Souza Felgueiras
O menino da casa trouxe um amigo para almoçar.
Ficou em frente à menina, e esta confidenciou muitos anos volvidos que ficara espantada com o paleio torrencial – nada que perturbasse o pater famílias que presidia à mesa e que deu corda ao palavreado do atrevido.
Achou a amesendação fora do mundo, comeu com apetite e reteve com espanto o formato dos pratos – eram todos quadrados.
O formato dos pratos, que aliás sumiram há décadas, era o menos, que com o tempo foi aprendendo que aquilo era uma casa de artistas com uma hierarquia de prioridades muito particular: não havia cortinados porque não eram precisos mas havia móveis ou peças de arte preciosas adquiridas em leilões ou antiquários; não havia televisão (veio a haver muitos anos mais tarde) porque isso não dá nada de interesse mas a aparelhagem sonora era caríssima.
De música, ouvia-se jazz, e dentro deste clássicos da especialidade e não experimentalistas ocos. A menina e os meninos gostavam mesmo era das musiquetas anglo-saxónicas e francesas da época – anos 60 – pelas quais o dono da casa nutria uma intensa aversão. Às vezes cedia e punha, do mundo da música boa, uma Aretha Franklin ou um Ray Charles, mais próximos do nosso gosto pop.
Uma vez vi uma história de bolso do jazz, que comprei e li rapidamente. E logo que calhou estar a passar na aparelhagem (um amplificador Revox que aquecia prodigiosamente, um gira-discos Thorens) um pianista qualquer declarei meditativamente que me parecia reconhecer ali traços de um Jelly Rol Morton, senão mesmo de um Art Tatum. O (para mim) velho espantou-se: como raio é que você os conhece? Ora, declarei com falsa modéstia, não havia de conhecer? – são clássicos.
O mundo que fui espreitando, porque jamais deixei de ser visita assídua ainda antes de ser familiar, era o de uma rotina em torno das aulas na Escola de Belas Artes do Porto e de pintura num atelier então fora daquela primeira casa. E com conversas e discussões de visitas fui lentamente absorvendo o interesse (no meu caso distante, como ainda hoje) por aqueles assuntos: a minha praia eram leituras, e ali o deus era Camilo, não o Eça que lia (e, dada a idade, mais seguramente treslia) compulsivamente.
O centro dos meus interesses não era o Mestre (assim naquela época, e não sei se agora, muitos alunos tratavam os professores) mas, sem querer, acabei por ser influenciado reflexamente pelo seu natural papel de figura tutelar da vida daqueles dois irmãos (a filha viria a concluir o curso de Pintura, o amigo o de Arquitectura).
A peça era, a seu modo, fascinante: tinha um conhecimento enciclopédico sobre História de Arte, com opiniões definitivas sobre importância relativa, mérito e demérito de artistas, tanto clássicos como contemporâneos, um reconhecimento instantâneo de quaisquer trabalhos, incluindo o local ou museu em que se encontravam, e uma detecção infalível de quem influenciou quem e quem inovou o quê; conhecia razoavelmente a história da música mas ouvia sobretudo jazz; era versado em literatura, sobretudo portuguesa do séc. XIX; de História, sem ser especialista, dominava a portuguesa; um bricoleur impenitente; e de sistemas políticos, economia, ciências exactas, sabia o suficiente para ter detestado o salazarismo sem todavia ter absorvido a moeda corrente no meio em que se movia, e que eram declinações várias de doutrinas comunistas, que abominava, além de guardar, para certos projectos ou realizações arquitectónicas desastradas, a condenação definitiva: são coisas de engenheiros.
Ideias claras sobre pintura e escultura incluíam a consideração de que os três verdadeiramente grandes pintores portugueses foram Nuno Gonçalves, Domingos Sequeira e Henrique Pousão; que, dos contemporâneos, talvez os maiores fossem Júlio Pomar, de Lisboa, Tito Roboredo, Júlio Resende e Eduardo Luís, do Porto, ou ainda Dórdio Gomes, de quem foi aluno dilecto; que a fama de estrelas como Vieira da Silva era uma coisa nascida em Paris, por razões de promoção interesseira, e ecoada em Portugal, sem verdadeira dimensão para extravasar desses limites, assim como a de Paula Rego derivava da excessiva filiação em Lucian Freud, nos dois casos sem a marca do génio que fica; e que na escultura portuguesa Soares dos Reis podia ombrear com os melhores seus contemporâneos estrangeiros, sendo Salvador Barata Feyo, nos nossos dias, um gigante insuficientemente conhecido.
