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Últimas Ceias #7

por Ana Vidal, em 07.04.12

Finalmente, a utilização simbólica da Última Ceia na divulgação de CAUSAS ou para promoção própria. É irresistível, convenhamos: a imagem de uma figura central, rodeada da elite que constitui a sua esfera de influência (real ou desejada) permite uma leitura tão directa quanto eficaz da mensagem, pessoal ou colectiva, que se quer transmitir. Eis alguns exemplos, bem significativos.

 

 

1. Na defesa dos direitos das mulheres, aqui numa interpretação dos criadores de moda Marithé e François Girbaud. A ironia é bem explícita: o único homem presente (colocado no mesmo lugar da figura no fresco de DaVinci cujo género tem gerado polémica) está de costas, numa posição de submissão e subalternidade.    

 

 

 

2. Na luta contra o consumismo e o desperdício alimentar. Desconheço a autoria da primeira imagem, a segunda é do fotógrafo David LaChapelle e faz parte de uma série denominada "Jesus is my Homeboy". LaChapelle usou grupos multi-étnicos de jovens como modelos, oriundos das culturas rap e hip-hop e vestidos com roupas underground.

 

 

3. Na defesa e protecção dos animais, um cartaz para a Organização Internacional para a Protecção dos Animais. Repare-se no slogan (em cima, ao centro), que diz  "Um de vós vai trair-nos 150.000 vezes por ano". Curiosamente, a única figura com feições humanas é a de Judas.
 

 

4. Gordon Ramsay, um dos mais famosos chefs da actualidade e estrela do programa de televisão Hell's Kitchen (Cozinha do Inferno), rodeado de outros chefs ingleses cujo denominador comum é terem todos, pelo menos, uma estrela Michelin no curriculum. Sobre as suas cabeças, uma fatia voadora de queijo Brie. A fotografia foi feita para a revista Guardian.

 

 

5. Em 1985, o pintor Nate Giorgio assinou um contrato com Michael Jackson para pintar 50 quadros do cantor, que seriam usados para fins pessoais e comerciais. Esta Última Ceia, em que o Rei da Pop está rodeado de figuras célebres, está sobre a sua cama, em Neverland. (Os "apóstolos" são Abraham Lincoln, John. F. Kennedy, Thomas Edison, Albert Einstein, Walt Disney, Charlie Chaplin, Elvis Presley and Little Richard).

 


 

Não se escandalize quem vê nestas imagens, por vezes provocatórias, uma ofensa à sua fé. Se a Última Ceia - o encontro por excelência, fulcral na história da humanidade - não tivesse tanta força e tanto poder simbólico, passaria despercebida e ninguém quereria imitá-la ou apoderar-se dela. Tanto interesse só pode significar admiração, logo, elogio. Afinal, Jesus Cristo pode ser visto como o maior de todos os super-heróis do nosso imaginário. Tem todas as características que os fazem ser seres superiores - coragem, altruísmo extremo, disponibilidade total para os mais desprotegidos, despojamento pessoal, prática exclusiva do Bem - e ainda duas a mais, que fazem toda a diferença do mundo: a sua realidade (está historicamente provado que existiu) e, ao contrário dos heróis da ficção, a sua vulnerabilidade à dor física e até à morte, o que torna ainda muito mais admirável a sua história de vida.

Boa Páscoa a todos.

 

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Últimas ceias # 6

por José Navarro de Andrade, em 07.04.12

As performances, é da sua natureza serem epidérmicas, meros fenómenos dos quais sobram não mais do que vestígios. Se é próprio da arte “ficar”, as performances contestam-no, provocando uma arte que não quer resistir ao tempo.

Seria preciso ter estado lá para viver o acontecimento. Doutro modo só nos resta dar conta dele e percebê-lo, o que se verifica como manifestamente empobrecedor. Entender as coisas é sempre menos do que as próprias coisas; uma noção que talvez fizesse falta insistir nos tempos actuais.

 

 

O nome engana: apesar de viver e trabalhar em Los Angeles Vanessa Beecroft é nativa de Génova. Em Abril de 2009, apresentou no PAC (Padiglione d’Arte Contemporanea) de Milão uma performance intitulada “VB65”.

20 emigrantes africanos, sentados ao longo de uma mesa com 12 metros, todos envergando fato escuro, embora alguns estivessem descalços e outros descamisados, cearam frango assado, pão escuro e água, sem talheres, pratos ou copos. A função durou 3 horas e decorreu perante uma selecta plateia de convidados.

Além das leituras quase instantâneas que “VB65” instiga, o nosso olhar ficará enriquecido ao saber que Vanessa Beecroft sofre de disfunções alimentares, desde a anorexia que atormentou a sua adolescência até à bulimia com que se tem debatido em adulta. 

 

  

 

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Últimas Ceias #5

por Ana Vidal, em 06.04.12

É sabido que a PUBLICIDADE (o tema deste post) se apodera dos ícones culturais e os vampiriza, capitalizando a força destes para fazer passar as suas mensagens, mais ou menos inócuas. A Última Ceia e o seu poderoso simbolismo, fortemente implantado na cultura ocidental e veículo privilegiado de emoções, não podia deixar de interessar a este universo de criadores de sonhos. Foi difícil escolher os exemplos de hoje, tal é a variedade de opções. Mas aqui ficam alguns.

