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Delito de Opinião

Sócrates revisitado

José Meireles Graça, 14.11.21

O almoço era à 1H, perto de Chaves, com gente de sólidas credenciais reaccionárias, a do costume, para um cozido à portuguesa de antemão apalavrado.

Gosto de chegar a horas, o que faz com que não poucas vezes chegue adiantado, mesmo sabendo que aquela tropa é portuguesa, o que quer dizer que em geral espero.

Vi no GoogleMaps que eram à volta de 90 km, passando por Fafe, Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, e saí por volta das 11H30. Parei na bomba de gasolina perto de casa para o primeiro café, que o dono generosamente ofereceu, e no Alvão para o segundo. Solidarizei-me com a moça, que estava a passar o chão a pano, dizendo: ui que chatice!, ao que ela retorquiu que era vida de pobre. Ponderei filosoficamente que pobres hoje éramos quase todos e a rapariga, de aspecto atraente, observou que sim senhor, sobretudo de espírito, mas que ela, graças a Deus, estava quanto a isso bem servida. Concordei, claro, que não sou desses que andam por aí a discutir nas bombas de gasolina com empregadas bem-apessoadas.

Esperei um quarto de hora e foram chegando – fomos para dentro já eram quase 1H30, o que até calhou bem porque essa é a minha hora de almoçar, informação que não escondo por ser de grande relevo.

As entradas eram poucas mas excelentes e o cozido brilhou a grande altura. O tinto rompia meias solas com dignidade e o branco não bebi. Incluía fígado de porco, que não estou habituado a ver e que provei a medo, tendo ficado – pelo menos daquele – entusiasta.

E então é só isto, a história não tem moralidade? Tem: antes do sr. Eng.º Sócrates era pouco provável que nos lembrássemos de ir almoçar a Chaves (um dos convivas vinha de Madrid, com a mulher espanhola e os quatro filhos, os outros do Porto, e apenas eu do altar da Pátria) e, se semelhante ideia nos passasse pela cabeça, as horas de saída teriam de ser outras e quem não fosse ao volante chegaria provavelmente enjoado.

Era assim. E agora que aquela personagem sumiu quase completamente das notícias, quem o levou num andor querendo fazer esquecer que ganhou eleições limpamente, quem nele votou pretendendo que foi enganado, e quem o gabou na comunicação social tendo agora novos iluminados para incensar, venho eu que sou eu dizer que deixou em herança uma rede de autoestradas que foi um grande benefício.

Esta reflexão profunda comuniquei a pessoa de discernimento, que me disse: pois sim, empenhámo-nos até aos cabelos e se calhar o que deveríamos ter promovido era o transporte por caminho de ferro, que isso dos automóveis, dos combustíveis fósseis e não sei quê não está com nada.

Não achava na altura, e não acho agora, que o investimento em autoestradas tivesse sido mau, que o saudoso Medina Carreira (que faz muita falta, não deixou herdeiros) tivesse razão neste ponto, e que tenha sido por causa das autoestradas que o país não se desenvolveu. Infelizmente, a “aposta” num só factor, sejam as autoestradas seja a educação, não gera desenvolvimento por si: é preciso um conjunto deles, o maior sendo a liberdade económica.

De resto, o negregado Sócrates deixou as autoestradas. E o seu dilecto seguidor e antigo braço direito, que está aí impante e que talvez ganhe as eleições, vai deixar o quê, além da dívida que fez crescer?

A TAP. I rest my case.

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