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Delito de Opinião

Eunice

Pedro Correia, 15.04.22

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Nunca entrevistei a Eunice - e tenho pena. Era assim que os portugueses a conheciam: Eunice. Representou durante mais de sete décadas, até há poucos meses. A bem dizer, até ao fim. Só lhe faltou morrer em palco para avolumar o mito. Mas teve uma carreira artística plena e foi consagrada pelo maior dos títulos: a ovação contínua dos espectadores. Que foram mudando, só ela se manteve.

Parecia eterna, como parece o grande Rui de Carvalho, agora o último sobrevivente daqueles gigantes portugueses da arte de representar nascidos há cerca de cem anos, na década de 20 do século passado. A Carmen Dolores, o Raul Solnado, a Milu, o José Viana, a Glicínia Quartin, o Armando Cortez. A enorme Amália. 

Vi-a no cinema desde miúdo (em filmes como Camões e Ribatejo), lembro-me dela desde sempre na televisão (por exemplo n'O Jogo da Verdade, primeira série dramática produzida pela RTP, e A Banqueira do Povo, talvez a melhor telenovela portuguesa já realizada) e aplaudi-a no teatro (em peças como Gin GameA Casa do Lago). Como se costuma dizer, era muito lá de casa. Das casas de todos nós.

Era de outro tempo, tinha contracenado com figuras quase lendárias, parecia transportar consigo toda a memória do palco. De uma irrepreensível qualidade em vários registos, do drama à comédia. Não se ajustava aos tradicionais cânones da beleza mas era daquelas raras figuras que bastavam irromper em cena para deslumbrar a plateia com o fulgor do seu magnetismo pessoal.

Ao contrário de tantas outras neste país ingrato, Eunice Muñoz foi repetidamente e justamente louvada em vida. Até na sua Amareleja natal, contrariando o aforismo bíblico de que ninguém é profeta na sua terra. E mereceu também o apreço unânime dos colegas de profissão, nada fácil de alcançar. 

Entra em definitivo na imortalidade após uma vida longa, cheia e realizada. Inclino-me em sua memória, numa vénia sentida e grata.

Eunice Muñoz

Maria Dulce Fernandes, 15.04.22

Hoje, 15 de Abril de 2022, Dia das Artes, faleceu Eunice Muñoz, a nossa Primeira Dama do Teatro Nacional

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"Eunice do Carmo Munhoz, mais conhecida por Eunice Muñoz  (Amareleja, Moura, 30 de Julho de 1928 - Lisboa, 15 de Abril de 2022), foi uma actriz portuguesa de referência do teatro, televisão e cinema português, considerada unanimemente uma das melhores actrizes portuguesas de todos os tempos. Foi galardoada com o título de doutora honoris causa pela Universidade de Évora, em 2009."

Soube envelhecer com uma dignidade admirável, dando-nos nos seus anos dourados soberbas interpretações.

O Teatro, a Televisão e o Cinema Nacionais ficam mais pobres, mas ganhou lugar de pleno direito no Panteão dos Grandiosos, aqueles que se vão da lei da morte libertando.

Até sempre.

Aplaudamos de pé.

"A presto", Monica

Pedro Correia, 05.02.22

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Há mulheres fadadas para vogar na eternidade. Dotadas de uma sensualidade sem prazo, com uma aura de mistério a velar-lhes o rosto. Parecem nunca envelhecer: são abençoadas pelo milagre da suspensão do tempo. É assim que vejo e sinto e pressinto Monica Vitti: deusa imortal do celulóide, materializada em cada aparição numa galeria de películas que soavam estranhas ao estrear-se, talvez por prenunciarem manhãs futuras. Obras-primas como A Noite (com Marcello Mastroianni) ou O Eclipse (ao lado de Alain Delon), ambas realizadas por Michelangelo Antonioni, honrando o histórico homónimo florentino em plena comunhão com a arte visual, aqui posta em movimento.

