosto desta homenagem. E gosto também que a placa toponímica a designe por "poetisa", reabilitando assim este belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa - que em certos casos deriva para obsessão ideológica - de esbater diferenças de género. 

Há palavras que me tocam muito. Uma delas é precisamente poetisa - que rima com pitonisa. Agrada-me vê-la exposta a quem passa, nesta Rua Sophia de Mello Breyner Andresen, em Lagos. Onde hoje vejo «a luz mais que pura sobre a terra seca», como a autora do Livro Sexto escreveu, aqui bem perto, há mais de meio século. 

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Um país de artistas sem igual

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.07.18

"Apesar de não haver, no currículo de Luís Gomes a indicação de trabalho que o classifique para este projecto, a Câmara Municipal de Faro garante que o trabalho que desenvolveu enquanto edil da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António mostram que "é alguém sem igual na questão do planeamento e urbanismo""

 

Sim, concordo, "é alguém sem igual". Basta ver o vídeo, ouvir a música e apreciar o estilo. 

Espero que depois o Presidente da Câmara Municipal de Faro não se esqueça de organizar uma bacalhoada e mandar um convite a Rui Rio. Ele adora o género.

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Carlos Silva e Sousa

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.18

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 (créditos: Sul Informação)

Esta tarde, no final de mais uma viagem, entrei no terminal do aeroporto e desactivei o modo de voo. Liguei o telemóvel e a notícia caiu de chofre. Fulminante como um raio vindo sabe-se lá de onde. Desta vez não houve tempo para nada. Nem um abraço. Apenas distância.

Conheci-o por intermédio de um casal de amigos comuns que haviam sido seus contemporâneos em Coimbra, na Faculdade de Direito. Há muito que me falavam dele, mas nunca se proporcionara. E quando nos conhecemos foi pelas razões mais estúpidas.

Eu era arguido. Um fulano que exercia (ou exerce) funções no MP, usando o seu soslaio olhar, formalmente correctíssimo, deduzira contra mim uma acusação. Devido ao modo, note-se, como o mandato fora exercido num processo findo. Por puro acinte, o que quem gere a corporação na altura não conseguiu vislumbrar. Não sei se ainda será assim, mas naquele tempo aconteceu.

Daquela vez calhara-me a mim. Acusado de difamação, se bem me recordo. Na contestação, como se impunha, mais a mais estando em causa um fulano que fora acusado de desde a década de Oitenta — altura em que teria aí uns cinco anos de idade — ter participado na constituição de uma associação criminosa, eu fora duro para com a instituição a que ele pertencia, verberara o simulacro de investigação que havia sido conduzido pelas polícias e, como não podia deixar de ser, fora contundente durante o julgamento para com quem patrocinara aquele espectáculo. Quando esse julgamento chegou ao fim, e o meu constituinte foi absolvido das magnas acusações que sobre si impendiam, sobrou para mim.

Houve quem tomando as dores de terceiros se tivesse queixado, para assim se desencadear o processo contra mim, o advogado. E eu lá tive que me ir defender, entrar em despesas, incómodos e chatices, pois claro.

De imediato recebi o apoio do então Bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, logo depois seguido pelo do seu sucessor. E no meu julgamento lá estiveram arroladas como testemunhas, entre outras, um magistrado do MP, entretanto jubilado, aquele que foi o juiz-presidente do tribunal colectivo no tal julgamento do sujeito que fora o meu constituinte — que foi lá para dizer que sim, que era verdade, que eu tinha sido advogado naquele processo, que o meu constituinte fora absolvido e que o vertido nas peças processuais, onde descobriram a pretensa ofensa depois do processo concluído, até fora depois confirmado no acórdão final —, mais o presidente do Conselho Distrital de Faro da Ordem dos Advogados, o meu estimado António Cabrita, e mais uns quantos, entre companheiros de profissão, colegas de curso e amigos.

No dia das alegações finais o senhor procurador que me acusara resolveu não aparecer. Envergonhou-se. Quem veio em representação do MP foi um magistrado mais jovem, novo na comarca, que não acompanhara o processo nem o julgamento, mas que tendo lido o processo e sabendo da prova que havia sido produzida teve a hombridade de pedir logo a minha absolvição. Fui, evidentemente, absolvido. E na sentença lá estava, preto no branco, a afirmação de que fizera, é certo, uma defesa veemente, dentro dos limites, respeitando escrupulosamente as regras deontológicas, actuando como qualquer “bom advogado” se comportaria se colocado perante a mesma situação. Isto é, perante a falsidade, o agravo, em suma, fazendo um uso adequado da toga e dos instrumentos jurídicos, pugnando pela justiça, com arrojo, com dignidade, com frontalidade.

Naturalmente que fiquei satisfeito com o que se apurou. E com dúvidas não fiquei de que, apesar das despesas e dos incómodos por que passei, essa decisão honrou a magistratura portuguesa, reconhecendo o profissionalismo e a seriedade do mandato exercido.

O meu advogado nesse processo, logo a seguir à instrução e por impedimento do primeiro mandatário e nosso comum amigo que o indicara, acabou por ser o Carlos Silva e Sousa, que embora acompanhado pelo Paulo Freitas fez todo o julgamento e as alegações finais. Podia perfeitamente ter recusado o patrocínio. E tinha todas as razões para isso. Era um homem muito ocupado, com uma vida profissional intensíssima, desdobrando-se entre o trabalho no escritório, no partido e na autarquia, sem esquecer os assuntos ligados ao(s) consulado(s). Além de que na altura não me conhecia de lado nenhum e o processo era uma estopada. Nem no dia da leitura da sentença me deixou pagar-lhe o almoço.

