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Sobre o manifesto (7)

por Pedro Correia, em 20.03.14

Quem critica o manifesto "dinamizado por João Cravinho e Francisco Louçã", na definição do Público, vem sendo acusado de se concentrar na contestação a quem o assina e não no conteúdo do documento, que teria um carácter irrefutável.

Sou sensível a este argumento.

Deixemos portanto de lado quem propõe e concentremo-nos naquilo que é proposto. Por que motivo será indefensável, neste momento, a "reestruturação" da dívida pública portuguesa?

Nada como dar a palavra a quem mais percebe do assunto. António Bagão Félix, por exemplo.

O que tinha ele a dizer sobre isto há cinco meses, a 3 de Outubro de 2013?

Ouçamos:

 

 

Recapitulando, se bem escutei:

 

"Quando se fala de reestruturação da dívida - entenda-se: não pagar parte da dívida -, se isso acontecer, o FMI e os outros credores preferenciais não se sujeitam a este corte a menos que haja acordo. E quem iria apanhar sobretudo o corte se eventualmente houvesse acordo? Quem pagaria isso seriam os bancos portugueses. E, apanhando os bancos portugueses um corte desses, quem apanhava era a própria capacidade de solvabilidade dos bancos e, por tabela, os depositantes. Por isso falar de reestruturação da dívida fora do contexto efectivo de quem são os detentores dessa dívida, parece-me relativamente imprudente."

 

E o que aconteceria se houvesse um perdão de dívida que afectasse os bancos portugueses?

 

"Seria terrível. Suponha que 40 ou 50 por cento da dívida era perdoada. Os recebimentos nacionais têm 62 mil milhões de euros neste momento. Significava que 25 mil milhões desapareciam de repente das companhias de seguros, dos fundos de pensões e sobretudo da banca. Alguns bancos estariam, em termos de solvabilidade, numa solução bem pior. Depois ter-se-ia que recapitalizar esses bancos. Em última análise, quem apanha no fim são aqueles que emprestam dinheiro aos bancos, que são os depositantes, que são os últimos credores."

 

Por mim, sinto-me esclarecido.


46 comentários

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De Costa a 21.03.2014 às 16:05

Fundamentalmente isto, então: aceitemos todos, quase com devoção, o destino de empobrecer. Como patriótica resolução e sem o mais leve beliscar das acções e vontades de quem nos trouxe até aqui. Como se responsabilizar os autores pelos actos não trouxesse ao menos um mínimo de justiça. E aceitemos masoquistamente que "ter algum de parte para uma chatice na vida", é uma ousadia a pagar caro.

Não entro em competições de idade de automóveis e simplicidade de telemóveis. Mais não seja porque o tempo de andar a dizer que "a minha é maior que a tua", deixei-o há muitos anos na escola primária e na idade dessas coisas. Mas constato quanto um português exulta na demonstração das suas limitações. De património ou do que seja.

Mas claro que não há invejazinha alguma, como característica nacional...

Quanto ao tecto de 100.000 euros, aconteceu no Chipre. É tudo o que se sabe. E é esse até se entender que tem que ser mais baixo. Ou alguém tem dúvida disso? E anunciado de um final de tarde para a manhã do dia seguinte, se for preciso.

Mas parece que está muito bem, se assim vier a ser.

Costa

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