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Um caco contador de histórias

por Cristina Torrão, em 10.07.20

O Jornal Católico do bispado alemão de Hildesheim tem, na sua última página, uma pequena secção reservada aos leitores intitulada “Isto é-me sagrado” (em alemão: Das ist mir heilig). O leitor envia uma fotografia de um objecto, ou de uma imagem, que lhe seja sagrado/a e explica a razão. Em muitos casos, trata-se de idosos que, em crianças ou jovens, se viram envolvidos no êxodo dos refugiados alemães. Antes da 2ª Guerra Mundial, a Alemanha possuía territórios no Leste: a Prússia Ocidental e Oriental, hoje pertencentes à Polónia e à Rússia. Nos últimos meses do conflito, com o avanço do exército soviético, os alemães que aí viviam, pelo menos, os que sobreviveram aos soldados russos, tiveram de fugir, deixando todos os seus bens para trás. Tratava-se quase exclusivamente de mulheres, velhos e menores de dezasseis anos, já que praticamente todos os homens em idade militar tinham sido alistados. Assim se juntaram milhares de refugiados, obrigados a marchas desgastantes de milhares de quilómetros, no Inverno rigoroso de 1945. Escusado será dizer que muitos não sobreviveram e havia menores a viajar sozinhos, não só órfãos, também alguns se viam separados das mães e avós, na confusão que se gerou. Sobreviventes dessa época aproveitam esta oportunidade que o jornal lhes dá para falarem de pequenos crucifixos, ou figuras de santos, que acreditam tê-los ajudado nesses tempos difíceis.

Na semana passada, porém, surgiu algo diferente. Gostei de um leitor de Berlim que mostrou uma relíquia oferecida por um monge budista. E gostei mais ainda de verificar que o jornal católico não teve problema nenhum em publicar o pequeno texto. A história vale bem a pena e mostra que, salvaguardando as diferenças, todos ganhamos ao aceitarmos lições de outras confissões religiosas. Em vez de nos concentrarmos no que nos separa, é bem melhor aproveitar o que nos une. Aqui vai o que Holger Doetsch, de Berlim, escreveu (tradução minha):

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«Em 2013, fundei, com amigos, uma instituição de apoio a crianças, no Camboja. Numa das minhas visitas, descobri um mosteiro no meio de um bosque, a oito quilómetros de Siem Reap. Apenas quatro monges budistas lá viviam. Um deles levou-me a um salão, cujo interior tinha sido destruído pelo fogo. Explicou-me, então, que, em 1977, mais de quarenta monges tinham sido ali queimados vivos pelo Khmer Vermelho. Em seguida, abaixou-se, apanhou este caco do chão e deu-mo, dizendo: “Sempre que se apanhe a queixar-se disto ou daquilo, olhe para este caco. Verá como os seus problemas se relativizam”».

Contentor cheio, pratos vazios

por Cristina Torrão, em 22.06.20

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Não costumo falar aqui dos livros que leio. Para isso, tenho um blogue pessoal. Já abri, porém duas excepções, a propósito de policiais escritos por alemães, mas situados em Portugal e de outro, passado em Hamburgo, mas escrito por um português. Hoje, abro outra excepção para falar desta interessante leitura, pois o tema está relacionado com o meu último postal.

O contentor deste título, que traduzi directamente do alemão, é o do lixo, ou seja, aponta para o contraste do nosso mundo actual: contentores de lixo a abarrotar de comida ainda em condições de ser consumida ao lado de gente a passar fome. E, no entanto, o livro não compara a situação da Europa com a do chamado Terceiro Mundo. Este livro limita-se à Alemanha.

No país considerado o mais rico da Europa, há uma instituição chamada Tafel que tenta recuperar o mais possível do que os supermercados tencionam deitar fora, a fim de o distribuir por pessoas que vivem em condições precárias (normalmente, as pessoas pagam um preço simbólico pelos alimentos, mas, em casos que se justifiquem, eles são gatuitos). Com 940 lojas espalhadas pelo país, a Tafel ajuda a sustentar milhão e meio de pessoas, trabalho só possível com o apoio de 60.000 voluntários.

A Tafel contribui ainda para a preservação do ambiente. Na Alemanha, cerca de 18 milhões de toneladas de alimentos aterram anualmente no lixo. Através de parcerias com supermercados, padarias, mercados grossistas e alguns produtores, esta instituição consegue, ainda assim, recuperar quase 300.000 toneladas de alimentos.

E, no entanto, é criticada. Por um lado, a quantidade de mercadoria resgatada é irrisória, em relação à efectivamente desperdiçada. Por outro, a Tafel é acusada de exercer uma função que compete ao Estado, ou seja, está a tirar-lhe responsabilidades. Por isso mesmo, o seu responsável, Jochen Brühl, publicou este livro. Ele diz que gostaria de salvar muitos mais alimentos, mas que as suas possibilidades estão limitadas. E sugere aos críticos da Tafel que encontrem maneiras de contribuir para que se desperdice menos. Em relação a fazer um trabalho que competiria ao Estado, ele contrapõe que a Tafel não pode pura e simplesmente virar as costas às famílias que dela dependem para sobreviver.

