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As ligações insulares da Líbia

por João Pedro Pimenta, em 30.03.18
O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos dias,  não é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 
 
A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da órbita africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta no seu livro de memórias de 1993, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 
 
Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

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A reacção contra o independentismo em Portugal e Espanha.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.17

Para mostrar bem a diferença entre Portugal e Espanha, cabe comparar o tratamento dado pelo Estado espanhol aos independentistas catalães com o que o Estado português deu aos independentistas açorianos. Em 1991 José de Almeida, o líder da FLA foi julgado no Tribunal da Boa Hora pelo crime de tentar obter a independência dos Açores. Acabou absolvido, considerando o Tribunal que num Estado democrático ninguém pode impedir um cidadão de defender livremente as suas convicções. Os juízes espanhóis bem que podiam olhar para o exemplo de Portugal.

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Do Pico

por Francisca Prieto, em 21.07.17

Há uns quantos dias que fazes tenções de te sentar a escrever sobre as gentes do Pico. Mas não tens conseguido baixar o volume do que se passa à tua volta de forma a estruturar o que trouxeste debaixo da pele.

Quando começaste as tuas primeiras viagens, preferiste lugares longínquos, sempre na ideia de que os Açores era um destino para visitar na meia idade.

Hoje, ainda que muitos dias te sintas uma miúda, tens essa meia idade. Talvez tenha sido por isso que foste finalmente aos Açores. Mas o que não podias prever era que antes da meia idade e antes de teres calcorreado mundo, nunca irias conseguir perceber a Ilha do Pico. Nunca terias um aperto a disparar do coração para a garganta de tanto que tu, que não percebes nada de ilhas, que não tinhas qualquer interesse em ver baleias e que queres lá saber de rocha vulcânica, sentes que aquele recanto do mundo faz parte de ti.

Nunca poderias imaginar que o azul cerrado do Atlântico, que te entra pelos olhos a cada curva da estrada e que se mistura com os muretes negros que acondicionam a vinha, te levariam de volta à simplicidade da tua essência.

Ficas a saber histórias de baleeiros, desses homens que por valentia, galhardia e fome, se atiravam ao mar em botes para levar um punhado de dólares para casa. Ficas a saber que o terreno da ilha era tão árido e rochoso que não havia forma de cultivar os alimentos mais essenciais. Percebes, mais uma vez, a fome. Ficas a saber que se importou terra do Faial para distribuir pela base rochosa e plantar vinha. Que se fizeram pequenos rectângulos de rocha vulcânica em redor da vinha para proteger as uvas do vento e da humidade. Que hoje, esse engenho de sobrevivência, que tornou a paisagem estarrecedora, é património da UNESCO. Que o vinho é diferente de qualquer outro que tenhas experimentado porque te escorrega pela garganta e te deixa no palato um rasto a sal idêntico ao que levas no corpo depois de um dia a mergulhar

Descobres a estrada do meio da ilha, debruada a hortenses de todas as cores, que tens de partilhar com manadas de vacas que não conhecem sinais de trânsito.

A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura.

Deitas-te à noite com a chinfrineira dos cagarros, sabendo que mesmo ali defronte moram baleias, golfinhos e tubarões.

E sabes, sem perceber exactamente porquê, que tudo aquilo passará irremediavelmente a fazer parte de ti.

 

Pico.jpg

 

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Polémica Fracturante na Fajã de Baixo

por Francisca Prieto, em 05.09.16

Açoriano Oriental.JPG

Transcrevo as letras pequenas da notícia que apresenta o tema mais fracturante da actualidade da Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel:

Presidente da Casa do Povo da Fajã de Baixo acusa o director da Casa de Saúde de São Miguel "de se apropriar" da realização do Festival da Sopa, que há 18 anos tem lugar na freguesia, numa iniciativa da instituição particular de solidariedade social.

