Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Sobre os pesticidas

por Paulo Sousa, em 08.02.20

Já ouvimos aqui e ali que as autoridades monitorizam o consumo de cocaína a partir dos efluentes urbanos. Quer isso dizer - surpresa!! - que as substâncias que ingerimos depois de circularem dentro do nosso organismo acabam por ser devolvidas ao meio ambiente.

É fácil entender que também os banais paracetamóis, ibuprofenos e demais medicamentos para gripes, digestões difíceis, irritações da garganta, depressões, ou até quimioterapia ingerida ou injectada, levam a que ocorra a libertação de parte destes compostos químicos nos efluentes urbanos e por aí regressam à natureza.

Os puristas dos alimentos bio, macrobióticos e outras variantes e tendências, que já deixei de me esforçar por memorizar, ainda não se lembraram de se manifestaram contra esta forma de “poluição”.

A conservação da natureza é determinante e deve ser permanentemente considerada em toda a actividade humana. Apesar disso, qualquer posição equilibrada sobre este assuntos tem de partir de uma base de que a poluição óptima não é nula.

É claro que cada um de nós poderá defender um ponto de equilíbrio diferente para o binómio sustentabilidade/bem estar. Até que as dores ou doenças nos aflijam, ou aos nossos, é muito mais fácil ser purista.

Toda esta introdução para fazer um paralelismo com a produção agrícola.

No tempo em que o meu pai era criança os anos de míldio eram anos de dificuldades. Outra forma de relatar este facto era como sendo anos em que havia pouca fartura, mas no fundo isto não são mais que metáforas para dizer que eram anos de fome.

Quando se plantava uma saca de batata e no dia da colheita se colhiam apenas três ou quatro, em vez das trinta ou quarenta potenciais, o regresso a casa era triste e cinzento.

As famílias eram numerosas e as mais de setecentas refeições previstas num ano exigiam colheitas generosas. Ratear poucos ingredientes para muitas refeições a servir a muitas bocas de crianças e jovens em crescimento, que não passavam o dia imóveis agarrados a écrans, era um exercício difícil e ingrato.

Olhando a partir de hoje, com as prateleiras dos supermercados cheias, pode parecer estranho mas a introdução da cultura do milho, cereal muito mais produtivo que o centeio, teve como consequência um aumento da população. A história do vinho verde também está ligada a esta revolução agrícola, mas isso são contas de outro rosário.

Os pesticidas, agora designados tecnicamente como produtos fitofármacos, foram e são os medicamentos que se administram às plantas e que previnem este exercício ingrato de ouvir os filhos a pedir comida e não a ter para lhe dar.

A nossa geografia, exposta à humidade atlântica, é excepcionalmente propícia ao aparecimento de míldio e de outros fungos que apreciam humidade e temperaturas amenas. Os fungicidas, introduzidos há muitas décadas, foram a solução para travar fomes como a Grande Fome na Irlanda, que deixou atrás de si um país arrasado.

Numa economia aberta como a nossa, os anos de míldio deixaram há muito de serem anos de fome. Nos anos de fraca produção nacional as batatas aparecem igualmente cruas, empacotadas já fritas ou processadas em puré instantâneo no supermercado, ou cozidas sob um fio de azeite no restaurante da esquina. A globalização anulou o binómio míldio/carência alimentar.

Para quem nunca soube, ou já esqueceu, da realidade que aqui descrevo é fácil concordar com o mantra de que os pesticidas são a origem de todos os males. As doenças que não conseguimos controlar (que são apenas um ínfimo número das com que já lidamos na história) são o resultado dos pesticidas com que envenenamos os alimentos e o ambiente.

Como referi acima, a poluição óptima não é nula, assim como o uso de medicamentos óptimo não é nulo e também o uso de pesticidas óptimo não é nulo.

É natural que o crescimento exponencial da população humana em curso leve a uma maior procura de alimentos. A forma de travar a conquista de mais áreas, agora selvagens e não cultivadas, passa por aumentar a produtividade dos solos actualmente dedicados à agricultura. Só maximizando a produção de cada parcela permitirá que o natural aumento da procura global de alimentos não tenha como consequência um aumento das áreas dedicadas à agricultura.

Podemos por isso dizer que a conservação dos espaços naturais depende da produtividade agrícola com base cientifica, e por isso do uso dos pesticidas.


