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Delito de Opinião

Lost in Fuseta

Cristina Torrão, 09.09.22

Não é todos os dias que se recebem comentários a um postal publicado há mais de três anos, mas ontem aconteceu-me. E qual não foi a minha surpresa, quando hoje deparo com mais um.

Escrevia eu, a 6 de Julho de 2019, sobre Portugal-Krimis, ou seja, livros policiais alemães, tendo Portugal como cenário.

E falava então no Lost in Fuseta, de Gil Ribeiro:

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O autor, um alemão com o pseudónimo Gil Ribeiro, brinca com a palavra Lost, pois o seu investigador chama-se Leander Lost, um alemão que, na sequência de um intercâmbio policial (nem sei se isso existe), é colocado na Fuseta. Ou seja, a tradução directa do título não é “Perdido na Fuseta”, embora o Leander Lost se sinta muitas vezes perdido. Este investigador tem o síndrome de Asperger, o que o torna num polícia muito especial: tem uma memória fotográfica (muito útil, na sua profissão), não sabe mentir (o que, por vezes, é desvantajoso) e encara os acontecimentos destituído de emoção (o que lhe permite manter o sangue-frio em certas situações).

Ontem, a comentadora Paula Bonifácio Vilas disse que a televisão alemã ia passar o filme Lost in Fuseta no Sábado. Por acaso, o meu marido, que já leu duas ou três aventuras algarvias do Leander Lost, já me tinha falado nisso. Hoje, o comentador Artur Nunes pedia um link, onde se pudesse assistir ao primeiro episódio.

De facto, trata-se de um série e o ARD (1º canal alemão, ou Das Erste) até vai apresentar amanhã os dois primeiros episódios. A minha revista televisiva apresenta o primeiro com a frase: Jetzt geht's also an die Algarve! - «Agora, vai-se então até ao Algarve!»

Lost in Fuseta 1 a.png

Este episódio vai ser apresentado às 20h15m, o segundo às 21h45m (hora alemã).

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Ambos podem ser já vistos online, na Mediathek do ARD. Já deixei os links ao comentador Artur Nunes, mas aqui vão, mais uma vez, caso haja mais alguém interessado. Para quem não percebe alemão, servem para ir dar uma olhada.

Primeiro episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-1-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vYTJjM2Y1NWMtOGQ5Yy00ZTc1LTljNDAtMTNmNTNjOWZiMWJi

Segundo episódio:

https://www.ardmediathek.de/video/krimis-im-ersten/lost-in-fuseta-2-ein-krimi-aus-portugal/das-erste/Y3JpZDovL2Rhc2Vyc3RlLmRlL2tyaW1pcy1pbS1lcnN0ZW4vMDg3MjI3OWUtMjJiNy00MWNjLWFhOTUtOWI3NzgwZDU3NjRj

 

Portugueses em Cuxhaven

Cristina Torrão, 26.05.22

Por vezes, há coincidências interessantes. Tinha eu acabado de publicar (aqui e aqui) fotografias de Cuxhaven, quando o Jornal Católico da Diocese de Hildesheim (do qual sou assinante) publicou uma reportagem sobre os portugueses daquela cidade costeira, na sua edição nº 19, do passado dia 15 de Maio.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (1).jp

Em Cuxhaven, vivem cidadãos de 112 nações diferentes e a comunidade mais numerosa é, precisamente, a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas. Estamos no Norte da Alemanha, de maioria Protestante, de maneira que os portugueses representam uma parte importante da paróquia católica de Santa Maria.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (2).jp

Duas portuguesas mereceram destaque, nesta reportagem. Maria Santos é, há vários anos, a coordenadora da comunidade portuguesa da paróquia. No dia da visita do jornal, Maria Santos não tinha mãos a medir, pois as crianças da primeira comunhão treinavam para o grande dia e, a 14 de Maio, como todos os anos, far-se-ia a procissão de Nossa Senhora de Fátima.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (3).jp

A outra senhora destacada é Áuria da Cunha, em Cuxhaven desde 1969. Tinha 22 anos, quando lá chegou, a fim de trabalhar na indústria pesqueira, como muitas outros portugueses e portuguesas. A missa na língua de Camões realiza-se todos os sábados, às 16h 15m. Áuria da Cunha chega sempre à igreja meia hora mais cedo, a fim de ter tempo de rezar primeiro o terço, na companhia de algumas outras pessoas.

Na verdade, trata-se de uma missa só em parte portuguesa, já que, à falta de um padre da nossa terra, é rezada em alemão, enquanto a comunidade responde em português. Dois padres alternam-se na celebração: um alemão e um polaco. Este último, de nome Dabrowski, começou a aprender português há cerca de dois anos e reza já parte da cerimónia na nossa língua. «Vejo grande alegria e agradecimento nos olhos da comunidade, quando o faço», assegura o clérigo polaco.

As Associações portuguesas, que nasceram como cogumelos neste país nos anos 1960 e 70, há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações. Já as paróquias católicas continuam a ser um grande amparo para os portugueses emigrados. Porque, como diz Maria Santos, «sem Igreja, nada funciona» (ohne Kirche geht es nicht).

Os extremos tocam-se

Pedro Correia, 28.04.22

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Os herdeiros de Hitler e Estaline em Berlim, agora agrupados sob as siglas Alternativa Para a Alemanha (extrema-direita) e A Esquerda (extrema-esquerda) uniram-se hoje, no Bundestag, contra a decisão do Governo de enviar armamento pesado para Kiev - medida vital para garantir a legítima defesa da Ucrânia face ao invasor russo.

É enternecedor ver como Vladímir Putin continua a congregar fascistas e comunistas. Os extremos tocam-se.

Felizmente são segmentos minoritários da sociedade alemã, largamente solidária com o martirizado povo ucraniano. A inédita decisão do Executivo tripartido - formado por sociais-democratas, liberais e verdes - mereceu apoio esmagador no Parlamento: 586 votos a favor (incluindo os cristãos-democratas, agora principal força da oposição), 100 contra e sete abstenções.

Tal como naqueles anos de ascensão dos totalitarismos que marcaram quase todo o século XX, a História volta a escrever-se hora a hora à nossa frente. Com posições cada vez mais claras de parte a parte. No futuro lembraremos sempre onde nos situámos, uns e outros, nestes dias. 