Senhor Director da Casa de Saúde, não tem vergonha? Se quer protagonismo, faça favor de promover um Festival do Ananás, uma Barrigada de Pão de Massa Sovada, uma Tertúlia de Queijo de São Jorge. Deixe lá a malta da sopa dar à colherada em paz. Afinal, já o fazem há 18 anos. É uma maioridade, caramba.

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Era só o que faltava...

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.12.15

A simples perspectiva de haver coisas nos Açores que reeditam os maus hábitos da Madeira, aproximando a governação socialista da de Alberto João Jardim, tira-me do sério. Com tudo o que já aconteceu seria bom que as coisas ficassem em pratos limpos. Limpos e transparentes. Ninguém está disponível para daqui a uns tempos cobrir os buracos do anticiclone.  

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 21.10.12

 

«Os censos de 2011 dizem que os Açores têm 246.746 habitantes, dizem também que 44.201 têm menos de 14 anos, se considerarmos que a média de nascimentos anual é sensivelmente igual. Poderíamos dizer que com menos de 18 anos existem cerca de 53.673 habitantes, ora retirando os habitantes não votantes à população total teríamos grosso modo o total de inscritos para as eleições, cerca de 193.073. As listas utilizadas para eleições dizem que estavam inscritos 225.112 votantes, podemos assegurar com alguma certeza que existem cerca de 32.000 inscritos a mais nas listas de eleitores. Não sei a quem convém deturpar os valores da abstenção, ou se será só preguiça.»

 
Do nosso leitor João Trabuco. A propósito deste meu texto.

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Açores e comentadores

por José António Abreu, em 15.10.12

Os resultados das eleições nos Açores eram tão previsíveis como hoje nos parece a salivação dos cães de Pavlov. Não me merecem, por isso, grandes comentários. Prefiro centrar-me no que os comentadores nos dizem sobre eles.

 

Dizem muitos, em jeito de descoberta transcendental, que os resultados são um aviso ao governo de Passos Coelho e, considerando a proximidade das autárquicas, ao PSD. O meu coração enche-se de ternura ao ver tanta gente preocupada com os autarcas sociais-democratas. Mas vejamos: o que deveria o governo fazer para ajudar essa excelsa turba a conseguir manter os empregos (tão frágeis nos dias que correm)? Recuar no aumento de impostos? Recuar na dispensa de funcionários públicos? Recuar nos cortes das pensões e dos subsídios? Recuar nos cortes nas empresas públicas? Recuar nos cortes na Saúde? Recuar apenas em algumas dessas medidas mas agravar as restantes? Ou talvez iniciar um braço de ferro com a Troika e dizer-lhe que preferimos não receber o dinheiro, ver os juros da dívida voltar a disparar, as empresas nacionais sem esperança de financiamento, os bancos ainda mais estrangulados e, no limite, sair do euro? Honestamente, eu só gostava que as pessoas fossem claras. Por mim, estou-me nas tintas para os autarcas do PSD. Primeiro, não são substancialmente diferentes dos do PS. Depois – e cá temos um ponto em que o governo devia estar a receber avisos de que não tem feito o suficiente –, acho até que o número de autarcas devia ser muito menor.

 

Uma nota também sobre Carlos César. Ouvi e li opiniões segundo as quais ainda o veremos a desempenhar um papel importante na política de âmbito nacional. Acho muito provável. Apesar de Carlos César não passar de um Alberto João Jardim ligeiramente mais polido, a verdade é que continuamos a preferir a imagem associada aos políticos que “fazem obra”, distribuem benesses e contraem dívidas à daqueles obrigados a corrigir desequilíbrios. As eleições dos Açores – como as da Madeira há um ano – também mostram isso. Mas se os comentadores o notaram, poucos ou nenhum o referiram.

