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Moreira das proclamações

por José Meireles Graça, em 17.11.20

Jorge Moreira da Silva, um homem aberto, moderno, cosmopolita, inovador e arejado, na opinião do próprio, publica um artigo de opinião no Público onde, fremente de virtuosa indignação, acha mal que o seu colega José Manuel Bolieiro, cuja “competência” sublinha, tenha feito um acordo com O Chega!. “Não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas. Com partidos que, por ignorância ou perversidade moral, propalam propostas incompatíveis com a dignidade humana. Ponto!”, exclama, e eu até tremi de comoção – este Moreira sabe como tanger as cordas dos nossos mais lídimos sentimentos, vou ali beber um chá de camomila e comer um bocadinho de tofu com queijo das ilhas para me acalmar.

Não sou nem adepto nem advogado do Chega! – não preciso de versões exacerbadas e oportunistas de vários tipos de asneirol que já tinham o seu cantinho no meu partido, que acolhe, e bem, muitas capelas.

Sucede porém que almas simples como a minha gostam das coisas bem explicadinhas. E este discurso escuteiral suscita-me várias questões, a começar pela curiosidade de saber quem é este prócere do PSD, cujo nome me era familiar.

Era, e com razão: Já em tempos tropecei neste empresário do ramo das tretas ecológicas, e sobre ele bordei considerações da maior pertinência, que estão aqui. Um passado ominoso, é o caso de dizer.

Depois, acha que o Chega! é uma data de coisas que será ou não (os próprios, se acham que a carapuça não lhes serve, que se defendam, se entenderem que o que diz Jorge vale a pena refutar) mas deve ter pouca confiança em Bolieiro, no PSD e CDS locais e no acordo. Porque toda a gente envolvida neste negócio deve saber o que lhe convém, que é apear o PS, e é precisa muita falta de confiança para imaginar que o Chega!, parceiro minoritário, está em condições de cobrar um preço que democratas não possam pagar.

Jorge “… recorda que em 2015 deu voz à primeira reação oficial da PaF na noite eleitoral defendendo que ‘quem ganha governa’ e que mantém a posição contra as coligações ‘negativas para derrubar o governo liderado pelo partido mais votado…” 

Olha que bem. E como o tal governo feito por quem ganhou não conseguiria governar porque não aprovaria coisa alguma, seria necessário acreditar que o eleitorado, em novas eleições, corrigiria o torto, dando a maioria absoluta a quem não a deu dias antes, e castigando o partido proscrito com quem ninguém quisesse fazer acordos. Isto, com o PCP, sobre o qual, tirando os comunistas, ninguém tem ilusões, talvez tivesse pernas para andar (deixo de lado as implicações constitucionais, que não são as mesmas para o governo do país e o das ilhas). Mas com o Chega!? Não me parece.

O homem acredita nisto. Já eu acho que quem nisto acredita é aventureiro, Jorginho que tenha lá paciência. E como, na prática, o PS não deixará, com entusiasmo, de encarar com a maior simpatia estes pontos de vista, cabe lembrar a afirmação cínica de Salazar: em política, o que parece é.

Os cínicos, às vezes, têm razão.

Reacções e falta de memória

por João Pedro Pimenta, em 11.11.20
O acordo para viabilizar o novo executivo açoriano trouxe à memória a constituição da "geringonça" e o precedente que causou. Ou antes, devia ter trazido.
 
Por um lado, temos o nosso primeiro-ministro, arquitecto da geringonça, o homem que permitiu todo este novo desenho parlamentar, que tirou sentido ao voto útil ao fazer acordos com os que até aí eram inimigos de longa data e de natureza completamente diferente, a criticar o PSD e a referir-se a "linhas vermelhas". Mas a questão em 2015 não era a de que se não houvesse geringonça "a direita ficaria no poder"? E isso implicava atravessar inhas literalmente vermelhas para fazer tratados com os seus velhos inimigos (por vezes mais do que advesários)? Então...
 
Por outro lado, temos um abaixo-assinado de um conjunto de pessoas de alguma forma ligadas ao centro direita que critica os acordos com direitas "iliberais". Os subscritores já foram mimoseados nas redes sociais com os habituais insultos do cardápio - "direita fofinha", "direita de que a esquerda gosta", "cobardes", "pusilânimes", etc. Ora isso lembra muito o tipo de remoques que socialistas como Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto ouviram por se oporem à geringonça e avisarem com que esquerdas estavam a assinar. Lembram-se dos "traidores", "neoliberais do PS" e "vendidos à direita" que lhes atiravam? É que alguns dos que então os aplaudiam (até havia o jargão "Assis, salva o país") viraram-se agora indignados contra a "direita de que a esquerda gosta".
 

