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O voto dos emigrantes (2)

por Cristina Torrão, em 12.10.19

Enquanto não estão apurados os votos dos emigrantes para as legislativas, aqui vão mais algumas curiosidades sobre a forma como decorrem as eleições dos portugueses que vivem no estrangeiro, mais uma vez, baseada em artigos do jornal português na Alemanha PT-POST:

Contrariamente ao que eu disse neste meu postal, há voto por correspondência, embora apenas nas legislativas (nas europeias e nas presidenciais não). Ora, isto pode animar mais cidadãos a votarem, pois, pelo menos, no caso da Alemanha, não se vêem obrigados a andarem até 400 km para exercerem o seu dever cívico. Além disso, com o recenseamento automático (ao tirar, ou renovar, o Cartão do Cidadão) os números dos eleitores estão mais compostos, passaram de 300.000 recenseados para quase um milhão e meio. Até aqui, tudo bem, só boas notícias. E há mais uma: pela primeira vez, nas legislativas, havia a opção de voto presencial nos consulados, o que ajuda a poupar dinheiro e papelada.

Porém, e o nosso país não seria o mesmo sem o reverso da medalha, a opção pelo voto presencial tinha de ser comunicada até sessenta dias antes do acto eleitoral (ou seja, até 6 de Agosto). Por um lado, compreende-se. Preparar o voto por correspondência leva o seu tempo. E não fazia sentido gastar-se tempo e dinheiro com a documentação de um eleitor que deita os papeis fora, ao decidir ir votar no consulado. O problema é que esta opção não foi suficientemente divulgada. Eu, por exemplo, só o soube ao ler o jornal um ou dois dias antes das eleições.

Teria sido a falta de divulgação o motivo para que, na Europa, um universo de 402.527 eleitores, apenas vinte e quatro (24!) tivessem optado por votar nos consulados? Na Alemanha (em toda a Alemanha) foram apenas sete, no Luxemburgo três e no Reino Unido oito. Acaba por ser pior a emenda do que o soneto, pois obriga a mesas abertas nos consulados para recolher o voto de dois ou três eleitores. O caso mais caricato parece que foi o do consulado de Paris, uma situação que até põe em causa o sigilo do voto, pois apenas um eleitor optou pelo voto presencial.

Outro tema é o número fixo de deputados, não sujeito a correcções dependentes da evolução da população eleitora. Mesmo considerando o facto de que, ao contrário dos residentes em território nacional, não participamos directamente na vida política, além de que trabalhamos e pagamos os nossos impostos noutro país, penso que todos concordarão em que quatro deputados para milhão e meio de eleitores recenseados (cinco milhões de residentes) é muito pouco.

Outros problemas que se verificaram, segundo esta notícia: emigrantes que não chegaram a receber os boletins de voto, por envio do envelope para moradas erradas; atrasos nos correios que deverão inviabilizar a chegada no prazo estabelecido; erros no recenseamento; e má interpretação do porte pago pelos serviços postais de alguns países - como na Alemanha, onde eleitores portugueses receberam o envelope de volta, com o pretexto de faltar o selo! Pelos vistos, há funcionários dos correios que não sabem o significado de port payé. Mas quem é que aprende francês, hoje em dia?

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Sem receio da mudança

por Cristina Torrão, em 22.08.19

Horst Wochenblatt (2).jpg

Imagem Wochenblatt

Estou muito orgulhosa do "meu" Horst. Atreveu-se a mudar de emprego aos 56 anos e até teve direito a reportagem no jornal diário local. Trabalha, desde 1 de Agosto, na Câmara de Stade, a sua cidade-natal e onde vivemos há 20 anos, como planeador de tráfego, fazendo parte de uma equipa que pretende criar um novo conceito para a cidade, dando mais espaço aos peões e aos ciclistas (não, a Greta Thunberg não vai resolver os problemas ambientais do planeta, mas o movimento por ela iniciado está a ter reflexos e é isso que importa; quem, de nós, conseguiria tal proeza?).

Esta decisão do Horst exigiu coragem, pois, apesar de continuar funcionário público, está à experiência por seis meses. Se algo correr mal, pode ser despedido ao fim desse tempo. Para isso, rescindiu um contrato de trabalho vitalício, que tinha com a Câmara de Hamburgo, onde trabalhava há 26 anos. Como sabem, a Alemanha é uma federação de estados. Hamburgo é uma cidade-estado; Stade, apesar de estar a apenas 50 km, pertence ao estado da Baixa Saxónia. Um funcionário público não pode mudar de estado, mantendo o mesmo contrato, pois a entidade empregadora é diferente. Mas há-de tudo correr bem, estamos confiantes.

O emprego em Stade, além de lhe proporcionar fazer um trabalho para o qual está muito motivado, fica pertinho de casa. É só agarrar na bicicleta e, em dez minutos, chega ao emprego. Um verdadeiro sonho para quem, durante 20 anos, viajou de comboio todos os dias para Hamburgo, uma hora para cada lado.

O Horst merece.

Obs: a bicicleta dele não é eléctrica.

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Muito bem, Alemanha!

por Cristina Torrão, em 01.08.19

A Alemanha recusou tomar parte na “Operation Sentinel” de Trump, no Estreito de Ormuz. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão declarou estar fora de questão seguir a estratégia de confrontação dos EUA, que pode levar a uma escalação perigosa do conflito (link em alemão). O governo alemão continua a considerar a via diplomática como a melhor forma de lidar com o problema.

Apoio a posição da Alemanha que visa, acima de tudo, preservar a união europeia e distanciar-se da linha conflituosa de Trump. Com Boris Johnson, a Grã-Bretanha mudou de estratégia, deixando de apelar a uma acção conjunta europeia, para se pôr sob a protecção dos EUA. Este país, no entanto, solicitou a colaboração alemã, numa óbvia tentativa de forçar a Europa a dançar sob a sua batuta (e a dividi-la). Esteve bem o governo alemão, ao declarar que, não chegando a diplomacia, a Alemanha só admitirá o envio de forças militares para o Estreito de Ormuz numa acção conjunta europeia, dispensando o comando norte-americano.