Neste livro, Jochen Brühl reúne uma série de entrevistas que fez, tanto a críticos, como a apoiantes, ou mesmo a beneficiários da instituição. Pelo meio, vai dando sugestões de como se pode diminuir a quantidade de lixo e lutar contra o consumismo. Por exemplo: porque têm as frutas e os legumes de apresentar formas perfeitas no supermercado? Será mesmo necessário termos pão fresco a qualquer hora do dia? Porque deitamos alimentos fora, mal tenha passado a data de validade, sem verificarmos se já estão realmente impróprios para consumo? Na verdade, há produtos que nunca perdem a validade, como o mel, ou a farinha (ou outros em pó, como misturas para pudins); o arroz e as massas são comestíveis muito para além do seu prazo e mesmo iogurtes se podem comer fora da validade, se não tiverem cheiro desagradável, sinais de bolor e a consistência ainda for normal (eu própria já comi muitos iogurtes fora da validade). Jochen Brühl apela ainda para que tenhamos mais cuidado a cozinhar, medido bem as quantidades. Enfim, todos nós poderíamos contribuir para diminuir o consumismo, criando uma sociedade mais justa e preservando o ambiente.

De entre os entrevistados, saliento Marianne Birthler, uma política da Alemanha de Leste que esteve envolvida nas manifestações que fizeram cair o Muro de Berlim. Depois da reunificação, foi Ministra da Educação, da Juventude e do Desporto no Land Brandenburg e, entre 2000 e 2011, encarregada, pelo governo federal, de analisar a documentação da STASI, a polícia política da antiga RDA. Resolvi traduzir uma passagem da sua entrevista que me agradou especialmente:

«Tenho esperança num mundo melhor. Que mais me resta, senão essa esperança? Caso contrário, bem poderíamos desistir de viver. Mas esperança não significa que aquilo que desejo se realize. Isto é um grande mal-entendido. A esperança e as utopias são apenas fontes de energia. Elas não existem para se transformarem em realidade, tal como idealizamos, mas sim para nos motivarem a agir. As pessoas sofrem muitas desilusões, porque pensam que aquilo com que sonham tem de se concretizar. Isto é um disparate. Não é para isso que existem os sonhos. Os sonhos são o empurrão para que dêmos o pontapé de saída».

 

Informação adicional: há cerca de 650.000 pessoas na Alemanha sem habitação; cerca de metade são refugiados, ou pessoas à espera da resposta ao seu pedido de asilo, e vivem em abrigos; contudo, e apesar de haver albergues para sem-abrigo, calcula-se que cerca de 48.000 vivam na rua.

Existe muita pobreza no país considerado o mais rico da Europa.

Quanto vale o Cristiano Ronaldo?

por Cristina Torrão, em 18.03.20

Para um jovem alemão de vinte e poucos anos, estudante de Jornalismo, ele valeu 64.000 euros!

Foi na versão alemã do concurso "Quem Quer Ser Milionário" (Wer Wird Millionär), transmitido pela RTL. O rapaz começou cambaleante. Porém, à medida que as perguntas aumentavam de valor, ele ia ficando cada vez mais seguro e atingiu o patamar dos 64.000 euros. Aliás, sem jokers. A pergunta era:

"Qual foi a primeira pessoa, no fim de Janeiro, a quebrar a barreira dos 200 milhões de seguidores no Instagram?"

Hipóteses de resposta:

A - Cristiano Ronaldo

B - Kim Kardashian

C - Papa Francisco

D - Ed Sheeran

Como referi, o jovem já não tinha jokers. Se optasse por não responder, levava para casa 32.000 euros. Respondendo errado, caía para os 500 euros. E ele arriscou a resposta, escolhendo Cristiano Ronaldo.

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Claro que o apresentador fez suspense, depois de a resposta estar bloqueada. Começou com o que tinha menos seguidores: o Papa Francisco. A seguir, Ed Sheeran. E depois: Kim Kardashian ou Cristiano Ronaldo? A resposta certa é...................... CRISTIANO RONALDO!

O nome luso assim gritado, o público a aplaudir entusiasticamente... e uma portuguesa, do outro lado do ecrã, a sentir-se muito orgulhosa.

Pequenas alegrias, em tempos difíceis.

 

Nota: o programa foi apresentado ontem, mas a gravação tinha já vários dias, do tempo em que ainda não se tinham decretado medidas drásticas por causa do Covid-19. Desde o fim-de-semana que não há programas televisivos alemães com público no estúdio.

Imagem: captação de ecrã do vídeo do programa, aqui disponível.

Lisboa e Porto

por Cristina Torrão, em 26.01.20

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Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Em Viagem - Parte 3

por Maria Dulce Fernandes, em 20.12.19

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Com o quartel-general estabelecido em Soligen, iniciámos um périplo pela Renânia do Norte: Wuppertal, Düsseldorf, Colónia...  

A catedral de Colónia era imponente, maravilhosamente talhada na margem do Reno, com pores-do-sol do mais espectacular a que já assisti. Voltei lá em 1993; grande desapontamento o meu. É certo que quando somos mais pequenos as proporções mudam e tudo parece diferente aos nossos olhos, mas a catedral dos meus encantos não me pareceu grande de todo, apenas algo mais escura e mais alta, que se destacava no aglomerado de betão da paisagem urbana da cidade de Colónia. 