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É fantástico ver como a falta de memória gera os oportunismos mais descarados. E também tem o seu quê de divertido.

Férias sem testes nem máscaras

por Pedro Correia, em 13.08.20

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Praia de Burgau

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Na praia do Camilo

 

Enfim "desconfinado" (um dos nossos habituais eufemismos em jeito português suave), escolhi local de férias.

Dei prioridade aos Açores: quero conhecer a ilha de Santa Maria, antigo sonho meu, reforçado pela leitura recente de Crime em Ponta Delgada, romance (que recomendo) do meu amigo Francisco José Viegas. Azar: logo se lembrou o Governo Regional presidido pelo socialista Vasco Cordeiro de decretar testes obrigatórios ao novo coronavírus a todos os passageiros desembarcados do continente. Alguns destes supostos "empestados" chegaram a permanecer três dias compulsivamente encerrados em quartos de hotel em Ponta Delgada, sem possibilidade de rumar a outras ilhas, enquanto aguardavam os resultados dos testes.

Mudei de planos. E olhei então para a Madeira, mais concretamente para Porto Santo - onde existe uma das cinco ou seis mais belas praias portuguesas. Só lá estive uma vez, há mais de uma década: seria a ocasião ideal para regressar. Mas também aqui tudo se alterou: o Governo Regional presidido pelo social-democrata Miguel Albuquerque lembrou-se então de decretar o uso obrigatório da máscara nos espaços públicos do território insular, incluindo os que desfrutamos ao ar livre. Alguém com um módico bom senso vai de férias para andar o tempo todo de máscara arriscando pagar multas de 30 euros por ser visto sem ela? Não conheço ninguém, com excepção do Presidente da República, mesmo que tal medida - nunca aplicada no continente - suscite polémica entre os constitucionalistas.

 

Desisti, portanto. Vim para o Algarve, sem testes nem máscara ao ar livre. Um Algarve muito mais "desconfinado" do que o de 2019. Com muito menos turistas estrangeiros, alguns quase de todo ausentes - como os ingleses, os norte-americanos ou os canadianos. Mas, até por isso, com preços mais convidativos e mais espaço para manter distância física (não "distanciamento social", expressão absurda, que não é nem jamais pode ser regra sanitária) em relação a vizinhos de hotel, de apartamento, de praia ou de piscina. 

Fixei-me em Lagos. E tenho andado pelas praias das imediações, com destaque para a belíssima Burgau, que nos sugere um recorte da costa adriática. Mas também a praia do Camilo, com restaurante acoplado. E, claro, a icónica Meia Praia, onde há sempre lugar para todos - é de uma extensão só comparável a Montegordo ou ao quase vizinho Alvor.

Isto sim, é "desconfinamento". Enquanto o senhor Cordeiro e o senhor Albuquerque, regedores das ilhas, desesperam com falta de turistas, incluindo os continentais: só podem queixar-se deles mesmos. Que lhes faça bom proveito.

 

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Lagos ao anoitecer

Insegurança e desconfiança

por Pedro Correia, em 06.07.20

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O Presidente da República, que já se tinha deslocado duas vezes aos Açores, em Janeiro e Junho, prometendo regressar em Agosto, dignou-se enfim dar um saltinho à Madeira. Talvez estimulado pelo facto de o social-democrata Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional madeirense, lhe ter chamado «bengala do Governo» e admitido concorrer contra ele daqui a seis meses, na próxima eleição para o Palácio de Belém.

Antes da terceira visita ao arquipélago liderado pelo socialista Vasco Cordeiro, Marcelo Rebelo de Sousa lá se dignou picar o ponto na Madeira, numa espécie de toccata e fuga que nem durou 24 horas na ilha descoberta por Gonçalves Zarco. Além de aplacar os ânimos de Albuquerque, que poderia contribuir para lhe reduzir a ansiada fasquia dos 70% na reeleição prevista para Janeiro, o Presidente terá procurado transmitir mensagens de «segurança e confiança» no combate ao Covid-19 em solo madeirense. Para encontrarem eco nos telediários do Reino Unido, que acaba de excluir o nosso país dos "corredores turísticos" deste Verão devido ao aparente insucesso português no combate à pandemia - notícia desastrosa sobretudo para regiões como o Algarve e a própria Madeira, onde os britânicos representam 17,9% das dormidas turísticas.

