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Sobre o manifesto (7)

por Pedro Correia, em 20.03.14

Quem critica o manifesto "dinamizado por João Cravinho e Francisco Louçã", na definição do Público, vem sendo acusado de se concentrar na contestação a quem o assina e não no conteúdo do documento, que teria um carácter irrefutável.

Sou sensível a este argumento.

Deixemos portanto de lado quem propõe e concentremo-nos naquilo que é proposto. Por que motivo será indefensável, neste momento, a "reestruturação" da dívida pública portuguesa?

Nada como dar a palavra a quem mais percebe do assunto. António Bagão Félix, por exemplo.

O que tinha ele a dizer sobre isto há cinco meses, a 3 de Outubro de 2013?

Ouçamos:

 

 

Recapitulando, se bem escutei:

 

"Quando se fala de reestruturação da dívida - entenda-se: não pagar parte da dívida -, se isso acontecer, o FMI e os outros credores preferenciais não se sujeitam a este corte a menos que haja acordo. E quem iria apanhar sobretudo o corte se eventualmente houvesse acordo? Quem pagaria isso seriam os bancos portugueses. E, apanhando os bancos portugueses um corte desses, quem apanhava era a própria capacidade de solvabilidade dos bancos e, por tabela, os depositantes. Por isso falar de reestruturação da dívida fora do contexto efectivo de quem são os detentores dessa dívida, parece-me relativamente imprudente."

 

E o que aconteceria se houvesse um perdão de dívida que afectasse os bancos portugueses?

 

"Seria terrível. Suponha que 40 ou 50 por cento da dívida era perdoada. Os recebimentos nacionais têm 62 mil milhões de euros neste momento. Significava que 25 mil milhões desapareciam de repente das companhias de seguros, dos fundos de pensões e sobretudo da banca. Alguns bancos estariam, em termos de solvabilidade, numa solução bem pior. Depois ter-se-ia que recapitalizar esses bancos. Em última análise, quem apanha no fim são aqueles que emprestam dinheiro aos bancos, que são os depositantes, que são os últimos credores."

 

Por mim, sinto-me esclarecido.


46 comentários

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De lucklucky a 20.03.2014 às 16:51

Tudo e o seu contrário é possível nestas cabeças.
São como as ondas junto à praia vão num sentido e no contrário logo a seguir.




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De Depuralino a 20.03.2014 às 17:37

Entretanto, o Bagão, com aquele incontestável ar de falso beato (ui, que mau sou), já pôs (como o outro) o dinheiro no Deutsche Bank, foi o que foi.
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De Luís Lavoura a 20.03.2014 às 17:52

Portanto: todos os portugueses, ricos e pobres, têm que estar a pagar impostos, em última análise, para que quem tem dinheiro depositado nos bancos - que são somente os portugueses relativamente ricos - possa dormir descansado.
Eu acho isso uma injustiça social de todo o tamanho.
Parece-me que é muito mais justo que os depositantes nos bancos tenham que perder parte do seu para que os portugueses no geral possam ser aliviados.
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De Costa a 20.03.2014 às 18:23

Ter dinheiro depositado no banco é ser-se relativamente rico? É e por esse critério exigível que quem tem dinheiro depositado no banco seja chamado a pagar - ainda mais - a criminosa actuação de quem nos trouxe a este buraco e prossegue impune a sua confortável vidinha. Como se ter dinheiro legitimamente conseguido e obedientemente apresentado ao fisco, nas precisas condições que o fisco impõe, fosse sem mais um crime a expiar pagando a crise. E você acha esse critério são e essa medida justa e imperativa.

(Há por aí, nas ruas, uns murais e uns cartazes, a afirmar isso mesmo, lá isso é verdade. Da autoria de quem sonha com amanhãs que cantam e sovietes. De que necessariamente integrariam a próspera elite...)

Desgraçado país, de facto. Onde uma solução à cipriota é invocada com tão firme e confiante ligeireza.

