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A noite dos Óscares.

por Luís Menezes Leitão, em 25.02.19

A atribuição dos Óscares começa a parecer-se com a atribuição dos prémios Nobel. Premeiam-se filmes medíocres e desempenhos médios, esquecendo-se dos verdadeiros filmes de qualidade que surgiram neste ano. Para mim, quem deveria ter recebido o óscar de melhor filme era Correio de Droga, de Clint Eastwood, um verdadeiro testamento cinematográfico. O Guia para a Vida é um filme razoável, mas nada mais do que isso. Quanto ao melhor actor, se Rami Malek tem de facto uma boa interpretação em Bohemian Rapsody, fica a milhas do desempenho de Christian Bale em Vice. Quanto à melhor actriz, acho que o prémio deveria ter ido para Lady Gaga, uma verdadeira revelação em Assim nasce uma estrela, em que praticamente carrega sozinha o filme às costas. Mas são insondáveis os desígnios da Academia. Siga, que para o ano há mais.

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Sim, Guillermo, ganhaste mesmo - desta vez não houve engano no envelope 

 

Apesar de dar alguma atenção aos prémios norte-americanos do cinema, não costumo esforçar-me para ver todos, ou sequer a maioria, dos filmes nomeados ao Óscar para Melhor Filme. Boa parte dos filmes nomeados, sendo (regra geral) pelo menos bons filmes, ou não me despertam interesse ou não me despertam interesse suficiente para pagar o bilhete de cinema (ou não estrearam ainda por cá, como aconteceu neste ano com Lady Bird, que só chegará às salas portuguesas nos próximos dias). Por norma, acabo por ver um ou dois - os nomeados de ficção científica ou fantasia, quando os há, e um ou outro filme que me chame a atenção. Inevitavelmente, é bastante raro ganhar um filme que eu tenha visto e pelo qual estivesse a torcer. Aconteceu nos prémios de 2004, que finalmente distinguiram a extraordinária adaptação cinematográfica de Peter Jackson a The Lord of the Rings com 11 Óscares para The Return of the King. Aconteceu em 2015, com o  Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) de Alejandro Iñárritu, que não sendo exactamente um filme de género aproxima-se um pouco daqueles territórios temáticos e tem um carácter referencial intrigante (para além de um Michael Keaton inspiradíssimo). E aconteceu em 2018, com o único filme nomeado que vi a conquistar a estatueda dourada: o belíssimo The Shape of Water de Guillermo Del Toro. 

 

É uma combinação curiosa: uma fábula fantástica enquadrada numa trama de espionagem do tempo da Guerra Fria, onde Del Toro actualiza inúmeras referências do cinema que o maravilhou noutros tempos (Creature of the Black Lagoon) e de contos intemporais (A Bela e o Monstro, e as suas múltiplas variações) numa história sobre uma mulher muda e para todos os efeitos invisível e o monstro proverbial, profundamente alienígena e ainda assim mais humano do que os homens que o mantém cativo e o torturam. Mais do que uma história de amor improvável, The Shape of Water é um filme sobre o carácter decisivo dos pequenos gestos, sobre a irrelevância das diferenças, sobre a coragem, sobre a empatia - algo tão em falta nos dias que correm. Juntamos a isto uma grande banda sonora, interpretações notáveis de um grande elenco (o prémio para Melhor Actriz Principal também teria sido bem entregue a Sally Hawkins, e chegará o dia em que se dará o devido valor às interpretações de actores como Doug Jones, eterno colaborador de Del Toro), e o virtuosismo técnico a que os filmes do realizador mexicano já nos habituaram, e temos um digno vencedor do Óscar. 

 

Não será, é certo, o melhor filme da sua carreira - essa distinção caberá sem dúvida ao extraordinário El Laberinto Del Fauno, que nunca chegou à categoria principal dos Óscares por ser falado... em espanhol. Mas nem por isso The Shape of Water deixa de ser um excelente representante tanto de géneros habitualmente desprezados pela crítica como da filmografia e da iconografia inconfundíveis de Del Toro, onde o banal se encontra em constante diálogo com a estranheza. Será sem dúvida um dos realizadores contemporâneos que mais aprecio. Dele recordo HellboyHellboy 2: The Golden Army, duas transposições notáveis e visionárias da banda desenhada de Mike Mignola numa época onde alguns fracassos ruidosos nas adaptações de banda desenhada não deixavam antever o frenesim que se instalaria no género alguns anos mais tarde. E recordo o som e a fúria de Pacific Rim, talvez o mais divertido blockbuster dos últimos anos, que me fez sentir como um miúdo na sala de cinema. É pena que Del Toro nunca chegue a concretizar o derradeiro capítulo da trilogia Hellboy que planeou, e que Ron Perlman tanto queria fazer. Como é pena que tenha acabado por não realizar a adaptação de The Hobbit, como esteve previsto; é provável que tivesse dado uma interpretação muito própria à história clássica de Tolkien, algo que Peter Jackson, amarrado aos espartilhos dos estúdios e ao seu próprio legado na Terra Média, já não conseguiu fazer.

 

Mas ainda ouviremos falar muito dele; oportunidades decerto não faltarão para que Guillermo Del Toro nos encante de novo com as suas fábulas e os seus monstros. E para que volte a demonstrar, como demonstrou em The Shape of Water e como fez questão de sublinhar no seu discurso de Domingo à noite, que a grande ficção de género não tem de se resumir ao escapismo a que muitos a condenam sem a conhecer - ela olha antes para o presente a partir do ponto de vista da imaginação. 