Iniciativa meritória, a de Marcelo. Duvido muito, no entanto, que obtenha sucesso. Imagino como o verá um inglês médio que observe as imagens dele no Funchal, falando às pessoas na rua sem nunca abandonar a máscara e forçando os demais membros da comitiva a comportarem-se da mesma forma para não parecer mal. Quem entre nós, se fôssemos britânicos, se sentiria seguro e confiante para fazer férias num sítio destes?

Mr. Lamb, I presume

por Pedro Correia, em 04.06.20

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Se há político que goza de "boa imprensa" em Portugal é o presidente da Região Autónoma dos Açores. Caso assim não fosse, Vasco Cordeiro teria recebido um ensurdecedor coro de críticas. Por ter praticado o acto político mais condenável desde que vivemos sob o signo da pandemia. Refiro-me à decisão de forçar todos os passageiros desembarcados no arquipélago a duas semanas de encerramento compulsivo num quarto de hotel escolhido pelo Governo regional.

Privação ilegal de liberdade, ferindo de modo chocante a Constituição da República. Ainda por cima discriminando cidadãos nacionais, pois a partir de 8 de Março o Executivo passou a financiar a quarentena apenas quando aplicada aos residentes habituais na Região. Decisão felizmente revertida graças à intervenção de uma juíza em funções no Tribunal Judicial de Ponta Delgada, que deferiu um pedido de habeas corpus interposto pelo advogado de um desses cidadãos.

Corajosa magistrada, corajoso advogado, corajoso cidadão. Nenhum se vergou à prepotência de Cordeiro.

 

"Uma vitória da cidadania", lhe chamei aqui. Em contraste com o pesado silêncio do Presidente da República, tão loquaz noutras ocasiões, ou do seu representante nos Açores. E contrastando igualmente com o expectável silêncio do primeiro-ministro, correligionário do líder açoriano, e até dos próprios partidos da oposição - o que, tratando-se do PSD, também não surpreende.

No seu blogue, o constitucionalista Vital Moreira, insuspeito de antipatias políticas face ao líder socialista dos Açores, deixou claro o seu pensamento quanto à quarentena obrigatória num quarto de hotel transformado em cela prisional: «Tal medida, tomada ao abrigo da lei regional de protecção civil, traduz-se numa violação grosseira da liberdade pessoal, pelo que só poderia ser excepcionalmente tomada em regime de estado de sítio ou de estado de emergência, que só pode se declarado pelo PR, com aprovação da AR.»

 

Apesar disto, Vasco Cordeiro manteve a boa aura na generalidade da imprensa: a maioria dos órgãos de informação nem se referiu ao assunto. Na mesma linha, nem parecem estranhar que o líder açoriano deturpe com aparente indiferença e talvez até algum orgulho o nome da própria Região a que preside, trocando Açores por "Azores" no endereço electrónico oficial do Executivo. Como se governasse Porto Rico ou a Samoa Americana, em vez de uma parcela inalienável do Estado português.

Caso para alguém o interpelar nestes termos, quando o vir: «Mr. Lamb, I presume.» Ele certamente reagirá com uma sonora gargalhada. Isto anda tudo ligado, como dizia o outro.

Uma vitória da cidadania

por Pedro Correia, em 17.05.20

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Tribunal de Ponta Delgada

 

Passo por aqui só para louvar uma vitória da cidadania neste tempo de acelerada compressão de direitos, liberdades e garantias em que muitos confundem a utilização de máscara por imperativo sanitário com o uso de açaimo ou mordaça. Como se a legalidade democrática estivesse de quarentena.

 

Refiro-me à corajosa decisão da juíza de turno no Tribunal Judicial de Ponta Delgada que aprovou o habeas corpus a um cidadão português, confrontado em território português com uma medida de confinamento ilegal, mais chocante ainda por vir com chancela oficial a pretexto do combate à pandemia. Considerando que esta quarentena viola a liberdade individual - conforme determina o artigo 27.º da Constituição, que consagra o direito à liberdade e à segurança. Segundo este artigo, o confinamento compulsivo sob pretexto sanitário só pode abranger o «portador de anomalia psíquica em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente».

Louvo esta magistrada, e o advogado Pedro Gomes, que desafiou o poder político insular ao invocar o habeas corpus, e naturalmente também o cidadão que se sentiu lesado e accionou os direitos constitucionais que lhe assistem. E que nos assistem a todos, é bom que não esqueçamos. Mesmo em tempo de Covid-19.

Direi até: sobretudo em tempo de Covid-19.