Realidade paralela

Cristina Torrão, 16.12.21

Como é do conhecimento geral, a pandemia, na Alemanha, bateu todos os recordes neste Outono. Felizmente, a situação vai melhorando. Mas há grandes diferenças regionais. Enquanto a incidência (número de casos por 100.000 habitantes, no espaço de uma semana) nos estados do Sul e do Leste chegou a atingir valores de mais de 2.500 casos, no Norte, raramente passou dos 200 (está, digamos, ao nível da situação portuguesa). Haverá uma razão para tal? Bem, a grande diferença é a percentagem de vacinados e o número de negacionistas e/ou opositores das medidas de restrição. Apesar de a eficácia das vacinas não ser tão grande como pensávamos, não há como negar as evidências: no Norte, onde a percentagem de vacinados se aproxima da portuguesa, a situação tem estado controlada (felizmente, onde vivo); no Sul e no Leste, há concelhos com menos de 60% de vacinados.

O problema atinge extremos no Leste, principalmente, nos estados da Saxónia e da Turíngia (antiga RDA). As unidades de cuidados intensivos atingiram a ruptura, coisa que não se pensava ser possível, neste país, tendo sido necessário transferir doentes para os hospitais do Norte. Mas não nos iludamos: os negacionistas recusam-se a ver o óbvio, como se vivessem numa realidade paralela. E muitos deles tornam-se perigosos.

Ontem, a Polícia Judiciária da Saxónia fez buscas em vários apartamentos de Dresden, depois de ter sido detectado, no Telegram-messenger, um complô para assassinar o Ministro-Presidente daquele estado, Michael Kretschmer (da CDU, o partido da Merkel). Um homem foi preso, mas há mais quatro suspeitos, três homens e uma mulher, com idades entre os 32 e os 64 anos.

Uma história surreal tem-se vindo a passar em Königs Wusterhausen, uma pequena cidade a sudeste de Berlim: um homem, que matou a tiro a mulher e três filhas pequenas, suicidando-se de seguida, é festejado como mártir pelo grupo a que pertencia, criado no Telegram-messenger e intitulado Freiheitsboten Königs Wusterhausen - qualquer coisa como: “os mensageiros da liberdade Königs Wusterhausen”. Depois da tragédia, foi postada, nesse grupo, uma fotografia da casa da família, com as palavras: “ele era um amigo, assim como a sua mulher”. Na verdade, Devid R., o assassino suicida, falsificava certificados de vacinação e o patrão da esposa começou a desconfiar dessas actividades. Numa carta de despedida, Devid R. esclarece que assim agiu com medo de ser preso e de ficar sem as filhas. Passada semana e meia, um grupo de cerca de mil pessoas fez uma marcha pela cidade, festejando o seu mártir e apelando à rebelião contra as medidas sanitárias.

O caso mais surreal, até agora, deu-se, porém, na Áustria, país também conhecido pela sua baixa percentagem de vacinados e pelos movimentos negacionistas. Um grande mentor destes movimentos, Johann Biacsics, que não estava vacinado, deu entrada, no início de Novembro, num hospital de Viena, com dificuldades respiratórias e baixo teor de oxigénio no sangue. Os testes Covid deram positivo. Biacsics foi alertado para o seu estado grave, mas recusou o tratamento hospitalar, alegando que, se o seu problema era apenas a Covid, continuaria a tratar-se em casa com a administração, por via endovenosa, de uma infusão contendo dióxido de cloro, um “familiar” da lixívia!

Johann Biacsics acabou por morrer alguns dias depois, a 10 de Novembro. E que pensam disto os seus colegas de partido (o movimento está organizado num partido)? Pensam que Johann Biacsics foi envenenado, por ser uma ameaça à estratégia anti-Covid do governo! O seu próprio filho não hesita em afirmar: “Oficialmente, o meu pai consta da estatística de mortes por Covid. Mas eu sei que foi outra a causa”.

Sim, estamos cheios de pandemia e de restrições. Admito que algumas destas não façam sentido. Mas de nada adianta refugiarmo-nos numa realidade paralela.

Frederico e o legado que Hitler destruiu

João Pedro Pimenta, 14.12.21

Bem sei que neste blogue os posts sobre a Alemanha são mais credíveis e competentes se feitos pela Cristina Torrão, mais habilitada ara o efeito, mas não resisto à ocasião. Agora que há um novo chanceler na Alemanha e que Angela Merkel deixa o cargo que tanto tempo ocupou, é uma boa ocasião para falar de leituras recentes. Li há pouco tempo a biografia de Frederico II, o Grande, por Nancy Mitford. Aconselho vivamente, embora seja uma edição complicada de encontrar em português, dado que era dos Livros Cotovia, editora desaparecida há pouco tempo. A autora, ela própria proveniente de um conjunto muito biografável de irmãs, acedeu aos então pouco acessíveis arquivos das antigas RDA e Checoslováquia, obtendo um conjunto de documentos notável para a construção da vida do homem que reinou sobre o Brandeburgo-Prússia durante quase meio século.

 


Sempre achei que Frederico fosse a personalidade mais interessante do século XVIII. Conhecia, entre outras coisas, a sua enorme capacidade na guerra, a sua habilidade política, os seus interesses e contribuições para a filosofia e para a música, os anos que Voltaire passou na corte prussiana, a terrível relação com o seu pai, a sua sexualidade ambígua e o seu tão personalizado lar de Sans-Souci, que visitei há já muitos anos. Mas desconhecia outros elementos do seu pensamento e da sua política que não são aqueles que normalmente se atribuem à Prússia.

 

Era o modelo de Déspota Iluminado, é certo. Ainda assim, poucos estadistas da sua época se atreveriam a dizer que "sendo o soberano faço o que me apetece, e o povo diz e reza a quem lhe apetece". Assim, todos os livros eram livremente vendidos na Prússia, quaisquer que fossem as suas ideias. As discussões eram livres e a liberdade de culto também. Sendo um dos líderes mais importantes do protestantismo, embora pouco religioso - na realidade, mais deísta que religioso - Frederico não via com bons olhos o catolicismo, mas para mostrar a sua tolerância e acolher migrantes católicos, mandou construir uma enorme igreja católica no centro de Berlim, que ainda hoje lá está. Uma das políticas era precisamente a de acolher gente de fora para povoar os territórios pouco povoados da Prússia Oriental, ou de novos territórios adquiridos. Desta forma, e seguindo uma política iniciada pelo seu pai, Frederico Guilherme I, acolheu protestantes fugidos do Sacro Império, sobretudo de Salzburgo, mas também católicos, judeus, diversas seitas cristãs, e a todos deixou construir os seus templos. Chegou a afirmar que se fosse preciso, permitiria migrantes muçulmanos vindos da Turquia e construir-lhes-ia uma mesquita (uma ideia que antecedeu em duzentos anos a imigração turca para a Alemanha).