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O voto dos emigrantes

por Cristina Torrão, em 22.07.19

Mesas de Voto.jpg

Peço desculpa pelo atraso, pois as eleições europeias já lá vão. Mas não quis deixar de citar um artigo do PT Post (jornal português na Alemanha, antigo Portugal Post), na sua edição de Junho. E isto porque, em Portugal, se sabe muito pouco sobre os portugueses que vivem no estrangeiro, das suas preocupações e dos seus problemas.

Exercer o direito de voto é, por exemplo, um grande problema, pelo menos, para quem vive na Alemanha, desde que acabaram com o voto por correspondência. E, afinal, o assunto é actual, pois as próximas eleições estão à porta. Para quem se pergunta porque só cerca de 2 ou 3% dos portugueses na Alemanha votam, aqui vai um excerto do artigo:

«A organização das eleições para o Parlamento Europeu na rede consular na Alemanha mereceu forte consternação e contestação por parte dos conselheiros das comunidades da Secção Local do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) na Alemanha, expressas em missiva aos governantes, deputados e diplomatas portugueses antes da realização do acto eleitoral».

«O objecto de descontentamento dos conselheiros foi o número limitado de mesas de voto destinadas a esta eleição (quatro, uma por secção consular na Alemanha) especialmente face ao que alegaram ser a facilidade de desdobramento de mesas face à existência do Consulado Honorário em Munique, do Escritório Consular em Hatterheim no Meno, de várias Antenas Consulares e ainda Permanências Consulares em diversas cidades».

Os conselheiros questionam inclusive «se há por parte das Instituições em Portugal interesse em que as Comunidades se afirmem na sua participação cívica e de cidadania (…) Manuel Campos, uma figura muito conceituada da emigração na Alemanha, e antigo sindicalista e diplomata pela Alemanha no Brasil (…) levantou ainda a questão se “existe um único cidadão em Portugal que esteja disposto a viajar 400 km para exercer o seu direito de voto”».

Quatro mesas de voto num país com quase 350 000 km² de área? Devem estar a brincar connosco.

Eu, por acaso, até tenho sorte: "só" preciso de andar 60 km (para cada lado) para ir votar…

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Atentado

por Cristina Torrão, em 20.07.19

Hoje, os edifícios públicos alemães apresentam-se com bandeira hasteada e há festejos em Berlim. Faz 75 anos que o coronel Claus von Stauffenberg tentou assassinar Hitler com uma bomba.

Será legítimo comemorar um atentado? Pode alguém que planeou matar uma pessoa ser considerado um herói? É legítimo acabar com vidas para salvar mais vidas?

Hitler era um psicopata assassino. E se o atentado do coronel Claus von Stauffenberg tivesse sido bem sucedido, teria sido assinado um armistício com os Aliados e as mortes causadas pela II Guerra Mundial ficariam pela metade, já que o últmo ano foi de longe o mais mortífero.

Hitler sobreviveu a vários atentados, este foi um deles. A guerra não terminou mais cedo. Claus von Stauffenberg foi executado nessa mesma noite. E hoje é um herói alemão.

 

 

Nota: esta tentativa de assassínio de Hitler foi retratada no filme Operação Valquíria, de 2008, realizado por Bryan Singer, com Tom Cruise e Kenneth Branagh.

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"Portugal-Krimis"

por Cristina Torrão, em 06.07.19

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

Lost in Fuseta.jpg

O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

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Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

Fado Fatal.jpg

Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

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Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

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Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

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Ecologia evita triunfo da extrema-direita

por Cristina Torrão, em 27.05.19

Europawahl 2019.JPG

 

A ecologia vai passar a marcar a agenda política alemã, algo já anunciado pelo "Bloco Central" CDU/CSU e SPD (que aliás governa este país). Os Democratas-Cristãos perderam votos, os Socialistas ainda mais, não chegaram aos 16% (a falta que faz um Costa...). Os grandes vencedores são os Verdes, que quase duplicaram a votação (em relação às Europeias anteriores), atingindo 20,5%.

Os partidos do governo não vêem outra hipótese que não seja dedicarem-se ao tema que actualmente mobiliza os jovens alemães. Tudo por causa da Greta Thunberg, claro. Desculpem insistir, mas esta é uma realidade. E fico muito feliz, pois previa-se um triunfo da extrema-direita AfD, temia-se que se tornasse no segundo partido mais votado. Apesar de ter subido ligeiramente, atingindo os 11%, ficou muito longe da meta desejada.

Não tenho agora dados respeitantes à abstenção, mas sei que ficou aquém dos 40%. Os alemães, sobretudo os jovens, estão de parabéns!

Acresce dizer que os Verdes alemães em nada se assemelham aos inúteis Verdes portugueses, afectos aos comunistas.  Usando as palavras da jornalista Helena Ferro de Gouveia: soma às preocupações ambientais (que vão para além do clima), preocupações sociais (respeito pelas minorias, defesa dos migrantes e refugiados), uma política económica (quase) liberal e não hostil às empresas (o velho modelo alemão da economia social de mercado), profundo europeísmo e a igualdade de género praticada, não apregoada.

Queria aproveitar para dar os parabéns ao PAN. Um partido tão pequeno e menosprezado, mas que incomoda tanta gente, é mesmo para ser levado a sério. Estou convencida de que Portugal precisa do PAN e espero que se mantenha fiel a si mesmo.

Podem falar de infantilização, mas talvez seja mesmo disso que precisamos: descer do nosso pedestal de adultos muito cientes da sua sabedoria, a fim de ouvir os mais novos. Só assim os cativaremos e motivaremos. E tenho a certeza de que eles têm muito para nos dizer.

