Sonhos e realidades

Hoje voltei a sonhar com barcos. Têm sido recorrentes e pouco agradáveis, estes sonhos.
Diz Freud que revelam um profundo desequilíbrio emocional. Freud disse tanta coisa, que provavelmente fazia sentido neste tipo de interpretações, se as contextualizarmos na época e na sociedade.
Mas, se por um lado não está longe da verdade, porque é legítimo afirmar que por aqui se anda com as emoções à flor da pele, por outro lado acredito que o inicio se deu com uma experiência, da qual nunca me recuperei, que para mim foi verdadeiramente assustadora, e que minou a abertura necessária a que o bichinho da instabilidade se instalasse e abrisse o caminho para o que veio a seguir.
Tudo começou em Abril, na ilha do Faial. No segundo dia de um bonito passeio, as núvens acumulavam-se e o vento já soprava com alguma intensidade. O itinerário previa a visita à Ilha de S. Jorge, fazendo o percurso para lá de barco. Não sou particularmente fã de barcos mas, no canal, o tempo não estava assim tão mau… e sim, está bem, é uma experiência.
Pensou a guia surpreender-nos e, em vez do ferry, iríamos adorar navegar aquele percurso de uma hora e quarenta minutos num semi rígido… “é diferente, fantástico e inesquecível, vá lá, não quer ficar o dia inteiro aqui sozinha, pois não?” Deixei-me levar, pôr o colete, sentar e fui com o grupo. Foi um pavor. O mar estava picado, a ondulação era forte e o barco voava e caía estrondosamente uns metros mais à frente. O grupo estava expectante de ver baleias… eu não. Não foi bom, não foi agradável nem fantástico. Mas tinha razão, a piquena. Foi inesquecível.
No meio de todo este torvelinho de sentimentos fortes, regressa insistente ao inconsciente onirológico a memória daquela viagem, para me relembrar que há emoções que não se devem desafiar.

