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Sobre o manifesto (1)

por Pedro Correia, em 15.03.14

 

Li finalmente o manifesto de que tanto se fala. Para encurtar razões, digo desde já que sobre o assunto subscrevo o essencial do que escreveram os dois directores de jornais especializados em temas económicos.

«O manifesto da reestruturação da dívida sublinha, claro, que Portugal deve cumprir, sem hesitações, as boas regras orçamentais, "de acordo com as normas constitucionais", o que, para bom entendedor, quer dizer que o Governo pode fazer tudo, desde que não reforme o Estado, o sistema de pensões e o modelo de organização da Função Pública. Sim, pode fazer tudo o resto, até aumentar ainda mais os impostos», escreve António Costa no Diário Económico.

«Na vida, por vezes, queremos seguir um caminho e acabamos a actuar de tal maneira que seguimos na direcção oposta. Acabamos a ter o que não queríamos. É o caso do Manifesto dos 70 de apelo à "preparação da reestruturação da dívida". Se o que fizeram – até mais do que aquilo que escreveram - tivesse tido algum impacto europeu, a esta hora estaríamos mais longe de conseguir aliviar o peso da dívida pública» , escreve Helena Garrido no Jornal de Negócios.

 

Mas a minha reacção perante este documento, mais do que de rejeição, é sobretudo de estupefacção. Por verificar que entre os 70 signatários figuram algumas das personalidades que permaneceram mais tempo em funções governativas nas últimas quatro décadas em Portugal. Incluindo três ex-responsáveis da pasta ministerial das Finanças.

Consulto os meus arquivos. E concluo que estas três personalidades desempenharam funções governativas em 12 dos 19 executivos que se sucederam no nosso país desde o 25 de Abril de 1974. Perfazendo, no seu conjunto, 20 anos e dois meses de actividade no Executivo.

É tocante vê-las dar este salto. Da permanência no Conselho de Ministros ao assento etéreo nas pantalhas televisivas, passando pela elaboração de manifestos em que desdizem hoje o que disseram ontem, com o conta-quilómetros a zero, transfiguradas em treinadoras de bancada.

Como se não tivessem a mais remota responsabilidade pelo estado a que isto chegou.


48 comentários

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De Liberato a 15.03.2014 às 01:04

Há com responsabilidades no estado a que isto chegou, mesmo que remotas, espantosamente, signatários de um manifesto e outros, não espantosamente, que são presidentes da República e da Comissão Europeia.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:17

As responsabilidades são repartidas por muita gente. Incluindo por estes três signatários do manifesto que já desempenharam funções de Ministro das Finanças em Portugal e no seu conjunto permaneceram mais de 20 anos em cargos governamentais. Uma destas personalidades entrou pela primeira vez no Governo em Maio de 1974. Outra, em Janeiro de 1980. A terceira, em Agosto de 1987.
É fazer as contas, como dizia o outro. Dá uma bonita idade.
Vendo-os surgir uma vez e outra, por vezes em defesa convicta de teses antagónicas às que advogaram no passado com idêntico grau de aparente convicção, só me recordo daquelas palavras do Almada Negreiros: «Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.»
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De Anónimo a 15.03.2014 às 01:06


Cavaco Silva também assinou o manifesto? Confesso que não li a lista toda mas pelos meus cálculos Cavaco Silva entre primeiro ministro e presidente da república deve preencher os seus requisitos, se não anda por lá há vinte anos falta-lhe pouco, dito de outra forma, é um dos personagens com mais tempo de poder, à beira dele os três que refere são amadores.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:18

Falo dos 70 signatários (agora parece que já são 74). Número suficientemente dilatado para me dispensar de mudar de assunto pronunciando-me sobre quem não assinou (incluindo eu próprio e o meu anónimo amigo provavelmente também).
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De tric a 15.03.2014 às 02:13

É sempre tocante vê-las dar este salto. Do assento no Conselho de Ministros para as pantalhas televisivas, transfiguradas em treinadoras de bancada. Como se não tivessem a mais remota responsabilidade no estado a que isto chegou."
.
comparado com a culpa do sistema financeiro...não foi nada! mas enfim...esses agora controlam a comunicação social...o Governo de Portugal...o lobby financeiro não tem culpa de nada...
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De lucklucky a 15.03.2014 às 08:30

Para quem não sabe o tric na verdade quer dizer os judeus=sistema financeiro...
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:21

Ele já deve ter o braço direito com cãibras. Não deve dar jeito nenhum tê-lo todo o tempo assim estendido.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:23

O uso excessivo de reticências provoca em mim um efeito de iliteracia (des)funcional. O tric refere-se a quem quando alude aos que "controlam a comunicação social"? Aos angolanos?
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De Depuralino a 15.03.2014 às 08:59

É só uma pessoa ter-se apercebido das declarações de Brian Hayes ou Teodora Cardoso...

E de que um dos prinicipais dinamanifestantes é o Cravinho cujas PPP das SCUTS são o que são.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:23

É só preciso lembrar o que disseram, por exemplo, os doutores Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite num passado muito recente.
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De Depuralino a 15.03.2014 às 14:24

É sempre bom lembrar o que hoje dizem, por exemplo, sobre receitas extraordinárias e reforma do Estado e o que fizeram quando estiverem na cadeira das moedas.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 18:21

De acordo. Por mim tratarei de avivar algumas memórias - o que aliás faço diariamente neste blogue há mais de cinco anos. Este é um dos problemas recorrentes em Portugal: os debates parecem começar sempre do zero. Por absoluta falta de memória. Tudo quanto aconteceu há mais de duas semanas é convenientemente esquecido.
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De É fazer a prova a 15.03.2014 às 09:03

É favor não contar o tempo que Balsemão esteve no governo pois ele, ao contrário do que desde ontem se diz numa posta do DdO, não assinou a coisa.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:26

Fui conferir. Antigos primeiros-ministros, não contei nenhum. Antiga candidata a primeira-ministra, contei só uma.
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De Contágios a 15.03.2014 às 09:54

Pedro Nuno Santos: “Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida” e se o fizermos “as pernas dos banqueiros alemães até tremem”.


