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Sobre a Eutanásia (2)

por Paulo Sousa, em 14.02.20

Os Xás da dinastia Pahlavi da Pérsia, actual Irão, pretendiam modernizar e ocidentalizar o país. Sabiam que isso iria criar uma grande fricção com os sectores mais tradicionalistas mas não vacilaram. Ainda antes da Segunda Guerra Mundial exigiram que as mulheres deveriam ter no mínimo 15 anos para se casarem, passaram a permitir os divórcios, e deram iguais direitos de acesso à educação aos dois sexos. Além disso, proibiram o véu islâmico.

Quem é que nos dias de hoje, observando estas medidas com os olhos de 2020 aqui encontraria desequilíbrios? Acontece que a proibição do véu islâmico levou a que inúmeras mulheres preferissem não sair de casa a ter de o fazer com a cabeça descoberta. E isso levou a que ficassem dentro de casa durante os resto dos seus dias.

Algumas décadas mais tarde, as senhoras que sobreviveram a esta proibição, os seus filhos e filhas, celebraram efusivamente a Revolução dos Aiatolas.

Este é um exemplo de como uma medida que pretendia “modernizar” um país, imposta rigidamente de cima para baixo, sem respeitar as convicções dos seus cidadãos, acabou por marcar negativamente uma geração. As mulheres iranianas vivem agora sufocadas com uma proibição simétrica.

Lembrei-me disto agora que esta maioria de circunstância quer aproveitar o momento para impor uma prática sobre a qual o país não está claramente decidido. Está tão convicta que é “agora ou nunca” que não aceita um referendo. Tal como o Xá Pahlavi não duvidam que as suas convicções devem ser a convicções dos cidadãos e desprezam quem não pensa da mesma maneira.

No minuto seguinte lembram-nos que devemos combater os populistas, que criticam a classe política por viver desligada das convicções dos cidadãos.


4 comentários

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De Vento a 14.02.2020 às 22:21

Estou em crer que essa da dinastia Pahlavi ter pretendido modernizar o Irão no sentido de igualizar os géneros, pode ter sido mais uma falsa questão ou até mesmo uma imposição que propriamente uma convicção governamental.

Ao ler o seu texto, de imediato recordei-me de Oriana Fallaci - uma jornalista e entrevistadora sem igual ainda hoje, que sempre li atentamente - e de uma entrevista por ela realizada ao Xá.

Transcrevo aqui uma parte dessa entrevista, cuja ligação anexarei de seguida:

Q: How strange, Your Majesty. If there is a monarch whose name has always been associated with women, it’s you. And now I’m beginning to suspect women have counted for nothing in your life.
A: I fear your suspicion is justified. Women, you know… Look, let’s put it this way. I don’t underestimate them, as shown by the fact that they have derived more advantages than anyone else from my White Revolution. I have fought strenuously to obtain equal rights and responsibilities for them. I have even incorporated them in the Army, where they get six months’ military training before being sent to the villages to fight the battle against illiteracy. Nor should one forget that I’m the son of the man who removed women’s veils in Iran. But I wouldn’t be sincere if I asserted I’d been influenced by a single one of them. Nobody can influence me, nobody at all. And a woman still less. In a man’s life, women count only if they’re beautiful and graceful and know how to stay feminine and… This Women’s Lib business, for instance. What do these feminists want? What do you want? Equality, you say? Indeed! I don’t want to seem rude, but… You may be equal in the eyes of the law, but not, I beg your pardon for saying so, in ability.

Q: Aren’t we?
A: No. You’ve never produced a Michelangelo or a Bach. You’ve never even produced a great cook. And don’t talk of opportunities. Are you joking? Have you lacked the opportunity to give history a great cook? You have produced nothing great, nothing! Tell me, how many women capable of governing have you met in the course of interviews such as this?

Q: At least two, Your Majesty. Golda Meir and Indira Gandhi.
A: Hm… All I can say is that women, when they are in power, are much harsher than men. Much more cruel. Much more bloodthirsty. I’m quoting facts, not opinions. You’re heartless when you’re rulers. Think of Caterina de’Medici, Catherine of Russia, Elizabeth I of England. Not to mention your Lucrezia Borgia, with her poisons and intrigues. You’re schemers, you’re evil. Every one of you.