Eu já tinha há algum tempo vergonha de ser português, em razão dos meus governantes e políticos em geral (sim, eu sei que é discurso populista; mas ele por vezes sai legitimado por quem afirma combatê-lo. Acontece...). E lá ia vivendo com isso. Agora reforço-a, desgraçadamente, por causa da tacanhez mesquinha dos meus compatriotas e o portuguesíssimo hábito da inveja e do desejo de ver toda a gente cair no infortúnio de cada um. O poder agradece essa nossa característica!

Costa
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De Luís Lavoura a 21.03.2014 às 10:58

Ter dinheiro depositado no banco é ser-se relativamente rico?

É. Infelizmente, em Portugal há muita gente que pouco ou nenhum dinheiro tem depositado no banco.

E lembro que os depósitos garantidos e intocáveis são de 100 000 euros.

o portuguesíssimo hábito da inveja

Pode crer que não é o meu caso, eu tenho dinheiro depositado no banco. Mas sou realista e sei que há muita gente que não tem.
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De rmg a 20.03.2014 às 22:25


Caricaturando um pouco mas não tanto como possa parecer .

O Luís Lavoura acha que o gajo que mantém um carro com 10 anos , faz férias na Beira Interior em casa de uns familiares e tem um télémóvel de 1ª geração mas mantém uma reserva financeira para os maus momentos deve perder parte dela para aliviar as dívidas do gajo que trocou de BMW de 3 em 3 anos , passou férias em Varadero todos os anos e compra sempre o télémóvel de última geração .

Mas o Luís Lavoura tem os investimentos que tem e os outros têm os investimentos que têm , isso é uma verdade de La Palice .
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De Costa a 20.03.2014 às 23:43

Onze anos, o carro, no meu caso. E a beira é a Litoral.

Mas é isso, fundamentalmente: esse "gajo" deve pagar os devaneios que aponta, por conta de quem os cometeu e de quem facilitou esse cometimento: a banca que emprestou sem um módico de disciplina e o estado (governante após governante) que reiteradamente incentivou esse estado de coisas. Uma e outro permanecendo impunes.

Parece-me que se aplica aqui a consagrada máxima de acordo com a qual: "o dinheiro aparece sempre!". Alguém muito respeitado a proferiu (e o dinheiro - que de facto aparece! - é o dos outros).

Costa
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De Luís Lavoura a 21.03.2014 às 11:00

O Luís Lavoura acha que o gajo que mantém um carro com 10 anos , faz férias na Beira Interior em casa de uns familiares e tem um télémóvel de 1ª geração

O meu carro tem 18 anos de idade.

Passo férias na Beira numa casa que foi do meu avô e do meu pai.

O meu telemóvel custa menos de 20 euros no mercado. Só dá para fazer chamadas e ouvir rádio. É o modelo mais barato que está disponível em Portugal, creio.
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De Manuel Guimarães a 21.03.2014 às 13:02

Mas é rico porque tem dinheiro no banco, certo? Santa estupidez.
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De Costa a 21.03.2014 às 16:05

Fundamentalmente isto, então: aceitemos todos, quase com devoção, o destino de empobrecer. Como patriótica resolução e sem o mais leve beliscar das acções e vontades de quem nos trouxe até aqui. Como se responsabilizar os autores pelos actos não trouxesse ao menos um mínimo de justiça. E aceitemos masoquistamente que "ter algum de parte para uma chatice na vida", é uma ousadia a pagar caro.

Não entro em competições de idade de automóveis e simplicidade de telemóveis. Mais não seja porque o tempo de andar a dizer que "a minha é maior que a tua", deixei-o há muitos anos na escola primária e na idade dessas coisas. Mas constato quanto um português exulta na demonstração das suas limitações. De património ou do que seja.

Mas claro que não há invejazinha alguma, como característica nacional...

