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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.03.16

1507-1[1].jpg

 

História das Relações Portugal-EUA (1776-2015), de Tiago Moreira de Sá

(edição D. Quixote, 2016)

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4 comentários

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De AntónioF a 15.03.2016 às 08:49

Caro Pedro, desculpe que não faça nenhum comentário sobre o livro que sugere mas que, no dia de hoje - 15 Março-, evoque a efeméride que neste dia de assinala, com um texto de Umberto Eco.

Se me permite:

«(…) Ainda éramos um jornal sem leitores e, portanto, qualquer notícia que fosse dada, não haveria ninguém para a desmentir. Mas um jornal mede-se também pela capacidade de fazer frente a desmentidos, especialmente se é um jornal que mostra não ter medo de meter as mãos nos podres. Além do treino para quando chegassem os verdadeiros desmentidos, vinha a propósito inventar algumas cartas de leitores às quais se seguissem os nossos desmentidos. Para mostrar ao comitente a massa de que éramos feitos.
‘Falei nisso ontem com o Dr. Colonna. Colonna, quer dar, por assim dizer, uma bonita lição sobre a técnica do desmentido?’
‘Bem’, dissera eu, ‘vamos dar um exemplo de manual, não apenas fictício mas, digamos até exagerado. É uma paródia do desmentido que saiu há alguns anos no “Espresso”. Punha-se a hipótese de o jornal ter recebido uma carta de um tal Preciso Smentuccia, que vos vou ler: (...)»

Cont. (1/4)
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De AntónioF a 15.03.2016 às 08:49

(Cont.)

« (...) “Excelentíssimo director, com referência ao artigo ‘Nos Idos eu não vi’, publicado no último número de seu jornal, assinado por Aleteo Verità, permito-me precisar o seguinte. Não ´verdade que eu tenha estado presente no assassinato de Júlio César. Como pode gentilmente deduzir da certidão de nascimento junta, eu nasci em Molfetta, a 15 de Março de 1944, e, portanto, muitos século depois do infausto acontecimento, que, por outro lado, sempre condenei. O senhor Verità deve ter-se equivocado quando lhe disse que comemoro sempre com alguns amigos o dia 15 de Marco de 44.
Também é incorrecto que eu tenha dito, a seguir, a um tal Bruto: ‘Voltaremos a ver-nos em Filippo’. Desejo precisar nunca tive quaisquer contactos com o senhor Bruto, do qual até ontem ignorava o nome. No decurso da nossa curta entrevista telefónica, disse efectivamente ao senhor Verità que em breve voltaria a ver o assessor de tânsito de Filipos, mas a frase foi pronunciada no contexto de uma conversa sobre a circulação automóvel. Neste contexto, eu nunca disse que estava a contratar uns assassinos para eliminar aquela praga do traidor Júlio César, mas sim que ‘estou tratando de incentivar o assessor a eliminar o trânsito na Praça Júlio César’.
Agradeço-lhe e envio os melhores cumprimentos, seu
Preciso Smentuccia.” (...)»

Cont. (2/4)
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De AntónioF a 15.03.2016 às 08:49

(Cont.)

Como reagir a um desmentido tão preciso, sem perder a face? Aqui está uma boa resposta:

“Tomo nota que o senhor Smentuccia não desmente, de facto que Júlio César tenha sido assassinado nos Idos de Março de 44. Tomo nota também do facto de o senhor Smentuccia comemorar sempre com os amigos o aniversário do 15 de Março de 1944. Era precisamente este curioso costume que desejava denunciar no meu artigo. O senhor Smentuccia terá provavelmente razões pessoais para comemorar com abundantes libações aquela data, mas admitirá que a coincidência e, no mínimo, curiosa. Recordará, além disso, que durante a longa e consistente entrevista telefónica que me concedeu, pronunciou a frase: ‘Eu sou da opinião de dar sempre a César o que é de César’; uma fonte muito próxima do senhor Smentuccia – e da qual não tenho razões para duvidar – assegurou-me que aquilo que César obteve foram vinte e três punhaladas.
Saliento que em toda a sua carta o senhor Smentuccia evita dizer-nos quem, efectivamente, terá desferido aquelas punhaladas. Quanto à penosa rectificação sobre Filipos, tenho diante dos olhos o meu caderno de apontamentos onde está escrito, sem sobra de dúvida, que o senhor Smentuccia não disse ‘Voltaremos a ver o Filipos’, mas sim ‘Voltaremos a ver-nos em Filipo’.
O mesmo posso assegurar acerca da ameaçadora expressão dirigida a Júlio César. Os apontamentos no meu caderno, que tenho diante dos olhos neste momento, dizem claramente: ‘Estou tr…ando ass eliminar tr pr Júlio César’. Não é arranjando expediente ou jogando com as palavras que se pode evitar pesadas responsabilidades, ou amordaçar a liberdade de imprensa. (...)»

Cont. (3/4)
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De AntónioF a 15.03.2016 às 08:49

(Cont.)

« Segue-se a rubrica de Aleteo Verità. Então, o que te de eficaz este desmentido do desmentido? Primeiro, a nota que o jornal tomou quando o jornal escreveu a partir de fontes próximas do senhor Smentuccia. Isto funciona sempre – não se revelam as fontes, mas sugere-se que o jornal tem fontes confidenciais, talvez mais fidedignas do que o Smentuccia. Depois, recorre-se ao caderno de apontamentos do jornalista. Este nunca ninguém o verá, mas a ideia de uma transcrição ao vivo infunde confiança no jornal, sugere que existem documentos. Finalmente, repetem-se uma insinuações que, por si só, não dizem nada, mas que lançam uma sombra de suspeita sobre Smentuccia. Ora, não digo que os desmentidos devam ser deste tipo, aqui estamos perante uma paródia, mas tenham bem mente os três elementos fundamentais para um desmentido do desmentido, as palavras recolhidas, as notas no caderno de apontamentos, e várias perplexidades acerca da credibilidade do desmintidor. Compreenderam?»

In: ECO, Umberto – Número zero. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 2015. p. 48-50

Fim (4/4)

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