Dizem-me que ela se despediu de nós agora, aos 90 anos, após duas décadas na obscuridade, abandonando em definitivo o precário palco da vida. Custa-me acreditar na notícia. Ainda há dias a revi emoldurada em tela, fascinante como sempre a conheci - o olhar fugidio, os lábios entreabertos, aquele enigmático semblante em que se espelhavam tantas perplexidades da aventura humana.

De outras me despedi. A ela só consigo sussurrar um a presto comovido e deslumbrado.

Os deuses vendem quando dão

Pedro Correia, 07.10.21

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Ao ler a autobiografia de Ava Gardner, uma das mais deslumbrantes actrizes de que há memória, de novo me assaltou a sensação de que estas mulheres idolatradas por milhões em todo o mundo são perseguidas por uma sina fatídica: estão condenadas a morrer na solidão.

Foi assim com Ava, que esteve casada com três celebridades do espectáculo: Mickey Rooney, Artie Shaw e Frank Sinatra. Todos os ex-maridos lhe sobreviveram. Ela morreu no seu apartamento londrino a 25 de Janeiro de 1990, aos 67 anos, acompanhada apenas por uma velha empregada e pelo cão.

Mas foi assim também com Marilyn Monroe, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Maria Callas, Carmen Miranda, Amália Rodrigues. Mulheres aplaudidas e celebradas por legiões de admiradores que seduziram quando estavam sob as luzes da ribalta mas que arrastavam consigo uma estranha maldição. Como se o reverso da fama que a dado momento as projectou para a imortalidade fosse o fim amargo e solitário que tiveram.

Fernando Pessoa, que conhecia bem o que era a solidão, diz tudo nuns versos que são do melhor de sempre na língua portuguesa: «Os deuses vendem quando dão. / Compra-se a glória com desgraça.» Estas mulheres - e muitos homens - souberam isso bem de mais. Quando a porta se fechava, as luzes se apagavam e a euforia da festa chegava ao fim.

Ínclita Geração

Maria Dulce Fernandes, 16.02.21

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Carmen Dolores (1924-2021)

 

Tive o prazer de conhecer Carmen Dolores no início dos anos oitenta. Fazia parte de um grupo de seis pessoas, entre as quais o António Vilar.

Foi um Amor de Perdição!

A Senhora das Brancas Mãos e o nosso Camões. Não é todos os dias que se priva com realeza. Realeza sem coroa? Sim, Realeza pura. Fazem parte da ínclita geração do nosso cinema, do nosso teatro, da nossa cultura, da língua lusa.

Carmen Dolores deixou-nos hoje.

O meu aplauso e um bem haja, minha Senhora. Muito obrigada.

 

Imagem do Google

Olivia

Pedro Correia, 15.12.19

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Só ela resta do imenso elenco de E Tudo o Vento Levou (1939), o clássico dos clássicos, que estreou há precisamente 80 anos.

Em 2004 reapareceu em palco, como uma das apresentadoras da cerimónia de distribuição dos Óscares de Hollywood: parecia que os anos não tinham passado por ela. Ficará sempre na memória dos cinéfilos sobretudo pelos filmes que fez com Errol Flynn - quase todos inesquecíveis.

Era de uma espantosa fotogenia: ainda hoje aqueles grandes olhos, revistos a preto e branco, conseguem iluminar qualquer ecrã.

Olivia de Havilland, a última deusa do cinema clássico. Nascida a 1 de Julho de 1916, hoje com uns luminosos 103 anos.

Contra as novas censuras

Pedro Correia, 18.01.18

Uma luz que se apaga

Pedro Correia, 02.01.18

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O País na minha pré-adolescência nada tinha a ver com este. Era um país cinzento, governado por senhores muito idosos que apareciam sempre de fato escuro nos monocórdicos telejornais.

Nesse país irrompiam ocasionalmente focos de luz e de brilho e de beleza. Proporcionados por mulheres lindíssimas, por vezes ainda mal chegadas à idade adulta, mas já em destaque no nosso pequeno mundo do espectáculo, da televisão, do teatro e do cinema.

