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O meu aplauso

por Pedro Correia, em 25.04.19

A estas palavras (e à atitude) da Zélia Parreira. A propósito da retirada do Capuchinho Vermelho e d' A Bela Adormecida do catálogo de obras infantis de várias escolas públicas de Barcelona por alegado conteúdo «sexista»:

«Na Biblioteca Pública de Évora continua a estar disponível. Temos várias versões e exemplares. A liberdade de expressão e de pensamento são valores fundamentais e demasiado preciosos para serem postos em causa desta forma. Ninguém obriga ninguém a ler estas obras, mas, no que depender de mim, jamais permitirei que a sua leitura seja proibida.»

 

Aplauso ainda mais reforçado num dia como o de hoje.

Abril no feminino?

por Cristina Torrão, em 24.04.19

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Imagem: Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

Lisboa, Calçada de Carriche; mural do PCP

 

Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril

A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.

Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.

Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

 

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.

Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».

 

* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

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por João André, em 25.04.18

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25 de Abril, a reflexão

por Alexandre Guerra, em 25.04.18

Desde que me lembro das comemorações do 25 de Abril, pouco mais tenho retido na memória do que discursos e proclamações na Assembleia da República e a tradicional descida na Avenida da Liberdade liderada pelo PCP. E há ainda o cravo, esse símbolo luminoso... Seja como for, não vejo em nada disto qualquer problema, nem um suposto "esquecimento" da História, porque as efemérides servem para isso mesmo, para momentos solenes, muitos dos quais perante a indiferença quase total do Povo, sobretudo à medida que o tempo vai passando sobre o acontecimento.

 

Caberá, pois, a cada um de nós celebrar esta data à sua maneira, reinterpretando aquilo ficou conhecido como os "ideais de Abril". Nesse exercício introspectivo, devemos relembrar aqueles que, num dado momento da nossa História, se sacrificaram e arriscaram em prol de um ideal maior. Com humildade e espírito combativo, desafiaram um regime instalado e corporativo. Cada um deles lá tinha as suas convicções, porque, nestas coisas das revoluções, nunca há gente desprovida de interesses ideológicos. Mas, focados num bem maior, esses soldados levaram a sua revolução por diante.


Hoje, quarenta e quatro anos volvidos, arriscar-me-ia a dizer que se cada português reflectir sobre aqueles que deviam ser os guardiões do regime, facilmente chegará à conclusão de que a Política deixou de ter actores dignos, a senhora Justiça prostituiu-se a quem lhe dá mais e o Jornalismo definha para o pântano. 
São três pilares fundamentais para qualquer democracia saudável e que neste momento estão frágeis, em grande parte por culpa própria dos seus actores, nos quais não se vislumbra nem humildade, nem espírito combativo, apenas interesses egoístas.

Quando o cão morde no homem

por Pedro Correia, em 26.04.17

Cada vez me convenço mais que o país e o mundo que povoam o tempo de antena dos doutos tudólogos acampados noite após noite nas pantalhas nada tem a ver com o mesmo país e o mesmo mundo reflectidos nos telediários das estações que lhes dão guarida.

Voltei a perceber isso ontem à noite quando o Jornal da Noite da SIC foi incapaz de narrar algo mais relevante aos seus telespectadores do que o facto de uma menina ter sido mordida por um cão.

Sempre me garantiram que notícia era o homem abocanhar o animal e não o contrário. Afinal eu e muitos andávamos iludidos. Qualquer irrelevância ascende hoje à dignidade de foco central de um bloco informativo.

E se ainda me sobrassem dúvidas, teriam ficado desfeitas ao ouvir este destaque noticioso logo após a já mencionada peça de abertura: "Julia Roberts foi a Madrid e emocionou-se ao conhecer Cristiano Ronaldo."

Senti por isso que ontem, à sua maneira insólita, os estúdios de Carnaxide produziram uma espécie de 25 de Abril jornalístico. Cruzando uma linha fronteiriça sem retorno. Nada voltará a ser como já foi.