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As bombas por explodir

por Cristina Torrão, em 16.05.19

Bomba Heimfeld Hamburg.jpg

Imagem daqui

 

Aconteceu mais uma vez (acontece regularmente na Alemanha), ontem à tarde. Na sequência de obras, em Hamburgo, foi encontrada uma bomba americana de 500 kg da 2ª Guerra Mundial que não explodiu. Muitas bombas que foram lançadas dos aviões não explodiram e ficaram "adormecidas", debaixo da terra. Isto não quer dizer que não sejam perigosas, podem rebentar se houver um contacto de qualquer tipo, como neste caso, em que uma retroescavadora a pôs à vista.

Quando é encontrada uma bomba destas, a cidade paralisa. Neste caso, a zona de evacuamento compreendeu um raio de 500 metros, sendo que, até um raio de 1000 metros, houve uma zona de prevenção, em que as pessoas foram aconselhadas a permanecerem em suas casas, de portas e janelas fechadas. Foram evacuadas 7.000 pessoas, abrigos tiveram de ser improvisados em tempo recorde, normalmente, em ginásios de escolas. As ruas foram cortadas, os transportes públicos (incluindo metro) paralisaram. Pode-se imaginar o transtorno que isto causa numa cidade de milhões, em cima da hora de ponta.

Neste caso, a evacuação foi demorada, pois a zona incluía dois lares de idosos, com muitos acamados, ou em cadeiras de rodas. Havia também um hospital, mas fora do raio de 500 metros, pelo que não teve de ser evacuado, "apenas" o serviço das Urgências foi desactivado. A operação iniciou-se pelas 16h15m, a desactivação da bomba estava planeada para as 19h00m, foi adiada para as 22h30m, mas passava já da meia-noite, quando os bombeiros deram a operação por terminada.

Para a desactivação destas bombas, há, claro, especialistas. Os trabalhos costumam decorrer sem percalços, mas não deixa de ser uma intervenção perigosa. Entre bombeiros, polícia, médicos, socorristas e outros ajudantes, estiveram envolvidas cerca de 400 pessoas na operação.

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Igreja, Mulheres e Ecologia

por Cristina Torrão, em 18.04.19

No meu post sobre a Igreja Católica em crise, houve comentários para todos os gostos (aliás, nunca imaginei que a minha estreia aqui corresse tão bem, obrigada a todos). Como sempre, as opiniões divergiram, numa grande variedade de temas tratados, mas há dois que me merecem mais atenção.

Fiquei muito surpreendida por o comentador JAB duvidar da ordenação de mulheres na Igreja Evangélica Luterana: Mulheres ordenadas na Igreja Luterana? Não sabia... E penso que não é bem verdade (...) O facto de haver mulheres que pregam a Palavra (...) não significa que sejam ordenadas (...) encontro a designação de "esposa" colaboradora do Pastor luterano, mas não o de "pastora" nem muito menos sacerdotiza... e muito menos bispa.

Estava à espera que se discordasse, mas não de que se duvidasse. Como é óbvio, ouço as palavras "pastora" e "bispa" muitas vezes (em alemão), mas, como a minha palavra não chega, fui pesquisar. Primeiro, no Duden, o mais conceituado dicionário da língua alemã. Na Alemanha, quando se tem dúvida se alguma palavra existe, vai-se ao Duden:

Bischöfin
Substantiv, feminin - oberste geistliche Würdenträgerin einer evangelischen Landeskirche

Tradução: "Bispa" - substantivo feminino - o mais alto grau clerical numa secção da Igreja evangélica.

A palavra "pastora" é um pouco mais complicada, porque, na definição, aparece "Pfarrerin", que é o masculino de "Pfarrer", que por sua vez é o "padre" português:

Pastorin
Substantiv, feminin - a. Pfarrerin; b. Ehefrau eines Pastors

Tradução: "Pastora" - substantivo feminino - a. "Pfarrerin" (o tal padre feminino); b. Esposa do Pastor (como o nosso comentador referiu; JAB, porém, não sabia que a palavra pode ter dois significados).

O acaso acabou por me ajudar, aliás, ligado a uma notícia triste. O acidente do autocarro com turistas alemães, na Madeira, fez-me saber que uma mulher, Ilse Everlien Berardo, pastora luterana, lidera há mais de 30 anos a Igreja Evangélica Alemã na Madeira.

Não satisfeita, fui procurar as bispas alemãs. A Igreja Luterana não está dividida em bispados, mas em secções, ou regiões. As autoridades clericais que as regem nem sempre são apelidadas de "Bispos", também há as designações "Presidente" e "Intendente". Duas dessas regiões são regidas por mulheres: a Igreja Evangélica do Centro (com sede em Magdeburgo) é regida pela Bispa Ilse Junkermann e a Igreja Evangélica da cidade de Bremen pela Presidente Brigitte Boehme.

Passo agora ao segundo tema que causou polémica: a Ecologia tornar-se uma causa da Igreja Católica. Por acaso, a jovem sueca Greta Thunberg encontrou-se recentemente com o Papa Francisco. E hoje deparei com uma notícia alemã, informando que muitos bispos católicos alemães apoiam Greta Thunberg e os protestos "Fridays For Future". E também fiquei muito satisfeita ao ler que o Bispo Heiner Wilmer, que preside ao bispado de Hildesheim, a que pertenço (e do qual eu falei no meu post anterior) declarou, à agência dpa: «Sou de opinião de que a Igreja deve funcionar como advogada do movimento "Fridays For Future"».

Aqui vai o original em alemão, com o link: „Ich bin der Ansicht, die Kirche muß Anwalt der ‘Fridays for Future’-Bewegung sein“, sagte der Hildesheimer Bischof Heiner Wilmer der Nachrichtenagentur dpa.

Ainda há esperança para a Igreja Católica!

 

Nota: Quem não souber alemão, terá de confiar na minha tradução, o que poderá não ser fácil para alguns dos leitores deste blogue...