17 comentários

Sem imagem de perfil

De Zé a 08.02.2020 às 10:48

" que as substâncias que ingerimos depois de circularem dentro nosso organismo acabam por ser devolvidas ao meio ambiente."
São devolvidas depois de transformadas, não exactamente a mesma coisa. O Universo funciona assim: coisas em transformação.
Lixo, poluição, coisas mal cheirosas o que são? Aquilo de que, nós humanos, não gostamos. A existência de lixo e poluição corresponde a um ponto de vista antropomórfico. Retirando o Homem do Centro, não existe poluição, existe só transformação.
Com o Homem no Centro há que reconhecer que os pesticidas, plásticos etc. foram muito úteis e evitaram muita fome, doença etc, em suma evitaram muito sofrimento.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:21

Mas o homem não é o centro do universo. Deve assumir o compromisso de maximizando o bem estar da espécie minimizar o seu impacto. Esse é o ponto óptimo.
Sem imagem de perfil

De marina a 08.02.2020 às 10:50

Acontece que essa medicação humana toda é ingerida por insectos, e outros bichos ( onde já foram encontradas concentrações de medicamentos em dose consideradas terapêutica ) e entram assim na cadeia alimentar. Ora , quando a quimio for usada massivamente e começar a entrar nas águas e depois nos solos , sempre quero ver no que vai dar.. solos muito férteis , de certeza....e bichinhos muito saudáveis para serem comidos por outros and so on.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:24

A ciência encontrará forma de minimizar os impactos negativos, embora por vezes só tenha conhecimento deles após estes terem ocorrido. Sem entrar em histerias devemos procurar o bem estar das pessoas sem perder a preocupação com os restantes seres.
Sem imagem de perfil

De marina a 08.02.2020 às 23:41

O Paulo está a pensar no passado , quando a ciência ainda queria ajudar e não lucrar.. Tem que se focar na situação actual , em que o lucro comanda a ciência e a longo prazo estamos todos mortos...
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 09.02.2020 às 00:15


Os carros eléctricos são desenvolvidos por empresas que buscam o lucro, tal como os medicamentos e os pesticidas. Os serviços de saúde com boa avaliação sao administrados por empresas que visam o lucro. Os impostos sobre o lucro financiam o estado social. Qual o seu problema com o lucro?
Sem imagem de perfil

De jo a 08.02.2020 às 12:13

Como em tudo tem de haver um ponto de equilíbrio. E ele é mais precário do que parece. Daí haver gente preocupada com o excesso de pesticidas.

O pior que pode acontecer com estes assuntos é serem tratados como modas ou vistos numa perspetiva de esquerda-direita.
Sem imagem de perfil

De Álvaro a 08.02.2020 às 15:21

" E ele é mais precário do que parece." Não é precário, é muito sólido. Há espécies que existem há milhões de anos e não desaparecem. Exemplo: os crocodilos. O Homem também já existe há muito e, apesar da chamada poluição e pesticidas, a vida tem melhorado imenso. E isso é que importa, não as visões catastrofistas. Hoje vive-se mais tempo e com mais saúde do que há umas dezenas de anos. Apesar do plástico. Antes viver bem e mais com plástico e pesticidas do que mal, doente e com fome num ambiente "limpo".
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:33

É verdade, muitos dos tele-envangelistas do fim-do-mundo recorrem aos fenómenos climatéricos como forma de legitimação da sua vontade de acabar com o sistema capitalista. Recorrem à técnica secular de acenar com o fim dos tempos, conseguem audiência. Quase sem querer acabam por tentar ter rendimentos dessa audiência. Veja a Greta que já registou a marca do seu nome. Tirar rendimento da sua notoriedade é legítimo embora destoe com a mensagem apocalíptica que apela à contenção do consumo como forma de lhe devolver, a ela, a infância.
Sem imagem de perfil

De Vento a 08.02.2020 às 14:08

A base científica a que alude sê-lo-á se souber interpretar que a natureza per si também ajuda a combater certas realidades.

A título exemplificativo, o Ginko-Biloba foi introduzido na cadeia farmacológica por se ter constatado que nas áreas onde essa planta existia as culturas estavam mais protegidas dos ataques das pragas que acometiam outras áreas onde elas não existiam.

Portanto, a ciência, na forma como a expõe, não traduz todo o figurino científico. Esse é ainda o mais cómodo e o mais lucrativo. Mas não pode servir como modelo único.
Quando na idade média se introduziu o sistema de pousio verificou-se uma maior produtividade das terras.

