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Smartphone é grande!

por Teresa Ribeiro, em 13.04.18

satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski-13-

 

Todos os dias no metro encontro mulheres, homens, novos, velhos, de olhos postos no ecrã do smartphone. Mesmo quem está acompanhado baixa a cabeça e mergulha nas redes sociais, ou nos jogos, ou no youtube, ou no messenger alheado do que se passa à volta. Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano. O que me provoca estranheza não é a atitude individual, mas o facto de a ver replicada pela larga maioria das pessoas que ocupam as carruagens. Observada no colectivo remete-nos para a mise en scène religiosa: todos de cabeça baixa, como que em adoração, manietados por algo que os transcende e submete. Na mesma pose, provavelmente com as mesmas motivações. 

O artista polaco Pawel Kuczynski, que assina a imagem que destaquei, fez uma série brilhante de desenhos sobre esta nova religião que professamos. Pode vê-la aqui: https://www.boredpanda.com/satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski/.

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16 comentários

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De Anónimo a 13.04.2018 às 18:44

"Visto de fora este ainda me parece um cenário decalcado de um filme de ficção, apesar de ser já uma banalidade do quotidiano."

Também me faz confusão.
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De Anónimo a 13.04.2018 às 20:27

Exma Senhora
Presumindo que a entendo, comungo das suas preocupações.
Mas tenho esperança de que muitos apesar de tudo não "professem a religião". Sou um deles.
António Cabral
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De Teresa Ribeiro a 13.04.2018 às 22:00

Já somos dois. Felizmente para mim e para si.
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De João Campos a 14.04.2018 às 00:34

Não me choca, admito. Quando fazia percursos mais longos de autocarro ou de metro entre casa e a universidade ou o trabalho costumava ler, mas actualmente o meu percurso de 5-10 minutos no 716 ou no 726 não justificam o esforço. O telemóvel ajuda: não só substitui um relógio e um leitor de mp3 (antigamente tínhamos os walkman e os discman, muito menos práticos) como ainda dá acesso a notícias, a leitura, a entretenimento fácil, sem grandes requisitos de espaço. Convenhamos que em percursos pendulares o interesse pela paisagem esgota-se numa semana, e as conversas com estranhos raramente se proporcionam, pelo que entre olhar para o vazio ou olhar para um feed de notícias ou para um chat...
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De Teresa Ribeiro a 14.04.2018 às 15:11

Nos percursos pendulares também trago sempre algo para me distrair: livro, jornal e claro, também espreito o smartphone. Mas é da uniformização que falo. Impressiona-me este monolitismo. Todos a olhar para o mesmo objecto que seguram nas mãos, como se mais nada existisse. Afinal somos nós que temos smartphones ou são os smartphones que nos têm? É nisso que penso muitas vezes...
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De Anónimo a 14.04.2018 às 18:23

A questão é que o objecto é apenas isso - o uso que se lhe dá pode ser bastante distinto. Nos autocarros vê-se de tudo: há quem faça scroll down no facebook ou no instagram; há quem se entretenha com videojogos (e só aqui as possibilidades são vastas); há quem leia notícias; há quem leia contos (faço-o de vez em quando, é bastante prático); há quem leia as banalidades de páginas de redes sociais; há quem partilhe "memes"; há quem partilhe fotografias da família ou de amigos. Enfim, percebes a ideia. O smartphone resultou porque permite fazer isto tudo - as suas funcionalidades chegam para pessoas bastante diferentes.

Dito de outra forma: parece que está toda a gente a fazer a mesma coisa, mas cada pessoa se calhar está a fazer a sua coisa. O objecto que permite a cada um fazer a sua coisa é que é idêntico.
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De João Campos a 14.04.2018 às 18:25

(tenho MESMO de passar a confirmar que o browser tem o meu registo antes de fazer comentários)
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De Teresa Ribeiro a 16.04.2018 às 11:30

Repara, João, que eu no texto refiro que as pessoas estão a fazer coisas diferentes no telemóvel. E nota, não nego as vantagens da tecnologia, nomeadamente do smartphone, objecto de que não prescindo. Mas é a uniformização de atitudes que me impressiona, porque se me afigura como o símbolo de uma cultura que se instalou e que tem aspectos nefandos que me inquietam. Como sabes, já há muitos jovens (os que nasceram já neste ambiente) que dizem que preferem encontros online aos presenciais. Já é banal ver-se casais em restaurantes e esplanadas, lado a lado, mas com os olhos no telemóvel. Há gente que estando em grupo, isola-se com o telemóvel na mão. Não pode ser saudável este mergulho constante no mundo virtual, preencher todos os minutos assim.
Percebo o que dizes, mas o teu foco é diferente. Falas do que a tecnologia nos proporciona. Eu, dos seus efeitos no nosso comportamento em sociedade.
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De Sarin a 14.04.2018 às 00:45

Não troco o cheiro e o som de páginas novas a desnudarem-se aos meus olhos, não abdico da suavidade de livros velhos quase desfolhados de ternura.