Uma manhã, o pai madrugou com uma ideia brilhante:  Então e que tal irmos almoçar a Amsterdam? Foi um toca-a-correr e a cáfila embarcou na Variant com a tralha às costas em direcção  ao norte, rumo a Amstelveen, onde outros familiares nos aguardavam ansiosos. 

Deslizando pelas fantásticas auto-estradas alemãs, a viagem de pouco mais de duas horas fez-se em três horas e tal, atendendo à quantidade de tralha e à população da Variant plus one. 

Como todas  viagens de automóvel, foi estopante... mas se valeu a pena? Claro que sim!! Elevada à enésima potência! A Holanda é um país bucólico, lindo, verde, florido, os moinhos são idílicos. E tem queijos fantásticos. O Gouda continua a ser um dos meus preferidos. 

A sério que nunca tínhamos visto tanta bicicleta junta. Muitas até cestinho para cão tinham, caramba! Caminhar pela beira dos canais sim, mas com muita atenção para não ocuparmos a ciclovia, porque os holandeses são rápidos e furiosos.

E no final apoteótico dum dia em grande, a população da Variant bem equipada para as agruras do  inverno no Mar do Norte, numa tarde soalheira dos idos de Setembro de 1970, com as calças arregaçadas até ao joelho, chapinhava nas águas geladas de Zandvoort, a comer arenque cru (que os indígenas ingeriam deitando a cabeça para trás e deixando deslizar inteiro para dentro da boca!), mexilhões, batatas fritas e maionese, com palitos de forquilha encimados por bandeirinhas holandesas a esvoaçar ao vento do Ártico, e gelado de mirtilo em pequenos copos de papel, deitados na areia ou sentados nuns cestinhos de verga com banquinhos dentro. 

Tendo  o frio como desculpa, os mais velhos perderam-se pelas noites do Dam, enquanto a população miúda se resignou a ficar em casa a assistir a desenhos animados non-stop do Tom & Jerry , dobrados em flamengo e a preto e branco, mas caramba! nós por cá tinhamos o Popeye, o Manda-Chuva, os Filintstones, o Zé Colmeia e pouco mais, e só ao domingo.

Foi a noite da luz vermelha, ideia que nos remetia de imediato para o sarampo, mas que foi deixada no limbo das coisas que eram tabu para as criaças de antes da revolução dos cravos. Foi seguramente um conceito de que só entendemos o significado mais de dez anos depois, mas naquela noite éramos apenas uns Hans Brinker, desolados e sós, com o dedo no botão da tv num bairro de funcionários da KLM junto ao Rio Amstel à espera que algum adulto viesse em nosso auxílio e nos desse permissão para crescer.

Em Viagem - Parte 2

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.19

 

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Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali... 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada... foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck's  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido "entornada" pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e... seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Dois assassínios a sangue-frio

por Pedro Correia, em 10.11.19

 

O número de pessoas mortas pelos guardas fronteiriços de Berlim-Leste, quando pretendiam fugir para o Ocidente, não é totalmente conhecido. Há quem fale em 125, há quem garanta que foram 290 ou ainda mais. Mas sabe-se quem foi o primeiro e quem foi o último da longa lista de vítimas da ditadura comunista que ergueu o Muro de Berlim com 45 mil blocos de cimento armado e 302 torres de controlo numa extensão de 155 quilómetros.

É justo recordar-lhes os nomes neste 30.º aniversário do fim do mais sinistro símbolo da Guerra Fria.

O primeiro chamava-se Peter Fechter. Era um operário de 18 anos que ao princípio da tarde de 17 de Agosto de 1962 decidiu subir o Muro, perto do Checkpoint Charlie, na companhia de um amigo chamado Helmut. Não chegou ao cimo: foi alvejado com vários tiros que o fizeram cair. Gravemente ferido, gritou por socorro. Diversos transeuntes quiseram ajudá-lo, tendo sido dissuadidos pelos guardas fronteiriços que deixaram o jovem sangrar até à morte. Morreu cerca de uma hora depois, perante a dolorosa impotência de centenas de pessoas que testemunharam o episódio de ambos os lados da fronteira. Dos três guardas que alvejaram a sangue-frio este jovem desarmado, nenhum deles passou um só dia na prisão.

O último chamava-se Chris Gueffroy. Era um estudante de 20 anos que também na companhia de um amigo, chamado Christian, a 6 de Fevereiro de 1989 escalou a rede de arame farpado que fazia de fronteira entre Berlim Leste e Ocidental na zona do canal de Britz. Na véspera, um guarda fronteiriço assegurara-lhe que poderia passar para o Ocidente sem grande transtorno, pois havia novas instruções expressas, por parte do regime comunista, para não atirar a matar contra ninguém. A informação era falsa e Chris foi vítima dessa mentira: recebeu dez tiros, quando se encontrava já no topo do arame farpado, e ficou ali, agonizando até à morte. Cada um dos quatro guardas que o alvejaram recebeu um louvor e um prémio pecuniário de 150 marcos leste-alemães. Mais tarde, já após a reunificação da Alemanha, um deles viria a ser condenado a três anos e meio de prisão, sentença alterada para dois anos de prisão com pena suspensa.