Manuela Ferreia Leite: "Devemos ter tirado o sono à senhora Merkel..."

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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:29

Nunca deixarei de me surpreender com a forma deselegante como certos políticos portugueses insistem em referir-se a personalidades internacionais. Dizer "senhora Merkel" é algo equivalente a "senhora Leite". Gostaria a antiga líder do PSD de ser tratada assim?

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De ... a 15.03.2014 às 20:02

Eu acho é que é uma presunção a atirar para o palerma uma pessoa que passou à reforma (como a maioria dos 70) e exibe a sua "sabedura" ao Paulo Magalhães estar a imaginar que à "Senhora Merkel" um manifesto qualquer de 70 "personalidades" de um país pequenito como Portugal lhe tira o sono, como se ela não tivesse mais nada com que se ralar, desde o governo do seu país, à situação na Ucrânia, às eleições europeias (deito-me parvamente a adivinhar...)
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 01:38

E no entanto houve um tempo em que a Senhora Leite usava em Portugal o argumentário da Senhora Merkel, nomeadamente quando dizia que "quem paga é quem manda" nos idos de 2009 e 2010.
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De Vento a 15.03.2014 às 10:54

Tá visto, meu amigo, que hoje vem para o ponto cruz (creio que é este o nome aí do quadro dos lavores).

Não quero deixar de dar um pontito só para ver se tenho jeitito. Vou agora repetir um comentário:

O que me parece mais grave em toda esta questão é o facto de sentir, e sentir com total convicção, que este governo de meninos pretende dar a mão à(o) senhor(a) Merkel/Schauble e outras instituições no sentido de lhes permitir uma saída limpa para a bagunça feita em Portugal e também na Grécia e Irlanda.
A atitude irlandesa abriu uma oportunidade airosa que permitisse empurrar Portugal para uma situação semelhante, mas que resultará na subordinação quase ad eternum deste povo e deste país sem que se faça pensar que o descalabro ocorrido em Portugal e na Grécia tem nomes próprios e sujeitos identificados. Para tal é necessário dar-lhe o nome de programa cautelar.

Na realidade, se nos reportarmos aos acontecimentos anteriores, durante e posteriores à crise 1383-1385, chegaremos à conclusão que aquilo que nos fará pensar como incentivo a uma atitude de libertação é a pergunta então colocada: "Quando Adão usava a enchada e Eva fiava, quem era o Senhor (de senhorio)?".

Pois é esta relação aleivosa que os governantes estabelecem com um povo, e que o penhora através do estabelecimento de uma relação de feudalidade a instituições e líderes incapazes de se sustentarem também a si mesmos em matéria de justiça governativa e conhecimento para a concretizar, que nos obrigará mais cedo ou mais tarde a constituir novas cortes e a apoiar um D. João que seja capaz de concretizar esta ânsia de cortar com o malicioso cordão umbilical.

E tanto é verdade a necessidade da restruturação da dívida que é este desgoverno, depois de ter anunciado a obtenção de boas notas através de douta inspecção por parte dos mandatários da 11ª. avaliação, que logo de seguida tira da cartola medidas que de todo não correspondem a uma nota que não se pauta num qualquer quadro quanto mais num de honra.

Por último, sim, Portugal transformou-se em terras de mouros para conquistar e saque de guerra para distribuir.
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 12:35

Meu caro, o outro dizia que "as pernas dos banqueiros até tremeriam" se ousássemos bater-lhes o pé, tese que ficou obviamente por demonstrar. Eu tremo ao ver o cardápio sugerido por vários daqueles que foram responsáveis (a expressão é sua e eu peço-lha emprestada) pela "bagunça feita em Portugal" durante os mais recentes decénios, em que estivemos três vezes à beira da bancarrota.
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De Vento a 15.03.2014 às 12:47

Caríssimo, essa tese que está por demonstrar não me provoca arrepios. E não provoca porque por este andar os banqueiros afogar-se-ão em dinheiro sem ter onde gastá-lo.
O que me tem arrepiado é essa relação aleivosa a que me refiro por parte dos desgovernantes. E quando faço esta afirmação tenho bem presente em minha memória o que a vida a todos deve ensinar, isto é, que os erros dos outros não justificam os nossos.
E como já se vislumbra por pequenas realidades presentes que o futuro passará por uma economia paralela sem recurso a banqueiros e depósitos em bancos (com excepção para aqueles a quem não lhes resta saída senão ter de os aguentar), e sem o uso de cartões e cartoezinhos, poderá vislumbrar o amplo significado da questão que então se colocava e que hoje se torna premente: "Quando Adão usava a enchada e Eva fiava, quem era o Senhor?".
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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 18:31

Não refuto esse cenário, meu caro.
Até lá, no entanto, há contas para pagar. E, se não forem pagas, não há crédito para as coisas mais simples - incluindo parte do nosso abastecimento alimentar. E também para os pequenos luxos: em 2013, apesar da crise, venderam-se 760 mil 'tablets' em Portugal (um aumento de 134%).
http://pplware.sapo.pt/informacao/em-portugal-venderam-se-760-mil-tablets-em-2013/

Teremos, até ver, de contar com o sistema financeiro para garantir o nosso 'modus vivendi'. Isto porque o método em tempos sugerido pelo dr. Mário Soares - dar uso às irotativas da Imprensa-Nacional Casa da Moeda - ultrapassou o prazo de validade em boa parte do mundo (com a notória excepção da Venezuela, onde a inflação já disparou para 57%, cifra digna de uma economia de guerra).
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De Vento a 15.03.2014 às 20:09

Sabe, esse aumento de vendas faz-me pensar que algures por aí ainda alguém tem emprego e há empresas a funcionar. E regozijo-me com isso. Não me debruço sobre a oportunidade e/ou utilidade disso, pois não comprei e não tenciono comprar.