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A Forma da Água

por Diogo Noivo, em 05.03.18

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Se o Fabuloso Destino de Amélie e O Labirinto de Fauno procriassem o resultado seria A Forma da Água. A estética do filme é lindíssima e inolvidável. A história é solvente e os personagens também. E é fiel à ideia subjacente a toda (ou quase toda) a filmografia de Guillermo del Toro: a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores do mundo.

Apontam-lhe descuidos e incongruências – dizem, por exemplo, que é pouco plausível que uma simples funcionária de limpeza tenha acesso a um laboratório secreto. Importa recordar que A Forma da Água gira em torno a um monstro anfíbio com poderes curativos. Portanto, e ao contrário de The Post, esta longa-metragem não está obrigada a uma adesão rigorosa à realidade. Pela parte que me toca, o Óscar de Melhor Filme e o de Melhor Realizador estão bem entregues.

É de uma boa história que eu gosto

por Marta Spínola, em 25.02.18

Já de há uns anos - as minhas memórias dos vinte anos já têm vinte anos, é um facto em que tenho reparado no último ano - para cá, quando os filmes nomeados começam a chegar, tento ver a maioria. Por hábito, não por ser muito entendida, mais por gostar de estar a par e desde pequena ver os Oscars, ainda que com um enstusiasmo decrescente de ano para ano. 

Ainda gosto que em cerimónias como Oscars e Globos, possamos ver actrizes e actores como nunca os vemos. Mas claro, com a idade também vem a noção de que nada é inocente ou muito espontâneo e a magia perde-se de entrega para entrega. Ainda assim, não é este ano que desisto. 

Uma coisa de que me tenho apercebido com os anos, é de que não tenho a pretensão de perceber qual é o melhor filme. A melhor realização, a maior produção é necessariamente a melhor? Cada vez tenho menos interesse em perceber o que julgo ser subjectivo tantas vezes. Todos os anos há satisfeitos e atónitos com as escolhas, todos os anos há forum sobre a credibilidade da Academia. 

A mim, que gosto de ir ao cinema nesta ou outra época, basta uma boa história. O story telling é o que me interessa mesmo no meio de tudo. Vale para cinema ou literatura, mas é saber de uma história bem contada que me leva às salas. Vi ontem "Eu, Tonya" e apesar de ser muito baseado no documentário "The price of gold" da ESPN, que aconselho vivamente, é um bom filme, uma história bem contada. Há umas semanas vi "Todo o Dinheiro do Mundo", e há um mês ou dois, vi também Borg vs McEnroe que são História Contemporânea pura. Ambos falam vidas de pessoas do nosso mundo, de acontecimentos contemporâneos. Gostei de juntar nomes e eventos perdidos na minha memória, coisas vagas da infância, que através do cinema posso reconstituir.

É decididamente do que mais gosto no cinema, um bom relato, fictício ou não. Que me entretenha e leve a outros mundos e vidas. 

Sobre comportamentos em salas de cinema podemos falar num próximo post. 

The Post

por Diogo Noivo, em 05.02.18

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The Post é uma boa história. E uma boa ideia. É por isso uma pena a hagiografia e o tom propagandístico – o próprio Spielberg reconheceu que o filme contém um conjunto de mensagens endereçadas ao Presidente Trump. Sei que destoo de boa parte dos meus colegas de DO, mas um filme que pretende retratar um caso verídico e com relevância histórica não pode abdicar da plausibilidade. Os personagens de The Post não têm arestas nem profundidade. Vivem num mundo de certo e errado onde a ambiguidade é tão-somente uma miragem, e são donos de uma bússola moral irrepreensível. Pura ficção, portanto. Creio que tudo isto impede The Post de entrar na galeria dos grandes filmes sobre jornalismo onde figuram All The President’s Men ou, mais recentemente, Spotlight. Até a esgrima bem cadenciada de Frost/Nixon o supera. São inegáveis as virtudes de Meryl Streep, embora, pensando nos Óscares, me pareça que Frances McDormand está mais próxima do galardão com o seu desempenho em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Em resumo, uma boa história que se perde em recados e endeusamentos.

Watu Wote

por Diogo Noivo, em 01.02.18

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A furgoneta viajava de Nairobi para Mandera, uma cidade queniana junto à fronteira com a Somália. Já próxima do destino, é atacada por um pequeno grupo da organização terrorista al-Shabab. Se dúvidas houvesse, a abordagem inicial dos jihadistas clarificou o propósito da ofensiva: após metralharem a furgoneta, entraram no veículo e exigiram aos passageiros muçulmanos que sinalizassem os cristãos a bordo. Foi em Dezembro de 2015. No ano anterior, em Novembro, a organização terrorista perpetrara um atentado em tudo semelhante na mesma região e no qual foram executados 28 não-muçulmanos.

Contudo, desta feita o desfecho foi menos trágico. Ainda antes dos jihadistas entrarem a bordo, os muçulmanos ofereceram vestes islâmicas aos cristãos e, já perante os terroristas, negaram-se a delatar os seus “irmãos e irmãs”. Temendo a chegada da polícia – estas viagens são normalmente escoltadas pelas forças de segurança locais – e surpreendidos pela resistência dos passageiros, a célula do al-Shabab abandonou o local (não sem antes, lamentavelmente, matar duas pessoas e ferir seis).