Peter e Chris: dois jovens que pagaram com a vida por quererem rumar à liberdade.

 

Imagem de cima: Peter Fechter sangrando até à morte (17 de Agosto de 1962)

«Something is rotten in the state of Denmark»*

por Cristina Torrão, em 10.11.19

Quando se fala na compra da Gronelândia, por parte dos EUA, costumo rir-me, na convicção de que a Dinamarca nunca o irá permitir. Há dias, porém, vi um documentário televisivo num canal alemão que me transformou esse riso num sorriso amarelo.

A Dinamarca, um país que se considera civilizado, tem mais em comum com os EUA de Trump do que o que se poderia pensar. Perante os olhares perplexos dos cidadãos dinamarqueses e alemães, o país escandinavo constrói, desde o Verão, uma cerca de metal ao longo de toda a fronteira que separa os dois países.

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Imagem daqui

A fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca tem uma extensão de apenas 70 km, uma estreita faixa de terra entre os Mares do Norte e Báltico. Com o pretexto de se protegerem da peste suína africana, os dinamarqueses procedem à construção de uma cerca de metal com 1,50 m de altura, obra orçada em 10 milhões de euros. Apenas as estradas com postos fronteiriços serão poupadas. O motivo alegado é recearem que os javalis vindos da Alemanha possam levar consigo o vírus da peste suína africana, apesar de a doença não existir no país da Sra. Merkel. Os dinamarqueses, porém, alegam que, no ano passado, a peste suína africana foi detectada na Bélgica, a apenas 60 km da fronteira alemã. E, pelos vistos, acham que mais vale prevenir do que remediar.

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Imagem daqui

A população local, tanto de um lado, como do outro, está perplexa e descontente. Afinal, estamos a falar da fronteira entre dois países da Comunidade Europeia. Além disso, no Norte da Alemanha vivem muitos dinamarqueses, assim como é numerosa a comunidade alemã no Sul da Dinamarca. A cerca está a ser construída em plena natureza, em locais por onde as pessoas passeavam livremente, sem se preocuparem em que país estavam. Principalmente os alemães, que festejam, nesta altura, os trinta anos da queda do muro de Berlim, mostram-se muito desiludidos.

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Imagem daqui

Muita gente duvida da razão apresentada pelos dinamarqueses. Também o Ministro da Agricultura e do Ambiente do Schleswig-Holstein (o Land alemão que faz fronteira com a Dinamarca) põe em causa o sentido e a necessidade da construção da cerca. Afinal, serão as próprias pessoas, não os javalis, quem mais contribui para a disseminação da peste suína africana, nomeadamente, através do transporte de animais e de rações e de excursões de caça, sem se verificarem medidas de higiene e segurança. Por isso, se desconfia que a Dinamarca pretende proteger-se de outros “perigos”. É sabido, por exemplo, que, desde 2015, entraram quase dois milhões de refugiados e migrantes na Alemanha. Ou tratar-se-á de outro motivo, desconhecido de todos (menos do governo dinamarquês, claro)? A falta de transparência é incompreensível e está aberta a especulação.

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Imagem daqui

Os jovens dos dois países têm protestado pacificamente, por exemplo, usando a cerca como rede de voleibol, onde a bola é jogada de um país para o outro, ou enfeitando a cerca com artefactos coloridos. Mas a sua construção continua. E eu começo a acreditar que não será assim tão difícil o governo dinamarquês entrar em acordo com o Trump...

 

*In Hamlet, William Shakespeare

As duas Alemanhas

por Paulo Sousa, em 10.11.19

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Não sei se está publicado em português mas este The shortest history of Germany é um livro especialmete interessante para quem não se satisfaz com os chavões ditos e repetidos sempre que se fala da Alemanha e dos alemães.

Ao contrário do que se possa pensar, e especialmente nesta data em que se celebra a queda do Muro de Berlim, as duas Alemanhas não são um conceito do pós-guerra.

Os limites do império romano (limes germanicus), que correspondem às margens do Reno e do Danúbio, serviram no sec IX para demarcar a partilha de territórios entre os netos de Carlos Magno. Depois disso coincidiram com a divisão entre católicos e protestantes e mais tarde separaram os industriais dos junkers militaristas prussianos ávidos pelos impostos cobrados nos estados ocidentais. Apenas 17% dos residentes a oeste dessa linha votaram no partido Nazi em 1933, mas foram que eles suportaram o grosso do esforço financeiro da guerra. A fronteira entre a RDA e a RFA era mais próxima das margens do Elba, um pouco mais para leste desta linha histórica, mas no fundo a divisão entre wessi e ossi só acentuou a que existia muito antes do inicio da cortina de ferro.

Tal como no início da industrialização, actualmente as diferenças de produtividade são abissais entre este e oeste. A capital da reunifcação, Berlim, é prussiana e com 4,5 milhões de habitantes recebe mais fundos públicos que a Baviera com 12,5 milhões. As previsões de evolução demográfica até 2030 apontam para uma quebra igual ou superior a 10% da população nos estado a leste. O alemães ocidentais fazem piadas sobre isso. Qual a diferença entre um emigrante turco e um ossi? O turco fala alemão e trabalha. Porque é que os chineses andam contentes? Porque ainda têm o muro. Se a Europa pode ter um brexit porque é que a Alemanha não pode ter um Säxit (relativo à Saxónia)?