Quando fiz a alusão à economia paralela eu não estava a ser contra o sistema financeiro, estava antes a favor da retoma da dignidade por parte das pessoas que neste cenário conduzirá a fugas ao fisco e a depósitos bancários das transacções efectuadas para que não deixem rasto. O "colchão" voltará a ser o banco.
Como disse e muito bem sobre a Venezuela estamos perante um cifra digna de uma economia de guerra. Mas os números sobre a economia paralela em toda a Europa reforçam também esse mesmo cenário. Significa isto como exemplo que os cidadãos que puderem voltar-se para si mesmos como seus próprios senhores não contribuirão para a comunidade, imitando aqueles que a benesses do estado já o praticam. Conclui-se que o sistema vigente criará mais individualismo e deixará a solidariedade ao critério de cada um.

Quanto ao pagamento da dívida: Garanto-lhe que com estes ditos esforços jamais será paga. E se ficarmos com a fama de caloteiros é porque nos obrigaram à miséria.
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 01:46

Meu caro: se a dívida não for paga, quem fica a arder sobretudo é a banca nacional, são as seguradoras nacionais, são os fundos de pensões nacionais. Detentores, no seu conjunto, de cerca de 60% da dívida portuguesa. Ou seja: o que ganharíamos eventualmente em poupança de juros por um lado ficaria incomparavelmente aquém do que perderíamos enquanto investidores.
Por outro lado, convém não esquecer que desde o início do Programa de Ajustamento Portugal já conseguiu reduzir a taxa de juro relevante em cerca de 2% e prolongar os empréstimos em mais sete anos adicionais. Podemos chamar reestrutuação a isto. E sem necessidade de manifesto algum.
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De Vento a 16.03.2014 às 11:57

Pedro, pelo seu comentário verifico que é um díscipulo de Marques Mendes.

Mas eu não concordo com ele (ainda que considere que ele é uma das poucas mentes lúcidas que aparecem a comentar na TV nacional), consigo e com a banca nacional. Se um grupo de cidadãos através de um manifesto a favor da renegociação da dívida origina tanta histeria, então é de pensar que está em causa a soberania e a liberdade de uma nação, e que a querem vender por qualquer merdita de valores e interesses que só estão na cabeça de alguns. Por outro lado considero bem que os assessores do PR se tenham demitido, pois é de toda a conveniência para o PR demonstre o que tem pretendido demonstrar.

E é uma falácia tudo isso na medida em que a banca nacional já beneficiou, e teve interesse que assim acontecesse, na questão do BPP e BPN (isto para não falar no que ocorreu no BCP e nas perdas da CGD, um banco suportado por uma nação, para beneficiar todos os demais). Não só sairam do mercado outros "players" como também não tiveram de desembolsar nada através do Fundo de Garantia ( se eu estiver errado corrija-me).

E eu pergunto: até quando temos de suportar a delapidação do património nacional e continuar a colocar em risco a economia real só porque alguns, sabendo que não podiam investir nesta com a segurança e rentabilidade que desejavam, decidiram investir dinheiros onde não era recomendável?
Se uma empresa pode fechar por falta de mercado e/ou má gestão a banca não pode ser excepção.

Por outro lado, perante o cenário da crise que se pautou diante de todos era recomendável que os desgovernantes fizessem emissão de dívida em tempo útil para subscrição por parte da população. Mas eles, uma vez mais, entendiam que quem devia ser priveligiada era a banca e não a nação. Como tal os desgovernantes optaram por se endividar a taxas mais altas quando podiam ter feito arrecadação de financiamento através das poupanças dos cidadãos endividando-se a taxas mais baixas.
É esta promiscuidade que se não for parada vai ter de para de forma inconveniente.
Por isto mesmo insisto: "Quando Adão cavava e Eva fiava, quem era o Senhor?".
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 12:44

Meu caro, não sou discípulo de ninguém. Mas admito que gosto de ouvir vários políticos/comentadores, Marques Mendes incluído.
Sobre este assunto já ouvi outros políticos/comentadores dizerem o mesmo.
Estes, por exemplo:
José Sócrates, em Maio de 2011:
«Reestruturar uma dívida significa pagar um preço em miséria, em desemprego e em falências."
Bagão Félix, em Outubro de 2013:
«Se houvesse reestruturação da dívida, quem pagaria seriam os bancos portugueses. E, apanhando os bancos portuueses um corte desses, quem apanhava era a própria capacidade de solvabilidade dos bancos e, por tabela, os depositantes.»
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De Vento a 16.03.2014 às 12:51

Pedro, não leve a mal essa do díscipulo. Foi só uma imagem literária. na realidade, vem dar razão ao meu comentário. Como vê eles revelam que estavam errados.
Sabe qual é a diferença entre este governo e Sócrates? É que estes quiseram, demonstrando ser seus díscipulos, mostrar que eram capaz de ir mais longe que Sócrates. E a senhorita -salvo seja - Merkel agradece.
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 12:59

Não levo a mal, meu caro. Sou um verdadeiro defensor de um debate sem tabus. E creio há muito que os blogues devem servir sobretudo para isto.
Também gosto sempre de debater com base em factos rigorosos ou estimativas credíveis. Caso contrário a discussão equivale ao inútil esbracejar do indivíduo que procura nadar em seco.
Por isso tendo informar-me, tento esclarecer-me: nunca sabemos o bastante sobre tema algum. E cruzo informações, nunca me fiando numa só fonte. E - 'last but not the least' - gosto sempre de aprender com quem sabe mais do que eu.
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De rmg a 16.03.2014 às 14:12


E a inflação "alimentar" já passou os 73% ...
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De Pedro Correia a 18.03.2014 às 10:38

Na Venezuela anda perto disso.
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De rmg a 15.03.2014 às 14:05


Leio aqui comentários de quem há muito "não sai à rua nem ouve as pessoas" , seja no sentido figurado ou não .