Quanto ao tecto de 100.000 euros, aconteceu no Chipre. É tudo o que se sabe. E é esse até se entender que tem que ser mais baixo. Ou alguém tem dúvida disso? E anunciado de um final de tarde para a manhã do dia seguinte, se for preciso.

Mas parece que está muito bem, se assim vier a ser.

Costa
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De rmg a 21.03.2014 às 19:27

Não falava de si mas sim das ideias que defendeu , tal como não falava de mim mas apenas dava um exemplo (de facto o meu carro tem 8 anos e passo férias na Beira numa casa comprada por mim há vinte e tal anos , eu sou de Lisboa há 3 gerações).

Mas já que interpretou assim , Luís Lavoura , pois é mesmo isso que nos distingue .

É que eu não passo férias em casa nenhuma que tenha sido de nenhum Avô nem de nenhum Pai ou Mãe , tudo por junto herdei cerca de 1000€ em toda a vida e paguei o que tinha que pagar para dar um destino decente aos meus ascendentes , decerto várias vezes os tais 1000€ , como imagina .

Portanto voltamos à estaca zero : tudo o que tenho foi ganho por mim à custa de IRS e descontos vários e você pelos vistos acha que sou um "privilegiado" por ter umas economias no banco .

Já herdar uns imóveis não é ser "privilegiado" , depreendo .
Mas olhe que eu acho que sim .
Não que isso me faça confusão alguma pois decerto alguém nos seus antepassados trabalhou e lutou muito para poder comprar essa casa .
No entanto lembro várias vezes aos meus filhos e netos que ao herdarem a tal propriedade beirã (que não estava "lá para eles" antes de mim) já são privilegiados em comparação com os outros cujos pais andaram a trocar de BMW , fazer férias em Varadero e comprar télémóveis da última geração .

Mas reconheço que os 68 anos ainda estou muito a tempo de comprar uns carros porreiros , fazer umas viagens à volta do mundo e encher-me de télémóveis e tablets .
Alguém há-de pagar .

PS - O meu dá para fazer e ouvir chamadas e mandar e receber sms mas ouvir rádio nem pensar - acho que fui enganado .


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De Luís Lavoura a 20.03.2014 às 17:56

As pessoas e as empresas têm que se comportar de forma responsável.
Se eu ponho todo o meu dinheiro num só banco - em vez de o distribuir por entre muitos bancos - devo preparar-me para que, caso esse banco vá à falência, ficar depenado.
Se eu ponho o meu dinheiro todo em bancos nacionais - em vez de pôr parte dele em bancos estrangeiros que estão presentes em Portugal - devo preparar-me para que, caso os bancos portugueses vão todos à falência, ficar depenado.
Se um banco português põe todas as suas reservas financeiras em títulos da dívida pública portuguesa deve preparar-se para que, caso o Estado português reestruture, ficar depenado.
Em suma: só ficarão depenados os imprudentes e incautos. Bancos previdentes investem em sítios diversos. Aforradores previdentes colocam as suas poupanças em diversos sítios e sob diversas formas, incluindo em sítios estrangeiros.
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De beijokense a 20.03.2014 às 21:43

Se eu tive a infeliz ideia de fazer carreira numa entidade dependente do Orçamento de Estado, devo preparar-me para ficar depenado quando o Estado for à falência.
Se não fizer PPR (na Suiça, evidentemente) e ficar dependente do sistema de pensões do Estado, devo preparar-me para não ter reforma se o Estado falir.
Em suma: alguém há-de ficar depenado.
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De am a 20.03.2014 às 18:39

Afinal o texto do manifesto não foi "cozinhado" na Versailles! Mas na Tasca do Coxo!
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De Pedro Correia a 20.03.2014 às 19:48

Pode ter sido no Faz Figura.
(no Quebra-Bilhas não foi, que já fechou há muito)
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De Rui mateus a 20.03.2014 às 18:48

A conclusão é simples: a dívida não pode ser paga!