O autor ainda relaciona os mais recentes resultados eleitorais com estas duas partes da Alemanha e mais uma vez é no leste que os partidos radicais como o Die Linke, o AfD  e o NPD têm maior expressão. Simplificando algo complexo, na maior democracia liberal da Europa os partidos moderados são apoiados principalmente pelos estados da ex-RFA, maioritariamente católicos e é na região da ex-RDA que os extremistas têm mais expressão.

O muro caiu há 30 anos mas a divisão das duas Alemanhas tem mais de 1000.

RDA, 1949-1989

por Pedro Correia, em 09.11.19

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Tanques soviéticos esmagando a rebelião operária em Berlim-Leste, capital da República "Democrática" Alemã (17 de Junho de 1953)

 

O fim da ditadura. O fim da repressão. O fim do partido único. O fim das manifestações orquestradas a favor dos ditadores Ulbricht e Honecker. O fim do vergonhoso servilismo perante a União Soviética. O fim dos "crimes" de natureza política. O fim da sociedade de delatores, tão bem retratada nessa obra-prima do cinema contemporâneo que é A Vida dos Outros. O fim da proibição do direito à greve. O fim da proibição do direito à manifestação. O fim da imprensa amordaçada, submetida ao pensamento único do Partido. O fim da polícia política. O fim dos delitos de opinião. O fim da Stasi - a PIDE leste-alemã. O fim dos tiros disparados, na calada da noite, contra quem ousasse transpor a fronteira. O fim da perversão da palavra democracia, usada como emblema de um Estado que sempre a espezinhou.

Além do derrube do Muro, é também isto que hoje festejamos. O fim de um pesadelo que durou 40 anos.

O Muro não caiu: foi derrubado

por Pedro Correia, em 09.11.19

É frequente ouvirmos dizer que o Muro de Berlim "caiu", como se isso tivesse acontecido graças à lei da gravidade. Mas não "caiu": foi derrubado faz hoje 30 anos por largos milhares de pessoas sedentas de liberdade, que queriam viver numa sociedade democrática e entre 13 de Agosto de 1961 e 9 de Novembro de 1989 estiveram impedidas de circular livremente na própria cidade onde viviam.

É só um pormenor. Mas que faz toda a diferença.

"Barco Negro"

por Cristina Torrão, em 31.10.19

Barco Negro.jpg

 

Depois de ter postado aqui sobre os “Portugal-Krimis”, ou seja, livros policiais situados em território português, mas escritos por alemães, houve um escritor, com pseudónimo Mario Lima, que se manifestou nos comentários. Este autor alemão vive há vários anos no Minho com a mulher e três gatos e dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto.

Fiquei curiosa quanto aos seus livros, não só por ter trocado impressões com ele, como por ele os situar no Porto, uma cidade que me diz muito. Nasci em Castelo de Paiva, vivi muitos anos em Vila Nova de Gaia e licenciei-me na Universidade do Porto. A personagem principal dos dois livros de Mario Lima é o inspector Fonseca, da PJ do Porto.

Li o primeiro, Barco Negro, inspirado no lindíssimo fado homónimo de Amália Rodrigues (no link indicado, pode ouvir-se a versão original e a cantada por Mariza). Trata-se de um enredo bem construído e uma leitura que entretém, mantendo o leitor em suspense. Não há dúvida de que Mario Lima conhece bem o Porto e Matosinhos e consegue transmitir a atmosfera dessas duas cidades, pelo menos, no Inverno. Este foi um aspecto que apreciei particularmente. Ainda não li mais nenhum destes “Portugal-Krimis”, mas sempre imaginei que os autores falassem muito do sol e das praias.

Pois bem, a acção de Barco Negro decorre de início de Novembro até Janeiro do ano seguinte, ou seja, em plena estação fria e cheia da chuva. A história inicia-se debaixo de uma chuva torrencial, que atrapalha o trabalho dos investigadores da PJ, quando surgem dois cadáveres em Perafita, Matosinhos. Embora haja dias de sol pelo meio, o frio não deixa de nos perseguir durante todo o livro, havendo inclusive uma cena passada perto de uma casa de montanha, na zona de Montalegre, com temperaturas abaixo de zero. Pois, isto também é Portugal! Achei igualmente interessante alguma referência ao tempo da ditadura e à PIDE.

Entre os investigadores da PJ, encontra-se uma jovem estagiária, psicóloga, que, na verdade, chega a roubar protagonismo ao inspector Fonseca, perguntando-se o leitor quem será, afinal, a personagem principal. Enfim, o inspector Fonseca é o único que vem mencionado na capa dos dois livros. Não sei como é no segundo, Tod in Porto (Morte no Porto), mas, na minha opinião, se Mario Lima pretende criar um inspector carismático para a sua série de policiais, vai ter de se dedicar mais ao Fonseca e refrear a sua “paixão” pela bonita e sexy Ana Cristina.