Frederico defendia também a mistura de raças. Achava que era fundamento de civilização e que produzia pessoas inteligentes. É certo que a necessidade é que originou tanta imigração, já que perto de um décimo da população do reino tinha perecido com a terrível guerra dos Sete Anos. No fim do seu reinado, um sexto dos súbditos nascera no estrangeiro.

Também promoveu sérias reformas em termos de direitos e de sanções penais. Era ele que ratificava as penas de morte, que nunca eram numerosas, e nunca condenou mulheres. Aliás perdoou a um criado que tentou envenenar a sua bebida, e castigou-o enviando para o exército. Numa ocasião, passando nas ruas de Berlim, reparou numa caricatura sua no alto de m poste. À sua chegada, os transeuntes pararam logo de rir, atemorizados, ao que frederico disse para colocarem o boneco mais abaixo pois assim poderiam vê-lo melhor. Logo no início do reinado aboliu as torturas civis, que considerava cruéis e inúteis. A excepção era o exército, onde havia castigos severos, como chicotadas.

O mais espantoso disto é que tendo sido Frederico a tornar a Prússia numa potência europeia e a lançar as sementes do nacionalismo alemão, que fariam cem anos mais tarde os estados alemães juntar-se ao reino dos Hohenzollern, formando o Reich, aquela tenha ficado com uma tal fama militarista e bárbara que tenha mesmo acabado por ser extinta após a II Guerra. Para mais, é frequentemente ligada a Hitler, tal como o espírito alemão. O mentor do nazismo comparou-se nas campanhas que o levaram a chanceler, a Bismarck e a Frederico II. 

 


E no entanto, como se verificou, era precisamente o oposto do monarca prussiano. Frederico recebia gente de toda a Europa e defendia a mistura de raças. Hitler defendia a superioridade racial alemã e usou a solução final contra judeus e outros povos (o prussiano não morria de amores pelos judeus, mas nunca os perseguiu). Frederico autorizava todos os livros e toda a circulação de ideias, recebia os maiores pensadores da época e a sua corte de Potsdam era famosa como centro de discussão filosófica e de apoio às artes e letras, em especial a música (o próprio Frederico era exímio como flautista e escreveu obras valiosas, como O Anti-Maquiavel e a Histoire de la Guerre des Sept Ans, nunca editada mas considerada um dos melhores testemunhos narrativos daquela guerra). Hitler afastou ou obrigou à fuga de milhares de artistas, pensadores e intelectuais, organizou sessões de autos-de-fé de livros e reprimiu a chamada "arte degenerada" (e a liberdade de expressão nem se fala). Por fim, quando Frederico morreu, depois de 46 anos de reinado, a Prússia passara de uma reino bem administrado mas vassalo e subserviente a uma potência militar continental temida e duplicara território e população. Quando Hitler desapareceu ao fim de 12 anos, a Alemanha estava em ruínas, perdera milhões de habitantes, entre mortos, exilados e prisioneiros, tornara-se pasto dos seus inimigos, o seu nome estava manchado pela infâmia e ficara sem os seus territórios mais a leste (incluindo a Prússia originária e a capital, Konigsberg), territórios esses que, curiosamente e na sua maioria, fora Frederico a adquirir.

As únicas semelhanças serão talvez algum ímpeto guerreiro e de conquista, que levaram o rei da Prússia a vitórias brilhantes mas a algumas duras derrotas, como quando russos e austríacos ocuparam Berlim, duzentos anos anos anos de os primeiros o voltarem a fazer, com mais êxito. Também Dresden sofreu um primeiro bombardeamento arrasador, mas aí efectuado pelos próprios prussianos. De resto, Frederico contou muitas mais vitórias que derrotas e revelou-se um hábil diplomata quando teve de o demonstrar, reconciliando-se com os seus inimigos nos últimos anos, em especial a sua grande adversária Maria Teresa de Áustria.

É incrível como é que a Alemanha se viu enredada naquele pesadelo totalitário e apocalíptico quando um dos seus grandes obreiros tinha ideias absolutamente opostas. Como se o século XX tivesse regredido para níveis que no século XVIII achariam intoleráveis. O que mostra que o carácter e a cultura dos povos não é sempre igual nem se pauta sempre na mesma direcção. Há heranças que se quebram e que se esquecem. Há rumos que degeneram povos. Que o povo alemão tenha tido um Frederico e mais tarde um Hitler, que destruiu o legado do primeiro e que era em tudo o contrário (embora felizmente os chanceleres do pós-guerra também fossem completamente diferentes), aí está para o provar e para afirmar que certos ferretes que se colam estão longe de ser justos.

Poder de compra

Cristina Torrão, 24.07.21

O Paulo Sousa mostrou aqui o baixíssimo poder de compra dos portugueses, em relação à gasolina. Eu faço-o hoje em relação aos testes antigénio, que estão finalmente disponíveis nos supermercados portugueses.

Bem sei que são baratos, mas convém referir que, pelo preço de 2,79 €, um alemão, que ganha duas a três vezes mais do que um português, compra testes para toda a família.

Como referi, há dias, eles custam cerca de 80 cêntimos, na Alemanha. Se estiverem em promoção, são ainda mais baratos. Quando surgiram, no início de Maio, custavam 4,99 €, mas logo houve supermercados que baixaram o preço, provocando uma reacção em cadeia, escorregando o valor por ali abaixo.

É possível que aconteça semelhante em Portugal. Pelo menos, no LIDL (cadeia de supermercados alemã), vi os testes ontem por 2,69 €. E os leitores/comentadores deste blogue, o que já experienciaram?