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A lição dos Açores.

por Luís Menezes Leitão, em 15.10.12

 

Estive há dias nos Açores e pude assistir ao desenrolar da campanha. Para mim parecia evidente que Berta Cabral era uma excelente candidata e que o PS estava em situação difícil, desgastado por 16 anos de governação. Tudo apontava assim para uma clara vitória do PSD. Mas a certa altura foi perceptível que as coisas estavam a mudar rapidamente. E a principal causa dessa mudança residia nos sucessivos dislates de Passos Coelho à frente do Governo nacional. Primeiro anunciava a TSU, depois retirava a TSU. Primeiro anunciava o fim da cláusula de salvaguarda no IMI, depois mudava de ideias e já a cláusula de salvaguarda se mantinha. Não contente com isso, na véspera das eleições regionais, anunciou o maior aumento de impostos de que há memória em Portugal. Berta Cabral bem tentou demarcar-se de Passos Coelho, mas já não o conseguiu. É que não há candidato do PSD que possa resistir a tamanha incompetência na chefia do governo do país. Passos Coelho bem disse que se está a lixar para as eleições e já lixou efectivamente o PSD dos Açores. Resta ao PSD nacional, se tiver inteligência política, perceber que, com Passos Coelho à sua frente, será totalmente arrasado nas eleições que se seguirão, podendo ter o mesmo resultado eleitoral que agora teve no Corvo. É por isso evidente que o PSD não pode continuar com Passos Coelho à frente do partido. Que um líder partidário se queira suicidar politicamente, esse é um problema dele. Não me parece é que o partido o deva acompanhar nesse caminho.

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Açores: dez apontamentos eleitorais

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

1. Vitória eleitoral categórica do PS nas eleições regionais dos Açores, revalidando a maioria absoluta. Um triunfo pessoal do candidato socialista, Vasco Cordeiro, que assumirá a liderança do Executivo em Ponta Delgada, e também do secretário-geral do PS, António José Seguro, que participou activamente na campanha.

2. Esta foi a primeira vitória de Seguro desde que assumiu o comando dos socialistas a nível nacional. Cumpriu-se um dos melhores cenários eleitorais para o secretário-geral do PS, que assim robustece a sua liderança face às movimentações de possíveis rivais internos. Também por esse motivo esta era uma eleição que Seguro precisava mesmo de ganhar.

3. O resultado de hoje nos Açores constitui igualmente um tributo popular ao mandato do socialista Carlos César, que abandona o poder voluntariamente após 16 anos como presidente do Governo Regional. Esta vitória também lhe pertence pois constitui uma espécie de referendo ao seu desempenho governativo. Fazendo instalar a ideia, simétrica à da Madeira com maioria PSD desde 1976, de que nos Açores é normal que vençam os socialistas.

4. Berta Cabral, a candidata social-democrata, sofre uma pesada derrota. De nada lhe valeu, na recta final da campanha, demarcar-se do Governo de Lisboa fazendo comparações deselegantes com Passos Coelho e chegando a anunciar o voto contra dos deputados açorianos na Assembleia da República contra o Orçamento do Estado ainda sem conhecer o documento.

5. De nada serviu também ao CDS regional o discurso contra a coligação nacional de que faz parte. O partido sofre um recuo eleitoral e vê defraudada a expectativa de ascender ao Governo Regional como parceiro menor dos socialistas.

6. Passos Coelho não participou na campanha, ao contrário do que sucedeu com Paulo Portas, mas esta derrota também deve ser-lhe creditada. Foi a primeira que sofreu desde que assumiu a liderança dos sociais-democratas a nível nacional.

7. As campainhas de alarme terão de soar no PSD: o escrutínio açoriano, claramente influenciado por factores nacionais, indicia resultados tão maus ou piores para o partido nas autárquicas do próximo ano. Passos Coelho assumiu dignamente a derrota mas deve apressar-se a tirar conclusões deste expressivo voto de protesto dos eleitores açorianos.

8. Estranhamente, Berta Cabral não anunciou de imediato a demissão do cargo de presidente do PSD-Açores e a convocação de um congresso extraordinário. Devia tê-lo feito.