Infelizmente, o livro só existe em língua alemã e eu recomendaria a sua tradução. Se há algo que aprecio em obras destas, é a nossa imagem vista por alguém de fora. Por isso, não resisto a traduzir uma pequena passagem da página 265. O cenário é um hipermercado em vésperas de consoada natalícia:

«Na secção do peixe, encontravam-se quantidades extra de bacalhaus empilhados sobre mesas. Escolher o bacalhau certo para a consoada não era resolução para tomar de ânimo leve. Todos se aglomeravam à volta das mesas, cada qual o melhor especialista na matéria. Um bacalhau assim, salgado e seco, não devia ter uma cor muito esbranquiçada e também a consistência era importante: fosse ele mole demais, não servia. As pessoas pegavam nos bacalhaus e vergavam-nos, de olhar crítico. Era aquele o certo? A maior parte dos peixes acabava por ser novamente atirada para a pilha. Não haveria melhor? Casais mais velhos entreolhavam-se preocupados, abanando a cabeça. “Não valem nada”. Uma velhota baixinha desconfiava que os melhores estavam escondidos bem lá no fundo. Resoluta, arrancava um bacalhau a seguir ao outro do fundo da pilha, atirando-os para cima do monte, examinando cada um deles de testa franzida. Nada, mais uma vez. Venha o próximo!»

O voto dos emigrantes (2)

por Cristina Torrão, em 12.10.19

Enquanto não estão apurados os votos dos emigrantes para as legislativas, aqui vão mais algumas curiosidades sobre a forma como decorrem as eleições dos portugueses que vivem no estrangeiro, mais uma vez, baseada em artigos do jornal português na Alemanha PT-POST:

Contrariamente ao que eu disse neste meu postal, há voto por correspondência, embora apenas nas legislativas (nas europeias e nas presidenciais não). Ora, isto pode animar mais cidadãos a votarem, pois, pelo menos, no caso da Alemanha, não se vêem obrigados a andarem até 400 km para exercerem o seu dever cívico. Além disso, com o recenseamento automático (ao tirar, ou renovar, o Cartão do Cidadão) os números dos eleitores estão mais compostos, passaram de 300.000 recenseados para quase um milhão e meio. Até aqui, tudo bem, só boas notícias. E há mais uma: pela primeira vez, nas legislativas, havia a opção de voto presencial nos consulados, o que ajuda a poupar dinheiro e papelada.

Porém, e o nosso país não seria o mesmo sem o reverso da medalha, a opção pelo voto presencial tinha de ser comunicada até sessenta dias antes do acto eleitoral (ou seja, até 6 de Agosto). Por um lado, compreende-se. Preparar o voto por correspondência leva o seu tempo. E não fazia sentido gastar-se tempo e dinheiro com a documentação de um eleitor que deita os papeis fora, ao decidir ir votar no consulado. O problema é que esta opção não foi suficientemente divulgada. Eu, por exemplo, só o soube ao ler o jornal um ou dois dias antes das eleições.

Teria sido a falta de divulgação o motivo para que, na Europa, um universo de 402.527 eleitores, apenas vinte e quatro (24!) tivessem optado por votar nos consulados? Na Alemanha (em toda a Alemanha) foram apenas sete, no Luxemburgo três e no Reino Unido oito. Acaba por ser pior a emenda do que o soneto, pois obriga a mesas abertas nos consulados para recolher o voto de dois ou três eleitores. O caso mais caricato parece que foi o do consulado de Paris, uma situação que até põe em causa o sigilo do voto, pois apenas um eleitor optou pelo voto presencial.

Outro tema é o número fixo de deputados, não sujeito a correcções dependentes da evolução da população eleitora. Mesmo considerando o facto de que, ao contrário dos residentes em território nacional, não participamos directamente na vida política, além de que trabalhamos e pagamos os nossos impostos noutro país, penso que todos concordarão em que quatro deputados para milhão e meio de eleitores recenseados (cinco milhões de residentes) é muito pouco.

Outros problemas que se verificaram, segundo esta notícia: emigrantes que não chegaram a receber os boletins de voto, por envio do envelope para moradas erradas; atrasos nos correios que deverão inviabilizar a chegada no prazo estabelecido; erros no recenseamento; e má interpretação do porte pago pelos serviços postais de alguns países - como na Alemanha, onde eleitores portugueses receberam o envelope de volta, com o pretexto de faltar o selo! Pelos vistos, há funcionários dos correios que não sabem o significado de port payé. Mas quem é que aprende francês, hoje em dia?

Sem receio da mudança

por Cristina Torrão, em 22.08.19

Horst Wochenblatt (2).jpg

Imagem Wochenblatt

Estou muito orgulhosa do "meu" Horst. Atreveu-se a mudar de emprego aos 56 anos e até teve direito a reportagem no jornal diário local. Trabalha, desde 1 de Agosto, na Câmara de Stade, a sua cidade-natal e onde vivemos há 20 anos, como planeador de tráfego, fazendo parte de uma equipa que pretende criar um novo conceito para a cidade, dando mais espaço aos peões e aos ciclistas (não, a Greta Thunberg não vai resolver os problemas ambientais do planeta, mas o movimento por ela iniciado está a ter reflexos e é isso que importa; quem, de nós, conseguiria tal proeza?).

