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O Parlamento Europeu aprovou recentemente a resolução sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa, por ocasião do 80º aniversário do início da Segunda Guerra Mundial.

Além de outros detalhes o documento dá enfoque i) aos massacres, ao genocídio, às deportações, aos crimes contra a humanidade e violações em massa dos direitos humanos perpetrados pelos regimes nazi e comunista, ii) ao facto de os crimes do regime nazi terem sido julgados e punidos nos julgamentos de Nuremberga e o mesmo nunca ter sido feito relativamente aos crimes do Estalinismo, iii) ao trágico passado da Europa que deve continuar a servir de inspiração moral e política.

O PS enquanto partido humanista e responsável membro do PSE votou favoravelmente o documento em Estrasburgo. Mas entretanto, quando o mesmo foi colocado à votação na Assembleia da República, mudou de posição. Estas incoerências estão incluídas nas demais que fazem de António Costa um político hábil. Em política a maleabilidade é uma habilidade. Já sabíamos isso há muito mas neste caso específico podemos avaliar mais um caso em que se consegue trocar princípios por fins. Sabemos que não quer irritar os seus ex-futuros parceiros. Para que algo idêntico fosse aprovado no nosso Parlamento foi necessário retirar a palavra comunismo do documento.

A expressiva votação do Parlamento Europeu de 535 contra 66, com 52 abstenções, foi possível com forte apoio dos deputados dos Estados Membros que pertenceram ao lado de lá da Cortina de Ferro. Eles conheceram os regimes nazi e comunista, sofreram os seus crimes contra a Humanidade e por eles foram privados da sua liberdade. Recordam-se disso e não terão duvidado em escolher de que lado queriam estar nesta simbólica tomada de posição.

Os comunistas estão convencidos que pelo combate que deram aos nazis acumularam karma points suficientes para os ilibar dos mais de 100 milhões vitimas que causaram. No fundo a tomada de posição do Parlamento Europeu anula exactamente esse argumento desrespeitoso da memória das suas próprias vítimas.

Sem nos surpreender, os comunistas tugas, e demais partidos radicais, irritaram-se com tudo isto.

Não podemos negar que o PCP dá um toque vintage ao espectro político português. Foices e martelos nos parlamentos europeus são uma antiguidade e em toda a Europa nenhuma loja de ferragens razoavelmente séria se arrisca a inclui-los na mesma família de produtos. Martelos estão nas ferramentas e as foices nas alfaias. Mistura-las na mesma prateleira ou corredor dá má fama à casa.

Pelo exotismo, o nosso PCP bem podia ser transformado em mais uma atração turística do nosso país. Um bocado como os golfinhos no Jardim Zoológico embora com menos cor e alegria.

Conhecendo a imensidão de crimes que foram cometidos pelos comunistas, e depois olhando para o nosso PCP a definhar, temos de acabar por ser portuguesmente condescendentes para com eles. Se tivessem cometido uma fracção dos crimes que motivaram a referida votação já teriam sido varridos da nossa vida política. Existem por puro conservadorismo dos seus eleitores o que não deixa de ter graça para um partido que se diz revolucionário.


16 comentários

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De Luís Lavoura a 19.11.2019 às 17:30

Eu acho que por essa Europa fora foices já nem na secção das alfaias se encontram. São coisas próprias da lavoura arcaica.
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De Paulo Sousa a 19.11.2019 às 18:55

Foi-se o Muro e o Cunhal
E nunca mais foi nada igual
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De Anónimo a 20.11.2019 às 12:19

Lavoura arcaica ou arcaico?

lucklucky
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De Anonimus a 19.11.2019 às 18:28

Não vi o debate nacional, apenas trechos de intervenções, mas gostei da parte em que "condenar o comunismo" implica "limpar a imagem do fascismo".
Pessoalmente, estas resoluções dizem-me pouco, a História não se escreve por decreto (oh, ironia), e não será um qualquer Parlamento a legitimizar
ou equiparar regimes, ou o seu oposto. Mas admito que gostaria de ter visto uma intervenção sem tretas, e apenas com factos e números: Stasi, Securitate,
Muro de Berlim, X gulags, Y mortos sob o regime de Pol Pot, Grande Purga de Stalin, direitos das minorias étnicas, liberdade religiosa...
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De Paulo Sousa a 19.11.2019 às 18:37

A história não é o mesmo que historiografia e tantos crimes depois só se podem agarrar a esta última.
De resto, debater com eles acaba sempre por ser um bocado circular. Os dados não contam para nada uma vez que contra mitos não há argumentos.
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De Anónimo a 20.11.2019 às 12:26

"Mas admito que gostaria de ter visto uma intervenção sem tretas, e apenas com factos e números: Stasi, Securitate,
Muro de Berlim, X gulags, Y mortos sob o regime de Pol Pot, Grande Purga de Stalin, direitos das minorias étnicas, liberdade religiosa..."