A história deste atentado tem agora adaptação cinematográfica com Watu Wote (Todos Nós), uma produção de quenianos e alemães dirigida pela realizadora Katja Benrath, um filme nomeado para Melhor Curta-Metragem na edição dos Óscares deste ano.  Mais do que uma história de solidariedade e bravura, o atentado e o filme que o retrata são um tratado sobre identidade comunitária. Em Identidade e Violência, Amartya Sen defende que a violência política hodierna é sustentada pela ideia de que as pessoas se definem mediante uma identidade única, segregadora e frequentemente beligerante. De acordo com Sen, a arrumação do mundo em civilizações tende a obscurecer a pluralidade de identidades de cada ser humano, subjugando-os a traços singulares, em regra étnicos ou religiosos. Esta é a lógica do jihadismo, que pretende impor uma só forma de Islão, totalitário, incompatível com identidades nacionais, com identidades locais, com lealdades familiares, com preferências culturais. Em tom humorístico, escreve Amartya Sen que a “mesma pessoa pode ser, sem qualquer contradição, um cidadão americano de origem caraibense, com antepassados africanos, um liberal, uma mulher, um vegetariano, um maratonista, um historiador, um professor, um romancista, um feminista, um heterossexual, um defensor dos direitos dos homossexuais, um amante de teatro, um activista ambiental, um entusiasta do ténis, um músico de jazz e alguém profundamente convicto de que existem seres inteligentes no espaço”. Todos temos um conjunto de identidades, que coexistem. Pertencemos simultaneamente a várias comunidades e compete-nos decidir a cada momento qual a mais importante. São muitos os muçulmanos que percebem isto – a maioria, na verdade. Felizmente, alguns viajavam de Nairobi para Mandera em Dezembro de 2015.

 

O trailer pode ser visto aqui.

Óscares: todas as nomeações

por Pedro Correia, em 23.01.18

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Aqui, todas as nomeações para os Óscares de Hollywood. Espero que a estatueta para melhor actor distinga este ano Gary Oldman, pelo seu notável desempenho no papel de Winston Churchill em A Hora Mais Negra. O filme que mais recomendo dos seis que já vi este mês.

A cerimónia dos Óscares já foi há quase três semanas mas gostava de voltar às quedas de Jennifer Lawrence (para distraídos: uma no ano passado, quando subia ao palco para receber o prémio, outra este ano, ao sair do carro no exterior do edifício). Claramente, a rapariga não sabe conjugar vestidos de noite com sapatos de salto alto mas isso só a torna (ainda) mais simpática aos meus olhos. Numa classificação tão aleatória como estas classificações tendem a ser, para mim há três tipos de actrizes em Hollywood: as que assumem a imagem de estrelas e planam ligeiramente acima de todos os restantes mortais, incluindo os colegas de profissão (Charlize Theron e Angelina Jolie são os exemplos possíveis, nesta época tão afastada do star system de há seis ou sete décadas); as que se definem pelo trabalho e, até mesmo quando enfiadas em vestidos de gala, permanecem ligadas à Terra (Julia Roberts, Meryl Streep, Amy Adams, Jessica Chastain); as que gostariam de atingir uma das duas primeiras categorias mas enfrentam dificuldades em escapar de um nível onde são encaradas com alguma condescendência (Jennifer Anniston, Reese Witherspoon - não obstante Walk the Line -, Jessica Biel, Kristen Stewart). Jennifer Lawrence, claro, é um caso típico do segundo grupo, apesar de muita gente andar a tentar metê-la no primeiro (demasiado nova; dêem-lhe pelo menos dez ou quinze anos para perder espontaneidade e aprender a equilibrar-se nos saltos altos). As suas quedas funcionam como aqueles detalhes que os grandes actores acrescentam aos papéis. Algo que, parecendo acessório, acaba por fazer a diferença na forma como os recordamos. Em parte devido às quedas, Lawrence já é das pessoas mais memoráveis da cerimónia.

 