Esta decisão do Horst exigiu coragem, pois, apesar de continuar funcionário público, está à experiência por seis meses. Se algo correr mal, pode ser despedido ao fim desse tempo. Para isso, rescindiu um contrato de trabalho vitalício, que tinha com a Câmara de Hamburgo, onde trabalhava há 26 anos. Como sabem, a Alemanha é uma federação de estados. Hamburgo é uma cidade-estado; Stade, apesar de estar a apenas 50 km, pertence ao estado da Baixa Saxónia. Um funcionário público não pode mudar de estado, mantendo o mesmo contrato, pois a entidade empregadora é diferente. Mas há-de tudo correr bem, estamos confiantes.

O emprego em Stade, além de lhe proporcionar fazer um trabalho para o qual está muito motivado, fica pertinho de casa. É só agarrar na bicicleta e, em dez minutos, chega ao emprego. Um verdadeiro sonho para quem, durante 20 anos, viajou de comboio todos os dias para Hamburgo, uma hora para cada lado.

O Horst merece.

Obs: a bicicleta dele não é eléctrica.

Muito bem, Alemanha!

por Cristina Torrão, em 01.08.19

A Alemanha recusou tomar parte na “Operation Sentinel” de Trump, no Estreito de Ormuz. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão declarou estar fora de questão seguir a estratégia de confrontação dos EUA, que pode levar a uma escalação perigosa do conflito (link em alemão). O governo alemão continua a considerar a via diplomática como a melhor forma de lidar com o problema.

Apoio a posição da Alemanha que visa, acima de tudo, preservar a união europeia e distanciar-se da linha conflituosa de Trump. Com Boris Johnson, a Grã-Bretanha mudou de estratégia, deixando de apelar a uma acção conjunta europeia, para se pôr sob a protecção dos EUA. Este país, no entanto, solicitou a colaboração alemã, numa óbvia tentativa de forçar a Europa a dançar sob a sua batuta (e a dividi-la). Esteve bem o governo alemão, ao declarar que, não chegando a diplomacia, a Alemanha só admitirá o envio de forças militares para o Estreito de Ormuz numa acção conjunta europeia, dispensando o comando norte-americano.

O voto dos emigrantes

por Cristina Torrão, em 22.07.19

Mesas de Voto.jpg

Peço desculpa pelo atraso, pois as eleições europeias já lá vão. Mas não quis deixar de citar um artigo do PT Post (jornal português na Alemanha, antigo Portugal Post), na sua edição de Junho. E isto porque, em Portugal, se sabe muito pouco sobre os portugueses que vivem no estrangeiro, das suas preocupações e dos seus problemas.

Exercer o direito de voto é, por exemplo, um grande problema, pelo menos, para quem vive na Alemanha, desde que acabaram com o voto por correspondência. E, afinal, o assunto é actual, pois as próximas eleições estão à porta. Para quem se pergunta porque só cerca de 2 ou 3% dos portugueses na Alemanha votam, aqui vai um excerto do artigo:

«A organização das eleições para o Parlamento Europeu na rede consular na Alemanha mereceu forte consternação e contestação por parte dos conselheiros das comunidades da Secção Local do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) na Alemanha, expressas em missiva aos governantes, deputados e diplomatas portugueses antes da realização do acto eleitoral».

«O objecto de descontentamento dos conselheiros foi o número limitado de mesas de voto destinadas a esta eleição (quatro, uma por secção consular na Alemanha) especialmente face ao que alegaram ser a facilidade de desdobramento de mesas face à existência do Consulado Honorário em Munique, do Escritório Consular em Hatterheim no Meno, de várias Antenas Consulares e ainda Permanências Consulares em diversas cidades».

Os conselheiros questionam inclusive «se há por parte das Instituições em Portugal interesse em que as Comunidades se afirmem na sua participação cívica e de cidadania (…) Manuel Campos, uma figura muito conceituada da emigração na Alemanha, e antigo sindicalista e diplomata pela Alemanha no Brasil (…) levantou ainda a questão se “existe um único cidadão em Portugal que esteja disposto a viajar 400 km para exercer o seu direito de voto”».

Quatro mesas de voto num país com quase 350 000 km² de área? Devem estar a brincar connosco.

Eu, por acaso, até tenho sorte: "só" preciso de andar 60 km (para cada lado) para ir votar…

Atentado

por Cristina Torrão, em 20.07.19

Hoje, os edifícios públicos alemães apresentam-se com bandeira hasteada e há festejos em Berlim. Faz 75 anos que o coronel Claus von Stauffenberg tentou assassinar Hitler com uma bomba.

Será legítimo comemorar um atentado? Pode alguém que planeou matar uma pessoa ser considerado um herói? É legítimo acabar com vidas para salvar mais vidas?

Hitler era um psicopata assassino. E se o atentado do coronel Claus von Stauffenberg tivesse sido bem sucedido, teria sido assinado um armistício com os Aliados e as mortes causadas pela II Guerra Mundial ficariam pela metade, já que o últmo ano foi de longe o mais mortífero.