 

Acontece que o Governo açoriano tinha imposto a 14 de Março uma quarentena obrigatória a quem desembarcasse em São Miguel, forçando estes cidadãos à reclusão numa unidade hoteleira de Ponta Delgada. Mas sem possibilidade sequer de abandonarem o quarto de hotel durante 15 dias.

Se isto já seria absolutamente contestável, pior foi a decisão posterior do Executivo liderado por Vasco Cordeiro de assumir as despesas deste confinamento para todos os residentes na região enquanto os restantes portugueses - com residência no continente - se viam obrigados a pagar do seu bolso este encerramento compulsivo num quarto de hotel que não escolheram. Em flagrante e grosseira violação do direito à igualdade consagrado no nosso texto constitucional.

 

Vem agora o Tribunal de Ponta Delgada considerar ilegal estas medidas. 

Cordeiro foi obrigado a acatar o veredicto judicial, mas protestou, admoestando a juíza em tom de inaceitável descortesia institucional, procurando novamente refugiar-se no combate ao coronavírus para justificar esta prepotência: «Estamos perante um duro revés na estratégia regional de combate a esta doença cujas consequências não se circunscrevem ao risco para a saúde e potencialmente para a vida dos açorianos.»

 

A uma decisão inaceitável, seguem-se palavras inadequadas. Só lamento, em tudo isto, o silêncio do Presidente da República e do seu representante na região autónoma, além do aparente alheamento da Provedora de Justiça, a quem o caso havia sido igualmente remetido.

Se a partir de agora se pronunciarem, já será tarde. De qualquer modo, mais vale tarde que nunca.

As ligações insulares da Líbia

por João Pedro Pimenta, em 30.03.18
O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos dias,  não é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 
 
A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da órbita africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta no seu livro de memórias de 1993, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 
 
Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

A reacção contra o independentismo em Portugal e Espanha.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.17

Para mostrar bem a diferença entre Portugal e Espanha, cabe comparar o tratamento dado pelo Estado espanhol aos independentistas catalães com o que o Estado português deu aos independentistas açorianos. Em 1991 José de Almeida, o líder da FLA foi julgado no Tribunal da Boa Hora pelo crime de tentar obter a independência dos Açores. Acabou absolvido, considerando o Tribunal que num Estado democrático ninguém pode impedir um cidadão de defender livremente as suas convicções. Os juízes espanhóis bem que podiam olhar para o exemplo de Portugal.

Do Pico

por Francisca Prieto, em 21.07.17

Há uns quantos dias que fazes tenções de te sentar a escrever sobre as gentes do Pico. Mas não tens conseguido baixar o volume do que se passa à tua volta de forma a estruturar o que trouxeste debaixo da pele.

Quando começaste as tuas primeiras viagens, preferiste lugares longínquos, sempre na ideia de que os Açores era um destino para visitar na meia idade.

Hoje, ainda que muitos dias te sintas uma miúda, tens essa meia idade. Talvez tenha sido por isso que foste finalmente aos Açores. Mas o que não podias prever era que antes da meia idade e antes de teres calcorreado mundo, nunca irias conseguir perceber a Ilha do Pico. Nunca terias um aperto a disparar do coração para a garganta de tanto que tu, que não percebes nada de ilhas, que não tinhas qualquer interesse em ver baleias e que queres lá saber de rocha vulcânica, sentes que aquele recanto do mundo faz parte de ti.

Nunca poderias imaginar que o azul cerrado do Atlântico, que te entra pelos olhos a cada curva da estrada e que se mistura com os muretes negros que acondicionam a vinha, te levariam de volta à simplicidade da tua essência.

Ficas a saber histórias de baleeiros, desses homens que por valentia, galhardia e fome, se atiravam ao mar em botes para levar um punhado de dólares para casa. Ficas a saber que o terreno da ilha era tão árido e rochoso que não havia forma de cultivar os alimentos mais essenciais. Percebes, mais uma vez, a fome. Ficas a saber que se importou terra do Faial para distribuir pela base rochosa e plantar vinha. Que se fizeram pequenos rectângulos de rocha vulcânica em redor da vinha para proteger as uvas do vento e da humidade. Que hoje, esse engenho de sobrevivência, que tornou a paisagem estarrecedora, é património da UNESCO. Que o vinho é diferente de qualquer outro que tenhas experimentado porque te escorrega pela garganta e te deixa no palato um rasto a sal idêntico ao que levas no corpo depois de um dia a mergulhar

Descobres a estrada do meio da ilha, debruada a hortenses de todas as cores, que tens de partilhar com manadas de vacas que não conhecem sinais de trânsito.