Precisamente, ainda melhor explicar porque é que no conceito de poder Marxista - um conceito primitivo, sem separação de poderes,são inevitáveis as matanças inclusive de próprios comunistas.

Quando se é Supremacista Social acaba-se assassinar todas as classes sociais que estão contra, a partir do momento em que se encontra alguma resistência e se tem poder para tal.


lucklucky
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De Paulo Sousa a 20.11.2019 às 22:59

Os russos e os habitantes das demais repúblicas soviéticas têm a sua quota parte nos cem milhões de vítimas.
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De António Vaz a 19.11.2019 às 19:39

A Resolução do Parlamento Europeu, de 19/09/2019, (dito pomposamente) Sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa, é apenas uma resolução política que tenta fazer vincar a visão histórica dos vencedores da guerra fria... as chamadas democracias europeias julgam-se moralmente superiores porque os seus defensores pretendendo sofrer de amnésia selectiva, pretendem apagar parte da História, como quaisquer outros fascistas ou estalinistas o fizeram! A sua atitude perante a intervenção nazi-fascista em Espanha ou até o Pacto de Munique foi eliminada da sua História. Direitos humanos? Claro, a sua atitude colonial mesmo até após a suposta criação de nova ordem internacional (https://www.theguardian.com/news/2016/aug/18/uncovering-truth-british-empire-caroline-elkins-mau-mau // ou // https://www.theguardian.com/commentisfree/2012/jul/05/50-years-algeria-independence-france-denial) revela toda a sua hipocrisia, mesmo ainda hoje e é, por isso que, até têm a lata suficiente para apontar aos "comunistas" o Pacto Molotov-Ribbentrop sem corarem (porque apagaram da História) perante as inúmeras fotos de um Churchill, todo sorridente ao lado do Estaline mas lá está, só Truman até deveria saber o que eles tinham tanto em comum para falar, quando não tratavam dos assuntos mais sérios que levam a esses tipos de pactos: será que trocavam galhardetes sobre o número das vítimas das suas políticas (https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2019-02-16/churchill-was-more-villain-than-hero-in-britain-s-colonies)?
Mas entretanto é evidente que neste blogue, teria de haver alguém "politicamente incorrecto" a revelar mais um suposto fantasma: porque raio é que o António Costa não escreveu lá comunismo?
Eu até tenho uma explicação simples para isso...
(mas fica para o 2.o "post"... é que eu não sei se V. sofre do problema do Pedro Correia, que não consegue acompanhar qualquer "post" com mais de linha e meia...)
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De Paulo Sousa a 20.11.2019 às 23:02

Calculo que onde escreveu “post” deveria querer dizer “comentário”.
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De António Vaz a 19.11.2019 às 21:30

(E cá vai o 2.o "post" onde revelo porque o António Costa - e não o PS, de acordo com o autor! - apagou o "comunismo" da sua proposta...)
Pelo que li algures, o pai do António Costa era comunista e, por isso, julgo eu, ele deve saber o que ele (e a sua família, se não se incomodar com a sua inclusão abusiva na lista de vítimas) passou com o governo que, como sabemos, só não é dado como apenas autoritário pelos que exigiram a réplica da versão "europeísta", porque no momento da verdade lhes falta um pouco daqueles produtos agrícolas "vermelhos" - lá chamarem-nos de fascistas, isso é que era um verdadeiro milagre político.
Mas mais: ele também sabe que no 25 de Novembro de 1975, o PCP do seu pai até obedeceu caninamente às ordens de Moscovo para terminar com toda aquela loucura esquerdista do poder ao povo e à aliança proletária-militar, aliando-se num verdadeiro milagre político, não só com o MRPP mas também com o único político gago que nunca recebeu qualquer contestação séria (será porque não era tão escurinho como aquele dos 3 reis magos do FMI?) por isso: o Ramalho Eanes!
Sim, eu até reconheço essa lengalenga de que com os «535 contra 66, com 52 abstenções, foi possível com forte apoio dos deputados dos Estados Membros que pertenceram ao lado de lá da Cortina de Ferro. Eles conheceram os regimes nazi e comunista, sofreram os seus crimes contra a Humanidade e por eles foram privados da sua liberdade.»: é a habitual lengalenga semântica política que por cá se mascara em «todo o totalitarismo é inaceitável» mas depois lá vem a estorieta do "autoritismo": dos 751 eurodeputados, a vasta maioria deles nem nunca viveu em qualquer regime fascista ou comunista... e, mesmo, dos 193* deles, vindos do Leste, os que têm qualquer lembrança dese período, o de viverem sob regimes comunistas, só podem ter lembranças do tipo de andarem num triciclo num qualquer jardim ou terem de usar fraldas de pano porque não havia das outras mas o que é que isso interessa para este comentário?
Nada!
Aqui o que interessa, sejamos sinceros, nem é sequer condenar o fascismo (por isso até reduzido esencialmente apenas ao nazismo) mas sim o comunismo: nada de novo, quando os fascistas arreganhavam as dentuças, nos anos 30, já todos os democratas europeus andavam apenas preocupados com os comunistas!
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De Paulo Sousa a 20.11.2019 às 23:15