9. Carlos Cesar deu um notável exemplo de desprendimento do poder: podia ter-se recandidatado a um novo mandato de quatro anos, mas preferiu encerrar o seu ciclo de intervenção política directa nos Açores. Uma atitude que há muito devia ter sido adoptada na Madeira por Alberto João Jardim.

10. Vale a pena tomar nota: ainda haveremos de ouvir falar muito de César. Desta vez a nível nacional.

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Açores: cinco cenários para Seguro

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

Nunca umas eleições regionais nos Açores tiveram tanta importância a nível nacional, como se verá.

Na perspectiva de António José Seguro, deste escrutínio poderão decorrer cinco cenários - do óptimo ao péssimo.

 

Cenário óptimo. O candidato socialista açoriano, Vasco Cordeiro, vence as regionais mas sem maioria absoluta - o que o levará a formar um governo de coligação com o CDS no arquipélago. Situação ideal para o líder do PS por dois motivos: esta coligação teria um potencial de fractura entre os dois partidos que formam governo a nível nacional e poderia servir de balão de ensaio para um futuro Executivo em Lisboa entre socialistas e democratas-cristãos. Este seria também o cenário perfeito para o partido liderado por Paulo Portas, que se confirmaria como força política charneira do regime, ampliando ainda mais a sua capacidade negocial: coligada com o PSD em Lisboa e com o PS em Ponta Delgada.

 

Cenário bom. Vasco Cordeiro triunfa nas urnas, com maioria absoluta. Primeira vitória que Seguro poderá reclamar, enquanto líder do PS, depois de ter perdido as regionais de 2011 na Madeira, onde viu o seu partido ser ultrapassado pelo CDS como segunda força política. Esta vitória funcionaria no entanto, essencialmente, como um plebiscito aos 16 anos do mandato insular de Carlos César, impulsionando a sua carreira futura, desta vez a nível nacional.

 

Cenário ambíguo. O PS revalida a maioria nas urnas mas recuando eleitoralmente, vendo crescer as forças à sua esquerda e não lhe bastando somar deputados aos do CDS para garantir apoio maioritário na Assembleia Legislativa Regional. Teria assim que estabelecer um acordo político com o PSD, espécie de reedição de um bloco central à escala açoriana, aliás já admitido pela líder do PSD-Açores, o que enfraqueceria necessariamente o vigor da sua oposição aos sociais-democratas a nível nacional.

 

Cenário mau. O mesmo cenário, mas com posições invertidas: vitória tangencial do PSD, o que levaria a social-democrata Berta Cabral - que conduziu o essencial da sua campanha nas regionais a demarcar-se de Pedro Passos Coelho, ao ponto de anunciar que os deputados do PSD-Açores em Lisboa votariam por determinação dela contra o Orçamento do Estado ainda sem este documento ser conhecido - a formar um bloco central nos Açores. O PS seria desgraduado: em vez de um presidente do Governo Regional, teria apenas um vice-presidente.

 

Cenário péssimo. O PS perde esta eleição, mas sem possibilidade de ascender ao Governo. Seria a segunda derrota consecutiva de Seguro (após a da Madeira), o que levaria os seus adversários internos a acelerar as movimentações para uma mudança de ciclo no partido a nível nacional. Líderes alternativos não faltam - e estão em boa forma, como demonstraram Francisco Assis na sua intervenção parlamentar em nome do PS no recente debate das moções de censura ao Governo e António Costa, intervindo mais como protagonista político de primeiro plano do que como presidente da câmara de Lisboa nas cerimónias do 5 de Outubro. Falta apenas um bom pretexto para qualquer deles avançar.

 

Esta é, portanto, uma eleição que António José Seguro precisa de ganhar. Mais do que qualquer outra, mais do que qualquer outro.

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As ilhas que eu vejo (11)

por João Carvalho, em 30.09.12

 

São Jorge é uma ilha quase perfeita.

 

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As ilhas que eu vejo (10)

por João Carvalho, em 27.09.12

 

Lembram-se quando havia um pote de ouro na ponta do arco-íris? Bons tempos...Ver a ponta do arco-íris à frente dos olhos já é invulgar.