A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura.

Deitas-te à noite com a chinfrineira dos cagarros, sabendo que mesmo ali defronte moram baleias, golfinhos e tubarões.

E sabes, sem perceber exactamente porquê, que tudo aquilo passará irremediavelmente a fazer parte de ti.

 

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Polémica Fracturante na Fajã de Baixo

por Francisca Prieto, em 05.09.16

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Transcrevo as letras pequenas da notícia que apresenta o tema mais fracturante da actualidade da Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel:

Presidente da Casa do Povo da Fajã de Baixo acusa o director da Casa de Saúde de São Miguel "de se apropriar" da realização do Festival da Sopa, que há 18 anos tem lugar na freguesia, numa iniciativa da instituição particular de solidariedade social.

Senhor Director da Casa de Saúde, não tem vergonha? Se quer protagonismo, faça favor de promover um Festival do Ananás, uma Barrigada de Pão de Massa Sovada, uma Tertúlia de Queijo de São Jorge. Deixe lá a malta da sopa dar à colherada em paz. Afinal, já o fazem há 18 anos. É uma maioridade, caramba.

Era só o que faltava...

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.12.15

A simples perspectiva de haver coisas nos Açores que reeditam os maus hábitos da Madeira, aproximando a governação socialista da de Alberto João Jardim, tira-me do sério. Com tudo o que já aconteceu seria bom que as coisas ficassem em pratos limpos. Limpos e transparentes. Ninguém está disponível para daqui a uns tempos cobrir os buracos do anticiclone.  

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 21.10.12

 

«Os censos de 2011 dizem que os Açores têm 246.746 habitantes, dizem também que 44.201 têm menos de 14 anos, se considerarmos que a média de nascimentos anual é sensivelmente igual. Poderíamos dizer que com menos de 18 anos existem cerca de 53.673 habitantes, ora retirando os habitantes não votantes à população total teríamos grosso modo o total de inscritos para as eleições, cerca de 193.073. As listas utilizadas para eleições dizem que estavam inscritos 225.112 votantes, podemos assegurar com alguma certeza que existem cerca de 32.000 inscritos a mais nas listas de eleitores. Não sei a quem convém deturpar os valores da abstenção, ou se será só preguiça.»

 
Do nosso leitor João Trabuco. A propósito deste meu texto.

Açores e comentadores

por José António Abreu, em 15.10.12

Os resultados das eleições nos Açores eram tão previsíveis como hoje nos parece a salivação dos cães de Pavlov. Não me merecem, por isso, grandes comentários. Prefiro centrar-me no que os comentadores nos dizem sobre eles.

 

Dizem muitos, em jeito de descoberta transcendental, que os resultados são um aviso ao governo de Passos Coelho e, considerando a proximidade das autárquicas, ao PSD. O meu coração enche-se de ternura ao ver tanta gente preocupada com os autarcas sociais-democratas. Mas vejamos: o que deveria o governo fazer para ajudar essa excelsa turba a conseguir manter os empregos (tão frágeis nos dias que correm)? Recuar no aumento de impostos? Recuar na dispensa de funcionários públicos? Recuar nos cortes das pensões e dos subsídios? Recuar nos cortes nas empresas públicas? Recuar nos cortes na Saúde? Recuar apenas em algumas dessas medidas mas agravar as restantes? Ou talvez iniciar um braço de ferro com a Troika e dizer-lhe que preferimos não receber o dinheiro, ver os juros da dívida voltar a disparar, as empresas nacionais sem esperança de financiamento, os bancos ainda mais estrangulados e, no limite, sair do euro? Honestamente, eu só gostava que as pessoas fossem claras. Por mim, estou-me nas tintas para os autarcas do PSD. Primeiro, não são substancialmente diferentes dos do PS. Depois – e cá temos um ponto em que o governo devia estar a receber avisos de que não tem feito o suficiente –, acho até que o número de autarcas devia ser muito menor.

 

Uma nota também sobre Carlos César. Ouvi e li opiniões segundo as quais ainda o veremos a desempenhar um papel importante na política de âmbito nacional. Acho muito provável. Apesar de Carlos César não passar de um Alberto João Jardim ligeiramente mais polido, a verdade é que continuamos a preferir a imagem associada aos políticos que “fazem obra”, distribuem benesses e contraem dívidas à daqueles obrigados a corrigir desequilíbrios. As eleições dos Açores – como as da Madeira há um ano – também mostram isso. Mas se os comentadores o notaram, poucos ou nenhum o referiram.