 

Adenda: em relação ao preço da gasolina, tenho uma opinião muito dividida. Sei que há muita gente que depende do carro, mas também há muita (talvez mais) que bem podia prescindir dele. Além disso, aqui em Macedo de Cavaleiros, há o péssimo hábito de manter o motor ligado em circunstâncias injustificáveis, como quando se vai tomar café, por exemplo, ou mesmo lanchar, ou quando se conversa com alguém. O cúmulo foi um vizinho nosso que manteve o motor do carro ligado, enquanto lavava o veículo, operação que durou cerca de quinze minutos! Considero tal atitude uma falta de respeito pelo semelhante (já nem falo do ambiente). A que propósito tenho eu de aguentar o barulho do carro do vizinho e de lhe cheirar o escape, enquanto tomo chá na minha varanda? Quando assisto a cenas destas, peço desculpa, mas penso que a gasolina ainda não é suficientemente cara.

O assassinato nunca prescreve ("Mord verjährt nie")

Cristina Torrão, 30.04.21

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No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos ("30 Jahre", no texto em baixo).

 

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Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já aqui falei. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

Die Mauern von Porto.jpeg

Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é accionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspector Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem actual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

A equipa do inspector Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime...

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

 

 

Adenda: o post estava programado há alguns dias e soube hoje, dia 30/04, que o ZDF vai transmitir um documentário, às 00:30 horas, sobre novas técnicas de investigação criminal, apresentando o exemplo de um especialista em ADN que ajudou a localizar o assassino de um rapazinho desaparecido em 1996.

A trapalhada das vacinas

Cristina Torrão, 31.03.21

A vacina AstraZeneca (agora parece que se chama Vaxzevria) foi lançada com a recomendação de não ser administrada a pessoas acima dos 65 anos. Desde ontem ao fim da tarde, a Alemanha estabeleceu que a mesma vacina só deve ser ministrada a partir dos 60 anos!

A polémica com a AstraZeneca começou logo no início, ao ser imposta a restrição da idade. Muita gente ficou desconfiada. Passado algum tempo, foi suspensa, por supostamente causar coágulos sanguíneos no cérebro. A Agência Europeia de Medicamentos acabou por lhe dar caminho livre, dias depois, mas, na Dinamarca, por exemplo, a sua ministração ainda não foi retomada.

Entretanto, na Alemanha, já se contam mais de trinta casos de trombose cerebral relacionados com a toma da AstraZeneca. Nove dessas pessoas morreram. A maior parte dos casos deram-se com mulheres abaixo dos 55 anos, daí a resolução, ontem, de só ministrar a vacina a partir dos 60 anos. Porém, pessoas com mais de 70 também não a deverão tomar! Todos estes percalços põem as pessoas ainda mais inseguras, principalmente, professoras e enfermeiras que já tomaram a primeira dose desta vacina.

Em 2020, a Alemanha geriu bem a pandemia, mas, este ano, quando se pensava que tudo entraria nos eixos, veio o caos. Procedeu-se a um “lockdown light”, logo no início de Novembro (só fecharam cafés e restaurantes), mas, como os casos continuaram a aumentar até meados de Dezembro, decidiu-se o lockdown total, com fecho de cabeleireiros e todos os estabelecimentos não imprescindíveis. Dizia-se que assim o ano de 2021 começaria bem, até porque já se contava com as vacinas.

A gestão das ditas, porém, tem sido uma catástrofe. Organizaram-se grandes centros de vacinação, que acabaram por ficar às moscas, ao não haver vacinas suficientes, e alguns já começaram a ser desmantelados (a ministração das vacinas passará a ser feita pelo médico de família, depois da Páscoa). Tudo isto causou mal-estar na população. Junte-se a polémica da AstraZeneca e o facto de o número de casos ter vindo novamente a aumentar, de há três semanas para cá, apesar de todos os sacrifícios e restrições (cafés e restaurantes estão fechados desde o início de Novembro).

Na manhã de 23 de Março, os alemães não acreditavam nas notícias: o governo federal tinha resolvido decretar uma Páscoa em recolhimento total, que se deveria iniciar logo na Quinta-feira Santa, considerada feriado. Era certo e seguro o fecho dos supermercados. Mas… e o resto? Era feriado para todos? Os funcionários públicos deveriam trabalhar? E quem tinha consulta marcada no médico, ou hora no cabeleireiro? Foi tal o caos, que, ainda nesse mesmo dia, a chanceler Merkel veio pedir desculpa pela resolução, cancelando-a, assumindo toda a culpa e reconhecendo que tinha sido tomada muito em cima da hora.

Com tudo isto, o partido da chanceler, CDU, vem caindo a pique nas sondagens. A escolha do novo líder, no início do ano, não tem ajudado (Merkel há muito anunciara que não se recandidataria nas eleições deste ano). Armin Laschet, Ministro-presidente do estado da Renânia do Norte-Vestfália e considerado uma pessoa ponderada, tem falhado em posicionar-se como novo candidato a chanceler, com tendência para o dislate, pondo as pessoas embasbacadas, assim ao estilo do nosso Rui Rio. Pelos vistos, não conhece o modelo Costa, que faz muitos disparates, mas tem jeito para falar ao povo, bonacheirão e consensual.

Por acaso, calha-me bem que o governo federal tenha decretado a AstraZeneca para pessoas dos 60 aos 69 anos. Sou cismática e já tinha resolvido recusá-la, quando chegasse a minha vez, arriscando ir para o fim da fila. Com 55 anos, e apesar de já ser velhota para o Sr. Carlos Moedas, vejo-me, de repente, inserida no grupo das “mulheres mais jovens”. Isto, claro, se não se cumprir a profecia do meu marido: pelo andar da carruagem, quando eu for chamada, já devo ter atingido os tais sessenta...

HILFE!!!

Neve na minha rua

Cristina Torrão, 09.02.21

Na Alemanha, estamos atolados em neve. Estava a nevar quando me levantei, às sete da manhã, e ainda não parou.

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É frio, mas só cá fora. Resolve-se com agasalhos.

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Em ruas pequenas como a nossa, não há limpa-neves.

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Tem de se andar devagar. Mas não só quando há neve. Moramos numa “rua de brincar” (Spielstraße), as crianças (e os adultos, se quiserem) podem e devem brincar na rua. Têm absoluta prioridade, os carros andam a passo, ou seja, não mais do que 10 km/h, esteja o tempo que estiver.

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Atenção à placa!