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Formigas à vista!

por João Carvalho, em 01.09.12

Os Açores começaram a ser achados a partir da ilha de Santa Maria, em 1432? Pode dizer-se que sim, mas os ilhéus das Formigas foram encontrados no ano anterior.

 

 

Quando o Infante D. Henrique designou Gonçalo Velho Cabral para ir em busca das ilhas que, em 1427, o piloto Diogo de Silves encontrara no regresso de uma viagem à Madeira, seguramente não esperava o resultado que teria essa primeira tentativa.

 

História. Gonçalo Velho Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador do castelo de Almourol, era um experiente navegador da confiança do Infante, já então considerado um homem muito próximo deste. Em 1431, com poucos recursos, D. Henrique sabia que podia contar com a reconhecida capacidade de liderança e experiência de Gonçalo Velho, pelo que decidiu que ele partiria sem problemas apenas com um pequeno barco e uma reduzida tripulação. Tudo indica que, ao todo, a tripulação não excedia uma dezena ou uma dúzia de marinheiros.

No ano seguinte, em 1432, o Infante enviou de novo Gonçalo Velho a caminho dos Açores e ele encontrou as ilhas de Santa Maria e de São Miguel, as duas mais orientais do arquipélago. Mas porque é que, nesse ano de 1431, ele não teria encontrado mais do que os pequenos ilhéus das Formigas, um conjunto de rochedos baixos localizados a norte de Santa Maria?

Calcula-se a frustração do navegador e, no regresso, do Infante. Nem uma das ilhas já antes achadas fôra avistada. Apenas os inabitáveis rochedos.

 

Imaginação. Quando me detenho a reflectir sobre este episódio, ponho-me a imaginar as raivas frequentes e traiçoeiras do Atlântico Norte e os sustos que um punhado de homens teria recebido borda dentro numa pequena embarcação a bater-se contra qualquer tempestade e quase à deriva entre os habituais nevoeiros do oceano.

Em dado momento, abalados e já quase descrentes das suas forças, não teriam esses homens esgotado todo o álcool que levavam a bordo, como que a preparar o que parecia o caminho inevitável para o sono eterno?

É humano e compreensível que assim tivesse sido. Nessas condições, com muito álcool a correr nas veias, quem teria avistado uma ilha ou algo mais do que aqueles rochedos que mal se levantavam do mar bem à frente do barco?

 

Actualidade. Hoje em dia, a verdade é que as Formigas têm uma importância que Gonçalo Velho Cabral não conseguiria adivinhar. O grupo de ilhéus, em que se destaca o perfil invulgar do farol que serve de aviso à navegação, tem sido sucessivamente classificado e confirmado como Reserva Natural e está integrado na Rede Natura 2000.

 

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A sereia da Praia

por João Carvalho, em 15.07.12

Deambulando por este espaço virtual, encontrei por mero acaso uma lenda açoriana um tanto inesperada. Ingenuamente centrada num tema tão infantil como a própria lenda, tem o dom de consagrar a beleza secular do amplo areal branco no nordeste da Terceira, a mais extensa praia em redor de toda a costa, onde foi fundada a cidade da Praia e onde se encontra o porto que serve a ilha. Passemos ao essencial da lenda.

 

 

Noite de Lua cheia. Boiando sobre as sossegadas ondas que docemente vinham acabar-se na areia branca, uma mulher de longos cabelos de ouro parecia ondular ao sabor da água.

O tronco nu era de uma perfeição rara e o rosto tão suavemente belo que um pescador, deslumbrado com a visão, não sentiu qualquer tentação cuja libido pudesse perturbar aquele encanto.

Ela aproximou-se. Quando já estava muito perto, o homem percebeu, cheio de temor, que o seu pescoço estava desfigurado pelo que parecia serem guelras. Mais: o seu corpo, da cintura para baixo, também parecia igual ao de um peixe.