Graças a esse episódio por que passei — triste no início, feliz na conclusão — ficámos amigos. Depois disso fiz vários julgamentos em Albufeira. O Carlos tinha aí o seu escritório, do outro lado do Tribunal e da Câmara Municipal. Na altura, creio, já era também o Presidente da Assembleia Municipal. Não obstante, estive com ele muitas vezes. Arranjou sempre tempo para tomar um café comigo, para dois dedos de conversa, para discutir a actualidade política, muito embora soubesse que eu na altura era activo numa agremiação concorrente. Comentava, ria-se, piscava o olho, puxava de um cigarro. E sorria, o Carlos sorria muito, serenamente (entre homens de bem não é a política nem o futebol que os separa porque o carácter é mais forte, é o carácter que os motiva e cria laços).

Foi assim com o Carlos Silva e Sousa. Falou-me dos seus vinhos, das propriedades para os lados de Tavira e da Fuzeta, do processo de regeneração das vinhas, do seu amor à terra e ao que esta produzia, do seu gosto em andar de botas aos fins-de-semana, campo fora, sem preocupações, sentindo os cheiros que chegavam avermelhados na imensidão do azul e da serra. O Carlos Silva e Sousa produziu alguns magníficos néctares. Um dia encontrei-o num pequeno expositor da Feira de São Brás, promovendo os vinhos que ele próprio produzia. Lá estivemos à conversa. Perguntava-me pelos amigos comuns que não via há anos. Comprei-lhe umas caixas de vinho, que o filho me ajudou a transportar até ao carro. Ficámos de combinar uma almoçarada, na quinta dele, com mais alguns. Acabou por nunca se proporcionar.

Ainda nos encontrámos nalgumas outras ocasiões. Tomávamos um café, às vezes, quando eu ia a Albufeira, subia a escada, do outro lado da rua, e passava pelo escritório dele. Ocupado como era raramente estava. E eu também não podia ficar à espera. Falávamos à distância. O abraço ficava adiado. Até hoje. Quando me chegou a notícia do seu falecimento.

O Carlos Silva e Sousa era um tipo de uma correcção extrema, com um humor corrosivo, de sorriso sempre aberto, de uma disponibilidade total para o trabalho, aliando a argúcia e a inteligência do advogado com o equilíbrio e o bom senso dos bons juízes, talvez fruto da herança paterna. Hoje perdemos todos. O Algarve perdeu um cidadão exemplar. E eu fiquei a dever um abraço ao Carlos Silva e Sousa. Um abraço fraterno. De gratidão. A um homem de bem. Um grande abraço.

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José César

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.01.18

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Quando eu era miúdo, a minha Mãe metia-me no comboio, no final de cada ano lectivo, e ele esperava por mim em Faro, para me levar para uns dias de férias junto ao mar. Isso foi no tempo em que a Ilha de Tavira não tinha campistas, nem parques de campismo, não havia rádios aos altos berros, nem restaurantes de hambúrgueres. Os pais dele tinham uma casa na ilha. Como marinheiro que fora, embarcado e com várias voltas ao mundo na "Sagres", levou-me a velejar e à pesca. Foi com ele que apanhei salmonetes à noite, burriés, e mergulhei pela primeira vez no azul profundo do Algarve. Deu-me a conhecer a Meia Praia, Santa Luzia, as Quatro Águas, Sagres. Tantos locais, tantos mares que para mim eram novidade. Foi logo no primeiro Verão a seguir ao 25 de Abril. Depois continuou nos anos seguintes. Uma vez, à noite, enquanto os adultos jantavam, fui mordido por um cão pastor dos Pirenéus. Quis fazer do bicho cavalo e ele não gostou. Levou-me de chata pela ria, até Tavira, para uma freira me coser. Dessa vez passei o resto das férias de castigo, de perna e braço entrapados. Via-me jogar futebol na praia, todos os dias, com os mais velhos, achava-me graça, e por causa disso passou a tratar-me por "Beckenbauer", em homenagem à grande estrela da selecção alemã e do Bayern de Munique. Eu sempre achei que seria mais o velho Müller, ou o Eusébio, pois gostava de marcar golos. Para mim, no início da minha adolescência, ele era uma espécie de Jacques Cousteau com sotaque algarvio, com a pele muito tisnada. Conhecia toda a gente, miúdas giras, todos o conheciam. "Agora vamos ali tomar um café, vou apresentar-te um borrachinho!". O "borrachinho" tinha mais vinte anos do que eu. Elas riam-se e ele gozava com a minha timidez. Foi ele que me apresentou o Dentinho e o Brito da Mana. Eram parceiros no mergulho. Eu era o primo. Tomava conta do barco e das garrafas de mergulho. Nesse tempo, ele fazia de tudo um pouco, um verdadeiro artista. Cozinhava, decorava cafés, pintava painéis, quadros, fazia barcos em miniatura. Ainda era casado com uma prima minha, que entretanto partiu e de quem, por força de circunstâncias várias, viria a divorciar-se. Já  a viver com outra pessoa disse-me que fora casado com uma senhora. Gostava muito dela. E tinha um Giannini 1000, de cor roxa, com uma risca branca a meio, carro que comprara ao Cônsul do Reino Unido no Algarve. E também um MG branco, descapotável, com o qual os dois fazíamos a EN125 entre Faro e Tavira. Às vezes, já adulto e a viver fora de Portugal, encontrava-o em casa da minha Mãe. Aparecia nos aniversários dela. Estive muitos anos sem ir ao Algarve, décadas, deixei de o ver, de com ele conviver. Um dia regressei ao Algarve. Acabei por ir viver para Faro, reencontrei-o. Tratou de me fazer o papel e os novos cartões de visita na tipografia onde estava a trabalhar. Ainda estivemos juntos algumas vezes, mas já então era um homem triste, muito diferente daquele que conheci. E tínhamos vidas e interesses diferentes. A vida tinha-lhe pregado algumas partidas. Só vestia de preto e branco, usava um brinco de ouro, como os piratas, e a aliança no polegar. Um excêntrico bem educado, simpático, com um incrível sentido de humor, que pintava, decorava e também gostava de poesia, chegando inclusivamente a publicar alguns livros, na esteira da senhora sua Mãe, poetisa algarvia. Ainda me ofereceu dois com dedicatória. Nos últimos anos andava adoentado, mal dos olhos, e ia de quando em vez a Coimbra. Para "fazer a revisão", como ele me dizia sempre com algum humor quando me encontrava junto à Pontinha. Nos últimos anos perdemos o contacto. Víamo-nos de quando em vez, sempre ali para os lados da Rua de Santo António. Perguntava-me pelo Alfa e pelos tios. Tínhamos vidas diferentes. Também ele foi, à sua maneira, um homem livre. Nunca lhe pagarei os dias e noites de liberdade que me proporcionou, nem a forma como me deu a conhecer o mar do Algarve e a Ria Formosa. Soube há pouco que a vida voltou a pregar-lhe mais uma partida. Foi a última. O José César faleceu ontem a caminho de Coimbra. Tiveram de parar o comboio. Em Santiago do Cacém. Já não chegou a tempo de mais uma revisão. Oxalá que tenham para ele, lá em cima, um lugar com vista para o areal da praia de Faro. E para a ria. Para que ele possa continuar a ver o Sol esconder-se todas as tardes, vermelho fogo, para os lados do Ancão. Ele merece-o.