Maus costumes

Cristina Torrão, 31.01.21

Apesar de Portugal pertencer ao triste grupo dos cinco países mais afectados pela pandemia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros apressou-se a criticar a decisão do governo alemão de interditar a entrada de cidadãos portugueses naquele país, mesmo sabendo que, nesta proibição, não estão incluídos os portugueses residentes na Alemanha, nem está em causa a circulação de mercadorias.

Um dia mais tarde (hoje), foi anunciado que a Alemanha vai enviar profissionais de saúde e equipamento médico para Portugal.

Os portugueses costumam ser muito lestos a criticar os outros. Será para esconderem melhor os seus defeitos?

Portugal não é um país de brandos costumes. É um país de maus costumes.

 

Nota: sei que é duro uma crítica deste género, em momento catastrófico. Mas seria bom que Portugal olhasse mais para dentro de si, uma capacidade que certamente teria ajudado a evitar chegar ao estado a que chegou.

 

Adenda: Sim, é verdade o que esta infecciologista diz. Na Alemanha, por exemplo, a variante inglesa entrou antes do Natal.

Um caco contador de histórias

Cristina Torrão, 10.07.20

O Jornal Católico do bispado alemão de Hildesheim tem, na sua última página, uma pequena secção reservada aos leitores intitulada “Isto é-me sagrado” (em alemão: Das ist mir heilig). O leitor envia uma fotografia de um objecto, ou de uma imagem, que lhe seja sagrado/a e explica a razão. Em muitos casos, trata-se de idosos que, em crianças ou jovens, se viram envolvidos no êxodo dos refugiados alemães. Antes da 2ª Guerra Mundial, a Alemanha possuía territórios no Leste: a Prússia Ocidental e Oriental, hoje pertencentes à Polónia e à Rússia. Nos últimos meses do conflito, com o avanço do exército soviético, os alemães que aí viviam, pelo menos, os que sobreviveram aos soldados russos, tiveram de fugir, deixando todos os seus bens para trás. Tratava-se quase exclusivamente de mulheres, velhos e menores de dezasseis anos, já que praticamente todos os homens em idade militar tinham sido alistados. Assim se juntaram milhares de refugiados, obrigados a marchas desgastantes de milhares de quilómetros, no Inverno rigoroso de 1945. Escusado será dizer que muitos não sobreviveram e havia menores a viajar sozinhos, não só órfãos, também alguns se viam separados das mães e avós, na confusão que se gerou. Sobreviventes dessa época aproveitam esta oportunidade que o jornal lhes dá para falarem de pequenos crucifixos, ou figuras de santos, que acreditam tê-los ajudado nesses tempos difíceis.

Na semana passada, porém, surgiu algo diferente. Gostei de um leitor de Berlim que mostrou uma relíquia oferecida por um monge budista. E gostei mais ainda de verificar que o jornal católico não teve problema nenhum em publicar o pequeno texto. A história vale bem a pena e mostra que, salvaguardando as diferenças, todos ganhamos ao aceitarmos lições de outras confissões religiosas. Em vez de nos concentrarmos no que nos separa, é bem melhor aproveitar o que nos une. Aqui vai o que Holger Doetsch, de Berlim, escreveu (tradução minha):

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«Em 2013, fundei, com amigos, uma instituição de apoio a crianças, no Camboja. Numa das minhas visitas, descobri um mosteiro no meio de um bosque, a oito quilómetros de Siem Reap. Apenas quatro monges budistas lá viviam. Um deles levou-me a um salão, cujo interior tinha sido destruído pelo fogo. Explicou-me, então, que, em 1977, mais de quarenta monges tinham sido ali queimados vivos pelo Khmer Vermelho. Em seguida, abaixou-se, apanhou este caco do chão e deu-mo, dizendo: “Sempre que se apanhe a queixar-se disto ou daquilo, olhe para este caco. Verá como os seus problemas se relativizam”».

Contentor cheio, pratos vazios

Cristina Torrão, 22.06.20

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Não costumo falar aqui dos livros que leio. Para isso, tenho um blogue pessoal. Já abri, porém duas excepções, a propósito de policiais escritos por alemães, mas situados em Portugal e de outro, passado em Hamburgo, mas escrito por um português. Hoje, abro outra excepção para falar desta interessante leitura, pois o tema está relacionado com o meu último postal.

O contentor deste título, que traduzi directamente do alemão, é o do lixo, ou seja, aponta para o contraste do nosso mundo actual: contentores de lixo a abarrotar de comida ainda em condições de ser consumida ao lado de gente a passar fome. E, no entanto, o livro não compara a situação da Europa com a do chamado Terceiro Mundo. Este livro limita-se à Alemanha.

No país considerado o mais rico da Europa, há uma instituição chamada Tafel que tenta recuperar o mais possível do que os supermercados tencionam deitar fora, a fim de o distribuir por pessoas que vivem em condições precárias (normalmente, as pessoas pagam um preço simbólico pelos alimentos, mas, em casos que se justifiquem, eles são gatuitos). Com 940 lojas espalhadas pelo país, a Tafel ajuda a sustentar milhão e meio de pessoas, trabalho só possível com o apoio de 60.000 voluntários.

A Tafel contribui ainda para a preservação do ambiente. Na Alemanha, cerca de 18 milhões de toneladas de alimentos aterram anualmente no lixo. Através de parcerias com supermercados, padarias, mercados grossistas e alguns produtores, esta instituição consegue, ainda assim, recuperar quase 300.000 toneladas de alimentos.

E, no entanto, é criticada. Por um lado, a quantidade de mercadoria resgatada é irrisória, em relação à efectivamente desperdiçada. Por outro, a Tafel é acusada de exercer uma função que compete ao Estado, ou seja, está a tirar-lhe responsabilidades. Por isso mesmo, o seu responsável, Jochen Brühl, publicou este livro. Ele diz que gostaria de salvar muitos mais alimentos, mas que as suas possibilidades estão limitadas. E sugere aos críticos da Tafel que encontrem maneiras de contribuir para que se desperdice menos. Em relação a fazer um trabalho que competiria ao Estado, ele contrapõe que a Tafel não pode pura e simplesmente virar as costas às famílias que dela dependem para sobreviver.