Na aflição de quem julgava ter o diabo ao pé de si, o pescador esconjurou a aparição. Nesse mesmo instante, a mulher, que um qualquer poder maléfico e vingativo devia ter transformado em sereia, voltou à forma humana e perfeita que a sua figura inicialmente sugerira.

Esta lenda não nos conta se os dois se casaram e viveram felizes para sempre, mas podemos imaginar-lhes esse destino ditoso.

Já essa praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela ela é que, num mapa dos Açores datado de 1584 – feito pelo cosmógrafo Luís Teixeira no período filipino – o seu nome surge como Plaia Hermosa. Como o mapa foi feito para D. Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal), todas as legendas do mapa aparecem no mesmo castelhano arcaico.

Que a praia é formosa, percebe-se logo à primeira vista. Por isso, dispensa o adjectivo, que nunca foi usado pelos naturais da ilha (a Ilha Terceira), mas houve seguramente boas razões para que o topónimo não se ficasse pelo simples nome de Praia. De resto, eram bem conhecidas todas as praias dos Açores, sem dúvida, pois na legenda que explica o mapa está escrito em latim: «Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência, e com todo o cuidado as descreveu o português Luís Teixeira, cosmógrafo da Majestade Real. Ano de Cristo de 1584.»

Trata-se do mesmo autor no mesmo ano desse mapa da Praia, essa que viria um dia a merecer chamar-se Praia da Vitória. Um topónimo bem mais afirmativo do que Praia Formosa. Sem deixar de ser praia e de ser formosa.

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O ilhéu que se partiu

por João Carvalho, em 01.07.12

 

Na ilha Terceira, os ilhéus das Cabras constituem um alvo de polémicas sucessivamente renovadas ao longo de séculos, por causa da sua posse. Hoje em dia, são simplesmente vistos como importante reserva açoriana de espécies protegidas.

Localizados junto à costa sul da Ilha Terceira, na freguesia de Porto Judeu, são os ilhéus maiores do arquipélago. Quem circula pela estrada marginal e olha para eles, parece uma ilhota que acabou de partir-se e se soltou em dois pedaços. De origem vulcânica, estão na verdade divididos há séculos, pelo provável desmantelamento da costa, em resultado da erosão e movimentações tectónicas.

Abrigam eles alguma fauna protegida, como o cagarro e o garajau-comum, além da garça-real, do pilrito-das-praias e do borrelho-de-coleira-interrompida. Juntamente com o cagarro e o garajau, também a gaivota faz parte das aves marinhas que procuram os ilhéus para nidificação.

Em torno dos dois ilhéus encontram-se ainda com frequência pequenos cetáceos, como a toninha-brava, bem como algumas tartarugas.

Em meados do século XVII, os ilhéus das Cabras estão nas mãos de um ramo da conhecida família Canto, nome secular muito respeitado em terras açorianas, assim como na Casa Real no continente.

De geração em geração, de descendente em descendente, as Cabras vão mudando de proprietário, mesmo quando estes estão em Lisboa, em Braga, em Amares, no Porto ou em qualquer outro lugar fora dos Açores onde têm morado.

Com o passar dos séculos, a polémica que vai envolvendo os ilhéus renova-se, ora por razões de direitos, ora por razões de direito público. Actualmente, porém, se são propriedade privada ou pública não parece ser tão importante. Na sua verdura pujante e recorte em falésia, constituem uma reserva natural que todos respeitam e admiram com gosto, porque fazem parte da bela diversidade que o arquipélago em geral oferece e de que a Terceira em particular cuida.

Além do mais, já o celebrado terceirense Vitorino Nemésio se referia aos ilhéus das Cabras como uma espécie de representação dos açorianos, chamando-lhes «a estátua da nossa solidão» (Corsário das Ilhas, 1956). Não poderia haver classificação mais pública e colectiva do que esta. A própria definição de Nemésio é património colectivo.

 

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As ilhas que eu vejo (9)

por João Carvalho, em 30.06.12

 

Cá estou eu a respirar o verde intenso...