 

No meu tempo de teenager, havia pelo menos duas que se destacavam da mediana dominante. Eram a Guida Maria e a Helena Isabel - assim mesmo, actrizes com duplo nome próprio.

Inigualáveis, cada qual à sua maneira. E contrariavam em tudo aquela triste modorra num país de senhores severos e graves que pareciam vir da pré-história. Pela forma como falavam, como vestiam, como se comportavam. E pela estonteante beleza que exibiam, sem sentirem necessidade de pedir desculpa aos diáconos de turno, ofuscados com tanto brilho. Como se beleza fosse pecado em vez de bênção.

Sempre me senti fascinado por ambas. Pareciam estrelas de Hollywood caídas neste cordato redil lusitano, fora do tempo e fora do espaço que lhes couberam em sorte. Deslocadas daquela época.

 

Um dia, muitos anos depois daquele tempo cinzento a que aludo no primeiro parágrafo, era eu editor de um suplemento de histórias protagonizadas na primeira pessoa do singular quando decidi entrevistar a Guida Maria. Foi uma longa conversa ao telefone, pontuada por incontáveis gargalhadas dos dois lados do fio. Ela, com um sentido de humor desconcertante, correspondeu à elevada fasquia que lhe antecipara.

Hei-de reproduzir aqui essa entrevista, que hoje recordo ainda em choque, ao saber da notícia do seu falecimento. Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.

Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.

 

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Eu gosto e preciso de rir

Helena Sacadura Cabral, 11.12.17

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Tive, quando era muito nova, em Audrey Hepburn - essa actriz invulgar -, um dos meus raros ídolos femininos. Hoje, folheando umas coisas que escrevi, encontrei esta frase dela. Precisamos tanto de rir, sem que disso nos demos conta. 
Audrey não teve uma vida muito feliz. Mas soube, sempre, mesmo nos momentos mais difíceis, sorrir. Que sábia ela era e que bem me soube recordar e partilhar esta sua afirmação!

Jeanne Moreau 'in excelsis'

Pedro Correia, 31.07.17

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Há caras que não nos enganam. Ela tinha uma dessas caras. Os olhos magoados, a boca sensual, o lábio inferior ligeiramente descaído, dando-lhe um ar de amuo permanente. Essa face tão expressiva fez a aura desta actriz - uma das maiores estrelas de sempre do cinema francês. Dela emanava uma «sexualidade enigmática e brilhante», na feliz definição de Camille Paglia.

Vimo-la nesse fabuloso noir de Louis Malle que se intitulou Ascenseur pour l'Échafaud (1957), ao som de Miles Davis. Ou, de novo dirigida por Malle, imortalizada em Os Amantes (1958). Ou, no mais insólito dos triângulos amorosos, em Jules e Jim (1962), de Truffaut. Ou na excelente versão do Diário de uma Criada de Quarto, de Buñuel (1964). Ou, ao lado de Brigitte Bardot, em Viva Maria, ainda de Malle (1965). E em tantos outros filmes que lhe fizeram perdurar o inigualável rosto com que todas as câmaras pareciam fazer amor.

Acaba de rumar à eternidade: mesmo sem a sua presença física entre nós, ela é daquelas que sempre povoarão os sonhos cinéfilos, fazendo da arte das imagens em movimento uma singular liturgia dos sentidos.

O pesado manto da desmemória

Pedro Correia, 17.01.17

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“Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta dor portuguesa

tão mansa quase vegetal.”

Alexandre O’ Neill

 

Estranho país, este. Matamos os nossos heróis, os nossos ídolos, os nossos astros. Matamo-los pela inveja, pelo ressentimento, pelo cinismo, pelo ódio atávico a quem tem sucesso. Matamo-los, no fim de tudo, pelo esquecimento. É a pior forma de morte cívica – e também aquela que é praticada com maior desenvoltura nos nossos dias. Ignorar o que merece ser enaltecido e valorizado é um crime de lesa-humanidade e lesa-cultura.