Mas não comecei a escrever isto apenas por causa de Jennifer Lawrence. Fi-lo também por sentir que a cerimónia dos Óscares necessita de mais quedas e, em particular, de quedas com mais significado. Quedas que desfaçam as poses politicamente correctas. Como (quase) sucedeu na cerimónia de 1945. Double Indemnity, de Billy Wilder, era candidato a sete Óscares. O filme merecia-os, sendo uma obra-prima do film noir cujo argumento (adaptando um livro de James M. Cain) saíra de uma colaboração particularmente tempestuosa entre Wilder e um tal Raymond Chandler (a experiência foi tão traumatizante para Wilder que, segundo se diz, o alcoólico interpretado por Ray Milland que protagonizava The Lost Weekend, o seu filme seguinte, era inspirado em Chandler*). Apesar das qualidades de Double Indemnity, os Óscares foram sendo entregues a Going My Way, um musical de Leo McCarey com Bing Crosby. Quando McCarey se dirigiu para o palco para receber o Óscar de melhor realizador, Wilder não aguentou mais: estendeu o pé e passou-lhe uma rasteira. Infelizmente para a lógica deste post (daí o «quase» entre parêntesis um pouco mais acima), McCarey, que não estaria a usar vestido de noite nem sapatos de salto alto, conseguiu evitar cair. O acto de Wilder pode - justamente - ser considerado imaturo e pouco educado, mas, para mim, tratou-se de uma refrescante (porque sincera e inesperada) manifestação de frustração e sentimento de injustiça. Admitamos: sentados nos nossos respectivos sofás defronte dos nossos respectivos televisores, procuramos tanto verificar a alegria dos vitoriosos como detectar indícios de frustração nos derrotados. Por norma, estes afivelam um sorriso e batem palmas, numa intensidade que varia entre as exigências mínimas da boa educação e o entusiasmo tão pouco credível que, no caso de actores e actrizes, fica mais do que justificada a não atribuição do Óscar. No meio de todo este fingimento, tenho pena de não existirem mais Billy Wilders. De não ver Scorsese resmungar entredentes «Damn, not again», Cuarón estranhar os saltos em palco de McQueen («Que pása? El mejor director soy yo, verdad?») ou DiCaprio murmurar «Fuck, I knew I should have lost weight». Na cerimónia de 2014, o mais perto que estivemos disto foi o aplauso relutante de Bruce Dern, sentindo não apenas a perda do prémio deste ano mas o peso de todos os papéis que Hollywood lhe recusou ao longo de décadas. Muito pouco. Em 1945, depois de rasteirar McCarey, saindo de mãos a abanar (Double Indemnity não venceu qualquer Óscar), Wilder ainda fez questão de proclamar, enquanto esperava pelo automóvel: «O que diabo significa um Prémio da Academia, por amor de Deus? Afinal, Luise Rainer** ganhou-o duas vezes. Duas vezes!» Tinha razão e basta analisar a lista de premiados - nem sequer é necessário ir à parte da melhor canção - para verificar que ainda tem. Seja como for, não consta que, em 1946, 1950 ou 1960, tenha recusado qualquer dos Óscares que a Academia lhe deu por, respectivamente, The Lost Weekend, Sunset Boulevard e The Apartment. Nem que alguém tenha procurado fazê-lo cair quando se dirigia para o palco. É pena, no entanto. Wilder merecia o gesto - e, como o seu epitáfio, aproveitando a imortal última frase de Some Like It Hot, sugere, provavelmente tê-lo-ia compreendido.

* Que, ainda assim, ganhou um cameo pouco conhecido em Double Indemnity.

** Actriz de ascendência alemã premiada em 1936 e 1937.

Creio que fui um dos grandes vencedores

por Rui Rocha, em 04.03.14

Na noite dos Óscares deitei-me às onze.

Então como foi?

por José Navarro de Andrade, em 03.03.14

Está visto e dito.

Há festa em Hollywood

por José Navarro de Andrade, em 28.02.14

 

Durantes as próximas horas metade da comunicação social vai perguntar à outra metade quais são as suas previsões para os Óscares.

Personalidades-de-reconhecido-valor serão interrogadas por microfones ansiosos e debitarão opinativamente acerca da “celebração do cinema”, as “virtualidades de Hollywood”, ou o “apogeu da narrativa ficcionada”. Haverá quem esteja contra (“repensar o imaginário veiculado pela cultura [imperialista] americana”) ou a favor (“o potencial eufórico da cultura cinematográfica”). Lá mais para o fim, caso seja necessário encher o ar televisivo, serão recolectadas as pungentes opiniões de Carlos Mané, Paula Bobone, ou Marcelo Rebelo de Sousa. Certo será que ninguém desperdiçará a oportunidade de se elevar à posição de oráculo, prevendo os resultados dos Óscares, com pose de meteorologista a explicar a evolução do anticiclone dos Açores.

Por mim, só tenho pena de já fazer uns anitos que não ponho os pés no Ivy’s, na Robertson (“Get shorty” – “Jogos quase perigosos”), onde o pessoal da indústria bisbilhota e conspira durante o brunch; nem tenho frequentado o Dan Tana’s, em West Hollywood, observando os produtores serrarem bifes e roerem charutos, e cujos empregados são todos potenciais figurantes de um filme de wise guys. E sobretudo deploro nunca ter recebido um convite para a imprescindível festa da Vanity Fair, que  anda com tenda às costas desde que o Morton’s fechou.

Mas quem quiser espreitar como funcionam os sindicatos de voto nos Óscares, visione ou revisite, o 7º episódio da 6º temporada de “Sopranos”, intitulado “Luxury Lounge”, no qual o instável Imperioli/Moltisanti de visita a Hollywood, percebe que as vedetas de Los Angeles têm mais borlas com menos esforço do que os pobres mobsters de New Jersey. Certificam esta informação os sarcásticos cameos de Ben Kingsley e Laureen Bacall nesse episódio.

Conheci um jornalista português que foi à cerimónia dos Óscares. E o que aconteceu foi terem arrebanhado a malta de jornalistas, e depois de lhes oferecerem o biscoito de uns minutos passados na orla da passadeira vermelha – na qual os repórteres são parte fundamental do cenário e da festa, acrescentando-lhe excitação, barulho e flashes – conduziram-nos pressurosamente para uma sala nas catacumbas do Kodak Theater (hoje rebaptizado com o naming de Dolby Theater) onde puderam ver o show… pela televisão. Na verdade o meu amigo esteve lá, pode dizer que respirou o ar elétrico de Hollywood, mas viu exatamente o mesmo que eu vi, sentado num sofá a 8 fusos horários de distância.