 

 

... e a sentir o azul imenso.

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Descrever o tradicional culto dedicado ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e a importância da imagem bizantina que atrai tanta gente a Ponta Delgada no quinto domingo depois da Páscoa dia da vistosa procissão que percorre a cidade durante várias horas sobre tapetes de flores — não é o mesmo que recordar a lenda em torno da origem dessa imagem, pretexto para o postal de memórias de hoje.

 

 

O Convento de Nossa Senhora da Conceição da Caloura fica na aldeia da Caloura, em Vale de Cabaços, uma espécie de vale à beira-mar que pertence à bonita freguesia de Água de Pau, localidade disposta em cascata e que integra o belo concelho de Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel.

 

 

Na fachada da capela do Convento da Caloura lê-se Dezembro 1684. Construído sobre rochedos, foi o primeiro convento na ilha, autorizado pelo Papa Paulo III (ou talvez pelo Papa Clemente VII). A autorização papal teria sido acompanhada pela oferta da imagem do Senhor Santo Cristo (Ecce Homo), mas as dúvidas históricas que envolvem o caso são “resolvidas” por outra história, popular e pragmática, como várias vezes acontece.

Diz essa história que as freiras da Caloura andavam tristes com a falta de fé do povo de Água de Pau, visivelmente afastado das coisas da Igreja, por muito que elas rezassem para unir o “rebanho” do Senhor. Ao mesmo tempo, escreviam ao Papa a pedir uma imagem nova para colocarem na ermida e que conseguisse atrair as pessoas.

 

 

Por essa altura, eram frequentes os assaltos de piratas e corsários nas costas açorianas e a zona da Caloura sofria tantos desembarques e pilhagens que acabaria por verificar-se posteriormente a retirada das freiras e da imagem, mudadas então para o Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, o qual abriga até hoje a Igreja e Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Mas a lenda conta coisa diferente. Conta que, um dia, uma nau foi atacada por piratas ao largo de São Miguel e que os destroços estiveram muito tempo a dar à costa sul. Foi aí que, uma manhã, as freiras viram um caixote a flutuar perto das rochas, de onde parecia emanar uma luz. Desceram à água, puxaram a caixa, abriram-na e deram com um busto de Cristo, cujo rosto apresentava um olhar vivo e uma expressão serena.

Para as religiosas, era um milagre: o Santo Cristo tinha escolhido São Miguel para aportar, onde o povo tinha fama de ser muito crente, e a população de Água de Pau, ao saber da imagem aparecida, cresceu na sua fé. Rapidamente, essa imagem foi também alvo do culto de toda a ilha, de todo o arquipélago, sem tardar a ser admirada por fiéis de tantas outras paragens.

 

 

Actualmente, no quinto domingo após a Páscoa, Ponta Delgada recebe devotos de muitas bandas e parece alargar-se para conseguir receber toda a gente.

 

 

Fotos (de cima para baixo, da esquerda para a direita):

• Caloura e o convento (ao centro, na foto);

• Convento da Caloura e fachada da capela do convento;

• Convento de Nossa Senhora da Esperança (Ponta Delgada)

com iluminações em véspera da procissão;

• O Senhor Santo Cristo em procissão e tapete de flores;

• Vai passar a procissão...

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As ilhas que eu vejo (8)

por João Carvalho, em 01.05.12

 

Com as três largadas de hoje, está aberta a temporada taurina na ilha.

 

 

Os aficionados têm muitas touradas à corda na Terceira até Outubro.

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As ilhas que eu vejo (7)

por João Carvalho, em 28.04.12

 

Tanto verde, tanta cor...

 

 

... e todos os caminhos vão dar ao azul imenso.

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As ilhas que eu vejo (6)

por João Carvalho, em 26.04.12

 

É bom estar de novo nos Açores, ainda que este regresso seja só por uns dias.

 

 

Em breve estarei de volta ao meu velho Porto, mas faz bem à alma vir aqui.

 

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