Aqui está a ligação:
https://newrepublic.com/article/92745/shah-iran-mohammad-reza-pahlevi-oriana-fallaci

No entanto, no geral, concordo com o sentido de sua reflexão.
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De João Brito Levandeira Silva a 14.02.2020 às 22:48

É por essa e por outras que nenhum estado ou referendo tem que se meter num assunto que é da consciência de cada um.
O parlamento não quer o referendo, porque teme que o resultado lhe seja desfavorável.
Os que são contra a eutanásia querem agora o referendo porque temem o resultado no parlamento.
Ou seja, uns e outros estão-se nas tintas para o povo: uns tapam-lhe a boca; os outros querem aproveitar-se da resistência das maiorias à mudança.
Ou seja, regime não serve o povo - serve-se dele.
Como o advogado que recebe o dinheiro do constituinte, mas defende a outra parte.
Um nojo!
Como sempre.
E vamos entregar a decisão da nossa vida ou da nossa morte a esta gente?!
Obrigado!
Eu decido por mim.

João de Brito
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De Vento a 15.02.2020 às 10:12

Na relação entre o forte e o fraco é a liberdade que oprime, e a lei não liberta.

Quem se julga forte são aqueles que através de um golpe parlamentar, e por cumplicidades ligadas a interesses de poder, têm vindo a criar regras na esperança de subverterem os princípios sociais e corromperem outros mais.

Perante esta situação, a dos sucessivos golpes parlamentares contra a natureza social, isto é individual e colectiva, que pretende transformar a mentira em verdade, a identidade em semelhança e igualdade, o crime em caridade, a liberdade em libertinagem, a permissividade em promiscuidade, nada mais resta que contrariar a prepotência, a ditadura e o delírio com as armas disponíveis para tal.

A eutanásia, para que não se enrede nos estigmas do crime, engenhosamente é designada por "suicídio assistido", fazendo do assistente um caridoso e não criminoso. É uma designação paliativa para amainar a consciência de quem entrega a "arma" mas não dispara, sabendo o que vai acontecer.
Os abortos estão impunes, porque, segundo dizem, quem os pratica até sofre bastante com isso. Legaliza-se por um lado o desespero por outro a leviandade e por outro a ignorância.
Também para isto, não faltando os discursos doloristas, romancearam uma fórmula para legalizar o crime: Interrupção Voluntária da Gravidez. Em resumo, não é aborto, interrompe-se a gravidez e não o desenvolvimento de uma vida.

Nas ondas feministas e igualitárias são as quotas que determinam a igualdade. Ou seja, basta uma igualdade meramente numérica para que esta se torne substantiva.
Também se determina por lei o sexo; e a natureza, isto é os cromossomas, já não interferem na determinação. O género é fruto de um acto administrativo.

É a lei que contraria o comum, o natural e não beneficia as relações entre as diferenças, cria guetos. Portanto, a engenharia social, isto é, a lei produzida, é uma fonte de conflitos e contradições.
O estado, que devia ser uma fonte de coesão entre seus cidadãos, estabelece o conflito.

Se perante um ataque desta natureza nos colocarmos nos refúgios neutros da consciência, aquilo que pretendemos dizer é que consentimos e aplaudimos o que daí vira.
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De marina a 15.02.2020 às 09:48

Não deveria ter proibido o véu , quem queria usava , quem não queria não usava e todos amigos.. Ora , a eutanásia é para quem quer ter essa hipótese caso ocorram determinadas circunstancias...e quem não quer , não come , mas também não estraga.
E não percebo , sério, como os vidrados em dogmas olham com naturalidade o espírito ficar preso num bocado de matéria quase inerte adiando o encontro com o Senhor.. Prezam mais o corpo , mesmo praticamente morto ,respirando à conta de quinquilharia humana , do que a alma. Não tem lógica nenhuma.

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