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Só é óptimo se parecer péssimo

por Pedro Correia, em 24.04.16

20120926_ZubrinDDTNaples[1].jpgSoldado americano utiliza DDT para prevenir malária (Nápoles, Janeiro de 1944)

 

Vi há dias um interessante debate sobre o rumo e o destino da chamada "comunicação social" num programa televisivo da RTP3, O Último Apaga a Luz, dedicado à análise dos media contemporâneos. Sem clichês, sem chavões, sem o pensamento pronto-a-papaguear que é habitual escutarmos noutros programas. Com Joaquim Vieira, Raquel Varela, Rodrigo Moita de Deus e Virgílio Castelo.

A certa altura a Raquel Varela disse uma frase que não resisti a transcrever aqui: "A comunicação social está permanentemente a mostrar aquilo em que a Humanidade é incapaz e a ocultar aquilo de que a Humanidade é capaz."

 

Penso com muita frequência nisto: o discurso jornalístico reflecte hoje uma crescente tabloidização da realidade, descrevendo-a como um local infrequentável. O mundo retratado na generalidade dos órgãos de informação contemporâneos está povoado de calamidades e cadáveres, de fobias de todo o género, de anátemas lançados ao modo como vivemos e convivemos.

O sangue vende como nunca, o medo instala-se, o temor de sair à rua devido a um milhão de causas - desde os assaltos nos multibancos aos raios ultra-violetas potenciados pelo "aquecimento global" - induz cada um a entrincheirar-se nas quatro paredes domésticas, trocando o real pelo virtual.

"O inferno são os outros" - nunca a frase de Sartre pareceu tão actual como nos nossos dias.

 

E no entanto há outro mundo que pulsa e vibra além das manchetes da imprensa. Um mundo que "não sai no jornal", parafraseando o verso de Chico Buarque. Esta semana, ao fundo de uma página interior do El País, na secção de Tecnologia e Ciência, li este título: "Europa livre de malária".

A Organização Mundial de Saúde declarou este continente onde habitamos finalmente imune à doença, que matou 438 mil pessoas em todo o mundo só no ano passado e era endémica no sul da Europa - incluindo Portugal - até à geração dos meus pais. Vinte dois mil soldados norte-americanos adoeceram com malária na Sicília durante a campanha militar para a conquista da ilha, no Verão de 1943. Apenas no pós-guerra os mosquitos portadores da doença começaram a ser combatidos com eficácia, graças à generalização do DDT, o primeiro pesticida moderno.

Uma boa notícia, portanto. E daí ter sido varrida para a parte inferior da hierarquia informativa. Não é má, não transmite receio nem angústia - portanto, não vende. Logo me lembrei, perante este exemplo concreto, de uma reunião de editores no Diário de Notícias. Ousei sugerir que todos os anos - num dia apenas, coincidindo com o aniversário do jornal, a 29 de Dezembro - fizéssemos aquilo que me parecia, e parece ainda, um estimulante exercício intelectual: produzir uma edição em que todos os temas fossem escritos num ângulo positivo. Seguindo o princípio de vermos o copo meio-cheio, não meio-vazio.

Quase todos os meus colegas olharam para mim como se eu estivesse afectado por loucura momentânea. E logo a questão foi arrumada em duas palavras: "Não vende."

 

A mesma lógica que leva o fim da malária na Europa a merecer apenas uma nota de rodapé: de acordo com este raciocínio dominante, só as más notícias parecem verdadeiramente boas.

Se em vez de mau for péssimo, ainda melhor.

Mas - convicto ainda de ter apresentado uma sugestão que devia ter merecido luz verde nessa reunião de editores, há mais de uma década - interrogo-me: se só a tragédia e a catástrofe "vendem" por que motivo continuam a fechar tantos jornais?