A lição dos Açores.

por Luís Menezes Leitão, em 15.10.12

 

Estive há dias nos Açores e pude assistir ao desenrolar da campanha. Para mim parecia evidente que Berta Cabral era uma excelente candidata e que o PS estava em situação difícil, desgastado por 16 anos de governação. Tudo apontava assim para uma clara vitória do PSD. Mas a certa altura foi perceptível que as coisas estavam a mudar rapidamente. E a principal causa dessa mudança residia nos sucessivos dislates de Passos Coelho à frente do Governo nacional. Primeiro anunciava a TSU, depois retirava a TSU. Primeiro anunciava o fim da cláusula de salvaguarda no IMI, depois mudava de ideias e já a cláusula de salvaguarda se mantinha. Não contente com isso, na véspera das eleições regionais, anunciou o maior aumento de impostos de que há memória em Portugal. Berta Cabral bem tentou demarcar-se de Passos Coelho, mas já não o conseguiu. É que não há candidato do PSD que possa resistir a tamanha incompetência na chefia do governo do país. Passos Coelho bem disse que se está a lixar para as eleições e já lixou efectivamente o PSD dos Açores. Resta ao PSD nacional, se tiver inteligência política, perceber que, com Passos Coelho à sua frente, será totalmente arrasado nas eleições que se seguirão, podendo ter o mesmo resultado eleitoral que agora teve no Corvo. É por isso evidente que o PSD não pode continuar com Passos Coelho à frente do partido. Que um líder partidário se queira suicidar politicamente, esse é um problema dele. Não me parece é que o partido o deva acompanhar nesse caminho.

Açores: dez apontamentos eleitorais

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

1. Vitória eleitoral categórica do PS nas eleições regionais dos Açores, revalidando a maioria absoluta. Um triunfo pessoal do candidato socialista, Vasco Cordeiro, que assumirá a liderança do Executivo em Ponta Delgada, e também do secretário-geral do PS, António José Seguro, que participou activamente na campanha.

2. Esta foi a primeira vitória de Seguro desde que assumiu o comando dos socialistas a nível nacional. Cumpriu-se um dos melhores cenários eleitorais para o secretário-geral do PS, que assim robustece a sua liderança face às movimentações de possíveis rivais internos. Também por esse motivo esta era uma eleição que Seguro precisava mesmo de ganhar.

3. O resultado de hoje nos Açores constitui igualmente um tributo popular ao mandato do socialista Carlos César, que abandona o poder voluntariamente após 16 anos como presidente do Governo Regional. Esta vitória também lhe pertence pois constitui uma espécie de referendo ao seu desempenho governativo. Fazendo instalar a ideia, simétrica à da Madeira com maioria PSD desde 1976, de que nos Açores é normal que vençam os socialistas.

4. Berta Cabral, a candidata social-democrata, sofre uma pesada derrota. De nada lhe valeu, na recta final da campanha, demarcar-se do Governo de Lisboa fazendo comparações deselegantes com Passos Coelho e chegando a anunciar o voto contra dos deputados açorianos na Assembleia da República contra o Orçamento do Estado ainda sem conhecer o documento.

5. De nada serviu também ao CDS regional o discurso contra a coligação nacional de que faz parte. O partido sofre um recuo eleitoral e vê defraudada a expectativa de ascender ao Governo Regional como parceiro menor dos socialistas.

6. Passos Coelho não participou na campanha, ao contrário do que sucedeu com Paulo Portas, mas esta derrota também deve ser-lhe creditada. Foi a primeira que sofreu desde que assumiu a liderança dos sociais-democratas a nível nacional.

7. As campainhas de alarme terão de soar no PSD: o escrutínio açoriano, claramente influenciado por factores nacionais, indicia resultados tão maus ou piores para o partido nas autárquicas do próximo ano. Passos Coelho assumiu dignamente a derrota mas deve apressar-se a tirar conclusões deste expressivo voto de protesto dos eleitores açorianos.

8. Estranhamente, Berta Cabral não anunciou de imediato a demissão do cargo de presidente do PSD-Açores e a convocação de um congresso extraordinário. Devia tê-lo feito.

9. Carlos Cesar deu um notável exemplo de desprendimento do poder: podia ter-se recandidatado a um novo mandato de quatro anos, mas preferiu encerrar o seu ciclo de intervenção política directa nos Açores. Uma atitude que há muito devia ter sido adoptada na Madeira por Alberto João Jardim.

10. Vale a pena tomar nota: ainda haveremos de ouvir falar muito de César. Desta vez a nível nacional.

Açores: cinco cenários para Seguro

por Pedro Correia, em 14.10.12

 

Nunca umas eleições regionais nos Açores tiveram tanta importância a nível nacional, como se verá.