"Com o euro, não houve um só ano em que não subisse, quase exponencialmente, a dívida pública.

O euro acarretou, em Portugal mas também na União Europeia, a falência, encerramento e deslocalização de milhares de empresas produtoras de bens transaccionáveis, e impôs uma distorção completa do regime económico português, com um crescimento galopante do desemprego, sobretudo do desemprego jovem.

Na ocasião do 25 de Abril, 40% do PIB português era gerado na indústria. Hoje, por virtude da adesão ao euro, apenas 13% do PIB é gerado no sector industrial. E para que a desgraça fosse ainda maior, apenas 2% do PIB tem hoje origem no sector primário (agricultura e pescas).

Portugal tornou-se, assim, um país economicamente inviável, desindustrializado, sem agricultura e sem pescas.

Este quadro, triste e negro, precisa de uma alteração urgente, radical e completa. O país tem que ser, sem demora, re-industrializado, incluindo nessa re- -industrialização a industrialização de todo o sector primário, da agricultura às minas e ao cluster das indústrias do mar e das plataformas continentais e insulares.

Nada disto – que é um verdadeiro desígnio nacional – se poderá fazer, como pretendem os setenta e cinco marmanjos subscritores do manifesto da reestruturação, no interior da zona euro, com haircuts (perdões) da dívida e dos juros, nem com todos os subsídios que possam ser imaginados.

Para poder ultrapassar a situação catastrófica em que se encontra e a que foi conduzido pelo euro germânico, Portugal não chegará nunca lá através de uma reestruturação da dívida, mas sim mediante uma reestruturação económica que terá de assentar na saída do euro e na introdução do escudo, inicialmente à paridade cambial com o euro."

in http://lutapopularonline.org/index.php/pais/104-politica-geral/1008-o-manifesto-dos-setenta?showall=1&limitstart=
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De Pedro Correia a 20.03.2014 às 19:47

Portugal decidiu aderir ao sistema monetário europeu (ao contrário do Reino Unido, que manteve a libra) sem estar preparado para o efeito. Aconteceu algo semelhante com o acordo ortográfico: cozinhou-se o dito em 1990, na véspera de uma visita de Estado ao Brasil, para levarmos alguma coisa na bagagem; e em 2008, após 18 anos com a coisa posta em sossego, outra visita de "alto nível" ao Brasil levou à sua regulamentação em Lisboa na véspera da viagem. Originalidades lusitanas...
Aconteceu algo semelhante com o euro.
Quando Portugal teve a primeira presidência semestral da União Europeia, em 1992, os crânios lusos decidiram apressadamente abraçar o euro para mostrar serviço lá fora. Aceitando inclusive uma taxa de câmbio em relação ao escudo que em nada nos foi favorável.
Há muitos responsáveis para termos chegado ao estado actual. Mas os maiores responsáveis foram chefes do Governo, ministros das Finanças e governadores do Banco de Portugal, por esta ordem.
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De lucklucky a 20.03.2014 às 22:03

"Portugal tornou-se, assim, um país economicamente inviável, desindustrializado, sem agricultura e sem pescas."

Tudo mentira.
Para começar hoje produz-se muito mais agricultura que no passado.
Por ex:Portugal é um dos maiores exportadores mundiais de tomate processado.

Ainda mais bizarro é você querer a industria, agricultura e pescas com tão baixa produtividade que pagavam comparativamente uma miséria

Portugal é hoje muito mais rico que nesse brilhante passado e o Euro a única coisa que nos fez mal foi nos ter dado reputação Alemã para nos podermos endividarmos.
O Euro é que permite ás nossas empresas que querem avançar ter acesso a tecnologia que com um Escudo governado por políticos e jornalistas socialistas - sejam socialistas de esquerda ou direita- o levariam para o facilitismo da desvalorização tornaria muito mais caro.