Hitler sobreviveu a vários atentados, este foi um deles. A guerra não terminou mais cedo. Claus von Stauffenberg foi executado nessa mesma noite. E hoje é um herói alemão.

 

 

Nota: esta tentativa de assassínio de Hitler foi retratada no filme Operação Valquíria, de 2008, realizado por Bryan Singer, com Tom Cruise e Kenneth Branagh.

"Portugal-Krimis"

por Cristina Torrão, em 06.07.19

Krimi é a interessante palavra que na Alemanha se usa para livro policial. Portugal-Krimis são policiais portugueses. Estão na moda, aqui no país da Sra. Merkel. Estranho, não é? Não há notícia de livros portugueses com sucesso na Alemanha. Além disso, não se escrevem muitos policiais made in Portugal. Pois é, estes passam-se em Portugal, mas são escritos por… alemães!

São um sucesso editorial e muito recomendados agora para a época de férias. Por acaso, o meu marido já leu um deles: Lost in Fuseta.

Lost in Fuseta.jpg

O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações). Lost in Fuseta é a primeira aventura de Leander Lost por terras algarvias, mas a série já vai, entretanto, no terceiro volume.

Tod in Porto.jpg

Tod in Porto (“Morte no Porto”), é o segundo caso do inspector Fonseca e da sua equipa da Judiciária. O autor é um alemão que vive há vários anos em Portugal e usa o pseudónimo Mario Lima (na Alemanha não se põem acentos).

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Mord auf Portugiesich (“Assassínio em Português”) passa-se numa pequena aldeia no Norte de Portugal (junto à costa) e tem a assinatura da jornalista alemã free-lancer Heidi van Elderen.

Fado Fatal.jpg

Fado Fatal (dispensa tradução), outro policial situado no Porto, de Hanne Holms. Esta autora já publicou um Krimi passado na Toscana e outro em Maiorca. Agora, pelos vistos, foi a vez de Portugal.

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Letzte Spur Algarve (“Última pista: Algarve”), de Carolina Conrad, conta a aventura de uma jornalista alemã, filha de portugueses, chamada Anabela Silva, que resolveu mudar-se para a aldeia de origem dos seus pais (no interior algarvio). Trata-se de uma jornalista muito curiosa e logo se vê envolvida numa investigação policial comandada pelo comissário João Almeida. Parece que o enredo é apimentado com um caso amoroso entre os dois.

Portugiesisches Blut.jpg

Portugiesisches Blut (“Sangue Português“ - assinalado como "Lissabon-Krimi), de Luis Sellano, é a quarta aventura de um alemão, Henrik Falkner, que vive em Lisboa. Luis Sellano é (já adivinharam; e sem acento) o pseudónimo do autor alemão.

Madeirasturm.jpg

Madeirasturm (“Tempestade na Madeira”, ou "Tempestade madeirense") tem autoria de Joyce Summer, o pseudónimo de uma autora de Hamburgo. Criou o comissário madeirense Ávila e este é o seu segundo caso.

Ecologia evita triunfo da extrema-direita

por Cristina Torrão, em 27.05.19

Europawahl 2019.JPG

 

A ecologia vai passar a marcar a agenda política alemã, algo já anunciado pelo "Bloco Central" CDU/CSU e SPD (que aliás governa este país). Os Democratas-Cristãos perderam votos, os Socialistas ainda mais, não chegaram aos 16% (a falta que faz um Costa...). Os grandes vencedores são os Verdes, que quase duplicaram a votação (em relação às Europeias anteriores), atingindo 20,5%.

Os partidos do governo não vêem outra hipótese que não seja dedicarem-se ao tema que actualmente mobiliza os jovens alemães. Tudo por causa da Greta Thunberg, claro. Desculpem insistir, mas esta é uma realidade. E fico muito feliz, pois previa-se um triunfo da extrema-direita AfD, temia-se que se tornasse no segundo partido mais votado. Apesar de ter subido ligeiramente, atingindo os 11%, ficou muito longe da meta desejada.

Não tenho agora dados respeitantes à abstenção, mas sei que ficou aquém dos 40%. Os alemães, sobretudo os jovens, estão de parabéns!

Acresce dizer que os Verdes alemães em nada se assemelham aos inúteis Verdes portugueses, afectos aos comunistas.  Usando as palavras da jornalista Helena Ferro de Gouveia: soma às preocupações ambientais (que vão para além do clima), preocupações sociais (respeito pelas minorias, defesa dos migrantes e refugiados), uma política económica (quase) liberal e não hostil às empresas (o velho modelo alemão da economia social de mercado), profundo europeísmo e a igualdade de género praticada, não apregoada.

Queria aproveitar para dar os parabéns ao PAN. Um partido tão pequeno e menosprezado, mas que incomoda tanta gente, é mesmo para ser levado a sério. Estou convencida de que Portugal precisa do PAN e espero que se mantenha fiel a si mesmo.

Podem falar de infantilização, mas talvez seja mesmo disso que precisamos: descer do nosso pedestal de adultos muito cientes da sua sabedoria, a fim de ouvir os mais novos. Só assim os cativaremos e motivaremos. E tenho a certeza de que eles têm muito para nos dizer.


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