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A Igreja Católica em crise

por Cristina Torrão, em 15.04.19

Papa abatido (1).JPG

Leio e comento o Delito de Opinião há quase dez anos, embora, nos últimos tempos, as visitas se tenham tornado mais raras. Como tantos de nós (mea culpa) sucumbi à mais conhecida rede social (sim, o Facebook) e as minhas rondas pelos blogues diminuíram. Não obstante, foi com imensa alegria que recebi o convite do Pedro Correia para me tornar autora regular de um dos mais famosos e lidos blogues portugueses, uma demonstração de confiança que muito me honra.

Feita esta introdução, vamos ao assunto que aqui me trouxe: o abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica.

Vivo na Alemanha e sou assinante de um jornal católico semanal, o KirchenZeitung, ou KiZ, na sua abreviatura oficial, pertencente ao bispado de Hildesheim. Nos últimos tempos, traz um ou mais artigos sobre este tema em quase todas as suas edições. Há quem ache que é demais e apele a que se deixe o assunto em paz. Já se admitiu que o problema existe. Não chega? Até porque, felizmente, os clérigos abusadores não são a maioria.

Surdo a tais apelos, o KiZ insiste no assunto. E eu aplaudo. Porque é disso mesmo que os prevaricadores estão à espera: que, depois de se fazer uma balbúrdia à volta do assunto, o caso adormeça e eles possam voltar a maltratar as suas vítimas na paz do Senhor. Como sempre foi, durante séculos e séculos. Uma teia impenetrável de prevaricadores e coniventes, que abafam os crimes, que nunca castigam os criminosos, levando a Igreja de Cristo a esta situação incomportável: protecção dos criminosos, em vez de protecção das vítimas! Dizia, há tempos, uma colaboradora desse jornal: é inadmissível que um padre que o deixe de ser, a fim de se casar, seja tratado de forma mais dura pela sua Igreja, do que aqueles que abusam sexualmente de crianças!

Tenho lido relatos incríveis de antigas vítimas. Também há mulheres, mas a maioria parece ser homens. Em todo o caso, trata-se de pessoas que, só aparentemente, levam uma vida normal, pois não se livram de depressões, insónias, ataques de pânico e tentativas de suicídio durante toda a sua vida. Pessoas com asco de si próprias. Pessoas que tornam a recordar coisas que julgavam esquecidas, por exemplo, quando têm filhos, levando-as a cair novamente num poço escuro e frio, chegando a ficar com medo de tocar nas crianças (as suas crianças) de forma imprópria.

É duro ouvir um homem de sessenta anos dizer que se martirizou com pensamentos de pecado, ao lembrar-se de como regozijou ao saber que o padre, que abusara dele durante dois anos, ia ser transferido para outra paróquia. Na festa de despedida, toda a gente estava triste, por aquele padre tão simpático se ir embora. E ele, um miúdo de 11 ou 12 anos, estava feliz. E censurou-se por isso! É duro ler como bispos regiam autênticas redes de troca de menores. É duro ler como um padre, ganhando a confiança de uma família, a ponto de fazerem férias juntos, abusasse do miúdo, que dormia com ele, enquanto os pais dormiam no quarto ao lado, pensando que o filho não poderia estar entregue em melhores mãos.

Este último caso ilustra como a Igreja tem responsabilidades acrescidas. O Papa Francisco desiludiu no seu discurso de encerramento do encontro extraordinário de bispos em Roma, a fim de debater o assunto, há cerca de dois meses, ao relembrar que abusos sexuais a menores acontecem em todos os lugares onde adultos estão em contacto com crianças e jovens, como clubes desportivos, colónias de férias, lares, etc. Esta relativização caiu mal a muita gente, pois não se pode comparar o prestígio de um clérigo, representante de Deus na Terra, com o de um treinador de ginástica. Além disso, aconteça onde acontecer este crime, não pode ser nunca menorizado ou relativizado. Muitos se perguntam o que levou um Papa, normalmente tão acutilante e corajoso, ficar-se por discurso tão modesto. Por isso, escolhi a fotografia acima para ilustrar este post (igualmente copiada do KiZ): o Papa mostra-se abatido e encolhido, como se o peso que carrega nos ombros se tenha tornado demais para ele.

Numa altura de falta de padres e de igrejas quase vazias, escândalos deste tipo minam a confiança na instituição milenar. Não há dúvida de que a Igreja vive uma grande crise e só resolverá o problema com uma grande reforma. Alguns bispos alemães dão os primeiros passos, apesar de sofrerem a contestação de muitos dos seus pares. O novo bispo de Hildesheim, por exemplo, afirmou, numa entrevista, que a ganância do poder está inscrita no DNA da Igreja. Foi naturalmente muito contestado. Mas também apoiado. Porque ele pôs o dedo na ferida. Os abusos impunes de menores só se tornaram possíveis, porque a Igreja se transformou num clube de homens que se protegem uns aos outros, a fim de manterem o seu poder.

O bispo Heiner Wilmer não se deixa intimidar e constituiu uma comissão que deverá investigar os casos de abuso sexual no seu bispado entre os anos 1957 e 1982, o tempo de regência de um bispo muito querido e conceituado, mas que se desconfia que fazia parte de uma rede de troca de rapazinhos, algo que caiu como uma bomba entre os católicos alemães que se lembram dele, até agora, com muita saudade. Os elementos da comissão investigadora não são clérigos, nem estão particularmente relacionados com a Igreja, a fim de garantir a sua independência. E o bispo Heiner Wilmer prometeu pôr todos os arquivos à disposição dos investigadores. Este é um dos problemas, quando se trata de investigar: a retenção de informação por parte da Igreja.

Quatro pessoas fazem parte da comissão: dois psicólogos, que se encarregarão de entrevistar possíveis vítimas e outras testemunhas; um procurador-geral reformado que, durante quinze anos, presidiu a uma comissão que investigou crimes nazis em Ludwigsburg, e a antiga Ministra da Justiça da Baixa Saxónia (um Land alemão) que presidirá à comissão (informações tiradas do Kiz nº 14, de 07 de Abril passado).