Neste livro, Jochen Brühl reúne uma série de entrevistas que fez, tanto a críticos, como a apoiantes, ou mesmo a beneficiários da instituição. Pelo meio, vai dando sugestões de como se pode diminuir a quantidade de lixo e lutar contra o consumismo. Por exemplo: porque têm as frutas e os legumes de apresentar formas perfeitas no supermercado? Será mesmo necessário termos pão fresco a qualquer hora do dia? Porque deitamos alimentos fora, mal tenha passado a data de validade, sem verificarmos se já estão realmente impróprios para consumo? Na verdade, há produtos que nunca perdem a validade, como o mel, ou a farinha (ou outros em pó, como misturas para pudins); o arroz e as massas são comestíveis muito para além do seu prazo e mesmo iogurtes se podem comer fora da validade, se não tiverem cheiro desagradável, sinais de bolor e a consistência ainda for normal (eu própria já comi muitos iogurtes fora da validade). Jochen Brühl apela ainda para que tenhamos mais cuidado a cozinhar, medido bem as quantidades. Enfim, todos nós poderíamos contribuir para diminuir o consumismo, criando uma sociedade mais justa e preservando o ambiente.

De entre os entrevistados, saliento Marianne Birthler, uma política da Alemanha de Leste que esteve envolvida nas manifestações que fizeram cair o Muro de Berlim. Depois da reunificação, foi Ministra da Educação, da Juventude e do Desporto no Land Brandenburg e, entre 2000 e 2011, encarregada, pelo governo federal, de analisar a documentação da STASI, a polícia política da antiga RDA. Resolvi traduzir uma passagem da sua entrevista que me agradou especialmente:

«Tenho esperança num mundo melhor. Que mais me resta, senão essa esperança? Caso contrário, bem poderíamos desistir de viver. Mas esperança não significa que aquilo que desejo se realize. Isto é um grande mal-entendido. A esperança e as utopias são apenas fontes de energia. Elas não existem para se transformarem em realidade, tal como idealizamos, mas sim para nos motivarem a agir. As pessoas sofrem muitas desilusões, porque pensam que aquilo com que sonham tem de se concretizar. Isto é um disparate. Não é para isso que existem os sonhos. Os sonhos são o empurrão para que dêmos o pontapé de saída».

 

Informação adicional: há cerca de 650.000 pessoas na Alemanha sem habitação; cerca de metade são refugiados, ou pessoas à espera da resposta ao seu pedido de asilo, e vivem em abrigos; contudo, e apesar de haver albergues para sem-abrigo, calcula-se que cerca de 48.000 vivam na rua.

Existe muita pobreza no país considerado o mais rico da Europa.

Quanto vale o Cristiano Ronaldo?

Cristina Torrão, 18.03.20

Para um jovem alemão de vinte e poucos anos, estudante de Jornalismo, ele valeu 64.000 euros!

Foi na versão alemã do concurso "Quem Quer Ser Milionário" (Wer Wird Millionär), transmitido pela RTL. O rapaz começou cambaleante. Porém, à medida que as perguntas aumentavam de valor, ele ia ficando cada vez mais seguro e atingiu o patamar dos 64.000 euros. Aliás, sem jokers. A pergunta era:

"Qual foi a primeira pessoa, no fim de Janeiro, a quebrar a barreira dos 200 milhões de seguidores no Instagram?"

Hipóteses de resposta:

A - Cristiano Ronaldo

B - Kim Kardashian

C - Papa Francisco

D - Ed Sheeran

Como referi, o jovem já não tinha jokers. Se optasse por não responder, levava para casa 32.000 euros. Respondendo errado, caía para os 500 euros. E ele arriscou a resposta, escolhendo Cristiano Ronaldo.

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Claro que o apresentador fez suspense, depois de a resposta estar bloqueada. Começou com o que tinha menos seguidores: o Papa Francisco. A seguir, Ed Sheeran. E depois: Kim Kardashian ou Cristiano Ronaldo? A resposta certa é...................... CRISTIANO RONALDO!

O nome luso assim gritado, o público a aplaudir entusiasticamente... e uma portuguesa, do outro lado do ecrã, a sentir-se muito orgulhosa.

Pequenas alegrias, em tempos difíceis.

 

Nota: o programa foi apresentado ontem, mas a gravação tinha já vários dias, do tempo em que ainda não se tinham decretado medidas drásticas por causa do Covid-19. Desde o fim-de-semana que não há programas televisivos alemães com público no estúdio.

Imagem: captação de ecrã do vídeo do programa, aqui disponível.

Lisboa e Porto

Cristina Torrão, 26.01.20

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Ontem, um canal regional alemão, pertencente ao 1.º canal público ARD, mostrou um pequeno programa sobre duas cidades portuguesas. A revista televisiva que costumo comprar, porém, fez uma imensa confusão entre as duas. Traduzindo o texto acima: «Lisboa conta-se entre as "boomtowns" turísticas na Europa. Mais de seis milhões de visitantes anuais - para apenas 500.000 habitantes. A reportagem guia-nos às grandes Praças do Rossio e do Comércio, ao lindíssimo bairro de Alfama e ao Mercado da Ribeira. Depois, segue para o Porto, na margem do Douro».

Presumo que os «500.000 habitantes» deviam pertencer ao Porto. E a legenda da imagem vai ainda mais longe: «Arquitectura imponente: a ponte Dom Luís I em Lisboa»!

Um texto destes é capaz de pôr os cabelos em pé de qualquer português. Para os mais radicais, aqueles que levam a um nível muito pessoal a rivalidade (que se quer saudável) entre as duas maiores cidades do nosso país, um texto destes pode ser mesmo caso para insultos aos responsáveis da revista.

Apesar de também criticar a falta de cuidado com que este pequeno texto foi escrito, aconselho um respirar fundo aos mais indignados. Afinal, se uma revista televisiva portuguesa fizesse uma confusão destas entre Berlim e Hamburgo, não nos merecia mais do que um encolher de ombros (quando muito... e só para quem estivesse em condições de detectar os erros). E eu, que vi o programa, garanto que não se misturaram as duas cidades. Foi uma pequena reportagem interessante, que é bem capaz de atrair ainda mais turistas ao nosso país. Se isso é bom, ou mau, fica ao critério de cada um.

Em Viagem - Parte 3

Maria Dulce Fernandes, 20.12.19

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Com o quartel-general estabelecido em Soligen, iniciámos um périplo pela Renânia do Norte: Wuppertal, Düsseldorf, Colónia...  

