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No estado do mundo, os mais jovens dedicam-se a pensar e a repensar na vida, são muitas horas condicionadas por cenários abstractos, catastróficos, reais ou irreais e que têm por base verdades do tempo que vivemos: os ordenados são baixos, o mercado é difícil e complexo, os estudos não garantem nada, a falta de estudos garante ainda menos, ter um projecto de autonomia, libertar âncora e sair de casa dos pais é cada vez mais complicado. Em casa até aos 30 anos? E em que circunstâncias? A verdade é que os jovens estão a começar os seus projectos de vida cada vez mais tarde, permanecendo em casa dos pais mais tempo do que gerações anteriores. Não há uma solução à vista.

Uma jovem, com licenciatura e mestrado (este com distinção) diz-me que recebe o ordenado mínimo nacional, gosta do que faz, não está na sua área de estudos, mas aceita a situação com bonomia. “O que me importa mesmo é trabalhar”, garante-me. Não sairá de casa da mãe tão cedo, acha mesmo uma missão impossível. “Tenho 25 anos, ganho o ordenado mínimo, como é que vou fazer? Como é que vou pagar renda, água, luz?” Pois, nos grandes centros urbanos não irá morar certamente, basta estar atento às notícias sobre o mercado imobiliário para percebermos que viver em Lisboa ou no Porto está muito longe de ser acessível.

Estando grata por ter conseguido estudar o que quis, mesmo que não exerça a profissão, esta jovem é o exemplo paradigmático da realidade de muitos outros jovens. Os pais, como acontece com os bons pais, empurram com a barriga e vão cuidando, pagando, fazendo o melhor que podem. No caso de terem condições, perguntarão? Pois, no caso de possuírem condições económicas para tanto.

Um estudo de investigadores do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos neste início de verão, intitulado a "Igualdade de género ao longo da vida: Portugal no contexto europeu", conclui que os portugueses são os que mais tarde abandonam o ninho dos pais. O estudo conclui que a idade média de saída de casa dos pais chega aos 29,7 para os homens e 28,2 para as mulheres. O estudo é claro: "muitas das mulheres e homens jovens que estão na casa dos pais podem já não ser dependentes economicamente destes, e estarem a trabalhar, sem terem ganhos suficientes para adquirirem autonomia residencial". Nos países nórdicos é diferente por existir um estado social mais forte e com políticas de autonomização dos mais jovens, ou seja, existem bolsas e empréstimos a longo prazo e uma realidade laboral mais estável.

Os projectos de vida, de autonomia, de abraçar a vida, a denominada vida de adulto, são adiados e trazem consequências, reflectem-se não só não só nos processos de auto-estima como na evolução individual de cada um. Um jovem licenciado, com ou sem mestrado, que ganhe o ordenado mínimo não pode viver satisfeito, mesmo que as contas sejam pagas parcial ou totalmente pelos pais. Leio que Portugal é o maior consumidor europeu de anti-depressivos. De repente, nada me admira.


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