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Sobre Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno

por Inês Pedrosa, em 04.09.16

Barreno.jpg

 

Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco - Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 - Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros - deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.    

"Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim  à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do  «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(...)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66)  «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa»."


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