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Neve no Algarve

por Rui Rocha, em 19.01.17

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Postais de Portugal

por Pedro Correia, em 06.10.14

 

Santa Luzia, sotavento algarvio, 1 de Outubro

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Para encher a barriga

por Pedro Correia, em 29.06.14

 

Manhã muito cedo, já o pescador veio aviado. Traz um carregamento de peixe que vai amanhando e atirando para um grande balde. Com gestos mecânicos e expeditos, serve-se da faca para lhes retirar as vísceras, que deposita ali, nas águas plácidas da ria. As incisões são feitas a bom ritmo e com precisão cirúrgica: não tarda, o balde vai enchendo.

O homem prossegue a tarefa, imperturbável. Está descalço, de pés plantados na ria, calças de ganga arregaçadas. Esquarteja ferreiras e besugos que daqui a poucas horas estarão estendidos nas grelhas.

O sol já se ergueu acima da linha dos telhados, o calor aumenta, a faca prossegue o seu curso na mão direita do homem, seco e tisnado. Há um frenesim de gaivotas em seu redor: disputam as vísceras dos peixes numa atmosfera de solene algazarra. As mais possantes afastam a concorrência à força de bicadas, o alarido de umas depressa atrai as atenções de outras que logo se aproximam.

Mas não parece haver necessidade de lutas: o petisco chega para todas.

 

Da marginal de Cabanas, uma senhora pergunta ao pescador a como lhe vende o peixe. O homem informa-a sem sequer a olhar nem abrandar o ritmo: extrai as entranhas, lava o peixe e atira-o para o balde.

A senhora aproxima-se, interessada, já de nota na mão.

"Eu quero aquele maior para encher a barriga", diz-lhe, apontando com o dedo. O peixe recém-pescado salta do balde para um saco de plástico em poucos segundos. O homem prossegue o seu labor, imperturbável. As gaivotas navegam à sua volta, como se fossem patos num inquieto alvoroço. A senhora regressa à marginal em passo pausado por força conjugada da idade e do calor.

Espreita o saco: o peixe é grande. O almoço de hoje está garantido, amanhã logo se vê.

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 06.08.13

"Uma praga de melgas está a perturbar as férias dos turistas na zona de Armação de Pera, no Algarve. Os insectos surgem normalmente à noite e estão a suscitar queixas quer dos turistas quer dos próprios empresários e comerciantes. Queixas enviadas tanto para as autarquias como para as autoridades da saúde."

Lançamento de uma notícia que hoje preencheu sete minutos do Jornal da Tarde, da RTP

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Tavira, Verão de 2013

por Pedro Correia, em 07.07.13

 

Rolas, andorinhas e pardais, à vez, vêm beber à borda da piscina. O calor é tanto que, mesmo antes de a manhã chegar a meio, só conseguimos estar à sombra: à falta de guarda-sóis, servem as palmeiras, substituindo-as com vantagem. Miúdos de várias nacionalidades, esquecidos por momentos dos gadgets electrónicos, brincam como sempre as crianças brincaram: correm, saltam, riam, jogam à bola, ensaiam movimentos ritmados de natação. "Agarra-te aos pelos do peito do pai", diz alguém. E todos riem.