Aliás, nem a maior parte dos convidados e participantes para a gala assistem ao espectáculo, pois, como é sabido, passam a maior parte do tempo a tagarelar, a conviver e, sobretudo, a beber dry martinis nos bares do cinema, enquanto as suas cadeiras são preenchidas por um batalhão de figurantes de smoking, que asseguram o aspeto da sala cheia durante a transmissão. As vedetas, mais que os restantes (noblesse oblige…), só estão realmente sentadas no anfiteatro os curtos momentos em que as vemos presentes.

Lamentavelmente não sei quem vai ganhar os Óscares, mas vou-me divertir imenso este fim de semana à custa deles.  

Ups

por Patrícia Reis, em 28.02.13

Uma rapariga faz por ser normal, quer dizer, por cumprir nos mínimos olímpicos. Hoje descobri que os óscares foram há uma semana e estou deprimida. Mesmo.

Tapam Michelle e deixam o Óscar nu

por Pedro Correia, em 26.02.13

 

A fanática brigada antipecado que domina com mão de ferro o Irão - e tem bons amigos em Portugal - sentiu a pulsação muito acelerada ao vislumbrar o generoso decote de Michelle Obama na noite da distribuição dos Óscares. Como se já não lhes bastasse ver Argo - uma longa-metragem que denuncia sem pudores a ditadura islâmica - conquistar o Óscar de melhor filme.

Num país onde as mulheres continuam a ser severamente reprimidas a pretexto da manutenção da pureza islâmica, os censores de serviço não tardaram a obedecer aos ditames dos aiatolás, cobrindo a primeira dama norte-americana com tecido photoshopado, em prol dos bons costumes, como se pode perceber na imagem da direita - a que passou nos televisores de Teerão e arredores.

Mas podia ser pior: escapou ao rigor da teocracia iraniana o pecaminoso cabelo de Michelle, que noutros tempos só por lá surgiria abrigado sob um véu igualmente tecido pela censura.

Fica-me uma pequena dúvida: porque será que os censores se esqueceram também de cobrir com um pudico paninho o próprio Óscar, estatueta de um homem nu?

 

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Cabelos curtos na noite mais longa

por Pedro Correia, em 25.02.13

 

Não é todas as vezes que surge uma figura quase lendária do cinema ao vivo no televisor. Aconteceu-me esta noite, ao ver Emmanuelle Riva na longa festa dos Óscares: estava nomeada pelo principal papel feminino em Amor, de Michael Haneke - um dos melhores filmes que vi nos últimos anos. Gostaria que a inesquecível intérprete de Hiroxima, Meu Amor levasse o prémio na viagem de regresso a Paris, sobretudo no dia em que fez 86 anos, mas a estatueta acabou por ficar bem entregue: a melhor actriz do ano, na opinião dos jurados da Academia de Hollywood, é Jennifer Lawrence - pura explosão de talento num filme que me cativou, Guia para um Final Feliz, de David O. Russell.

O melhor actor, sem surpresa, foi Daniel Day-Lewis, com um inexcedível desempenho em Lincoln que o torna campeão no seu género: nenhum outro intérprete havia conquistado até hoje três estatuetas (proeza que ele conseguiu com O Meu Pé Esquerdo, de Jim Sheridan, e Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson, além deste, sob a competente direcção de Steven Spielberg).

Mas o momento da noite foi a surpreendente aparição da primeira dama norte-americana para anunciar o Óscar de melhor filme entre as nove longas-metragens nomeadas. Em directo da Casa Branca, com pompa e circunstância, Michelle Obama abriu o envelope para pronunciar a palavra de quatro letras que fez vibrar Ben Affleck de satisfação: Argo, realizado com mão segura, foi proclamado grande vencedor nesta despudorada intromissão da propaganda governamental na festa dos Óscares. Se algo semelhante tivesse sucedido por bandas cá da velha Europa, não faltariam almas indignadas bradando justamente contra a ligação promíscua do espectáculo ao poder político.

Ang Lee, que dirigiu A Vida de Pi, foi considerado o melhor realizador de 2012, como já fora em 2005, com O Segredo de Brokeback Mountain. O cineasta de Taiwan dirigiu uma palavra de carinho à mulher com quem está casado há 30 anos, gesto repetido pouco depois com Daniel Day-Lewis em relação à mulher, Rebecca Miller, com quem deu o nó em 1996. Hollywood, em matéria de separações, já não é o que era...

 

E que mais?

Barbra Streisand pisou pela primeira vez o palco em cerimónias do género desde 1977, para homenagear o falecido Melvin Hamlisch, cantando The Way We Were, uma das canções da minha vida. Jack Nicholson, o mestre-de-cerimónias final, está consideravelmente mais velho e mais gordo. Catherine Zeta-Jones e Jane Fonda, pelo contrário, estão bastante mais esbeltas e muito mais novas. Quase tão jovens como Anne Hathaway, que levou para casa a estatueta destinada a premiar o desempenho de melhor actriz secundária pela sua interpretação cantada em Os Miseráveis. Nada esbelta está Adele, vencedora do Óscar da melhor canção (em parceria com Paul Epworth), mas parece que ela não se rala nada com isso.