Eu saio , todos os dias , 4 a 5 horas a pé ou de transportes públicos (apesar de ter carro e meios de o ter a andar sempre que quiser).
E ouço as pessoas , sou incapaz de não dar atenção ao que me cerca , é com os outros que aprendo (apesar de ser técnicamente idoso) , o mundo está cheio de "velhos" de idade ou de pensamento que se acham espertíssimos e com larga visão enfiados de pantufas em frente ao computador o dia inteiro !

E portanto achar que o futuro vai ser muito diferente é desconhecer totalmente o que querem , o que pensam a até como já vivem as gerações mais novas em todo o mundo e limitar a visão à nossa rua .

Porque as gerações mais novas vão viver , aqui ou noutro sítio qualquer , não têm conversa de velhos como nós não tínhamos na idade deles .
O que "cansa" neste momento uma Europa envelhecida e decadente é o que entusiasma uma China ou uma Índia só agora com acesso a tanto "sonho" (por mais parvo que seja , mas vá-se lá convencê-los disso) .

Um futuro de economia paralela e sem cartõezinhos ?
Talvez que sim , mas na geração dos meus trinetos que na dos meus netos e bisnetos (*) não vai ser de certeza e , nesse prazo , nós todos aqui estaremos mortos .

(*) Estou farto de gente que fala do mundo "que vamos deixar aos nossos filhos e netos" e não tem nem filhos nem netos ou então tem mas eles não estão para os aturar ..
Eu tenho , filhos quarentões e netos adolescentes , se calhar um dia destes tenho bisnetos e ninguém deu por isso .
E eles aturam-me uma vezes e eu aturo-os a eles outras vezes , ajudamo-nos a compreender o mundo uns dos outros - por isso deixei há muito de ter certezas.

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De Pedro Correia a 15.03.2014 às 18:34

Meu caro, soube-me bem ler as suas palavras. Poderia sublinhar várias, mas fico-me por estas (com a devida vénia):
«O mundo está cheio de "velhos" de idade ou de pensamento que se acham espertíssimos e com larga visão enfiados de pantufas em frente ao computador o dia inteiro.»

Eis uma grande verdade.
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De Vento a 15.03.2014 às 20:31

"com excepção para aqueles a quem não lhes resta saída senão ter de os aguentar", eu pensava também em pessoas com a sua idade quando fiz a afirmação que cito aqui, e olhava para o futuro tendo em conta a realidade presente.

Alguns números sobra a economia paralela:

http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief/3769761-encolhendo-mas-sobrevivendo

http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2242708&seccao=Dinheiro%20Vivo

http://www.ionline.pt/iopiniao/quanto-vale-economia-paralela-portugal
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 01:51

E no entanto, a dois meses do fim do programa de ajustamento, multiplicam-se os sinais positivos. Eis mais um:
«A produção de automóveis em Portugal até Fevereiro subiu 15,1% para um total de 28.227 unidades. No segundo mês do ano o crescimento foi ainda mais significativo com um aumento de quase 36%.»
ver aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/psa_mangualde_impulsiona_aumento_da_producao_de_carros_em_portugal.html
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De Vento a 16.03.2014 às 11:26

Meu caro,

se espera que eu fique triste por ver que a produção em Portugal possa cair vai ter de esperar sentado.
Sobre as questões económicas em Portugal e no mundo sigo-as dia e noite, pois é de todo o interesse que o faça.
Mas sobre o sector automóvel digo-lhe mais, os níveis baixos (as quebras) de há um ano atrás acentuam o crescimento presente, mas sempre abaixo dos registos anteriores a 2012. Significa isto que a economia está a viver de baixos salários, de falsas percepções sobre o mercado de emprego e, no sector automóvel, verifica-se nestes períodos um aumento de vendas por reenovação de frotas no sector comercial e industrial. É sol de pouca dura.

Se reparar nas estatísticas, há certos quadros nas mesmas que retiram o sector da construção civil e obras públicas. Como é o seguinte caso, onde poderá ver também os números dos veículos matriculados:

https://www.bportugal.pt/pt-PT/Estatisticas/PublicacoesEstatisticas/BolEstatistico/Publicacoes/A.pdf

Na realidade a produção automóvel situou-se 8,2% acima da produção média em FEVEREIRO nos últimos 5 anos. E as estatísticas que me apresenta apontam para um crescimento não de 36% mas de 35,8% face ao período HOMÓLOGO DE 2013. Cá estamos nós com as semânticas homólogas que ainda não indicam o bom andamento do ano (365 DIAS). Mas eu compreendo que a campanha eleitoral dê para estas coisitas.

Todavia, para que não nos percamos em grandes divagações deixo aqui um link que o ajudará nas suas pesquisas e publicações que pretende sejam rigorosas (espero que não me leve a mal por o ajudar a colocar todo o rigor nas publicações que faz para o seu público leitor):

http://www.acap.pt/fevereiro2014-producao-automovel.html?MIT=36493
Recomendo que pesquise em Produção Automóvel e Mercado Fevereiro.

E sim, é estranho que a dois meses do fim do programa dito de ajustamento a OCDE, a TROIKA, e o desgoverno português a reboque destes, tanto se empenhem em procurar branquear a miséria que têm vindo a causar. Que coincidência que só agora a economia dê mostras de tão "boa" actividade! E que coincidência ocorrerá para que de um momento para o outro o desemprego "caia" como eles dizem!?
Vale a pena pensar nisto tudo, não?
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De Pedro Correia a 16.03.2014 às 12:38

Vale a pena, sim.
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De rmg a 16.03.2014 às 14:11


Vento

Agradeço a sua atenção e os links disponibilizados .

Estas coisas são assim e por razões de formação e experiência também o sei .
Mas daí a achar que se caminha para a "economia paralela" a médio prazo creio que há que ter cautela .

Há uma visão muito europeia , muito "local" , que eu não partilho .
Todos os períodos de crise são propícios a um aumento deste fenómeno para o qual acho que todos nós contribuímos um pouco , seja por acção , por omissão ou apenas por nacional-porreirismo .