 

Duas senhoras exercitam a antiquíssima arte da conversa, ao recato da sombra: "Então a sua menina como está?"; "Muito bem, por enquanto muito bem." Tão português, tão cauto e previdente, este "por enquanto"...

Mais adiante, uma jovem abre-se em confidências a uma amiga em tom suficientemente elevado para ser escutada nas proximidades: "Ficou chateado por eu estar na boa com ele..."

Eles e elas aparecem cada vez mais tatuados. Não tatuagens discretas, mas tão espampanantes quanto possível, em tentativas de imitação do jogador Raul Meireles e da sua mulher Ivone, presenças constantes nas páginas da imprensa tablóide. Um dia, não muito distante, haveremos de lembrar esta absurda moda como hoje lembramos os longos cabelos frisados e os bigodes à Obélix dos anos 70, paradigmas da breguice tuga.

 

O calor tudo dissolve: obrigações inadiáveis, ponteiros do relógio, preocupações que sobraram dos meses precedentes. Aguardamos por ele todos os anos - mas desta vez já o ansiávamos com alguma impaciência após a maratona de um Inverno que parecia não ter fim.

Como os primeiros figos do ano - as saudades que eu já tinha deles. Logo à noite, na Noélia, virá para a mesa um arroz de limão com corvina e amêijoas: carne não entra nestes menus algarvios.

Muitos franceses, alguns ingleses e alemães, mas desta vez quase não vejo espanhóis: na vizinha Andaluzia o desemprego já se situa nos 37% e há dois terços de jovens sem trabalho.

Apesar da crise - ou por causa dela - a Olá lançou cinco novos sabores do seu Magnum para este Verão. Falta-me só experimentar um. Até ao momento, o meu favorito é o de merengue e frutos silvestres.

 

 

Basta dar uma olhada em redor para se perceber que o livro electrónico vai ganhando terreno acelerado ao formato tradicional - serve, desde logo, para ocupar menos lugar na mala. Conservador, prefiro a leitura em papel: acabo de ler Amantes e Inimigos, um delicioso volume de contos de Rosa Montero.

Quatro estrangeiros em redor de uma mesa no bar junto à piscina: todos em silêncio, cada qual mergulhado no seu iPad. Dizia o resmungão Nelson Rodrigues, numa das mais saborosas frases que conheço em língua portuguesa: "A televisão matou a janela." Parafraseando o mestre, concluo que a vida virtual vai matando a vida real.

Um brinde desta fresquíssima sangria branca às senhoras que vão praticando a arte da conversa. Elas não sabem, mas são já uma espécie em vias de extinção.

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Cabanas, 28 de Abril

por Pedro Correia, em 28.04.13

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado "duas sopinhas" e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. "O Arbeloa está lesionado mas o Messi não", argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português - o futebolístico - já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs...

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

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De regresso a Tavira

por Pedro Correia, em 06.06.12

 

O Vela 2 - um dos raros restaurantes realmente capazes de transformar o peixe grelhado em genuína arte culinária - transferiu-se para uma aldeia das redondezas. A livraria Quinito - onde comprei tantas obras que me proporcionaram excelentes leituras de Verão - fechou as portas e é hoje um espaço dolorosamente vazio, com placas assinalando que está para arrendar. Há mais de 20 igrejas mas continuam misteriosamente fechadas quase todo o tempo, ao que me dizem não só por falta de fiéis mas também por falta de padres: só uma vez consegui entrar na de São Paulo, na praça Dr. António Padinha, e gostei muito da visita.

Além disso o tempo tem estado nublado. Mas mesmo assim Tavira continua a ser um dos meus destinos de eleição. E nesta época mais ainda, longe das aglomerações turísticas. Há espaço para todos, há tempo para tudo. Para subir ao castelo e de lá desfrutar um panorama incomparável. Para apreciar o restauro do antigo convento das Bernardas. Para comer uma excelente corvina de cebolada no mesmo restaurante de bairro onde faço sempre questão de regressar. Para saborear os melhores sorvetes que conheço, na geladaria do jardim. Para beber um sumo de laranja no Mercado da Ribeira. Para dar um pulo a Cabanas (na foto) e regressar a bordo de um barco-táxi, sulcando a deslumbrante Ria Formosa até às Quatro Águas num velho barco de pesca reconfigurado nestas novas funções.

Há muito cessaram as campanhas do atum - das quais é hoje testemunha viva o arraial Ferreira Neto, agora reconvertido num excelente hotel. Impressiona ver os esqueletos ainda dignos das antigas fábricas conserveiras irremediavelmente encerradas. Restam as salinas. E vai-se fazendo alguma extracção de areia para a construção civil, que neste momento se limita a cumprir serviços mínimos. Cruzamo-nos com uma embarcação que transporta pequenos contentores. "Está ao serviço da câmara, que não deixou abater todos os barcos de pesca", informa o mestre, antigo pescador que também largou a faina.

À nossa esquerda estende-se a ilha de Tavira, onde se situam as mais deslumbrantes praias de areia da Europa - tesouro bem preservado, ao menos este.