Na perspectiva de António José Seguro, deste escrutínio poderão decorrer cinco cenários - do óptimo ao péssimo.

 

Cenário óptimo. O candidato socialista açoriano, Vasco Cordeiro, vence as regionais mas sem maioria absoluta - o que o levará a formar um governo de coligação com o CDS no arquipélago. Situação ideal para o líder do PS por dois motivos: esta coligação teria um potencial de fractura entre os dois partidos que formam governo a nível nacional e poderia servir de balão de ensaio para um futuro Executivo em Lisboa entre socialistas e democratas-cristãos. Este seria também o cenário perfeito para o partido liderado por Paulo Portas, que se confirmaria como força política charneira do regime, ampliando ainda mais a sua capacidade negocial: coligada com o PSD em Lisboa e com o PS em Ponta Delgada.

 

Cenário bom. Vasco Cordeiro triunfa nas urnas, com maioria absoluta. Primeira vitória que Seguro poderá reclamar, enquanto líder do PS, depois de ter perdido as regionais de 2011 na Madeira, onde viu o seu partido ser ultrapassado pelo CDS como segunda força política. Esta vitória funcionaria no entanto, essencialmente, como um plebiscito aos 16 anos do mandato insular de Carlos César, impulsionando a sua carreira futura, desta vez a nível nacional.

 

Cenário ambíguo. O PS revalida a maioria nas urnas mas recuando eleitoralmente, vendo crescer as forças à sua esquerda e não lhe bastando somar deputados aos do CDS para garantir apoio maioritário na Assembleia Legislativa Regional. Teria assim que estabelecer um acordo político com o PSD, espécie de reedição de um bloco central à escala açoriana, aliás já admitido pela líder do PSD-Açores, o que enfraqueceria necessariamente o vigor da sua oposição aos sociais-democratas a nível nacional.

 

Cenário mau. O mesmo cenário, mas com posições invertidas: vitória tangencial do PSD, o que levaria a social-democrata Berta Cabral - que conduziu o essencial da sua campanha nas regionais a demarcar-se de Pedro Passos Coelho, ao ponto de anunciar que os deputados do PSD-Açores em Lisboa votariam por determinação dela contra o Orçamento do Estado ainda sem este documento ser conhecido - a formar um bloco central nos Açores. O PS seria desgraduado: em vez de um presidente do Governo Regional, teria apenas um vice-presidente.

 

Cenário péssimo. O PS perde esta eleição, mas sem possibilidade de ascender ao Governo. Seria a segunda derrota consecutiva de Seguro (após a da Madeira), o que levaria os seus adversários internos a acelerar as movimentações para uma mudança de ciclo no partido a nível nacional. Líderes alternativos não faltam - e estão em boa forma, como demonstraram Francisco Assis na sua intervenção parlamentar em nome do PS no recente debate das moções de censura ao Governo e António Costa, intervindo mais como protagonista político de primeiro plano do que como presidente da câmara de Lisboa nas cerimónias do 5 de Outubro. Falta apenas um bom pretexto para qualquer deles avançar.

 

Esta é, portanto, uma eleição que António José Seguro precisa de ganhar. Mais do que qualquer outra, mais do que qualquer outro.

As ilhas que eu vejo (11)

por João Carvalho, em 30.09.12

 

São Jorge é uma ilha quase perfeita.

 

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As ilhas que eu vejo (10)

por João Carvalho, em 27.09.12

 

Lembram-se quando havia um pote de ouro na ponta do arco-íris? Bons tempos...Ver a ponta do arco-íris à frente dos olhos já é invulgar.

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Formigas à vista!

por João Carvalho, em 01.09.12

Os Açores começaram a ser achados a partir da ilha de Santa Maria, em 1432? Pode dizer-se que sim, mas os ilhéus das Formigas foram encontrados no ano anterior.

 

 

Quando o Infante D. Henrique designou Gonçalo Velho Cabral para ir em busca das ilhas que, em 1427, o piloto Diogo de Silves encontrara no regresso de uma viagem à Madeira, seguramente não esperava o resultado que teria essa primeira tentativa.

 

História. Gonçalo Velho Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador do castelo de Almourol, era um experiente navegador da confiança do Infante, já então considerado um homem muito próximo deste. Em 1431, com poucos recursos, D. Henrique sabia que podia contar com a reconhecida capacidade de liderança e experiência de Gonçalo Velho, pelo que decidiu que ele partiria sem problemas apenas com um pequeno barco e uma reduzida tripulação. Tudo indica que, ao todo, a tripulação não excedia uma dezena ou uma dúzia de marinheiros.