O facto de estar uma mulher à frente desta comissão não é por acaso. O bispo Heiner Wilmer é de opinião de que a Igreja Católica só tem a ganhar envolvendo mulheres nos seus assuntos. Mais: ele considera ser essencial a participação de mulheres na reforma que se exige, não excluindo a sua ordenação.

Foi com agrado que, apesar das críticas que lhe são feitas, constatei haver colegas seus a seguir-lhe o exemplo. No último KiZ (nº 15, de 14 de Abril), li que o bispo de Osnabrück, Franz-Joseph Bode, considera a discussão do papel da mulher na Igreja como urgente, central e inevitável. Na sua opinião, a Igreja Católica está a desmoronar e só pode recuperar a confiança, quando mulheres e homens trabalharem em conjunto. Li igualmente com muito agrado que o bispo de Limburg, Georg Bätzing, pretende igualmente constituir uma comissão, a fim de investigar os abusos sexuais no seu bispado nos últimos setenta anos. A comissão será constituída por duas pessoas não ligadas à Igreja e terão de ser um homem e uma mulher.

Não se trata, aqui, de quotas ou de calar críticas. Trata-se, acima de tudo, de enquadrar mulheres nos meandros da Igreja, quebrando o monopólio dos homens que se apoiam e protegem mutuamente. Desejo muito que isso aconteça. Não porque as mulheres sejam, em geral, melhores do que os homens, mas porque a sua presença quebrará a irmandade masculina. Além disso, a sua opinião deve ser ouvida. Os homens são apenas metade da Humanidade. Nos dias de hoje, não há razão para que sejam apenas eles a decidirem sobre assuntos que digam respeito a toda a Humanidade. Na verdade, impressiona-me que tal procedimento tenha vigorado durante milénios!

Sigo tudo isto com grande interesse, não para atacar a Igreja Católica, mas numa grande esperança de que ela se consiga renovar. A Igreja enfrenta um dos maiores desafios da sua História e urge redefinir o seu papel. Para que serve, hoje em dia? Apenas para baptizados, comunhões, casamentos e funerais? Não podemos esquecer as suas tão necessárias missões caritativas espalhadas pelo mundo. E a Igreja Católica alemã tem-se concentrado noutras causas: o apoio aos refugiados (nos últimos anos, entraram cerca de dois milhões, neste país) e a ecologia. Sim, a preservação do ambiente, aliada à causa animal, tem-se tornado, cada vez mais, uma causa da Igreja. A razão? Proteger a Criação Divina.

Seria bom que a Igreja portuguesa lhe seguisse o exemplo, fomentando o debate sobre temas polémicos e se deixasse de dogmas ultrapassados, a fim de se dedicar a causas realmente importantes.

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O adeus (quase) final

por Alexandre Guerra, em 07.12.18

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Imagem de um vídeo de homenagem à chanceler que passou esta tarde na conferência do CDU em Hamburgo/Foto: Reuters

 

Angela Merkel despediu-se esta Sexta-feira da liderança do partido dos Democratas Cristãos (CDU). Apesar de continuar à frente dos desígnios da Alemanha até terminar o seu mandato em 2021, é impossível não sentir no ar um certo ambiente de “fim de festa” e de incerteza. Tenha-se gostado mais ou menos da sua liderança, é preciso reconhecer que Merkel se tornou, com o passar dos anos, no único referencial de poder político do projecto europeu. Quando chega à liderança da Alemanha, em 2005, naturalmente, o Mundo e a Europa eram diferentes, as relações de poder eram outras e os desafios que se vislumbravam então no horizonte estavam longe de perspectivar uma crise financeira de proporções gigantescas, uma crise migratória massiva a fazer relembrar imagens de períodos de guerra, o aceleramento da crise ambiental, a emergência dos populismos, que reavivaram fantasmas do passado que se pensava estarem enterrados, ou a dilaceração do projecto europeu bem no seu “coração”, com o Brexit.

 

Merkel chegou à liderança do CDU numa altura em que os grandes partidos tradicionais na Europa ainda se impunham nos sistemas políticos e num tempo em que havia lideranças entusiasmadas com o projecto europeu, tais como Chirac, em França, ou Blair, no Reino Unido. Mas não só. Tínhamos Verhofstadt na Bélgica, Berlusconi em Itália, Juncker no Luxemburgo e Balkenende na Holanda. Concordando-se ou não com os seus estilos, todos eles eram líderes convictos na virtuosidade da construção europeia e, de certa forma, transmitiam esse ambiente mobilizador (e isto em política tem mais importância do que se possa pensar).

 

Quando Merkel chegou ao grande palco da política europeia viu-se rodeada de defensores do projecto europeu, estando ela própria, ironicamente, a iniciar a sua caminhada com enorme cepticismo sobre a Europa. Mas, com a ajuda de uma Alemanha economicamente estável (em parte devido às reformas do mal amado Gerhard Schroeder) e depois de ir vencendo os desafios políticos internos, Merkel foi assumindo o papel de líder no projecto europeu, foi percebendo que a História a estava a empurrar para algo maior que, provavelmente, nunca imaginaria há quase duas décadas.

 

Dezoito anos depois, já com poucos “amigos” europeístas, com o Reino Unido de saída e um Emmanuel Macron impotente, Merkel está só na defesa das virtudes de uma Europa integrada e solidária. Diz que se vai manter no poder até 2021, mas dificilmente isso acontecerá. É muito provável que, entretanto, deixe o cargo de chanceler, mas, quando esse momento chegar, ela fá-lo-á enquanto única grande Estadista europeísta em exercício. E isso, para aqueles que vêem na Europa um projecto virtuoso e inspirador, deve motivar a mais profunda reflexão sobre as nossas actuais lideranças.  