De resto e dentro de determinados limites que não me parece ainda que tenham sido ultrapassados na Europa, não é dramática a existência de alguma economia paralela residual em sectores bem definidos - todos sabemos quais - e que vai mantendo a circular alguma massa monetária que , de outra forma , talvez não circulasse (no quadro abaixo verá que ninguém está isento nisto) .

Falei na Europa porque aqui há dois campos bem definidos : os países do norte , onde as pessoas pensam que "o estado somos nós" e os países do sul onde as pessoas pensam "o Estado são eles" .

De resto conheço muitíssimo bem a realidade espanhola do dia-a-dia e também razoávelmente a belga (que neste campo não é muito do norte ...).
A situação actual agravou-se por 2 vias , a da citada fuga aos impostos "justificada" pela crise mas também a de uma acrescida capacidade dos governos de identificar mais claramente o que é e o que não é .

Ainda que datado e desactualizado é curioso ver como é que as coisas estavam até há 10 anos atrás na OCDE (não tive oportunidade de procurar dados mais actuais) :

http://saudesa.blogspot.pt/2007/07/economia-paralela.html




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De Vento a 16.03.2014 às 20:08

Também agradeço o link que anexa, que li com particular interesse, assim como os comentários que produz.

Sim, eu pensava nas ocorrências e emergência do mercado paralelo em período de crise. Sem dúvida que também referia o quão saudável será para uma melhoria de bem-estar da população que esta mesma ocorra. Certamente que compreenderá que muitos reformados e pensionistas, que todos os meses recebem em sua conta bancária a delapidação dos frutos de seu trabalho, sem o poder remediar, se sentem em tudo frustrados por não poder contrariar a injustiça de que são vítimas. Estes e outros vão ter de a suportar.
Mas também compreenderá que qualquer indíviduo que deseje lançar um negócio por sua conta e comece a fazer cálculos e projecções sobre o volume e rentabilidade do investimento e/ou da actividade que deseja iniciar, associando os custos fixos e/ou operacionais, adicionando-lhes os encargos por via de impostos mais o presumível retorno temporal das verbas equacionadas, e sabendo que não possui alternativa no mercado de emprego, não lhes restará outra saída para sobreviver que não a de colocar suas iniciativas longe dos olhos do fisco, do banco e das pessoas. E refiro-me a actividades normais: fora da droga, da prostituição e outras mais como vem referido no link que anexa.

Mas permito-me ir mais longe: se a emigração aparentemente pode ser uma solução para o país e para as pessoas que por isto optam o facto é que deixou-se de equacionar potenciais receitas sociais e económicas que são colocadas à disposição de outros que não investiram qualquer recurso na formação dessas pessoas, tenham elas o grau académico que tiverem. O estado empobrece com a emigração, empobrece com o desemprego e empobrece com o recurso inevitável à economia paralela. E é aqui que urge também travar a sangria proporcionada pela austeridade que mata no presente e seca os recursos futuros. Mas isto só é possível acontecer quando a Alemanha começar a cair, e vai acontecer.

Na realidade, essa diferença que aponta entre o conceito de estado entre um e outro ponto cardeal revela também o desleixo colocado durante séculos nas políticas dos países do sul (não me esqueço que esta obra em Portugal se inicia com especial relevo com Marcelo Caetano) que conduziram exactamente a esse status quo. E esta mesma atitude é extrapolada em medida altíssima nos governantes que apoderando-se dos órgãos do estado pensam ser estes pertença sua e não de todo um povo.
Claro está que isto não revela que a norte eles sejam perfeitos. A norte também gostam muito do "black money", do dinheirinho que vem pela porta do cavalo; sendo isto acessível a uma determinada parcela das populações. Compreenda-se também que quanto mais dinheiro se tem mais noção se cria do volume de dinheiro que se entrega ao estado e que pensa-se podia ser melhor aproveitado em qualquer outra actividade. E olhe que este pensamento não é destituído de lógica, para quem tem. Eu compreendo isto se tivermos em conta a perspectiva do reinvestimento do mesmo. Só nesta perspectiva.

Os governos só têm capacidade para detectar fugas enquanto o dinheiro girar pelos circuitos tradicionais. Olhe que os ricos que havia a leste da Europa viviam modestamente e apresentavam-se com roupas proletárias, e mesmo quando o muro caiu pagavam as mercadorias, para os negócios que iam iniciar (legais), em dinheiro a seus fornecedores. isto revela que mesmo nos estados super policiados não é pêra doce controlar o engenho e ambição das pessoas. Para isto basta somente viver sem vaidade e ostentação.
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De rmg a 17.03.2014 às 00:06


Vento

Mais uma vez agradeço o seu comentário .

A sua análise segue uma linha lógica segura e , como tal , compreende-se bem o raciocínio global mesmo que não se concorde totalmente com ele .
Mas não faria sentido analisar os aspectos em que não estou de acordo pela razão que apresentei : retirados do contexto em que os apresenta estaríamos a falar de outras coisas .

A questão que ponho é que a maior parte dos indivíduos que queiram lançar negócios que desejam duradouros não vão poder fazê-lo num vão de escada e sem dar satisfações a ninguém (tenho um filho de 43 anos que é pequeno empresário desde os 21) .

Isso funcionará certamente com determinadas profissões "de apoio" à nossa vida do dia-a-dia mas é limitado ao sujeito que nos desenrasca o carro ou o cano ou nos vende uns legumes lá da horta e que , a maior parte das vezes , ele próprio trabalha para empresas legalmente constituídas e faz uns biscates nos intervalos .

Não sei se a Alemanha irá começar a caír ou não , tenho as minhas dúvidas , também aí a nossa visão europeia nos pode pregar partidas .
O mundo agora é outro e se os europeus compram menos BMW (passe a "imagem") basta chegar a Xangai e ver os seus 200 mil táxis VW Passat (só em Xangai ...) para imaginar que há um mundo inteiro a crescer , que não os vai deixar "caír" assim tão depressa e onde eles têm vindo a tomar posições discretas mas seguras .
Mais depressa cairão os EUA , arrastando um pouco a Grã-Bretanha , isso é que me parece bastante preocupante sendo o dólar ainda a referência para muita gente e muita coisa (o caso das "commodities" é típico).
Para tal basta que os chineses se continuem a desfazer da dívida americana com o entusiasmo com que tem vindo a acontecer .