No ano seguinte, em 1432, o Infante enviou de novo Gonçalo Velho a caminho dos Açores e ele encontrou as ilhas de Santa Maria e de São Miguel, as duas mais orientais do arquipélago. Mas porque é que, nesse ano de 1431, ele não teria encontrado mais do que os pequenos ilhéus das Formigas, um conjunto de rochedos baixos localizados a norte de Santa Maria?

Calcula-se a frustração do navegador e, no regresso, do Infante. Nem uma das ilhas já antes achadas fôra avistada. Apenas os inabitáveis rochedos.

 

Imaginação. Quando me detenho a reflectir sobre este episódio, ponho-me a imaginar as raivas frequentes e traiçoeiras do Atlântico Norte e os sustos que um punhado de homens teria recebido borda dentro numa pequena embarcação a bater-se contra qualquer tempestade e quase à deriva entre os habituais nevoeiros do oceano.

Em dado momento, abalados e já quase descrentes das suas forças, não teriam esses homens esgotado todo o álcool que levavam a bordo, como que a preparar o que parecia o caminho inevitável para o sono eterno?

É humano e compreensível que assim tivesse sido. Nessas condições, com muito álcool a correr nas veias, quem teria avistado uma ilha ou algo mais do que aqueles rochedos que mal se levantavam do mar bem à frente do barco?

 

Actualidade. Hoje em dia, a verdade é que as Formigas têm uma importância que Gonçalo Velho Cabral não conseguiria adivinhar. O grupo de ilhéus, em que se destaca o perfil invulgar do farol que serve de aviso à navegação, tem sido sucessivamente classificado e confirmado como Reserva Natural e está integrado na Rede Natura 2000.

 

A sereia da Praia

por João Carvalho, em 15.07.12

Deambulando por este espaço virtual, encontrei por mero acaso uma lenda açoriana um tanto inesperada. Ingenuamente centrada num tema tão infantil como a própria lenda, tem o dom de consagrar a beleza secular do amplo areal branco no nordeste da Terceira, a mais extensa praia em redor de toda a costa, onde foi fundada a cidade da Praia e onde se encontra o porto que serve a ilha. Passemos ao essencial da lenda.

 

 

Noite de Lua cheia. Boiando sobre as sossegadas ondas que docemente vinham acabar-se na areia branca, uma mulher de longos cabelos de ouro parecia ondular ao sabor da água.

O tronco nu era de uma perfeição rara e o rosto tão suavemente belo que um pescador, deslumbrado com a visão, não sentiu qualquer tentação cuja libido pudesse perturbar aquele encanto.

Ela aproximou-se. Quando já estava muito perto, o homem percebeu, cheio de temor, que o seu pescoço estava desfigurado pelo que parecia serem guelras. Mais: o seu corpo, da cintura para baixo, também parecia igual ao de um peixe.

Na aflição de quem julgava ter o diabo ao pé de si, o pescador esconjurou a aparição. Nesse mesmo instante, a mulher, que um qualquer poder maléfico e vingativo devia ter transformado em sereia, voltou à forma humana e perfeita que a sua figura inicialmente sugerira.

Esta lenda não nos conta se os dois se casaram e viveram felizes para sempre, mas podemos imaginar-lhes esse destino ditoso.

Já essa praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela ela é que, num mapa dos Açores datado de 1584 – feito pelo cosmógrafo Luís Teixeira no período filipino – o seu nome surge como Plaia Hermosa. Como o mapa foi feito para D. Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal), todas as legendas do mapa aparecem no mesmo castelhano arcaico.

Que a praia é formosa, percebe-se logo à primeira vista. Por isso, dispensa o adjectivo, que nunca foi usado pelos naturais da ilha (a Ilha Terceira), mas houve seguramente boas razões para que o topónimo não se ficasse pelo simples nome de Praia. De resto, eram bem conhecidas todas as praias dos Açores, sem dúvida, pois na legenda que explica o mapa está escrito em latim: «Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência, e com todo o cuidado as descreveu o português Luís Teixeira, cosmógrafo da Majestade Real. Ano de Cristo de 1584.»

Trata-se do mesmo autor no mesmo ano desse mapa da Praia, essa que viria um dia a merecer chamar-se Praia da Vitória. Um topónimo bem mais afirmativo do que Praia Formosa. Sem deixar de ser praia e de ser formosa.


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