A catedral de Colónia era imponente, maravilhosamente talhada na margem do Reno, com pores-do-sol do mais espectacular a que já assisti. Voltei lá em 1993; grande desapontamento o meu. É certo que quando somos mais pequenos as proporções mudam e tudo parece diferente aos nossos olhos, mas a catedral dos meus encantos não me pareceu grande de todo, apenas algo mais escura e mais alta, que se destacava no aglomerado de betão da paisagem urbana da cidade de Colónia. 

Uma manhã, o pai madrugou com uma ideia brilhante:  Então e que tal irmos almoçar a Amsterdam? Foi um toca-a-correr e a cáfila embarcou na Variant com a tralha às costas em direcção  ao norte, rumo a Amstelveen, onde outros familiares nos aguardavam ansiosos. 

Deslizando pelas fantásticas auto-estradas alemãs, a viagem de pouco mais de duas horas fez-se em três horas e tal, atendendo à quantidade de tralha e à população da Variant plus one. 

Como todas  viagens de automóvel, foi estopante... mas se valeu a pena? Claro que sim!! Elevada à enésima potência! A Holanda é um país bucólico, lindo, verde, florido, os moinhos são idílicos. E tem queijos fantásticos. O Gouda continua a ser um dos meus preferidos. 

A sério que nunca tínhamos visto tanta bicicleta junta. Muitas até cestinho para cão tinham, caramba! Caminhar pela beira dos canais sim, mas com muita atenção para não ocuparmos a ciclovia, porque os holandeses são rápidos e furiosos.

E no final apoteótico dum dia em grande, a população da Variant bem equipada para as agruras do  inverno no Mar do Norte, numa tarde soalheira dos idos de Setembro de 1970, com as calças arregaçadas até ao joelho, chapinhava nas águas geladas de Zandvoort, a comer arenque cru (que os indígenas ingeriam deitando a cabeça para trás e deixando deslizar inteiro para dentro da boca!), mexilhões, batatas fritas e maionese, com palitos de forquilha encimados por bandeirinhas holandesas a esvoaçar ao vento do Ártico, e gelado de mirtilo em pequenos copos de papel, deitados na areia ou sentados nuns cestinhos de verga com banquinhos dentro. 

Tendo  o frio como desculpa, os mais velhos perderam-se pelas noites do Dam, enquanto a população miúda se resignou a ficar em casa a assistir a desenhos animados non-stop do Tom & Jerry , dobrados em flamengo e a preto e branco, mas caramba! nós por cá tinhamos o Popeye, o Manda-Chuva, os Filintstones, o Zé Colmeia e pouco mais, e só ao domingo.

Foi a noite da luz vermelha, ideia que nos remetia de imediato para o sarampo, mas que foi deixada no limbo das coisas que eram tabu para as criaças de antes da revolução dos cravos. Foi seguramente um conceito de que só entendemos o significado mais de dez anos depois, mas naquela noite éramos apenas uns Hans Brinker, desolados e sós, com o dedo no botão da tv num bairro de funcionários da KLM junto ao Rio Amstel à espera que algum adulto viesse em nosso auxílio e nos desse permissão para crescer.

Em Viagem - Parte 2

Maria Dulce Fernandes, 17.12.19

 

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Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, era em 1970 uma pequena cidade conhecida como a “Cidade das Lâminas”, fama que granjeou pelos artefactos em aço que produzia, com um sem número de  aplicações várias. Übenstrasse era o Restelo lá do sítio: casinhas graciosas, com jardinzinhos mimosos e floridos, baloiços, gnomos e casas para pássaros. A Line , formada em Germânicas, trabalhava no seu mestrado e também como au pair. Por essa altura, a Frau Engelhardt  estava num cruzeiro  e assim, com seu consentimento, ocupámos as premissas. 

Sempre dados a ambientalismos, os alemães faziam limpezas periódicas à canalização urbana, alturas essas  em que o depósito de água constante em cada casa e sempre higienizado, era cheio por camiões-cisterna para se poder proceder às desinfecções das condutas sem afectar a população que era avisada atempadamente e  também relembrada telefonicamente pelos respectivos serviços  no próprio dia, cedo pela manhã. 

Pois que nós fluentes poliglotas, que de alemão só sabíamos dizer ja e aufwiedersehen, depois de não conseguirmos decifrar o teor do primeiro telefonema, resolvemos algumas ligações depois e por unanimidade,  deixar o telefone fora do descanso. Só quando a mãe reparou que a água estava  apenas a gotejar na torneira é que começámos a associar as ideias, mas já era muito tarde. 

Eu, o pai,  o mano  e a tia propusemo-nos ir ao supermercado e trazer garrafões de água, enquanto a mãe ficava a tratar do menino.  Lá partimos com uma lista de produtos encabeçada pela desejada água, rumo ao supermercado. Claro está que  cirandando por ruas quase iguais, perdemo-nos em todas as esquinas. Chegados junto a uma escola, era ver a Tia Eugénia com o dicionário na mão a chamar os meninos, ao mesmo tempo que apontava “Kartoffel” no dicionário e vocalizava “Hum? Hum?” O meu pai sorria, divertido. O meu irmão ria também. Eu fazia de conta que não era dali... 

A verdade é que a Tia se fez entender muito bem e que nos levaram a um mercadinho no meio de gargalhadas e cantorias.  Aquela rapaziada... foi um fartote de risota. 

Cada um com um saco de papel e um garrafão na mão ao melhor estilo português, regressámos a casa, voltámos perder-nos uma e outra vez, mas não nos passou pela cabeça o quadro que encontrámos à chegada. 

A grande questão é que, como em tudo na vida, só sentimos realmente a falta de algo simples e que consideramos básico no nosso dia a dia quando esse algo de repente nos falta: a mãe estava morta de sede e não havia gota de água em casa. O pai antes de sairmos, propôs que tomasse dois golos  de cerveja. Assim fez. 

A imagem ficou gravada a fogo na nossa memória colectiva: o bebé chorava a plenos pulmões e a mãe também, meio sentada meia de gatas, no fundo da escadaria, sem conseguir encontrar maneira nem força para a subir… O susto foi grande até termos identificado o culpado, uma garrafa vazia de Beck's  junto aos lava-loiças, da qual, segundo a mãe, tomou dois ou três golos apenas, tendo  a restante birra sido "entornada" pelo Satchmo, o Cocker Spaniel negro da Frau Engelhardt.