Gosto deste refúgio. Necessito dele. Todos temos os nossos portos de abrigo. Eu, afortunado, tenho vários. Este é um dos melhores. Será meu para sempre.

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Contra os estereótipos

por Pedro Correia, em 10.08.11

 

Os jornalistas devem combater os estereótipos sempre que puderem, como dever profissional. Isto não é um princípio expresso no código deontológico dos jornalistas portugueses, que peca por inúmeras omissões, mas devia constar dele sem demora. Julgo, aliás, que os jornalistas já há muito deviam ter adoptado um código deontológico mais vasto e detalhado, que actualize o documento em vigor, aprovado há cerca de 20 anos.

Lembrei-me disto, vejam lá, a propósito do Algarve. Reparem como o Algarve é tratado nos principais órgãos de informação portugueses, incluindo os de serviço público: como um destino de praia para os outros habitantes do País. Não há um Algarve agrícola, não há um Algarve serrano, não há um Algarve fora dos postais ilustrados de sol & mar. Não há um Algarve com os problemas específicos da população que lá vive e lá trabalha, fora do sector turístico na época de Verão. Há quase só um Algarve dos forasteiros que lá vão estender a toalha nuns centímetros de areia.

Ainda neste fim de semana reparei nisto. Lá vimos a enésima reportagem televisiva a caminho de uma praia - que são quase sempre as mesmas, em Vilamoura ou Albufeira - a perguntar aos "banhistas" o que tencionam fazer se o tempo piorar. Ouviram-se, naturalmente, as mais diversas e disparatadas respostas - desde o sujeito que prefere tomar banho de mar à chuva até aos que anseiam pelo céu toldado para poderem arrastar a chinela em centros comerciais.

Há quem chame a isto "informação". Não é o meu caso. Gostava que os jornalistas debatessem esta e outras questões. Infelizmente isso não acontece - por vários motivos, desde logo devido à crescente "proletarização" desta classe profissional. Com jornalistas a trabalhar 12 horas por dia e a ganhar cerca de 700 euros líquidos ao fim de vários anos, sem a mínima perspectiva de progressão na carreira e sob a iminência de um despedimento colectivo ao menor pretexto ou de uma redução unilateral de ordenado, como agora começa a ser moda, que nível de debate e de espírito crítico pode existir numa redacção?

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Assim vai o PSD no Algarve

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.12.10

O sinal já tinha sido dado com a aprovação do orçamento e a posição tomada pelos acólitos de Alberto João Jardim na Assembleia da República.

Passos Coelho quer uma maioria absoluta. As sondagens dizem que ele caminha para lá. O PSD de Cavaco teve a sua dose. O PS de Sócrates também com resultados que me escuso de comentar.

O Presidente da República e actual candidato presidencial tem defendido a existência de maiorias absolutas como garantia de estabilidade e de governabilidade.

Estabilidade e governabilidade são duas coisas que não têm faltado ao PSD/Algarve. E, de facto, os resultados são tudo menos brilhantes, não obstante a forma mandarinal como durante décadas o Dr. Mendes Bota instruiu a sua tropa. Enquanto em Loulé se assinam protocolos de forma "totalmente transparente" com a IKEA, em Faro um ex-presidente de câmara que lá foi posto com o apoio do PSD e deixou a autarquia muito próximo do estado em que hoje se encontra, acusa Macário Correia de ser um "vendedor de ilusões". Ao mesmo tempo, em Albufeira, um presidente do PSD com maioria absoluta vê chumbadas pelo seu próprio partido as propostas que apresenta.

Não sei se teremos em Albufeira mais um caso que acabará como os de Gondomar ou Oeiras, mas se um primeiro-ministro promovesse a aprovação de um diploma pela Assembleia da República, numa situação de maioria absoluta, diploma que fosse depois rejeitado pelo seu próprio partido, que diriam Passos Coelho e Cavaco Silva?

Se são estes os exemplos que o PSD de Passos Coelho consegue dar ao País nesta fase em que ainda tenta chegar ao poder, imaginem o que será quando o Dr. Miguel Relvas começar a negociar o orçamento com o Dr. Alberto João Jardim e a distribuir os tachos que os "jotinhas" aguardam. Maioria absoluta, pois claro. 

  

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3 vezes A

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.11.10

A de Angola - Hoje é dia 11 de Novembro. Passa mais um aniversário da independência de Angola. A data não podia passar despercebida, em especial entre nós, depois da magnífica entrevista dada à TSF por Rafael Marques, um homem livre e corajoso que não hesita em dar a cara e o nome em defesa de uma cidadania justa e livre no seu país. Passado o tempo da guerra civil, iniciada a recuperação dos estropiados, e aberta uma nova página na sua história, é tempo de Angola se reabilitar. Em democracia. Não apenas na vertente externa, seja no âmbito da CPLP, das Nações Unidas ou no seio das demais nações africanas. Angola necessita urgentemente de se reabilitar internamente, muito em particular precisa de reabilitar as suas elites dirigentes. Para que o combate à fome e a erradicação da probreza, das doenças e do analfabetismo possa ter um sentido útil e não seja apenas mais uma fachada polida de um regime avesso à crítica e mais dado aos jogos de bastidores da sua diplomacia. Jamais se construirá um Estado justo e equilibrado enquanto a corrupção e o nepotismo continuarem a medrar em cada esquina, no bolso dos generais ou dos antigos combatentes que se aburguesaram protegidos pelas luzes do Futungo de Belas. Angola tem tudo para ser feliz: imenso capital humano, riquezas naturais e alegria. E se assim é, então seria bom que as suas elites dirigentes, a começar pelo seu Presidente, mostrassem que mais importantes do que as palavras são os actos genuínos e sinceros. Talvez que um bom sinal fosse começar por dar uma resposta franca e de rosto humano à carta que a Associação 27 de Maio lhe escreveu. Há gente que continua a sofrer e se o povo de Angola não é insensível a isso, então que os seus dirigentes dêem o sinal. Pode ser já hoje.