Assim , se de um ponto de vista teórico só lhe posso dar razão em vários aspectos , de um ponto de vista prático continuo sem saber o que acontece se não conseguirmos financiar-nos capazmente e em vez de a minha reforma (por exemplo) se ír pela via dos impostos ela se fôr pela via do rateio (nada de tão improvável que não valha a pena equacionar , não seria caso único) .
O resultado final para mim será o mesmo , o do país dir-me-à , mesmo muito mal gasto é dinheiro que circula e mexe ainda que eu o soubesse pôr a circular e a mexer muitíssimo melhor , claro está .

É que eu , que tenho algum rendimento e sempre vivi folgado mas sem "vaidade e ostentação" , sempre tive um carro bom mas nunca tive um carro novo em 49 anos de carta de condução pois para mim é dinheiro mal gasto algo que perde 25% do seu valor assim que desce a rampa do stand .
Mas basta-me olhar à volta para ver que a sua muitíssimo correcta perspectiva do "reinvestimento" , na maior parte das cabeças que nos rodeiam vai mais no sentido do carro novo (dei o exemplo do carro mas qualquer outra coisa daria).

Uma boa noite para si

PS- Tive que limitar um pouco a minha resposta porque o meu computador está aqui com umas manias , é o que dá emprestá-lo aos netos para os jogos deles . Acho que apanhei algum troiano que me duplica letras e salta linhas .
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De Vento a 17.03.2014 às 11:10

rmg,

compreendo o que quer dizer e a projecção futura que faz. Mas isto que refere só assumo num quadro de normalidade. Passo a explicar:

O quadro que nos apresenta sobre o vão de escada, onde contrariando esta perspectiva refere o exemplo de seu filho, que há 22 anos é empresário, tem todo o sentido, como referi, num contexto de normalidade e também no espaço temporal em que se enquadrou. Pretendo com isto dizer que quem já tem um negócio vai ter de mantê-lo, pois caso não fizesse perderia todo um projecto e o percurso até aqui percorrido.

Mas o cenário em que trabalhei refere um quadro extraordinário, isto é, o não ordinário, comum e estável, em que o rmg labora. Para isto é necessário compreender que Portugal nos próximos 30 anos, tendo em conta as definições presentes, não oferecerá nada mais que não a pedra que Sísifo carregou até ao topo da montanha e que rola agora pela mesma encosta esmagando tudo e todos que encontrar pelo caminho.
Aqui chegados, os que agora INICIAM e os que REINICIAM devem ter conscência que daqui por 30 anos terão 50, 70 e 80 anos e que durante este período o que estará em causa é a sua sobrevivência e dos seus e não pagar uma dívida que, da forma como apresentam para ser paga, vai continuar a safar meia dúzia de safados que gostam de jogar à roleta.
Asim sendo, e é perante o cenário descrito, a economia tem de ser "reinventada" neste quadro de sobrevivência sem esquecer que esta atitude se transforma em simultâneo numa resistência e contra-poder para alterar o poder instituído.
Sabendo eu que este tipo de economia mina os fundamentos de toda uma sociedade serão os próprios agentes da presente institucionalização (status quo) que sentindo-se ameaçados irão também criar pressões sobre o poder que até controlam para amortecer e/ou aliviar o peso da referida pedra, ocasionando certamente a tão almejada mudança.
Criar um negócio registado e entregar algum ao estado para desenvolver uma actividade paralela é o que de mais simples existe.
Não necessito de me alongar mais para exemplificar o que antecipadamente sei que compreende.
Mas quero que compreenda que esta atitude só a patrocino face ao contexto actual em que nos vemos todos amarrados pelos dentes draculianos dos agiotas.

Vamos agora à China e aos VW Passat só para recordar-lhe que essa produção é local. Mas devo recordar também que a China em termos de consumo efectivo para as empresas mundiais representa 300 milhões de habitantes. Isto para dizer que a Alemanha faria sempre um mau negócio se pensasse que conquistaria todos estes consumidores em detrimento dos 500 milhões que ela mesma integra. Isto para não esquecer que a segurança da Alemanha não é ela mesma mas todos estes 500 milhões. Faço-me entender?

Agora sobre o nosso financiamento, rmg. Não se esqueça que o nosso financiamento está garantido pelo simples facto de sermos devedores e devedores de tão avultada quantia. O papão do não financiamento é invenção daqueles que pretendem para ontem o dinheiro que colocaram na roda do jogo. E mais não digo.

E sim, compreendo o seu exemplo de "reinvestimento". Na realidade implementou-se um feira de vaidades que faz pagar um preço muito alto a quem para entrar nela tirou bilhete, sem esquecer os danos altíssimos e colaterais que foram gerados a todos quanto trabalhando para indíviduos com esses comportamentos foram penalizados em todo seu esforço.

Boa semana.
P.S. Sobre o eventual troiano. Faça o dowload do microsoft security essentials (num site da microsoft, é gratis e fiável) e corra o programa para eliminar as eventuais ameaças.
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De rmg a 17.03.2014 às 17:07


Vento

Pois já tinha feito tudo e mais alguma coisa , incluíndo o MSE que de facto é confiável , habitualmente sou eu que resolvo estas pequenas idiossincrasias dos computadores da família , saber também este de experiência feito mas que , como tal , fica longe de qualquer profissional .
Ao "desligar" no respectivo quadro o teclado fixo verifiquei que tudo acalmava pelo que o problema estaria muito provávelmente aí e estava , alguma sujidade fazia uma espécie de "ligações" directas nas teclas , nada que um técnico não resolvesse em 10 minutos .
Acontece que por melhor que seja o anti-vírus e por mais actualizado que esteja não apanha os "vírus do dia" todos e era isso que eu temia .
Muito obrigado pela dica .