No fim do dia, já recomposta do susto, a mãe foi presenteada por todos com o seu próprio garrafão de cinco litros de água e... seis garrafas de cerveja. A relação da mãe com a cerveja nunca mais foi pacífica, mas honestamente, o Satchmo era mesmo bom de birra.

Em viagem - Parte 1

Maria Dulce Fernandes, 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Dois assassínios a sangue-frio

Pedro Correia, 10.11.19

 

O número de pessoas mortas pelos guardas fronteiriços de Berlim-Leste, quando pretendiam fugir para o Ocidente, não é totalmente conhecido. Há quem fale em 125, há quem garanta que foram 290 ou ainda mais. Mas sabe-se quem foi o primeiro e quem foi o último da longa lista de vítimas da ditadura comunista que ergueu o Muro de Berlim com 45 mil blocos de cimento armado e 302 torres de controlo numa extensão de 155 quilómetros.

É justo recordar-lhes os nomes neste 30.º aniversário do fim do mais sinistro símbolo da Guerra Fria.

O primeiro chamava-se Peter Fechter. Era um operário de 18 anos que ao princípio da tarde de 17 de Agosto de 1962 decidiu subir o Muro, perto do Checkpoint Charlie, na companhia de um amigo chamado Helmut. Não chegou ao cimo: foi alvejado com vários tiros que o fizeram cair. Gravemente ferido, gritou por socorro. Diversos transeuntes quiseram ajudá-lo, tendo sido dissuadidos pelos guardas fronteiriços que deixaram o jovem sangrar até à morte. Morreu cerca de uma hora depois, perante a dolorosa impotência de centenas de pessoas que testemunharam o episódio de ambos os lados da fronteira. Dos três guardas que alvejaram a sangue-frio este jovem desarmado, nenhum deles passou um só dia na prisão.

O último chamava-se Chris Gueffroy. Era um estudante de 20 anos que também na companhia de um amigo, chamado Christian, a 6 de Fevereiro de 1989 escalou a rede de arame farpado que fazia de fronteira entre Berlim Leste e Ocidental na zona do canal de Britz. Na véspera, um guarda fronteiriço assegurara-lhe que poderia passar para o Ocidente sem grande transtorno, pois havia novas instruções expressas, por parte do regime comunista, para não atirar a matar contra ninguém. A informação era falsa e Chris foi vítima dessa mentira: recebeu dez tiros, quando se encontrava já no topo do arame farpado, e ficou ali, agonizando até à morte. Cada um dos quatro guardas que o alvejaram recebeu um louvor e um prémio pecuniário de 150 marcos leste-alemães. Mais tarde, já após a reunificação da Alemanha, um deles viria a ser condenado a três anos e meio de prisão, sentença alterada para dois anos de prisão com pena suspensa.

Peter e Chris: dois jovens que pagaram com a vida por quererem rumar à liberdade.

 

Imagem de cima: Peter Fechter sangrando até à morte (17 de Agosto de 1962)

«Something is rotten in the state of Denmark»*

Cristina Torrão, 10.11.19

Quando se fala na compra da Gronelândia, por parte dos EUA, costumo rir-me, na convicção de que a Dinamarca nunca o irá permitir. Há dias, porém, vi um documentário televisivo num canal alemão que me transformou esse riso num sorriso amarelo.

A Dinamarca, um país que se considera civilizado, tem mais em comum com os EUA de Trump do que o que se poderia pensar. Perante os olhares perplexos dos cidadãos dinamarqueses e alemães, o país escandinavo constrói, desde o Verão, uma cerca de metal ao longo de toda a fronteira que separa os dois países.

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Imagem daqui

A fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca tem uma extensão de apenas 70 km, uma estreita faixa de terra entre os Mares do Norte e Báltico. Com o pretexto de se protegerem da peste suína africana, os dinamarqueses procedem à construção de uma cerca de metal com 1,50 m de altura, obra orçada em 10 milhões de euros. Apenas as estradas com postos fronteiriços serão poupadas. O motivo alegado é recearem que os javalis vindos da Alemanha possam levar consigo o vírus da peste suína africana, apesar de a doença não existir no país da Sra. Merkel. Os dinamarqueses, porém, alegam que, no ano passado, a peste suína africana foi detectada na Bélgica, a apenas 60 km da fronteira alemã. E, pelos vistos, acham que mais vale prevenir do que remediar.

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Imagem daqui

A população local, tanto de um lado, como do outro, está perplexa e descontente. Afinal, estamos a falar da fronteira entre dois países da Comunidade Europeia. Além disso, no Norte da Alemanha vivem muitos dinamarqueses, assim como é numerosa a comunidade alemã no Sul da Dinamarca. A cerca está a ser construída em plena natureza, em locais por onde as pessoas passeavam livremente, sem se preocuparem em que país estavam. Principalmente os alemães, que festejam, nesta altura, os trinta anos da queda do muro de Berlim, mostram-se muito desiludidos.

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Imagem daqui

Muita gente duvida da razão apresentada pelos dinamarqueses. Também o Ministro da Agricultura e do Ambiente do Schleswig-Holstein (o Land alemão que faz fronteira com a Dinamarca) põe em causa o sentido e a necessidade da construção da cerca. Afinal, serão as próprias pessoas, não os javalis, quem mais contribui para a disseminação da peste suína africana, nomeadamente, através do transporte de animais e de rações e de excursões de caça, sem se verificarem medidas de higiene e segurança. Por isso, se desconfia que a Dinamarca pretende proteger-se de outros “perigos”. É sabido, por exemplo, que, desde 2015, entraram quase dois milhões de refugiados e migrantes na Alemanha. Ou tratar-se-á de outro motivo, desconhecido de todos (menos do governo dinamarquês, claro)? A falta de transparência é incompreensível e está aberta a especulação.

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Imagem daqui

Os jovens dos dois países têm protestado pacificamente, por exemplo, usando a cerca como rede de voleibol, onde a bola é jogada de um país para o outro, ou enfeitando a cerca com artefactos coloridos. Mas a sua construção continua. E eu começo a acreditar que não será assim tão difícil o governo dinamarquês entrar em acordo com o Trump...

 

*In Hamlet, William Shakespeare