Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Só com um pano encharcado

por Teresa Ribeiro, em 13.01.18

1510541236_194_metoo-movement-marches-on-hollywood

Sei dizer exactamente com que idade fui assediada pela primeira vez na rua. Tinha dez anos. Foi com essa idade que passei a ir sozinha para a escola, andava então na 4ª classe. No caminho tinha de passar por uma garagem e como era hora de almoço, apanhava sempre a mesma trupe a lagartear no passeio. Diariamente ouvia as piores ordinarices enquanto amedrontada apressava o passo, olhos no chão e coração a bater. Quando, décadas depois, comecei a notar que era menos assediada, estranhei. Será que afinal até gostava daquelas palavras gelatinosas que me chocavam em idade púbere? Ou das ordinarices que me enojavam quando, mais velha e expedita, já podia contabilizar anos de assédio de rua? Não. As mulheres não gostam de assédio, o que não apreciam é o que significa deixarem de ser assediadas. É da natureza humana (e não exclusivo da feminina) estabelecer associações complexas de causa-efeito. Deixar de ser assediada na rua é um dos muitos sinais que revelam a uma mulher que está a envelhecer e é isso que incomoda.

Quando, aos 12 anos, comecei a andar sozinha nos transportes públicos, a minha mãe disse-me: "Se um homem se encostar a ti, pisa-o com toda a força. É remédio santo". Também ela tinha ouvido esse conselho da minha avó e muitos anos depois foi a minha vez de o passar à minha filha (ao meu filho, como é óbvio, nunca precisei de fazer tais recomendações).

Sim, há uma corrente defensiva que se estabelece entre gerações de mulheres. Como poderia não haver, se vivemos num mundo que estigmatiza o sexo feminino? E porque são estas as circunstâncias de todas, repito, todas as mulheres (mesmo as que juram, enquanto lhes cresce o nariz, que nunca foram assediadas, na rua, no trabalho, em circunstância alguma, querendo com esse depoimento colocar-se acima de todas as outras parvas que se queixam "e que se calhar puseram-se a jeito, consentem, no íntimo gostam", mimetizando o discurso mais machista) espanta-me a pressa com que tantas correm em defesa dos homens, como se fossem eles as grandes vítimas da sociedade.

Quando se geram movimentos como o de Hollywood, logo aparecem as guardiãs do statuo quo a apontar a dedo os fundamentalismos que inevitavelmente surgem por arrasto, confundindo razões justas com folclore, conceitos como assédio e galanteio, relações sexuais consentidas com violação. Mais misóginas que os misóginos, colocam-se orgulhosamente à margem das causas femininas. E eu ao vê-las, lê-las e ouvi-las só penso no trabalho que foi para as sufragistas porem as mulheres a votar e o que custou às "fufas das líderes dos movimentos feministas" conseguir que as novas gerações de mulheres fossem tratadas como gente. Francamente, só com um pano encharcado!


78 comentários

Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 13.01.2018 às 13:40

Sempre me movimentei profissionalmente num mundo de homens. Não foi pera doce. Demorou algum tempo a conseguir afirmar-me pela competência, sistematicamente desvalorizada pela minha "condição de mulher".
Neste momento lideramos equipas de homens e mulheres, em funções que não eram sequer imagináveis há alguns anos a esta parte.
Piropos de parte a parte são coisa constante e aceite. Ao assédio, que o há, fazemos por nos antecipar às situações, que são esperadas porque os leopardos não mudam de pintas, e informamos as "caloiras" do que poderão eventualmente encontrar, disponibilizando-nos para ajudar e agir no que for preciso. Aí bastaria apenas querer. 80% , podia querer mas não quer, o que é de lamentar.
Quando tinha 11 anos, andava na Escola Preparatória de Paula Vicente. A cinco minutos a pé de casa era uma maravilha. Um belo dia um "homem" não me largou durante as horas que foram aqueles cinco minutos. Cheguei em casa a tremer e lavada em lágrimas. A minha mãe foi à escola. Afinal o "homem" era um miúdo de 12 anos , maior do que o meu pai, mas muito consciente do seu tamanho e muito chato. Nunca mais andou atrás de mim, mas sempre que me via dizia para todos ouvirem " ó Dulcinha, vai chamar a mãezinha". Nunca mais quis que a minha mãe lutasse a minhas batalhas, nem mesmo quando com16 anos os porcos barbudos do COPCON me faziam parar ( a mim e a outras colegas) para nos "revistar". Inenarrável...
Ainda assim, abomino histerismos e caças às bruxas.
Como costuma dizer-se, é preciso chamar os bois pelos nomes e não generalizar.


Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 13.01.2018 às 14:35

A minha madrinha foi apalpada pelos sem pelos da PIDE (isto porque na véspera da visita de Isabel II , o meu padrinho safou, da choldra, uns colegas de trabalho, que pelo simples facto de não serem pró-regime, eram postos a ferros enquanto durasse a visita de SMAR...para não estorvarem). Mas o meu padrinho sempre foi um bom conversador e partiu as costelas a um deles com uma barra de ferro....trabalhava na CP. Depois foi para França. Outros tempos outras modas.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 13.01.2018 às 16:41

...e ainda nem lhe contei da minha prima em 3º grau
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 14.01.2018 às 10:20

Pois Maria Dulce, para mim, "chamar os bois pelos nomes e não generalizar" é considerar que os "histerismos e caças às bruxas" são efeitos colaterais indesejáveis, que servem sobretudo a quem quer denegrir movimentos tão justos como o que se gerou em Hollywood.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 14.01.2018 às 10:51

Acho justíssimo o movimento que se gerou em Hollywood Teresa. Alguém muito corajoso denunciou o que muita gente calou e recalcou durante anos. Foi factualmente indiscutível de modo que nem o próprio ou os que se seguiram, puderam negar.
Actualmente e sem desmerecimento para o que vindo a suceder, penso que há muito joio no meio desse trigo. E a Teresa ha-de concordar que no calor dos acontecimentos, basta um apontar de dedo para "destruir" uma pessoa ou o trabalho de uma vida inteira. É por isso que não se pode generalizar. Em qualquer grande movimento de massas por uma causa , há sempre uma boa dose de histeria colectiva e a verdade sai muitas vezes a perder, porque nem sempre é preciso sê-lo, basta dizê-lo.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 14.01.2018 às 11:22

Claro, Maria Dulce. São os tais efeitos colaterais indesejáveis. E são indesejáveis, friso, sobretudo porque servem para desviar as atenções do que é importante. Num instante aproveitam-se deles para levar os incautos a confundir o que são críticas justas com histeria pura. Chego a pensar se esses incidentes não serão montados para descredibilizar os movimentos a que os associam..

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D