Mais uma vez reconheço a excelente construção do seu raciocínio mesmo que não me reveja sempre nele .

Acontece que tenho 42 anos de trabalho em 5 distritos diferentes do país e vivendo sempre lá , nas sedes de concelho onde ficavam as indústrias onde trabalhei (a vários níveis , desde simples engenheiro a director-geral) , ainda que a minha mulher e os meus 4 filhos sempre tivessem vivido em Lisboa .
Também trabalhei noutros países mas isso é outra história ...

Ainda hoje tenho uma casa no interior do país , comprada por mim e não herdada , onde passo metade do mês e participo muito das actividades locais (não ser de lá ajuda-me a ficar equidistante de pequenas invejas e mesquinhezes - uma espécie de "fiel da balança" - as tais que não me levam a acreditar que haja assim tanta gente disponível para mudar seja o que fôr).

Isto para lhe dizer que sempre tive e ainda tenho um grande convívio com realidades que são substancialmente diferentes das que se me apresentam em Lisboa (onde nasci e onde vivo num bairro que ainda é uma "aldeia" onde todos se conhecem) e não deduzo das ambições de largas camadas da população que hoje ronda os 25 a 30 anos que estejam minímamente interessados em mudar o mundo , de tal modo que até os meus filhos (todos quarentões , bons trabalhadores e pais de família) me dizem que não compreendem essa geração a seguir à deles .
Como os que têm mais de 55 a 60 já não o querem fazer por receios variados...

De resto percebi desde o princípio que o seu raciocínio se centrava numa "situação de emergência" .
Mas quando ainda hoje almoçava com um amigo meu num restaurante banalíssimo de um não menos banalíssimo centro comercial dos arredores de Lisboa e só via miudagem certamente não oriunda de famílias ricas com telemóveis que eu nuca compraria por achar dinheiro mal gasto ou com os famosos tablets que também dispenso , pensava que podemos ter as melhores intenções do mundo mas não é nada disso que irá acontecer .

Eu sei que a indústria é local (os carros nem são bem iguais aos que conhecemos) mas do ponto de vista alemão é igual , o know-how é deles , as royalties são deles , a mão-de-obra não é mas aí podem ter contrapartidas interessantes com a manufactura local do que se chama " marcas brancas" .
Eu próprio já beneficiei disso num VW que tenho .

Neste momento serão 300 milhões lá e 500 milhões aqui , mas os de lá são maioritáriamente jovens e fussões e os de cá estão a ficar velhos e acomodados , isto não augura nada de bom.

Quanto ao nosso financiamento e a forma como o apresenta acho que é o que o meu caro gostaria (e eu também , porventura) mas não é necessáriamente assim, sermos devedores não nos garante nada porque somos muito pequenos .
A economia espanhola não está melhor que esta (conheço aquilo bem) mas representa sózinha o triplo da nossa mais a da Grécia e a da Irlanda ...
dependemos mais do que acontecer lá do que daquilo que fizermos aqui , ainda que isso não sirva de desculpa para cruzarmos alegremente os braços , ça va de soi .

Há um ano a situação aqui ao lado era esta e não me consta que tenha melhorado substancialmente , logo ali que é para onde mais exportávamos :

http://www.eldiario.es/economia/graficos-paro-infografia-
EPA_0_93790722.html

A feira de vaidades está a muito níveis e não só no de alguns privilegiados .
Mais uma vez lhe falo de como é a sociedade vista da cidade (onde tudo se diluí) ou dos campos (onde nada nos escapa) , vale a pena para quem o puder fazer passar uns dias numa ou duas cidades ou vilas do interior ...


Uma boa semana também para si
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De Vento a 17.03.2014 às 23:16

rmg, em matéria informática, assim como noutras, às vezes o problema é simples e a viciação do pensamento encontra sempre maiores obstáculos que aqueles que na realidade ocorrem. Também sei o que refere.

Antes de tudo parabenizo-o por seu "Curriculum Vitae", onde se inclui a família de que orgulhosamente realizado tanto fala. Quando aí chegar, aos 42 anos de serviço, espero recordar estas suas palavras.
Quando me refiro aos anos de experiência costumo dizer que tenho 1 ano por cada ano de vida, o que me ajuda a estabelecer alguma paridade perante os interlocutores e mostrar-lhes que todos eles foram uma experiência única que desejo partilhar, absorvendo a de cada um sem nunca falar sobre mim. Vários desses anos, vários mesmos, em diferentes cenários e cenários geográficos, alguns deles duros: por nascimento, por não restar alternativa e por desempenho profissional. Mas permita-me dizer que tenho a oferecer ao mundo os caminhos aplainados sobre os erros, que presumo ser uma virtude. Isto é, aplainar os erros herdados, exercidos e consentidos. E todos os dias pedir a graça de os reconhecer mesmo diante das batalhas que se travam.

Compreendo-o sobre as invejas e mesquinhezes, são o mesmo em toda a parte. Por isso mesmo entendo que há muito para mudar, fazendo, sempre que possível, entender que a mudança é luta de cada um contra si mesmo. Mas as heranças têm um peso tal e aparentemente tão uniformes que por vezes, já no combate e continuando a fazê-lo, me sentia excluído desta existência.

Sim, também olho para a miudagem. E quando olho para eles, oro; lembrando sempre os meus, de todos da família.
Permita uma confidência: a oração abre as portas dos céus; e quando oramos pelos outros também o fazemos por nós e transformamos o mundo.

Sim, aparentemente não augura nada de bom o nosso envelhecimento. Mas o instinto de sobrevivência prevalecerá sobre a irracionalidade. E este instinto pode abrir as portas à constituição de uma verdadeira família universal. Certamente que me compreende.

Quanto ao financiamento. Sim é o que desejo e acredito que vai acontecer, pois não estamos sós neste cenário. Já somou a população de Portugal `a população de Espanha, da Grécia, da Irlanda, da França, da Itália, de Chipre e dos outros mais que se seguirão?