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A queda de uma Angela.

por Luís Menezes Leitão, em 03.07.18

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Quando escrevi uma crónica para o i que saiu hoje sobre este assunto, estava longe de imaginar que o resultado final de toda esta deriva na Europa sobre a questão das migrações seria uma derrota colossal de Angela Merkel às mãos do seu Ministro do Interior Horst Seehofer, líder da CSU. Desde Setembro de 2015 que Seehofer tem vindo a criticar a decisão de Merkel de abandonar unilateramente a regra de Dublin — que obriga os processos de asilo a serem tratados pelo país a que os refugiados chegam em primeiro lugar — em ordem a permitir o acolhimento desses refugiados pela Alemanha. Trata-se de uma decisão humanitária, mas com custos políticos sérios, uma vez que grande parte do povo alemão não a compreendia, tendo sido esse o principal factor que levou ao crescimento eleitoral da AfD. Merkel não se preocupou com esse crescimento, a partir do momento em que conseguiu reeditar a grande coligação com o SPD. Mas Seehofer vai ter eleições na Baviera no Outono e a AfD poderia ameaçar seriamente a sua CSU, se esta não tomasse uma posição firme na questão dos refugiados. Seehofer ameaçou com a sua demissão do governo, que poderia destruir a coligação, e agora ganhou em toda a linha. Merkel viu-se obrigada a abandonar a sua política de abertura aos refugiados e concordou inclusivamente com a criação de "centros de trânsito" para recambiar os refugiados de volta ao país da Europa onde entraram em primeiro lugar.

 

Fez-se uma cimeira europeia sobre a questão das migrações, com decisões patéticas, como "centros de acolhimento" na costa africana, que obviamente já foram rejeitados por todos os países africanos da zona. Mas pelos vistos essa cimeira europeia, destinada a ir em socorro de Merkel, não impediu que a mesma fosse politicamente trucidada por Seehofer. Merkel pode continuar como chanceler, mas é manifesto que já não dá as cartas na política alemã. Hoje assistiu-se à queda de uma Angela.

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Podia ser pior

por João Pedro Pimenta, em 28.06.18
Claro que com a surpreendente eliminação da Alemanha na Rússia sobreveio a esperada vaga de piadas com referências à 2ª Guerra. Mas não é catastrófico: apesar de tudo caiu em Kazan, muito a leste de Moscovo. Já é um progresso.

E podia ser ainda pior: olhem se tivesse perdido em Volgogrado/Estalinegrado ou em Kaliningrado/Koenisgberg, berço da Prússia. As piadas tinham logo o dobro do sentido. Citando uma dessas piadas correntes, já é não é a primeira vez que a Alemanha vai à Rússia mal preparada.

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Alemanha: os últimos 50 anos

por Pedro Correia, em 23.09.17

Recordei aqui quem foram os inquilinos da Casa Branca, ano a ano, durante o último meio século - de Lyndon Johnson, em 1967, a Barack Obama, entretanto substituído por Donald Trump.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do Palácio do Eliseu, ano após ano, durante o último meio século - do quase mítico general De Gaulle ao malogrado François Hollande, que não arriscou concorrer a um segundo mandato e viu o seu Partido Socialista implodir.

Recordei aqui quem foram os inquilinos do n.º 10 de Downing Street, ano após ano, durante o último meio século - do trabalhista Harold Wilson ao conservador David Cameron, que entretanto deu lugar a Theresa May, sua correligionária.

Na véspera de os alemães serem chamados às urnas para escolherem o novo parlamento e o Governo que decorrerá do novo elenco no Bundestag, lembro quem foram os chanceleres da República Federal Alemã dos últimos 50 anos. Entre 1967 e 2016.

Volto a dividir este período por cinco décadas, para uma consulta mais fácil. E distribuo assim as cores: vermelho para os chefes do Governo sociais-democratas, azul para os democratas-cristãos.

 

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1967/1976

1967- Kurt Georg Kiesinger

1968 - Kurt Georg Kiesinger

1969 - Kurt Georg Kiesinger

1970 - Willy Brandt

1971 - Willy Brandt

1972 - Willy Brandt

1973 - Willy Brandt

1974 - Helmut Schmidt

1975 - Helmut Schmidt

1976 - Helmut Schmidt

Predomínio claro dos chanceleres sociais-democratas - com destaque para Brandt, que antes fora burgomestre de Berlim e ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

 

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1977/1986

1977 - Helmut Schmidt

1978 - Helmut Schmidt

1979 - Helmut Schmidt

1980 - Helmut Schmidt

1981 - Helmut Schmidt

1982 - Helmut Schmidt

1983 - Helmut Kohl

1984 - Helmut Kohl

1985 - Helmut Kohl

1986 - Helmut Kohl

Dois Helmuts dividiram esta década. Schmidt liderou o Governo alemão - então ainda sediado em Bona - mais um ano do que o seu homólogo democrata-cristão.

 

 

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1987/1996

1987 - Helmut Kohl

1988 - Helmut Kohl

1989 - Helmut Kohl

1990 - Helmut Kohl

1991 - Helmut Kohl

1992 - Helmut Kohl

1993 - Helmut Kohl

1994 - Helmut Kohl

1995 - Helmut Kohl

1996 - Helmut Kohl

Domínio absoluto do democrata-cristão Kohl, que liderou o complexo processo de reunificação, reconduzindo para Berlim a capital de todos os alemães.

 

 

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1997/2006

1997 - Helmut Kohl

1998 - Helmut Kohl

1999 - Gerhard Schroeder

2000 - Gerhard Schroeder

2001 - Gerhard Schroeder

2002- Gerhard Schroeder

2003 - Gerhard Schroeder

2004 - Gerhard Schroeder

2005 - Gerhard Schroeder

2006 - Angela Merkel

Outra década dominada por um político social-democrata. Schroeder assegurou sete anos de liderança alemã após o longo consulado de Kohl, que durou mais de década e meia.