Pelo que entendi está incomodado pela votação ter como que mostrado um cartão vermelho ao comunismo. Se é esse o caso é legítimo que mostre a sua discordância na forma de um comentário. Felizmente temos todos esse privilégio sem correr o risco de ir para a Sibéria. Muitas das vítimas do comunismo fizeram bem menos do que um comentário para terem tido tal tratamento.
Celebremos então por podermos discordar sem arriscar o pescoço.
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De Vento a 20.11.2019 às 11:23

Estrasburgo pretende branquear sua conduta com esta deliberação. E o branqueamento resume-se ao facto de, com excepção para os crimes como os do nazismo e estalinismo, ter adoptado a mesma regra asfixiante para que alguns dominem sobre todos os demais, incluindo através da repressão legislativa e judicial.
Dito isto, erro crasso será usar a palavra comunismo sem distinguir que dentro do comunismo existem partidos e grupos de comunistas, a leste e oeste, com vocação democrática, citando dois nomes a título exemplificativo: Santiago Carillo, em Espanha, e Berlinguer em Itália.
Outra coisa será falar dos extremistas revisionistas ditos de esquerda, como é o caso do Bloco em Portugal e de outros mais na Europa.

O PS segue a tradição dos "nem nem", para continuar a clarificar a nação que não é nada para além de umas vaidades pessoais.
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De Paulo Sousa a 20.11.2019 às 23:23

Pode fazer a hierarquia que entenda desde o Lenin até ao avô Jerónimo, mas como todos eles se revêm na “ditadura do proletariado” fico logo esclarecido.
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De Anónimo a 21.11.2019 às 02:30

Pois, Carrillo, Berlinguer e Marchai os chamadas euro-comunistas, desapareceram.
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De Vento a 21.11.2019 às 13:15

Esta resposta é para o Paulo Sousa e para o anónimo.

Claro que desapareceram. Mas exactamente para provar que a sua base social e filosófica não era a ditadura do proletariado e, isto sim, uma outra concepção.
Por outro lado, creio que ninguém se deu conta que mesmo essa dita ditadura do proletariado não podia colher qualquer base proletária em um país onde menos de 6% da população trabalhava como proletário.
Significa isto tão somente que a própria revolução de Outubro teve de inverter seu rumo quando os camponeses se opuseram à tomada de suas próprias terras, estes que até nem eram latifundiários.

Sobre o comunismo e as influências de Lenine e outros mais na revolução de Outubro, em matéria de consistência programática, é necessário conhecer mais e melhor antes de se avançar com comendas típicas de Estrasburgo. Da mesma forma acontece sobre a (r)evolução chinesa, que manteve todos e os demais tiques das dinastias imperiais. Aliás, China significa "Império do Meio". Se olharem para a política actual da China verificarão que é isto mesmo que eles buscam: voltar a ser o Império do Meio.
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De Vento a 21.11.2019 às 13:22

Para acrescentar ao anterior comentário: Marchais não era um eurocomunista, pois ditou a sua sentença ao aliar-se ao comité Central do PCUS na invasão da Checoslováquia e ao opor-se ao Maio de 68.
O que fez Marchais acabar foi precisamente a sua concepção retrógrada alinhada à URSS.
O mesmo acontecerá com o PCP. Sendo que os extremistas e revisionistas do Bloco caviar, que possui e vive numa concepção burguesa anarquista, estão a demonstrar o canto do cisne. Estes revisionistas até já dizem que são socias-democratas.

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