Sim, Espanha é mais forte. E para o demonstrar não aceitou os "senhores de fato cinza". E muito tem feito de diferente relativamente a nós, à Irlanda, Itália, França e Grécia.

A feira das vaidades geralmente ocorre em quem é menos priveligiado, talvez por isto.

Compreendo e conheço essa aparente dicotomia entre cidade e campo. Eu disse aparente.
Mas gosto dos verdes, dos ares e das palestras próximas de um crepitar de lareira ou da salamandra; e gosto muito do ruído do silêncio. É aí que por vezes se ganham forças.

Grato, muito grato, por este tempo de partilha.


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De rmg a 18.03.2014 às 18:05


Vento

Muito curioso o que começa por dizer e que partilho totalmente .
Quantas vezes não resolvi pequenos problemas informáticos de forma intuitiva e quando os discutia com técnicos de informática eles me díziam "isso não é assim que se faz mas , de facto , nunca tinha pensado nessa possibilidade" .
Como não vinha nos livros ...

E isso remete-nos para os meus netos que ainda muito pequeninos se sentavam aqui no computador e íam "por aí fora" para meu espanto .
Agora , a meio da adolescência , já começam a ter os tais vícios de raciocínio de que tão bem fala e as coisas já não são tão lineares .

Quanto às questões da família de que tanto me orgulho é evidente que nem tudo foram e são rosas e por vezes há discussão que ferve - mas é daí que nasce a luz e a confiança pois todos sabemos que só nos ralamos uns com os outros porque estamos preocupados uns com os outros .
E é o que tantas vezes nos faz muita falta como sociedade .

Como sempre disse aos filhos e agora digo aos netos : o último gajo que te chateia o juízo porque gosta de ti sou eu , a partir daqui só vais ter gajos a chatearem-te o juízo porque lhes apetece .
Passe a caricatura , é grosso modo assim .

Ainda agora apanhei um autocarro ali em Alvalade e vim lá dentro uns 20 minutos com um grupo de miudagem (eles e elas) ali entre os 18 e os 22 anos , óbviamente de famílias pouco abonadas .
E vieram-me várias vezes à cabeça as nossas conversas aqui : como já lhe disse é toda uma geração que , muito (senão tudo) por culpa das que a antecederam , não quer mudar nada porque até hoje quase tudo teve .

Claro que somei as populações desses países mas são muitos no papel mas poucos na vontade colectiva , o cada um por si será sempre a regra , com a França à cabeça (o francês é a minha 2ª língua "materna" , topo-os razoávelmente).

A Espanha tinha (e tem) 2 problemas grandes que nós não tínhamos nem realmente temos quando comparados com eles , a banca e o imobiliário .
Se para acudir à banca acabou por aceitar alguma forma de imposição dos senhores do "fato cinza" acaba por manter uma situação muito complicada no imobiliário , basta atravessar a fronteira para constatar as "cidades fantasma" que por lá proliferam .

Não há de facto dicotomia cidade-campo , o que eu pretendi dizer (e creio que disse) foi que na cidade tudo se diluí e no campo tudo se nota .
Numa pequena vila é impossível que alguém com dificuldades se pavoneie por mais que uma semana demonstrando sinais de riqueza evidentes , toda a gente sabe que não é assim .
Numa cidade há pessoas que podem passar uma vida inteira nisso que ninguém liga .

De resto eu viveria sempre no campo agora que não tenho obrigações de me apresentar ao serviço todos os dias e cheguei mesmo a fazê-lo no último ano .
Mas problemas de saúde complicados e muito (demasiado) próximos de mim devolveram-me à cidade com algumas escapadelas mensais .

Também eu lhe agradeço esta tão franca troca de ideias
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De Vento a 19.03.2014 às 23:51

rmg, umas palavrinhas rápidas para expressar-lhe a minha solidariedade neste momento difícil que atravessa. Espero que tudo volte à normalidade o mais breve possível.

Absolutamente de acordo com o seu princípio sobre a estrutura familiar e pela falta dessa referência que nos dá conta, o Amor forte e determinado. Quantos de nós adultos também não a desejariamos ter possuído.

Refere que seus netos estão na adolescência. No Brasil chamam de aborrecência, e quem se encontra nessa fase leva por nome "aborrecente". É a fase em que eles aborrecem mesmo.

Também topo os franceses, e presumo que pelo mesmo óculo que o rmg topa.

Sim, Espanha apresenta aspectos diferentes.

Foi um prazer este encontro.

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De rmg a 20.03.2014 às 21:45


Vento

Mais uma vez lhe expresso os meus agradecimentos pelas suas palavras , há momentos na vida em que parece que acontece tudo ao mesmo tempo , o facto de sempre ter sido assim não nos deixa mais bem preparados , somos sempre apanhados nestas engrenagens .

De facto temos todos que saber que "estamos lá" sempre que é preciso , mesmo quando nos vemos pouco ou vivemos longe uns dos outros (como já referi um dos meus filhos passa largos períodos por ano a trabalhar fora do país e outro deles esteve emigrado algum tempo) .

Muito curiosa e muito engraçada a expressão da "aborrecência" , que desconhecia .
Talvez porque não conheci nenhuma Avó ou Avô , acabei por me tornar um avô que mistura uma enorme dose de paciência com um espírito razoávelmente rígido , convencido como estou que a vida nunca foi fácil e o futuro o será ainda menos .
Mas fui avô a partir dos 54 anos , isso ajuda ...

Muito lhe agradeço a oportunidade desta conversa que temos mantido

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De Pedro Correia a 21.03.2014 às 22:54

Venho a agradecer a ambos a qualidade, a substância e a elevação do diálogo que em boa hora decidiram travar nesta caixa de comentários. Este blogue existe também para isso. E orgulha-se naturalmente disso.
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De cristof a 15.03.2014 às 18:23

apoiado a 100%

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