25 de Abril

por João André, em 25.04.17

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O sectário-geral

por Pedro Correia, em 25.04.16

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 Foto: Lisa Soares/Global Imagens

 

Por uma vez, a cortesia institucional cumpriu-se. O final do discurso de hoje do Presidente da República no Parlamento foi sublinhado com aplausos vindos de quase todo o hemiciclo. PSD, PS e CDS aplaudiram de pé, enquanto a generalidade dos deputados bloquistas e comunistas bateram palmas sentados nos respectivos lugares - incluindo Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. O mesmo sucedeu em relação aos convidados - com destaque para os capitães de Abril (Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho, Sousa e Castro e Martins Guerreiro, entre outros), o conselheiro de Estado Francisco Louçã e o eurodeputado Marinho e Pinto.

Todos? Todos não. Numa das galerias alguém decidiu permanecer sentado no final do discurso, enquanto todos se levantavam em seu redor. Alguém que permaneceu com cara de chumbo, sem o menor respeito pelo Presidente de todos os portugueses eleito ainda há bem pouco pela maioria dos eleitores que se deslocaram às urnas - incluindo largos milhares com as quotas sindicais em dia.

Refiro-me a Arménio Carlos. Secretário-geral da CGTP. Sectário-geral. Hoje mais que nunca.

Bafio

por José António Abreu, em 25.04.16

Alexandre Homem Cristo tem razão. Quarenta e dois anos depois, o 25 de Abril corporiza a resistência à mudança. Transformado em dogma, não apenas constitui pecado mortal equacionar hipóteses que lhe possam diminuir o simbolismo – p. ex., que parte das conquistas obtidas desde então se devem a factores apenas indirectamente com ele relacionados: o acesso aos fundos europeus possibilitado pela adesão à UE, a irresponsabilidade orçamental permitida pela adesão ao euro – mas, acima de tudo, evoca-se para defender o status quo. Os portugueses podem estar mais viajados e ter acesso aos mesmos livros e às mesmas séries que se lêem e vêem no exterior mas, tirando meia dúzia de jovens – especialmente empresários –, o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança. Um país onde se trocaram ilusões de grandeza imperial por ilusões de riqueza imediata e sem esforço. Um país que (à imagem da época pós-Marquês de Pombal) trocou a falta de democracia pela falta de rigor. (Como é possível que apenas sob dois déspotas Portugal tenha crescido de forma sustentada?) As grandes diferenças entre 1973 e 2016 não se encontram pois na mentalidade. Encontram-se no número – hoje muito superior – dos que se alimentam do poder ainda e sempre sufocante do Estado (agradeçam-no aos fundos comunitários e à dívida) e na identidade dos respectivos parceiros ideológicos: antes, uma direita bafienta; hoje, uma esquerda que – apesar de todas as «causas fracturantes» – não o é menos.

Dir-me-ão que posso escrever textos como este. Sim, resta a liberdade. É a liberdade que eu agradeço ao 25 de Abril. Ciente de que muitos dos que o fizeram – ou dele se apropriaram – não a tinham como objectivo. Ciente de que, assentes no poder da captação e alocação dos recursos e das noções do politicamente correcto – como antes o Estado Novo se servia da Igreja, da noção de moral e do conceito de Pátria –, os seus descendentes agem para que seja cada vez mais difícil escrevê-los.

Quarenta anos depois

por Pedro Correia, em 25.04.16

Faz hoje 40 anos, também num 25 de Abril, os portugueses - exercendo enfim o direito ao sufrágio universal, irrestrito, secreto e livre - acorreram às assembleias de voto, num marco inapagável da nossa democracia participativa e representativa. Elegendo os deputados da primeira legislatura.

Assim se cumpriu na íntegra aquele "dia inicial, inteiro e limpo" a que aludiu Sophia de Mello Breyner Andresen num dos mais belos versos da língua portuguesa.

À espera da bordoada

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.16

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Passaram 42 anos sobre o 25 de Abril de 1974. E tirando o facto de hoje em dia a defesa do direito à liberdade de expressão de José Sócrates ser feita por Pedro Passos Coelho, de alguns "licenciados" terem obtido equivalência a "ex-licenciados" depois de lutas duríssimas, dos descamisados serem hoje empresários influentes que agilizam processos e frequentam fora de portas os restaurantes do Chef Umberto Bombana, o País mantém os seus vícios e anseia por saber, perante a derrocada da União Europeia, qual será o próximo campeão nacional de futebol.

