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Sobrepressão (1/5)

por José António Abreu, em 16.04.16

(Não é concorrência à Patrícia Reis. É apenas um texto demasiado comprido - e raivoso - para um blogue como o Delito, que ainda assim vou publicar. Por favor, fiquem cientes de que não passa de ficção - mas encontramo-nos na estrada.)

 

 

Ficou estupefacto, da primeira vez que aconteceu. Não se assustou, ou pelo menos não muito; ficou apenas estupefacto. Como acreditava em explicações lógicas — como dependia de explicações lógicas — disse a si mesmo que fora uma coincidência. Mas não conseguiu evitar um sorriso de vitória ao passar pelo quarentão engravatado que olhava para os restos do pneu do carro com ar de surpresa e irritação.

 

Acordava todas as manhãs para um mundo de filhos da puta. Pior: levantava-se da cama e ia juntar-se-lhes. Trinta segundos após sair de casa estava mergulhado no trânsito, enfrentando picos de violência que normalmente apenas no final do dia eram igualados — mas nunca ultrapassados. Pensava: as pessoas fazem questão de começar o dia da pior forma possível. Depois: talvez seja uma estratégia; a aberração do trânsito matinal imuniza para o que quer que possa correr mal durante o resto do dia. Mas claro que não imunizava e ele sabia-o por experiência própria: com o emprego que tinha, algo corria sempre mal.

Vivia na periferia, num prédio de cinco andares. Se o carro não lhe fosse indispensável para o trabalho, deixá-lo-ia em casa – muito embora a ideia de passar três quartos de hora no interior de um autocarro, entalado entre guarda-chuvas molhados e sovacos mal-cheirosos, todas as manhãs e todas as tardes, ter força suficiente lhe causar vómitos. Ponderara deixá-lo estacionado junto à sede da empresa – um espaço de pouco mais de cem metros quadrados num prédio velho do centro da cidade – mas o risco de roubo ou de vandalismo era-lhe inaceitável. Apesar do cuidado que tinha na escolha dos locais onde o estacionava, a pintura já sofrera vários riscos e pancadas. O carro constituía uma das poucas âncoras que possuía – funcionava quase sempre do modo esperado; pedia pouco; tinha avarias que, como um osso partido no corpo humano, eram fáceis de entender – e não merecia ser abandonado à sorte.

Todas as manhãs, a selvajaria começava a poucas centenas de metros de casa, no acesso àquilo que apenas total inconsciência ou improvável humor negro permitira baptizar “via rápida”. Ele posicionava-se na faixa da direita, no término de uma fila com cerca de trezentos metros de comprimento. Soluçava em frente, tentando manter uma distância mínima para o veículo que o precedia – e a calma. Não era fácil, especialmente ao chegar à zona onde numerosos condutores procuravam forçar a entrada na fila. Ele nunca — nunca — deixava entrar alguém. Também nunca forçava a entrada em fila alguma. Nos cinquenta mil quilómetros que fazia anualmente, apenas erro ou distracção o poderiam levar a realizar um acto condenável. Naquela primeira fila do dia, como em muitas outras subsequentes, quem agia daquele modo estava a tentar ganhar dez minutos à custa dos restantes. Isso era-lhe inaceitável. Homens, mulheres, gordos, magros, bonitos, feios, conduzindo veículos caros ou baratos — ninguém entrava. Por vezes, fazia questão de olhar os condutores nos olhos, num esforço (que sabia inglório) de tentar fazer passar a sua posição — de intransigência mas, acima de tudo, de justiça. Gestos ou sorrisos pedindo um favor já não resultavam — sinais de hipocrisia, nada mais.

 

Chovia ligeiramente, naquele final de Março. Uma morrinha tão suave que era quase nevoeiro. O pisca do BMW preto lembrava uma sequência de fósforos apagados pela chuva logo após o clarão inicial. O BMW permaneceu ao lado e ligeiramente à frente do carro dele até a fila avançar e depois começou também a mover-se — mas ele foi mais rápido e não permitiu a criação de espaço suficiente. O homem no BMW percebeu que não valia a pena insistir — na estrada, certos sinais são inconfundíveis, mesmo sem contacto visual ou troca de palavras — e avançou alguns metros para tentar a sorte junto do condutor do veículo seguinte — um homem gordo, que momentos antes atirara uma ponta de cigarro pela janela da carrinha de caixa aberta que conduzia. Quando a fila avançou novamente, o homem da carrinha de caixa aberta esperou até o BMW se colocar à sua frente — e depois já não avançou, por falta de espaço.

Com frequência, apitava um protesto. Naquela manhã nem o fez. Mas, quando os veículos à frente dele avançaram, começando a descrever a longa curva à direita de acesso à via rápida, o olhar dele pousou na parte lateral esquerda do BMW – a única que conseguia ver. Pensou como seria agradável arrastar o condutor para fora do carro, atirá-lo ao asfalto, pontapeá-lo um par de vezes. Fixou os olhos no pneu traseiro direito do BMW e, de dentes cerrados, apertando o volante, pensou como seria adequado que ele explodisse naquele preciso instante, forçando o filho da puta a parar, sair do carro, molhar-se, perder a vez na fila, sujar as mãos.

Lembrar-se-ia de um estrondo surpreendentemente abafado — distorção da memória ou talvez efeito da chuva. Porém, encontrando-se a olhar para o pneu, teria dispensado o som. A traseira do BMW estremeceu e depois decaiu um pouco, como se alguém tivesse baixado um macaco pneumático. A parte inferior do pneu, dobrada e presa sob a jante, parecia ter sofrido um processo de fusão. Mas até mesmo a zona que não estava em contacto com o asfalto suscitava estranheza: a flacidez, o ligeiro afastamento entre o rebordo e a jante realçavam a incongruência decorrente da perda súbita de função (um objecto artificial que perde a função perde o sentido) e faziam do pneu rebentado não tanto um objecto real e prosaico mas algo mais imaterial – um conceito, uma experiência, um castigo.

Primeiro sentiu surpresa e choque, depois satisfação. Era perfeito. Exactamente o que desejara. Tão exactamente o que desejara, de facto, tão no preciso instante em que o desejara, que classificar o acontecimento como coincidência parecia forçado. Mas ele tivera fantasias similares antes e nada acontecera. Era uma coincidência. Uma fantástica e justa coincidência.

Quando passou pelo BMW, a visão do homem a olhar para os restos do pneu fê-lo sorrir e respirar fundo. Foi invadido por uma sensação de calma. Era uma sensação que não experimentava com frequência durante aquelas manhãs. Era uma sensação que — estava certo disso — se dissiparia rapidamente. Mas era uma excelente sensação.

 

(Continua amanhã...)


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