 

                              

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2007/2016

2007 - Angela Merkel

2008 - Angela Merkel

2009 - Angela Merkel

2010 - Angela Merkel

2011 - Angela Merkel

2012 - Angela Merkel

2013 - Angela Merkel

2014 - Angela Merkel

2015 - Angela Merkel

2016 - Angela Merkel

Hegemonia total da liderança democrata-cristã na última década, personificada na primeira mulher colocada à frente dos destinos de Berlim. Merkel vai amanhã novamente a jogo.

 

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Balanço: domínio claro dos democratas-cristãos, que ocuparam a chancelaria durante 30 anos neste último meio século. Uma percentagem de 60%.

A CDU (União Democrata-Cristã) teve três líderes no Governo alemão ao longo deste período: Kiesinger, Kohl e Merkel. O SPD (Partido Social-Democrata) teve outros três: Brandt, Schmidt e Schroeder.

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Helmut Kohl (1930-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 16.06.17

Depois de Bismarck, Helmut Kohl é seguramente o maior estadista da história alemã. Recebeu um país dividido em dois pela cortina de ferro, com a metade ocidental ainda a expiar a culpa do nazismo, e começou pacientemente a reerguer a Alemanha. Primeiro declarou que a Alemanha ia abandonar a tradicional expiação colectiva, indicando o seu próprio caso pessoal: "Eu tinha 15 anos quando a guerra acabou. Não tenho culpa nenhuma do que se passou lá". Depois foi o primeiro a exigir, após a queda do Muro de Berlim, a imediata reunificação da Alemanha. Enquanto os outros políticos alemães falavam nessa possibilidade como um cenário a longo prazo, e os restantes países europeus o viam como um simples cenário de pesadelo, Kohl exigia uma reunificação imediata. Para a obter, pagou tudo o que lhe pediram por ela. Primeiro, aceitou converter o marco DDR numa paridade 1:1 com o Deutsche Mark, o que fez aumentar enormemente o custo da reunificação. Depois aceitou abandonar o próprio marco a troco do euro, o preço que os parceiros europeus lhe pediram para não se oporem à reunificação, julgando que assim controlavam a Alemanha. Mas o homem que quando atravessou pela primeira vez o muro, proclamou perante a porta de Brandenburgo: "Este é o dia mais feliz da minha vida!", tudo aceitou para devolver à Alemanha o lugar que entendia lhe ser devido na Europa. O estado actual do seu país demonstra bem como ganhou a aposta.

 

Mas Helmut Kohl não era apenas grande em dimensão política, era-o também no excesso de peso que o atormentava, o que encarava com bonomia. Era obrigado a passar as férias de Verão numa clínica de emagrecimento e ao longo do ano ia vestindo fatos de dois tamanhos, um para a altura em que tinha saído da clínica, e outro para quando se aproximava a altura de lá regressar. O seu apetite incontrolável levou a uma história curiosa: Uma vez o seu adversário político Oskar Lafontaine foi atacado por uma louca que o tentou degolar, só por milímetros não lhe atingindo a carótida. Kohl foi informado dessa notícia quando acabava de sair do restaurante onde jantara. A perturbação foi tanta que teve uma quebra de tensão. Como resolveu o problema? Voltou para o restaurante e jantou outra vez.

 

Ironicamente, comentava-se sobre ele que era preferível ter um chanceler alemão que acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos. Mas essa petite histoire não ficará para a História. Essa só recordará o homem que, através da reunificação alemã, inscreveu o seu nome em letras de ouro na História da Alemanha.

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Uma estadista

por Pedro Correia, em 17.11.16

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O ser humano é determinado pelas circunstâncias, como nos ensinou Ortega y Gasset. Penso nisto muitas vezes a propósito da política. Repare-se em Angela Merkel: há menos de dois anos era ridicularizada pelas bempensâncias de turno, que a caricaturavam como uma gauleiter cúpida e bronca. A esquerda radical chic pintava-a com bigodinho hitleriano e umas tantas sumidades chamavam-lhe “senhora Merkel”, com indisfarçável desdém misógino. "Seja mal-vinda a Portugal", proclamaram em uníssono mais de cem figuras cá do burgo quando visitou Lisboa, em Outubro de 2012.

As circunstâncias operaram uma reviravolta nessa cascata de argumentos primários contra a chanceler alemã. Angela Merkel, que agora recebe Barack Obama em Berlim, emerge da endémica crise de identidade europeia como a única interlocutora válida do continente perante os restantes protagonistas da cena política mundial. Henry Kissinger – pioneiro na abertura da diplomacia norte-americana a outras latitudes – declarou em tempos que desconhecia “o número de telefone da Europa”, aludindo à falta de liderança no Velho Continente. Hoje não voltaria a repetir a frase.

 

Diziam com desprezo que ela só pensava em finanças públicas. Mas não vejo ninguém a conduzir a política com tanto acerto no espaço geográfico em que Portugal se insere.

A chanceler germânica deu uma exemplar lição de dignidade aos seus pares ao acolher generosamente em 2015 mais de um milhão de refugiados – grande parte dos quais fugidos das intermináveis guerra civis no Médio Oriente e no Norte de África – enquanto outros responsáveis políticos europeus, de Mariano Rajoy a Vladimir Putin, lhes fechavam as portas. Pôs a sua popularidade interna em risco, sujeitou-se às críticas da direita mais extremista, viu uma força xenófoba ganhar terreno eleitoral, mas não abdicou dos princípios humanitários em que acredita – moldados na genuína democracia-cristã que funcionou durante três décadas como um dos pilares doutrinários da construção europeia.

Já este ano, revelou idêntica dignidade ao enfrentar a gravíssima crise institucional provocada pelo referendo britânico, reafirmando a sua crença no projecto europeu e reforçando os elos de solidariedade com as economias periféricas da UE. E há dias, na mensagem de felicitações que dirigiu ao recém-eleito Presidente norte-americano, prometeu cooperação institucional a Donald Trump sem abdicar dos “valores da democracia, da liberdade, do respeito pela lei e pela dignidade das pessoas” que constituem conquistas civilizacionais sem recuo, como fez questão de sublinhar.