E eu também não, desde que ela continue a cantar desta maneira.

 

O meu filme favorito, 00.30 Hora Negra, levou apenas o Óscar de melhor montagem de som - a meias com Skyfall, num dos raríssimos empates até hoje registados em noites de distribuição de estatuetas. Amor, realizado pelo austríaco Michael Haneke, recebeu justamente o prémio para melhor filme de língua não-inglesa. Christoph Waltz é melhor actor secundário por Django Libertado, película que também valeu ao seu realizador, Quentin Tarantino, o Óscar de melhor argumento original - repetindo assim a proeza alcançada em 1994 com Pulp Fiction.

Seth MacFarlane, como anfitrião estreante, esteve em grande nível, sobretudo ao cantar We Saw Your Boobs - uma das melhores surpresas da noite. E Charlize Theron, coadjuvada por Anne Hathaway, relançou a moda do cabelo curto, que não tardará a pegar como fogo na pradaria.

E agora, se me dão licença, vou dormir.

O jornalismo que não se surpreende

por Pedro Correia, em 27.02.12

 

Já escutei hoje mais de dez vezes a frase "sem surpresas" referente à distribuição dos Óscares. Se não há surpresa, não há notícia. Mas houve notícia. O cineasta galardoado com a estatueta de melhor realizador é francês (quantas vezes isso já sucedeu na história da Academia de Hollywood, ó jornalistas nada surpreendidos?). A película vencedora, O Artista, é uma produção franco-belga (lembram-se da última vez em que isto sucedeu ou se alguma vez ocorreu nestas oito décadas de distribuição dos Óscares, caros amigos?). O actor que recebeu o prémio para o melhor desempenho masculino, Jean Dujardin, é também francês (digam-me, por favor, qual foi o actor fancês que antes dele levou um Óscar para casa). E Christopher Plummer, veterano de longas-metragens que há muito fazem parte do imaginário universal, como Música no Coração, foi o mais velho actor de sempre a conquistar uma estatueta, neste caso destinada a premiar o melhor desempenho secundário: triunfou aos 82 anos numa indústria rendida ao culto da juventude.

Limitei-me a anotar algumas novidades em poucos minutos, ao correr da pena. Outras houve que poderia igualmente sublinhar aqui -- do Óscar de melhor argumento original para Woody Allen por um filme de produção europeia até ao cineasta iraniano distinguido com o prémio para melhor filme de fala não-inglesa.

Mas reconheço que é muito mais fácil iniciar notícias com o chavão "não houve novidades". Marca de um certo jornalismo preguiçoso que permanece instalado entre nós.

Imagem: Jean Dujardin e Bérénice Bejo numa cena d' O Artista

Despojos dos Óscares

por José António Abreu, em 26.02.12

A cerimónia de entrega dos Óscares de 2012 é esta noite. Ainda não vi qualquer dos nomeados para melhor filme. No ano passado, o Óscar foi para O Discurso do Rei – um filme simpático, que podia perfeitamente ser uma mini-série da BBC (só em parte isto pretende ser um insulto). Entre os grandes derrotados estiveram A Origem, um bom filme (ou não tivesse sido realizado por Christopher Nolan), com todos os efeitos especiais necessários para maravilhar o público actual de cinema, A Rede Social, outro bom filme (ou não tivesse sido realizado por David Fincher – mas porquê refazer a trilogia Millennium, David?), sobre a ânsia, tão intensa nos dias que correm, de constituir o centro das atenções sem o esforço de produzir algo que o justifique, e Indomável, mais um bom filme (ou não tivesse sido realizado pelos manos Coen), sobre uma rapariga em busca de justiça num mundo violento – e masculino. Na minha opinião, qualquer dos três era mais merecedor do Óscar do que O Discurso do Rei – mas talvez não tanto como o nomeado que vi apenas ontem, em DVD.

 

Despojos de Inverno tem um ponto de contacto com Indomável: é acerca da luta de uma rapariga num mundo violento. Porém, em comparação com o filme dos Coen ou qualquer dos outros mencionados acima, é um filme simples, realizado com pouco dinheiro, sem efeitos especiais ou recurso a grandes estrelas – mas com imenso cinema. A história é simples: nas montanhas Ozark (centro do Estados Unidos), nuns USA muito longe do glamour e da riqueza que esta noite veremos na televisão, Ree Dolly (fabulosa Jennifer Lawrence, a seguir com atenção), uma rapariga de dezassete anos, toma conta do irmão e da irmã, ambos mais novos, e da mãe, mentalmente ausente. O dinheiro escasseia e muitas vezes a família depende da ajuda dos vizinhos mais próximos. O pai de Ree dedicava-se ao fabrico de metanfetaminas antes de ser preso, solto sob fiança e desaparecer em parte incerta. Ree é informada de que a propriedade da família foi dada como garantia da fiança e que, se o pai não aparecer no tribunal dentro de dez dias, ela, os irmãos e a mãe serão despejados. Ree decide tentar encontrar o pai e fazê-lo apresentar-se perante o tribunal. Mas – e sabe-o à partida – vai enfrentar muitas desconfianças, muitas resistências, muita gente que pode ter motivos tão ou mais fortes para manter o pai de Ree desaparecido como ela tem para o fazer aparecer.