Dizia isto e muito mais, na serenidade algo ingénua de quem não pretendia chocar, por ser completamente desprendido. Por um lado sabia com que fios se cosiam as reputações no mundo da Arte, e por outro espantava-se com a debilidade de conhecimentos técnicos e históricos em que se fundavam boa parte dos chamados críticos de Arte. Numa entrevista gravada (e com a qual me fartei de rir por adivinhar o espanto do entrevistador) lhe ouvi, sobre José-Augusto França, que respeitava: Sabe, o Professor Augusto-França de pintores do Porto não sabe nada!
Além do bricolage, teve interesses esporádicos, que duravam anos antes de se finarem, por outras coisas: fotografia e corridas de minimodelos, nas quais participava com entusiasmo, ou comboios eléctricos para os quais construiu uma minuciosa paisagem do velho Oeste, por onde eles serpenteavam, e que enchia uma sala, por exemplo. E contagiou-me no amor duradouro da banda-desenhada franco-belga, cujas principais revistas, o Spirou e o Tintin, assinou até que acabaram.
Foi feliz, enquanto professor, até ao 25 de Abril, após o qual acabou por odiar a guerra pelo poder que se instalou na Escola, o abandalhamento da exigência, a hiperpolitização dos procedimentos, as assembleias gerais intermináveis, os saneamentos, as facadas nas costas, a promoção de medíocres e a geral decadência que, ainda que abrandando com o tempo, se estendeu até que se aposentou, por limite de idade, em 2000.
Descia facilmente a assuntos que a nós, adolescentes, interessavam. Derrotava-nos, por exemplo, sobre automóveis: o melhor que há é o Rolls-Royce, em carros correntes o Renault (sempre teve Renaults); Mercedes são carros de praça e os Volkswagens são muito resistentes mas as oficinas estão cheias deles.
No meio artístico particularmente endogâmico (a galeria financia a exposição, incluindo no estrangeiro, mediante comissão, o crítico é amigo do dono da galeria, que é amigo do pintor, e todos ganham a vida como professores da Escola do Elogio Mútuo, ao serviço do cliente metido a amador de Arte que espera valorização com os panegíricos) foi sempre um outsider, porque isso lhe quadrava com o feitio e com a independência económica. Independência que não o poupou a algumas picardias carreirísticas de colegas ambiciosos – o meio universitário é sacana – mas sem males maiores: só queria dar as suas aulas e pintar em paz, não fazer sombra a colegas. Para a pequena história, quando calhava virem a propósito galões professorais, sempre se omitia cuidadosamente que Souza Felgueiras havia sido, em 1958, classificado com 20 valores na sua tese de formatura, o que já não sucedia desde 1930 (com Dominguez Alvarez).
Deixa obra em edifícios públicos, por exemplo no Tribunal de Castro Daire com um fresco, no Palácio de Justiça do Porto com uma tapeçaria ou óleos nas Pousadas de Bragança e Miranda do Douro ou no Museu Soares dos Reis, e em numerosas colecções particulares.
Sobre ela tenho uma opinião, mas não a vou consignar aqui. Não por causa da falta de autoridade (que, se achasse útil, supriria com franqueza e suficiência – uma das razões porque tanto trafulha faz passar como Arte a sua genuína inépcia artística é que o cidadão comum espera, para formar a sua, pela opinião do entendido) mas por não duvidar de que o único grande crítico é o tempo.
Tempo é o que não falta agora à memória de Souza Felgueiras, que morreu ontem. Por mim, foi um imerecido privilégio da minha vida não apenas ter com ele privado, mas ter sempre podido contar com a sua inabalável tolerância.

