Eis o meu problema: Aldous Huxley escreveu Admirável Mundo Novo porque viu a ascendência da tecnologia do entretenimento e a multiplicação das distracções (como as drogas) como um perigo palpável; George Orwell escreveu 1984 porque conseguia ver o perigo da União Soviética; Margaret Atwood escreveu A História da Aia porque conseguia ver o perigo do que aconteceria se a direita cristã tomasse o poder na América do Norte e instituísse uma teocracia (o que já é uma realidade, de certa forma); José Saramago escreveu Ensaio Sobre a Lucidez porque qualquer pessoa que já leu um livro de história pode apontar incontáveis exemplos de terrorismo de estado contra a própria população, especialmente nas democracias, e convém nunca perdermos isso de vista.
Agora, alguém se sente minimamente assustado com a possibilidade de uma tomada de poder comunista em Portugal? Alguém julga isso um futuro credível? Alguém perde sono por isso? Este livro escolheu uma péssima altura para sair, com a direita a ganhar poder por toda a Europa. Teria feito sentido se tivesse sido publicado algures por volta de Maio ou Junho de 1974, como um alerta. Mas em 2015? A sério? O que quer o autor que eu aprenda dele? Isto parece-me mais nostalgia pelas simples dicotomias da Guerra Fria, dos tempos em que os inimigos eram facilmente identificáveis; embora os comunistas já não tenham qualquer poder militar, económico ou político para influenciar ou conquistar seja o que for, a narrativa oficial impede-nos de acusar as democracias liberais e instituições capitalistas (embora não haja mais pretendentes ao lugar) de responsáveis por tantos dos males actuais, por isso esta é a melhor solução para aqueles que precisam de encontrar inimigos mas vivem em negação da realidade.
Basicamente é escapismo, embora aquilo para que o autor está a tentar escapar seja muito bizarro.
O "terrorismo de Estado contra a própria população" existe "especialmente nas democracias", Miguel? Ou você se exprimiu mal ou eu não entendi bem. Das duas uma. Porque essa é a linguagem habitual dos apologistas das ditaduras.