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Ser saloio

por Diogo Noivo, em 08.07.19

Em miúdo sempre me fez confusão ouvir o meu pai dizer que era saloio. Ainda para mais porque o dizia com algum orgulho. Referia-se, percebi anos mais tarde, ao facto de ser natural de Santa Iria da Azóia. Recordei o significado benigno da palavra a propósito de um texto que Ferreira Fernandes publicou hoje no Diário de Notícias.

Comecemos pelo princípio. A historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicou um artigo de opinião com laivos de racismo no jornal Público este fim-de-semana. Igualmente grave, pelo menos na óptica de um espaço de opinião, escreveu um texto cujos argumentos são francamente débeis e desadequados para sustentar uma opinião perfeitamente atendível – a saber, a oposição à criação de quotas para minorias étnicas. Não gostei do texto. Não o subscrevo.

Hoje, no Diário de Notícias, Ferreira Fernandes enfatiza o racismo do texto de Bonifácio. Mais, Ferreira Fernandes recorre ao seu percurso de vida para evidenciar a fragilidade dos argumentos da historiadora. Defende, contudo, o jornal onde a opinião foi publicada, lembrando os leitores que sem o Público seríamos “uns saloios”. Avocando a minha costela saloia, é aqui que a porca torce o rabo.

Não me custa nada admitir que a leitura do Público foi parte importante dos meus anos formativos. Acontece, porém, que o Público dos meus tempos de faculdade desapareceu. A secção de Internacional forte, bem informada e bem escrita mirrou, desinformou-se e é actualmente quase um pro forma nas páginas do jornal. As ‘causas’ e o cosmopolitismo do Público, que sempre apreciei, sustinham-se em argumentos, mas hoje sustêm-se em militância. São opções legítimas, mas é um jornal diferente, mais saloio.

Porventura a maior prova dessa diferença é o editorial assinado por Manuel Carvalho. Além de demonstrar arrependimento pela publicação do artigo de Maria de Fátima Bonifácio, Carvalho afirma que “as reacções e episódios associados a esta polémica obrigam-nos a reforçar os critérios de exigência e selectividade”. E aqui reside o verdadeiro problema. Os arrependimentos são legítimos – que atire a primeira pedra quem não os tem –, mas subordinar o rumo do jornal a “reacções” e “episódios” não se coaduna com um periódico que pretende converter saloios em gente informada. É navegação de cabotagem.

Gosto de Manuel Carvalho e ainda mais de Ferreira Fernandes. E de Maria de Fátima Bonifácio também. Leio-os sempre, mesmo quando discordo do que defendem – o que acontece com alguma frequência. Jamais em circunstância alguma, mesmo perante textos escabrosos e tontos, apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”. Penso desta forma por várias razões, entre as quais ter lido o Público nos meus anos de faculdade. Mas esse Público desapareceu e esta polémica com Maria de Fátima Bonifácio é prova disso. O meu pai é saloio, eu tenho uma costela saloia, não nos livramos disso.  O Público é saloio por opção.

 

ADENDA: muito recomendável a leitura do ‘postal’ do José Pimentel Teixeira aqui, no DELITO, sobre o mesmo assunto.

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12 comentários

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De Vorph Valknut a 08.07.2019 às 12:36

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De Justiniano a 08.07.2019 às 14:34

Nem uma vírgula a mais!!
Bem haja,
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De jpt a 08.07.2019 às 15:28

Um abraço saloio
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De Desconhecido Alfacinha a 08.07.2019 às 15:55

Parabéns Diogo!
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De Tiro ao Alvo a 08.07.2019 às 16:59

" (...) apoiarei qualquer tentativa de censura, sobretudo se fundada em “reacções” e em “episódios”.
Não será que distraiu e que queria dizer o conttrário?
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De LuizM a 08.07.2019 às 21:03

"...Jamais...[...] apoiarei..."
Convém ler e... ler bem.
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De Tiro ao Alvo a 08.07.2019 às 17:03

Reli o seu texto e vejo que escreveu bem. Eu é que li cruzado e não captei a sua ideia correctamente. Desculpe.
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De Anónimo a 08.07.2019 às 18:07

Neste blog existe sempre alguém que analisa e exprime correctamente o que pensa.

Parabéns !

A.Vieira
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De Anónimo a 08.07.2019 às 21:31

O curioso do texto de Ferreira Fernandes é que termina um artigo supostamente contra o racismo usando o termo saloio como se fosse pejorativo.

Ora, diz-se que os saloios (também como eu) são descendentes de mouros que viviam nos arredores de Lisboa aquando da conquista da cidade por D. Afonso Henriques e que por lá ficaram.

A palavra mantém-se "insultuosa" passados quase mil anos. Usando a mesma lógica, não será isto racismo também?

David
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De V. a 08.07.2019 às 23:34

Alguém diga ao estúpido do FF que escolher alguém por causa da cor da pele é que é racismo. Discriminação positiva é racismo - e não fazer uma merda de um artigo de opinião contra isso. É este o assunto.

Para haver verdadeira igualdade, um preto ou um cigano deve ser tão prejudicado como todos nós que não temos amigos na política e não temos como pagar a renda.
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De Arlety Pin a 10.07.2019 às 19:43

Moral de toda esta triste história:

1) "La Bonifácio" resolveu dar uma de Ana Gomes (a valentona que diz todas as "verdades" - na opinião dela - doa a quem doer) e acabou por fazer figura de parva e levar na cabeça.

2) "El Pena Pires" e "el Ferreira Fernandes" apenas vieram demonstrar que de boas intenções está o Inferno cheio e que quando se defende alguma coisa, não por convicção mas apenas porque parece bem, a emenda acaba por ser pior que o soneto.

3) E as agrestes palavras do comentadeiro "el V." apenas vieram demonstrar que estas cenas maradas das quotas e da discriminação positiva, apenas servem para dar munição aos racistas e seus derivados que, agora, vão passar a dizer que todos os negros ou ciganos competentes e bem sucedidos - que existem, por incrível que pareça a alguns... - devem esse sucesso apenas às tais quotas e não aos seu próprio mérito.
Enfim, vidas...
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De V. a 11.07.2019 às 19:56

No meu planeta só existem pessoas: i.e. cidadãos registados num determinado buraco com os mesmos direitos mas sobretudo os mesmos deveres. E ou cumprem os seus deveres ou vão prá pildra (ou melhor ainda, deportem-nos para o Brasil).

Quando começam a jogar a cartada das cores e do género e do raio que o parta para obter subsídios e privilégios fico logo eriçado. A igualdade já existe na Lei e é a única que pode existir. Quanto ao resto VTPróC.

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