A memória também é curta. As desvalorizações não resolveram nada nas outras crises com o Escudo.
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De Rui Mateus a 21.03.2014 às 16:20

...mentira é dizer que Portugal é viável com esta política de subsistência alimentar, quando importa mais de 80% para a sua alimentação...

Um país sem pescas de alto mar, que não temos, um país sem indústria, que não temos não será viável...nós somos os criados de libré da Alemanha...quanto ao euro está dito no texto, continuaremos ser a subservientes aos ditames da Alemanha e seu imperialismo...naturalmente a continuarmos a ser governados pelo PS, PSD e CDS continuaremos no mais do mesmo...facilitismo só se for para quem nos governa e não quem trabalha e tenha pequenas e médias empresas...
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De lucklucky a 21.03.2014 às 16:54

"...mentira é dizer que Portugal é viável com esta política de subsistência alimentar, quando importa mais de 80% para a sua alimentação..."

Mente mais uma vez esses valores são válidos para Cuba que suspeito tanto gosta.

"Portugal apresenta um grau de autossuficiência alimentar de 81%"
http://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=156475817&att_display=n&att_download=y
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De Rui Mateus a 21.03.2014 às 18:18

...números...números bastante suspeitos, ele dizem que de produtos agrícolas é que ainda nos vamos safando, bem ou mal só importamos 30% do que consumimos...basta falar com os agricultores, basta ver os nossos supermercados e praças para ver donde vem a fruta, as batatas, etc...
Actualmente importamos também já 80% dos cereais que consumimos...importamos também 50% da carne de vaca que consumimos ...e muito mais...fale com os nossos agricultores, pequenos e médios...e das pescas nem se fala...e já agora deixe de bocas, porque não me conhece em primeiro lugar, eu sou português e de gema...em segundo lugar...da discussão nasce a luz, portanto não tente apagá-la com bocas...cubanas!
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De Sacrilégio a 20.03.2014 às 19:02

Ai, nem me lo digam: o Francisco Louçã na Versailles?!?!?!
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De Costa a 20.03.2014 às 20:30

Esquerda caviar...

Costa
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De José Maria Gui Pimentel a 20.03.2014 às 19:29

Pedro, atenção, o manifesto defende que "a reestruturação deve ter na base a dívida ao sector oficial [ie, troika]".

Embora admita que "se necessário complementada por outras responsabilidades", mas sem as especificar
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De Pedro Correia a 20.03.2014 às 22:09

Pois, Zé Maria, o problema é essa grande nebulosa. Tudo quanto fica por especificar.
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De cristof a 20.03.2014 às 20:13

sou favorável a que se discuta os argumentos e não o mensageiro ; por mais este exemplo bem apontado pelo post volto a achar que o exemplo do jovem que pede clemencia por ser um pobre orfão (depois de ter morto pai e mae) cai que nem uma luva em alguns dos argumentistas.
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De Pedro Correia a 20.03.2014 às 22:03

E no entanto, meu caro, é de argumentos que falamos. Não de argumentistas.
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De Vento a 21.03.2014 às 11:19

Vamos aos argumentos falando de muitos argumentistas, Pedro.

O que o Pedro ainda não explicou foi a última parte do comentário de Bagão Félix:

1 - Isto é, como é que a banca nacional sabendo do resgate em curso da banca internacional entre nessa roleta para se substituir a eles, e porquê?

2 - Quer o Pedro convencer com os argumentos que apresenta que aproximadamente 98% da população depositante deve ser refém e cordeiro sacrificial dos restantes, sendo esta última minoria aquela que possui a parte de leão:

Veja aqui:
http://www.publico.pt/economia/noticia/ha-164-milhoes-de-depositantes-com-menos-de-100-mil-euros-1589476

e também aqui, para que possa continuar a elucidar os seus leitores:
http://www.pordata.pt/Portugal/Montantes+de+depositos+de+particulares+total+e+por+tipo-2114

3 - Quais as perdas que contabiliza? E de quem?