 

A de Algarve - Os noticiários e os jornais de hoje sublinham o despedimento colectivo de 336 pessoas na empresa Groundforce. Todas essas pessoas estavam ao serviço no Aeroporto de Faro. Algumas há mais de duas décadas. E sendo compreensíveis as razões avançadas pela administração da empresa, não deixa de ser estranho que só agora se tenha dado pelo colapso iminente e não se tenha anteriormente tomado as medidas que podiam ter evitado este fim. Não conheço o problema da Groundforce em particular. Sei o que todos lêem e ouvem. Mas conheço e tenho a noção da situação extremamente difícil que o Algarve atravessa. Não é só um problema de má gestão crónica de alguns dos seus empresários ou de dificuldades económicas e financeiras de conjuntura. O tecido social da região entrou, há mais de cinco anos, em desagregação, sem que ninguém em Lisboa se tenha dado conta do que se estava a passar. Foi logo a seguir ao Euro. Mesmo aqueles que se arrogam porta-vozes da região e que mais não têm feito do que se promoverem à custa desta, foram incapazes de perceber o que qualquer pessoa que andasse na rua sabia que iria acontecer. O agravamento das condições de segurança foi apenas um primeiro aviso. De nada serviu. Agora que a ministra do Trabalho, confrontada com a verdadeira dimensão da crise laboral e social que o Algarve atravessa, veio dizer que a situação ocorrida na Groundforce vai ser devidamente investigada, seria bom que também se investigassem todas aquelas situações em que as empresas recorreram a outros métodos, mais discretos, para se irem livrando do pessoal efectivo ao seu serviço. Refiro-me a extinções encapotadas de postos de trabalho e a acordos negociados individualmente com os trabalhadores, que os empurraram para o subsídio de desemprego, sendo que em muitos casos esses foram substituídos por outros, contratados a prazo ou a recibos verdes, menos qualificados para as mesmas funções. E, senhora Ministra, se ler estas linhas, há uma coisa que lhe digo: não é aceitável que uma empresa faça um acordo de rescisão amigável com um trabalhador, lhe passe os documentos para que ele se candidate ao subsídio de desemprego, com fundamento na extinção do posto de trabalho, e depois contrate um substituto. E se a ACT sabe que esse foi um expediente usado pelo patrão, não é aceitável que o Estado feche os olhos e faça de conta que a fraude a lei é um expediente legal para alguns continuarem a andar de Porsche enquanto outros não têm dinheiro para pagar a escola dos filhos. Se for necessário mexer na lei, então que se mexa de uma vez por todas e de forma clara, de maneira a que não seja depois necessário fazer um resumo em "português claro" no Diário da República. O português é por natureza claro. As sumidades é que o escurecem. 

 

A de Advogado - O debate que teve lugar no Casino da Figueira da Foz mostrou claramente as clivagens hoje existentes na advocacia portuguesa. O limbo em que a profissão se encontra, algures entre o cobrador de fraque e o paquete para todo o serviço, limbo na qual se tem desprestigiado, desvalorizado e desestruturado, muito por força dos lobbies que coexistem no seu seio e da actuação de um Estado irresponsável, aconselha uma mudança. Faço, pois, aqui e desde já, a minha declaração de interesses. Vou apoiar Fernando Fragoso Marques porque acredito que uma advocacia serena, firme, empenhada, séria e esclarecida vale mais do que mil discursos. Porque continuo a pensar que a advocacia é uma profissão de homens livres e não de assalariados de empresas ou de colegas, actuem eles a título individual ou protegidos por esses empórios especializados na publicação de brochuras coloridas e que de autarquia em autarquia vão angariando clientela, tecendo verdadeiras redes e cimentando o seu poder. Os portugueses merecem uma advocacia à altura das suas tradições de luta e intervenção cívica. E é nos momentos difíceis, nas alturas de maior crise ética e moral, nos momentos em que são desferidos os ataques mais cegos de que há memória à cidadania, ao papel do advogado numa sociedade moderna, à justiça e às magistraturas, ataques que só servem para corroer ainda mais o sistema de justiça, que se vê a fibra de um advogado. É fundamental que haja alguém que seja capaz de olhar na distância, de projectar o futuro. Depois do encontro de ontem na Figueira da Foz dissiparam-se todas as dúvidas. Fragoso Marques chegou-se à frente. É o homem com quem os advogados contam para os liderar num combate que não é apenas pela advocacia e que é cada vez mais um combate pela decência. Porque, como ele diz, a Ordem não pode continuar a perder.      

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Mais um "autarca-modelo"

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.08.10

"Segundo o despacho da juíza "o Município de Loulé não cumpriu (a suspensão das licenças provisórias) nem impediu como se lhe impunha por força de lei, que os titulares das licenças continuassem a utilizá-las".