 

 

 

Nestes dois primeiros, é o imaginário infantil o alvo preferencial. 1. Mickey Mouse (a primeira grande estrela da banda desenhada, da Disney) está rodeado de outros heróis e figuras bem conhecidas das crianças. E todos eles promovem subtilmente a cadeia McDonalds, cujo logótipo se eleva como um halo sobre a cabeça de Mickey. 2. Uma Última Ceia da Lego, com todos os pormenores.

 

 

 

Caminhando para o target seguinte, os adolescentes. 3. De novo as figurinhas-oferta da McDonaldland, aqui num cartaz anunciando um espectáculo dos Melvins. Lee Zeman foi o seu criador. 4. Personagens de video-jogos da Nintendo, tendo o famoso Super-Mário como figura central.

 

Já no mundo dos adultos. 5. Uma curiosa sobreposição do etrrno provocador Andy Warhol, usando a Última Ceia e duas marcas bem conhecidas: a Dove (note-se a alusão à pomba (dove) que representa o divino Espírito Santo para os cristãos; e a General Electric, a qual, não por mera coincidência, "ilumina o mundo" e tem como slogan We bring good things to life. 6/7. Como não podia deixar de ser, os mais sacralizados objectos de culto da actualidade, aqui num aproveitamento da omnipotente Apple, destacando acima de todos os outros os seus iphone e ipod.

 

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Últimas Ceias #4

por José Navarro de Andrade, em 06.04.12

Recorde-se que a última ceia de Leonardo da Vinci captura o instante em que Cristo anuncia haver um traidor no meio de nós.

Diz-se que o rosto é o espelho da alma e que a sua superfície é um sismógrafo onde se registam as vibrações profundas. Por isso, além das poses arqueadas e da composição turbulenta, o fresco de Da Vinci estampa na cara dos apóstolos uma perturbação tanto mais patética quanto contrasta com a levítica serenidade do Cristo traído.

 

Zeng Fanzhi, 1999

 

Zeng Fanzhi faz das artes plásticas uma forma de cirurgia plástica. Pelo que se apropria da Última Ceia como mais um passo para o tratamento do rosto em pintura. Primeira operação: todos os amesendados ostentam a mesma cara: impassível, justaposta, esboçada, sem género nem carácter. Fica apenas a composição reproduzida da de Leonardo e a sua expressividade, além das mãos, essas mãos que apontam para todo o lado à procura. Segunda operação: sobre a toalha espalham-se talhadas de melancia e nada mais: uma ceia ainda mais frugal que a canónica – e vermelha. Terceira operação: todos envergam o uniforme de pioneiros, a juventude do PCC; a traição adquire cunho político e típico da tradição comunista chinesa, onde a conspiração, o atrito entre grupos de pressão, os putsch para a tomada do poder interno e as quedas em desgraça eram (são?) a norma. O calvário iniciado na Última Ceia, ganha com Fanzhi outras conotações – mas calvário, sempre.

 

 Rauf Mamedov, 1998 

 

Rauf Mamedov utiliza um dispositivo tão simples que parece óbvio depois de apresentado. Os corpos agitam-se à imagem da composição de Leonardo, mas agora há entre os protagonistas uma característica comum: têm todos um cromossoma a mais. Como o nosso olhar é deseducado, a primeira tentação será dizer: “São todos iguais”. É este o ponto de Mamedov: não são. A humanidade está para além do rosto.

 

Rauf Mamedov, "Última Ceia" (detalhe)

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Últimas Ceias #3

por Ana Vidal, em 05.04.12

Introdução: Porque tenho uma infinidade de "últimas ceias" e o tempo até à Páscoa já é curto, tive de escolher só algumas. Decidi dividi-las por temas. O de hoje é "A Última Ceia no CINEMA".


Como o Zé Navarro de Andrade já referiu no primeiro post desta série, o magnífico fresco de Leonardo, sendo embora uma representação inicialmente cristã, deu início a um simbolismo que ultrapassaou há muito o domínio da religião. Cito-o: a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida. A mesa é um palco de emoções em que as defesas abrandam e os sentidos reinam, potenciando por isso, consoante o momento, cumplicidades e intrigas, tensões e bonomias, pactos e rupturas, enfim, amores e ódios. Não é por acaso que muitos negócios são feitos à mesa, como não é por acaso que as grandes decisões são normalmente precedidas ou seguidas de uma refeição especial, que as sela e comemora. Solenidade e ritual, dois elementos essenciais ao equilíbrio instável das relações humanas. E o cinema, seu espelho natural, não podia deixar de fora este potencial simbólico. O poderoso jogo de forças em volta de uma mesa é matéria irresistível para qualquer cineasta.