O problema reside em pensar-se que tudo é emergência. Porém uma das emergências passa por combater também o desperdício alimentar, na produção.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:38

A UE ao mesmo tempo que limita o número de substâncias disponíveis para a produção agrícola, estabelece uma normalização dos frutos que acaba por originar muito desperdício. Outra dimensão nada menor do desperdício alimentar resulta dos hábitos pessoais que banalizam o despejo de restos de comida no lixo. Existem muitas estatísticas, que questiono como serão calculadas, mas todas elas apontam para uma imensidão doentia de desperdício.
Sem imagem de perfil

De Vento a 09.02.2020 às 11:05

O exemplo da normalização dos frutos, e não só, é um dos exemplos de desperdício na produção. Mas existe para além disso outro tipo de desperdício na UE que passa pela excessiva concentração da produção (estou também a lembrar-me do cheque agrícola disputado por Inglaterra, França e Alemanha) em determinados países que superam as necessidades do mercado.
Outro tipo de desperdício que se usa e abusa reside no facto de ensacarem os alimentos e obrigar os clientes a adquiri-los já assim (batatas, nabos, alhos, cebolas, frutos...), isto é, levar o consumidor a adquirir uma determinada quantidade que em muitos casos acabará por apodrecer.

Portanto, a racionalização, com consequente diminuição do uso de pesticidas, passaria não só por eliminar estas práticas na produção e nas cadeias de distribuição como também por se distribuir a produção, mesmo que de produtos semelhantes, pelos diferentes países, sem deixar de ter em conta a cadeia produtiva única de cada país (exemplo: azeite, vinho, amêndoa, cortiça etc. etc).
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 08.02.2020 às 16:28

Eu acho que o Paulo Sousa está a ver mal os problemas do nosso país, Portugal.
Em Portugal, ao contrário daquilo que eventualmente acontecerá em países como, sei lá, a China, não há nenhum problema com a necessidade de manter espaços naturais e com a necessidade de impedir o cultivo de mais e mais terras. Pelo contrário, aquilo que se passa em Portugal é o abandono acelerado da agricultura, devido à sua baixa produtividade, e a expansão de cada vez mais espaços naturais.
Ademais, todos os cientistas agrícolas (dos quais eu não faço parte) concordam que Portugal terá sempre uma baixa produtividade agrícola, por um lado porque os solos são, com muito raras exceções, fracos, por outro lado por se tratar de um país excecionalmente declivoso (com muitos montes e vales) e que levanta dificuldades à mecanização agrícola (a moderna agricultura transforma, em grande parte, a energia do petróleo consumido pelas máquinas em alimentos).
Ora, neste país com baixa produtividade agrícola, a competição com a agricultura de outros países nunca se poderá fazer através da quantidade, mas somente através da qualidade. E qualidade, hoje em dia, quer em boa parte dizer "livre de pesticidas".
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:43

Como é que podemos estar desfasados do resto do mundo? Quanto menor for a nossa produtividade agrícola, mais volumosas serão as nossas importações e mais pressão existirá noutros territórios sobre as áreas ainda não usadas na agricultura.
Ademais estranho que com o nome com que assina estes comentários não seja um cientista agrícola.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 10.02.2020 às 10:10

estranho que com o nome com que assina estes comentários não seja um cientista agrícola

Comentário supinamente estúpido. Cada um tem o apelido que herdou do seu pai.

Como é que podemos estar desfasados do resto do mundo?

Não lhe posso fornecer explicações globais. Só posso dizer aquilo que está à vista de todos: grande parte da nossa agricultura foi abandonada, por não ser competitiva, e os espaços naturais em Portugal expandem-se ano após ano. Portanto, essa conversa de que é preciso maximizar a produção dos espaços cultivados para impedir que se tenha que lavrar espaços atualmente naturais é, em Portugal, treta. Aliás, em Portugal o excesso de espaços naturais constitui um enorme problema, vejam-se os fogos florestais (que essencialmente derivam a sua força da existência de grandes áreas de floresta com pouca ou nenhuma agricultura pelo meio) e as pragas de javalis.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 08.02.2020 às 18:26

Os antibióticos que tomamos podem ser recuperados na urina e nas fezes em 98% nos dias seguintes. Isto quer dizer que numa sociedade de poupança e circular os antibióticos não só não vão faltar como nunca serão prejudiciais. Idem com os outros medicamentos cada vez mais puros.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 08.02.2020 às 22:50

Um bocado com os hambúrgers da cadeia CloudBurger no livro O Armazém, de Rob Hart.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D