 

Quem lhe lançava farpas e a transformava em objecto de sarcasmo teve de procurar outros alvos.

Admirada por quem já a contestou, criticada por quem já a enalteceu, respeitada por quase todos. Poucos duvidam de que é uma das raras dirigentes contemporâneas com lugar garantido nos livros de História.

Uma estadista.

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O incendiário.

por Luís Menezes Leitão, em 30.06.16

Na resolução do BES o Estado meteu 3,5 mil milhões de euros, que "emprestou" ao Fundo de Resolução, confiando em que o nosso pujante sistema bancário devolveria o dinheiro. Não só não devolveu nada, como agora o Novo Banco precisa de reforçar o capital em mais 1,4 mil milhões de euros. Como se isto não bastasse, surgiu entretanto a necessidade de resolução do BANIF que custou 3 mil milhões de euros. A isto há que acrescentar as necessidades de recapitalização da CGD que serão no mínimo de 5 mil milhões de euros. 

 

Perante este cenário claro, Schäuble fez uma declaração, que eu até acho simpática, a dizer que Portugal precisa de um novo resgate e que estaria em condições de o ter. A seguir lá lhe puxaram as orelhas, e voltou atrás dizendo que Portugal não vai precisar de qualquer resgate se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice. Eu traduzo: Portugal não precisará de resgate se tiver condições para ter um orçamento equilibrado, o que manifestamente não vai ter.

 

Mas entretanto lá surgiu o inevitável João Galamba, a acusar Schäuble de ser incendiário, já que Portugal não precisaria de resgate algum. Só falta agora explicar onde é que vai o país buscar o dinheiro para recapitalizar os bancos. Vai continuar a endividar-se no mercado? Com a dívida que já temos, é a garantia que a breve trecho os mercados se fecham. Vai ligar as rotativas? Enquanto estiver no euro, isso não é possível. É por isso manifesto que o segundo resgate é a única solução. Por isso fariam melhor em ouvir Schäuble, em vez de continuar a viver num mundo de ilusão. Schäuble não pega fogo às finanças da Alemanha, que estão fortes e pujantes. O mesmo já não posso dizer do actual governo português.

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Alemães tipo Schäuble

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.06.16

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"PUMA’s national team jerseys for the EURO 2016 are manufactured in Turkey."

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Ironias da História

por Pedro Correia, em 18.09.15

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Schengen entra em colapso devido à pressão sobre as suas fronteiras externas. Depois da Hungria, da Alemanha e da Áustria, também a Eslovénia e a Croácia suspenderam as regras sobre livre circulação, reforçando o controlo policial das fronteiras.

"A Eslovénia tem a obrigação de proteger a fronteira externa de Schengen", sublinhou o primeiro-ministro esloveno, Miro Cerar, anunciando drásticas restrições à entrada de pessoas oriundas de países não pertencentes à UE.

A Croácia, por sua vez, encerrou ontem sete dos oito postos fronteiriços com a Sérvia após a entrada em território croata de mais de 13 mil cidadãos extra-comunitários em apenas 48 horas. "Não temos condições para receber mais ninguém", advertiu o ministro do Interior, Ranko Ostojic. O chefe do Governo croata, Zoran Milanovic, fala mesmo em "despachá-los".

Eslovenos e croatas - que já suspenderam as ligações ferroviárias - mantêm as forças militares e policiais em estado de alerta. Enquanto dirigentes europeus trocam acusações, nenhuma solução se divisa no horizonte.

A larga maioria dos cidadãos deslocados - muitos dos quais são sírios que já estiveram internados em campos de refugiados na Turquia, no Líbano ou na Jordânia - caminha numa direcção precisa: de leste para oeste, de sul para norte. Interrogados pelos jornalistas acerca do destino que têm em vista, todos dizem uma só palavra: "Alemanha".

Ironias da História: há 80 anos, milhões tentavam fugir da Alemanha. Agora outros tantos sonham chegar lá.

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A saída da Alemanha do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 18.07.15

 

Num texto mais abaixo, o Sérgio Almeida Correia cita um autor a defender a saída da Alemanha do euro. Essa hipótese já tem barbas, sendo desde 2013 defendida na Alemanha pelo partido Alternativ für Deutschland. Há, por isso, um forte receio que um dia os alemães se fartem mesmo da irresponsabilidade orçamental dos países do Sul e abandonem o euro.

 

É por isso que para aliviar consciências se sugere que seria bom para o euro a saída da Alemanha, uma vez que levaria a uma depreciação da moeda europeia, que hoje é considerada demasiado forte para os países do Sul. Só que as consequências económicas do Germanexit seriam desastrosas, fazendo o Grexit parecer uma brincadeira de crianças. Basta ver que a Alemanha é a quarta economia do mundo e, se esta abandonasse a zona euro, a moeda perderia o seu principal sustentáculo, desencadeando uma forte apreciação do novo marco e uma inflação geral em toda a zona euro sobrante. Por isso, os restantes países do Norte sairiam também a correr da moeda única, que se transformaria assim na moeda descredibilizada do Sul da Europa, aumentando ainda mais a inflação nessa zona. Enquanto que o Grexit geraria inflação apenas na Grécia, o Germanexit provocaria uma inflação galopante em todos os outros países que permanecessem no euro.

 

Um dia assisti a uma conferência de um professor de economia em Dublin sobre as dificuldades que a Irlanda tinha com o euro, defendendo ele, porém, que, apesar disso, se devia manter na moeda única. Pedi-lhe então que contemplasse a hipótese de ser a Alemanha a decidir abandonar o euro. A resposta dele foi elucidativa. Simplesmente, benzeu-se.

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