4 - Afinal esse bicho papão que arrasa as contas dos depositantes é levantado nesta altura a favor de quem? Quer o Pedro acreditar que essa propaganda que por aí anda contra o manifesto é para salvar os depositantes e a nação?
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De Pedro Correia a 21.03.2014 às 11:53

Dúvidas pertinentes que o dr. Bagão Félix não tardará certamente a esclarecer, caro Vento.
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De Carlos Duarte a 20.03.2014 às 20:48

Caro Pedro Correia,

Eu tenho uma posição ambivalente em relação ao manifesto. Concordo com a impossibilidade do "pagamento" (i.e. redução para valores em acordo com o Pacto Orçamental) da dívida num prazo razoável, mas desconfio de algumas "premissas" (nomeadamente que o crescimento é estrangulado pela referida dívida).

No entanto, e em relação ao seu post, algumas notas:

- Quando se fala em "reestruturação" pensa-se, por norma, num haircut ou abatimento ao montante. O que o Manifesto defende é um alargamento de prazos e redução de juros. O resultado "contabilístico" pode se indêntico (ver um post do LA-C no "Destreza das dúvidas") mas moralmente e posicionalmente é muito diferente.

- Esse acordo é feito "dívida a dívida". Neste caso, o acordo (penso eu...) seria com os membros da Troika (UE, BCE e FMI), ficando a restante dívida "de lado".
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De Pedro Correia a 20.03.2014 às 22:16

Caro Carlos Duarte:

Devo dizer, antes de mais nada, que tenho um profundo respeito por quem tem opiniões completamente diferentes da minha. Já dei sobejas provas disso, incluindo neste blogue.
Sublinho, a seguir, que não tenho opiniões fechadas nesta matéria. Nem poderia ter, pois não possuo conhecimentos de economia suficientes para alimentar certezas. Alguém terá?
Realço, enfim, o meu profundo respeito por aqueles que coerentemente sustentam posições situadas nos antípodas do "financeiramente correcto", incluindo economistas como João Ferreira do Amaral e Octávio Teixeira, que há muito defendem o abandono de Portugal do sistema monetário europeu, com o regresso ao escudo.
Discordo, mas respeito.

O meu respeito é muito menor em relação a todos quantos tiveram responsabilidades directas por este estado de coisas. Chefes de governo, ministros das finanças, governadores do Banco de Portugal. Entre outros - alguns comentadores incluídos.
Fizeram uma coisa e defendem outra. Sustentam isto e o seu contrário. Dizem X e praticam Y. Não disseram uma palavra de alerta quando a derrapagem estava em curso.
Não fulanizo, de propósito. Porque o que me interessa é o combate de ideias.

Em relação a Bagão Félix, que me dizem ser um dos principais dinamizadores deste manifesto (com João Cravinho e Francisco Louçã), devo confessar que não consigo vislumbrar grande consonância entre estas suas declarações à SIC Notícias e a posição que pelos vistos agora professa.
Disse em Outubro que entendia a "reestruturação da dívida" como um 'default' parcial ("não pagamos" em versão 'soft'). O que nos traria problemas de todo o género não apenas junto das entidades credoras mas das próprias instituições financeiras nacionais, detentoras de parte considerável da nossa dívida (um aspecto que tende a ser escamoteado nestes debates).

A propósito, convém formular as seguintes questões:
- Precisamos ou não de crédito para obter financiamento?
- Precisamos ou não de investimento estrangeiro, cujo afluxo em muito dependerá desse crédito?
- Consideramos ou não o sistema financeiro uma peça vital para o funcionamento saudável da economia?