Assinale-se, todavia, que internamente onde a luta está mais acesa é na discussão sobre as formas de tratamento. Foi para aqui que se transferiu a luta de classes. À direita, o deputado Paulo Rangel quer acabar com os títulos, avançando com uma proposta, em nome da mobilidade social, que colocará um fim aos "doutores" e aos "engenheiros". Suspeita-se que por detrás dessa proposta – dizem as más línguas que soprada por um ex-ministro – esteja a qualificação dos desqualificados que ficaram sem os títulos que arduamente conquistaram nas secretarias do ensino privado. Mas à esquerda, na linha daquilo a que nos habituámos, o proletariado em luta não está pelos ajustes. É por isso mesmo um descanso saber que ainda há quem cite de cor o Presidente Mao. E que os camaradas mais idosos passaram a ter direito ao título de "Dr." no Comité Central do MRPP.

Esta última é uma conquista que dá sentido a tantos anos de luta. Uma evolução histórica que confirma o triunfo da revolução, a irreversibilidade das suas conquistas mais patuscas perante a derrocada do Estado social e o agravamento do problema demográfico. Tesos, pelintras e doutores já são hoje mais do que os bebés que nascem, pelo que é de admitir que a bordoada seguirá dentro de momentos. Da grossa e na sala de um hotel no Panamá. Até ao último dólar.

Michel Giacometti e o Plano de Trabalho e Cultura - Serviço Cívico Estudantil

Há 40 anos começou a acabar | 04. Casa para todos

por Tiago Mota Saraiva, em 26.11.15

Continuar a viver - Índios da Meia Praia de António da Cunha Telles

Há 40 anos começou a acabar | 03. Reforma Agrária

por Tiago Mota Saraiva, em 25.11.15

Torre Bela de Thomas Harlan

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Há 40 anos começou a acabar | 01. Operações SAAL

por Tiago Mota Saraiva, em 23.11.15

Trailer do Filme AS OPERAÇÕES SAAL de João Dias 


Às primeiras horas da madrugada de hoje

por José Navarro de Andrade, em 25.04.15

Ontem, ao soar da meia-noite, estralejaram foguetes em vez de badaladas, e no Largo de Santos, ruiu uma bátega que só vista. Abrigados debaixo de um beiral, oito cinquentões ergueram os cravos que traziam e soltaram-se a cantar a Grândola. Nesse instante passou por eles um grupo de miúdos demasiado jovens – não haviam de ter mais de 14 anos – de cerveja na mão e os cotas saudaram-nos com um “viva o 25 de Abril!”. Retorquiram os garotos com um esgar inibido: ter-se-ão assustado com a interpelação? Terão ficado embaraços com a figura que estavam a fazer aqueles maduros? Ter-lhes-á parecido paleolítica ou despropositada a manifestação de jovialidade?

Eu era um dos oito veteranos. Estava radiante por me encontrar vivo, porque ao fim de meio século aprende-se a não ser invulnerável; alegre por ainda estarmos ali juntos, camaradas de faculdade desde lá do fundo dos décadas; contente por poder continuar a festejar o 25 de Abril. Bem sei que é uma felicidade melancólica, aquela que se tem por aquilo que não se perdeu. Mas o que mais me tranquilizou no festejo foi a atitude dos adolescentes; para eles, que nasceram muito depois, a data é tão longínqua como o 5 de Outubro ou como o 28 de Maio eram para mim – pura História.

Confesso, por isso, algum desconforto perante o cerimonioso afã institucional, a enfatuada seriedade, ou, nos piores casos, a senatorial altivez etária (“vocês não sabem como era dantes”) nas comemorações oficiais do 25 Abril. Ainda mais entristece a versão ressentida e fracassada de um suposto 25 de Abril que não aconteceu, que transforma a data num repositório arbitrário de todos os sonhos não realizados, o 25 de Abril do que poderia ter sido, como se em vez de uma conquista – a bem dizer de uma dádiva de uns moços de 30 e poucos anos, com a pele endurecida por duas comissões de guerra – o 25 de Abril tivesse sido um malogro.