Nenhum esquecimento me assombra mais do que o das nossas divas do teatro e do cinema. Mulheres que deslumbraram incontáveis espectadores nas plateias e se apagam na penumbra do ocaso, como se nunca tivessem entusiasmado multidões de adeptos na flor da idade. Mulheres como Milu, Leonor Maia, Laura Alves, Isabel de Castro, Maria Dulce, Maria Eugénia, Madalena Sotto. Sobre elas caiu o pesado manto da desmemória: é a forma habitual que temos neste país de sepultar os nossos melhores quase sempre ainda em vida.

 

Surge agora a notícia da morte de Maria Cabral, que numa França ou numa Itália teria sido venerada sem hesitação por ininterruptas legiões de cinéfilos. Por cá suscitou aplausos inflamados em dois filmes que a impuseram como inconfundível rosto de uma geração – a que ansiava pela liberdade num país ainda a preto e branco.

Dois filmes que se tornaram invisíveis: O Cerco (António da Cunha Telles, 1970) e O Recado (José Fonseca e Costa, 1972). Dois filmes banidos do nosso mercado, olvidados das cinematecas, omitidos pela própria RTP no seu canal memória. Como se contivessem um estigma, como se nos relatassem fragmentos proibidos de uma sociedade que ninguém quer relembrar.

 

Maria Cabral morreu esquecida da pátria que tantos dos seus talentos tem condenado ao desterro, no desfecho de um longo exílio voluntário em Paris. À semelhança de tantas figuras da nossa literatura, da nossa música, do nosso espectáculo, da nossa televisão.

Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela - corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.

Terapia

Francisca Prieto, 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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So long, Maureen

Pedro Correia, 24.10.15

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Maureen O' Hara, a fogosa irlandesa que seduziu dois dos maiores mestres do cinema, John Ford e Alfred Hitchcock, materializou-se de filme em filme como uma singular força da natureza. Hitch deu-lhe o estrelato em A Pousada Jamaica (1939), última longa-metragem que rodou em Inglaterra antes de rumar a Hollywood. Ford imortalizou-a numa sucessão de obras-primas, com destaque para  O Vale Era Verde (1941) e O Homem Tranquilo (1952). Nesta última película, repleta de cenas memoráveis, nenhuma se sobrepõe à do longo beijo que lhe rouba um John Wayne totalmente arrebatado por esta ruiva que não se vergava a homem algum.

 

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Tinha uma presença inconfundível no ecrã, onde sobressaía pela sua personalidade intensa e por aquela beleza solene que parecia insuflada por um sopro de eternidade.

Era uma das raras pontes que ainda nos ligavam ao cinema dos primórdios. Contracenou com Henry Fonda, James Stewart, Alec Guinness, Tyrone Power, Errol Flynn, Dana Andrews, Rex Harrison, Charles Laughton, Joel McCrea, John Garfield, Anthony Quinn, Melvyn Douglas, Ray Milland, Robert Young, Clint Eastwood. Conhecia bem Portugal, onde aliás rodou um filme intitulado Lisbon (em que escuta Anita Guerreiro a cantar o clássico Lisboa Antiga).

Retirou-se cedo dos estúdios de Hollywood, no início da década de 70. Ainda faria um filme em 1991 e trabalhou esporadicamente na televisão quando já tinha sido elevada à categoria de mito. Era uma das raras e mais queridas lendas vivas do cinema. Morreu hoje, tranquilamente, aos 95 anos. Deixando-nos a nós, que fomos seus fãs, com vontade de revisitar os seus melhores filmes em sessões contínuas.