Das respostas que soubermos dar a estas questões, dependerá muito a nossa posição definitiva perante o manifesto.
Não se diga é que o debate só gira em torno de pessoas. Pelo contrário, estamos perante questões substanciais. E de uma importância iniludível.
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De Tiro ao Alvo a 20.03.2014 às 22:30

Convém não esquecer a dívida pública portuguesa detida pela Segurança Social - no caso de haver uma reestruturação, não seriam só as instituições financeiras afectadas.
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De Pedro Correia a 21.03.2014 às 07:17

Tem toda a razão, Tiro ao Alvo. Faltava essa.
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De Carlos Duarte a 21.03.2014 às 13:24

Caro Tiro ao Alvo,

Essa dívida é perfeitamente "virtual", não existe. O Estado (Segurança Social) tem uns papeletes do Estado (Fazenda) a dizer que ao portador (Estado) é devido dinheiro pelo emissor (Estado) mais um cupão / juro. O mesmo se aplica a empresas públicas ou bancos controlados pelo Estado (i.e. CGD). A dívida detida por essas entidades não existe na realidade.
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De Carlos Duarte a 21.03.2014 às 12:34

Caro Pedro Correia,

Obrigado pela sua resposta e, quanto à primeira parte, não me parece que tenha que se justificar por nada nem foi o meu comentário um "ataque" à sua posição (maioritariamente discordante) em relação aos sobrescritores do referido manifesto.

Quanto à posição do Bagão Félix, eu tenho (talvez por ter uma posição ambivalente - que já lá vou) a noção que vai uma diferença abismal entre o que o mesmo propões (juros e prazos) e o que outros propuseream (perdão do principal da dívida / haircuts). Não em termos contabilísticos (vai dar tudo ao mesmo) mas em termos morais.

Eu fui dos que aplaudiu o Memorando quando saiu - e aplaudo na mesma a ideia geral por detrás dele, de reforma integral do País. Da mesma forma, estou agradecido aos nossos credores - especialmente os novos (BCE e FMI) - por se disponibilizarem para nos "tirar" desta alhada. Mas nada disto tem influência numa constatação (e não numa impressão) de que o volume de dívida é demasiado elevado para poder ser resolvido no curto prazo (e isto independentemente da política financeira e económica interna seguida).

O que me interessa é o aspecto moral da coisa. Este problema começou por ser um problema moral de um governo eleito (do PS) e continua a ser um problema moral para o governo em funções. Quando se olha para o conjunto de medidas tomadas ao longo deste tempo, nota-se que as mesmas têm sido (na quase totalidade) dirigidas ao tecido "não-reactivo" da despesa. Corta-se salários porque é fácil (e, apesar de tudo, reclamam pouco), corta-se reformas porque é fácil, sobe-se comparticipações pelos mesmo motivos. As verdadeiras reformas estruturais da estrutura Estatal estão por fazer (quantas direcções-gerais, institutos, organismos, etc. é que foram extintos?), a reforma fiscal (tirando pequenos ajustes no IRC) está por fazer, as benesses não foram de todo afectadas (as PPP quase nada e a energia absolutamente nada), a "reforma" da estrutura administrativa do território devia ter sido liminarmente recusada pela Troika (com a justificação de que não vinham cá para gozarem com a cara deles) e exigida uma efectiva reforma, com fusão de munícipios (e deixavam as freguesias em paz) e posso continuar por aqui fora.

Moralmente, é inteiramente verdade que o governo tem sido forte com os fracos e fraco com os fortes. Os sacríficios não foram transversais nem tocaram a todos. E, assim sendo, é igualmente verdade que é legítimo para um reformado (mesmo um que receba 5000 euros ou mais) considere justo que se lhe cortam a reforma também cortem nos credores. Contratos são contratos e deveriam ser iguais independentemente do tipo e com quem são assinados.