Bem andaram os miúdos de sexta à noite dos bares de Santos: a maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo – a que melhor pode aspirar a democracia senão a ser uma evidência?

Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.15

 

Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói.

Cumpre o seu dever não por ser um dever

mas por urgente imperativo de consciência.

Dá o nome

a cara

o peito às balas

e se for preciso a vida

pela causa que crê ser mais justa

entre todas as causas.

 

 

Um verdadeiro herói pensa em si próprio

só depois de pensar nos outros.

Avança sem temor

com a noção exacta

de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo:

conforto, carreira, promoções, anonimato.

Ficando a partir daí

exposto ao escárnio imbecil

de todos os cobardes

que nunca dão um passo

fora do perímetro de segurança

mas quando a poeira assenta

logo surgem muito expeditos

a julgar os outros.

A julgar aqueles como tu:

os que arriscam

os que experimentam

os que se atrevem a romper as malhas

de um quotidiano medíocre.

Os que trocam a palavra eu pela palavra nós.

Os que nunca se conformam.

 

 

Um verdadeiro herói

é aquele que deixa a sua impressão digital

nas insondáveis rotas do destino humano.

 

 

Tu ousaste mudar um país.

Não pelo sangue

não pelo ódio

não pela intriga

mas pelo gesto

pelo rasgo

pelo exemplo.

Sabendo como é ténue a fronteira

entre glória e drama

quando alguém irrompe de madrugada

pronto a desafiar os guiões da História.

 

 

Fernando Salgueiro Maia.

Foste um herói

ao comandar a patrulha da alvorada.

Voltaste a ser um herói

quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol

deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes.

Recusaste ficar exposto na vitrina.

Recusaste servir de bandeira.

Recusaste ser "vanguarda revolucionária".

Recusaste ser antigo combatente.

Recusaste dar pretextos para dividir.

Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses

naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

 

 

Saíste do palco:

aquela peça já não te dizia respeito.

 

 

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente

como no momento em que abandonaste a ribalta

regressando à condição de homem comum.

Indiferente a ladainhas e louvores.

Longe da multidão

que fugazmente te acenou

na mais límpida de todas as manhãs.

Sem outra medalha além desta:

eternamente graduado no posto

de capitão da liberdade.

25 de Abril de 2015

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.04.15

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Ainda cá estamos. Os cabrões também. Têm cartões de todas as cores, os vícios são os mesmos e não há maneira desta porra evoluir. Continuamos a resistir. Ligo-te para o ano.

Comemorar o 25 de Abril em beleza

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.04.15

O facto de vir de fora não me aquece nem arrefece e, neste caso, o uso do argumento até deve ser visto como mais um sinal de provincianismo.

À beira de se comemorar mais um aniversário do 25 de Abril, a apresentação de um vergonhoso projecto controleiro para a comunicação social, cozinhado pelo PSD, pelo PS e pelo CDS-PP, visando a apresentação de planos prévios de cobertura, constitui mais uma acha no caixão do actual regime e a prova final da irreformabilidade do país. Em vez de se responsabilizar, que seria o correcto, prefere-se tomar conta.

A ideia de alguns jornalistas de boicotarem a cobertura da pré-campanha e da campanha eleitoral não me parece que seja errada. Seria mau para os partidos, evidentemente, mas óptimo para os eleitores que se livrariam da poluição sonora e visual em benefício do descanso e tempo de reflexão que lhes proporcionaria. Poupados às habituais patacoadas de campanha e aos espectáculos circenses que normalmente estão associados a esses períodos, essa poderia ser uma boa maneira dos portugueses começarem a pensar em fazer um 25 de Abril que não fosse tão deturpado e enxovalhado, em tão pouco tempo, pelas fossilizadas forças do regime. Bastaram 40 anos, só 40 anos, para se regressar a uma espécie de visto prévio para a imprensa.

Estarei errado? Talvez, mas assim também não há democracia que resista.


O nosso livro






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