Laura Antonelli

Sérgio de Almeida Correia, 22.06.15

laura antonelli.jpg(28/11/1941 - 22/06/2015)

Confesso que já não me recordo qual terá sido o primeiro filme que vi dela. Sei que vi muitos. Alguns mais do que uma vez, apenas pelo prazer de vê-la, de ouvir a sua voz, de ver o seu sorriso, de admirar a sua beleza. Durante décadas o cinema italiano fez sonhar os adolescentes e os homens de todo o mundo. Pelas mais diversas razões. Mas havia uma verdadeiramente incontornável: a mulher que ele nos dava era o modelo. A mulher. Da Cardinale à Lollobrigida, da Loren à Muti, da Belli à Mangano, sem esquecer a Vitti e a Sandrelli, qualquer uma delas quando aparecia era mais fabulosa do que a outra. Cada filme que surgia era um pretexto para a discussão. Qual a mais bela, qual a mais desejada, qual aquela com que qualquer um de nós viveria a vida inteira numa ilha deserta do Pacífico Sul ou nas andanças do trânsito de Roma. Entre todas havia uma que, não tendo nascido em Itália, mas em Pula, na Croácia, fazia sempre a unanimidade. Fosse pelo olhar, ao mesmo tempo doce, voluptuoso e, de certo modo, perdido no tempo, pelo torneado do seu corpo ou pelo calor da sua voz. Os filmes que víamos nem sempre eram aplaudidos, muitas vezes não passando de comédias palavrosas e barulhentas. Só que todos eles tinham alguma coisa em comum. Ela estava em todo o lado. Nos cartazes dos filmes, nas revistas que chegavam de França ou de Itália, ao lado de Belmondo ou de outro figurão qualquer, na capa da Playboy, nas imagens de Cannes e de Veneza. O filme que talvez a tenha tornado mais conhecida é de um realizador, Salvatore Samperi, que só pelo nome poucos portugueses conhecerão. Malizia (1973) terá sido o filme do deslumbramento, mas antes, durante a década de Sessenta, já tinha dado nas vistas em mais de uma dúzia de filmes. Depois, durante os anos Setenta e Oitenta seria protagonista de mais umas dezenas de filmes e mini-séries de televisão, realizados, entre outros, por homens como Chabrol, Risi, Comencini, Bolognini, Salerno e Visconti (L'innocente, 1976). O seu último filme data de 1991(Malizia 2000). Durante alguns anos enfrentou acusações relacionadas com o tráfico de droga, de que viria a ser ilibada já neste século, e de consumo de estupefaciantes. Depois de ter sido o rosto da beleza e do erotismo do cinema italiano, refugiou-se num pequeno apartamento de uma estância balnear, Ladispoli, situada a pouco mais de três dezenas de quilómetros do centro de Roma. Encontrada por uma empregada doméstica, morreu só, como terá vivido durante muitos anos, sem que se saiba exactamente há quantos dias teria falecido. Sem resposta ficará, uma vez mais, a pergunta de se saber até que ponto a beleza, o sucesso, a fama, o esplendor, as luzes da ribalta, contribuem para vidas infelizes, solitárias, e finais tristes. Para o caso também já não fará qualquer diferença. E para quem um dia se deslumbrou com a Antonelli, ficará sempre a imagem de uma diva tão terrena quanto inacessível. Não era uma mulher como as outras. Nunca foi uma actriz como as outras. Havia qualquer coisa que a tornava diferente das outras, mais real, e não era só a sua elegância ou o seu erotismo. Num cartaz do Condes, na Almirante Reis, quando a vislumbrava do eléctrico a puxar as meias, na fachada do velho Cinema Roma ou na do Monumental, Laura Antonelli foi a imagem mais real do sonho. Da carne em ecrã gigante e sem efeitos especiais. A imagem, digo bem, porque o sonho, esse, permanecerá para sempre. Como sempre foi. E renovar-se-á, eventualmente com outro nome, sob uma outra luz. De geração em geração.

Bacall

José António Abreu, 13.08.14

Um jogo raro estava a ser jogado, suficientemente bom para uma comédia de Hawks, no qual um realizador está pronto a apaixonar-se pela sua actriz mas mantém a mulher por perto para fingir que não. Quando Bacall e Bogart se apaixonaram, Howard foi apanhado de surpresa. (Bogart tinha quarenta e cinco anos; Bacall tinha vinte.) O realizador disse que o romance deles estava a estragar o filme.