 

A estrutura do filme dificilmente podia ser mais perfeita. Começa por mostrar-nos o ambiente em que Ree se insere, apresenta-nos o problema, faz-nos acompanhar Ree nos contactos com pessoas que parecem todas estranhamente hostis (até as que se presumiria estarem do lado dela, como os familiares mais próximos, parecem opor-se-lhe) e, lentamente, vai-nos deixando perceber o que realmente se passa, as razões para tanta hostilidade e por que se encontra afinal a tarefa de Ree praticamente votada ao fracasso. De um modo ou de outro, quase todas os personagens em Despojos de Inverno são violentas (os irmãos e a mãe de Ree constituem as excepções mais óbvias, eles por ainda não entenderem o que se passa – são as únicas personagens capazes de brincar –, ela por ter desistido de entender) mas a violência parece manifestar-se de modo diferente nos homens e nas mulheres. Eles são duros, agressivos, inacessíveis, preocupados com não mostrar fragilidades. Elas são tão ou mais duras mas a sua dureza – e violência – é uma espécie de resistência, de subjugação raivosa aos desígnios masculinos, nascida da necessidade de terem sido forçadas a adaptar-se ao mundo em que estão inseridas: à maneira de ser dos homens e aos seus problemas frequentes com a lei, aos casamentos precoces e aos filhos que deles resultam, à falta de dinheiro e de perspectivas. Se a sombra dos homens e da sua inflexibilidade é permanente ao longo do filme, são as mulheres quem mais tempo passa no ecrã e quem – desconfia o espectador – acaba por ter mais influência no modo como tudo acaba. Despojos de Inverno é um filme com uma fortíssima componente feminina e não será coincidência ter sido realizado por uma mulher, Debra Granik.

 

Gostaria de realçar dois últimos pontos, provavelmente também relacionados com esse eventual carácter feminino. O primeiro é que, tratando-se de um filme violento (muito violento), quase não mostra violência física. Antecipa-a, mostra-lhe os efeitos – mas não se detém sobre ela. Num tempo em que os filmes fazem questão de mostrar muito mais do que sugerir, é sempre agradável constatar como a sugestão consegue ser eficaz. Finalmente, encontrando-nos submersos por filmes em que os heróis se riem do perigo e avançam com uma frase cáustica para as mais inverosímeis lutas, é também bom relembrar que são afinal os heróis relutantes, os heróis que fazem o que tem de ser feito porque não há mais ninguém para o fazer, quem mais empatia consegue gerar num ecrã de cinema. Esta constitui, aliás, uma diferença importante entre Indomável e Despojos de Inverno: Mattie Ross é uma rapariga voluntariosa em busca de uma vingança de que pode prescindir, Ree Dolly uma rapariga encurralada que só pode escolher entre dois males – enfrentar quem nunca poderá vencer ou perder casa e família. O verdadeiro heroísmo é não desistir.

 

Quanto aos Óscares, who cares?

 

A Dama de Ferro

por Teresa Ribeiro, em 26.02.12

Fui ver a Meryl no filme sobre a Thatcher e afinal quem eu vi foi a Thatcher e não a Meryl. Nem os olhos lhe descortinei. Eclipsou-se atrás da personagem e deixou-me boquiaberta a pensar que depois de Mamma Mia eu achava que ela já não tinha como me surpreender. The oscar goes to her (I hope).

Fiquei, pois, com a Thatcher, a mulher de quem sempre tive uma visão unidimensional por força das circunstâncias. A sua imagem pública era muito forte, logo redutora e a minha trincheira política já nesse tempo era outra, o que naturalmente me condicionava o olhar.

Resumir a sua vida em duas horas de filme exige que se façam escolhas, mas Phyllida Lloyd (também a realizadora de Mamma Mia) não nos apresenta um biopic parcelar, desses que privilegiam claramente uma das facetas do biografado. A solução que ela nos apresenta é a menos radical, mas a mais arriscada, pelas óbvias dificuldades que coloca, na gestão do tempo e do volume de informação, fazer uma síntese com pés e cabeça.

O resultado é um esboço, tanto da figura pública como da persona que a explica. Inevitável. Quem espera ver neste filme a Maggie que se escondia por detrás da máscara de ferro, fica à espera de mais. Quem quer uma biografia política, desilude-se. Ainda assim não considero A Dama de Ferro um filme falhado, porque apesar de tudo dá-nos muito: uma narrativa com um ponto de partida inesperado, que é o da decadência do fim da vida, e um perfil psicológico que embora limitado, nos ajuda a perceber melhor a mulher que governou, durante onze anos, o Reino Unido.

Ainda que incipiente, o retrato humanizou a meus olhos a senhora que em tempos inspirou a minha ira enquanto trauteava, solidária com os mineiros em greve de fome, o Don't Give Up, de Peter Gabriel. A dama a quem dedicaram covers de Maggie's Farm, transformando o original de Bob Dylan num hino de ódio à sua política, era dura como todos os que sobem a pulso. E tal como a generalidade dos self made (wo)men, insensível aos queixumes dos mais desfavorecidos, porque não lhes reconhecia mais dificuldades do que as que teve para vencer na vida. Thatcher acreditava também no que fazia: "o medicamento é forte, mas o doente precisa dele", argumentava, no auge da contestação às duras medidas que tomou para reabilitar a economia britânica. Afirmava também que estava na política "para fazer e não para ser", uma atitude muito ética mas pouco sexy, que lhe valeu o afastamento dos seus pares.