12 comentários

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De Ana C. Leonardo a 24.04.2016 às 11:07

É curioso! Com os resultados de investigação científica aplicada passa-se exactamente o contrário: maus resultados 'não vendem' (i.e. não são publicáveis), o que tem consequências dramáticas no que respeita à optimização de recursos materiais e humanos.
A.C.Leo
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De Pedro Correia a 24.04.2016 às 17:43

Curioso mesmo, Ana. Nunca tinha pensado nisso. É cada vez mais difícil satisfazer seja quem for.
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De jj.amarante a 24.04.2016 às 20:38

Há bastante temp que tinha constatado isso: nos jornais temos um mundo em que a esmagadora maioria das notícias são más e as decisões tomadas foram muito erradas, é o mundo negro. depois existe o mundo dos artigos científicos onde se relatam os magníficos sucessos obtidos pelos autores, é o mundo cor-de-rosa. Numa perspectiva benevolente, no mundo dos jornais os opinadores fazem o papel dos treinadores de bancada, que fazem sugestões de melhoria em relação aos resultados obtidos. No caso dos artigos científicos, se os autores tivessem uma ideia que parecesse melhor do que a que tiveram tê-la-iam aplicado. Ao ler os jornalistas deve-se dar o desconto que provavelmente não estão ao par de todos os pormenores do problema, no caso dos autores que talvez existam soluções melhores do que as apresentadas.
Mas voltando aos jornais li no Expresso de ontem um artigo sobre a vida difícil dos trabalhadores das minas de carvão chinesas que estão a ficar desempregados porque muitas delas estão a fechar! Sendo conhecida a enorme poluição existente na China devido à queima, ainda por cima em condições deficientes, de grandes quantidades de carvão, e sabendo-se das más condições de trabalho das minas chinesas o lado positivo do encerramento de minas de carvão parece-me muito maior do que o desemprego que se espera temporário dos respectivos trabalhadores.
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De Pedro Correia a 24.04.2016 às 20:50

Aí está um exemplo concreto de uma notícia à partida negativa mas que pode ser elaborada sob um ângulo positivo. Claramente, como aponta, as vantagens são superiores aos inconvenientes. Porque a China é um dos países do mundo com níveis mais intoleráveis de poluição - gerada sobretudo pela queima de carvão industrial. Finalmente Pequim começa agora a dar passos concretos no combate a essa praga.
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De ariam a 24.04.2016 às 14:10

"Mas - convicto ainda de ter apresentado uma sugestão que devia ter merecido luz verde nessa reunião de editores, há mais de uma década - interrogo-me: se só a tragédia e a catástrofe "vendem" por que motivo continuam a fechar tantos jornais?"

Eu responderia que parte de uma premissa errada, nem a tragédia vende, nem as boas notícias deixam de vender ;)
E, certamente, com 4299 caracteres, seria impossível eu conseguir explicar esse facto. Como resumir isso... posso tentar, mas sei que ficará muito incompleto.
Uma coisa é certa, tem tudo a ver com o caminho que estamos a seguir, onde não são precisos "transportadores" de notícias, vai ser Tudo transmitido ao nano segundo, uma espécie de "açorda", num total caos informativo, onde não haverá tempo, nem capacidade humana, para "digerir" tanta informação, o que, propositadamente, acabará por ser aproveitado, por aqueles que querem acabar com argumentações ou opiniões e, depois, basta "um número muito reduzido de pessoas, para passar uma informação "pré-digerida", em frases curtas, para não "cansar a cabecinha das pessoas" que, muito convenientemente, acabará por servir, apenas, uma minoria (muito específica).

Comece a pensar no Todo, em vez de se perder nos pormenores e verá que, presentemente, quase todas as mudanças, aqui ou noutros sectores, vão servir para uma completa concentração e centralização de poder que permitirá construir uma espécie de sociedade feudal, onde a tecnologia servirá, essencialmente, para nos transformar, a todos, num mero bit de informação que só será útil se, deixar de pensar e, "dos pés à cabeça" for um consumista, conformista obediente mas, sempre apontando para o mesmo lema, de que é um progresso, bom, inevitável e para o bem de "todos" onde, no final, tudo acabará, inevitavelmente, para o benefício de muito poucos.

Se pensar desta maneira, também compreenderá esta caminhada para que, a própria linguagem e a mera comunicação entre pessoas, seja reduzida no seu vocabulário que anda a ser, devidamente alterado e policiado o que não passa de uma escravização ao "Politicamente Correto".