Ao perder o pé moral, ao este ajustamente pecar nesse aspecto, então a única justificação seria a de eficiência. E nesse caso é exígivel que o mesmo seja processado num prazo curto (até 10 anos). Se tal não é possível, então que se passe para uma negociação com os credores. E os credores que exijam reformas DE FACTO.
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De Pedro Correia a 21.03.2014 às 15:42

Caro Carlos Duarte:

Não posso discordar de grande parte do que afirma e sinto até vontade de seleccionar estas suas palavras como Comentário da Semana aqui no DELITO.
O problema moral, como bem diz, nunca pode estar ausente. É um problema que o ex-primeiro-ministro Sócrates, naquela forma peculiar que tem de se exprimir, resumia há três anos ao rejeitar a possibilidade de Portugal vir a ser conhecido como um Estado "caloteiro".

Eu tenho muito mais dúvidas do que certezas nesta matéria, mas num aspecto as minhas dúvidas são quase nulas: as soluções para a crise estrutural que Portugal enfrenta não podem partir de quem foi parte do problema.
Os responsáveis pela década de maior estagnação económica em Portugal no último século, apesar dos fundos estruturais que recebíamos, são as últimas fontes de autoridade técnica, política e moral para se pronunciarem agora sobre o assunto com varinhas de condão da vigésima-quinta hora que nunca souberam aplicar quando exerceram funções de responsabilidade neste país que tanto endeusa os "ex" qualquer-coisa e se rende aos pseudo-argumentos de autoridade académica mesmo quando são sistematicamente desmentidos pelos factos.

Um economista de esquerda, Jorge Bateira, apontava ontem (no jornal i) algumas críticas ao manifesto que merecem reflexão séria. Escrevia ele o seguinte:
"Sendo o manifesto subscrito por europeístas de várias correntes ideológicas, a sua proposta assenta em dois pilares muito frágeis:
1) a viabilidade política da renegociação das dívidas na União Europeia;
2) a capacidade de crescimento da economia portuguesa com os instrumentos de política de uma região autónoma, sob tutela do Tratado Orçamental."

Portugal tem um sério problema de despesa pública. Portugal tem um sério problema de crescimento económico. O crescimento não se consegue com mais despesa: se assim fosse, a década perdida teria sido antes a década mais próspera do último século.
Desfazer este aparente nó cego é o mais sério desafio a esta geração, com reflexos inevitáveis na próxima. Porque numa coisa estamos de acordo: ninguém quer mais do mesmo. Só que ao poeta bastava dizer: "Sei que não vou por aí". Aos políticos e aos economistas exige-se mais que isso.
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De migas a 21.03.2014 às 17:56

"Contratos são contratos e deveriam ser iguais independentemente do tipo e com quem são assinados."

Você tem um "contrato" com a sua mulher em que deposita X€ por mês para ela governar a casa.

Imagine que teria que cortar nas despesas mensais; por acaso colocaria a dívida da casa , ou mesmo ao carpinteiro ou ao merceeiro, ao mesmo nível do acordo que estabeleceu com a sua mulher?

E não venha dizer que o Estado não é uma família e que deve ser gerido de forma diferente (ainda por cima inseridos numa moeda única).

Esse foi o pensamento que nos levou a 3 bancarrotas em 40 anos.
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De Vento a 21.03.2014 às 13:04

Pedro, a resposta a suas perguntas, da minha parte, é a seguinte:

1 - Sim, precisamos;

2 - Sim, precisamos de um investimento de raíz que gere estruturas novas, incentive a construção e gere empregos dinamizando outras áreas da economia, e não de compradores em saldo que presumo também tenham financiamento por parte do sistema financeiro nacional e até mesmo que este sistema entra nas compras e vendas e nas consultorias;

3 - Sim, considero o sistema financeiro uma peça fundamental para o funcionamento saudável da economia. Acontece que este sistema está sem saúde e infecta a economia. E se a teoria da "destruição criativa" tem fundamento sólido aplica-se neste momento a esta área.

Sobre a destruição criadora ou criativa, aqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Destrui%C3%A7%C3%A3o_criadora
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De Pedro Correia a 21.03.2014 às 23:46

Estamos portanto de acordo, pelo menos nesta matéria. A minha resposta a essas perguntas também é "sim".

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