Phyllida Lloyd deixa-nos também entrever o universo familiar de Maggie: as relações privilegiadas com o pai, que lhe incutiu a ambição e o orgulho, a distância em relação à mãe, a preferência pelo filho e a ligação ao seu Dennis. Sabemos isto tudo apoiados em cenas fugazes, curtas pinceladas de um quadro que ficará por completar, mas que ainda assim revela o carácter e a coragem de um ícone que passei, graças a este filme, a ver com cara de gente.

É, porém, a política que sai mais sacrificada neste biopic. Quem estiver mal informado perde-se no carrossel de imagens que ilustram os momentos mais marcantes do thatcherismo e jamais terá possibilidade de fazer uma avaliação. Esta é a maior fragilidade de A Dama de Ferro.

 

 A Dama de Ferro (The Iron Lady), 2011. Realz: Phyllida Lloyd. Int.: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Susan Brown

Palpites para uma longa noite

por Pedro Correia, em 26.02.12

 

Só vi quatro dos nove filmes que concorrem ao Óscar da Academia destinado a premiar a melhor longa-metragem de ficção de 2011. Não posso, por isso, tecer considerações fundamentadas sobre aquele que merece levar a estatueta. Mas como gosto de apostas adianto o meu palpite sobre o vencedor: O Artista, de Michel Hazanavicius - fascinante revisitação dos anos pioneiros de Hollywood num filme que recupera a estética do cinema mudo que parecia sepultada a oito décadas de distância. Já alguém lhe chamou, e com razão, "a quintessência da nostalgia".

Estas (filme e realizador) são as vitórias que me parecem mais prováveis. Mas, entre os concorrentes nomeados pela academia, o filme que eu gostaria de ver contemplado com o supremo galardão do ano foi talvez aquele que mais fascinou de quantos vi em 2011: A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Há filmes que nos tocam de uma forma tão radical, tão surpreendente, tão prolongada que a partir desse momento se tornam parte integrante do nosso património afectivo. Este é um deles.

Quanto aos prémios restantes, estimáveis mas de segunda linha, deixo apenas dois palpites: Meryl Streep conquista o seu terceiro Óscar (após Kramer contra Kramer em 1979 e A Escolha de Sofia em 1982) pelo seu imbatível desempenho como Margaret Thatcher em A Dama de FerroMax von Sydow ganha enfim uma estatueta como actor secundário em Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, de Stephen Daldry. O equivalente a prémio de carreira para compensar omissões anteriores - algo muito frequente em Hollywood. Uma lógica que pode aplicar-se também a outro veterano destes lides: Christopher Plummer, nomeado pela actuação em Assim é o Amor, de Mike Mills.

E mais não digo. A festa é mais logo, na TVI. Uma das noites mais compridas do ano.

 

Imagem: fotograma d' A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Kirk Douglas e Eli Wallach

por Pedro Correia, em 07.03.11

               

 

Gostei de ver, faz hoje uma semana, dois sobreviventes dos anos de ouro do cinema americano no palco do teatro Kodak, em Hollywood: Kirk Douglas, de 94 anos, entregou o Óscar de melhor actriz secundária (bem merecido) a Melissa Leo, pelo seu magnífico desempenho na película O Último Round; Eli Wallach, de 95 anos, recebeu um prémio honorário, destinado a homenagear a sua longa carreira que parece não ter fim – ainda há pouco o vimos em Wall Street 2.

Dois actores que entraram em filmes inesquecíveis: Carta a Três Mulheres (Joseph L. Mankiewicz, 1949), Algemas de Cristal (Irving Ropper, 1950), O Grande Carnaval (Billy Wilder, 1951), História de um Detective (William Wyler, 1951), Cativos do Mal (Vincente Minnelli, 1952), Vinte Mil Léguas Submarinas (Richard Fleischer, 1954), A Vida de Van Gogh (Minnelli, 1956), A Voz do Desejo (Elia Kazan, 1956), Horizontes de Glória (Stanley Kubrick, 1957), Os Sete Magníficos (John Sturges, 1960), Spartacus (Kubrick, 1960), Os Inadaptados (John Huston, 1961), Duelo ao Pôr-do-Sol (Sturges, 1961), Duas Semanas noutra Cidade (Minnelli, 1962), Sete Dias em Maio (John Frankenheimer, 1964), O Bom, o Mau e o Vilão (Sergio Leone, 1966), O Compromisso (Kazan, 1969) e tantos outros.

O público ali presente dispensou-lhes calorosas e prolongadas ovações. Bem merecidas: Douglas e Wallach, em conjunto, totalizam 120 anos de presença activa no cinema americano. Casos raros de longevidade. Casos raros de indiscutível qualidade.

Daqui, na minha modesta condição de espectador grato por tantas horas de bom cinema que ambos me propiciaram, também lhes presto o meu tributo.

Justice is served

por Laura Ramos, em 28.02.11

Pode não ter sido o teu filme, Colin.

Vão correr rios de tinta sobre o assunto.

Mas tu entendes que isso interessa pouco: são apenas os hollywwod-cratas do costume.

Eu sei que entre tantos outros, tantas vezes imerecidos, este teu Óscar é inteiramente devido.

 


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