Sejam jornalistas, taxistas ou quem quer que seja que comece a sentir os efeitos deste novo paradigma, precisam de se afastar dos seus próprios problemas e, imediatamente, conseguirão ver para além dos limites do pormenor para conseguir ver o problema a nível Global. (Não será, uma visão, para corações fracos ou "florzinhas de estufa"... e ainda agora, "a procissão vai no adro") ou um bocadinho mais à frente ;)

"Some even believe we are part of a secret cabal working against the best interests of the United States, characterizing my family and me as 'internationalists' and of conspiring with others around the world to build a more integrated global political and economic structure--one world, if you will. If that's the charge, I stand guilty, and I am proud of it.”
― David Rockefeller " David Rockefeller

“The supranational sovereignty of an intellectual elite and world bankers is surely preferable to the national auto-determination practiced in past centuries.”
― David Rockefeller, Memoirs

Se a soberania dos países não é importante, imagine, a importância de cada pessoa, para esta minoria... zero ou, apenas, consideradas dispensáveis e, quanto mais depressa, um maior número de pessoas, for substituída por avanços tecnológicos, melhor. Podem ter todo o dinheiro do mundo mas, empatia, nem deve constar do seu vocabulário. São apenas os donos do "rebanho" e, tudo passará a ser gerido como se fosse, uma mera quinta de pecuária mas, desta vez e, finalmente, vão acabar por conseguir que seja a nível global.
Até a China, está na última fase de entrar com a sua moeda, para o "cabaz de moedas do FMI", filhos de dirigentes chineses que, por convite (chamo comprar), já estão a trabalhar em grandes corporações internacionais... continuemos no "nosso soninho com sonhos doces" que, nós ou os nossos filhos, acabarão por acordar para o real pesadelo.
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De Pedro Correia a 24.04.2016 às 17:47

Nunca deixarei de indignar-me por ver as boas notícias varridas para debaixo do tapete - isto é, para os rodapés das páginas interiores, sem chamadas de capa.
Tudo com a ilusão de que só a desgraça "vende". Sem que se perceba isto: de tanto se viciarem só na transmissão das "más notícias", os jornais não tardarão a noticiar a sua própria extinção. Isto, aliás, já tem acontecido com muitos deles.
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De WW a 25.04.2016 às 23:04

Muito bom !
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De lucklucky a 24.04.2016 às 16:40

Fundamentalmente errado.

Para começar os tabloides são os jornais que mais "boas" notícias trazem. Poucas mas trazem mais do que os outros. Aliás muito criticados por anestesiarem as pessoas.

Os jornais de"referência" obviamente não podem trazer notícias boas, os jornais de referência são jornais políticos.
Existem para criar e defender a politização da vida humana, a dominação da política sobre todas as coisas.
A Política é a Religião que veio substituir o Cristianismo.

O que é que justifica a necessiadade política? O que é que justifica o poder da política sobre todas as coisas :
Coisas más.

Os jornais e os jornalistas são instrumentais na passagem da Democracia/Republica à Democracia Totalitária.

Por exemplo as notícia que há hoje mais obesos que pessoas subnutridas pela primeira vez na humanidade nem sequer foi celebrada como algo bom.
Se há pouca fome no mundo é óbvio que haverá sempre mais obesidade.

Obviamente porque os governos, a Política não é responsável pela alimentação das pessoas. É o mercado. Ou seja todos nós. E isso é mau para os jornais que existem para fazer o proselitismo da politica.

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De Pedro Correia a 24.04.2016 às 18:21

Não ponho em causa os tablóides. É uma forma de fazer jornalismo como qualquer outra. Há aliás imprensa tablóide que é excelente o seu género - que requer requisitos técnicos muito específicos. E só é fácil na aparência.
Critico, isso sim, uma visão tablóide da realidade, conferindo-lhe uma perspectiva unidimensional. Ou para ser mais preciso: a contaminação de toda a imprensa pelo tabloidismo. Em que tudo se contabiliza, por exemplo, pelo número de cadáveres. "Pingando sangue e pingando lágrima", como escrevia Nelson Rodrigues.
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De cristof a 24.04.2016 às 16:49

O ponto que gosto de destacar é a responsabilidade que cada um deve assumir, permanentemente, de que as conclusões do que lê e escuta cabem exclusivamente ao próprio . Pode ler tudo e mais um par de botas, mas o que faz com isso não é desculpado por nada; e como sabemos, ainda mantemos uma acusação preparada - eles também andam sempre a aproveitar-se da ignorância das pessoas! de certeza? ignorância? tenham dó.
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De Pedro Correia a 24.04.2016 às 18:22

Informação e formação nunca devem andar demasiado distantes. Quando uma passa sem a outra algo está muito mal.

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