 

The Sopranos Last Supper (Annie Leibowitz)

 

A aclamadíssima Annie Leibowitz fotografou, em 1999, o elenco dos Sopranos em pose de Última Ceia, com Tony ocupando o lugar central e Livia, a pérfida matriarca, o de Judas. Os outros serão meros peões, ou mais do que isso? Observem-nos bem.

 

Star Wars Last Supper (Eric Deschamps)


Eric Deschamps pintou este quadro para a revista Giant, para celebrar a saga epico-futurista que encantou o mundo. Nas próprias palavras do pintor, "As personagens foram escolhidas pela Giant e tinham de ocupar determinados lugares, o que me dificultou a tarefa. Eu teria preferido Boba Fett como Judas em vez de Han Solo ou Chewbacca, e acabei por deixá-los numa posição mais dúbia, mais interpretativa. Tive de afastar-me um pouco das poses do original, para conseguir arrumar todas as personagens."

 

Hollywood Last Super

 

Esta é uma das inúmeras "Hollywood Last Supper" que existem. Não conheço o autor, mas escolhi esta pela curiosidade da colocação de peças neste inesgotável puzzle: aqui é Marilyn Monroe que ocupa o lugar de Cristo, talvez por ter sido igualmente "sacrificada", no seu caso à fama e à celebridade. Sabe-se lá porquê, é Clark Gable quem assume o indesejado lugar de Judas.

 

Mas há mais, e muito melhor, se passarmos das imagens ao video. Deixo-vos com três exemplos eloquentes de refeições decisivas no Cinema, tirados de três dos meus filmes de eleição: Brutti, Sporchi e Cattivi (Ettore Scola), Des Hommes et des Dieux (Xavier Beauvois) e American Beauty (Sam Mendes). Sigam os links. Vale a pena perder algum tempo a vê-los, garanto.

 

Adenda: Viridiana (Luis Buñuel), por sugestão do Pedro Correia. E mais dois de que me lembrei entretanto, para quem tiver tempo e paciência: Babette's Feast (Gabriel Axel) e Festen (Thomas Vinterberg). Finalmente, uma pérola da comédia para aliviar: History of the World (Mel Brooks)

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Últimas Ceias #2

por José Navarro de Andrade, em 05.04.12

Adi Nes, 1999

 

No final do século passado o fotógrafo Adi Nes tornou-se notável ou notório, conforme o lugar donde olhamos para o seu trabalho, com a série fotográfica “Soldados”. Remetendo para a iconografia cristã, Adi Nes fotografou os soldados do seu país encenando-os em poses que desvaneciam qualquer dúvida acerca da pulsão homoerótica que o animava. Sobre isso, escolheu os rapazes mais trigueiros para modelos, confundíveis com árabes. Não é despiciendo referir que Adi Nes é israelita, pelo que qualquer uma das características acima elencadas (cristianismo, exército, árabe) desfraldou celeuma.

Que a partir desta série Adi Nes tenha atingido envergadura internacional, que o seu trabalho seja premiado e desenvolvido ao abrigo de instituições oficiais, bastaria para nos elucidar acerca da natureza política de Israel. Talvez que num raio de 1000km a leste de Tel Aviv, onde Nes tem residência, qualquer uma das sua fotografias constituísse motivo para no mínimo ser agraciado com vergastadas em vez de crítica.

 

 Vivek Vilasini, "Última Ceia em Gaza", 2008

 

Dizem as notas que Vivek Vilasini, indiano de nascimento e vivência, aborda a identidade cultural. Seja por aí. Ao deslocar a última ceia uns kms mais a sul ou a leste, trocando os homens pelas mulheres, prefiro ver nesta versão a capacidade de tudo ser revelado através dos olhos e das mãos. Isso, e a pose ser perfeitamente codificada pelo que já sabemos da cena, permite-nos identificar os sentimentos de traição e ansiedade. Se a última ceia, no seu significado clássico, é o prólogo do grande momento, aqui parece-nos ser o epílogo de qualquer coisa que já aconteceu e foi lá fora. Tudo do avesso, portanto.

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As últimas ceias #1

por José Navarro de Andrade, em 04.04.12
 

 

Andy Warhol, 1984

 

A ressurreição do Cristo é o fulcro da religião cristã. Se não há sobrenatural, não há crença e sem ele o cristianismo não passaria de uma cartilha moral. Mas a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida – ou mesmo de um dia, se formos civilizados.

O fresco de Leonardo pintado no limite do Quatroccento, é uma das obras de arte mais decisivas jamais imaginadas. A sua encenação é de tal modo irrefutável e tão justa a sua coreografia, que a ceia de Jesus com os apóstolos foi assim de certeza, mesmo que na realidade não tenha sido assim.

Este carácter absoluto, ao qual pouquíssimas obras ascendem, fizeram do fresco uma espécie de palimpsesto sobre o qual se vão inscrevendo novas visões, num diálogo interminável, por vezes sereno, outras agreste, como costumam ser as conversas interessantes. Isto já não tem nada a ver com religião e às vezes nem sequer com arte, mas sim com o modo como habitamos o nosso tempo.

São algumas dessas versões, desejavelmente inesperadas, que se vão reproduzir nesta série.

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