Assim, condenou “o presidente da Câmara Municipal de Loulé no pagamento de sanção pecuniária, por cada dia de atraso para além da data em que foi notificado da decisão”.

A juiza ordenou ainda a extração de certidões do processo e envio para o Ministério Público.

Quanto ao comandante do posto da GNR de Vilamoura, foi igualmente notificado para o “cumprimento imediato da decisão” que deverá ainda ser “acatada pelos titulares das licenças, como determinado”.

 

Eu admirava-me era que uma ordem judicial tivesse sido cumprida à primeira nesse concelho. O resto da notícia está no Observatório do Algarve. É apenas mais uma, a juntar a isto e a tantas outras coisas estranhas que se passam por ali, mesmo ao lado da Festa do Pontal.

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Enquanto esperamos o nove de Setembro

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.08.10

Hoje não é fácil distinguir os sérios dos que fazem por parecer sérios.

Os sérios são normalmente sinceros, francos, discretos e, pelo menos na aparência, rigorosos. Os que fazem por parecer sérios, que correspondem ao grosso da coluna, ao lumpen que se apoderou da política, têm tendência a ser verborreicos. Alguns são bem-intencionados mas acabam por se tornar perigosos.

Jorge Miranda, numa excelente entrevista ao Expresso, e à semelhança do que já antes afirmara ao boletim de Mário Crespo, assinalou sem tibieza e com o rigor a que habituou a academia, a insensatez da proposta de revisão constitucional do PSD. A noite passada, no mesmo programa, Isabel Moreira, que foi muito atacada a propósito, e também com despropósito, em relação às posições que defendeu sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, acabou, com clareza e elegância, com o que restava da revisão constitucional de Passos Coelho.

Estranhamente, agora que o primeiro-ministro anda a banhos e o PS “contratou” um líder parlamentar barbudo, talvez chegado da Sierra Maestra, Portas continua submerso num qualquer oceano à espera que os fogos passem, enquanto Louçã se mantém, certamente, tal o silêncio, a banhos na fantástica Graciosa. Vítor Constâncio no BCE acaba por ser uma chatice para os críticos do centrão.

Mas vamos ao que interessa.

A proposta de revisão constitucional do PSD começou por ser isso mesmo, ou seja, foi anunciada como uma “proposta de revisão”. Só que horas depois passou a “projecto”. A seguir, com o passar dos minutos, virou “ante-projecto”. Enfim, alguns dias depois não passava de um conjunto de “ideias para a discussão”. Neste momento, era inevitável, não passa de um embrião. Cada vez mais uma proto-proposta.

O milando, vê-se neste momento, é que foi este o pretexto encontrado para a nova direcção do PSD arregimentar meia-dúzia de incréus, de construtores civis de confiança dependurados das promessas do líder regional algarvio e de jovens militantes à procura de emprego no furo da regionalização para os levar até ao Calçadão da Quarteira (esta gente não faz a coisa por menos). Confesso que esperava mais da festiva jornada de encerramento da campanha estival do grupo recreativo que domina o triângulo delimitado por um conhecido rodízio, o salão de baile do Naco Fino e o dito “calçadão”.

E digo propositadamente “foi” porque, sejamos claros, para desgosto de Cavaco Silva, a proposta de revisão constitucional do PSD e as suas aspirações de governo soçobraram, não nas palavras de Jorge Miranda ou Isabel Moreira, não na nebulosidade de Alcácer-Quibir, mas antes nos areais mais transparentes, sambistas e roliços da Quarteira.

Já todos perceberam que, para o eternamente jovem líder de Massamá, a proposta de revisão constitucional que o seu partido apresentou, pelos tratos que tem levado do principal proponente, está ao nível da alteração do mapa de férias de uma qualquer empresa insolvente, ansiosa por despedir os trabalhadores de baixa médica. Porém, o discurso de Passos Coelho teve uma inegável virtude, a de ser o seu primeiro discurso genuíno enquanto líder do PSD.

Genuíno na medida em que Passos Coelho foi capaz de mostrar “sentida” preocupação pela situação económica que o país atravessa. E ao mesmo tempo, foi de mestre, conviver com o silêncio sobre a eventual manutenção da ausência de portagens na Via do Infante, tema candente e reclamado pelo anfitrião e mestre-de-cerimónias, e apresentar, sem se rir, um ultimato ao Presidente da República quanto à convocação de eleições legislativas antecipadas, e um outro a José Sócrates, tendo em atenção o OGE para 2011.

Mais do que o orçamento de Estado, a situação económica do país ou a necessidade de revisão constitucional, Passos Coelho está preocupado com a perspectiva não haver eleições antecipadas nos próximos meses. E de entrar em 2011 sem qualquer perspectiva de chegar ao poder para acalmar aquela legião de comensais que luta por um lugar (e já agora um licenciamento ou um contrato) na primeira linha da manjedoura. Daí o ultimato de nove de Setembro. Pior cenário, digo eu, só mesmo o de poder vir a ser confrontado, lá para 2013, com um sósia de José Sócrates que não tenha atrás de si o lastro pestilento do Freeport, das universidades do cavaquismo, da atribuição de tenças nas empresas públicas, ou que esteja amarrado aos panfletos libertários dos infelizes e irados sindicatos das corporações que exercem vitaliciamente funções nas magistraturas da República.