David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies. Edição Farrar Straus and Giroux, tradução minha.

 

Obviamente, não estava. Na adolescência, apesar da minha desesperante falta de jeito para assobiar, To Have and Have Not era o meu filme favorito. Ainda hoje continuará perto do topo (evito fazer esse tipo de listas). Tinha suspense, música, humor e, acima de tudo, Lauren Bacall, envolvida num delicioso jogo de sedução com Humphrey Bogart. Um jogo baseado em olhares (the Bacall look, nascido do nervosismo inicial aquando dos screen tests, que a levou a baixar a cabeça e a rodar os olhos para cima) e frases provocantes, tão inocente pelo padrões actuais mas tão verdadeiro que, como o surpreendido e ligeiramente enamorado Howard Hawks comprovou, extravasou das personagens para os actores, dando origem a uma das relações mais sólidas (ainda que, como qualquer relação, não isenta de tensões) que Hollywood já viu. Depois, ainda com Hawks (um apreciador de mulheres fortes que, no final, faziam o que os homens desejavam) houve The Big Sleep, o filme em que uma morte ficou por explicar (que importa?) e em que ela, apesar de Slim (uma alcunha transferida de Nancy Gross, a mulher de Hawks), encarnou na perfeição uma heroína de Chandler, e depois houve Dark Passage e Key Largo (ao lado de Edward G. Robinson no segundo, ao lado de Bogart em ambos) e mais uma série de filmes onde se destaca How to Marry a Millionaire, contracenando com uma Marylin Monroe pitosga, no tipo de papel que lhe encaixava na perfeição: o de calculista que, após uma série de contratempos (as más intenções sempre mereceram punição no cinema comercial de Hollywood), acaba por revelar um coração mole e é devidamente recompensada pelo destino. Porém, a partir de certa altura, a sua imagem, de inteligência mordaz mas bem intencionada, uma mistura de fragilidade (real) e altivez (nada real no início, talvez um pouco com o avançar dos anos), pode ter sido mais prejudicial do que útil: o que numa jovem é encantador, numa mulher de meia idade é irritante - pelo menos para os produtores cinematográficos. Qualquer que tenha sido a razão, desde a década de 50 Bacall entrou em poucos filmes verdadeiramente dignos de nota, tendo perdido o Óscar de melhor actriz secundária (para Juliette Binoche, por O Paciente Inglês) em 1996 (o filme era The Mirror Has Two Faces, um projecto de Barbra Streisand de que recordo aproximadamente zero).

 

Os tempos áureos de Hollywood, em que os estúdios faziam o que queriam (a Lauren mudaram-lhe desde logo o nome de baptismo, Betty Joan Perske, e obrigaram-na a adoptar um tom de voz mais rouco) viram outras actrizes com personalidade forte. Marlene Dietrich, por exemplo, que disse a Hawks: «Aquilo sou eu há vinte anos»; Louise Brooks, um cometa explosivo ainda nos tempos do cinema mudo; Rosalind Russell, taco a taco com Cary Grant em His Girl Friday (outro filme de Hawks); Tallulah Bankhead, famosa (ou quiçá infame) apesar da carreira essencialmente teatral (Lifeboat, de Hitchcock, será o único filme digno de registo em que participou); Joan Crawford, luminosa em várias obras na década de 30 (rouba todas as cenas a Garbo em Grand Hotel), funérea já na de 50, no Johnny Guitar; e, com talvez mais pontos de contacto com Bacall do que qualquer outra, Katharine Hepburn, firme e mordaz ao ponto da insolência, apaixonada por um colega mais velho (Spencer Tracy), actriz principal de Hawks em Bringing Up Baby, dando réplica a Bogart em A Rainha Africana. (Quando Bogart contraiu cancro do esófago, Hepburn e Tracy foram visita frequente.) Todas belíssimas, todas extraordinárias, mas nenhuma com a conjugação de Bacall: beleza, inteligência, força, fragilidade – e aquela voz treinada para nos encantar. Seja como for, a partir de hoje estão outra vez juntas.