E não percebo outra ligação a quem está ao lado que não pelo olhar, pela linguagem universal do gesto ou pela menos universal fala.


Mas... o telemóvel é uma ferramenta, religião serão as possibilidades que abre em si mesmo, abrindo-nos e fechando-nos aos outros. Para alguns será o contornar da timidez, o evitar falar com o outro; para uns será o afastar da solidão, o poder estar com o outro; para outros será o evitar estar consigo, o poder fingir ser outro.
E quem não está não é menos real - no meio de anónimos de olhares furtivos ou esquivos quase não há olhares francos, e os poucos sorrisos são quase todos de circunstância - má circunstância por ter sido apanhado "e lá vem conversa, bolas". Já era assim antes dos smartphone, dos telemóveis, dos pager, dos walkman.

Imersa num livro, oro horas a fio ao frio ou ao calor. E quanto mais me afundo mais flutuo, ignorante de quem me rodeia, incomodada por quem me aborda.
Nunca me irritei por me interromperem o uso do smartphone; já rosnei por me desviarem do livro.


A culpa da desconexão presencial não é do smartphone mas dos mesmos de sempre: nós.
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De Teresa Ribeiro a 14.04.2018 às 15:19

Sarin, não nego: o telemóvel é uma ferramenta de trabalho importante. Se o esqueço em casa, fico logo em stress. Abre-nos aos outros? Acho discutível, mas que nos fecha aos outros, não duvido.
A desconexão presencial é, naturalmente, opção nossa, mas na minha opinião tem sido dramaticamente acentuada por esta cultura que se deixou capturar pela tecnologia.
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De Sarin a 14.04.2018 às 15:50

Abre-nos aos outros porque nos aproxima de quem temos longe, do que temos longe.
Fecha-nos aos outros porque, fixados no longe, não atentamos nem colaboramos no que nos rodeia e perdemos o pulso ao quotidiano.

Teresa, abomino estar com amigos ou conhecidos e ver a conversa interrompida por um "estou" não urgente. Incomoda-me estar na esplanada e ouvir crianças a rir dos desenhos que animam o telemóvel, os balouços ali abanados pelo vento. Abomino, incomoda-me e recuso a dependência. Da mesma maneira que abomino folhear revistas gastas em salas de espera e emerjo para a consulta de um telemóvel que me permite distrair ou trabalhar naqueles 2 minutos ou 2 horas de espera. Porque a conversa nem sempre apetece ou nem sempre merece, o tempo não nos pertence, a mala pesa... e eu sempre gostei de canivetes suíços. Livros só levo quando antecipo a demora, portátil idem :)

A tecnologia deve servir-nos, não a inversa. E este é um valor fundamental - que fundamentalmente esquecido por muitos, concordo.
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De Teresa Ribeiro a 16.04.2018 às 11:14

Então, Sarin, no fundamental estamos de acordo
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De Sarin a 16.04.2018 às 11:36

Parcialmente em parte, sem dúvida :)
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De Anónimo a 14.04.2018 às 16:32

A ideia é conexão total.
Carne nunca mais.
Enquanto,não se arranja um pastelinho de bacalhau sem queijo?
Outro,duas taças.
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De Anónimo a 19.04.2018 às 05:15

O problema mesmo, é quando alguém usa o telemóvel/smartfone a vasculhar corpos humano pelo interior, para escrever livros, para imaginar filmes de ficção científica ou de animação, ou simplesmente para se divertir, a fim ,de até poder levar alguém à morte, se a pessoa não tiver força anímica com ela , não tiver um interior bem forte e resista...
Garanto, eu -Já se fazem estas aplicações! Os smartfones , para quem é lunático e quer governar o mundo, são armas assassinas.
Estou a comentar ás 4he 30 da madrugada, apontada por um , ou mesmo dois...- Quem o faz? Gente bem entre nós , bem popular, gente da nossa praça culta!

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