Nenhum líder político sério, responsável e com aspirações se atreveria a pedir, nas actuais circunstâncias, um orçamento que (i) não aumentasse impostos, (ii) reduzisse a despesa, (iii) assegurasse reformas de fundo, (iv) contribuísse para construir um estado social mais justo, (v) reformasse a Justiça e, ainda, (vi) fizesse ultimatos ao PR e ao primeiro-ministro e conseguisse, no final, ser aplaudido no Calçadão da Quarteira pelos vorazes regionalistas do PSD/Algarve, cujos exemplos de boa gestão são facilmente descortináveis ali ao lado, em Vilamoura, num concelho onde continua a ser possível, nos intervalos das tertúlias do seu presidente da Câmara, encher de turistas um hotel de 5 estrelas, em pleno Agosto e sem licença, sem que a autarquia fosse capaz de dar por alguma coisa antes da bronca estalar na imprensa.

Por tudo isto, e com o resto da oposição a banhos, é triste verificar que Cavaco Silva é uma carta fora do baralho. Ainda que venha a ser reeleito, conseguiu a proeza de provar antes do final do primeiro mandato, o que é inédito, que foi um lamentável erro de casting, a somar a tantos outros em que este país é pródigo. O Presidente está metido numa camisa-de-forças e não é por causa das suas convicções políticas. Ao fim de quatro anos é-lhe impossível disfarçar, mais ainda aos seus defensores, a falta de visão política e de arrojo. A sua visão economicista da vida teve continuação na leitura dos poderes presidenciais. Ser boa pessoa, academicamente qualificado e arrumadinho não chega quando está em causa o futuro. Será por isso legítimo pensar que quando um Presidente da República se predispõe a assistir à vendetta da Justiça, da República e do regime, sem uma palavra (já nem digo levantar a voz), depois de se ter manifestado enxofrado pelas alterações ao Estatuto do Açores (ainda que com razão), só pode estar a pensar em cumprir nos próximos cinco anos as promessas que vai fazendo aos netos no intervalo da promulgação dos diplomas que o Governo lhe envia.

Assim sendo, Passos Coelho está de parabéns. A sua revisão está morta e enterrada. O pretexto funcionou. Ele já se pode dar ao luxo de não precisar de parecer sério. E tem agora todo o tempo do mundo para analisar os poderes das nossas rainhas de Inglaterra. Desta vez, o palco é só para ele. Ou melhor, o trono. E não se trata, naturalmente, de ser rainha, ou rei, por um dia. Até nove de Setembro Passos Coelho pode dar asas à imaginação. Depois acabou-se.

Não gostaria, contudo, de terminar estas linhas sem lhe fazer uma sugestão para quando chegar a hora de no seu partido fazerem as contas ao OGE de 2011 e tomarem uma decisão. Parafraseando o siciliano cardeal Mazarini, que sabia destas coisas como poucos, seria bom que nessa altura o líder do PSD excluísse da sua companhia os avaros. Os avaros são servis por natureza.

No Algarve, no Verão, em especial no Calçadão da Quarteira, entre duas caipirinhas, percebe-se tudo isto melhor do que em qualquer outro lugar do mundo. Pena foi que o dr. Mendes Bota não o tivesse avisado. 

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Com o mar em fundo

por Pedro Correia, em 25.07.10

 

- A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: "Já estamos no Algarve... Sim, já estamos no Algarve... no Algarve." À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.

 

- A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.

 

- O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.

 

- O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.

 

- A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica "não correu muito bem" e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.

 

- Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. "Don't do that", ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.

 

- O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.

 

- Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.

 

- No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. "Eu sou o David Villa", diz um. "Não, eu é que sou o Villa", contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.

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Noite de São João

por Pedro Correia, em 23.06.10

 

Fabulosa noite de São João. Tavira inteira parece estar na rua: largas centenas de pessoas concentram-se na Praça da República vendo desfilar as marchas. Habitantes locais, algarvios de outras paragens e turistas das mais diversas proveniências cruzam-se nas rotas amenas destas ruas. Há arraiais, uns mais organizados outros mais espontâneos. Assam-se sardinhas. As esplanadas abarrotam de gente que há meses ansiava por jantar ao ar livre.

Como uns saborosos camarões grelhados num restaurante junto ao rio. Do som da televisão chega-me a voz do primeiro-ministro, que vem agora defender a instalação de portagens nas sete auto-estradas "sem custo para o utilizador" (SCUT). Mas ressalvando que os "residentes" (residentes onde?) e os "utilizadores regulares" (com que regularidade?) ficarão isentos do pagamento, o que tresanda a monumental trapalhada. Trocando por miúdos: mais uma bandeira eleitoral que deu maioria absoluta ao Partido Socialista em 2005 acaba de ser rasgada com a mesma ligeireza e a mesma irresponsabilidade com que foi lançada. A sigla terá forçosamente de mudar: passará a ser CCUT (com custos para o utilizador).

Desinteresso-me rapidamente do telediário, concentrando-me na paisagem que tenho à minha frente. Por mais vezes que aqui venha, não me canso de contemplar este rio, hoje iluminado por uma lua quase cheia. Chega-me ao longe o som dos arraiais que não tarda a sobrepor-se ao da televisão. Os camarões estão óptimos. O Governo é péssimo, mas isso agora não me interessa nada.

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